Pesquisa Mafarrico

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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Losurdo: "Como nasceu e como morreu o marxismo ocidental"

"Como nasceu e como morreu o marxismo ocidental"
por Domenico Losurdo

"A sociedade burguesa ama celebrar a si mesma como "um verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem ", na realidade no seu âmbito o "trabalho humano", aliás, "o homem enquanto tal [...] desenvolve ao contrário um papel miserável" (MEW, XXIII, 189 e 59). Se passarmos apenas da esfera da circulação à da produção, notamos que, bem longe de ser reconhecido em sua dignidade de homem, o trabalhador assalariado "leva ao mercado a sua própria pele e não tem outra coisa a esperar a não ser o... curtume" (MEW, XXIII, 191)."

"No conjunto, com o passar dos anos, o marxismo ocidental acabou involuntariamente representando duas figuras fundamentais da filosofia hegeliana: na medida em que se satisfaz com a crítica e, aliás, encontra sua razão de ser na crítica, sem pôr-se o problema de formular alternativas possíveis e de construir um bloco histórico alternativo àquele dominante, ele é a ilustração da sabichonice do dever ser; quando, pois, desfruta da distância do poder como uma condição da própria pureza, ele encarna a bela alma. Talvez não seja por acaso que hoje tenha tanto sucesso no ambiente de esquerda um livro, que desde o título convida a mudar o mundo sem tomar o poder [65] . A autodissolução do marxismo ocidental se configura aqui como o abandono do terreno da política e o desembarque na religião."

 Por muito tempo o "marxismo ocidental" celebrou a sua superioridade em relação ao marxismo dos países que se remetiam ao socialismo e que estavam todos situados no Oriente. Em decorrência dessa atitude arrogante, o marxismo ocidental nunca se empenhou seriamente em repensar a teoria de Marx à luz de um balanço histórico concreto: qual era o papel do Estado e da nação nesses países e no "campo socialista"? Como promover a democracia e os direitos humanos e como estimular o desenvolvimento das forças produtivas e o bem-estar das massas numa situação caracterizada pelo bloqueio capitalista? Ao invés de pôr-se essas questões difíceis, o marxismo ocidental preferiu abandonar-se à cômoda atitude autoconsolatória de quem cultiva em particular as suas utopias e rejeita, como uma contaminação, o contato com a realidade e a reflexão sobre a realidade. Disso derivou uma progressiva capitulação à ideologia dominante. Por fim, a autocelebração do marxismo ocidental desembocou na sua autodissolução.

1. O "marxismo ocidental" e a remoção da questão colonial.

Por que o marxismo ocidental, após desfrutar de um sucesso extraordinário até se tornar a koiné das décadas de 1960 e 1970, mergulhou numa crise tão profunda? Sem dúvida, os fatos históricos que todos conhecemos e que culminaram com a queda da União Soviética e do "bloco socialista" desempenharam neste caso um papel fundamental. No entanto, embora inevitável, esse tipo de explicação não é exaustivo: é necessário aprofundar a análise, concentrando a atenção nas fraquezas intrínsecas que o marxismo ocidental revela no Ocidente, mesmo na época em que sua hegemonia parece incontestável. Nada é mais verdadeiro em relação à Itália. É preciso partir de um debate suscitado por Norberto Bobbio em 1954. Ele, embora insistindo justamente na irrenunciabilidade da liberdade formal e das suas garantias jurídico-institucionais, atribui como mérito dos Estados Socialistas o fato de eles "terem começado uma nova fase de progresso civil em países politicamente atrasados, introduzindo instituições tradicionalmente democráticas, de democracia formal, como o sufrágio universal e a elegibilidade dos cargos, e de democracia substancial, como a coletivização dos instrumentos de produção". Entretanto, é a conclusão crítica, o novo "Estado Socialista" não soube transplantar em seu bojo o governo da lei e os mecanismos de garantias liberais, não soube ainda proceder à "limitação do poder" e derramar "uma gota de óleo (liberal) nas engrenagens da revolução já realizada" [2] . Como se vê, estamos bem longe das posições assumidas pelo filósofo de Turim na última fase da sua evolução, no momento em ele se torna, em última análise, um ideólogo da guerra do Ocidente: em 1954 (faltam dois anos para o XX Congresso do PCUS e a revolta húngara) a influência do marxismo e o prestígio dos países que fazem referência a ele são grandes; nesse momento, ao lado da "democracia formal", Bobbio teoriza também uma "democracia substancial"; além disso, expressa um juízo a respeito dos países socialistas que não é univocamente negativo, nem mesmo a respeito da "democracia formal".

domingo, 28 de fevereiro de 2016

'Revoluções coloridas' e a nova Guerra Rede-Cêntrica


'Revoluções coloridas' e a nova Guerra Rede-Cêntrica



"O objetivo estratégico de uma guerra rede-cêntrica é o controle absoluto sobre todos os participantes do processo político em escala global. O seu objetivo tático é estabelecer o controle geopolítico, pelo agressor, sobre os agentes do estado-vítima; e a 'transferência' acontece, em grande medida, de modo voluntário, como se o alvo estivesse realmente escolhendo fazer o que faz, porque o ataque não é percebido como agressão, mas, sim, como impulso na direção de mais desenvolvimento."

"O principal front da guerra rede-cêntrica é o espaço mental; o objetivo do agressor é destruir valores tradicionais da nação-alvo, para implantar valores tradicionais dele [do agressor]. "
"Analistas norte-americanos creem que, no momento, a Ucrânia, o Cáucaso e a Ásia Central são os melhores pontos a serem explorados pelos EUA para aprofundar a pressão contra a liderança russa. Por isso os EUA continuarão a trabalhar para manter alto o potencial para confronto violento nessas áreas, até que encontrem outra nova fonte de conflito possível em território russo, que possam explorar, com vistas a insuflar mais e mais separatismos. Qualquer outra possível fonte, a ser insuflada de fora para dentro, e que faça aumentar a pressão sobre a liderança russa."

Entre os conceitos da luta geopolítica contemporânea invariavelmente se encontram itens relacionados à criação e à formação de "redes". O sentido da "rede" ou de um "princípio do trabalho em rede" está na troca de informações, na máxima expansão possível da produção, acesso e distribuição da informação, e na respectiva realimentação [ing.feedback]. A "rede" é o principal elemento do espaço informacional, no qual as operações de informação são levadas a efeito, para alcançar objetivos políticos, econômicos, informacionais, técnicos e militares. Uma "rede" como sistema, na acepção global do termo, inclui vários elementos que antes sempre foram vistos como fenômenos não comunicantes.

O princípio básico das modernas lutas geopolíticas é o princípio do "rede-centrismo" [ing. "net-centrism"]. Esse princípio baseia-se em três postulados
.

1. O mundo moderno é definido não só por corredores de transporte com fluxos associados de bens e serviços, mas também por redes informacionais e comunicacionais, que formam o esqueleto do espaço global de informação.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Como a Turquia apoia os jihadistas

Como a Turquia apoia os jihadistas
por Thierry Meyssan ●●● tradução: ALVA -- REDE VOLTAIRE


A Rússia colocou a questão do futuro da Turquia enviando ao Conselho de Segurança um relatório de serviço de Inteligência sobre as atividades do apoio deste país aos jihadistas. O documento compreende uma dezena de revelações pondo em causa as atuações do MIT (Serviço Secreto Turco-ndT). O problema é que cada uma destas operações citadas liga-se a outras operações nas quais os mesmos atores operaram junto com os Estados Unidos, ou seus aliados, contra a Rússia. Estas informações juntam-se às já disponíveis sobre os laços pessoais do Presidente Erdoğan com o banqueiro da Al-Qaeda, e sobre a receptação pelo seu filho do petróleo roubado pelo Daesh (E.I.).

A Rússia remeteu aos membros do Conselho de Segurança da ONU um relatório de Inteligência sobre as atividades da Turquia a favor dos jihadistas operando na Síria [1]. Este documento fornece uma dezena de fatos em que cada um, por si, viola uma ou várias resoluções do Conselho.

Ao fazê-lo, a Rússia coloca o Conselho perante as suas responsabilidades e, por extensão, várias outras organizações intergovernamentais. Pelos princípios do Direito, o Conselho devia exigir as provas correspondentes a estas asserções e convocar a Turquia para dar explicações. No caso da culpabilidade da Turquia ser estabelecida, deveria decidir as sanções a tomar segundo o capítulo VII da Carta, quer dizer recorrendo à força. Pelo seu lado, a Organização do Tratado do Atlântico-Norte e a Organização da Cooperação Islâmica deveriam excluir das suas fileiras este Estado criminoso, enquanto a União Europeia deveria cessar as negociações de adesão.

No entanto, uma leitura atenta do relatório da Inteligência russa mostra que os fatos alegados são susceptíveis de abrir muito outros dossiês, e de pôr em causa outras potências. De tal modo que é mais provável que não se discuta publicamente este relatório, mas que se negociará à porta fechada o futuro da Turquia.

O caso Mahdi Al-Harati

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A ECONOMIA DOS ESTADOS UNIDOS NEM SE RECUPEROU NEM SE RECUPERARÁ

A ECONOMIA DOS ESTADOS UNIDOS NEM SE RECUPEROU NEM SE RECUPERARÁ
por Paul Craig Roberts



"Usando do jogo de fumaça e espelhos das taxas inflacionárias e de desemprego subestimadas, o governo dos Estados Unidos mantém uma aparência de recuperação econômica. Estrangeiros iludidos pela trapaça continuam a apoiar o dólar dando assim suporte aos instrumentos financeiros dos Estados Unidos. 
A maneira de medir a inflação oficial foi “reformada” durante a era Clinton para subestimar dramaticamente a inflação. As medidas têm duas vertentes. Uma delas é a de descartar da cesta de bens que compõe o índice de inflação aqueles bens que sofreram aumento de preços. No seu lugar, colocam-se bens de qualidade inferior, a preços mais baixos." 
"O povo foi enganado ao acreditar na recuperação econômica dos Estados Unidos através da subavaliação manipulada das taxas de inflação. A queda na medida da inflação resulta em crescimento do PIB real, quando o PIB nominal é deflacionado pela medida da inflação. Ao subestimar a inflação, o governo dos Estados Unidos exagerou artificialmente o crescimento do PIB. 
É fácil verificar e provar o que estou escrevendo; no entanto a imprensa financeira não questiona a propaganda enganosa que sustenta a falsa noção psicológica de que a economia dos Estados Unidos é sólida. Pelo contrário, cultivam essa falácia cuidadosamente, para manter o resto do mundo investindo em dólares, dando assim sustentação para esse castelo de cartas."

A economia dos Estados Unidos está morta. Morreu quando os empregos da classe média foram mandados para o estrangeiro e quando o sistema financeiro foi desregulamentado.

O fato de mandar os empregos para fora do país beneficiou apenas a Wall Street, executivos de grandes corporações e acionistas, porque trabalho mal remunerado e baixos custos operacionais resultam em grandes lucros. Estes lucros fluem para os bolsos dos acionistas na forma de ganhos de capitais e para os bolsos dos executivos na forma de “bônus de performance”. Wall Street se beneficia através do bull market(termo usado principalmente para o mercado de ações, podendo no entanto ser utilizado com relação a praticamente qualquer coisa que pode ser comercializada, como títulos, moedas e commodities – NT, fonte: Investopedia) que é gerado pelos lucros exorbitantes.

Brasil : MAIS UMA DEMONSTRAÇÃO DA SUBSERVIÊNCIA DO GOVERNO AO CAPITAL:

MAIS UMA DEMONSTRAÇÃO DA SUBSERVIÊNCIA DO GOVERNO AO CAPITAL:
por Intersindical


"Os porta-vozes do Capital estão inscritos diariamente na imprensa com seu discurso hipócrita tentando responsabilizar os trabalhadores pelo rombo que anunciam como profecia na Previdência. Querem culpar o trabalhador que começou muito jovem a trabalhar pela exigência básica de garantia do sustento, pelo justo direito de se aposentar depois de anos de trabalho e de contribuição à Previdência.

A hipocrisia é tamanha que tentam culpabilizar a geração de agora pela ameaça do fim das aposentadorias para as gerações futuras, mas nada melhor do que a realidade dos fatos para mostrar que quem pode provocar o caos na Previdência é o Capital e a ação do Estado."
" Para enfrentar mais esse ataque do Capital contra os trabalhadores, aplicado pelo governo, não basta apenas marchar em Brasília e depois sentar ao lado do governo e dos patrões defendendo a redução de direitos e salários, com fazem infelizmente várias centrais sindicais.

O lugar da nossa da luta contra mais esse pacote do governo que ataca os direitos é nas ruas e principalmente em cada local de trabalho onde estamos enfrentando as demissões, a tentativa de calote aos salários e direitos. Nas greves, paralisações e ocupações, no movimento real de nossa classe que vamos fortalecer a luta contra as reformas e pacotes que atacam os nossos direitos."

Para se manter a qualquer custo gerenciando os interesses da burguesia, governo Dilma tenta impor mais reformas que atacam os trabalhadores

Se no apagar das luzes de 2014, os trabalhadores tiveram como “presente” do governo Dilma o pacote que atacou o seguro-desemprego, o abono salarial e dificultou ainda mais a situação de quem necessita recorrer as perícias médicas do INSS, o presente ao final de 2015 foi o anúncio de reformas que têm por objetivo ampliar ainda mais os ataques aos direitos.

As reformas segundo o governo são necessárias para aumentar a capacidade competitiva da economia, leia-se: aumentar os lucros do empresariado, com o aumento da exploração contra os trabalhadores e para isso o empenho do governo era apresentar no início de 2016 para o Congresso Nacional duas reformas: a trabalhista e a previdenciária.

Procura-se uma Boia para FHC

Procura-se uma Boia para FHC 


"Em um muxoxo particularmente hilariante, FHC acusou o golpe: acha ser "uso político" a Polícia Federal investigar essas transações de evasão fiscal feitas pela Brasif nas Ilhas Cayman, o paraíso dourado dos tucanos.

Então, está combinado.

Quando a investigação é sobre o barco de lata de dona Marisa Letícia ou sobre o número de caixas de cerveja que Lula levou para um sítio em Atibaia, é combate à corrupção.

Mas investigar remessas de dinheiro, via paraíso fiscal, feitas por uma concessionária do governo, a mando de um presidente da República, para manter uma amante de bico fechado com o apoio da TV Globo e da Veja, é uso político."

A mídia ainda não achou um jeito de tirar Fernando Henrique Cardoso da enrascada em que a jornalista Mirian Dutra o meteu.

A tese de que a relação com a amante é uma questão de foro íntimo só faria sentido se:

1) O presidente da República e, por extensão, o Brasil, não tivessem sido feitos reféns da Rede Globo, por oito anos, sabe-se lá a que preço, para que essa amante ficasse escondida na Europa;

2) O presidente da República não tivesse se utilizado de uma empresa concessionária - a Brasif - para enviar dinheiro para o exterior, por meio de uma offshore aberta em paraíso fiscal, para o filho que ele imaginava ser dele - e que, agora se sabe, pode ser mesmo;

3) O presidente da República não tivesse se mancomunado com um editor da revista Veja para fraudar uma notícia com o objetivo de mentir ao País sobre a gravidez de Mirian Dutra;

4) O presidente da República não tivesse nomeado a irmã da amante, Margrit Dutra Schmidt, para cargo público federal, no Ministério da Justiça e, mais tarde, ter providenciado junto a um aliado, o senador José Serra (PSDB-SP), um emprego-fantasma no Senado, onde ela está há 15 anos, recebendo salário, todo mês, sem aparecer para dar expediente.

A nota da Brasif, uma explicação seca e patética montada por advogados para dizer que Mirian recebia dinheiro da empresa, mas que FHC nada tinha a ver com o caso, é uma dessas coisas que só podem ser vinculadas seriamente no Brasil, dada a indigência moral e profissional da nossa imprensa pátria.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

evolução do preço do petróleo - A perversa irracionalidade das potências que dominam o mundo

Algumas notas em torno da evolução do preço do petróleo
A perversa irracionalidade das potências que dominam o mundo
por Fernando Sequeira

"Presentemente, as petrolíferas atrasam investimentos nos actuais e em novos campos. Enquanto retardam o encerramento de campos em fim de vida, reduzem drasticamente encargos com exploração e operação, ao mesmo tempo procedendo a fusões e a aquisições de operadoras em falência. Mas com isto, comprometem a boa produção futura. Essa perversa irracionalidade poderá ser explicada por intencional objectivo de aniquilar econômica e politicamente países com elevadas produções e reservas, considerados como «inimigos», ainda que com elevados custos e riscos para os demais, e turbulência e incerteza mundial. "

"O capitalismo é incapaz de resolver qualquer dos grandes problemas da Humanidade. O energético também.

A gestão do patrimônio geológico que é o petróleo deveria ser sabiamente utilizada, no sentido de possibilitar um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, mas esse patrimônio está, ao contrário, a ser delapidado na voragem dos interesses das transnacionais e grandes potências que dominam o Mundo."

As profundas variações do preço do petróleo bruto, e, em sequência, do preço dos refinados têm gerado dúvidas, perplexidades e incompreensões. A situação, que continua a desenvolver-se, para além de perigosa, começa até a gerar profundas contradições.

O desenvolvimento e crescimento do último século está indissociavelmente associado ao petróleo.

Entre outros importantes aspectos, o petróleo revolucionou completamente o sistema de transportes (cerca de 70% do consumo final de todas as utilizações do petróleo energético), particularmente pela introdução e crescimento exponencial do automóvel.

Sendo imensas e cada vez mais diversificadas as matérias-primas que têm suportado o crescimento e o desenvolvimento, o petróleo ocupa contudo entre elas um papel único e insubstituível.

O petróleo encerra um elevado e diversificado potencial de utilizações. Como combustível, seja para diversos tipos de transportes – rodoviário, fluvial e marítimo e aéreo – seja na indústria e nos edifícios, mas também como matéria-prima, das indústrias petroquímicas, base de um vastíssimo conjunto de bens intermédios e de consumo final. Este é um importante aspecto face à necessidade de racionalidade na utilização do petróleo.

Mesmo num país pequeno como Portugal, o peso do petróleo na economia e na sociedade é significativo.

Cala a boca, jornalista!

Cala a boca, jornalista!
por Elaine Tavares - Diário Liberdade


" No geral, os jornalistas fazem um jornalismo chapa-branca, oficialista, estilo porta-voz. Priorizam as fontes ritualísticas, que vão dizer aquilo que o veículo quer que digam. Ao mesmo tempo, esses meios comerciais silenciam as vozes dissonantes, e quando a realidade se impõe, não sendo possível calar os que fazem a crítica, os ridicularizam ou criminalizam. Basta pensarmos nas coberturas das ocupações de terras rurais, espaços urbanos, escolas em vias de desaparição ou os movimentos pela mobilidade urbana e o movimento indígena. Os que lutam são os bandidos e os que criam o caos, são os mocinhos. Esse é o jogo."

Ser jornalista é padecer. A profissão é, sem qualquer dúvida, filha do capitalismo. Nasce para “embelezar” o anúncio das mercadorias e com o andar da carruagem acaba fazendo do jornalismo também mercadoria. Mas, como bem diz Adelmo Genro Filho, que pensou uma teoria marxista do jornalismo, pode ser bem mais do que isso. Na sua forma/mercadoria está contida a contradição e, por isso mesmo, vez em quando, seja por ação do jornalista ou da realidade mesma, ele assume a forma conhecimento. E é aí que pode gerar o pensamento crítico, instrumento único da transformação. 

No Brasil, a profissão passa por uma fase agônica. Nos grandes meios de comunicação pouco se salva. A regra é escrever ao estilo de manual de geladeira. O que escapa é a sempre existente exceção, nada mais que isso. No geral, os jornalistas fazem um jornalismo chapa-branca, oficialista, estilo porta-voz. Priorizam as fontes ritualísticas, que vão dizer aquilo que o veículo quer que digam. Ao mesmo tempo, esses meios comerciais silenciam as vozes dissonantes, e quando a realidade se impõe, não sendo possível calar os que fazem a crítica, os ridicularizam ou criminalizam. Basta pensarmos nas coberturas das ocupações de terras rurais, espaços urbanos, escolas em vias de desaparição ou os movimentos pela mobilidade urbana e o movimento indígena. Os que lutam são os bandidos e os que criam o caos, são os mocinhos. Esse é o jogo.

Quem quer fazer jornalismo de verdade, narrando a vida na sua imanência, com descrição, contexto histórico e impressão, tem de saltar fora do barco da mídia produzida nos grandes meios. Hoje, com as novas tecnologias, isso ficou mais fácil, através dos blogs pessoais, ou das páginas de sindicatos e movimentos sociais. Mas, apesar das melhorias das condições objetivas pra produzir jornalismo sem censura, os jornalistas esbarram em outras variantes que os amarram. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Se você não encontrar moderados na Síria, coloque uma fantasia em alguns extremistas

Se você não encontrar moderados na Síria, coloque uma fantasia em alguns extremistas
por Tony Cartalucci – tradução de btpsilveira

"A última produção da BBC é tão transparente quanto absurda e repugnante."

"A repugnante metamorfose que a BBC faz com membros indiscutíveis da Al Qaeda e seus filiados em suas recentes entrevistas encaixa-se de forma perfeita em um amplo padrão de fraude sobre fraude destinado a salvar a conspiração descrita por Hersh em 2007, prejudicada quando, no último ano, a Federação Russa, depois de convite feito pelo governo da Síria, fez sua intervenção no conflito.

Com Aleppo vacilando à beira da liberação daquelas forças claramente terroristas – a BBC empilha propaganda enganosa em cima de propaganda enganosa divulgada através do ocidente e que representa uma cínica tentativa de perpetuar – e não acabar – com o sofrimento do povo sírio.

O que é ainda pior, é que a BBC apresenta o comandante do grupo Fatah-Halab-Al Qaeda travestido como um membro do “Exército Livre da Síria” (FSA), o qual “é apoiado pelos Estados Unidos”."

11 de fevereiro de 2016 (Tony Cartalucci – LD) – Lendo as manchetes cada vez mais estridentes e desesperadas berradas pela mídia ocidental sobre as forças terroristas apoiadas pelos Estados Unidos e que começam a quebrar sob uma bem coordenada ofensiva da Rússia, da Síria e de seus aliados, que parecem cada vez mais capazes de retomar o controle do país, qualquer leitor poderá perceber que, mesmo sendo o termo “rebeldes moderados” ou “oposição moderada” citados inúmeras vezes, a mídia do ocidente parece simplesmente incapaz de nomear entre eles um singelo grupo ou apenas um único comandante para exemplo.

Acontece que nunca houve nem há coisa parecida com os tais “rebeldes moderados” na Síria. Desde 2007, os Estados Unidos vêm conspirando para fundar e armar extremistas aliados à Al Qaeda para derrubar o governo da Síria e desestabilizar a influência iraniana através de todo o Oriente Médio.

Como obter um certificado de democracia

Como obter um certificado de democracia
por Daniel Vaz de Carvalho

"De facto, "a essência dos media não é informação: é o poder" diz John Pilger, acrescentando: "Nos EUA seis mega empresas: GE-(NBC), News Corp (FOX), Dysney, Viacom, Time Warner (CNN), CBS, controlam 90% do que vemos, ouvimos ou lemos; 232 executivos da comunicação social prescrevem a dieta informativa dos norte-americanos. A faturação destes seis grupos em 2010 foi de 275,9 mil milhões de dólares."

O fundador da Seara Nova, Raul Proença, escrevia em 1928: "Chama-se liberdade de imprensa, o direito exclusivo que têm certos potentados ou certos malfeitores, graças à sua fortuna ou às suas chantagens de influir na opinião do país." "

1 – O exame 

O exame é mediático. Comecemos pela pergunta eliminatória. O examinador (jornalista apresentador) coloca um ar traquina, estilo "com esta é que te vou tramar", e pergunta: "Acha que a Coreia do Norte é uma democracia?". 

Não se pode mostrar que se tem dúvidas sobre a ditadura instalada no país. Se responder – como o ex-candidato do PCP, Edgar Silva – que se preocupa com os direitos humanos na Coreia do Norte, como nos EUA, na Arábia Saudita ou em qualquer outra parte do mundo, está eliminado. No dia seguinte, o que quer que tenha enunciado sobre as suas ideias e propostas, sobre as crescentes desigualdades e pobreza no país devido à política de direita, os destaques na comunicação social são que "… tem dúvidas que a Coreia do Norte não seja uma democracia". O que servirá depois para gáudio dos comentadores. 

Se na altura do "exame" houver outro participante este deve aproveitar – mesmo que a pergunta não lhe tenha sido feita – para declarar o seu repúdio pelo "regime comunista" da Coreia do Norte e do seu ditador. Pode melhorar a nota mencionando também Cuba, por exemplo. Assim, mesmo que se apresente como "esquerda" ou mesmo "esquerda radical", os mediáticos examinadores dar-lhe-ão os mínimos para ser considerado(a) confiável, ou seja, mais ou menos inofensivo para o que se pretende na educação das massas. 

Porém, para passar no exame não basta ser bom aluno, é preciso cair nas boas graças dos examinadores. Assim, para adquirir o certificado e a sua periódica revalidação é tão importante o que se diz como o que se não diz. 

Colômbia: A paz é possível, mas…

Colômbia: A paz é possível, mas…
por Carlos Aznárez

"“É preciso desmontar o paramilitarismo caso queiramos chegar ao final do conflito”, defende Catatumbo e, certamente, recorda todos os sofrimentos vividos por gerações anteriores de lutadores. Por exemplo, os da União Patriótica, quando em 1985, devido à persistência de estruturas paramilitares protegidas pelo Exército colombiano, foram assassinados dois candidatos presidenciais, os advogados Jaime Pardo Leal e Bernardo Jaramillo, 8 congressistas, 13 deputados, 70 vereadores, 11 prefeitos e algo em torno de 5.000 de seus militantes.

No entanto, não é necessário ir tão longe no tempo. Agora mesmo, em meio às expectativas de esperança provocadas na população pela possibilidade concreta de um acordo de paz, existem territórios do país que sofrem o assédio paramilitar de maneira virulenta. "

Os apuros do presidente Juan Manuel Santos para que nos últimos dias de março se assine a paz com a delegação das FARC-EP em Havana, não condiz com a realidade que todos os dias é mostrada no território. A violência contra os movimentos populares subsiste e é letal. Também, é claro, arremete tanto contra os guerrilheiros das FARC, apesar do cessar-fogo, e contra os do ELN, a quem é negada a possibilidade de dialogar.

É verdade que a grande maioria da população quer que a guerra se acabe, que os quatro milhões de deslocados regressem a suas casas, as quais tiveram que abandonar aterrorizados pela ação do Exército e do paramilitarismo. É certo também que como sequelas desta guerra de mais de meio século, na qual a burguesia colombiana atiçou o fogo para não perder nem um hectare de seus latifúndios e nem uma só de suas milionárias propriedades, muitos cidadãos foram assassinados, torturados, encarcerados (mais de 9.500 ainda permanecem na prisão) e que essa é uma razão muito boa para que as armas de um e outro lado cessem o fogo. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Síria-2016: Opções desesperadas da OTAN em sua guerra perdida

Síria-2016: Opções desesperadas da OTAN em sua guerra perdida 
por Tony Cartalucci, New Eastern Outlook (NEO)


"O ISIS, exatamente como foi concebido, serve apenas como pretexto que justificará qualquer operação que EUA e aliados regionais decidam empreender – operação que terá o único objetivo de conter e sendo possível fazer retroceder os ganhos territoriais de sírios e russos em campo. Na pior das hipóteses, a ação visará a criar santuário seguro em território sírio, para onde os exércitos a serviço do ocidente possam retroceder."

"E também há a possibilidade de o ocidente tentar invadir e ocupar parte considerável do território sírio no leste – com o objetivo de conectar a área a uma porção do Iraque, o qual, parece, também será alvo de tentativa equivalente de roubo de terras, e por táticas ocidentais semelhantes."

Com as forças sírias e aliados já completando a retomada da principal cidade da Síria, Aleppo, os EUA e aliados regionais dão sinais de interesse aumentado nas operações em campo na Síria, inclusive com os EUA garantindo apoio aéreo a forças turco-sauditas.

Por mais que obviamente EUA e aliados respondam assim diretamente ao colapso em todo o país, de suas forças 'contratadas', as mais recentes ameaças que fizeram de escalar ainda mais o conflito na Síria só muito fracamente ainda falam de "combater o ISIS."

  • Pela primeira vez a Arábia Saudita ofereceu-se para enviar tropas à Síria para combater o Estado Islâmico, disse o ministro de Defesa, na 5ª-feira.
  • "O Reino está pronto para participar de qualquer grande operação em solo que a coalizão (contra o Isis) decida levar a efeito na Síria," disse o porta-voz militar brigadeiro-general Ahmed al-Asiri durante entrevista à rede de TV al-Arabiya.
  • Fontes sauditas afirmaram ao Guardian que milhares de forças especiais podem ser deslocadas, provavelmente em ação coordenada com a Turquia.
Na verdade, Turquia e Arábia Saudita desempenharam papel central tanto ao intencionalmente organizarem o ISIS como também no apoio logístico e financeiro que permitiu a perpetuação das atividades do grupo terrorista dentro da Síria e do Iraque. É o que dizem os inimigos de Ancara e Riad, mas também o principal aliado dessas capitais, os EUA.

Primeiro-Mundismo e Reformismo

Primeiro-Mundismo e Reformismo
Por João Vilela


"Os trinta anos que se seguiram à II Guerra Mundial representaram, de muito longe, o maior período de prosperidade material que o Ocidente algum dia assegurou às classes dominadas da sociedade.

Houve uma contrapartida, primeiro implícita e depois explicitada e consagrada em textos e programas políticos, para estas concessões: o abandono de qualquer pretensão revolucionária pelo movimento popular. Não foi fácil impor este caminho, mas ele acabou por chegar à hegemonia ao fim de algumas décadas de esforço. O apoio prestimoso de dirigentes kruschevistas na URSS e a progressiva capitulação dos principais partidos da Europa Ocidental às teses do chamado eurocomunismo. "

"É pois contra o peso-monstro de mais de 70 anos de legalismo, de pacto social, de conformidade com os preceitos legais no desenvolvimento da luta, contra o uso da luta de massas como forma de pressão e não como instrumento para arrancar conquistas ao inimigo - é contra o reformismo que, por toda a Europa, importa fazer a guerra. Não apenas porque o reformismo é a negação, irracional, de uma verdade evidente - a de que nenhuma classe dominante aceita por bons argumentos ceder direitos às classes dominadas, e muito menos ceder o seu lugar e terminar com a exploração. "

O mundo saído da II Guerra Mundial era um mundo irreconhecivelmente diferente do que existira antes dela. O campo socialista estendia-se de Berlim a Pequim, os partidos comunistas tinham incomensurável peso social pela sua determinante participação na resistência antifascista, a causa do socialismo recolhia a simpatia e a militância de milhões de seres humanos em todo o mundo. Só por tolice a burguesia teria a veleidade de querer manter os trabalhadores nas condições de dominação e exploração dos anos 30: importantes concessões teriam de ser feitas, e foram-no. Os trinta anos que se seguiram à II Guerra Mundial representaram, de muito longe, o maior período de prosperidade material que o Ocidente algum dia assegurou às classes dominadas da sociedade.

Houve uma contrapartida, primeiro implícita e depois explicitada e consagrada em textos e programas políticos, para estas concessões: o abandono de qualquer pretensão revolucionária pelo movimento popular. Não foi fácil impor este caminho, mas ele acabou por chegar à hegemonia ao fim de algumas décadas de esforço. O apoio prestimoso de dirigentes kruschevistas na URSS e a progressiva capitulação dos principais partidos da Europa Ocidental às teses do chamado eurocomunismo. 

Assim se gerou um caldo de cultura que levou sucessivas gerações de activistas políticos, sindicais, dos movimentos sociais da mais variada ordem por toda a Europa, a considerarem que havia sempre uma saída para as suas aspirações dentro da legalidade burguesa. Por sinal, aliás, a própria noção de «legalidade burguesa», de «democracia burguesa», de que existiria um conteúdo de classe do regime político vigente e não apenas uma «legalidade democrática» suprassocial e neutra, passou a fazer parte do pensamento hegemônico. Ainda hoje, quando ouvimos os políticos e activistas reformistas a falar, é notório que estão convencidos disto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Saquear a si mesmo: eis a que se reduziu o ocidente

Saquear a si mesmo: eis a que se reduziu o ocidente
por Paul Craig Robertstradução de btpsilveira



"Para manter o povo ocidental confuso acerca da real ameaça que estão encarando, é dito que há terroristas atrás de cada árvore, cada passaporte, debaixo de todas as camas, e que todos serão mortos a menos que o poder supremo do governo jamais seja questionado. Isso funciona tão perfeitamente, que um ataque de falsa bandeira após outro serve para impedir que o povo tenha conhecimento de que tudo não passa de farsas grosseiras que só servem para continuar a acumular mais e mais riqueza em poucas mãos.

Não contentes com sua supremacia sobre os “povos democráticos” o insaciável um por cento vem agora com suas parcerias TransAtlantico (TTIP) e TransPacifico (TPP). Alega-se que seriam apenas “tratados de livre comércio” que trariam benefícios para todos. Na verdade, trata-se de acordos secretos, cuidadosamente dissimulados que darão aos comerciantes corporativos privados internacionais o controle da soberania dos governos.

Por exemplo: revelou-se que sob a parceria TTIP o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido poderia ser processado em tribunais privados sob a égide da parceria como sendo um impedimento para o Serviço Privado de Saúde e condenado a pagar indenizações por “danos” causados às empresas privadas e mesmo forçado a ser desmantelado."

Michael Hudson, John Perkins, eu e outros articulistas temos relatado as várias maneiras pelas quais os povos são saqueados pelas instituições econômicas ocidentais, principalmente os grandes bancos de Nova Iorque, com a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os países do Terceiro Mundo foram e ainda estão sendo saqueados através de incentivos para a implantação de planos de desenvolvimento, eletricidade ou outra coisa qualquer. Os governos ingênuos e confiantes desses países acreditam quando lhes dizem que eles podem tornar seus países ricos, através de empréstimos estrangeiros a serem aplicados em um plano já concebido de desenvolvimento, o qual resultaria em tal aumento de impostos e taxas que seriam mais que suficientes para o serviço da dívida com o estrangeiro.

Este cenário de ilusão raramente acontece na prática, se é que acontece mesmo. O que acaba ocorrendo é que o plano resulta em um país endividado até o limite a além de sua capacidade de pagamento ou de seus ganhos no estrangeiro. Quando o país se torna incapaz de honrar seus compromissos com a dívida externa, os credores mandam o FMI para informar ao governo endividado que o FMI protegerá o crédito do país, emprestando-lhe ainda mais dinheiro para pagar aos bancos credores. No entanto, existem condições. O FMI impõe medidas de austeridade para que o governo possa então pagar ao FMI. Essas medidas são a redução dos serviços públicos prestados pelo setor governamental, a redução das pensões e aposentadorias pagas pelo governo e a venda de recursos nacionais a estrangeiros. O dinheiro conseguido pela redução das pensões e benefícios, corte de serviços públicos e venda de ativos nacionais a estrangeiros é então entregue ao FMI como pagamento.

O 'Sultão do Caos' está em frenesi

O 'Sultão do Caos' está em frenesi
por Pepe Escobar, RT

"O 'Sultão' Erdogan braceja num mar de desespero. Continua a amputar todas as graves questões em jogo, tentando que caibam dentro da guerra particular dele contra o PYD – a organização guarda-chuva dos curdos sírios – e o YPG (Unidades de Proteção do Povo, braço militar dos curdos sírios). Erdogan e o primeiro-ministro Davutoglu queriam o PYD não só banido de Genebra, mas, isso sim, esmagados em campo, porque para eles os PYD/YPG são "terroristas" aliados do PKK."

Imaginem noites insones no palácio do 'sultão' Erdogan em Ankara. Imagine-o lívido, ao saber que o Exército Árabe Sírio, apoiado pela aviação russa, iniciou uma Batalha por Aleppo, preventiva – através da região de Bayirbucak – fechando o principal corredor pelo qual Ankara fornece armas aos terroristas e estrada de ir e vir de jihadistas.

Quem controlar esse corredor controlará o resultado final da guerra na Síria.

Entrementes, em Genebra, a oposição síria acionada por controle remoto, também chamada "Alto Comitê de Negociações", mostrou e remostrou, desenhado, que nunca quiseram, para começar, encontrar-se com delegação de Damasco – nem quaisquer conversações "próximas" ou distantes, mesmo depois que Washington e Moscou mal e mal concordaram quanto a uma transição de dois anos, que levaria a uma Síria teoricamente secular e não sectária.

O front saudita queria, nada menos, que Ahrar al-Sham, Jaysh al-Islam e toda a Frente al-Nusra, codinome al-Qaeda na Síria e colaboradores, todos à mesa, em Genebra. E foi assim que a farsa de Genebra, mais depressa do que você pronuncia "Estrada para Aleppo", foi exposta pelo que é: farsa.

E quanto à OTAN, podem esquecer 

O famosíssimo cérebro da inteligência saudita príncipe Turki, ex-mentor de um tal Osama bin Laden, esteve em Paris, para uma ofensiva de 'relações públicas'; mas só obteve uma avalanche de obsessões com negar, fingindo que não negam – e a culpa de toda a tragédia síria foi jogada sobre Bashar al-Assad.

O cerne da 'oposição' síria foi sempre constituído de guerreiros de poltrona cooptados pela CIA durante anos, bem como os 'irmãos' vassalos/otários da Fraternidade CIA-Muçulmana. Muitos desses personagens preferem as alegrias de Paris à vida dura que os espera em solo sírio. Agora a 'oposição' é, basicamente, amontoado de senhores da guerra que, ao preço de umas garrafas d'água, fazem o que a Casa de Saud lhes diz que façam – sem nenhuma consideração ao que digam os engravatados ex-ministros do Partido Ba'ath selecionados a dedo para serem a cara da oposição aos olhos da mídia-empresa ocidental que engole qualquer coisa.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Netanyahu e sua confissão: balcanizar a Síria

Netanyahu e sua confissão: balcanizar a Síria
por Pablo Jofré Leal


"As palavras de Netanyahu deixam claro aquilo que de tão óbvio parece invisível: o objetivo vislumbrado por Washington e seus aliados agrupados principalmente na tríade Riad-Ankara-Tel Aviv é repartir os restos de um país e influenciar dessa maneira na região do Oriente Médio. Desintegrar a Síria, dividi-la em zonas de influência e, ao mesmo tempo, gerar com isso uma balcanização mais global da zona, como se está verificando com o Iraque. E, desse modo, cumprir o objetivo de cercar o Irã e impedir a expansão russa para o que essa Federação considera suas zonas de influência geopolítica."

O premier israelense deu a conhecer o plano que tenta implantar em relação à Síria desde o início da agressão contra este país árabe, fevereiro do ano de 2011: desintegrar e balcanizar (1) esta nação levantina.

Com sua característica soberba e verborragia, o Primeiro Ministro da entidade sionista, Benjamín Netanyahu, aproveitou o espaço outorgado pelo Fórum Econômico Mundial, celebrado na localidade de Davos, Suíça, onde ano após ano se reúne a flor e a nata dos poderes financeiros e políticos do mundo ocidental, para dar apresentar e deixar claro o verdadeiro plano que persegue com relação à República da Síria desde o início da agressão contra este país árabe, fevereiro de 2011: desintegrar e balcanizar (1) esta nação levantina.

Na comodidade dos salões de Davos, longe do ruído de bombas, operações militares, ataques terroristas e milhares de mortos, Netanyahu defendeu, em 22 de janeiro passado, que “a opção mais benigna para a Síria seria uma balcanização ou fragmentação do país árabe, que sob as atuais circunstâncias é o melhor que se poderia obter. Isto, porque tenho serias dúvidas que um Estado Unitário volte a governar o país”. Na oportunidade, Netanyahu revelou, igualmente, que está sendo gerado o aumento da multimilionária ajuda financeira e militar que recebe dos Estados Unidos, para manter o status de Israel como polícia do ocidente no Oriente Médio.

A opinião do político sionista com relação à fragmentação da Síria demonstra a política criminosa que foi executada contra a nação árabe e seu povo, que em prol dos afãs, interesses políticos e econômicos significou agredir, atacar, bombardear e destruir um país com cifras que, desde fevereiro do ano 2011 até a data atual, significou a morte de 280 mil sírios, sete milhões de deslocados internos, 4.5 milhões de refugiados – principalmente em países vizinhos – e a destruição de sua infraestrutura energética, de serviços, indústria, infraestrutura viária e sanitária.

Agronegócio: as corporações internacionais comandam

Agronegócio: as corporações internacionais comandam
por Carta Maior - Brasil


"A corrida pelos agrocombustíveis pelo mundo piorou a vida de muita gente no campo- tanto camponeses, como comunidades tradicionais, na América do Sul, como na África e na Ásia. Um movimento que foi induzido pelos Estados Unidos e a União Europeia sob o argumento que precisavam reduzir as emissões de gases estufa. Na verdade criaram novas oportunidades para o mercado gerar lucros com o capital especulativo que corre pelo globo."

Agronegócio exporta a água, o suor e o sangue dos trabalhadores, envenena o meio ambiente e as populações, mas ainda posa de campeão do PIB.

A produção internacional de commodities é um negócio internacional e financeiro, comandado por meia dúzia de empresas, as conhecidas no Brasil como ABCD – ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus -, além de novos atores como Noble Group, de Hong Kong, a Mitsui e a Mitsubishi – japonesas – e os fundos de todos os tipos, de capital inglês e dos Estados Unidos. No Brasil, o Mato Grosso representa a essência do agronegócio com mais de nove milhões de hectares ocupados pela soja, e as corporações dominam mais de 50% das exportações do estado – quase US$ 10 bilhões – e 90% do esmagamento da soja. Dentro desse seleto grupo está a Amaggi. A Bunge, maior valor em exportação, teve um lucro líquido no primeiro trimestre de 2015 de US$ 263 milhões. E a Cargill, no mesmo período lucrou US$ 425 milhões, com vendas de US$ 33,3 bilhões- números globais. No Brasil a Cargill comprou, processou e vendeu 21 milhões de toneladas no ano passado, sendo 78% para exportação.

O agronegócio, como diz o executivo da Agrifirma, empresa do Barão Jacob de Rothschild, Ian Watson exporta água para os chineses que tem escassez em seu território. A projeção para este ano é uma exportação de 57 milhões de toneladas de grãos de soja, a maioria comprada pela China. Na verdade o agronegócio exporta água, biodiversidade destruída, sangue e suor dos trabalhadores brasileiros, envenena o meio ambiente e as populações locais e ainda posa de campeão do PIB. Mas tem um fato que retrata ainda melhor esta situação. Trata-se da indústria canavieira ou sucroalcooleira, onde as corporações transnacionais já ocupam 33% do setor – há pouco mais de cinco anos era 12%.

"Uma visão feminista e comunista: como conciliar classe, etnia e gênero?"

"Uma visão feminista e comunista: como conciliar classe, etnia e gênero?"
Artigo de Rosita Schaefer



"A maior parte das historiadoras da primeira onda do feminismo parece ignorar que as mulheres soviéticas já votavam, tinham direito a aborto seguro e legal e participavam da vida política, quando as sufragistas conquistaram (de forma seletiva, ainda por cima) o direito ao voto."

"Em suma, acredito ser a diferença fundamental a proposição de eixos de opressão pela interseccionalidade, que possuem funcionamento, origem e sentido próprios, que se acumulam e incidem em sujeitos específicos. Ao passo que a consubstancialidade concebe as opressões de outra forma , em que não entende ser possível identificar tão analiticamente onde começa o capitalismo e onde começa o patriarcado, uma vez que entende a existência de um a partir do outro. Através do apartheid sexual, por exemplo, o capitalismo extrai das mulheres o trabalho reprodutivo (cuidar da casa, dos filhos etc) necessário para manutenção estável da sociedade, ao mesmo tempo em que garante aos homens o poder sobre a sexualidade feminina; bem como através do racismo, o capitalismo consegue mão-de-obra para realização de trabalhos que a burguesia considera inferiores."

Nos Estados Unidos, do final do século XX ao início do século XXI, um peculiar paradigma político reina sobre a esquerda. Você pode visitar qualquer universidade, blog ou website progressista, e as palavras “identidade” e “interseccionalidade” irão surgir como teoria hegemônica. Mas, como todas teorias, isso corresponde à posição da classe trabalhadora em relação a atual composição do capital. Teoria não é uma nuvem que flutua sobre a classe chovendo de pensamentos e ideias, mas, como Raya Dunayevskaya escreveu, “as ações do proletariado geram possibilidades para o intelectual criar teoria” (Marxism and Freedom, 91). Portanto, para entendermos as teorias dominantes de nossa época, precisamos entender o real movimento de classe.” (MITCHELL, 2013)

Antes de falar um pouco sobre esse momento histórico específico, e sobre o surgimento da teoria da interseccionalidade, gostaria de voltar um pouco mais atrás. A história, a partir da perspectiva liberal, definiu como “ondas do feminismo” o período de atividade feminista a partir do início do século XX, estritamente restrito a países Europeus e ao Estados Unidos. 

Com o filme “As Sufragistas” chegando, estaremos enfrentando mais de perto o seguinte debate: qual o espaço para o “feminismo marxista” nessa história? 

A maior parte das historiadoras da primeira onda do feminismo parece ignorar que as mulheres soviéticas já votavam, tinham direito a aborto seguro e legal e participavam da vida política, quando as sufragistas conquistaram (de forma seletiva, ainda por cima) o direito ao voto. Dessa forma, o que foi colocado pela Raya Dunayevskaya descreve sucintamente a ideia que venho propor: a verdadeira teoria feminista é fruto das ações das mulheres operárias, não da aristocracia. Sendo assim, já podemos perceber que o feminismo socialista teria dificuldade de disputar o movimento feminista, que tinha sua narrativa construída pelo ocidente. Maria Spiridonova, contemporânea de Kollontai, disse em entrevista a Louise Bryant (esposa do John Reed, que assim como ele documentou o processo revolucionário) que “não pretendo soar como uma feminista, mas… irei dizer para você minha teoria”. Isso acontecia não por ignorância das trabalhadoras soviéticas, mas sim porque as autodenominadas feministas se referiam a Kollontai e outras mulheres comunistas como “demônios vermelhos”. Havia uma real divisão entre feministas e comunistas, e o feminismo era visto como de direita — exatamente por ter nascido como um movimento social do seio da burguesia.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

"Os 60 Anos do XX Congresso"

"Os 60 Anos do XX Congresso"
por João Vilela


"O XX Congresso do PCUS, cumpre dizê-lo com todas as letras, é um congresso revisionista. Até na forma como o afamado discurso de Khrushchev aborda e trata os anos da direção de Stalin, recuperando argumentos trotskistas sobre a opinião de Lenin quanto à sucessão na direção do Partido (como se a sucessão de Lenin pudesse ser indicada por este e não decidida por todos), e reduzindo todos os acontecimentos dos anos 20/40 a traços e personalidade rude e autoritária do dirigente, sem pingo de teoria marxista." 
"Torna-se por isso sobremaneira importante retomar a discussão sobre este momento de grave inflexão do movimento comunista internacional e refutar a sua tese central: não, não existe nenhuma via pacífica para o socialismo, e rigorosamente toda a história do movimento operário está aí para o provar."

"É impossível manter viva qualquer ilusão reformista, qualquer pacifismo, qualquer anseio de cooperação de classes sem liquidar a figura de Stalin. Por algum motivo as forças do reformismo o tentam tão diligentemente. Por algum motivo o seu nome é erguido tão alto pelos comunistas."


A discussão sobre as causas do processo de degenerescência do socialismo soviético é longa e gera, ainda hoje, acesa polêmica. Poucos são os pontos pacíficos e é ainda demasiada, dentro do movimento revolucionário, a relação emocional e a proximidade afetiva com o assunto estudado para que se consiga o distanciamento, a serenidade, e a frieza que uma análise científica de um processo histórico deste tipo e desta gravidade exige. Não é espantoso que assim seja, pese embora o fato de Marx, na imediata subsequência de duas tentativas frustradas de tomada do poder pelos trabalhadores, ter sido capaz desse esforço de desapego para nos oferecer o 18 Brumário de Luís Bonaparte e A Guerra Civil em França pouco tempo depois, respectivamente, das derrotas de 1848 e 1871. Conceder-se-á, é de admitir, que Marx houve apenas um.

É em todo o caso, ao que parece, já hoje razoável inscrever como um dos pontos de inflexão da revolução soviética no sentido da sua liquidação o XX Congresso do PCUS e as suas teses sobre a coexistência pacífica entre blocos políticos antagónicos e a via pacífica para o socialismo. 

Estas teses não foram apenas desmentidas fulgurantemente pela história com a derrota de absolutamente todas as tentativas de passagem pacífica ao socialismo quer anteriores quer posteriores ao XX Congresso (no Chile de Allende, na Guatemala de Arbens, no Irão de Mossadeqh, no Brasil de João Goulart, só para citar os casos mais evidentes). Não foram desmentidas, também, pela sabotagem e desmantelamento do bloco socialista por ação dos países capitalistas (que foi desde as investidas militares contrarrevoluções triunfantes ou em curso - no Vietnã, em Cuba, em Angola, na Coreia, e num longo etc. -, até à criação de movimentos de massas assalariados pelo Ocidente como o Solidarnorsc, a Primavera de Praga, e a rebelião de Budapeste, sem esquecer a guerra do Afeganistão). 

A questão prévia das fontes da série “Apocalypse Staline” no canal France 2


A questão prévia das fontes da série “Apocalypse Staline” no canal France 2 
por Annie Lacroix-Riz 1




"O serviço público de televisão francesa, uma vez mais, em matéria de história, desrespeitou os mínimos princípios de precaução científica e ridicularizou os espectadores franceses, servindo-lhes uma mixórdia de pura propaganda antissoviética"

A história da Guerra Fria entre Göbbels e a Era Americana


As três horas de difusão da série «Apocalypse Staline», a 3 de novembro de 2015, no France 2, batem recordes de contraverdade histórica, rapidamente resumidas abaixo.

Um bando de selvagens embriagados de represálias (ignora-se por que motivo) devastou a Rússia, cuja família reinante, que se banhava valentemente, antes de 1914, nas águas geladas do Báltico, era, no entanto, tão simpática. «Quais cavaleiros do apocalipse, os bolcheviques semeiam a morte e a desolação para se manterem no poder, continuando durante 20 anos, até que os alemães estivessem às portas de Moscovo. […] Lénine e um punhado de homens mergulharam a Rússia no caos» (1.º episódio, «O possesso»). 

Estes loucos sanguinários inventaram uma «guerra civil» (ignora-se entre quem e quem, nesta risonha Rússia czarista). O inferno estende-se sob a autoridade do bárbaro Lenine, quase demente, que pretende transformar a natureza humana, e dos seus acólitos monstruosos, entre os quais Stáline, pior do que todos os outros juntos, «nem judeu nem russo», georgiano, educado na ortodoxia, mas «de mentalidade próxima dos tiranos do médio oriente» (a barbárie, compreende-se, é incompatível com o cristianismo). Filho de alcoólico, tarado, deformado, coxo e carregado de complexos (sobretudo face ao tão brilhante Trotski, inteligente e popular), desprovido de sentido de humor e de qualquer sentimento, hipócrita, obcecado sexual, envergonhado da sua miserável família, Stáline odeia e extorque os ricos, pilha os bancos, etc. (suspendo a enumeração). Reconhece-se no retrato deste «asiático» os estereótipos de classe ou racistas aos quais o colonialismo «ocidental» recorre desde as suas origens. 

Vinte anos de sofrimentos indescritíveis infligidos a um país contra o qual nenhum poder estrangeiro levantara nunca o dedo mindinho. Há uma alusão sibilina aos anos de guerra 1918-1920 que teriam feito «dez milhões de mortos»: os inimigos bolcheviques estão completamente cercados por um «exército de guardas brancos». Não se avista o menor exército estrangeiro no local, se bem que uma cinquentena de países imperialistas estrangeiros tivesse convergido sobre a Rússia, de todos os pontos cardeais, entre eles a França, a Inglaterra, a Alemanha, os Estados Unidos, etc. (é apenas no 2.º episódio, «O homem vermelho», que se percebe que Churchill detestou e combateu a URSS nascente: quando? Como?).