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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Ressuscita-me

Ressuscita-me
ESCRITO POR JUSTINO DE SOUSA JUNIOR 


"A hedionda imagem expõe uma aberração absolutamente impublicável e um ódio sem medida que só pode brotar de uma alma necrosada, apodrecida. Só a insanidade e/ou a mais completa ignorância podem justificar tamanha falta de senso. Não terão sido suficientes as lições deixadas por terríveis experiências de violências, de tortura, escravidão e extermínio, de campos de concentração e dizimação de povos e comunidades inteiros que deixaram na história caudalosos rastros de sangue?

Pois bem, o que poderia justificar a manifestação do cartaz? Ora, os governos petistas não fizeram nada demais, jamais ameaçaram os ricos, jamais questionaram a origem de suas riquezas e de seu poder, jamais indagaram sobre seus métodos de governar, ao contrário, procuraram se associar de maneira subalterna a eles, prestimosamente se ofereceram para colaborar com eles, trabalhar para eles, gerenciar seus negócios através de zelosa administração do Estado brasileiro.

Os governos petistas passaram longe de poderem ser caracterizados como governos populares, não fizeram nem ameaçaram fazer reformas sociais; cooptaram, desmobilizaram e enfraqueceram politicamente os setores mais organizados; desarmaram política e ideologicamente os trabalhadores."

Houve um tempo, não muito distante, em que cabelos brancos indicavam amadurecimento, razoável capacidade de discernimento, responsabilidade, respeito. A frase da canção de Nelson Gonçalves: "respeite ao menos meus cabelos brancos", ilustra bem essa relação. De maneira que não é menos do que aterrorizador ver essa imagem, que traz um cartaz no qual se lamenta que a atual presidente do Brasil não tenha sido “enforcada” (como foi o destino de Herzog e de outros muitos) pelo regime militar e por sobre o qual sobressaem os cabelinhos brancos de um vovô ou de uma vovó, como dizia Marx, em “odor de santidade”.

A hedionda imagem expõe uma aberração absolutamente impublicável e um ódio sem medida que só pode brotar de uma alma necrosada, apodrecida. Só a insanidade e/ou a mais completa ignorância podem justificar tamanha falta de senso. Não terão sido suficientes as lições deixadas por terríveis experiências de violências, de tortura, escravidão e extermínio, de campos de concentração e dizimação de povos e comunidades inteiros que deixaram na história caudalosos rastros de sangue?

Pois bem, o que poderia justificar a manifestação do cartaz? Ora, os governos petistas não fizeram nada demais, jamais ameaçaram os ricos, jamais questionaram a origem de suas riquezas e de seu poder, jamais indagaram sobre seus métodos de governar, ao contrário, procuraram se associar de maneira subalterna a eles, prestimosamente se ofereceram para colaborar com eles, trabalhar para eles, gerenciar seus negócios através de zelosa administração do Estado brasileiro.

A trapaça das agências reguladoras

A BATOTA DOS REGULADORES

"Há reguladores para tudo e depois, vai-se a ver, são tantos que pouco ou nada regulam e, quando o fazem, mais valia que estivessem quietos."

"Porque os reguladores, por definição do próprio regime em que vivemos, a que alguns têm a ousadia de chamar democracia, são fogos-fátuos, miragem para entreter cidadão, sinecuras para clientelas do arco da governação amealharem mais uns cobres do erário público"

"Não será novidade escrever que uma das grandes virtudes proclamadas por todos os governos que, a diversas velocidades, vão destruindo países e demonstrando que a União Europeia nunca foi mais do que conversa para os ricos ficarem mais ricos, é a “desregulação”. Desregulação da economia, desregulação do mercado de trabalho, desregulação da comunicação social, desregulação das viagens aéreas, dos caminhos-de-ferro, do sector bancário, da energia. Desregulação, enfim, de tudo o que seja bom negócio privado e que ainda permaneça nas indignas manápulas do Estado, o qual, por definição, deveria ser de nós todos."

Algumas das mais ilustres explicações sobre o que se vai passando nos nossos quotidianos, intra ou extra-fronteiras, são remetidas para “os reguladores”. Os reguladores são, por isso, uma espécie de juízes, árbitros, ou mesmo deuses que determinam se os mecanismos que fazem funcionar a sociedade são aplicados segundo os parâmetros não propriamente das leis mas sim dos equilíbrios que, segundo os reguladores, devem existir.

Há reguladores para tudo e depois, vai-se a ver, são tantos que pouco ou nada regulam e, quando o fazem, mais valia que estivessem quietos.

O Banco de Portugal, por exemplo, deixou de ser banco central e passou a “regulador”. Depois existem reguladores para a concorrência, a energia, a saúde, a comunicação social (valha-nos Deus!), a bolsa de valores, os combustíveis e o mais que descubram na vossa memória e pesquisem nas boas falas de analistas, colunistas, comentadores, moderadores e outros querubins do regime.

Mão de obra escrava nos cárceres dos Estados Unidos

Mão de obra escrava nos cárceres dos Estados Unidos
por Anahi Rubin/Resumen Latinoamericano/Telesur


"A esta altura da nota, o leitor se perguntará como estas corporações obtém tanto dinheiro. Como qualquer outro negócio, necessitam “clientes” que povoem as prisões. 50% provêm dos consumidores e vendedores de entorpecentes e outra grande porcentagem é formada por imigrantes sem documentação – 400.000 são detidos por ano. O Congresso formulou uma cota que requer que o Departamento de Segurança Interna assegure 34.000 pessoas por dia nos centros de detenções por violações migratórias.

Além de pessoas que ocupem os cárceres, precisam de políticos que aprovem leis para promover todos estes encarceramentos. Como retribuição, os ditos políticos recebem milhões de dólares. Por outra parte, os estados se comprometem para que as prisões privadas tenham entre 95 e 100% de ocupação; se a meta não é cumprida, o estado tem que pagar."

Os Estados Unidos possuem 2.300.000 pessoas privadas de liberdade, a população carcerária mais extensa do mundo. Com apenas 5% da população mundial, este país tem 25% dos presos do mundo.

Centro do capitalismo mundial, sabe muito bem como usufruir e aumentar a mais valia a seu nível máximo. Trabalhos com baixos salários, profissionais que trabalham sem benefícios, pessoas sem documentos submetidas a todo tipo de explorações formam parte do dia a dia.

O que muita gente não sabe e os grandes meios ocultam é a nova forma de exploração, que é exercida sobre pessoas reclusas nas prisões deste país.

Com a mudança das leis nos anos 80, a punição e a reclusão por uso e venda de drogas foram recrudescidas, fazendo com que o número de prisioneiros encarcerados por estas causas aumentasse em 11%. Assim, as prisões federais viram cheias a sua capacidade, dando desculpas para o surgimento da abertura de prisões privadas e, com isto, a explosão de um dos negócios mais rentáveis dos últimos anos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Arca de Noé da direita americana

O boçal e fascista Trump
Arca de Noé da direita americana
por António santos

" Há uma semana, à margem do primeiro debate entre os candidatos republicanos, o multimilionário explicou de forma gráfica e obscena que a «agressividade» da jornalista que moderou o debate era consequência da menstruação. Já esta semana, Donald Trump foi ainda mais além e prometeu não só expulsar todos os cinco milhões de imigrantes indocumentados mas deportar também os filhos, nascidos em território americano. Confrontado com a inconstitucionalidade de deportar cidadãos estado-unidenses, Trump admitiu o propósito de rever a Constituição. Uma e outra vez, Trump aumentou a vantagem sobre os outros candidatos republicanos.
Trump não é estúpido e sabe que, neste momento, a certeza da sua vitória nas primárias republicanas é proporcional à dimensão da sua derrota como eventual candidato presidencial. O que está em causa com a radicalização do debate republicano é a natureza da resposta que a classe dominante prepara à crise do capitalismo. Mais do que um bizarro adereço mediático, junto do grande capital, Trump surge como a experiência social do fascismo cuja utilidade dependeria de um monstruoso recrudescimento da agressão imperialista no mundo ou de uma explosão social na luta dos afro-americanos."

Ao avesso do tradicional ramerrão eleitoral da direita portuguesa que, de quatro em quatro anos, modera o discurso dos mais empedernidos candidatos conservadores, a antecipação do escrutínio presidencial estado-unidense está a dar azo a uma invulgar competição de reaccionarismo entre os dirigentes do Partido Republicano.

A era das guerras imperiais

O Imperador estadunidense em seu trono.
A era das guerras imperiais
– Das guerras regionais, às "mudança de regime" e à guerra global
por James Petras

"Há infindáveis torrentes de refugiados de guerra a atravessarem fronteiras. Pessoas desesperadas são detidas, degradadas e criminalizadas por serem os sobreviventes e as vítimas de invasões imperiais. "

"A "capital da carnificina" real do hemisfério é o México. Mais de 100 mil pessoas foram assassinados durante a "guerra às drogas" apoiada pelos EUA que perdura há uma década – uma guerra que se tornou uma guerra patrocinada pelo estado contra o povo mexicano.

A guerra interna tem permitido ao governo mexicano privatizar e vender as jóias da coroa da economia nacional – a indústria petrolífera. Enquanto milhares de mexicanos são aterrorizados e massacrados, as companhias de petróleo dos EUA e da UE estão curiosamente blindadas em relação aos senhores da guerra. "

"Guerras regionais e locais propagam-se sob a sombra de uma guerra mundial que assoma. Os EUA movem suas armas, aviões, bases e operações para as fronteiras russa e chinesa.

Nunca tantas tropas e aviões de guerra estado-unidenses foram colocados em tantas localizações estratégicas, muitas vezes a menos de uma hora de viagem de grandes cidades russas. "

"As guerras imperiais dos EUA e da UE devastaram as vidas e condições de sustento de milhões de pessoas no Sul da Ásia, na África do Norte e ao Sul do Saara, na América Central, no México, no Balcãs e agora na Ucrânia.

Quatro milhões de refugiados sírios juntaram-se aos milhões de refugiados afegãos, paquistaneses, iraquianos, iemenitas, somalis, líbios, palestinos e sudaneses que fogem das bombas dos EUA-UE, dos drones e de mercenários ao seu serviços que devastam seus países. "

O ano de 2015 está a ser vivido em meio a grandes perigos. 

As guerras estão a propagar-se por todo o globo. 

As guerras estão a escalar quando novos países são bombardeados e os velhos são devastados com intensidade cada vez maior. 

O que é "a Esquerda"? Dez observações

Aldo Rebelo do PC do quê mesmo°?
O que é "a Esquerda"? Dez observações
por Antonis


" Porque a crise financeira do capitalismo torna extremamente estreitas as margens para satisfazer a reivindicação da "distribuição mais justa", "a Esquerda" não pode ter conteúdo económico que seja diferente daquele dos partidos burgueses em tais períodos. Ela pode adquirir um tal conteúdo só em períodos de desenvolvimento económico das taxas de acumulação capitalistas, sempre sob a condição prévia de que ela tenha na sua perspicácia meios de exercer pressão de modo a que lhe seja permitido aparecer como um "provedora" para a classe trabalhadora e como um "negociadora" no seu interesse. Mas a subversão do socialismo realmente existente significa que tais meios não existem, tanto durante crises financeiras como durante período de desenvolvimento capitalista. Consequentemente, não se pode esperar de "a Esquerda" vir a obter um conteúdo económico que a diferencie de qualquer formação política burguesa no futuro próximo. "
"Qualquer semelhança com o BE português e o PCdoB brasileiro não será coincidência"


1. Na Grécia, "a Esquerda" existe desde 1951, desde a fundação naquele ano da Esquerda Democrática Unida (EDA). Como categoria do pensamento político, no período anterior a 1950 não tinha significado no país. O "anarquismo" era muito mais importante como descritor da ideologia nos princípios do movimento operário grego do que "a Esquerda" – sem mencionar o significado, para uma política anti-burguesa, de expressões como "Bolchevismo" e "Terceira Internacional". Estruturalmente, a condição prévia para o nascimento de "a Esquerda" era a auto-censura da designação de um sector da população como "comunista" em consequência do terror de Estado. "A Esquerda" nasceu sob condições de repressão estatal, como uma troca de nomes defensiva, como uma pseudo-denominação com objetivos de auto-proteção. 

2. A derrota do Exército Democrático da Grécia (EDG), em combinação com o terror de estado e a repressão, também criaram as condições prévias para a pseudo-categoria de "a Esquerda" (como uma abstracção nominalista, ao invés de um designador concreto de uma tendência dentro de um partido socialista de trabalhadores – uma utilização com uma genealogia inteiramente diferente) adquirir o seu próprio significado substantivo. Ela criou, para dizer mais simplesmente, a possibilidade de uma secção dos comunistas fazerem realmente (e não apenas superficialmente) a transição para a "ideologia democrática", a qual nas condições da inabalável dominação capitalista significa necessariamente a transição para o lado da democracia burguesa. "A Esquerda" é o resultado da efectiva rendição de uma secção dos comunistas ao vitorioso estado burguês. 

TRANSFOBIA E TRAVESTICÍDIO: ALÉM DA SUPERFÍCIE

TRANSFOBIA E TRAVESTICÍDIO: ALÉM DA SUPERFÍCIE
por LGBT & COMUNISTA - PCB


"Compreender as formas particulares de opressão que esse sistema impõe a população de travestis, mulheres transexuais e homens trans permite não apenas um aprofundamento qualitativo na compreensão das relações capitalistas de gênero e suas conexões com a organização do trabalho, como também nos dá as ferramentas necessárias para traçar estratégias e táticas realmente eficazes de combate a essa opressão. Desvela, por exemplo, que as violências, agressões e assassinatos que nos assolam não são resolvíveis por meros dispositivos de punição ao agressor dos crimes já cometidos, assim como não se perpetuam apenas por uma “falta de empatia” decorrente de elementos culturais, mas são expressões de um conjunto mais complexo de vulnerabilidades que precisam ser pensadas articuladas e em conjunto. Esse olhar sistêmico nos dá um panorama mais estrutural de diretrizes de luta e explicita as reais necessidades que sustentam as reivindicações do movimento"

Nessa última semana, a violência contra travestis, mulheres transexuais e homens trans voltou a debate por conta da divulgação de um vídeo com o relato de agressão sofrida pela Viviany Beleboni, modelo travesti que ficou conhecida pela performance artística na Parada do Orgulho LGBT de 2015,em que desfilou crucificada no trio da ONG ABCD’S. Esse não foi o único caso de violência transfóbica que ganhou visibilidade em 2015: há poucos meses, foi à mídia o assassinato de Laura Vermont, travesti de 18 anos que foi linchada por cinco homens a caminho de casa e recebeu tiros da polícia que foi chamada para socorrê-la; mais cedo esse ano, teve repercussão internacional o caso da Verônica Bolina, travesti negra vítima de tortura policial que teve fotos suas, seminua e sob custódia policial, divulgadas na internet.

Esses casos, que chocam pela brutalidade e pelo explícito desrespeito à dignidade humana, são apenas fotografias da realidade de extrema precarização da vida de uma parcela marginalizada da classe trabalhadora. A ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais estima que a nossa expectativa de vida esteja em torno de 35 anos; no relatório Trans Murder Monitoring 2015, a TGEU (Transgender Europe) estima que 73%, no mundo todo, morrem antes de completar 40 anos e aponta o Brasil como o país com o maior número absoluto de assassinato de travestis e transexuais. Além das violações à integridade física, os casos de Laura e Verônica também ilustram a violência institucional e a negligência, o desamparo e mesmo a colaboração ativa dos aparatos do Estado frente à vulnerabilidade social de travestis, mulheres transexuais e homens trans.

A baixa expectativa de vida, no entanto, não se deve exclusivamente ao alto índice de violência, mas também à precariedade do acesso aos serviços regulares de saúde e à inexpressividade do atendime0nto a demandas específicas que sustenta, por exemplo, o nocivo uso de terapias hormonais por automedicação e tentativa e erro, a aplicação recorrente de silicone industrial por travestis e mulheres transexuais e os sérios problemas de saúde que os homens trans enfrentam pelo uso prolongado de faixas e coletes supressores dos seios.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Crime do imperialismo no coração da Europa

Crime do imperialismo no coração da Europa
por Rui Namorado Rosa

"Sob a direção do imperialismo norte-americano, com a cumplicidade interesseira de parceiros europeus, mormente Alemanha e França, com o concurso subversivo de redes criminosas, e mediante sucessivas intervenções militares ilegais (aéreas e terrestres) da força bruta da NATO"

"Este ano, para «celebração» do 20.º aniversário desse trágico episódio da longa guerra de desmembramento da República Federal Socialista da Jugoslávia, o ex-presidente dos Estados Unidos da América Bill Clinton – actor, promotor e decisor à época – atravessou o Atlântico até ao coração da Europa para participar – como compungido «histórico» líder político e moral – na «comemoração» do aniversário do massacre de Srebrenica (Bosnia-Herzegovina). Cena de teatro que procura escamotear os grossos interesses e os maiores crimes, e igualmente dissimular os seus mais altos responsáveis."

"O imperialismo não respeita os povos nem a verdade. É criminoso e mentiroso."

O desmembramento da República Federal Socialista da Jugoslávia foi um objectivo continuado do imperialismo desde 1990 até à sua «conclusão» em 2008. O que fora um país soberano e insubmisso, com recursos humanos e econômicos e posicionamento invejáveis, que resistira heroicamente e se libertara da agressão nazi-fascista ao longo e até ao fim vitorioso da II Guerra Mundial, um exemplo sucedido de organização federal de um complexo xadrez sócio-cultural, foi destroçado em sete estados diferentes e naturalmente mais frágeis no plano internacional.

Sob a direção do imperialismo norte-americano, com a cumplicidade interesseira de parceiros europeus, mormente Alemanha e França, com o concurso subversivo de redes criminosas, e mediante sucessivas intervenções militares ilegais (aéreas e terrestres) da força bruta da NATO – o que sucedeu então pela primeira vez e já posteriormente à dissolução do Pacto de Varsóvia! A justificação hipocritamente propagada era «culpa» das próprias vítimas, a sua diversidade étnica e religiosa, a procura e evolução do quadro constitucional do seu país, a acomodação das respectivas diferenças.

Para iludir quem foram e são os primeiros responsáveis pelos crimes cometidos contra a ordem internacional e contra os direitos humanos, no que mais do que guerra civil foi sobretudo uma agressão militar estrangeira arquitectada e prosseguida em grande escala, foi então constituído em 1993 pela ONU um certo ad hoc Tribunal Criminal Internacional para a Antiga Jugoslávia para julgar, não os agressores externos e o consequente aniquilamento da soberania de um estado membro da ONU, mas antes as partes nos diferendos internos – sinistra ironia. Depois, também para iludir o que de mais relevante esteve e está em causa, repetem-se rituais de evocar, louvar ou achincalhar atores ou incidentes internos daquele país.

Este ano, para «celebração» do 20.º aniversário desse trágico episódio da longa guerra de desmembramento da República Federal Socialista da Jugoslávia, o ex-presidente dos Estados Unidos da América Bill Clinton – actor, promotor e decisor à época – atravessou o Atlântico até ao coração da Europa para participar – como compungido «histórico» líder político e moral – na «comemoração» do aniversário do massacre de Srebrenica (Bosnia-Herzegovina). Cena de teatro que procura escamotear os grossos interesses e os maiores crimes, e igualmente dissimular os seus mais altos responsáveis.

Hiroxima e o Japão imperialista

Hiroxima e o Japão imperialista
por Albano Nunes


"Hoje os tambores da guerra, e com ela o perigo de hecatombe nuclear, voltam de novo a rufar. Com o fim da URSS desapareceu a força poderosa que obrigava o imperialismo a encolher as garras. A luta pelo desarmamento e pela paz tornou-se mais difícil. Mas nem por isso a guerra deve considerar-se inevitável. É certo que imperialismo e guerra andam de mãos dadas e que enquanto o sistema capitalista não for erradicado da face da terra os perigos de guerra subsistirão. Mas a história são as massas populares e a sua luta organizada que a escrevem e os comunistas nunca desistem da luta nem claudicam perante as dificuldades."


Há 70 anos o imperialismo norte-americano cometeu o maior crime de guerra que a História registra. O lançamento das bombas atômicas sobre Hiroxima e Nagasaki causando de imediato a morte de centenas de milhares de civis e deixando atrás de si um lastro de terríveis lesões e sofrimentos que ainda hoje perduram, é uma tragédia que jamais poderá ser esquecida, como esquecidos não podem ser os seus responsáveis. 

Foi um crime monstruoso que os EUA justificaram então e continuam a justificar hoje com o argumento de que assim obrigariam o Japão a render-se poupando um número incontável de vidas humanas. Trata-se de uma mentira sem nome. O Japão estava já praticamente derrotado. Terminada a II Guerra mundial na Europa o Exército Vermelho estava finalmente em condições, nos precisos termos do calendário acordado na Conferência de Ialta, de deslocar grande número de divisões para o teatro de guerra no Extremo Oriente e passar à ofensiva para esmagar o militarismo japonês.

Mas, por paradoxal que pareça, era isto precisamente o que os «aliados» imperialistas queriam evitar. Perante o imenso prestígio da URSS e o avanço das forças do progresso social, de libertação nacional e do socialismo – particularmente evidente na Ásia com as revoluções chinesa, vietnamita e coreana – os EUA passaram a afirmar sem escrúpulos a sua decisão de «conter o comunismo» por todos os meios, incluindo pela exibição do monopólio da arma atômica e a ameaça da sua utilização. Ainda a guerra não tinha acabado e já a principal potência imperialista desencadeava a «guerra-fria» no quadro da sua estratégia de confronto com o campo socialista e de domínio mundial. Foi a luta pelo progresso social e a paz e a conquista pela URSS da paridade militar estratégica que impediram o imperialismo de desencadear uma nova guerra de catastróficas dimensões.

Os sofrimentos do povo japonês com a guerra – além da tragédia de Hiroxima e Nagasaki, Tóquio e mais de duzentas cidades foram bombardeadas – levaram ao desenvolvimento no Japão de um poderoso movimento pela abolição da arma nuclear e à consagração na Constituição japonesa da renúncia ao militarismo e à guerra e a interdição do rearmamento do país. É por isso inquietante que, 70 anos depois do fim da 2.ª guerra mundial o imperialismo japonês, em aliança com os EUA, volte a proclamar perigosas ambições expansionistas e o governo reaccionário de Shinzo Abe, que aliás recusa reconhecer os terríveis crimes de guerra praticados (nomeadamente na China), leve ao Parlamento japonês um novo projecto de «lei de segurança», anticonstitucional, que permite usar a força militar contra outros povos.

Hoje os tambores da guerra, e com ela o perigo de hecatombe nuclear, voltam de novo a rufar. Com o fim da URSS desapareceu a força poderosa que obrigava o imperialismo a encolher as garras. A luta pelo desarmamento e pela paz tornou-se mais difícil. Mas nem por isso a guerra deve considerar-se inevitável. É certo que imperialismo e guerra andam de mãos dadas e que enquanto o sistema capitalista não for erradicado da face da terra os perigos de guerra subsistirão. Mas a história são as massas populares e a sua luta organizada que a escrevem e os comunistas nunca desistem da luta nem claudicam perante as dificuldades.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A crise grega, o desastre da chamada "esquerda radical" e as carpideiras neoreformistas no Brasil

A crise grega, o desastre da chamada "esquerda radical" e as carpideiras neoreformistas no Brasil
por Edmilson Costa

"No Brasil, há uma prostração generalizada. Praticamente, todos os agrupamentos de esquerda (à exceção do PCB, Partido Comunista Brasileiro) embarcaram na onda do SYRIZA e agora, cabisbaixos e envergonhados, tentam justificar suas posições e as próprias reviravoltas do SYRIZA. Outros passaram do apoio entusiasta à crítica aberta. Militantes do PT, para justificar a política de seu governo e num delírio histórico, dizem que o que ocorreu na Grécia não foi a rendição do SYRIZA, mas uma espécie de acordo de Brest-Litovski, no qual os bolcheviques foram obrigados a fazer concessões para salvar a revolução. Nas outras organizações instala-se a prostração generalizada, a tentativa envergonhada de justificar as medidas do SYRIZA como um mal menor, mas a verdade é que a derrota política do SYRIZA foi um banho de água fria no reformismo brasileiro. Outras correntes agora criticam o SYRIZA para salvar a pele, mas todos estavam entusiasmados e agora curtem a ressaca moral e política. "
As crises têm um significado profundamente pedagógico para as sociedades. Quanto maior a crise, mais se aproxima o momento da verdade para todos: Estado, governos, instituições públicas e privadas, partidos políticos, movimentos sociais. À medida em que a crise se acirra, vai-se fechando o espaço para o oportunismo, a demagogia, as manipulações, as meias verdades, as falsas promessas, as soluções de compromissos, os pactos sociais. A crise não permite que ninguém fique em cima do muro. Cada instituição ou liderança é obrigada a se mostrar por inteiro, dizer com voz alta o que pensa, expor-se à luz do sol sem proteção. 

As crises também são momentos em que chegam à superfície de maneira explícita todas as contradições da sociedade. As pessoas começam a perceber claramente aquilo que antes estava ofuscado pela manipulação dos meios de comunicação e pela viseira ideológica repetida de maneira contumaz pelas classes dirigentes. Outro grande ensinamento das crises também é o fato que nesses períodos os trabalhadores aprendem em dias de luta muito mais que em anos de calmaria, pois as manifestações, as greves, as batalhas nos locais de trabalho, nos bairros, nos locais de estudo e lazer ensinam muito mais que o aprendizado formal que obtiveram ao longo da vida. 

Além disso, as crises representam os períodos mais tensos da luta de classes. Nesses períodos, os atores envolvidos no processo não podem agir como jogadores de pôquer: nestes momentos não há espaço para blefes! Nesse sentido, a crise atual é tão grave, profunda e devastadora que não permite soluções de compromisso, como nos velhos tempos da social-democracia clássica, quando o crescimento do capitalismo nos anos dourados keynesiano possibilitava algumas vantagens para os trabalhadores em troca da colaboração de classe e da paz social. Agora, essa rota de fuga foi cortada pela gravidade da crise. Com a crise e a desaparição da âncora soviética, o capitalismo voltou a seu estuário original de rudeza explícita: exploração, miséria e pobreza. 

Psicopatas nazi-sionistas queimaram um bebê palestino! - Todo sionista é um potencial assassino psicopata sedento de sangue!

Colonos sionistas assassinaram um bebê palestino!
por Resumen Latinoamericano/Palestina Libre

"Israel é um país construído sobre mitos. E, evidentemente, não é o único. Nesse ponto, é muito parecido com seu patrono, os Estados Unidos. Para construir e manter um status mítico, uma nação deve criar uma imagem de si mesma, desde seu início, e passar essa imagem de geração em geração. A imagem criada pelos EUA é a de que o país é um farol da democracia e do capitalismo e que tudo o que faz em relação a sua política externa, mesmo quando em guerra, é sempre um feito altruísta. Para Israel, o mito é que o país é democrático e o último bastião de segurança para os judeus do mundo. Tudo que ele faz, mesmo quando isso equivale à expansão imperial, é feito em nome da defesa do Estado. 
Para manter esses mitos é preciso controlar a história. A história controlada deve ser ensinada nas escolas e apoiada pelas múltiplas mídias da nação. É preciso convencer uma população para que ela assimile a visão de mundo mítica a ponto de, se algo ocorrer que entre em contradição com essa visão, possa ser facilmente descartado como exceção à regra." partes do artigo publicado no HAARETZ
 
A raiva e a dor se espalharam pela Palestina, após o assassinato de um bebê queimado vivo e ferimento grave de seus pais e irmão em um ataque de supostos extremistas colonos na localidade de Duma, no norte da Cisjordânia.

“Mataram meus vizinhos, queimando-os. Não descarto uma Terceira Intifada”, disse à Efe Afsha Dawabsha, vizinha em Duma, concentrada junto com cinquenta mulheres próximas da família da vítima para chorá-los e mostrar seu apoio.

“Nós não somos agressivos e veja o que nos fizeram estes colonos violentos”, queixou-se.

Aproximadamente quinhentos homens da pequena localidade de três mil habitantes participaram da oração da mesquita ao meio-dia, antes de participarem do funeral de Alí Dawabsha, de um ano e meio de idade, cujos restos mortais ficaram carbonizados.

A casa do avô esteve durante toda a manhã rodeada de centenas de pessoas.

“Todo o povo despertou com os gritos. Estamos extremamente tristes e indignados”, disse à Efe no local Yaser Dawabsha, um dos primeiros a acordar e que correu para a casa. No entanto, quando chegou “o bebê já estava morto”.

“A única coisa que pude fazer foi desconectar o gás. A casa já estava totalmente queimada”, explicou angustiado.

domingo, 2 de agosto de 2015

A superação do anti-stalinismo

A superação do anti-stalinismo
uma importante condição para a reconstrução do movimento comunista enquanto movimento marxista-leninista unido (1994)
Documento retirado de www.kurt-gossweiler.de

Tradução do alemão de PG, revisão e edição de AN, 26.06.08



" desde o XX Congresso do PCUS que os processos de Moscovo podem servir como chave para o esclarecimento e decifração do que conduziu a União Soviética, outros países socialistas e o movimento comunista ao percurso difícil. Quanto à outra, a acção de Khruchov e Gorbatchov e os seus resultados demonstram que os processos de Moscovo não se trataram de uma encenação espectacular, mas sim que neles foram descobertos e frustrados complots do mesmo género dos que foram planeados com o mesmo fim e puderam ser finalmente conduzidos por Gorbatchov, porque já nenhum processo de Moscovo lhes pôs termo. "
"Se a descrição de Stáline como um déspota ávido de sangue e o «seu» regime como o inferno na terra serviram para paralisar a resistência contra a contra-revolução de Khruchov-Gorbatchov, a descrição de Stáline como um adulterador dos princípios leninistas aspirava ao desarmamento teórico e ideológico do movimento comunista e de todos os socialistas. A maior parte deste gênero de munições tem origem no arsenal do trotskismo."
"mantemo-nos – como Marx, Engels, Lénine e Stáline – firmemente no fundamento da luta de classes ou vamos – como os anti-stalinistas Khruchov, Gorbatchov e seus iguais – para o terreno da conciliação com o imperialismo? Esta é a questão, de cuja resposta depende o destino do movimento comunista. E como esta questão só pode ser correctamente respondida quando se eliminar o veneno revisionista em todas as suas manifestações, será preciso também vencer o anti-stalinismo nas suas fileiras."
Para os marxistas não é de forma nenhuma surpresa que o fim da União Soviética e dos estados europeus socialistas tenha trazido consigo o regresso da guerra à Europa e o início de uma ofensiva geral do capital contra a classe trabalhadora e todo o povo trabalhador. 

Esta brutal ofensiva do capital só pode ser rechaçada com uma defesa conjunta, unitária, de todos os atingidos. Só por isto é urgentemente necessária a reconstrução de um movimento comunista unido, já para não falar da tarefa de acabar com o domínio do imperialismo. Infelizmente, porém, o movimento comunista ainda está muito longe de ser um movimento unido. 

A mim, pelo menos, parece-me que o principal obstáculo à reconstrução da unidade dos comunistas reside menos nas diferenças de opinião sobre as tarefas do presente, do que nas opiniões contraditórias sobre a avaliação do carácter e da política dos países socialistas, em especial da União Soviética, no passado. 

Alguns estão convictos de que a URSS e os outros países socialistas da Europa (excluindo a Albânia) não eram países socialistas desde o XX Congresso, mas sim países capitalistas de Estado e consideram como revisionistas todos os que não concordam com este ponto de vista, com os quais não pode haver nada em comum. 

Outros – como lhes tem sido contado desde o XX Congresso e desde Gorbatchov com crescente intensidade – vêem em Stáline o destruidor do socialismo, por isso declaram que com os «stalinistas» não pode haver nada em comum. 

Assata Shakur, da prisão nos EUA, às conquistas sociais e à liberdade em Cuba

Assata Shakur, da prisão nos EUA, às conquistas sociais e à liberdade em Cuba
Por Ramón Pedregal Casanova, Resumen Latinoamericano.


“O imperialismo é um sistema de exploração internacional e nós, como revolucionários, devemos ser internacionalistas para derrotá-lo.”
"Negros del continente, al Nuevo Mundo
habéis dado la sal que le faltaba:
sin negros no respiran los tambores
y sin negros no suenan las guitarras.” 
(“Bailando con los negros”, del libro “Canción de gesta”, de Pablo Neruda.


O negócio carcerário nos EUA se alimenta, sobretudo, da população negra e latina. É um negócio empresarial do capitalismo, negócio da minoria privatista. Se antes o negócio era a captura de africanos e africanas para vendê-los, hoje os mesmos são capturados nos EUA para que o regime estadunidense pague com o dinheiro do Estado os empresários carcerários por cada afro-americano ou latino que os corpos de polícia capturam. Depois, os negros e as negras aprisionados terão que trabalhar. Na prisão, trabalham como escravos para empresas capitalistas que levam o fruto de seu trabalho. Lembra muito o que fazia o franquismo, a ditadura na Espanha, com os presos políticos republicanos.

O objetivo com a repressão permanente sobre a população negra é isolá-la e submetê-la. Os brancos racistas controlam o aparato do regime estadunidense e um de seus numerosos braços desde os anos 70 do século XX é o FBI, centro de controle e terrorismo sobre a população negra, cujo objetivo prioritário até então foi Martin Luther King, seguido por “milhares de ativistas por direitos civis menos proeminentes”. Tudo isto aparece no “informe do Comitê Church, do Comitê Seleto do Senado para o Estudo das Operações Governamentais e pelo Subcomitê de Inteligência Interior”, que se empenhavam “contra os direitos civis e humanos de todo tipo de ativistas políticos e, de maneira muito particular, dos de raça negra”.

Assim, forjou-se a perseguição às pessoas afro-americanas, levando Assata Shakur a integrar-se às Panteras Negras. Até então, Shakur precisou fazer o caminho crescente do conhecimento, partindo da ignorância causada pelo domínio racista sobre o conjunto social.

Em sua biografia, descobre tanto o tratamento diário dado pelos brancos desde a escola primária aos negros e quanto à assimilação destes. Nele, possui grande peso a explicação histórica como uma enganação de grandes dimensões. Na adolescência, começa a desmistificação de personagens como Elvis Presley, que declarava “que a única coisa que uma pessoa negra podia fazer por ele era comprar seus discos e lustrar seus sapatos”. Depois, Assata soube que Elvis tinha se oferecido como informante ao FBI. Seu conhecimento da história dos EUA foi se tornando mais profundo até saber que aqueles que arrancavam cabeleiras eram os brancos e não os índios nativos, isso por um lado, e por outro como os EUA eram o invasor de toda a América do Sul, do Oriente, da Coreia e do Vietnã.

sábado, 1 de agosto de 2015

Cunhal e o Anti-Imperialismo: a Propósito da Grécia

Cunhal e o Anti-Imperialismo: a Propósito da Grécia
por João Vilela

" Muito teria a aprender com eles e ainda com um outro, onde é dito que «esta corrente ideológica do radicalismo pequeno-burguês manifesta-se, por um lado, na criação de grupos ou partidos pequeno-burgueses de «opção socialista» e de verbalismo esquerdista; por outro, em tendências revisionistas no seio do próprio movimento operário» (7). O sublinhado é meu, por esta frase captar como nenhuma outra a consequência nefasta da influência do Syriza no seio do proletariado grego: o semear de ilusões reformistas, a revisão dos princípios centrais da ideologia do proletariado, o desarmamento ideológico da classe, o seu encaminhar para a derrota. Cunhal seria um precioso auxílio para os trabalhadores gregos se libertarem da escória revisionista que o encaminha para becos sem saída. Que o seus ensinamentos sejam colhidos, na prática da luta, por esses trabalhadores."

A ideia de que, sob o capitalismo, a única arma de que o proletariado dispõe é a sua organização, é uma verdade nunca repetida vezes suficientes. É munido apenas da sua organização de classe que o proletariado comparece diante da organização de classe da burguesia, nas suas mais variadas formas: o Estado da burguesia, os exércitos da burguesia, as polícias da burguesia, os partidos da burguesia, os jornais e as TVs, as universidades e as organizações internacionais fundadas, alimentadas, e montadas com precisão milimétrica para auxiliar o esforço predatório e explorador da burguesia. Organizações que, importa realçar, têm sempre um conjunto assinalável de planos b, c, d, x, y, o que for necessário, para perpetuarem a sua dominação. A história dos últimos 40 anos, em Portugal, é aos mais diversos títulos elucidativa nessa matéria.

O plano b da burguesia portuguesa uma vez derrubado o fascismo e libertadas as colónias africanas estava de há muito delineada, e foi cedo apontado por ninguém menos que Álvaro Cunhal. Já em 1964, no Rumo à Vitória, Cunhal escrevia que «há antifascistas que defendem que o movimento democrático português jogue já hoje na carta do Mercado Comum, prometendo aos monopólios alemães, franceses, e italianos, todas as facilidades e vantagens após o derrubamento da ditadura fascista» (1). A precisão milimétrica com que este plano se cumpriu nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, quando estes tais «antifascistas» se transformaram no PS e no PPD, é assombrosa. Como assombrosa é a a afirmação, que veio a fazer dois anos mais tarde, de que «a admitir-se a sobrevivência no essencial do aparelho de Estado fascista, as liberdades estariam desde o início ameaçadas, e não deixariam de ser violadas e suprimidas pelo mesmo aparelho de Estado, no dia em que as classes que efectivamente continuariam a dominar esse aparelho sentissem ameaçados os seus interesses» (2).

Eu chorei por Cecil

Eu chorei por Cecil
por Elaine Tavares - palavras insurgentes


"E assim é também no sistema político. Os predadores - os que têm as riquezas - vão exterminando os que nada têm, sob pretextos variados: comunistas, terroristas, marginais, possíveis criminosos. Tudo o que constituir ameaça ao mundo de benesses que construíram a custa dos que massacram, eles eliminam. Com a mesma alegria deslavada do matador de leão. Armados com as armas do dinheiro, do poder, eles caçam e decepam as cabeças, riso aberto na cara. Depois, levam os troféus para casa, para enfeitar a sala. É bem assim.

Por isso há que chorar sim. Chorar pelos que são sacrificados. Mas, logo depois, secar as lágrimas e sair para a batalha. O leão vivia numa reserva, aparentemente protegido, inocente, sem consciência da maldade humana. Nós, não. Nem em reservas, nem protegidos. E, conscientes. Sabemos que há homens com fuzis à espreita. E mais, temos a capacidade de, sabendo disso, nos juntar e dar combate. É a luta de classe."

Sim, eu chorei. Chorei pelo tal leão que o dentista estadunidense matou na África. Chorei também pelo dentista, que precisa investir milhares de dólares para ter uma sensação de poder. Chorei pelo leão, como choro pelos palestinos, pelos meninos negros de Serra Leoa, pelos jovens da Guiné, as mulheres do Saharauí, os ciganos, os indígenas de Mato Grosso do Sul, os garotinhos negros das comunidades empobrecidas das grandes cidades brasileiras. Toda essa gente, e muito mais, que é abatida, cotidianamente, por seres como esse homem dos Estados Unidos. Chorei pelo leão, na sua inocência selvagem, entregue ao predador. Choro pelas gentes, violentadas e violadas na sua dignidade e na sua tentativa de simplesmente viver. 

Mas, diante destes fatos, que envolvem a vida de bichos e gentes, não basta chorar. Nossas lágrimas não mudam as coisas que já são. O que muda é nossa ação concreta, cotidiana e sistemática. A luta incessante contra um sistema que nos ensina a banalizar a vida. A batalha sem trégua que temos de dar para constituir outro modo de organizar a vida. E isso não é coisa fácil. Muito mais fácil chorar e dormir achando que já fez o suficiente. Mera musculação de consciência.