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sexta-feira, 31 de julho de 2009

O PROBLEMA NÃO ESTÁ SÓ NA CRISE, ESTÁ NO CAPITALISMO!


O PROBLEMA NÃO ESTÁ SÓ NA CRISE, ESTÁ NO CAPITALISMO!

A saída é mobilizar a classe trabalhadora contra os novos ataques do capital e em defesa da alternativa socialista.

(Nota Política do PCB)

Eleito em meio à maior crise vivida pelo capitalismo desde a década de 1930, crise que explodiu no coração do sistema – os Estados Unidos, Barack Obama criou expectativas por ter se apresentado como alternativa à política mais abertamente belicista de Bush. Dentro da estratégia de se anunciar como a face mais branda do capitalismo, promete mudança no padrão de vida das camadas médias americanas, defende os direitos das minorias de seu país e monta uma agenda mundial em que temas como o protocolo de Kyoto são incluídos.

Mas a atual política externa norte-americana, apesar de aparente mudança de estilo, não sofreu qualquer mudança de fundo em relação aos seus objetivos fundamentais: manter viva a ação imperialista em favor da expansão do capital em todo o mundo. Como a guerra sempre se apresenta como opção lucrativa do capital em momentos de crise, o exército americano aumentou seus efetivos no Afeganistão e não saiu do Iraque. O petróleo iraquiano segue sendo leiloado, assim como continuam os investimentos altamente lucrativos da reconstrução do país, levada a cabo, em grande medida, por empresas americanas.

Sem ameaças diretas de intervenção militar ou à formação de governos ditatoriais, como no passado recente, o governo dos EUA, por baixo dos panos, apoiou o golpe civil em Honduras gerado pelas oligarquias locais para impedir que o governo Zelaya avançasse em sua trajetória de mobilização e de reformas populares.

Enquanto Obama condenava o golpe de Estado em Honduras, o verdadeiro governo dos EUA, formado pela CIA, pelos grupos militares e pelas grandes empresas, atuava (e continua atuando) no sentido de favorecer a manutenção dos golpistas no poder, como uma medida contrária à formação de novos governos populares na América Latina, conforme propaga a grande mídia norte-americana, preocupada com uma possível expansão de experiências políticas semelhantes às da Venezuela e da Bolívia na América Central.

A pressão popular local, articulada à solidariedade internacional e à oposição dos países europeus, da OEA e da ONU, entretanto, pode até fazer com que Zelaya retome a presidência e o movimento popular saia fortalecido, tendo em vista a continuidade dos protestos diários em favor do presidente deposto.

No Irã, as demandas internas por direitos civis também foram insufladas pelos EUA, via CIA, para tentar derrubar o governo antiamericano e anti-Israel de Ahmadinejad. Não se trata de fazer a defesa do regime teocrático e autoritário iraniano, mas de denunciar com vigor a ação imperialista na região, cujos movimentos indicam a possibilidade de uma nova intervenção militar, sendo o Irã a “bola da vez”.

A crise econômica atual, cujas origens remontam à década de 1990, é mais uma crise de acumulação de capital e de superprodução, que levou à farra da especulação financeira, em função do alto grau de competição na economia mundial e da irreversível tendência à queda da taxa de lucro das empresas. Como um dos fatores centrais para a explosão da crise, o governo Bush manteve a dependência da economia americana frente à indústria bélica, permitindo a pulverização e o enfraquecimento dos outros setores industriais. Com o esgotamento das práticas da chamada reestruturação produtiva, as grandes empresas, em todo o mundo, ficaram sem mercados para a realização da produção e sem um novo móvel de acumulação de capital.

A crise apresenta sinais contraditórios em seu curso. O mercado mundial continua em baixa e, nos EUA e na Europa, o desemprego mantém-se extremamente elevado. Ainda há muitas empresas de grande porte operando no limite de sua sobrevivência e muitos títulos “podres” em circulação, apesar da grande quantidade de capital fictício que já foi torrado desde o começo da crise, jogando fora dinheiro sem valor. O efeito combinado de novas quebras de empresas e de novos “estouros” de títulos pode levar a um agravamento da crise, com sérias consequências sociais.

Há que ter em conta, entretanto, que a crise econômica não desencadeia, de forma automática, a crise política capaz de mobilizar as massas na direção de uma saída revolucionária em alternativa ao capitalismo. Mais ainda, entre as possíveis saídas políticas para a crise está o fascismo, combinando o poder dos grandes grupos, a repressão aos movimentos organizados e a distribuição de gêneros básicos para as massas desempregadas.

As soluções ditadas pelo mercado, como as fusões e incorporações de empresas, a ação dos bancos centrais e dos governos, baixando as taxas de juros, assumindo o controle de bancos e empresas industriais e lançando medidas de estímulo ao consumo parecem surtir algum efeito no curto prazo. Mas tais soluções, na tentativa desesperada de salvar o capitalismo, só fazem adiar o enfrentamento de questões cruciais para o futuro da humanidade. A manutenção dos atuais níveis de consumo, dada a iminência da exaustão das reservas de minerais estratégicos, de petróleo e outros recursos, e a voracidade da produção de mercadorias, gerada pela natureza do sistema capitalista, nos levarão para a barbárie e para a destruição da espécie humana.

O enfrentamento da crise vem sendo puxado pelos governos de direita e centro-direita, que, sem alternativas, combinam políticas de maior presença do Estado na economia e de apoio aos capitais. Os partidos comunistas em todo o mundo e mesmo os segmentos da “onda rosa” (sociais-liberais, trabalhistas, peronistas, socialistas e outros) têm tido dificuldades para fazer o contraponto através de propostas alternativas para a superação da crise, não havendo, ainda, o protagonismo desejado por parte das esquerdas.
Muitas das dificuldades encontradas para a organização dos trabalhadores devem-se à manutenção das políticas construídas pelos governos neoliberais nos últimos anos e pela fragmentação da classe trabalhadora, em virtude dos métodos de reestruturação produtiva e da pulverização das unidades fabris, que levaram, inclusive, à diminuição da resistência operária no local de trabalho. A formação de um grande contingente de assalariados “excluídos” do mercado formal de trabalho (como terceirizados, contratados de forma temporária e precária), assim como a difusão da ideologia da colaboração, do empregado “associado” e do “empreendedor” são mecanismos de diluição e paralisia da classe trabalhadora, que funcionam em proveito da dominação burguesa.

No Brasil, a burguesia continua a se aproveitar da crise para consolidar sua posição no mercado globalizado, fortalecendo os grandes grupos econômicos e o seu domínio político sobre o país, para o que conta com vários nichos importantes da produção, como a Petrobras, a Embraer, a Vale do Rio Doce, as empresas de manufaturados em geral e de produtos de alta tecnologia, como robôs industriais. Conta ainda com um sistema financeiro consolidado, com empreiteiras de atuação multinacional, com mercados importadores cativos e um mercado interno autossustentado.

Mas a crise atingiu em cheio o setor empresarial voltado às exportações, dada a retração dos mercados importadores. Com isso, a indústria de produtos manufaturados sofre com o déficit comercial: no primeiro semestre deste ano, por exemplo, o saldo da indústria mecânica foi negativo em cerca de 6 bilhões de dólares. A saída encontrada pela burguesia brasileira foi forçar as demissões em massa ou a redução de jornada com diminuição de salários, para, em seguida, voltar a contratar pagando salários rebaixados.

O governo Lula deu continuidade ao processo de acumulação de capital nos moldes neoliberais, mantém intocado o compromisso do superávit primário e estimula a negociação direta entre patrões e empregados – numa correlação de forças desfavorável para estes - para facilitar o avanço da precarização das condições de trabalho nas empresas. Adota, simultaneamente, políticas neokeynesianas tímidas – como o PAC – e permite a “liberação das amarras” para a maior circulação do capital, favorecendo o aumento dos investimentos estrangeiros no Brasil. Aplica ainda uma política de redução de impostos, fazendo cair a arrecadação e crescer, momentaneamente, o consumo, armando uma bomba relógio para as contas públicas, o que poderá desencadear séria crise mais adiante.

As ações do governo e da oposição vêm pautando-se pelo calendário eleitoral. As frações da classe dominante e suas representações partidárias anunciam a disputa em torno do aparelho de Estado e escancaram o mar de lama da política burguesa: no centro, o confronto entre PT e PSDB, permeado pela aliança rebaixada do primeiro com o PMDB, projetos políticos que não se diferem, substancialmente, no que tange aos aspectos estruturais e ideológicos. Os dois blocos brigarão pelo domínio da máquina estatal e para fazer avançar, cada qual a seu modo, o capitalismo no Brasil.

Para assegurar o escorregadio apoio do PMDB à sua candidata em 2010, Lula é refém do PMDB, que o chantageia com exigências de mais cargos, eleição de governadores da legenda e blindagem política de Sarney e outros caciques envolvidos em corrupção e aparelhamento do estado.

Nós, comunistas, seguiremos na denúncia das causas profundas da crise e da lógica imposta pelo capitalismo: a lógica da competição, do individualismo exacerbado e da produção voltada para o lucro, a qualquer preço, mesmo que isso signifique a destruição ambiental e mais ataques do capital aos direitos dos trabalhadores. Seguiremos na luta pela organização da classe trabalhadora, para a construção do Bloco Histórico de forças políticas e sociais visando à construção revolucionária do Socialismo. Reafirmamos o entendimento de que o problema a ser enfrentado não é apenas a crise, mas o capitalismo em si.

O PCB envidará todos os esforços para fazer da Jornada de Agosto, nos dias 10 a 14, convocada pelas centrais sindicais e pelo movimento popular brasileiro, um momento que represente um salto de qualidade na luta contra o capital. As ações devem se dar nos locais de trabalho, pela via sindical, e por ações diretas do PCB, preferencialmente em unidade com as demais forças de esquerda, em cada cidade onde estiver organizado, mobilizando os seus militantes, simpatizantes e suas áreas de influência para a organização e a atuação nos atos públicos, fomentando greves e paralisações, onde for possível.

Ousar lutar, ousar vencer!
Só a unidade e a organização da classe trabalhadora derrotam o capital!

29 de julho de 2009
Comissão Política Nacional
Comitê Central
PCB – Partido Comunista Brasileiro

domingo, 19 de julho de 2009

ANOTAÇÕES DE PARIS, ATENAS E SUBÚRBIOS-I



ANOTAÇÕES DE PARIS, ATENAS E SUBÚRBIOS-I
POR: João Quartin de Moraes


A revista comunista italiana L’Ernesto, em seu número de janeiro-abril 2009, atribuiu às eleições de junho para o Parlamento Europeu “um valor político que ultrapassa as conotações de uma consulta eleitoral normal”, já que a crise “está tendo também em nosso país pesadas repercussões sobre as condições sociais de dezenas de milhões de pessoas”. Era razoável esperar que os efeitos perversos da colossal bancarrota de Wall Street favorecessem a esquerda. Mas eles favoreceram sobretudo o desalento da massa do eleitorado: a participação no escrutínio foi a mais fraca de todas as eleições parlamentares da União Européia. Essa participação, de resto, vem caindo de eleição para eleição, com notável regularidade: foi de 61,99% em 1979, de 58,98 em 1984, de 58,41 em 1989, de 56,67% em 1994, de 49,51 em 1999, de 46,47% em 2004 e de 43,08% em 2009.

O desalento eleitoral das massas populares européias é uma das muitas conseqüências perversas do curso reacionário da historia mundial após a derrocada e desmantelamento da URSS. Elas foram bem sintetizadas pelo historiador marxista britânico Eric Hobsbawm: a burguesia perdeu o medo. Mas não perdeu tempo para desencadear frenética campanha de “privatização” e de "enxugamento" , responsável pelo desemprego crônico de dezenas de milhões de trabalhadores, bem como pela redução dos direitos sociais à mínima expressão, sobretudo os dos mais fracos e vulneráveis (turcos na Alemanha, norte-africanos na França, Espanha e Itália). A social-democracia não configurou alternativa de fundo ao agressivo neoliberalismo da direita. Desgastou-se em frustradas tentativas para executar moderadamente a mesma política de redução dos “custos sociais” da valorização do capital em escala mundial e embarcou nas sórdidas aventuras bélicas da OTAN, visando a recolonizar o planeta, sempre, claro, em nome da tal “democracy”, da qual os Estados Unidos (EUA) e a União Européia (EU) se consideram paradigmas.

Na verdade, nesses dois pilares do imperialismo (ou Ocidente, como eles dizem), a democracia está manietada pelo liberalismo. As Constituições ocidentais admitem todas que todo o poder “emana” do povo ou lhe “pertence”, ou ainda, nele “reside” e “em seu nome é exercido”. Não cabe analisar aqui essas diferenças terminológicas. Notemos apenas que as mais impregnadas de liberalismo preferem “emanar” a “pertencer” (ou “residir”), porque, à semelhança da tubulação que conduz a um reservatório a água captada na fonte de que emana, a ordem constitucional canaliza o poder que emana do povo, pondo-o a serviço, através de múltiplos arranjos de engenharia institucional, dos interesses da classe dominante e das que lhe são aliadas. Esses interesses nem sempre são plenamente compatíveis. As alianças de classes funcionam na medida em que o interesse hegemônico leva em conta interesses que integram o bloco dominante, sem, contudo serem hegemônicos. É o caso, nos Estados Unidos e na União Européia, dos agricultores fortemente subsidiados, porque se não o fossem, seria muito forte o risco de ruptura do equilíbrio social. (A subordinação das relações econômicas burguesas à lógica do capital financeiro não é, portanto absoluta. Leva em conta os interesses dos “sócios menores”).


O desinteresse da maioria dos eleitores europeus pelas eleições parlamentares também se explica, em boa medida, pelo repúdio à manipulação liberal da soberania popular. O mais gritante exemplo recente está nos métodos de aprovação, por imposição, da Constituição da União Européia (UE). Na maioria dos países membros, a direita e os liberais no poder, farejando a fraca aceitação do projeto, acharam mais prudente aprová-lo pela via parlamentar. Em 2005, após insistente pressão das forças democráticas, a França e a Holanda submeteram o projeto ao veredicto do corpo eleitoral. Nos dois países, ele foi rejeitado por nítida maioria: 55% e 62% dos votantes, respectivamente. Na França, cerca de 70% dos eleitores participaram do referendum (ao passo que nas eleições para o Parlamento europeu de junho de 2004, a taxa de participação tinha sido de 42,8%, abaixo da média da EU). Mas a única conseqüência política que os governos e o Parlamento europeu tiraram dessa dupla derrota foi redigir um novo tratado, modificando superficialmente o texto rejeitado pelo sufrágio universal.

Aprovado em 19 de outubro de 2007 pelo Conselho Europeu reunido em Lisboa, assinado em 13 de dezembro do mesmo ano pelos 27 chefes de Estado ou de governo da EU, também reunidos em Lisboa, o novo tratado foi enviado aos Estados-membros, cada qual podendo adotar procedimento próprio de ratificação. Obviamente, escaldados pela rejeição popular, os eurocratas de todos os países, salvo a Irlanda, recorreram à sempre segura via parlamentar. Sem surpresas, ao longo de 2008, todos os parlamentos aprovaram o tratado de Lisboa. Só a Irlanda o rejeitou, pela via do sufrágio universal (53,4% contra).


Tais foram os antecedentes políticos das eleições de junho 2009 para o Parlamento Europeu. Embora não tivesse atravessado o Atlântico com o objetivo precípuo de analisar a campanha e seus resultados, pude constatar, andando por Paris, Atenas e subúrbios respectivos na segunda metade de maio e na primeira de junho, o firme empenho dos comunistas dos dois países para vencer a compreensível apatia popular perante a disputa eleitoral. O Front de Gauche, cuja coluna vertebral é o PCF, entrou a fundo na campanha. Em meados de maio, antes dos demais partidos e coligações, seus cartazes e outros materiais já ocupavam os espaços reservados à propaganda. Na Grécia, o KKE (Kommounistikó Kómma Elládas) também marcou fortemente sua presença. Em vibrante concentração popular na tarde de 3 de junho em Atenas, a camarada Aleka (Alexandra) Papariga, secretária geral do CC do KKE, fez um apelo à participação eleitoral e denunciou “que no dia seguinte ao das eleições”, a cúpula eurocrática desencaderia um "ataque frontal à previdência social, saúde e bem-estar, conforme decisões tomadas em Praga”. O KKE frisou Aleka, "permanece um adversário irreconciliável do apodrecido sistema político da burguesia”.

JOÃO QUARTIN DE MORAES
Original : Lista discussão Eskuerra
(continua)

Crise do capitalismo e luta de classes




Crise do capitalismo e luta de classes

Marco Antonio V. dos Santos [*]

Retomamos o Boletim do CeCAC (Centro Cultural Antonio Carlos Carvalho) em uma nova conjuntura. Uma conjuntura em que a crise latente e prolongada (desde a década de 1970) do imperialismo encontra-se em uma fase aberta, mais aguda, constituindo-se na maior crise do capitalismo desde a grande depressão dos anos 30 do século passado, com tendência a se aprofundar e se arrastar por longo período. Não é uma crise localizada, do subprime, da esfera financeira, como inicialmente trataram de alardear os arautos das classes dominantes. É uma crise do processo de acumulação capitalista, de sobreacumulação de capital e superprodução de mercadorias.

Do ponto de vista do marxismo, as crises econômicas do capitalismo são inevitáveis, são resultado das contradições inerentes deste modo de produção, como a tendência à queda da taxa média de lucro, o permanente processo de concentração e centralização do capital, a produção social e apropriação privada, com concentração de riqueza em um polo e miséria no outro.

O modo de produção capitalista tem como fundamento a exploração da força de trabalho, a produção de mais-valia, e a tendência à intensificação da exploração. É a férrea lei do valor, a valorização do capital, a sua reprodução ampliada. E, na perspectiva do capitalismo, a principal característica das "saídas da crise " é o aprofundamento da intensificação da exploração, o aumento da taxa de mais-valia, a taxa de exploração.

A forma como a crise do imperialismo se apresenta em cada conjuntura é também expressão da luta de classes que permeia todo o processo de produção capitalista; expressão da contradição fundamental proletariado x burguesia, explorados x exploradores.

Somente a luta de classes, a resistência e força do proletariado e demais classes oprimidas, impõe limites à exploração capitalista, enfrenta a força e ofensiva da burguesia. Do ponto de vista do proletariado, das classes dominadas, as contradições do modo de produção capitalista - e a sua contradição fundamental: burguesia x proletariado - só são superadas pela revolução, com a tomada do poder de Estado pelo proletariado e seus aliados, num longo processo de transição para o socialismo e o comunismo, com a derrota definitiva do capitalismo e o fim das sociedades divididas em classes.

O capitalismo não cai de podre, apesar de crises mais ou menos profundas. E, nesse sentido, a crise, um período de grande queima de capital, coloca para o sistema imperialista, para as classes dominantes, a possibilidade e a necessidade de "saída da crise" (mesmo que essa "solução momentânea" crie as condições de crises mais violentas no futuro) e retomar o processo de valorização do capital, retomar a taxa média de lucro. A atual crise, como exemplo, está condicionada pela forma de contrarestar a crise anterior, que implicou em uma reconfiguração da economia/produção mundial e num aumento exponencial da valorização do capital na esfera financeira, a valorização fictícia do capital. Como afirma Marx, em "O Capital": "As crises não são mais do que soluções momentâneas e violentas das contradições existentes, erupções bruscas que restauram transitoriamente o equilíbrio desfeito".

Com a crise, há o reforço da tendência do imperialismo para a violência, a repressão, a fascistização e ofensiva ideológica, a militarização e as guerras contra os povos a fim de impor e garantir a intensificação da exploração, aprofundando a barbárie, assim como a tendência à cooptação política para tentar conter e amortecer a luta de classes.

Por outro lado, o agravamento da crise - e seus efeitos concretos para as massas populares: a recessão, o desemprego, o ataque aos diretos conquistados pelos trabalhadores, o arrocho salarial, o aumento da miséria - exacerba todas as contradições do sistema imperialista (com destaque para as suas quatro principais contradições: interimperialista; países imperialistas x povos dos países dominados; capitalismo x socialismo; burguesia x proletariado) e a luta de classes. E, assim, amplia a revolta e resistência dos povos contra a intensificação da exploração e o aumento do desemprego e da miséria. Ao expor de forma mais escancarada estas "mazelas" do modo de produção capitalista, a crise - com suas contradições e limites - estimula ainda mais esta resistência.

Para o proletariado e demais classes oprimidas, a crise coloca o objetivo - enquanto perspectiva de longo prazo - de libertar-se da exploração, derrotar o imperialismo, o capitalismo, fazer a revolução.

É a partir do estágio da luta de classes, da correlação de forças, que devemos analisar a conjuntura e as tarefas dos explorados. A atual conjuntura é desfavorável para as classes dominadas: quem mantêm a iniciativa política são as classes dominantes, no geral, em nível internacional. Há ainda um quadro de defensiva do proletariado e seus aliados e de ofensiva do imperialismo. Defensiva marcada pelo reformismo e a conciliação de classes no movimento operário e popular em nível mundial.

No entanto, esta é uma conjuntura que abre novas possibilidades para a classe operária e demais classes oprimidas. Mas para que a crise leve a um acúmulo de forças no sentido revolucionário é fundamental a elevação do nível de consciência e organização dos explorados e oprimidos, a consciência dos limites do capitalismo, ou seja, de que não é possível humanizá-lo, não é possível conciliar interesses antagônicos, alcançar igualdade entre exploradores e explorados.

A elevação do nível de consciência do proletariado e os dos povos está integrada ao crescimento do seu nível de resistência e luta, que tem como base os seus interesses concretos e imediatos, econômicos, políticos e, no mesmo processo, a construção/reconstrução/fortalecimento de partidos revolucionários, temperados na luta de classes, forjando a teoria e a prática revolucionárias. Se a correlação de forças é desfavorável, percebe-se, entretanto, um avanço se comparado ao estágio de defensiva política e ideológica de dez, quinze anos atrás, quando prevalecia o "pensamento único" "neoliberal". As massas, no mundo, vêm aumentando seu nível de resistência e luta, criando melhores condições para as tarefas revolucionárias.

Relembramos nossas palavras em texto de 2003:

"(...) as classes dominadas no Brasil estão ainda num processo, no geral, defensivo, apesar de que a eleição de Lula expressou seu grau de insatisfação' e sabemos que é na luta de classes que a classe operária constrói suas organizações de luta sindical e política e sua teoria. E nesta conjuntura de defensiva das classes dominadas, em que temos um metalúrgico [com as posições políticas de Lula] como presidente, temos de levar em consideração que elas se vêem na necessidade de encaminhar suas lutas sem contar com sua organização sindical e política de luta.

O que diz o marxismo-leninismo é que a história é a história das lutas de classes, que são as massas exploradas que fazem a história e a fazem na luta de classes sob a direção da organização política da vanguarda do proletariado. E que o partido não poderá assumir esse papel de direção, que pressupõe a educação das massas, sua mobilização e organização, se não estiver profundamente ligado a ela, se não fizer corpo com a classe operária e com as massas exploradas nos desafios de suas reivindicações objetivas econômicas e políticas. Porque, quando as massas se põem em movimento, só aceitam a direção política do partido se este já há muito tempo faz corpo com elas em seu dia a dia, se já está há muito tempo unido a elas na longa, difícil, heróica, tenaz, e no mais das vezes silenciosa, luta contra a exploração econômica do regime capitalista, seguindo uma linha justa."

Nós do CeCAC reafirmamos nosso compromisso de contribuir neste processo, estimulando e participando de lutas de massas, contribuindo para a reconstrução do partido revolucionário, com sua teoria justa, ampliando o contato e relacionamento com forças e lideranças políticas do campo popular, tendo como critério da verdade o desenvolvimento da prática. Estamos ampliando as atividades do CeCAC a fim de congregar mais e mais companheiros que estão na militância política, ampliando o trabalho de formação, com o estudo do marxismo-leninismo, "sem perder de vista o primado da prática sobre a teoria, isto é, o primado da luta de classes na economia e na política sobre a luta de classes na teoria."

[*] Presidente do CeCAC

Este texto foi publicado no Boletim do CeCAC de junho/julho-2009
http://www.cecac.org.br/

sábado, 18 de julho de 2009

LULA DEFENDE SARNEY E ABRAÇA COLLOR:


LULA DEFENDE SARNEY E ABRAÇA COLLOR:
O vale tudo para a eleição de Dilma!

(Ivan Pinheiro)

Não costumo me entusiasmar com campanhas contra a corrupção, quando personalizadas exclusivamente em algum corrupto específico. Passa sempre a ilusão de que, uma vez derrubado o personagem, a ética volta a imperar na política e nas instituições burguesas. A corrupção é sistêmica no capitalismo; é inerente a ele. A queda de um corrupto não acaba com ela.

Com a vitória do “Fora Renan”, veio o “Fora Sarney”. Também não adianta levantar o “Fora Senado”, pois ainda restará a Câmara dos Deputados, aquela do “mensalão”, presidida pelo indefectível Michel Temer, com aquele ar de mordomo de filme de terror.

A esquerda já devia ter aprendido que não pode fazer da luta contra a corrupção a sua bandeira principal, ainda mais dissociada da luta contra o capital. A não ser por oportunismo, para angariar votos na próxima eleição. Como ajudamos a despolitizar o “Fora Collor”, deixando de denunciar seu governo como neoliberal! O seu impedimento resultou em Itamar Franco, que logo iniciou o processo de privatização e de flexibilização de direitos trabalhistas.

No caso do “Fora Sarney”, entretanto, a campanha pode ter um bom resultado político e até mesmo ideológico, se conseguirmos associá-la à denúncia da farsa da democracia burguesa e do caráter corrupto do capitalismo. Ninguém melhor do que Sarney para simbolizar a corrupção, entendida em todos os seus variados tipos e aspectos; ele é a cara do Estado brasileiro.

Não tenho também ilusão de convencer lulistas que ainda se dizem “de esquerda” (hoje há também os de direita e de centro), depois de quase seis anos de um governo cujo eixo é o “espetáculo do crescimento”, o destravamento do capitalismo, custe o que custar em questões sociais ou ambientais.

Podem anotar: a disputa em 2010 vai ser em torno de números macroeconômicos, ou seja, quem foi melhor para o capital: FHC ou Lula? Como foi a entrada de capital estrangeiro? E o “Risco Brasil”? Quem gerou mais e piores empregos? Quem ajudou mais o capital?

Lula realmente é “o cara”, um ex-sindicalista terceirizado pela burguesia. Ninguém com mais autoridade para iludir os trabalhadores. É hoje o principal garoto propaganda mundial do “capitalismo do bem”; é o contraponto ao socialismo e à luta de classes, o animador de todos os shows midiáticos das cúpulas internacionais. Distribui sorrisos e camisas da seleção brasileira; acha chique o Brasil emprestar ao FMI.

Suas viagens internacionais são fundamentalmente para criar “janelas de oportunidade” para as multinacionais de origem brasileira surfarem na crise e, de quebra, reforçar uma imagem que lhe capacite a ocupar importantes papéis no cenário mundial, nos quatro anos em que estará fora da Presidência. Quem sabe uma importante função no Banco Mundial ou na ONU?

Mas, com tudo isso, ainda causa desconforto ver a foto de Lula abraçado com Collor em Alagoas, fazendo “justiça” pública a este e a Renan, seus candidatos, naquele Estado, às eleições de 2010, o primeiro a Governador e o segundo a Senador!

Esta fotografia marca o início do mergulho ao fundo do poço. A partir de agora, não estranhemos mais nada. O governo Lula é, cada vez mais, refém da governabilidade institucional burguesa e da corrupção que lhe é inerente. Foi seqüestrado politicamente pelo PMDB e pelo que há de pior entre os caciques políticos brasileiros: Sarney, Renan, Collor, Jader Barbalho, Gedel Vieira Lima, Michel Temer.

Se necessário, Lula vai humilhar mais o PT. Chegou ao ponto de exigir que o partido defenda Sarney a qualquer custo e que não lance candidatos a governador, para entregar os Estados a oligarcas aliados. É capaz de pagar qualquer preço para o resgate do seqüestro: a eleição de Dilma como sucessora.

Mas é preciso ficar claro que essa obsessão não é ditada pela preocupação da continuidade de um projeto de governo. Lula sabe que com Dilma, Serra ou Aécio este projeto continua. É o projeto do Estado burguês brasileiro. O que pode mudar apenas são as boquinhas e o estilo.

Lula resolveu escolher como candidata um “poste político”, sem densidade eleitoral, exatamente para que tenha que comer pela sua mão, de forma a garantir seus verdadeiros projetos: o domínio da máquina estatal, a não apuração de atos de seu governo, um protagonismo internacional e, sobretudo, a volta triunfal para mais oito anos, em 2014, para delírio dos lulistas de todos os matizes.
Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB

sábado, 11 de julho de 2009

O socialismo foi traído


O MAFARRICO PUBLICA MATÉRIA DO JORNAL AVANTE (PORTUGAL) DE

SETEMBRO/2008

Série : traidores do Socialismo

1-Gorbatchov




O socialismo foi traído






Entrevista com Roger Keeran e Thomas Kenny


O socialismo foi traído


Jornal AVANTE


Roger Keeran e Thomas Kenny são militantes comunistas norte-americanos. Roger é historiador com obra publicada e professor universitário. Thomas é economista. Amigos de longa data, lançaram-se juntos no estudo e aprofundamento das causas que levaram à derrota do socialismo e à desagregação da URSS, malogro que significou uma perda incalculável para os trabalhadores e povos oprimidos de todo o mundo. As reveladoras conclusões a que chegaram estão expostas no seu livro Socialismo Traído, recentemente publicado pelas Edições Avante!



Desde quando e porquê se interessaram pela investigação das causas da derrota do socialismo e do colapso da União Soviética?


Thomas Kenny – Tanto eu como o Roger considerámos os acontecimentos entre 1989 e 1991, o colapso do socialismo europeu, como um desastre titânico. Após 1991 pensámos que a história do socialismo suscitaria o interesse de muitos investigadores e que haveria uma avalanche de publicações sobre o assunto. Mas enganámo-nos, não houve nada, apenas silêncio. Apesar de este não ser o campo de trabalho de nenhum de nós, decidimos especializar- nos nesta área para fazer a investigação, lendo toda a literatura que encontrámos disponível. Trabalhámos durante quatro anos, entre 1991 e 2004, ano em que publicámos o livro nos Estados Unidos com as conclusões do estudo.Mas o que nos levou realmente a tentar determinar as causas do colapso foi o facto de a teoria em que acreditamos não «autorizar» tal situação. O colapso do socialismo estava em contradição com tudo aquilo em que acreditávamos. Nunca pensámos que fosse possível destruir o socialismo, antes pelo contrário acreditávamos firmemente que o socialismo iria desenvolver- se e crescer continuamente.


O materialismo histórico estaria afinal errado?…


TK – Não. Estávamos certos de que, enquanto método, o materialismo histórico permanecia válido, mas interrogámo-nos por que é que nada se disse sobre isto? Precisámos de muitas leituras e mais de um ano e meio até começarmos a identificar algumas peças deste puzzle e nos darmos conta do peso da chamada «segunda economia» na União Soviética, factor que se revelou decisivo nas nossas conclusões.


Roger Keeran – Nós acreditávamos que o socialismo do século XXI precisava de saber o que é que tinha acontecido ao socialismo do século XX. Depois da Revolução de Outubro, o acontecimento mais importante do século XX foi, talvez, a destruição da União Soviética e do socialismo na Europa.



Existe a ideia de que a perestróika constituiu uma resposta a uma crise económica, social, política, cultural, ideológica, moral e partidária, consequência de graves deformações ao ideal socialista, de distorções, erros e atrasos acumulados ao longo de muitos anos. Afirma-se que o «modelo» soviético de socialismo havia esgotado as suas potencialidades de desenvolvimento, tornando-se necessário proceder a reformas radicais. Querem comentar?


RK – É natural que perante um passo atrás tão tremendo as pessoas tendam a reagir com exagero na avaliação das suas causas. Não havia crise nenhuma na União Soviética, havia problemas, mas não uma crise…


Mas para a maioria das pessoas é uma evidência de que só uma profunda crise poderia provocar tal catástrofe...


RK – Acho que podemos sintetizar o nosso ponto de vista do seguinte modo: não foi a doença que matou o socialismo mas sim a cura. Ao contrário do que muitos pensam, não havia sinais de uma crise: não havia desemprego, inflação, manifestações, etc. Mas isto não significa que não houvesse problemas. É claro que os havia, designadamente no plano económico, muito deles agravados no período de Bréjnev, cuja liderança se caracterizou por uma passividade e falta de vontade para enfrentar os problemas. Neste sentido podemos dizer que houve uma espécie de «estagnação», apesar de não gostarmos desta palavra, já que significa ausência de crescimento, o que não corresponde à verdade.


Os problemas económicos agravaram-se a partir de que altura?


TK – A taxa de crescimento da economia começou a abrandar a partir da época de Khruchov, passando de 10 a 15 por cento ao ano para cinco, quatro e três por cento. Houve uma clara desaceleração, mas continuou a observar-se um crescimento respeitável segundo os padrões capitalistas, o que permitiu elevar continuamente o nível de vida na União Soviética. Em 1985 o nível de vida tinha atingido o seu ponto máximo.No plano das nacionalidades, não se observavam conflitos ou contradições nacionais relevantes entre os povos da União Soviética. Havia problemas, dificuldades, mas não uma crise.No plano internacional, a URSS estava sob pressão do imperialismo norte-americano. A administração Reagan aumentou a pressão militar, económica e diplomática. Também identificámos problemas no interior do partido que exigiam reformas. Mas a questão principal era outra.(210+15 nota rodapé)


«Só com Gorbatchov a direita triunfou»


Se, como afirmam, o socialismo não estava em crise, qual a origem das reformas destruidoras realizadas no final dos anos 80 na URSS?


TK - Ao longo da história da União Soviética digladiaram- se sempre duas tendências na política soviética: uma ala de direita, que defendia a incorporação de formas e ideias capitalistas, e uma ala de esquerda que apostava na luta de classes, num partido comunista forte e na defesa intransigente das posições da classe operária. De resto, encontramos estas duas correntes mesmo antes da revolução de Outubro. Os mencheviques, por um lado, e os bolcheviques por outro. Mais tarde esta luta é polarizada por Bukhárine e Stáline, Khruchov e Mólotov, Bréjnev e Andrópov, Gorbatchov e Ligatchov. Toda a história da URSS pode ser vista à luz da luta entre estas duas correntes. No entanto, só com Gorbatchov a ala direita obteve um triunfo completo.


RK – Bréjnev, com a sua política de estabilidade de quadros e o seu receio de fazer ondas, deixou uma direcção extremamente envelhecida e permitiu que se agravassem vários problemas na economia e na sociedade. A carência de alguns produtos, sobretudo os de alta qualidade, o desenvolvimento da «segunda economia», a corrupção de dirigentes do partido, tudo isto desagradava às pessoas. Quando Gorbatchov prometeu resolver estes problemas, quase toda a gente concordou. Parecia que finalmente tinha aparecido alguém com vontade de mudar as coisas para melhor.



Todavia, alguns apontam como causas do colapso a degeneração do partido comunista, o facto de o trabalho colectivo ter sido substituído a dada altura por um pequeno círculo de dirigentes e mesmo por um só dirigente individualmente; a democracia partidária ter sido estrangulada por um sistema burocrático centralizado; a indesejável fusão e confusão entre as estruturas do partido e do Estado; o afastamento do partido das massas; o fracasso da democracia socialista que era apresentada como um tipo superior de democracia. De acordo com esta tese, o povo soviético foi despojado do poder político e isso foi fatal para o socialismo. Concordam?


TK - A visão de que a União Soviética sofria de um défice democrático e de um excesso de centralização está muito espalhada entre socialistas reformistas, sociais-democratas, historiadores burgueses e mesmo entre alguns comunistas, mas, na nossa opinião, é uma visão errada e exagerada dos problemas da democracia soviética.Apesar de alguns problemas, a democracia soviética tinha uma grande vitalidade. Cerca de 35 milhões de trabalhadores participavam directamente no trabalho dos sovietes, que eram instituições de poder que tomavam decisões efectivas, 163 milhões de trabalhadores estavam sindicalizados, o partido tinha 18 milhões de militantes, a democracia tinha outras instituições como as secções de cartas do leitor em todos os jornais, as organizações de mulheres e de jovens. É verdade que todas estas instituições tinham insuficiências, poderiam funcionar melhor e de forma mais efectiva, mas não é verdade que fossem instituições de fachada.As pessoas que atacaram o nosso livro acreditam, na sua maioria, que a falta de democracia e o excesso de centralização foram as causas do colapso soviético. Curiosamente, este sempre foi o principal argumento da burguesia para difamar o regime soviético muito antes da chegada de Gorbatchov. Na nossa opinião é incorrecto acusar a democracia soviética de ter levado ao colapso.


RK – Muitas dessas críticas radicam na concepção burguesa de democracia. Na verdade a União Soviética sempre foi acusada de não ter uma democracia burguesa, de não ter partidos concorrentes. Todavia, as formas de democracia socialista, sem serem perfeitas, eram sob muitos aspectos muito mais ricas do que a democracia burguesa. Penso que o recente conflito na Geórgia nos fornece um exemplo a este respeito. Na antiga União Soviética, a Ossétia do Sul era um território autónomo onde as minorias étnicas tinham as suas escolas, língua, cultura. Após a desagregação da URSS, a «democracia» georgiana aboliu o estatuto de autonomia dos ossetas, o que agravou as tensões e desembocou numa guerra na região.



TK – Houve razões históricas que determinaram que na URSS apenas houvesse um partido. Logo a seguir à revolução os restantes partidos combateram o poder soviético, os socialistas revolucionários abandonaram o governo e tudo isso levou a que apenas ficassem os bolcheviques. A maioria dos países socialistas europeus tinha vários partidos, embora o papel dirigente do partido da classe operária fosse salvaguardado. A existência de um só partido acentuou a ideia de fusão entre o partido e o Estado, mas não vemos que isso possa ter constituído uma causa do colapso.



Mas as insuficiências da democracia soviética não terão impedido o povo de defender as conquistas revolucionárias, a URSS e o socialismo?


TK – Esse é o principal argumento dos que afirmam que havia um défice democrático. Porque é que o povo não defendeu o socialismo? Perguntam dando como resposta a falta de democracia e o excesso de centralização. Em primeiro lugar, não é verdade que não tenha havido resistência. Houve, basta lembrar que, no referendo de 1991, a maioria esmagadora dos soviéticos (75 por cento) votou a favor da manutenção da URSS.Por outro lado, para percebermos porque é que essa resistência não foi suficientemente forte para derrotar a contra-revoluçã o, temos de ter em conta o seguinte: Gorbatchov e Iákovlev, ao mesmo tempo que prometiam o aperfeiçoamento do socialismo, com mais liberdade e democracia, destruíram num curto espaço de tempo as instituições através das quais a base do partido e o povo podiam expressar a sua vontade. A organização do partido foi desmantelada, os jornais e todos os meios de informação foram entregues a anticomunistas. De repente desapareceram os mecanismos e formas habituais de expressão democrática popular.



Regressando à economia, ficou-nos da perestróika a ideia de que o excesso de centralização, de planificação e de burocracia foram os causadores dos atrasos no desenvolvimento económico. Alguns acrescentam que houve uma estatização exagerada da economia, que as diferentes formas de propriedade deveriam ter sido mantidas e que o papel do mercado foi claramente subestimado durante o processo de construção do socialismo. Qual é o vosso ponto de vista?


RK – Penso que temos de começar por fazer a seguinte observação que ninguém contesta: a propriedade social dos meios de produção na União Soviética permitiu os mais rápidos ritmos de crescimento industrial jamais registados em qualquer época da história. Isso ocorreu nos anos 30, mas também a seguir à guerra até meados dos anos 50. Em quatro ou cinco anos, a União Soviética conseguiu recuperar da devastação provocada pela II Guerra Mundial, que deixou em ruínas um terço das cidades e um terço das indústrias.Por tudo isto, nunca pensámos que a propriedade estatal, a centralização e a planificação pudessem ter causado o colapso. Mas havia algumas questões que precisavam de ser explicadas. Porque é que o crescimento começou a declinar nos anos 60 e 70. A economia continuava a crescer, mas qual era a razão da desaceleração? Os críticos da planificação centralizada viram aqui a demonstração das suas teses…



Talvez as enormes proporções atingidas pela economia colocassem verdadeiros problemas e dificultassem essa planificação?


RK – Sim, é certo que a expansão da economia tornou a planificação numa tarefa mais complexa. Todavia, a conclusão a que chegámos aponta em sentido contrário, ou seja, foi a erosão da planificação e o florescimento da «segunda economia» que colocaram entraves ao crescimento económico na URSS.



Não foi portanto a subestimação do papel do mercado, mas antes as medidas tomadas para o seu alargamento que desviaram recursos da economia socialista?TK - Todas as sociedades socialistas têm mercados. A própria União Soviética sempre teve um mercado para o consumo privado. No entanto, as reformas económicas de Khruchov não só descentralizaram a planificação como introduziram alguns mecanismos de mercado na economia e formas de concorrência entre as empresas. As reformas de Kossiguin [primeiro-ministro da URSS entre 1964 e 1980] traduziram-se em cada vez maiores concessões ao modo de pensar capitalista. Dos cinco institutos mais importantes e influentes de economia política soviéticos, três estavam nas mãos de economistas pró-capitalistas do tipo de Aganbeguian, por exemplo. Os principais sectores da inteligensia, incluindo os economistas, exerciam importantes pressões sobre o governo. Este foi um processo que se desenvolveu ao longo de 20 anos, não aconteceu tudo de uma vez.



Para alguns a perestróika tinha boas intenções mas falhou. No vosso livro, afirmam que esta foi a grande oportunidade para as forças anti-socialistas avançarem. Qual foi a responsabilidade e que intenções reais teve Gorbatchov em todo este processo?


TK – Apesar das suas posições oportunistas, não pensamos que Gorbatchov tenha agido conscientemente logo de início para trair o socialismo e restaurar o capitalismo. Ao contrário de Andrópov, que era profundo e um marxista-leninista genuíno, Gorbatchov era um brilhante actor, mas uma pessoa superficial, sem grande preparação teórica. Quando se deslocou politicamente para a direita sob a influência de Iákovlev*, descobriu que o imperialismo o aprovava, que os elementos corrompidos do partido concordavam com ele, especialmente aqueles ligados à segunda economia que defendiam o sector privado, e aos poucos foi acelerando as reformas neste sentido. A dado momento Gorbatchov tomou a decisão consciente de que não era mais um comunista, mas um social-democrata, não acreditava mais na planificação, na propriedade social dos meios de produção, no papel da classe operária, na democracia socialista, queria que a União Soviética se transformasse numa Suécia ou algo parecido.O oportunismo, o abandono da luta foi um processo gradual que se tornou evidente em 1986. Alguns dirigentes do partido ofereceram determinada resistência, como foi o caso de Ligatchov*, mas mesmo este tinha fraquezas, embora fosse de longe melhor homem do que Gorbatchov. Ligachov foi apanhado de surpresa. Ele próprio afirmou que havia duas formas de corrupção, uma que há muito todos sabiam que existia, e à qual queriam pôr fim quando assumiram o poder em 1985; e uma outra que surgiu no espaço de um ano e meio como uma forte vaga de pressão, vinda da «segunda economia» e das organizações mafiosas florescentes.



Como puderam esses sectores emergir com tal força na sociedade socialista?


TK – A «segunda economia» alcançou uma expressão importante em dois períodos da história da URSS: o primeiro foi durante a Nova Política Económica (NEP) dos anos 20 que permitiu o desenvolvimento do capitalismo, sob controlo estatal dentro de determinados limites. Esta foi uma opção consciente do Estado socialista tomada provisoriamente para fazer face à situação de emergência causada pela guerra civil. Em 1928-29 a NEP foi superada de forma decidida.No entanto, dirigentes do partido como Bukhárine defenderam a manutenção da NEP apresentando- a como a via mais adequada para alcançar o socialismo. Esta corrente foi derrotada pela maioria do partido liderada por Stáline, que justamente lembrou que a NEP fora definida por Lénine como um recuo necessário, porém temporário. E apostaram na planificação centralizada e na propriedade social dos meios de produção.Mas este período dos anos 20 ficou marcado não só pelo florescimento do capitalismo e dos sectores marginais e criminosos, mas também pelo alastramento de uma ideologia de direita, anti-socialista. Ou seja, podemos ver claramente uma correspondência entre a base material e a ideologia.O segundo período foi mais prolongado e gradual. Teve início em meados dos anos 50, após a morte de Stáline. Khruchov foi a primeira peça deste puzzle. Em muitos aspectos, não todos, teve desvios de direita e quando estes foram demasiados houve uma correcção. Veio Bréjnev, mas este detestava mudanças, queria estabilidade, e apesar das disputas entre as alas esquerda e direita os problemas continuaram a acumular-se.



*Alekssandr Iákovlev - responsável a partir de 1985 pelo departamento de propaganda do PCUS, torna-se membro do CC do PCUS em 1986, responsável pelas questões da ideologia, informação e cultura. Sobe ao politburo em Junho de 1986 e é sob proposta sua que são nomeados os directores dos principais jornais e revistas do país que passam a defender abertamente posições antisocialistas (os jornais Moskovskie Novosti, Sovietskskaia Kultura, Izvestia; as revistas Ogoniok, Znamia, Novi Mir, entre outros. Faz publicar uma série de romances de escritores dissidentes e anti-soviéticos, bem como cerca de 30 filmes antes proibidos. Em Agosto de 1991 anuncia a decisão de abandonar o PCUS.



*Egor Ligatchov – membro do politbureau entre 1985 e 1991, foi um dos impulsionadores da campanha anti-álcool (1985-87) e, mais tarde, assumiu-se como um opositor às reformas de Gorbatchov.



«O socialismo é uma construção consciente»



Foi então o acumular de problemas na época de Bréjnev que condicionou as reformas dos anos 80?


TK – Nos anos 80, os problemas eram evidentes para todos, mas a questão-chave que se colocava era qual das duas tendências tradicionais no partido os iria resolver: a tendência de direita ou a tendência de esquerda?…



Infelizmente já conhecemos a resposta…


RK – Mas Bréjnev não teve apenas aspectos negativos. No plano internacional obteve a paridade militar com os Estados Unidos e ajudou os movimentos revolucionários em várias regiões do mundo. Este esforço no plano militar e no plano da solidariedade internacionalista exigiu importantes recursos que não puderam ser utilizados para suprir necessidades domésticas. Talvez também por esta razão que, durante este período, se tenha fechado os olhos ao sector privado ilegal que se desenvolvia nas franjas da economia socialista. Esta espécie de «pacto» com a «segunda economia» permitiu o surgimento de uma camada que ficou conhecida como «os milionários de Bréjnev», que eram pessoas que fizeram fortunas através de redes de corrupção toleradas pelo poder.



Essa é uma realidade pouco falada, sobretudo no que respeita às proporções que atingiu na sociedade soviética…


TK – Bem, trata-se de um sector ilegal, por isso não há números oficiais, o que torna o seu estudo difícil…



RK – Mas é verdade que se trata de um fenómeno ignorado e não reconhecido pela literatura marxista. A «segunda economia» foi sempre vista como um resquício do capitalismo que desapareceria à medida do avanço do socialismo. Contudo, há alguns estudos que nos mostram que o seu peso estava longe de ser negligenciável. Por exemplo, é interessante comparar o período de Bréjnev com os primeiros meses da direcção de Andrópov em termos de processos criminais instruídos por actividades económicas ilícitas. Verificamos que nos anos de Bréjnev não houve praticamente condenações pela prática deste tipo de crime, mesmo quando os casos chegaram a ser julgados em tribunal. Com Andrópov esta situação alterou-se radicalmente. Muitas pessoas foram condenadas nesse período.



No vosso livro, não dedicam muito espaço à análise do chamado «relatório secreto» apresentado ao XX congresso do PCUS por Khruchov sobre o «culto da personalidade» , mas referem a necessidade de reavaliar o período comummente designado por «stalinismo», notando que enquanto tal não for feito, os comunistas continuarão prisioneiros do passado. Querem explicar?


RK – Quando começámos a escrever o livro essa questão colocou-se e tivemos de tomar uma decisão. Decidimos que não iríamos entrar no tema quente de Stáline. Há muitos preconceitos enraizados e, sobretudo, há muitas coisas que não conhecemos suficientemente para podermos desmontar ideias feitas e diariamente repetidas sobre Stáline. A única coisa que fizemos, ou pelo menos tentámos, foi abrir a porta a este assunto. Nós não temos todas as respostas sobre Stáline e a sua época, e seria um erro pensar que temos. Há muitos aspectos históricos e políticos que precisamos de absorver e compreender.



Contudo, praticamente todas as conquistas do socialismo que enumeram na introdução do livro foram alcançadas em particular durante os anos 30, sob a direcção de Stáline…


TK – É um facto, mas tivemos de fazer uma opção entre tratar toda a questão ou apenas o que consideramos ser a questão-chave. Por acaso, a maioria dos ataques ao nosso livro por parte de marxistas ou pseudo-marxistas, sociais-democratas ou comunistas revisionistas centraram-se precisamente na questão de Stáline. Não contestaram nada do que dissemos sobre Gorbatchov nem sobre a «segunda economia», apenas nos censuraram por sermos demasiado brandos com Stáline e por não termos reconhecido que Stáline era um monstro, um louco, um carniceiro. Esta questão no Partido Comunista dos Estados Unidos é particularmente sensível.



Mas se a tese do vosso livro está correcta, então as políticas de Stáline terão sido as mais correctas e as únicas que podiam garantir a construção socialismo e defender as conquistas revolucionárias.


RK – O ódio a Stáline é tão cego e intenso que alguns críticos do nosso livro dizem que estamos errados e insistem que Stáline foi a causa do colapso da URSS.




Vem a propósito uma reflexão vossa sobre a importância do factor subjectivo no socialismo. Segundo afirmam, o papel dos dirigentes é mais decisivo no socialismo do que no capitalismo. Porquê?


TK – O capitalismo cresce enquanto que o socialismo é construído. No livro utilizamos uma metáfora em que comparamos o capitalismo a uma jangada a descer um rio. As possibilidades de dirigir a jangada são reduzidas, ela é arrastada pela força da corrente e apenas se podem fazer algumas pequenas correcções na trajectória. Nesta metáfora, o socialismo é um avião, o qual apesar de ser um meio de transporte incomparavelmente superior exige ser pilotado por uma equipa bem preparada científica e tecnologicamente, capaz de compreender e aplicar conscientemente as leis da ciência. Ou seja, apesar de o avião ser um sistema superior é vulnerável num sentido em que a jangada não o é. Isto não significa obviamente que devamos abandonar o avião e voltar à jangada, assim como não podemos voltar ao tempo das cavernas, apesar de as nossas casas poderem ruir.



O Socialismo Traído


Extractos



«A interpretação do colapso soviético envolve um combate pelo futuro. As explicações ajudarão a determinar se no século XXI os trabalhadores irão uma vez mais “lançar-se ao assalto do céu” para substituir o capitalismo por um sistema melhor.



»«Depois de 1953, começou a crescer dentro do socialismo uma nova base económica para as ideias burguesas.»



«Tais elementos que tinham (…) diminuído drasticamente com a colectivização da propriedade sob Iossif Stáline voltaram a aparecer com a chamada liberalização de Nikita Khruchov.»



«A abordagem de Khruchov (…) ia contra o aviso dado por Stáline em 1952 de que “deixar de dar primazia à produção de meios de produção» iria “destruir a possibilidade da expansão contínua da nossa economia”».



«Em Maio de 1957 Khruchov aboliu os mais de 30 ministérios de planificação central e substituiu-os por mais de 100 conselhos económicos locais. (…) A economia soviética cresceu a uma taxa mais lenta na segunda metade da década de 50 do que na primeira e cresceu a uma taxa mais lenta nos primeiros cinco anos da década de 1960 do que na de 1950.»



«Khruchov avançou (…) a ideia de que o PCUS deixara de ser apenas a vanguarda do proletariado para se tornar a vanguarda de “todo o povo” e de que a ditadura do proletariado se tornara o “Estado de todo o povo”.»



«Khruchov fez diversas mudanças no modo de funcionamento do Partido que diluíram o seu papel dirigente.»



«Toda a ideia de que a luta de classes terminou num mundo ainda dominado pelo capitalismo e pelo imperialismo, ou no interior de um Estado socialista, é ela própria uma manifestação da luta de classes a um nível ideológico.»



«A actividade económica privada (…) emergiu com uma nova vitalidade no tempo de Khruchov, floresceu com Bréjnev e em muito aspectos substituiu a economia socialista primária no tempo de Gorbatchov e de Ieltsin.»



«Grossman descobriu que no final da década de 70 a população urbana (que constituía 62% da população total) ganhava cerca de cerca de 30% do seu rendimento total a partir de fontes não oficiais, ou seja, da actividade privada quer legal quer ilegal.»



«Nas últimas três décadas e meia de existência da URSS, quanto mais se introduziam relações de mercado e outras reformas (…) mais as taxas de crescimento económico a longo prazo decresciam».



As taxas de crescimento soviéticas mais rápidas que se alcançaram ocorreram em 1929-1953, quando a direcção soviética defendia firmemente a planificação central e suprimiu as relações de mercado anteriormente toleradas durante a NEP de 1921-1929.»


«(…) O “ano Andrópov” (1983) revelou um rumo de reformas promissor, completamente diferente do caminho escolhido por Gorbatchov, que se revelou desastroso.»



«O colapso soviético não era inevitável. Não tem qualquer fundamento a conclusão alardeada nos media do grande capital de que o socialismo soviético estava condenado desde o início.»



«(…) O descontentamento popular surgiu no final e não no início das reformas de Gorbatchov. Foi um efeito das políticas de Gorbatchov e não a sua causa.»



«Gorbatchov e os seus defensores afirmaram que ele herdou uma sociedade em crise. Isto é falso. Em todos os sentido convencionais, a União Soviética não caíra na agonia de uma crise.»



«O socialismo soviético tinha muitos problemas (…) Contudo, corporizava a essência do socialismo tal como definido por Marx – uma sociedade que derrubara a propriedade burguesa, o “mercado livre”, o Estado capitalista, substituindo- os pela propriedade colectiva, a planificação centralizada e um Estado operário.»



«Segundo a UNESCO os cidadãos soviéticos liam mais livros e viam mais filmes do que qualquer outro povo no mundo. Todos os anos o número de visitantes dos museus correspondia a quase metade da população.»



«Os defensores da superioridade da democracia ocidental ignoram a exploração de classe, concentram-se no processo e não na substância e atribuem o mérito das realizações da democracia ao capital e não ao seu real defensor e promotor, a classe operária moderna.»



«O governo americano trabalhou sistematicamente com os sauditas e a OPEP para baixar o preço do petróleo no mercado mundial, uma jogada que ajudou a economia americana ao mesmo tempo que arruinava os soviéticos.»



«Em 1985 os sauditas aumentaram a sua produção petrolífera de menos de dois milhões de barris ao dia para nove milhões. No espaço de cinco meses, o preço do petróleo caiu para 12 dólares o barril».



«A URSS era demasiado forte para ser desestabilizada externamente. A escalada bélica dos EUA podia pressionar a URSS, mas não destruí-la.»



«Antes de Gorbatchov ter chegado ao poder, a influência ideológica da segunda economia tornou-se evidente no interior do Partido Comunista e do governo soviético.»



«A doutrina da coexistência pacífica, originalmente uma forma de luta anticapitalista por todos os meios excepto os militares, mudou para “valores humanos universais”, expressão que viria a ser usada para justificar a aliança com o imperialismo.»



«No espaço de um ano, Gorbatchov substituiu mais de 50% dos membros efectivos e suplentes do Politburo. Substituiu 14 dos 23 dirigentes de departamentos do Comité Central, cinco dos 14 presidentes de repúblicas e 50 dos 157 primeiros secretários de krais (regiões) e oblasts (distritos). Gorbatchov substituiu 40% dos embaixadores, alterou muitos ministérios e afastou 50 mil gestores.»



«Gorbatchov transformou o significado da Glasnost, de abertura do Partido e de outras organizações para crítica aberta ao Partido e à sua história.»


«No crucial plenário do CC de Janeiro de 1987, sob o slogan de “democratização” , teve início a exclusão do PCUS do poder político e económico.»


«Os dirigentes económicos de Gorbatchov converteram a organização da juventude comunista (Komsomol), com 15 milhões de membros, num centro de formação para jovens empresários. Usando recursos do Komsomol, os jovens capitalistas russos fundaram os primeiros bancos comerciais e bolsas do país.»


«A corrupção explica por que é que o Partido que tinha rejeitado Bukhárine e Khruchov (embora não sem estragos) não levou a melhor sobre Gorbatchov.»



In Roger Keeran e Thomas Kenny, O Socialismo Traído – Por Trás do Colapso da União Soviética, Edições Avante!, 2008

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A mídia oligárquica contra as revoluções



A mídia oligárquica contra as revoluções
Joaquín Rivery Tur


A estrela do Oriente não ilumina ninguém. Escurece o meio. Prepara um golpe cívico em Santa Cruz de la Sierra com os jornais também reacionários El Deber e El Mundo, que formam a poderosa trilogia dos jornais dessa cidade do leste boliviano nos infrutuosos empenhos da oligarquia para derrubar o governo de Evo Morales.


São guiados pelo egoísmo e ambições sem limites, e se ainda não conseguiram seus objetivos não é por falta de tentativas e manobras, mas Evo Morales e seu Movimento ao Socialismo (MAS) são um osso duro de roer e seus ricos inimigos estão se quebrando os dentes.


O grande aliado dos jornais é a televisão. Entre os quatro, os comícios não tão concorridos e o uso de grupos de assalto da União Juvenil Cruzenha, organização fascista, tentam vencer a grande massa que votou em Evo, ao passo que as bandas atacam aos partidários do MAS para colaborar com o terror.


O primeiro governo indígena da história de Bolívia está sob o ataque constante da mídia oligárquica, que publica mentiras abertas, semi-verdades manipuladas, enquanto oculta a grande tarefa que realiza o governo do MAS.


Nunca mencionam que, graças a esta administração humilde, a Bolívia se tornou o terceiro país alfabetizado da América Latina, que os recursos naturais agora são propriedade da nação, que foram modificados todos os contratos com as empresas petroleiras estrangeiras, que se entregaram milhões de hectares de terra a camponeses e indígenas, que se impulsionou a educação, que se fortalece a saúde para os pobres e é garantida aos idosos uma pensão mínima para sobreviverem em meio a uma crise internacional de terror.


Não só os bolivianos sofrem as consequências das campanhas midiáticas em defesa das grandes empresas nacionais e transnacionais. Antes que eles, também a padeceu a Revolução Bolivariana, liderada por Hugo Chávez.


Na Venezuela, a mídia, fundamentalmente um grupo de televisoras e jornais dos grandes empresários, apoiou abertamente o fugaz golpe de Estado de 2002 e, depois, nem sequer informou das barbaridades fascistas cometidas pelos que perpetraram o golpe, deturpou a realidade e atacou constantemente o governo bolivariano.


As grandes emissoras de televisão sempre estiveram à frente, amiúde, violando as leis. Mas os revolucionários não ficaram de braços cruzados. No ano passado, Radio Caracas Televisión (RCTV), uma das mais raivosas nos ataques contra Chávez, quem é chamado de ditador, como Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador, teve que enfrentar a caducidade da licença de transmissão aberta, não renovada, pelo qual teve que passar à TV a cabo, com igual veneno, só que com menos alcance.


Globovisión, emissora dedicada a transmitir notícias, a mais reaça contra Chávez, foi advertida há muito de que não pode divulgar notícias de fatos baseados em conjeturas, pois isso vai contra a lei.


Também seus diretivos acreditaram que continuar ativos lançando insultos contra o presidente e suas políticas sob a inútil "proteção" da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, entidade de proprietários de grandes jornais), das cruzadas internacionais sob falsas restrições e até da OEA, permitia-lhes cometer qualquer infração das leis vigentes, e foram pegos em delito tão graves como a sonegação de impostos, além de quatro processos judiciais contra eles, por diversas razões.


Os mesmos problemas e as mesmas acusações de querer eliminar a liberdade de imprensa, que ninguém pratica no capitalismo, são encarados no Equador pelo presidente Rafael Correa, que sofre os ataques da imprensa oligárquica por redistribuir um pouco mais a riqueza a favor dos pobres.


Atualmente, a emissora Teleamazonas é processada por incluir conteúdos impróprios em horários proibidos, por divulgar informação sem fundamento e instigar a manifestações populares com notícias falsas.


Desatou-se uma longa campanha de acusações contra o governo para tentar eliminar a liberdade de imprensa, como já fizeram na Venezuela e Bolívia, com qualquer medida adotada nesse respeito.


O presidente do Conselho Nacional de Radiodifusão e Televisão (Conartel), Antonio García, declarou que "não vamos ceder às pressões e vamos continuar aplicando de maneira responsável e legal a lei, como estabelece a Constituição com aqueles meios que merecem ser investigados ou processados".


Curiosamente, um comentário de um leitor publicado no jornal El Comércio, afirma: "No Equador, não esta plenamente vigente a liberdade de expressão, mas a liberdade de emprensa, já que os que controlam e têm acesso majoritário aos meios de comunicação são grupos de poder econômico, religioso e governos de turno".


As posições são firmes, mas o vice-presidente, Lenin Moreno, pediu tolerância, em declarações para a mesma Teleamazonas, e advogou por uma sanção não muito severa ao canal.
Mas antes, o presidente Correa havia exposto no seu programa semanal de rádio e televisão que, no caso da Teleamazonas, "estamos aplicando as leis frente à imprensa irresponsável que publica mentiras", e num comunicado oficial mais recente insistiu: "O velho poder derrubado entrincheirou-se nalgumas empresas de comunicação privadas para, a patir da ilegitimidade dos poderes fáticos, tentar prejudicar um governo e a verdadeira representação popular."
Mentiras: a arma preferida das oligarquias e dos Estados Unidos para aplicarem suas políticas injustificadas. Jornais e televisoras esconderam sempre os avanços dos países com governos progressistas, mas divulgarão as mais horrendas invenções contra eles.


Agora lançaram a campanha contra a Venezuela de que os pais perderão o pátrio poder.
A mesma atrocidade foi utilizada contra Cuba há décadas por meio da Operação Peter Pan, que afastou 14 mil crianças de seus pais, porque não podemos esquecer que a Revolução Cubana leva 50 anos lutando contra as macabras fantasias "anticomunistas" de Washington e contra seu grande sistema de meios de comunicação que abrange o mundo inteiro.


E sempre deu em nada. Portanto, não há razão para esperar que nesta ocasião consigam o seu objetivo. Vão perder outra vez em todos os países revolucionários, que cada vez são mais.


Publicado originalmente GRANMA INTERNACIONAL digital

terça-feira, 7 de julho de 2009

À COMUNIDADE INTERNACIONAL – PAREM OS MASSACRES CONTRA O POVO HONDURENHO




À COMUNIDADE INTERNACIONAL – PAREM OS MASSACRES CONTRA O POVO HONDURENHO
(Nota oficial da Resistência popular em Honduras)
Tegucigalpa, 5 de julho, 2009 – 21h 13m




A situação em Honduras é de suma gravidade. A reação do povo ao golpe desfechado por militares de extrema-direita no domingo próximo passado é aberta, corajosa e determinada.
Manuel Zelaya é o presidente constitucional de Honduras.



Os militares golpistas estão usando de todas as forças possíveis para eliminar a resistência. Neste momento centenas de boletins de hondurenhos assassinados pelos golpistas chegam de todos os cantos do país. Integrantes da VIA CAMPESINA estão sendo mortos a sangue frio pelos golpistas.



É necessária a intervenção da comunidade internacional para evitar que o massacre prossiga, tenha conseqüências mais trágicas que as que estamos presenciando.



A ação dos golpistas é referendada por apoio logístico do embaixador dos Estados Unidos em Honduras, agentes da CIA e silêncio cúmplice do governo de Obama. Estão tentando ganhar tempo para negociar uma solução alternativa à legalidade constitucional.



O presidente do Brasil Luís Ignácio Lula da Silva tem o dever de tomar atitudes enérgicas e decisivas neste momento. O peso e o significado do Brasil no contexto de países latino-americanos é imenso e uma posição brasileira de franco apoio a Zelaya, à legalidade constitucional e a denúncia dos massacres que ocorrem neste momento – centenas de mortos – será decisiva para a vitória da democracia.



Todas as formas de comunicação com o exterior estão sendo eliminadas pelo regime brutal dos militares – o presidente Michelleti é um títere – na tentativa de evitar que a opinião pública mundial tome conhecimento dos fatos estarrecedores que estão a acontecer aqui, agora, neste momento.



Não há a menor preocupação com vidas por parte dos militares golpistas. Estão eliminando sumariamente civis e buscando e assassinando líderes da legalidade democrática.
O comportamento dos militares golpistas ultrapassa os limites da sanidade.



É necessário que organismos internacionais se façam presente antes que as conseqüências sejam mais trágicas e dolorosas para o povo hondurenho e com repercussões em toda a América Latina, em todo o mundo.
Não existem garantias constitucionais, suspensas pelos golpistas, não existe respeito mínimo às pessoas, Honduras e o povo hondurenho enfrentam o pior pesadelo de sua história por conta de militares e elites e com apoio dos norte-americanos.
É acintosa a atuação de agentes da CIA e do embaixador dos EUA. Está caindo a máscara do governo Obama.



É necessário mostrar aos cidadãos de todo o mundo o que está acontecendo aqui, usar de todos os meios necessários para divulgação, já que a grande mídia é sabidamente a favor dos golpistas e omite e distorce informações e fatos.



Que o mundo, as organizações de direitos humanos, os governos latino-americanos tomem conhecimento da situação e das barbáries cometidas por militares aqui em Honduras e se processe uma rápida ação no sentido de por fim a esse deslavado e criminoso golpe de bandidos travestidos de defensores da democracia.



O povo hondurenho está nas ruas resistindo ao golpe.



NÃO AO GOLPE!
NÃO À BARBÁRIE MILITAR!
FORA DE HONDURAS EUA!
ZELAYA É O PRESIDENTE CONSTITUCIONAL DO PAÍS!
VIVA O POVO HONDURENHO!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

AGORA E NÃO DEPOIS, É O MOMENTO DE DERROTAR OS GORILAS GOLPISTAS



O tenebroso sonho da direita continental. Honduras: uma lição para nunca esquecer Orlando Cruz Capote*


Quando advertimos anteriormente, em algumas conferências e escrito que a direita continental não se manteria tranqüila ante recentes acontecimentos democrático-progressistas, sociais e políticos, na América Latina e no Caribe. Também, manifestamos que podiam tentar nos impor "a paz dos cemitérios” da não tão remota época das ditaduras militares e civis. Contando, naturalmente, com os setores mais reacionários do sistema de governo dos Estados Unidos – leia-se a CIA e o Pentágono -, mas também de outras agências e serviços especiais de várias denominações, incluindo as ONGs de duvidosa titularidade e credibilidade. E expressamos que, os povos teriam que se preparar, não só para a luta pacífica eleitoral, como também se preparar para combater a violência contra-revolucionária.


As últimas horas vividas – com angustia, mas também com emoção –, diante do sucedido na Irmã República de Honduras, nos fazem repensar aquelas palavras.


Não duvidamos, em absoluto, do triunfo popular e da restituição de Zelaya, como presidente de seu país, mais tardar este fim de semana – anunciou a sua chegada na quinta-feira (hoje), mas confirmou que retorna no sábado, para seu país –, acompanhado dos Secretários da Assembléia Geral da ONU e da OEA, respectivamente; e da presidente argentina, Cristina Fernández e do presidente equatoriano, Rafael Correa.


Os altos militares, a elite da oligárquica, os mais reacionários do clero católico, e o terrorismo midiático e silenciador dos serviços de desinformação de Honduras, estão completamente cercados e perdidos, razão da rejeição unânime da América Latina, do Caribe e do mundo, ao golpe. Essa é uma realidade hoje, quinta, inquestionável.


Mas, é interessante se perguntar se a mais do desespero – unida com a arrogância e a prepotência tipica –, dos oligarcas e dos gorilas militares hondurenhos, não houve algumas indicações e apoios de outras potências continentais conservadoras. Por que se decide interromper um processo reformista e uma simples consulta de possibilidade de participação popular, de modo tão brutal e sangrento?


Não é absurdo pensar que este golpe militar – o civil é um eufemismo –, localizado geograficamente neste momento em Honduras, seja um balão de ensaio para conhecer e determinar a rápida e efetiva resposta das forças progressistas, não só nesse país, mas em nível da nossa América.


Que tipos de conspiração prévia se deram? Com que forças internas e externas? Com quais embaixadas, além da norte-americana? Por que a OEA apresenta um prazo de 72 horas, para negociar a entrada de Zelaya em seu país, dando um tempo de duvidoso significado? Por que essas últimas declarações do porta-voz do Departamento de Estado, que se analisa agora, a natureza do estado da crise política em Honduras, ou se isso é um golpe ou não?


Nas ruas e nos campos de Honduras estão matando , prendendo e torturando as pessoas que demonstram serem contra o golpe; está-se intimidando, espancamento e assassinando os líderes e membros de movimentos sociais e políticos; está-se impedindo o trabalho da imprensa nacional e estrangeira – salvo as emissoras das grandes transnacionais, como a CNN em espanhol –; está-se impondo um regime de terror, está-se recrutando os jovens para que ingressem na força do aparato repressivo; estão nomeando Ministro fantoches, alguns deles conhecidos torturadores; estão ativando os tenebrosos bandos paramilitares, etc.


O que se espera em dar mais tempo ao regime ilegal? Este articulista tem apenas uma resposta: para desgastar o movimento popular, que se dispersa e deixa os protestos e os golpistas criminosos e fascistas do país, se façam mais forte em âmbito interno.


O Presidente Zelaya tem de estar já em seu país. Não há tempo a perder, porque se perdeu muito sangue, e pode ser derramado muito mais. Embora as pessoas nunca se cansem de lutar, não podemos perder um minuto mais. Agora e não depois, é o momento de derrotar os gorilas golpistas02 de julho de 2009. * Dr. Orlando Cruz Capote, Pesquisador Adjunto, Instituto de Filosofia, Cuba


Original em: CUBA TE CHAMA

Tradução: Robson.

Blog Convenção 2009

quinta-feira, 2 de julho de 2009

HONDURAS- Frente única com Obama e a ONU contra o golpe militar?


HONDURAS- Frente única com Obama e a ONU contra o golpe militar?Por SERGIO MORALES (Eskuerra)



Alguns artigos interessantes que li na rede sobre o golpe em Honduras:


http://www.counterp unch.org/ dangl06302009. html

http://www.wsws. org/articles/ 2009/jul2009/ pers-j01. shtml

http://www.wsws. org/articles/ 2009/jun2009/ zela-j30. shtml


Destes artigos, que mencionam reportagens do New York Times, insuspeito de simpatia com a esquerda e com a luta antiimperialista, se depreende que o governo estadunidense tinha conhecimento PRÉVIO do golpe e não tomou medidas para impedi-lo, nem para alertar o presidente Zelaya.

O quadro que parece emergir é o de conversações entre assessores do governo estadunidense e os golpistas com vistas a articular um golpe "constitucional" , isto é, articulado através das instituições do Estado burguês hondurenho (com a participação da cúpula do Judiciário e do Legislativo) , ao qual os militares dariam a devida cobertura armada.

Mas parece que os hábitos truculentos dos egressos da Escola das Américas prevaleceu, com a precipitação dos chefes militares e o uso da velha quartelada, antes mesmo que a "armação" constitucional fosse completada.Esta situação pôs o governo Obama em uma saia justa em um momento delicado em que o apoio explícito a um golpe anticonstitucional exporia irremediavelmente os esforços de desestabilização do Irã, ao desmascarar a hipocrisia do governo imperial.

Os EUA, então, foram forçados a armar o teatrinho da condenação dos golpistas.

No entanto, todas as alternativas ainda estão abertas para o imperialismo.

Hillary Clinton não definiu a quartelada como golpe, o que desobriga os EUA de suspender a ajuda financeira e militar aos golpistas.

A base americana em Honduras permanece (na verdade, Honduras é extremamente dependente econômica e militarmente dos EUA, e bastaria que o governo Obama fosse firme na condenação do golpe para que ele sequer ocorresse, ou, se ocorresse, que, rapidamente, fosse revertido; se ele se prolonga, é pela concordância tácita do imperialismo estadunidense) .

As palavras de Clinton parecem indicar, não a simples exigência do retorno de Zelaya, mas a abertura de "diálogo" entre os adversários, o que se pode traduzir como uma solução semelhante à imposta a Jean-Bertrand Aristide, em 1994, quando Clinton e seus "marines" garantiram o retorno do presidente do Haiti, então deposto pela primeira vez, em troca de sua anuência por uma programa de governo neoliberal.

Pode ser que Zelaya seja pressionado a abandonar seu programa nacionalista e antiimperialista como forma de retornar ao governo.

Eu não esperaria muito dos EUA, da ONU e da OEA para a reversão do golpe. Basicamente, é a mobilização das massas hondurenhas que pode ser o diferencial para derrotar os golpistas.

De qualquer forma, abre-se uma nova temporada de desestabilização de governos de esquerda na América Latina.

Saudações,

Sérgio Morales