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sábado, 5 de fevereiro de 2011

No plano dos interesses eclesiásticos, esta «crise» do capitalismo é francamente animadora

As «crises» e as «concordatas»
Por Jorge Messias


No plano dos interesses eclesiásticos, esta «crise» do capitalismo é francamente animadora. Os cortes financeiros esmagam os mais pobres mas representam também um alto poleiro para as grandes fortunas e para os mercados e grupos económicos onde o Vaticano tem muito dinheiro metido. Abrem-se novas oportunidades para o rejuvenescimento das gerações de servidores do grande capital, a maior parte deles formados em colégios e institutos católicos. Alteram-se favoravelmente as estruturas das camadas sociais dominantes, com claros benefícios para a Igreja e para a «sociedade civil». Se não durar tempo demasiado, a «crise» será um mal menor, suscitará novas alianças, criará outras oportunidades e dará uma outra imagem do poder político. Mas a crise tem de ser sabiamente gerida.

Na penumbra dos silêncios oficiais, os tecnocratas do altar rejubilam. Há biliões e biliões em jogo. Milhões de seres vagueiam, disponíveis, sem destino certo e definido. Grandes fortunas, banqueiros, especuladores e accionistas, investidores, políticos, aventureiros, homens sem escrúpulos mas com ambição, marginalizados, migrantes – toda uma multidão imensa e dispersa corre de país em país, de nação em nação, em busca da sua sorte e de um lugar ao sol. São nómadas que podem vir a constituir o embrião de uma «Nova Ordem» capitalista e confessional. A situação mundial parece talhada à medida das ambições da Igreja.

No microcosmos português todo este panorama se projecta nitidamente, ponto por ponto. O poder é corrupto, os políticos mentirosos e a «sociedade civil» uma ficção. A independência nacional é uma balela que serve para embalar os ingénuos.

Veja-se só como os ministros pulam de capelinha em capelinha para juntarem o dinheiro com que correm a salvar os bancos falidos, a subsidiar acordos secretos e a satisfazer clientelas institucionais. Os governos limitam-se a cumprir as ordens recebidas das centrais capitalistas mundiais.

A Igreja católica portuguesa, «guia moral» da nação, assiste e cala-se, soma e segue. Considera-se ao abrigo de todas as suspeitas. Faz tudo quanto for necessário para garantir a unidade táctica da direita política. E põe sistematicamente em prática um plano consistente de projectos e ambições. A sua posição privilegiada está defendida pela couraça legal (?) de uma Concordata com a Santa Sé firmada com o regime fascista em 1940 e «actualizada» em 2004 por um executivo que se auto-denominava «democrata». É um texto sem dúvida importante, uma moldura jurídica das relações Igreja/Estado mas que nem por isso faz esquecer aspectos básicos omitidos, como a questão da fiscalização das contas eclesiásticas ou o quadro emaranhado das relações legais do episcopado com a banca, os off shores, as fundações, as lotarias, os investimentos nas bolsas e nos «mercados» – enfim ! – o mundo mudo e surdo por onde se escoam torrentes do dinheiro que falta depois ao «combate à pobreza», à Segurança Social ou a sectores essenciais da vida do povo português.

A área da acção social constitui para a hierarquia católica uma espécie de laboratório experimental das suas teses. Se a parceria políticos/banqueiros gera a injustiça e a exploração, à Igreja convirá apagar todas as pistas das relações políticas e sociais que com esses parceiros mantém. Depois, no passo seguinte, constrói-se a nova ficção do «combate à pobreza», dos valores da caridade cristã, da resignação e da multidão de esfomeados capazes de a si próprios se organizarem na luta. Surgem os «iluminados», os «leigos voluntários» que aparentemente sobrevivem pela fé e os «condutores de homens» que pastoreiam a «sociedade civil». Em breve o «milagre» acontece. Estruturas antigas e bem enraizadas como as misericórdias ou as instituições não lucrativas «convertem-se» aos novos ideais civis. Os capitais necessários para financiar a acção surgem naturalmente dos bolsos dos banqueiros solidários com o povo encorajados pelos políticos, afinal injustamente acusados até ali de corrupção.

Em Portugal, este eventual prodígio miraculoso não pertence ao reino da fantasia. Vem a caminho. Trata-se de aumentar a pobreza, combatendo-a. De destruir a democracia, defendendo-a. E de unir os explorados, desunindo-os.

É bom que despertemos para estes perigos e os combatamos, desde já ! Não são de agora. Eles foram largamente promovidos no passado, no tempo das Cruzadas, também quando se elaborou o pensamento jesuíta ou quando a «democracia cristã» abriu caminho à escalada para o poder das hordas fascistas.   

Texto original no Jornal Avante em http://avante.pt/pt/1940/argumentos/112394/

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