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sexta-feira, 30 de julho de 2010

legitimidade do Estado Sionista e a construção de uma Palestina livre,laica e soberana




legitimidade do Estado Sionista e a construção
de uma Palestina livre,laica e soberana








Por Maristela R. Santos.

Acabo de voltar dos territórios palestinos, onde vivenciei experiências fantásticas. Vivências que outros militantes internacionalistas devem adquirir. Esta será uma das tarefas do Comitê de Solidariedade: estimular e ajudar caravanas de ativistas conhecer de perto a situação da luta na Palestina.

Dificilmente um militante comprometido com a causa internacionalista não é tomado por uma imensa vontade de tornar pública, de compartilhar o retrato de uma Palestina real, viva, vista ao vivo e com cores bastante fortes, compartilhar os lamentos e discussões desse bravo povo que resiste a tantas e tamanhas dificuldades, e ainda assim, consegue se redescobrir, se reinventar, cuidar um do outro e reconstruir mais forte sua resistência contra o poderoso inimigo externo e o interno.

Meu desejo é que este pequeno e singelo trabalho seja uma contribuição em aberto, no sentido de suscitar discussão na esfera do internacionalismo proletário, que faça avançar a solidariedade e, portanto, contribua dessa forma com a luta do povo palestino.

Este texto não pretende ser uma reconstrução histórica, apesar de contar com a liberdade de fazê-lo, toda vez que for necessário. Ele é, tão somente, o ponto de partida de um longo caminho de discussão sobre análise política, conjuntura e caracterização das estruturas políticas, sociais e ideológicas, onde se localiza a atual etapa da luta desse bravo povo, luta que se mantém há 62 anos.

Sobretudo é uma contribuição ao debate sobre a legitimidade e o caráter do Estado sionista e a construção de uma Palestina única, laica e democrática, com o retorno dos refugiados.

Não tenho a pretensão da neutralidade política, até por que não acredito nela. Desde já esclareço meu compromisso com a teoria marxista e dos partidos situados no campo internacionalista de reconstrução das organizações comunistas.

A luta por livrar a Palestina da ocupação sionista encontra-se numa encruzilhada.



Introdução


A grave crise econômica do capitalismo que atingiu os EUA e, agora, a Europa, desencadeando o desemprego estadunidense e europeu que vem tomando proporções assustadoras, sinaliza que a superação da crise não só não aconteceu, como ela pode dar um salto e se transformar numa crise política de proporções imprevisíveis.

Por sua vez, o crescimento dos investimentos no complexo industrial-militar, a crise energética e a constatação de que a produção petroleira, que move literalmente o capitalismo, bateu no teto, potencializam com mais força os graves e imorais problemas enfrentados há 62 pelo povo palestino, na luta política e social que travam.

A Palestina pode não ser o centro da luta de classes mas, podemos considerar, sem dúvida, que sua situação particular exprime a síntese da crise moral e política do capital.

Foi transformada ao longo desses anos em um grande laboratório e campo de treinamento onde o imperialismo lida com a guerrilha urbana, movimento de massas, faz grandes experiências militares, forma seus quadros e testa sua armas experimentais.

O exército/Estado de Israel exporta, inclusive para o Brasil e a Colômbia, além de armas, serviços ligados à área de segurança e estratégia militar/terrorista contra povos. Na Colômbia, por exemplo, os assessores militares sionistas são parte do terror que o Estado lança mão contra a resistência camponesa, os estudantes e sindicalistas colombianos.

Dito de outra forma, o principal produto de exportação do Estado de Israel é o terror. Companhias de soldados mercenários, assessoria militar, empresas de segurança em presídios, empresas especializadas em informação, atividades terroristas estratégicas, etc…

Nesse contexto, a causa palestina está distante de ser apenas uma singela causa nacional.

O enfrentamento com o qual se depara o povo palestino se desenvolve em dois níveis: No campo do imperialismo, no qual o grande capital financeiro-industrial-bélico monopolista se materializa na forma do Estado sionista e, imbricada aí, se encontra a velha luta de classes, a luta social que se movimenta no interior do Estado Palestino entre as forças sociais históricas, que pode fazer a diferença se resolvida.

Esta conexão entre a luta nacional, cujo inimigo central é o imperialismo, representado pela entidade sionista (Estado) e a luta de classes interna é cada vez mais percebida por amplos setores populares.

A luta de classes se manifesta em todos os níveis, social, político e inclusive no encaminhamento e no desenrolar da luta nacional, na qual a burguesia palestina, tradicional direção do processo, por conta de seus interesses de classe, acaba travando a luta do povo por sua emancipação nacional.

Aprofundar essa compreensão e se por em marcha é o maior desafio para o povo e o conjunto das direções revolucionárias da Palestina ocupada.

Na Europa, os trabalhadores e suas organizações tentam recuperar, através das lutas e resistências contra a violenta investida do capital na superexploração, o elo perdido na construção da revolução e na luta pela destruição do Estado capitalista, é o que temos visto, em particular na Grécia.

Mas em que pese a disposição da classe trabalhadora européia, não observamos, até aqui nenhuma fissura na estratégica da burguesia para saída da crise. A unidade da burguesia tem sido a marca dessa etapa da luta de classes.

A entrada em cena dos trabalhadores, o aprofundamento da crise econômica e a recomposição da esquerda pode precipitar a temida crise política, quando a burguesia perde inteiramente o controle da situação, e a luta de classes pode confluir para uma nova configuração.

No entanto, o capital avalia e trabalha para a possibilidade de um outro cenário que lhe favoreça. A recente movimentação bélica dos EUA e de Israel, no canal de Suez, em torno de um possível ataque ao Iran e ao Líbano, sinaliza e confirma o empenho na mudança de cenário pela saída bélica, alimentando a ganância da indústria armamentista e fazendo a festa do capital especulativo. Os laços de Israel com o capital estadunidense e europeu estão firmes e seguros nesse sentido.


O ataque a Flotilla
Aqui passo a descrever a repercussão, nos territórios ocupados em 1948 (Israel), do criminoso ataque a Flotilla humanitária que assassinou militantes internacionalistas e feriu outros.Na manhã friorenta do dia 31 de maio estávamos indo de Bem Sawhur, lugar onde nos hospedamos, em direção a Jerusalém, a caminho de Silwan, parte oriental de Jerusalém, onde participaríamos de uma reunião com o Comitê Popular do bairro El-Bustan, ameaçado de demolição.

Silwan é onde os moradores palestinos resistem bravamente à demolição de suas casas. Neste momento, Shadi, o jovem palestino, cuja tarefa era nos acompanhar e traduzir para o espanhol a poética língua árabe, recebe um e-mail em seu celular que o deixou transtornado:

O Estado de Israel havia atacado a Flotilla, não permitia nenhuma aproximação da imprensa e nem dava notícias do que acontecera, nem confirmava o número de feridos e mortos. Mas, os militantes internacionalistas conseguiram produzir pela internet informações e vídeos importantes, antes do Estado judeu confiscar todos os equipamentos de mídia e isolar os acontecimentos do resto do mundo, enquanto produzia a sua história oficial.

A situação era por demais grave, havia notícias de muitos mortos e de um ataque assassino e covarde a flotilla desarmada.

Obviamente, mudamos nossos planos e fomos para uma cidade portuária próxima a Tel-aviv - território ocupado em 1948 -, para onde, os rumores davam conta, iriam levar os barcos, os presos, os feridos e os mortos.

Esta cidade tem o nome árabe de Ashdod, mas foi alterada para Asdud. Essa é uma tática do sionismo para todas as cidades ocupadas, mudam seu nome, sua paisagem, sua história e seus habitantes.

Quando lá chegamos foi assustador: Havia um clima de festa, do tipo Copa do Mundo: jovens enrolados na bandeira de Israel pulavam e cantavam enquanto esfregavam a bandeira na cara das pessoas que desconfiavam ser árabes ou estrangeiros solidários; famílias bem nutridas disputavam o lugar com os religiosos judeus ortodoxos, aqueles com cachinho, grandes chapéus e capa preta, todos ostentando felicidade. Na rua, carros com bandeiras de Israel buzinavam.Sentimos repulsa e medo, muito medo.

O lugar ficava no alto de uma pequena colina de onde poderíamos avistar todo o mar. Lá estavam, também, todas as emissoras de TVs do mundo, que se ocupavam entrevistando os oficiais do exército sionista, prontos para dar declarações ao mundo sobre a “verdade oficial”.

O clima era de confiança, a população se sentia segura, seu exército, o Estado, havia mais uma vez afastado a ameaça assustadora: uma flotilla que vinha carregada de mantimentos, remédios e aparelhos hospitalares, cimento e outros materiais de construção e, é claro, muita solidariedade no coração para o povo aprisionado de Gaza, que vive num campo de concentração a céu aberto e que são vítimas da política de limpeza étnica da ilegítima ocupação sionista.


A bem armada juventude sionista
Esse não foi um momento particular, especial ou nascido de um setor marginal da sociedade sionista, não! O cheiro e os elementos que qualificam de fascista o Estado judeu estão presentes por todo lado: em todo território ocupado em 1948, nos territórios ocupados em 67 e nos checkpoints das estradas e os que ficam entre as cidades palestinas, nos território palestino.

Quando se chega nos territórios ocupados em 48, nas cidades cujas paisagens foram ocidentalizadas, a primeira impressão é a de que estamos numa grande cidade-base militarizada. Bandeira, bandeirolas ou bandeirinhas de Israel enfeitam as janelas, os prédios, o comércio, etc. Uma boa parte da população destes territórios é composta pelos ortodoxos judeus ou militares, que ostentam sua metralhadora com orgulho , satisfação e superioridade, estes são em muita quantidade, sendo a maioria absoluta de jovens.

A massa da juventude é responsável por resguardar a pátria amada e mística do ataque dos anti-semitas, dos não judeus. O exército é fonte de emprego da classe média e de seus filhos das colônias, dos Kibutz e dos judeus de todas as nacionalidades que são constantemente captados mundo afora pelo sionismo, para vir colonizar a terra estranha.

Já são algumas gerações de jovens marcados para sempre pela ideologia do fascismo. Andar pelas ruas dos territórios ocupados em 1948 dá medo e remete a Alemanha de Hitler.

Não é uma população homogenia ou de poucos tipos, pelo contrário: são perceptíveis as diferentes origens européias desde biológica/física, como cor do cabelo até a língua que se comunicam, mas esta é uma divisão aparente. Segundo alguns, o russo é o terceiro idioma falado aí. Uma curiosidade: eu vi um jovem oriental com o kiba usado pelos judeus. Há jovens de origem latina, como os argentinos e brasileiros, mas a maioria é de origem européia.

O que de fato importa nessa análise é que o aparelho repressivo do Estado dirige e comanda a imensa massa de jovens, mantendo-os coesos ideologicamente, preparados militar e tecnicamente para os interesses do grande capital na região.

Segundo as definições clássicas do fascismo, a característica militarista é a conjunção do aspecto nacionalista exacerbado e da face autoritária, hierárquica no interior do Estado, “de acordo com os interesses do grande capital expansionista” (Nikos Poulantza).

Israel atua, em parceria com os EUA, na contenção do status quo das ditaduras da região, no apoio logístico e humano nas operações de ocupação, como foi o caso do Iraque, do Afeganistão, do Líbano, e da Síria e, mantém, o domínio de um certo equilíbrio “instável” da região.

Obviamente, há críticas internas, mas estas são poucas e combatidas com rigor. O surgimento da menor crítica ao sagrado Estado, ou a sua política, é criminalizada, marginalizada e o crítico, excluído das oportunidades oferecidas pela sociedade, recebe o desprezo do grupo social e o rótulo de traidor da pátria, colaborador dos anti-semitas. São muito, muito poucos os bravos que se aventuram nessa rebeldia.

A esquerda israelense
As manifestações contra o ataque à Flotilla dentro do território de 1948 (Israel) foram pífias e inexpressivas. A esquerda israelense, salvo raríssimas exceções, pressionada pela mística fascista, não consegue se libertar da figura do sagrado e necessário Estado de Israel.

Algumas organizações e personalidades fazem campanhas exigindo basta ao terror, na perspectiva de que ao continuar dessa forma, o prejuízo será a própria desconstrução do Estado judeu, ou seja do conquistado até aqui.

Há outros setores da esquerda que levantam a discussão do caráter autoritário dos governos, da direita israelense, estes direcionam a solução do ”conflito” para a perspectiva eleitoral e democrática burguesa.

Da mesma forma, ambas perspectivas, jogam para o fortalecimento do Estado judeu.

Há queixas de grupos de judeus contra a prefeitura da cidade de Jerusalém que liberou a cidade santa para a especulação imobiliária que deu início a construção de edifícios com muitos andares. Esse grupo não concordava com o Projeto Urbanístico para cidade. O texto crítico, reproduzido no Jornal Há’arezt, ainda citava o profeta Isaías, falava da falta de zelo dos que retornavam para a cidade santa, reproduzindo a cantilena ideológica do “eterno retorno”. Lembrou que a humilhação promovida contra outro povo não bastava a Israel, e vaticinou que a ocupação aos territórios palestinos – que o autor considerou apenas os de 67 – vai se tornar um problema para os israelenses.

Ora, estamos diante de um típico exercício da democracia israelense: O sistema absorve, numa boa, as críticas e as discordâncias sobre a forma como a prefeitura administra a ocupação do solo árabe, sem problemas.

Repare como as questões caras aos palestinos como: o genocídio, o massacre, a ocupação sionista, a derrubada de casas, as prisões e torturas, enfim, a limpeza étnica produzida pelo Estado fascista é reproduzida como “humilhação” .

Repare que a preocupação democrática são os exageros na estética que podem trazer problemas para os seus novos habitantes. (Esse texto foi reproduzido pela Caros Amigos sob o título “No ano que vem, em Jerusalém”)

Em todos os casos, não vi movimento em direção à discussão sobre o caráter, a natureza e as definições que podem rigorosamente clarificar e classificar o Estado judeu. Definições importantes e necessárias que sirvam de base ao entendimento, desmistifiquem o caráter democrático, que o Estado tenta imprimir, e ajude a massa e o proletariado judeu a dar passos no sentido de se libertar da ideologia fascista/sionista dominante e a abrir mão dos seus privilégios de “raça eleita”, garantidos pelo Estado sionista e pelo imperialismo numa santa aliança; isso significa ,devolver ao povo palestino suas terras, direitos e suas vidas aprisionadas.

Lamento muito por isso!

A estratégia da limpeza étnica

Territórios Palestinos: Cisjordânia
Definitivamente, não há, em toda palestina histórica, lugar que não tenha colônias judias. Estão presentes nos territórios ocupados em 67 e no território árabe que “restou”, os 22% da Palestina Histórica.

Em todas as cidades, inclusive Hamallah, onde se encontra a Autoridade Palestina, cidade que ostenta um ritmo de normalidade aparente, há colônias judias na periferia da cidade.

Em Hebron e Jerusalém as colônias judias são construídas no centro das cidades árabes, são lugares de confrontos covardes. Aí concorre o Estado fascista/sionista com sua juventude armada e as milícias legais dos colonos contra os moradores árabes desarmados, sem milícias e exércitos.

Além das terras e casas roubadas para construção das colônias, o Estado sionista pode desapropriar, ao seu bel prazer, extensões enormes de terras para “fins militares”. Passei por uma dessas áreas militares a caminho da aldeia de Kafer Malek.. Nela se encontram enormes torres de transmissão e antenas gigantescas, muito bem guardadas por arames farpados e a juventude do exército sionista bem armada.

A partir de 1993, ano do fatídico tratado de Oslo, os palestinos foram proibidos de transitar de um lugar para outro em seu próprio país. Nenhuma pessoa que more em Hamallah pode ir rezar ou trabalhar, ou visitar um parente em Jerusalém, ou Jericó, ou Jenin, ou Hebron. São proibidos de sair do lugar que moram, se saem não podem voltar.

O Estado confina as pessoas em suas localidades e as isola uma das outras. As aldeias foram transformadas em ilhotas afastadas umas das outras, entrecortadas por novas colônias judias, que por sua vez são interligadas por estradas bem construídas, por onde somente os judeus podem transitar.

No meio desse emaranhado de colônias judias, estradas judias e checkpoints judeus sobrevive o povo palestino com menos trabalho disponível. A conseqüência se reflete diretamente no que conseguem ganhar para garantir sua subsistência. Isso é dramático!

Não raro, grupos de trabalhadores arriscam a vida de madrugada para furar a cerca de arame farpado, em busca de qualquer trabalho numa colônia, nos territórios ocupados em 48 (Israel). Alguns tombam aí, assassinados pelos disparos da juventude do exército sionista.

As administrações civis locais judias operam no sentido de transformar a vida de cada família palestina num inferno:

Se uma família tem um terreno ou uma pequena casa e precisa construir mais cômodos, ou uma casinha para uma nova família que se forma, a administração sionista não lhe dá autorização para esta obra.

Se, porventura, começam as obras sem permissão do Estado, são obrigados a destruir o que construíram nos seus terrenos ou nas suas casas, além de pagarem uma grande multa por isso.

Mas o fato de não estarem utilizando o terreno é motivo legal para sua desapropriação, assim, o Estado cumpre a “lei do eterno retorno judaico”, ou seja o imóvel é ocupado por uma família judia, não importando sua nacionalidade.

A primeira etapa da estratégia de ocupação sistemática foi expulsar o povo originário e construir colônias de imigrantes judeus de modo que o território árabe fosse absolutamente fragmentado. Agora, o projeto é transformar as colônias interligadas por estradas em corredores ou blocos bem policiados, que sistematicamente vão se juntando.

Neste sentido, não existe de fato e na realidade a famosa “linha verde”, o território palestino esta totalmente entrecortado pela ocupação. Na agenda, as prioridades são Jerusalém e Hebron.

As estradas adquirem uma importância peculiar na estratégia de limpeza étnica. Elas são terrivelmente controladas por checkpoints que impedem a livre circulação de pessoas (palestinos) e mercadorias, asfixiando dessa forma toda organização social possível para os palestinos. Na verdade, é por onde se dá o controle fundamental e por onde criam as condições de novas expulsões e novas ocupações.

Cada cidade do território habitado pela população palestina da Cisjordânia, desconectados uns dos outros, é uma GAZA, com bloqueios que visam destruir, a teia social, a economia do lugar e a vida de seus habitantes. O que difere é que na Cisjordânia a estratégia é implementada de forma mais lenta da que usam em Gaza.

A parte da Palestina, ocupada em 67, somando a área que está sendo ocupada sistematicamente, foi transformada pelo Estado étnico em um grande canteiro de obras: Ampliação de estradas e novas redes de estradas dão sinais explícitos que os assentamentos judeus não vão parar e que a asfixia das reduzidas e fragmentadas cidades palestinas vão aumentar.

A ocupação é sistemática e permanente. Seu ponto central é, tão somente, expulsar o povo árabe de suas terras, limpar o território da presença árabe. Não é somente a anexação das terras que interessa, é, sobretudo, a limpeza étnica do território!

O Muro está inserido neste contexto perverso de anexação de terras, principalmente as terras mais férteis, das expulsões de famílias inteiras, do impedimento ao acesso ao trabalho nas fábricas, do impedimento da ida à escola, do acesso aos aqüíferos e às oliveiras. O Muro foi condenado pelo Tribunal Internacional de Haia, mas Israel tem como uma de suas características, clássica do fascismo, o aspecto “antijurídico”, levando em consideração somente a lei e a ordem imperialista.

O grande problema ainda é o número de habitantes árabes que insistem em resistir e não abandonam suas terras:

Existem cerca de 3,5 milhões de palestinos na Cisjordânia, 1,5 milhão de palestinos que ainda conseguem viver nos territórios ocupados em 1948 (Israel). Mais 1,5 milhões em Gaza. Além disso, é observado que é muito maior a taxa de natalidade do povo árabe do que a verificada nas colônias judias dos territórios ocupados.

Logo, isso significa que se fosse um problema de simples anexação de terras com a incorporação de sua população submetida, como acontece nas ocupações tipicamente coloniais, os árabes seriam maioria.

Mas isso não é possível no Estado fascista! Por isso é necessária a limpeza étnica, segundo a ideologia sionista, não se pode conviver com o inimigo, neste caso, os árabes, donos das terras roubadas.

Existem mais de 5 milhões de refugiados palestinos, cuja maioria vive em campos de refugiados acolhidos nas fronteiras dos Estados árabes, como o Líbano, a Síria e a Jordânia. Seus direitos não são considerados sob nenhum aspecto. Para o Estado fascista e o Imperialismo, esse já foi um problema, está resolvido.


Jerusalém

Ameaça sionista ao patrimônio da humanidade:

A Cidade velha de Jerusalém
Dentro das muralhas da histórica cidade árabe, centro e lugar sagrado de 3 religiões monoteístas: cristã, muçulmana e judia, está sendo cometido um verdadeiro crime contra a humanidade.

A mística sionista do “direito de retorno” é a máxima ideológica fundamental para uma obra que esburaca o espaço externo da Mesquita Al Aqsa , a segunda mais importante da religião islâmica. Essa obra, sem nexo aparente, compromete toda sua estrutura histórica. Os buracos estão sendo realizados em uma grande extensão e com bastante profundidade. Os soldados que montam guarda por ali, não nos deixam aproximar para ver a obra e seus imensos buracos.

O objetivo do Estado é achar indícios de que ali havia uma sinagoga. Até aqui, estão cavando e aprofundando e nada encontram! Alguns acreditam que o Estado forjará a construção de um sítio arqueológico capaz de justificar ainda mais os postulados que fundamentam ideologicamente a construção do Estado sionista.

Os muçulmanos não têm acesso livre para sua Mesquita, para entrar e rezar na Al Aqsa há um checkpoint israelense, guardado pela juventude do exército sionista. O mesmo não acontece com os cristãos. Estes têm livre acesso a seus lugares sagrados.

A cidade velha é uma típica construção árabe, com suas casas e comércio. Seus moradores estão aos poucos e sistematicamente sendo expulsos de suas casas e abandonando seu comércio: Ali já se apropriaram de algumas residências. A maioria desta colônia judia é de origem russa e o confronto covarde é a regra.

A estratégia é que Jerusalém se torne uma cidade de maioria judia até 2020, nesse sentido se apressam para cumprir a agenda da limpeza étnica. O projeto urbanístico da prefeitura sionista muda radicalmente a paisagem do lugar. A cidade está sendo descaracterizada , edifícios enormes estão sendo construídos, para colonos judeus , o cemitério árabe histórico profanado para construção do Museu do holocausto, bairro após bairro tem suas casas derrubadas e as famílias engrossam o número dos que vão viver nos campos de refugiados.

Em Silwan/Jerusalém : Um Bairro que resiste à ocupação e destruição de suas casas

Bairro construído em 1948, El-Bustan é o foco atual da ocupação. O Estado sionista considerou o bairro ilegal, o que significa dizer que não têm autorização para continuar sua existência e, portanto, deve ser demolido.

Fundamenta sua decisão em mais uma história mística , nome bonito para manipulação histórica, de que há 3 mil anos atrás o rei Davi passeava e brincava naquela esplanada.

No bairro, como em toda Palestina ocupada, os palestinos são obrigados pelo Estado sionista a pagarem os impostos à municipalidade, no entanto, em nenhum lugar , onde moram os palestinos, isto se reverte em serviços como: lixo,saúde, educação, etc. Em Silwan não é diferente!

Os serviços do Estado sionista só valem e estão disponíveis para os judeus, nas colônias judias e nos territórios ocupados em 1948.

A prefeitura tem uma agenda e um compromisso claro: a limpeza étnica de Jerusalém até 2020.

No documento de desapropriação não consta o nome do proprietário árabe, que passa a ser identificado pelo Estado com um número no mapa do bairro. A desumanização é proposital , o palestino não é visto pelo Estado como um ser humano, que participa do corpo social, que têm direitos iguais a qualquer outro cidadão.

Já destruíram e expulsaram mais de 10 famílias, mas a resistência está aumentando. Os moradores se organizaram em Comitê Popular , onde tudo é discutido e resolvido e onde discutem a estratégia de luta que vai defender seu bairro e suas casas.

Há uma crença geral de que estão defendendo o símbolo de sua dignidade e orgulho e, por isso,estão dispostos a dar a vida, se necessário for, para defender sua família, suas casas e suas terras da ocupação. É com firmeza que o principal líder do bairro fala: “Não vamos a lugar nenhum, aqui é nosso lugar, aqui ficamos. A destruição das nossas casas representa a destruição da família e do futuro dos palestinos em sua terra natal”

A pressão psicológica é muito grande, sobretudo, sobre as crianças. O Estado fascista tenta minar a resistência dos moradores efetuando prisões sistemáticas das crianças quando vão ou voltam da escola. Esta é uma estratégia que tem deixado marcas profunda nas famílias: uma criança de 5 anos de idade foi presa e ficou durante dias incomunicável, sem que seus pais soubessem onde estava; um menino de 10 anos já foi preso 4 vezes e um outro jovem de 14 anos, após ser solto depois de alguns dias, foi condenado a não poder sair de casa, está cumprindo pena domiciliar.

Profanação dos cemitérios muçulmanos
O histórico Cemitério muçulmano , campo santo de Maám Allah, situado próximo a cidade velha de Jerusalém, onde estão enterrados os restos mortais dos guerreiros de Saladino e dos companheiros do Profeta Mahoma, está sendo profanado pelo Estado apesar dos protestos internacionais, das críticas internas e do pronunciamento da ONU. O cemitério, de existência milenar – do século VII, será transformado em Museu do Holocausto, pela Fundação Simon Wiesenthal. O Estado transferiu sem o consentimento das famílias, os corpos dos mais de 1.500 jazigos para lugar desconhecido.

Vi a mesma falta de respeito em Hebron e em outros cemitérios avistados da estrada.
Essa política deliberada vai no sentido de apagar do mapa e da história os vestígios milenares que provam para todos os efeitos que naquela terra sempre viveu um povo, o povo palestino. Coisa que a ideologia mística de cunho religioso não consegue esconder com facilidade.

Hebron
Fomos conhecer a colônia de ocupação judia em Hebron , conhecida pela sua extrema violência. A ocupação sionista na região se deu em 1967.

Foi em Hebron que um colono americano judeu entrou numa Mesquita e descarregou uma metralhadora nas pessoas que ali estavam rezando, assassinando 69 palestinos. Quando descarregou todas as balas, os palestinos, sobreviventes, pegaram ele. No dia seguinte, sua esposa denunciava o massacre de seu marido por um bando de palestinos raivosos !?

Essa colônia, na década de 80, ocupou parte da cidade velha e expulsou os moradores desta parte e do entorno, por “segurança”.

Para alcançarmos a colônia passamos por um bem armado checkpoint, onde fomos revistados, e seguimos a única rua dentro desta área ocupada. Ela exibe uma série de casas de dois andares, típicas dos árabes e onde, outrora, a vida corria solta e livre. Se deixarmos a imaginação fluir, podemos sentir a sua majestade e importância no contexto social anterior ao sionismo, anterior à ocupação fascista.

Seguimos a rua até encontrar 3 carros enormes da polícia sionista, com policiais armados de metralhadoras e vestidos de coletes à prova de balas, impedindo o acesso à colônia. Na verdade, pretendíamos passar pelo entorno, na parte “desapropriada para fins militares”, rodeando a colônia. Um pouco à frente tínhamos que subir uma pequena colina.

Nossa aproximação suscitou neles uma certa agitação: abruptamente tomaram nossa frente e subiram a escadaria que dá acesso à parte interditada pelo exército, a uma escola para meninas e algumas sobreviventes casas palestinas. No final da estreita escadaria fizeram um corredor polonês por onde tínhamos que passar. Tentei o máximo ignorar suas presenças mortais, ato impossível! Tive muito medo!

No alto da colina, encontramos a escola cercada de arames e algumas casas de famílias palestinas que sobrevivem ali, apesar de toda provocação, violência e dificuldades.

Quando estávamos descendo, do outro lado, em direção a cidade velha, parte árabe, voltamos a encontrar a rua deserta. De um lado da rua vimos os prédios árabes de dois andares abandonados, aqui e ali havia sinal de que algumas famílias estavam resistindo no inferno, na qual foi transformado o bairro, nesta área perigosa e tão exposta aos assassinos sionistas…

Nesses prédios, as varandas foram fechadas com telas e madeiras para proteger as famílias palestinas das maldades dos colonos . Do outro lado da rua larga , um enorme cemitério árabe violado, apresentando tumbas remexidas, quase totalmente destruído.

Mais adiante havia toneladas de arames farpados espalhados nas áreas livres entre os prédios , nas suas entradas e naquilo que um dia foi os espaços de brincar . Isso é feito para impedir o retorno dos moradores expulsos.

Nas paredes, desenhos de crianças judias mostravam o tipo de ideologia que lhes são ensinados. Desgraçadamente, as crianças judias são vítimas de seus pais fascistas.

Apressamos-nos para sair deste ponto desértico e sem vida, estávamos sozinhos numa área fantasma, onde éramos alvos fáceis para os soldados, para os milicianos e para os colonos sionistas armados de sentinela nas várias torres ao longo do trajeto. Tivemos receios e medo!

Próximo ao fim, a rua é dividida por um muro de 1 metro de altura. A pequena e estreita parte é por onde os palestinos podem andar e o resto da rua é destinado aos judeus.

Entramos na cidade velha por aí. Parece muito com as construções que vimos dentro das muralhas de Jerusalém. Também nesta parte vivem alguns colonos judeus, que transformam a vida dos moradores palestinos num inferno.

Os colonos judeus jogam objetos nas telas colocadas no espaço aéreo das ruelas. Essas telas foram colocadas pelos palestinos para proteger seus moradores e as pessoas que buscam o comércio árabe, das investidas dessas colônias judias.

Quando passamos pelas ruelas onde se encontram tais colônias e os armados jovens milicianos, o cheiro é insuportável. Os colonos judeus jogam, nas telas, todo tipo de lixo doméstico , incluindo de banheiro, fazendo as telas cederem com o peso. Essa é a intenção!

Os moradores ou comerciantes que moram em baixo ficam muito expostos às doenças, aos líquidos e a falta de compradores para suas mercadorias, já que muitos evitam essas áreas. Isso sem falar, nas constantes demonstração de força, que colocam a população palestina na mira das metralhadoras do exército sionista ou das milícias violentas dos colonos.

O Problema alimentar e de saúde na Palestina

Agricultura

UNION FoR AGRICULTURAL WORK COMMITEES – UAWC

Fundada em 1986 , a organização nasceu da preocupação com a grave crise alimentar e a posição vulnerável da produção de alimentos, como efeito direto da ocupação sionista, do confisco de terras e da água.
O objetivo desta organização é promover e melhorar as condições de vida das aldeias palestinas, nesses aspectos:

  • Amparo as famílias despossuídas para que voltem a produção,
    Melhoramento das sementes criolllas. Manutenção e ampliação do Banco de sementes,
    Distribuição das sementes e melhor aproveitamento da água,
    Produzir retorno financeiro com a produção,
    Proteger a terra, contra a ocupação e os desastres naturais,
    Garantir o acesso à água,
    Promover ações próximas ao muro: plantar e construir hortas, por exemplo,
    Elaborar planos de emergências nos casos de despejos forçados,
    Organizar as mulheres camponesas para obtenção de renda própria na criação de pequenos animais e abelhas,
    Orientar as organizações dos camponeses em torno dessas e outras questões que lhes afligem.

A ocupação do solo palestino pelo sionismo não foi aleatória. O Estado quando promoveu a limpeza étnica no campo, se apropriou de 70% das terras agricultáveis, as terras mais férteis.


A partir dessa organização, os palestinos estão conseguindo reorganizar a produção do azeite de oliva, mas deram curtos passos na parte da distribuição e venda do produto para o mercado externo. O Japão, alguns países da Europa, Canadá e os EUA são alguns países que compram o azeite palestino, mas como a moeda é israelense e o comércio dos palestinos é totalmente dependente do Estado étnico, as dificuldades são muitas.

A solidariedade internacional é a base que sustenta esse pequeno comércio externo
Os produtos palestinos, em especial o azeite, têm tratamento secundarizado e inferior aos produtos produzidos nas colônias judias. Os constantes descumprimentos de prazos contratuais para entrega são uma dessas dificuldades enfrentadas , que aumentam os custos, tornando o produto pouco competitivo no mercado. Outros produtos perecíveis estragam nos corredores da burocracia sionista.
Esta organização palestina é filiada internacionalmente ao Comitê Internacional pela Soberania Alimentar. A Via campesina recusou sua filiação pelo critério de não serem uma organização de massa.

O esforço dessa organização tem o apoio de todas as organizações políticas da Palestina, sua tarefa é minimamente manter o povo produzindo alimentos e resgatando sua dignidade.

O trabalho deles está longe de ser uma simples intervenção técnica, é um trabalho político de grande monta. A estratégia principal do grupo é a sobrevivência do povo.

Eles têm muita clareza da importância desse trabalho e do contexto político da ocupação que transformou o povo em vítima da limpeza étnica, sem liberdade para ir e vir, sem direitos políticos, legislativos e sociais ,onde o Estado ocupante não permite que produzam o mínimo para suprir suas diversas necessidades básicas.

O trabalho é junto aos camponeses sem terras que vivem com muitas dificuldades. Durante as atividades de colheitas têm que enfrentar as armas dos colonos e do Estado invasor que passam o dia atirando para o campo.

SAÚDE
Os palestinos se organizam em vários comitês que, como o agrícola, tem a tarefa de promover uma vida mais digna para o povo, no contexto da ocupação sionista e tudo que isso implica, na área da saúde coletiva.

O Comitê da saúde reúne a coordenação e o monitoramento de projetos para saúde das crianças, das mulheres e dos idosos, nos territórios árabes.

O comitê da Criança e da adolescência se dedica em especial a cuidar das crianças vítimas da ocupação feroz, crianças que já foram presas, ou que viram seus pais serem humilhados, ou que já foram , elas próprias humilhadas , feridas ou torturadas. Trabalha por mostrar a sociedade palestina os direitos das crianças e a importância da defesa desses direitos.



A preocupação de manter o povo vivo e ativo, de cuidar de seus velhos, das mulheres, da juventude e das crianças é constante nas discussões com os vários tipos de organizações da qual participei.

A solidariedade interna é um traço forte no perfil da sociedade palestina. Em algumas ocasiões ouvi a frase: “Com uma mão eu resisto, com a outra tenho que sobreviver”

Acho que esses Comitês específicos materializam de certa forma no campo social a perspectiva da sobrevivência, no contexto de sua luta permanente contra a ocupação sionista.



Presos Políticos

Nos últimos 42 anos de resistência, os palestinos contabilizam que foram presos cerca de 800 mil palestinos, dos quais 8 mil permanecem nos cárceres sionistas.

Na Palestina ocupada, todas as formas de luta levam a prisão. Ser um ativista comunitário e defender seu bairro contra a demolição de casas é crime, atirar pedras nos tanques e caveirões sionistas é crime, organizar e promover manifestações é crime! Resistir a ocupação é um crime !


Ser palestino ou palestina é um crime gravíssimo, sujeito a prisão, ao desterro ou ao extermínio, na Palestina ocupada pelo sionismo.




O direito de lutar e resistir à ocupação , contra o extermínio de seu povo, é reconhecido pelas leis do Direito Internacional e pela Organização das Nações Unidas. Entretanto, os palestinos não estão lidando com um Estado de direito mas, com um Estado fascista clássico, que faz das leis letras mortas.




Por todos os lugares há famílias que perderam seus filhos, ou maridos , ou mulheres ou mães para as temidas prisões israelenses. Mas isso não é tudo! Além das prisões, o Estado de Israel tomam as casas dos presos e o direito das suas famílias viverem aí.




A campanha pela libertação dos presos e de amparo as suas família desabrigadas é permanente. Há várias organizações envolvidas que se preocupam em dar suporte advogadicios aos presos e suas famílias.




As crianças presas não têm direito aos estudos e são, constantemente, vítimas de torturas psicológicas, físicas e de abuso sexual.

As denuncias de maus tratos e tortura não param de chegar. Os presos são muitas vezes colocados incomunicáveis, durante muito tempo, e em lugares distantes de suas famílias. Como não podem transitar livremente de uma cidade para outra, na prática, as famílias são impedidas de visitá-los. São vítimas de todo tipo de pressão , o objetivo é quebrar sua moral revolucionária e mudar sua opinião política.

Os líderes e ativistas reconhecidos da causa palestina são os principais alvos. É o caso do Secretário da Frente Popular pela Libertação da Palestina, membro eleito do Conselho Legislativo Palestino, Ahmad Saadat.

Preso pela polícia da Autoridade Nacional Palestina, em 2002, a pedido de Israel e uma exigência dos EUA, foi colocado sob custódia dos agentes norte americanos e ingleses na prisão de Jerico, território da ANP.


Sua prisão detonou uma série de apelações de todas as entidades e organizações palestinas, inclusive da Corte Suprema Palestina de Justiça, pela sua liberdade. Mas Arafat manteve a prisão do líder da resistência.



Em 2006, o exército sionista montou uma operação militar que culminou com o seqüestro dos prisioneiros ligados a FPLP sob custódia dos agentes americanos e ingleses nas prisões da Autoridade Palestina. Desde então, Saadat encontra-se em cárcere sionista. A cada 3 meses ele é mudado de prisão e posto em solitária. Dessa forma dificultam as visitas de sua mulher e filhos..
Contudo, sempre que pode, reafirma suas firmes convicções e esperança na luta travada por seu povo em defesa de suas vidas, dignidade e de suas terras.




Conclusão

A composição política e social que hoje se apresenta como herdeira daqueles que 1897 projetaram a construção de um Estado judeu mudou.

A entidade sionista votada pela ONU em 1948 não é mais dirigida pela pequeno burguesia judia em aliança de fogo com o capital pela defesa dos interesses imperialistas na região.




O sionismo é a própria representação ideológica do capital financeiro, produtivo e do complexo industrial militar. Detém o controle sobre os principais bancos privados e os bancos centrais dos países ; controlam os maiores veículos de comunicação de massas no mundo , a industria bélica e os arsenais nucleares.




Sua religião é o capital, sua nacionalidade é norte americana e européia.




O sionismo construiu o Estado de Israel para a função de ser uma poderosa base militar, com poder nuclear , para proteger os interesses das grandes corporações, do grande capital transnacional e das companhias de petróleo no Oriente. Os Estados Unidos da América gasta 25% da produção petrolífera mundial de petróleo para uma população que representa 3% da população mundial




Israel existe para manter os governos títeres sob controle, colaborar com a política de ocupações imperialistas no Iraque e no Afeganistão e ampliar as fronteiras ocidentais para a Síria, o Líbano e o Iran.





O sionismo tem o domínio ideológico total de amplas massas comprometidas e dispostas a matar o inimigo interno,indigno, mesmo quando esse inimigo é uma criança árabe, tudo em nome do nacional-sionismo. É em Israel que se conforma e se forma o exército de homens mercenários e prontos para invadir, ocupar ou controlar as riquezas dos povos oprimidos ou que lutam contra a opressão.




Seu caráter fascista, que mal consegue disfarçar com algumas maquiagens “democráticas”, se apresenta em todos os aspectos da vida social.




As instituições não tem autonomia e se sustentam sob o pilar da ideologia militar e religiosa.




A limpeza étnica e o genocídio que promovem, cotidianamente,contra o povo palestino é parte fundamental da construção desse Estado militar fascista.




Lembremos de Gaza e do ataque assassino, em dezembro de 2008 , quando, durante 22 dias, Israel despejou centenas de bombas experimentais que vão marcar para sempre a vida de seus habitantes e seus descendentes com mutações genéticas. Ato contínuo, impôs um bloqueio criminoso a 1,5 milhão de palestinos , transformando Gaza no maior campo de concentração do mundo. E ainda hoje, Israel faz incursões militares por ar, atirando e matando os palestinos.




A luta no campo midiático não é negligenciada, ao contrário, o sionismo manipula a história descaradamente. Nisso, contam com a Industria cinematográfica, do entretenimento e com as grandes cadeias de TVs e jornais, a maioria de propriedade do capital sionista.




Por trás do discurso de vítimas que repetem ao extremo e à exaustão se esconde a mais poderosa máquina de fazer lucros e corpos do mundo, ou seja, a burguesia transnacional , a mesma que sustenta com sua máquina lucrativa as guerra, o genocídio dos povos oprimidos e a usurpação e concentração das riquezas naturais.




Na atualidade, a rigor, os exércitos da burguesia não se enfrentam uns contra os outros na disputa por mercados. O que se observa é o conflito bélico covarde : Os poderosos exércitos que se somam aos exércitos privados, compostos por mercenários, que se lançam contra os povos e suas resistências para garantir o domínio das riquezas locais.




Muito se tem escrito sobre o significado do ataque de Israel à Flotilla humanitária, alguns dizem que esse fato deixou seqüelas no relacionamento com os EUA e com a Europa.




Acho que ainda é prematuro para as certezas, mas a princípio não vejo nenhum sinal que identifique uma ruptura. Por óbvio, existem contradições na administração e nos encaminhamentos políticos e militares do grupo representante do sionismo que compõe o governo de plantão. Mas, são contradições absorvidas plenamente no jogo dos interesses compartilhados. Israel não tomaria atitude militar sem o conhecimento e o consentimento dos EUA.





Outra coisa, é a esfera dos discursos encomendados e necessários. Nesse caso, os EUA cumpre o papel de acalmar as expectativas de seus aliados e principalmente , das massas desses países aliados.




Após o criminoso ataque à Flotilla as massas dos países árabes foram às ruas exigindo o rompimento das relações com Israel . Obviamente, que o governos do Egito e da Turquia ficaram numa situação complicada e problemática, em seus países. Esse fato novo os forçou a tomar medidas e posições que antes não estavam colocadas no cenário. Isso cria contradições, por certo, mas ainda não é sinal de ruptura.




Senhores e senhoras, este é o drama palestino! Eles estão na alça de mira do canhão mais moderno que o capital especulativo pode apresentar a sociedade.




Na Palestina não existe condições objetivas de dois Estados.




Mesmo que houvesse, de fato, essa intenção, os territórios palestinos estão absolutamente fragmentados para supor tal proposição. Este Estado seria absurdamente controlado pela ocupação. Não teria sequer um espaço contíguo.




Conformar um Estado ao lado e sob a tutela da ocupação sionista , sem o retorno dos refugiados, é na prática legitimar o Estado fascista, étnico e racista, é legitimar a injustiça, a ocupação e legitimar o poder do sionismo na Palestina e no Oriente Médio.




Os palestinos perderam a soberania de todas suas riquezas naturais. Lá existem 3 aqüíferos e todos estão sob o controle do sionismo. Roubaram de Gaza sua reserva off shore de gás natural. Os palestinos não tem controle sobre a distribuição da energia, da venda de seus produtos, das suas próprias vidas.




Para sobreviver, são obrigados a vender sua força de trabalho para o ocupante e fazem isso se arriscando a ganhar um tiro ao tentar atravessar a cerca, ou o muro.




Trabalham em empreitadas para qual não encontram quem as façam, no meio judaico e recebem ou não, por isso. Depende do humor do judeu que o contratou. Se não recebe, vai reclamar com quem? No tribunal Israelense, cujo juiz é um bem remunerado funcionário público do Estado sionista morador do Kibutz ou das colônias? Preocupado e interessado, ele próprio, com a manutenção e a reprodução do Estado étnico que lhe garante os privilégios?




Ouvimos muitas histórias tristes das experiências dos palestinos com a ocupação, mas a história de um jovem que se arriscou para tentar arrumar qualquer trabalho numa colônia, conseguindo, justamente, na demolição de uma casa que outrora era a casa de seus país, que foram expulsos do lugar , é de cortar o coração.




O Estado corta sem piedade as oliveiras milenares , chamadas de romanas; apropria-se das terras férteis; destrói os bairros; derruba as casas e expulsa as famílias. Provoca a fuga de milhares de pessoas que fogem da morte para campos de refugiados, depois de terem suas terras saqueadas e roubadas, seus cemitérios profanados, suas escolas destruídas e seus filhos e pais assassinados ou presos.




Os palestinos, em sua própria terra, não gozam dos benefícios das leis para os judeus, não tem direitos civis e direitos humanos, nem direitos sociais.




Por outro lado, esse mesmo Estado articula a migração de uma massa de judeus de diversas nacionalidades, garante para eles uma boa casa ou apartamento numa colônia construída sob os escombros de um bairro palestino, garante saúde de primeiro mundo, escola barata e de qualidade para seus filhos e um emprego nas forças armadas cuja tarefa é garantir a reprodução desse sistema perverso, fascista.





A proposta de dois Estados muda o que e onde nessa história?





Israel não vai mudar, pelo convencimento, seu caráter, sua natureza e sua função no projeto do capital sionista para o Oriente Médio. Portanto, mesmo que fosse possível ou viável a discussão de dois Estados, a situação dos palestinos não mudaria. Toda cadeia de injustiça na qual está baseada a construção do Estado fascista se manteria por uma simples razão: a Palestina fragmentada em cidades estanques continuaria ser um Estado dependente econômica e politicamente e impedido de reconstruir sua teia social. Nada mudaria para os trabalhadores que se arriscam diariamente para trabalhar, os chekpoints, as estradas continuariam controladas por Israel, o Exército sionista bem armado controlando tudo e todos, as prisões, as incursões, enfim…




Para ser franca, começo a achar que os que defendem essa solução fazem , mesmo que inocentemente, o jogo do sionismo.




Nesse sentido, a única forma de confrontar e atiçar as contradições da situação política de crise moral, do fascismo, é contrapor a luta por um Estado Palestino Livre, laico e soberano para todos os povos , com o retorno dos refugiados.




Só desta forma, podemos destruir o Estado fascista e impedir sua reprodução, não há outra via.




Muitas tarefas se impõe até lá e os palestinos, em particular a esquerda, que conta com um grande e precioso capital , tem pela frente a urgência de acelerar o processo de construção da unidade neste campo, acelerar a percepção popular do caráter duplo da opressão e enfrentar a direita que trai a luta do povo.




Que fique claro, a luta pela destruição do Estado fascista não será obra dos palestinos sozinhos. Essa luta requer o envolvimento de todos os setores antiimperialista e anticapitalista na maioria dos países. Essa é uma tarefa de todos nós.




Nesse sentido, vem lá da Palestina, a proposta unitária da esquerda de darmos início a construção de uma ampla frente para confrontar a aliança do imperialismo com o sionismo.





TEXTO ORIGINAL EM http://pagina13.org.br/?p=3237

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A imprensa autoproclamada "livre", na Venezuela, é paga pelos EUA para derrubar Chávez.



O financiamento de Washington a jornalistas

Como os EUA financiaram mais de 150 jornalistas contra Chávez

no Diário Liberdade


Texto original em :



Documentos recentemente desclassificados do Departamento de Estado dos Estados Unidos através da Lei de Acesso à Informação (FOIA, por suas siglas em inglês) evidenciam mais de US$ 4 milhões em financiamento a meios e jornalistas venezuelanos durante os últimos anos.

O financiamento tem sido canalizado diretamente do Departamento de Estado através de três entidades públicas estadunidenses: a Fundação Panamericana para o Desenvolvimento (PADF, por suas siglas em inglês), Freedom House e pela Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (Usaid).

Em uma tosca tentativa de esconder suas ações, o Departamento de Estado censurou a maioria dos nomes das organizações e dos jornalistas recebendo esses fundos multimilionários. No entanto, um documento datado de julho de 2008 deixou sem censura os nomes das principais organizações venezuelanas recebendo os fundos: Espaço Público e Instituto de Imprensa e Sociedade (IPYS).


Espaço Público e IPYS são as entidades que figuram como as encarregadas de coordenar a distribuição dos fundos e os projetos do Departamento de Estado com os meios de comunicação privados e jornalistas venezuelanos.


Os documentos evidenciam que a PADF, o FUPAD, em espanhol, implementou programas na Venezuela dedicados à “promoção da liberdade dos meios e das instituições democráticas”, além de cursos de formação para jornalistas e o desenvolvimento de novos meios na Internet devido ao que considera as “constantes ameaças contra a liberdade de expressão” e “o clima de intimidação e censura contra os jornalistas e meios”.


Financiamento a páginas web anti-Chávez


Um dos programas da Fupad, pelo qual recebeu US$ 699.996 do Departamento de Estado, em 2007, foi dedicado ao “desenvolvimento dos meios independentes na Venezuela” e para o jornalismo “via tecnologias inovadoras”. Os documentos evidenciam que mais de 150 jornalistas foram capacitados e treinados pelas agências estadunidenses e 25 páginas web foram financiadas na Venezuela com dinheiro estrangeiro. Espaço Público e IPYS foram os principais executores desse projeto em âmbito nacional, que também incluiu a outorga de “prêmios” de 25 mil dólares a vários jornalistas.


Durante os últimos dois anos, aconteceu uma verdadeira proliferação de páginas web, blogs e membros do Twitter e do Facebook na Venezuela que utilizam esses meios para promover mensagens contra o governo venezuelano e o presidente Chávez e que tentam distorcer e manipular a realidade sobre o que acontece no país.


Outros programas manejados pelo Departamento de Estado selecionaram jovens venezuelanos para receber treinamento e capacitação no uso dessas tecnologias e para criar o que chamam uma “rede de ciberdissidentes” na Venezuela.


Por exemplo, em abril deste ano, o Instituto George W. Bush, juntamente com a organização estadunidense Freedom House, convocou um encontro de “ativistas pela liberdade e pelos direitos humanos” e “especialistas em Internet” para analisar o “movimento global de ciberdissidentes”. Ao encontro, que foi realizado em Dallas, Texas, foi convidado Rodrigo Diamanti, da organização Futuro Presente da Venezuela.


No ano passado, durante os dias 15 e 16 de outubro, a Cidade do México foi a sede da 2ª Cúpula da Aliança de Movimentos Juvenis (“AYM”, por suas siglas em inglês). Patrocinado pelo Departamento de Estado, o evento contou com a participação da Secretária De Estado Hillary Clinton e vários “delegados” convidados pela diplomacia estadunidense, incluindo aos venezuelanos Yon Goicochea (da organização venezuelana Primero Justicia); o dirigente da organização Venezuela de Primera, Rafael Delgado; e a ex-dirigente estudantil Geraldine Álvarez, agora membro da Fundação Futuro Presente, organização criada por Yon Goicochea com financiamento do Instituto Cato, dos EUA.


Junto a representantes das agências de Washington, como Freedom House, o Instituto Republicano Internacional, o Banco Mundial e o Departamento de Estado, os jovens convidados receberam cursos de “capacitação e formação” dos funcionários estadunidenses e dos criadores de tecnologias como Twitter, Facebook, MySpace, Flicker e Youtube.


Financiamento a universidades


Os documentos desclassificados também revelam um financiamento de US$ 716.346 via organização estadunidense Freedom House, em 2008, para um projeto de 18 meses dedicado a “fortalecer os meios independentes na Venezuela”. Esse financiamento através da Freedom House também resultou na criação de “um centro de recursos para jornalistas” em uma universidade venezuelana não especificada no relatório. Segundo o documento oficial, “O centro desenvolverá uma rádio comunitária, uma página web e cursos de formação”, todos financiados pelas agências de Washington.


Outros US$ 706.998 canalizados pela Fupad foram destinados para “promover a liberdade de expressão na Venezuela”, através de um projeto de dois anos orientado ao jornalismo investigativo e “às novas tecnologias”, como Twitter, Internet, Facebook e Youtube, entre outras. “Especificamente, a Fupad e seu sócio local capacitarão e apoiarão [a jornalistas, meios e ONGs] no uso das novas tecnologias midiáticas em várias regiões da Venezuela”.

“A Fupad conduzirá cursos de formação sobre os conceitos do jornalismo investigativo e os métodos para fortalecer a qualidade da informação independente disponível na Venezuela. Esses cursos serão desenvolvidos e incorporados no currículo universitário”.


Outro documento evidencia que três universidades venezuelanas, a Universidade Central da Venezuela, a Universidade Metropolitana e a Universidade Santa Maria, incorporaram cursos sobre jornalismo de pós-graduação e em nível universitário em seus planos de estudos, financiados pela Fupad e pelo Departamento de Estado. Essas três universidades têm sido os focos principais dos movimentos estudantis antichavistas durante os últimos três anos.

Sendo o principal canal dos fundos do Departamento de Estado aos meios privados e jornais na Venezuela, a Fupad também recebeu US$ 545.804 para um programa intitulado “Venezuela: As vozes do futuro”. Esse projeto, que durou um ano, foi dedicado a “desenvolver uma nova geração de jornalistas independentes através do uso das novas tecnologias”. Também a Fupad financiou vários blogs, jornais, rádios e televisões em regiões por todo o país para assegurar a publicação dos artigos e transmissões dos “participantes” do programa.


A Usaid e a Fupad


Mais fundos foram distribuídos através do escritório da Usaid em Caracas, que maneja um orçamento anual entre US$ 5 milhões e US$ 7 milhões. Esses milhões fazem parte dos 40 a US$ 50 milhões que anualmente as agências estadunidenses, europeias e canadenses estão dando aos setores antichavistas na Venezuela.


A Fundação Panamericana para o Desenvolvimento está ativa na Venezuela desde 2005, sendo uma das principais contratistas da Usaid no país sulamericano. A Fupad é uma entidade criada pelo Departamento de Estado em 1962, e é “filiada” à organização de Estados Americanos (OEA). A Fupad implementou programas financiados pela Usaid, pelo Departamento de Estado e outros financiadores internacionais para “promover a democracia” e “fortalecer a sociedade civil” na América Latina e Caribe.


Atualmente, a Fupad maneja programas através da Usaid com fundos acima de US$ 100 milhões na Colômbia, como parte do Plano Colômbia, financiando “iniciativas” na zona indígena em El Alto; e leva dez anos trabalhando em Cuba, de forma “clandestina”, para fomentar uma “sociedade civil independente” para “acelerar uma transição à democracia”.


Na Venezuela, a Fupad tem trabalhado para “fortalecer os grupos locais da sociedade civil”. Segundo um dos documentos desclassificados, a Fupad “tem sido um dos poucos grupos internacionais que tem podido outorgar financiamento significativo e assistência técnica a ONGs venezuelanas”.


Os “sócios” venezuelanos


Espaço Público é uma associação civil venezuelana dirigida pelo jornalista venezuelano Carlos Correa. Apesar de sua página web (www.espaciopublic.org) destacar que a organização é “independente e autônoma de organizações internacionais ou de governos”, os documentos do Departamento de Estado evidenciam que recebe um financiamento multimilionário do governo dos Estados Unidos. E tal como esses documentos revelam, as agências estadunidenses, como a Fupad, não somente financiam grupos como o Espaço Público, mas os consideram como seus “sócios” e desde Washington lhes enviam materiais, linhas de ação e diretrizes que são aplicadas na Venezuela, e exercem um controle sobre suas operações para assegurar que cumprem com a agenda dos Estados Unidos.


O Instituto de Imprensa e Sociedade (IPYS) é nada mais do que um porta-voz de Washington, criado e financiado pelo National Endowment for Democracy (NED) e por outras entidades conectadas com o Departamento de Estado. Seu diretor na Venezuela é o jornalista Ewald Sharfenberg, conhecido opositor do governo de Hugo Chávez. IPYS é membro da agrupação Intercâmbio Internacional de Livre Expressão (IFEX), financiado pelo Departamento de Estado e é parte da Rede de Repórteres Sem Fronteiras (RSF), organização francesa financiada pela NED, pelo Instituto Republicano Internacional (IRI) e pelo Comitê para a Assistência para uma Cuba Livre.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

TERRORISMO DE ESTADO




Terrorismo na Colômbia


por Enrique F. Chiappa





A expressão "falso positivo" normalmente nos leva a pensar em alguma doença infectocontagiosa potencialmente letal diagnosticada erroneamente. Assim, vemos: homem processa hospital depois de viver por anos com diagnóstico falso positivo de AIDS, ou, mulher aliviada ao constatar que seu diagnóstico de gripe suína era um falso positivo. Também ouvimos "falso positivo" sobre o resultado equivocado que pode apresentar um exame de gravidez caseiro.


Mas, na Colômbia de Álvaro Uribe, essas palavras são a única forma tolerada de se referir aos assassinatos extrajudiciais promovidos pelo terrorismo de Estado.

O curta-metragem documentário La pobreza, un "crimen" que se paga con la muerte (A pobreza, um "crime" que se paga com a morte) do jornalista colombiano Felipe Zuleta nos conta uma história do seu país bem diferente da oficial. Começa nos apresentando a cidade de Soacha, colada a capital Bogotá, com 400 mil habitantes apinhados, morando em condições precárias, ruas sem calçamento e todo tipo de violência. Lá vivem duas mães cujos filhos, mesmo sem se conhecerem, tiveram histórias bem parecidas. Eles, ante a pobreza e falta de oportunidades, decidiram partir a procura de um trabalho que lhes permitisse melhorar a vida de suas famílias. O sonho era poder comprar uma casa em um lugar melhor.

Eles receberam uma proposta de trabalho, viajaram em agosto de 2008 e não deram mais notícias. Logo as mães percorreram hospitais e delegacias, mas sem resultado.

Em um país onde todos os males são atribuídos às Farc, elas ouviram das autoridades que os guerrilheiros os teriam assassinado, e acabaram se conformando com essa resposta.
Mas, meses depois, é achada uma vala comum com 14 corpos a 500 km de Soacha; ali estão os filhos desaparecidos. Depois de o governo ensaiar versões contraditórias, o ministro da defesa declara que os mortos eram guerrilheiros das Farc caídos em combate contra o exército. O exercito tinha entregado os corpos à medicina legal e, como estavam sem documentos, foram enterrados na vala comum.

As mães, atônitas e indignadas, tentaram argumentar. Porém, longe de reconsiderar, o governo em peso — desde os militares até o próprio Uribe — garantiram que os rapazes eram guerrilheiros.

A imprensa habitualmente adota o discurso oficial, mas desta vez era insustentável. Lógico que não se atreveram a qualificar os militares de assassinos, mas passam a os acusar, usando a linguagem tolerada. E especulam: seriam falsos positivos os jovens de Soacha? Na Colômbia, "falso positivo" é dar como exitosa uma operação militar do Estado sem ser verdadeira. Pode se tratar da "frustração" de um plano terrorista fictício, pode se culpar a guerrilha por uma chacina cometida pelos próprios militares, etc. ou como neste caso assassinar civis acusando-os de guerrilheiros.

Então a luta incansável das mães levou á opinião pública, jornalistas, ONGs e Procuradoria a forçarem uma investigação que acabou desvendando a verdadeira história.

O plano macabro dos terroristas que governam a Colômbia consiste em promover e premiar em dinheiro os militares que produzem mais cadáveres para assim conseguir aumentar os orçamentos militares e somar apoio político mostrando serviço tanto dentro como fora do país, ademais de exterminar pobres. Movidos por esse incentivo, militares descaracterizados percorriam favelas e subúrbios a procura de jovens empobrecidos e lhes prometiam emprego. Os que mordiam a isca eram transportados para longe, assassinados e apresentados como guerrilheiros das Farc mortos em confronto.

Em poucos dias de investigação, a quantidade de jovens assassinados encontrados em valas comuns superavam a centena, sendo onze de Soacha. Ante as evidências irrefutáveis, Uribe admite que "pode ter integrantes das Forças Armadas envolvidos em assassinatos" . 26 militares são destituídos, mas sem alcançar nenhum general, comandante das fascistas forças armadas nem o ministro da defesa. Ao invés de punir os responsáveis, ocorre a blindagem de Uribe e seus sequazes.

Mas o drama das famílias não termina aí.

Longe de receber alguma indenização, pedido de desculpas ou explicação oficial do governo, são elas que têm que ir atrás dos cadáveres. Esta gente pobre é obrigada a viajar até a vala comum e com as próprias mãos resgatar os corpos de seus entes queridos. Muitas das mães de Soacha têm recebido ameaças de morte.

Em dezembro de 2009 a "justiça" colombiana começou a soltar alguns dos militares implicados. O general Mario Montoya, maior figura alcançada pelo escândalo, renunciou, mas foi premiado com o cargo de embaixador na República Dominicana.

Em 15 de janeiro deste ano, quando foi terminada a produção deste documentário, se contabilizavam 1.778 jovens assassinados pelo Estado. Dias depois vinha a público a descoberta de outra vala comum na cidade de La Macarena com mais de 2 mil corpos, comprovadamente vítimas do Estado.

Certamente novas valas serão achadas, já que o número de desaparecidos nos últimos anos ultrapassa as 50 mil pessoas.


Texto original em A Nova Democracia Ano VIII, nº 65, maio de 2010


Vídeo sobre o Falso Positivo na Colombia ( clique no link abaixo)

http://vimeo.com/6510080

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Por que a mídia reacionária mente sobre o retorno de Fidel


Por que a mídia reacionária mente sobre o retorno de Fidel


“Fidel, Fidel, Qué tiene Fidel, que los imperialistas no pueden con él?” Com este refrão os cubanos se acostumaram a saudar os discursos do líder da Revolução, Fidel Castro, invariavelmente combativos, enérgicos e impregnados de conteúdo antiimperialista. Nos últimos dias, com o reaparecimento em público do dirigente comunista, parece ter se criado na Ilha um ambiente propício à repetição do famoso estribilho. Para azar dos imperialistas.


Por José Reinaldo Carvalho*


Depois de quatro anos recolhido, em convalescença de uma grave enfermidade, o líder comunista ocupou a cena política em alto estilo. Por diversas vezes nos últimos dez dias, sem protocolo, em trajes informais e em tom coloquial, o primeiro-secretário do Partido Comunista Cubano concedeu longa entrevista num programa televisivo, visitou instituições científicas e manteve um encontro com diplomatas cubanos (assista ao vídeo em espanhol).


Torrencial, enfático e agudo como sempre, Fidel magnetizou o público nacional e internacional com suas profundas análises sobre a conjuntura mundial, chamou a atenção para a crise econômica, os problemas ambientais e alertou para o perigo de guerra emanado das políticas do imperialismo norte-americano.


Internacionalista, manifestou solidariedade com os países ameaçados, especialmente a Coreia do Norte e o Irã.


Foi o suficiente para que os imperialistas, reacionários e covardes de toda espécie levantassem uma nova cortina de fumaça com especulações e mentiras sobre as razões por que Fidel reapareceu em público.


É como se o estribilho entoado nas ruas e praças cubanas ao longo de mais de meio século de Revolução e construção do socialismo martelasse qual um espectro sonoro nas cabeças dos políticos, ideólogos e porta-vozes do imperialismo.


Foi com jogos de palavras, contorcionismos mentais, especulações, mentiras e cinismo que a mídia conservadora noticiou e interpretou a presença de Fidel e seus pronunciamentos. Aqui no Brasil até um ex-embaixador nos Estados Unidos, viúvo da diplomacia rastejante, foi mobilizado para dizer que sinalizam que nada vai mudar em Cuba (leia a entrevista do ex-embaixador Roberto Abdenur no UOL).


Tais reações denunciam a desilusão dos inimigos de Cuba, verdadeiros abutres, com o fato de a natureza ser caprichosa, para azar dos sicários e terroristas que inúmeras vezes tentaram assassinar o líder cubano.


Eis que descobrimos mais uma qualidade, dentre tantas outras de Fidel – o mérito de estar vivo, loquaz, lúcido e vertical e de, aos 83 anos – completará 84 em breves dias, em 13 de agosto – permanecer na batalha de ideias, defendendo a razão dos povos, denunciando os crimes do imperialismo e da reação, com a voz e a pena, arma dos sábios que empunharam, quando necessário, também as armas de fogo da guerrilha revolucionária e libertadora.


É isto que causa espécie e provoca a furibunda reação dos inimigos de Cuba.


Ainda não refeitos do susto, os abutres e as aves de mau agouro anunciaram aos quatro ventos que o “reaparecimento” de Fidel, que coincidiu cronologicamente com o anúncio da libertação de prisioneiros, era um sinal da sua oposição a essa decisão do governo liderado por Raúl Castro, seu irmão e sucessor na chefia do Conselho de Estado. Mas nenhum repórter e articulista, embora engenhosos na mentira, foram capazes de apresentar uma palavra ou documento de Fidel, do Partido Comunista, força dirigente do país, nem de qualquer órgão de governo para corroborar sua versão, transmudada em fato por uma mídia especializada no goebbeliano método de transformar mentiras em verdades pela arte da repetição exaustiva.


Além da insatisfação com a decisão do governo cubano de liberar os prisioneiros, Fidel teria também manifestado seu inconformismo com o processo de transição em curso na Ilha, pelo qual a liderança cubana faz ingentes esforços para enfrentar os duros efeitos do criminoso bloqueio imposto ao país pelo imperialismo.


Sob a liderança do governo e do Partido Comunista, o povo cubano percorre seu caminho de reconstrução da economia, de defesa das suas conquistas revolucionárias, de preservação e aperfeiçoamento do sistema político do poder popular, pela continuidade do socialismo nas novas condições da presente época. As flexões estratégicas e táticas que a liderança cubana está levando a efeito são lógicas, compreensíveis, naturais e indispensáveis. Conduzirão ao fortalecimento e ao aperfeiçoamento do socialismo e, não se iludam os seus inimigos, tornarão o povo cubano mais forte para enfrentar as ameaças e tentativas de desestabilização e agressão. Desde que deixou a Presidência do Conselho de Estado e passou a dedicar-se a escrever e publicar suas reflexões, dentre as milhares que vieram à luz não se encontrará uma só palavra de Fidel contrária às políticas implementadas pelo governo cubano liderado por Raúl Castro.


Se Fidel, Raúl e os demais dirigentes cubanos debatem tais assuntos com gravidade e prudência, encarando-os e sopesando cada medida a adotar, cada passo a avançar ou recuar, com critérios e enfoques diversificados, é uma interrogação que somente as inteligências menores e as vontades mesquinhas podem apresentar.


Obviamente, o móvel dos inimigos da Revolução cubana é pescar em águas turvas e descortinar um cenário de divisão e crise interna. As mudanças que propõem para Cuba nada têm a ver com as que ocupam o tempo e exigem o empenho da liderança do país.


Para os amigos de Cuba a presença lúcida de Fidel na cena política cubana e internacional é motivo de regozijo.


Fidel é parte inseparável da história de Cuba e da humanidade, uma figura gigantesca dos séculos 20 e 21, indômito no enfrentamento dos inimigos dos povos, líder político incomparável, estadista de raro talento e um ser humano admirável de quem as gerações atuais de lutadores pela libertação nacional e a emancipação social têm muito que aprender.


Que seja bem-vindo, discurse, escreva, polemize, oriente os revolucionários e fustigue os inimigos. Estes nada poderão.


*Secretário Nacional de Comunicação do PCdoB e editor do Vermelho







quinta-feira, 15 de julho de 2010

Venezuela: magnicídio na ordem do dia


Venezuela: magnicídio na ordem do dia

por Pedro Campos


No dia 26 de Setembro a Venezuela terá eleições parlamentares. Há quatro anos, a oposição oligárquica optou por boicotá-las e não participar na tentativa vã de deslegitimar o processo bolivariano. Saiu-lhe mal o tiro e esta vez, ao que parece, vai mesmo contar-se. Contudo, as sondagens não são muito animadoras para a burguesia crioula ao serviço de Washington e o assassínio de Hugo Chávez continua a ser uma opção para travar o processo de transformações progressistas iniciado em 1999. Apesar de há já várias décadas o governo de Kennedy ter proibido o assassinato de líderes estrangeiros – não disse nada sobre os nacionais e talvez por isso lhe sucedeu o que já sabemos – é evidente que esta «política» encaixa bem nos projectos da Casa Branca para uma América Latina que cada dia caminha mais firmemente para deixar de ser o quintal dos EUA.


É evidente que a reacção local nega qualquer acusação neste sentido. É tudo «propaganda do regime», e está claro que se tiver sucesso com este plano criminal dirá que a morte de Chávez foi um ajustamento de contas entre bolivarianos. As evidências são claras, mas os meios de (des)informação cumprem bem, a nível mundial, o seu papel de preparar a opinião pública para qualquer desenlace que faça jeito aos interesses do capital.


Há poucos dias foi detido, ao tentar ingressar na Venezuela, o salvadorenho Francisco Chávez Abarca, conhecido terrorista internacional estreitamente ligado ao famigerado anticastrista Posada Carriles, responsável por vários crimes e actos terroristas perpetrados em Cuba e noutros países da América Latina, entre eles a Venezuela, onde foi chefe da polícia política de Carlos Andrés Pérez, essa figura de proa da Internacional Socialista, a mesma que recentemente definiu Hugo Chávez como um «ditador moderno». Qual era a «missão» deste terrorista em Caracas? Ao que se sabe, este responsável por vários actos de terrorismo em Cuba admitiu que vinha provocar atentados antes das eleições de 26 de Setembro. Talvez fosse para algo mais, e aqui voltamos ao magnicídio tão caro à oligarquia venezuelana.


Dos mercenários colombianos aos terroristas de Israel


Em 2004, a oligarquia venezuelana lambia as feridas resultantes do fracasso do golpe de Abril de 2002 e da greve patronal de Dezembro 2002/Janeiro 2003, mas não estava inactiva. Sempre telecomandada por Washington, «importou» um grupo de 140 paramilitares colombianos. A inteligência venezuelana detectou-os e foram apanhados na herdade Daktari, não muito longe de Caracas. A sua missão era liquidar Chávez, o qual com muita generosidade e não menos inocência os devolveu pouco depois à Colômbia. Quem sabe quantos já terão reingressado na Venezuela com as mesmas intenções... Faz falta dizer que a oposição venezuelana negou qualquer relação com este grupo?


Mas há mais. Nesse mesmo ano, mas a 25 de Outubro, Orlando Urdaneta, actor e locutor de televisão ligado ao golpe de 2002, declarava num programa de televisão em Miami – a escória cubana e venezuelana dão-se bem nesse esgoto – que a solução política na Venezuela passava pelo assassinato de Hugo Chávez. Quando a entrevistadora, Maria Elvira Salazar, ligada à máfia anticastrista da Florida, lhe perguntou por alguns detalhes da «operação», Urdaneta foi claro: «Tudo isto começa com o desaparecimento físico, pelo menos, do ‘cão maior’ e talvez por uma boa parte da matilha». Instado a ser mais específico, Urdaneta falou assim: «Isso sucede com uns homens de armas compridas com miras telescópicas que não falham» e acrescentou que esta ordem terá de partir de empresários com «dinheiro suficiente para trazer um comando israelita, como Deus manda». Perante esta exortação ao magnicídio de um chefe de Estado com o qual Washington mantém relações diplomáticas, que fizeram as autoridades norte-americanas? Absolutamente nada, ainda que tenham sido instadas pelas venezuelanas a actuar como corresponde num caso de intenção criminosa.




terça-feira, 13 de julho de 2010

O que se deveria fazer para se sair da crise - e não se faz



O que se deveria fazer para
se sair da crise - e não se faz


O que deveria ser feito


Neste momento, vive-se um grave problema no mundo inteiro. A taxa de crescimento econômico dos EUA e da União Europeia (UE) - que representam metade da economia global - caiu de forma muito significativa. Na realidade os dois países-continentes apresentaram mesmo um crescimento negativo, do qual estão a se recuperar muito lentamente, em primeiro lugar os EUA e depois os países da UE-15.

Neste grupo, o crescimento é muito baixo, ainda mais abaixo do registrado nos EUA, muito embora este último também não possa repicar seus sinos em comemoração. Em maio deste ano, foram criados apenas 20.000 novos postos de trabalho nos EUA, ante os 217.000 do mês anterior (N. do T.: este número de abril se explica pela contratação – temporária – de recenseadores pelo governo estadunidense, que já estão sendo dispensados). No entanto, vários países em desenvolvimento estão crescendo em ritmo forte, e o que mais cresce é a China, com números não inferiores a 8,7% por ano (em 2009). A China, portanto, está liderando o crescimento mundial, com os EUA muito atrás e a UE ainda mais atrás. O que explica este gradiente de crescimento? A resposta é fácil de ver e tem dois componentes. Um deles é o estímulo ao crescimento econômico e a forma como vem sendo realizado.

A China ultrapassou a cifra de 8% do PIB em investimentos públicos que visam à criação de empregos. Os EUA despendem 5%, com um tipo de estímulo que favoreceu a criação de empregos públicos e privados. Em contraste, na UE o estímulo foi muito inferior (2,3% do PIB), sendo predominantemente constituído por cortes de impostos, que têm pouco impacto na criação de empregos. Nos EUA, vozes influentes, como a do assessor econômico do presidente Obama, o senhor Larry Summers, pedem agora um segundo estímulo de 200 bilhões de dólares (os sindicatos – AFL-CIO - estão pedindo 400 bilhões). Na UE, no entanto (embora seja difícil de acreditar), os gastos dos governos estão a ser reduzidos, o que equivale ao suicídio econômico a longo prazo. Mas as economias não morrem (ou seja, não entram em colapso), a menos que algo as empurre para a queda e para a substituição por outro sistema (o que não é provável que aconteça); então, o que provavelmente acontecerá é que crescerão muito pouco e com um sacrifício generalizado das classes trabalhadoras. Na verdade, isso também pode ocorrer em muitos países que ora se encontram sob a pressão do FMI, a voz grossa neoliberal, que impõe cortes substanciais nos gastos públicos e condena esses países à miséria, como se vê em um relatório recente da UNICEF (ver a segunda parte deste artigo).

A outra parte da resposta é que o grau de recuperação de um país depende do grau de controle que o Estado tem sobre o capital financeiro. Quanto maior este controle, maior a recuperação. O Estado chinês controla o setor financeiro, enquanto na UE é o oposto: o setor financeiro parece controlar os estados. O que deve ser feito é que o Estado assuma o controle do setor financeiro. Sem que isso aconteça, é difícil prever uma recuperação rápida.


O que estou dizendo é óbvio, mas a o fato de sê-lo não garante que tudo isto seja feito, uma vez que requer uma vontade política para enfrentar o capital financeiro, e a isto os políticos da UE não se atrevem. Em vez disso, sacam de sua coragem para enfrentar os mais fracos. O que Joseph Stiglitz descreveu como obsessão doentia com os mercados de trabalho europeus significa que o capital financeiro ainda é muito forte e o mundo do trabalho ainda é muito fraco nos países da UE. No entanto, as reformas em curso não terão qualquer impacto sobre o declínio no emprego – o maior problema da UE. Pelo contrário, afetá-lo-ão negativamente.


O que realmente está acontecendo na UE


Vemos que em Espanha e na União Europeia estão a se desenvolver as políticas neoliberais que os grupos empresariais e financeiros desejaram que se realizassem por anos a fio, e que agora, aproveitando a crise (criada pelas próprias empresas financeiras) , pressionam os Estados-membros para que estes as imponham às classes populares. A “crise” é a desculpa para o desmonte final dos Estados de bem-estar social e a desregulamentação dos mercados de trabalho, enfraquecendo os sindicatos e conseguindo por conseqüência a redução dos salários. Para atingir o primeiro objetivo – a redução do Estado de bem-estar social – está-se usando o argumento da disciplina fiscal, que se deve entender como a eliminação do déficit fiscal do Estado e redução da dívida pública com base na redução da despesa pública (incluindo gastos sociais). Para atingir o último (enfraquecer os sindicatos e rebaixar os salários), salienta-se a necessidade de aumentar a competitividade, a fim de estimular a economia através da exportação de produtos nacionais. Neste esquema, as vozes neoliberais – que costumavam usar os EUA como modelo – agora exaltam a Alemanha, empurrando-a como “exemplo” para que os demais países da UE copiem suas ações. Naquele país, os rendimentos do trabalho têm diminuído agudamente vis-à-vis um crescimento exuberante dos rendimentos de capital, com base na banca e nas empresas exportadoras.


Estas medidas neoliberais são apresentadas como necessárias para resolver a crise. Sem eles, supostamente, os países da UE – incluindo a Espanha – não sairão da crise em que vivem. É importante saber que as mesmas vozes neoliberais, os mesmos argumentos, eram usados antes da crise atual. Se você ler, como o fiz, os documentos do Fundo Monetário Internacional, do Banco Central Europeu, do Banco de Espanha e os relatórios da OCDE e do patronato espanhol, verá que essas políticas neoliberais foram postas em marcha desde a década de oitenta. Seus documentos são extremamente previsíveis. Leia um e os terá lido a todos. Toda essa gente tem a dizer a mesma coisa. O documento final é um relatório do Deutsche Bundesbank, que não economiza nas conclusões. Ele diz que, se essas políticas não forem implementadas, a economia europeia irá afundar. E promove, mais uma vez, as políticas neoliberais, com o apoio do FMI. Parece que, finalmente, conseguiram.


As consequências políticas do FMI e da UE


A União Europeia – dominada por bancos alemães e de outros países no seio da UE-15 –, assistida pelo Fundo Monetário Internacional, já tem estado a implementar essas políticas, nos últimos anos, nos países bálticos, como condição de admissão na Eurozona. Os resultados têm sido desastrosos. Estima-se que o PIB desses países será reduzido em 20% desde que essas reformas foram iniciadas em 2007. Nenhum país (desde que os EUA perderam 25% do seu PIB durante a Grande Depressão) viveu uma situação semelhante. O FMI simplesmente assume, de forma demasiado optimista e pouco realista, que essas economias se recuperarão. Mas, mesmo em suas próprias projeções, reconhece que, na Lituânia, em 2014 o PIB será 7,1% inferior ao registrado no ano de 2007, 9,1% inferior na Estônia e na Letônia, 14% abaixo. Enquanto isso, em todos esses países o desemprego tem disparado e está entre 15% e 20%. Essas receitas, claro está, terão os mesmos resultados em todos os países que têm sido aplicadas. A América Latina é o continente que mais sofreu como resultado da imposição das políticas do FMI; os casos mais conhecidos são os da Argentina e da Bolívia. Nesses países, a intervenção do FMI provocou um declínio no PIB e um aumento dramático da pobreza. Na verdade, esses casos são exemplos de políticas altamente impopulares, dado que são prejudiciais aos interesses da classe trabalhadora, e são extremamente ineficientes. Daí a enorme impopularidade do FMI (onde se questionou até mesmo a necessidade de sua existência) e a ascensão de governos de esquerda, que praticamente expulsaram o FMI de seus países. Na Argentina, o governo Kirchner, em 2001, mudou radicalmente a política econômica do país, abandonando as políticas neoliberais do FMI e, em vez da catástrofe prevista pelo órgão, seis meses após o início das políticas keynesianas, o país cresceu 9% ao ano durante os seis anos que se seguiram. Em 2008, a economia da Argentina havia crescido enormemente, aumentando seu tamanho por um terço.


Uma situação semelhante ocorreu na Bolívia, onde Evo Morales mudou radicalmente a política do governo, passando do neoliberalismo a uma política de expansão dos gastos públicos, enquanto nacionalizava o gás e do petróleo. A Bolívia é hoje um dos países que mais cresce na América Latina.


Se as políticas neoliberais são tão nocivas, porque continuam a ser propostas? A explicação mais frequente é a persistência de um dogma – o dogma neoliberal reproduzido no Consenso de Washington e em sua versão européia, o Consenso de Bruxelas, nos fóruns financeiros e as políticas que influenciam. Mas a pergunta que deve ser feita é por que esta ideologia continua a ser promovida. E a resposta é óbvia. Essas políticas continuam a ser implementadas porque servem os interesses das classes empresariais e financeiras. O fato de considerarem a redução do déficit e da dívida como o objetivo mais importante de suas políticas é porque, com isso, reduz-se a proteção social se e eleva a taxa de desemprego na classe trabalhadora, debilitando a esta e fortalecendo àquelas, aumentando seus lucros. Como resultado das políticas neoliberais, os ganhos de capital aumentaram, atingindo níveis sem precedentes, enquanto os rendimentos do trabalho têm diminuído. E isso é o que conta para eles. Tudo o resto é secundário.


Mas, para isso, eles precisam apresentar estas políticas como absolutamente necessárias, ser assistidas nesta tarefa por instituições neoliberais que formatam a sabedoria econômica convencional, promovida na maioria dos meios de comunicação e persuasão, enquanto se ocultam fatos embaraçosos que mostram não só a sua incompetência, mas a sua inconsistência. O FMI, que impõe enormes sacrifícios salariais para os países e grandes reduções nos rendimentos sociais (como o adiamento da idade da aposentadoria) , paga salários astronômicos aos seus funcionários (apesar de sua óbvia deficiência), permitindo que se aposentem aos 51 anos (sim, você leu corretamente, 51 anos), pagando pensões superiores a US$ 100.000.

Não é preciso adicionar comentários.


texto original de Vicenço Navarro

publicado originalmente em rebelion.org.


Texto traduzido encaminhado por LUIZ LIMA para a ESK

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Tesouros de Saramago.


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O MAFARRICO