Pesquisa Mafarrico

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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Política e a Organização do Vaticano

A Política e a Organização do Vaticano
por O. Arturov, publicado por Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 17 - Fevereiro-Março de 1949

"As encíclicas de Leão XIII ("Rerum Novarum", 1891) e de Pio XI (Quadragésimo Anno"), por exemplo, expõem com precisão o programa da "eliminação" da luta de classe pela "união" dos patrões e dos operários, devendo os primeiros cuidar "paternalmente" das necessidades dos segundos e devendo estes, por sua vez, permanecer na obediência a seus patrões. Foi essa forma nova de submissão dos operários aos patrões que o fascismo italiano pôs em prática. E uma personagem tão reacionária quanto o conde Coudenhove Kalerghi, o fundador do movimento da "Pan-Europa" podia, a esse respeito, qualificar o catolicismo como "forma fascista do cristianismo"."
Uma das sete colinas históricas de Roma, a do Vaticano, escapa à soberania do Estado italiano. Seu território, com a extensão de 44 hectares, forma um Estado soberano, submetido ao chefe da Igreja Católica mundial, o Papa. Esse estranho Estado, de que o velho latim é a língua oficial, conta pouco mais de mil súditos. A nacionalidade vaticana não pode ser transmitida nem hereditariamente, nem pelo fato do nascimento no território do Vaticano; é concedida unicamente a título pessoal, por decreto do Papa. O governador do Vaticano, que comanda os guardas vestidos de uniformes medievais e recrutados principalmente nos cantões católicos da Suíça, é subordinado apenas ao Papa ou ao Colégio dos Cardeais, nas épocas de férias da Santa-Sé.

O papado é uma das mais antigas instituições da Europa. De fato, desde que Roma deixou de ser o centro político do império romano e desde que o cristianismo, outrora religião perseguida, saiu das trevas das catacumbas para se transformar na Igreja oficial dominante, o bispo de Roma tornou-se a personalidade mais influente da cidade, depois, a partir de Leão 1.° (440-461), exerceu o governo efetivo da grande cidade e da região circunvizinha. Afinal, forte pelo prestígio da "cidade eterna", reivindicou o comando de toda a Igreja cristã, comando que lhe foi ardentemente contestado pelos bispos da Igreja do Oriente, mas que foi amplamente reconhecido no Ocidente.

Durante séculos, o papado representou, assim, um duplo papel histórico. O portador da tiara era simultaneamente um dos maiores senhores feudais italianos, esforçando-se em aumentar e em manter seu domínio, e o Chefe da Igreja, isto é, de todo o universo católico. Nesse duplo título, o papado foi, em quase todas as etapas de sua história, uma força política reacionária, organizando "cruzadas" contra os movimentos sociais mais progressistas, queimando os grandes sábios e os reformadores e freando, assim, o progresso social e cultural. E foi também freqüentemente o árbitro internacional dos negócios temporais, até a queda do feudalismo e a formação, no século XVI, em vários países, das Igrejas protestantes nacionais, independentes de Roma.

Como funciona a máquina de propaganda do ocidente

Como funciona a máquina de propaganda do ocidente
por Nikolai Starikov
"Assim, agora o Ocidente e a Quinta Coluna na Rússia "são residentes de Alepo" ("Je suis Aleppo!"), apesar de nenhum deles se importar com a Síria em geral e com Alepo em particular. Só que, agora, os projetores do circo de informações ocidentais estão virados para aquele lado. Portanto, toda a gente olha obedientemente naquela direção, observando apenas o que lhe mostram.

Mas não se preocupem, daqui a nada vão esquecer tudo sobre Alepo. Vão mostrar-lhes e contar-lhes um conto assustador, novinho em folha, e o infantil Zé Povinho vai acreditar nisso. Vão começar a preocupar-se com alguém ou com qualquer coisa… até que a máquina de propaganda ponha em destaque outros factos, noutro país, deixando de noticiar a tragédia de Donbass ou das diversas cidades da Síria, ou do Iêmen, ou de centenas de outros locais do planeta, cujas tragédias diárias recebem dos meios de comunicação ocidentais apenas um frio encolher de ombros. "
1. O seu princípio fundamental é a fragmentação. Isto pode parecer estranho, mas a fragmentação é o fundamento supremo da lavagem ao cérebro ocidental. 

Não é segredo que o sistema de ensino nas "democracias avançadas" está concebido de forma a criar artificialmente uma visão muito estreita do mundo. Em contrapartida, o sistema escolar soviético tenta criar uma visão abrangente do mundo, mesmo entre os alunos mais preguiçosos, enchendo-lhes a cabeça com alta matemática, física, química e astronomia, por mais improvável que seja eles virem a usar todos esses conhecimentos. A compreensão da forma como o mundo está interligado, a causa e o efeito, e a capacidade de juntar tudo e analisar diversos factos, chama-se "pensamento analítico". É o primeiro passo para a criatividade. 

Todas estas coisas desapareceram do sistema de ensino ocidental. O nosso país tentou adotar este sistema, numa "reforma do ensino", que tem um objetivo claro: a fragmentação da sociedade, não apenas em classes, mas em castas. A casta dirigente recebe um ensino clássico em escolas privilegiadas, as Cambridges e Eatons, em que se ensina uma visão abrangente do mundo e em que são forjados os futuros líderes e as elites do mundo ocidental. Todos os restantes recebem um "sistema de ensino avançado" que, na prática, aboliu os trabalhos de casa, e os estudantes acabam por quase nem saber ler. Quem quer que tenha frequentado a escola na URSS e conheça as escolas ocidentais poderá dizer como o programa na União Soviética era muito mais sólido. Os nossos estudantes do liceu resolviam problemas que os ocidentais estudavam na faculdade. 

A ênfase neste sistema de ensino no Ocidente não acontece por acaso. 

domingo, 30 de outubro de 2016

"Amor é amor no movimento comunista"

"Amor é amor no movimento comunista"
Publicado em INQUIRER.net
"“Nosso casamento é uma reafirmação do amor igualitário. Somos todos humanos, e todos devemos ter o mesmo direito a escolher quem amar e quem será nosso parceiro de vida”, disse Diana.

Com balas de munição nas palmas de suas mãos, as recém-casadas não se limitaram a jurar amor recíproco, mas também em provar ao mundo que, tal como com outras pessoas, era um amor como qualquer outro."
“Beija! Beija! Beija!”, gritava a multidão, no meio da selva, em algum lugar das montanhas de Mindanao. Era um dia libertador, diziam.

Com uma bandeira vermelha com a foice e o martelo tremulando sobre seus respectivos ombros, Maymay e Diane se beijaram numa cerimônia de casamento realizada pelo Partido Comunista das Filipinas (PCF). Este foi o primeiro casamento lésbico na história de Mindanao, e aconteceu sob a cobertura de um matagal fortemente protegido por guerrilheiros armados. O primeiro casamento deste tipo aconteceu, segundo boatos, em algum lugar da região metropolitana de Manila.

“Devemos nos esforçar para melhorar nossos relacionamentos pessoais enquanto trabalhamos para elevar nosso compromisso com o povo e a revolução”, disse um comandante do NEP (Novo Exército Popular), braço armado do Partido Comunista das Filipinas, durante a cerimônia.

Sem palavras

“Eu fiquei realmente sem palavras, cheia de admiração quando a vi pela primeira vez. Ela havia acabado de tomar banho e não penteou o cabelo. Eu me apaixonei de imediato por ela”, disse a risonha Maymay. Ela dizia que, à medida em que os dias passavam, ela se dava conta que o sentia por Diane era algo realmente especial. “Não foi um processo fácil. Os dias passavam e meus sentimentos por ela se tornavam mais fortes, até eu ter certeza que estava realmente apaixonada por ela”, acrescentou.

sábado, 29 de outubro de 2016

"Sois a favor ou contra a União Soviética?"

"Sois a favor ou contra a União Soviética?"
por Otto Kuusinen
publicado na Revista Problemas, nº 14, outubro de 1948.

"o Estado soviético, fundamentalmente diferente de todos os Estados anteriores, representa a realização desde há muito esperada de um objetivo histórico elevado, com o qual sonharam durante séculos os mais nobres espíritos da humanidade progressista. Os trabalhadores conscientes de todos os países compreendem que o Estado soviético é o primeiro Estado da sociedade socialista que o mundo conhece, o destacamento de vanguarda das forças progressistas da humanidade, chamadas a realizar o processo histórico universal que tende a substituir a sociedade burguesa exploradora pela livre sociedade socialista."

No outono de 1917, milhões de operários dos países capitalistas acolheram com entusiasmo a notícia da vitória da revolução proletária na Rússia, da fundação do primeiro Estado operário e camponês no mundo. E quando os governos das potências imperialistas organizaram uma intervenção militar anti-soviética, os trabalhadores da Inglaterra, da França, dos Estados Unidos e de numerosos outros países colocaram-se contra essa criminosa agressão e procuraram ajudar o jovem Estado soviético.

Desde esse momento a burguesia reacionária, apavorada, denunciou como pecado mortal a solidariedade ao Estado soviético. Em quase todos os países capitalistas, iniciou-se a perseguição, a caça aos amigos da União Soviética e, sobretudo, aos membros dos Partidos Comunistas, dos sindicatos revolucionários, das juventudes comunistas, das organizações femininas e das sociedades dos amigos da URSS.

No intervalo entre a primeira e a segunda guerras mundiais, os governos mais reacionários fizeram furiosas tentativas de liquidar, por meio de uma repressão feroz, de um regime de terror sangrento, todos os amigos fiéis e ativos da União Soviética. Não apenas os bandidos fascistas da Alemanha e da Itália, da Espanha e do Japão, mas também a Defensiva polonesa, a Segurança finlandesa, a Segurança romena e outras variedades da Gestapo caçavam sistematicamente os militantes de vanguarda do movimento operário e os intelectuais progressistas. Dezenas de milhares dos melhores filhos dos trabalhadores e trabalhadoras foram presos e atrozmente torturados. Via de regra, a pergunta de praxe que os inquisidores do século XX faziam às suas vítimas era a seguinte:

— Sois a favor ou contra a União Soviética?

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Campo de Concentração do Tarrafal - o Campo da Morte Lenta

Campo de Concentração do Tarrafal - Símbolo da repressão fascista
por Domingos Abrantes 

"Infernal era igualmente a vida diária dos presos, determinada por um regulamento que instituía a violência e a arbitrariedade como regra. Se nos primeiros campos de concentração nazis, destinados aos opositores de Hitler, os SS se encarregavam de lembrar aos presos «que não se encontravam num sanatório, mas num campo de concentração», no Tarrafal os responsáveis do campo eram bem mais explícitos: «Daqui ninguém sai com vida... Quem vem para o Tarrafal vem para morrer», sentença complementada pela afirmação do médico de que a sua função não era tratar da saúde dos presos, mas passar certidões de óbito, ação que realizou 32 vezes, tantas quantos foram os presos assassinados. Não foi certamente por acaso que tendo o campo sido inaugurado em condições precárias, os promotores não se tenham esquecido, como questão imprescindível, de construir o cemitério."

"Com grande probabilidade, o 80.º aniversário da abertura do Campo do Tarrafal vai passar perante a indiferença dos poderes constituídos, da generalidade das forças políticas e da Comunicação Social. E, no entanto, mais do que nunca, quando o fascismo levanta de novo cabeça em vários países e se torna uma ameaça, é dever de todos os que não querem o regresso ao passado e querem a liberdade como forma de viver intervir para preservar a memória colectiva da resistência ao fascismo sem a qual não teria sido conquistada a liberdade, continuar a denunciar os crimes da ditadura e transmitir às jovens gerações que a liberdade conquistada significou enormes sacrifícios para milhares de portugueses cuja memória deve ser honrada."
Daqui a dois dias, a 29 de Outubro, assinala-se os 80 anos da entrada em funcionamento do Campo de Concentração do Tarrafal, que passaria à história como o Campo da Morte Lenta, qualificação que traduz de forma muito exacta a função para a qual foi criado: a liquidação psicológica e física dos presos políticos para lá enviados, sujeitos ao mais violento sistema prisional.

No dia 29 de Outubro de 1936, o Campo do Tarrafal era formalmente inaugurado com a chegada da primeira leva de 152 presos (79 dos quais encontravam-se presos na Fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, e 73 faziam parte dum total de 155 presos transferidos da cadeia do continente para a mesma Fortaleza).

O Campo de Concentração do Tarrafal, baptizado de Cadeia Penal, não era, como alardeava o regime, «uma cadeia como as outras existentes na Metrópole destinada a presos políticos». Pelos princípios orientadores estabelecidos para o seu funcionamento, marcados pela violência e a arbitrariedade permanentes, pelo local escolhido para a sua instalação – uma zona inóspita, de condições climáticas adversas e sem água potável –, pela sua estrutura física – uma vasta área cercada de arame farpado e forte vigilância militar e instalações precárias –, o Campo de Concentração do Tarrafal, inspirado nas experiências dos primeiros campos de concentração hitlerianos destinados a presos políticos, tornar-se-ia na mais sinistra cadeia fascista e expressão maior da política repressiva da ditadura contra os seus opositores mais determinados e conscientes.

"Particularidades do Racismo Brasileiro"

"Particularidades do Racismo Brasileiro"
por Clóvis Moura, publicado na Revista Princípios nº 32, fev-abr 1994

"Além do mais, após o 13 de Maio e o sistema de marginalização social que se seguiu, colocaram-no como igual perante a lei, como se no seu cotidiano da sociedade competitiva (capitalismo dependente) que se criou esse princípio ou norma não passasse de um mito protetor para esconder desigualdades sociais, econômicas e étnicas. O Negro foi obrigado a disputar a sua sobrevivência social, cultural e mesmo biológica em uma sociedade secularmente racista, na qual as técnicas de seleção profissional, cultural, política e étnica são feitas para que ele permaneça imobilizado nas camadas mais oprimidas, exploradas e subalternizadas. Podemos dizer que os problemas de raça e classe se imbricam nesse processo de competição do Negro pois o interesse das classes dominantes é vê-lo marginalizado para baixar os salários dos trabalhadores no seu conjunto."

Quando falamos de um sistema classificatório racial no Brasil, subordinado a uma escala de valores racistas, evidentemente não nos referimos a um código elaborado e institucionalizado legalmente.

Assim como nunca elaboramos um Código Negro que regulamentasse as relações entre os senhores e os escravos, também não tivemos um tipo apartheid da África do Sul ou uma Jim Crow dos Estados Unidos. Da mesma forma como a Constituição do Império omitiu a existência da escravidão e o jurista Teixeira de Freitas tenha se recusado a colocá-la quando redigiu o projeto do Código Civil do Império, assim também esse sistema classificatório racista não foi codificado e institucionalizado, embora tenha atuado dinamicamente durante quase quinhentos anos. 

Pelo contrário. Enquanto as classes dominantes, suas estruturas de poder e elites deliberantes aplicavam essa estratégia discriminatória, através de uma série de táticas funcionando em diversos níveis e graus da estrutura, elaboraram, em contrapartida, como mecanismo de defesa ideológica a filosofia do branqueamento espontâneo via miscigenação e como complemento apresentavam-nos como o laboratório piloto da confraternização racial, cujo exemplo deveria ser seguido pelos demais países poliétnicos. Essa dupla face do comportamento das estruturas de poder racistas do Brasil será o que iremos abordar na conclusão deste capítulo.

Podemos dizer, em primeiro lugar, que no Brasil esse problema (relacionamento interétnico) foi conduzido em relação ao índio e ao negro de forma diferenciada, mas com o mesmo conteúdo de destruição da consciência étnica e cultural de ambos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A mitificação e a mistificação do capitalismo

A mitificação e a mistificação do capitalismo
por Daniel Vaz de Carvalho

"A intoxicação das consciências sobre os direitos sociais e o papel do Estado na economia prossegue. A direita e a propaganda ao seu serviço apresentam as ditas "reformas estruturais" como fatores de "crescimento econômico e emprego". Mas essas "reformas" não são mais que as condições para a oligarquia, assumindo uma arrogância sem limites, ficar livre do controlo democrático e prosseguir atos de vigarice e mesmo criminosos,

Os oligarcas são apresentados como beneméritos da sociedade, agentes do crescimento, único recurso contra a pobreza, quando os factos provam justamente o contrário: absorvem pelas estratégias monopolistas e domínio sobre o poder político o resultado do trabalho alheio, seja do proletariado seja das MPME, e a riqueza do Estado, em nome da confiança dos mercados - eufemismo atrás do qual se esconde a oligarquia.

Os 30 mais ricos detêm de patrimônio líquido, segundo a Forbes, cerca de 950 mil milhões de euros; o 1% mais rico dispõe de 50% da riqueza mundial. Como relata a OXFAM: "Têm tudo e querem mais"."

"A luta para que o céu se tornasse mensurável foi ganha através da dúvida. Mas a luta da dona de casa pelo leite é todos os dias perdida pela credulidade" 
Bertholt Brecht, Galileu Galilei 

"Quando os pobres sabem que é preciso trabalhar ou morrer de fome, trabalham. Se os jovens sabem que não terão socorro na velhice, eles economizam" 
William Nassau, economista e político inglês, 1790-1864.

1 – "Os anos de ouro" 

A mitificação do capitalismo começa por uma visão idílica, mitificada, dos "anos de ouro do capitalismo" apregoando o seu "extraordinário sucesso" e a estagnação e fracasso do socialismo. Por um lado, fecham os olhos às devastações e todas as espécies de horrores cometidos pelo imperialismo, pelo neocolonialismo e pelas ditaduras, para impor o capitalismo. 

Por outro, a realidade socialista é totalmente deturpada, num acervo de mentiras e omissões. Apenas como exemplo, entre 1950 e 1972 a produção industrial dos países socialistas cresceu 8,4 vezes a dos países capitalistas desenvolvidos, 3,1. Em 1940 era na URSS 5,8 vezes a de 1928. [1]

O sistema capitalista é apresentado como tendo permitido a ascensão de classes sociais, produzido mais riqueza, melhoria do nível de vida e direitos. O que esquecem é que tudo isto foi obtido – onde foi – não pelo capitalismo, mas contra o capitalismo, pelo proletariado organizado sindical e politicamente. Porém, o que de positivo e progressista se obteve está, em termos capitalistas, sempre a ser posto em causa, como evidenciam a austeridade, o neoliberalismo, o imperialismo, já não falando dos diversos modelos de fascismo: a ditadura terrorista do grande capital, com ou sem braços esticados. 

Brasil : A volta do poder teológico-político

A volta do poder teológico-político
por Vladimir Safatle
"Alguém poderia perguntar qual o problema com o fato de uma igreja governar o Rio de Janeiro. Afinal, Genebra foi governada por Calvino. Mas a Universal tem suas peculiaridades. Seu líder, cuja fortuna foi estimada pela revista “Forbes”, em 2013, em R$ 2 bilhões, foi preso nos anos 1990 por charlatanismo, estelionato e curandeirismo."

"Mas não é só a obscuridade ética que ronda a Igreja Universal. Detentora de redes de televisão e emissoras de rádio, a igreja se consolidou, sob os governos Lula e Dilma, como um poder político terreno incontornável. Um poder que procura cada vez mais impor sua agenda ao país e que nada tem a ver com a ideia de uma república laica, plural e radicalmente tolerante."

"Na verdade, esse desmonte final da capacidade de assistência do Estado brasileiro faz parte de um projeto claro de poder. Pois, assim, igrejas como a dele serão, ao final, as únicas responsáveis pela assistência social, criando uma relação perversa de dependência de populações carentes que se verão diante de um Estado cuja única função será deixar os ricos cada vez mais ricos."

A consolidação de um poder teológico-político a comandar o Estado não é algo que seja um risco apenas em certos países muçulmanos ou na Polônia.

Ele é um fato cada vez mais evidente no Brasil com seus pastores-deputados aliados de saudosos da ditadura militar. Tal consolidação do poder teológico-político alcançará um grau inaudito caso o pastor Marcelo Crivella seja eleito prefeito da segunda maior cidade do país.

Crivella tentou se vender como um político “normal”, mesmo relatando lei que obriga bibliotecas a terem uma Bíblia e pune funcionários que desrespeitem tal privilégio (por que não obrigá-las a terem também um Corão, a “Ilíada” ou o “Tratado Teológico-Político”, de Spinoza?).

No entanto, ele é, na verdade, o principal representante político de um megaempreendimento religioso chamado Igreja Universal do Reino de Deus, comandado por seu tio, o arquiconhecido Edir Macedo. Sua eleição significa que a cidade mais emblemática do Brasil será governada pela Igreja Universal.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Marx: manuscrito sobre o dinheiro

Marx: manuscrito sobre o dinheiro
Terceiro manuscrito de Karl Marx, escrito entre abril e agosto de 1844

"O dinheiro, então, aparece como uma força demolidora para o indivíduo e para os laços sociais, que alegam ser entidades auto-subsistentes. Ele converte a fidelidade em infidelidade, amor em ódio, ódio em amor, virtude em vício, vício em virtude, servo em senhor, boçalidade em inteligência e inteligência em boçalidade.

Posto que o dinheiro, como conceito existente e ativo do valor, confunde e troca tudo, ele é a confusão e transposição universais de todas as coisas, o mundo invertido, a confusão e transposição de todos os atributos naturais e humanos.

Aquele que pode comprar a bravura é bravo, malgrado seja covarde. O dinheiro não é trocado por uma qualidade particular, uma coisa particular ou uma faculdade humana especifica, porém por todo o mundo objetivo do homem e da natureza. Assim, sob o ponto de vista de seu possuidor, ele troca toda qualidade e objeto por qualquer outro, ainda que sejam contraditórios. Ele é a confraternização dos incomparáveis; força os contrários a abraçarem-se."

Se os sentimentos, paixões, etc. do homem não são meras características antropológicas no sentido mais restrito, mas sim afirmações verdadeiramente ontológicas do ser (natureza), e se só são realmente afirmadas na medida em que seu objetivo existe como um objeto dos sentidos, então é evidente:

(1) que seu modo de afirmação não e um só e imutável, mas, antes, que os diversos modos de afirmação constituem o caráter distintivo de sua existência, de sua vida. A maneira pela qual o objeto existe para eles é a forma distintiva de sua gratificação;

(2) onde a afirmação sensorial é uma anulação direta do objeto em sua forma independente (como ao beber, comer, trabalhar um objeto, etc), esta é a afirmação do objeto;

Envelhecer com direitos - A instrumentalização dos indicadores demográficos

Envelhecer com direitos - A instrumentalização dos indicadores demográficos
por FERNANDA MATEUS

"Aumento da esperança média de vida, trata-se de uma conquista civilizacional recente que não pode ser pretexto para impor uma regressão social para os actuais e futuros reformados, pensionistas e idosos. Desde logo, porque nem todos chegam aos 65 anos, sendo necessário continuar a intervir para reduzir a morte precoce. Por outro lado, viver mais tempo não significa viver com qualidade de vida num contexto político de agravamento dos factores de risco que pesam sobre os reformados, pensionistas e idosos: aumento da precariedade económica; aumento da pobreza; acentuação das dificuldades e exclusão de acesso a serviços públicos basilares na promoção do bem-estar e da qualidade de vida; agravamento das desigualdades no acesso a respostas sociais adequadas às situações de doença e de dependência para os idosos com mais baixos rendimentos."

Nos últimos anos os indicadores demográficos têm vindo a ser instrumentalizados ao serviço da política de direita e das orientações das instâncias europeias e mundiais do sistema capitalista.

O aumento da esperança média de vida e o envelhecimento demográfico têm servido para fundamentar como inevitável um caminho já iniciado em Portugal de aumento da idade legal de reforma (associando-o à esperança média de vida aos 65 anos), de redução do seu valor para os trabalhadores que passam à condição de reformados e fazendo depender a actualização anual das pensões do desempenho da economia.

Simultaneamente, são adiantadas «teses» em torno dos malefícios da «inactividade» resultante do aumento da esperança média de vida, apontando como solução milagrosa o «envelhecimento activo» assente no prolongamento da actividade profissional dos trabalhadores e dos reformados.

Argumentam que não é sustentável o regime previdencial assente nas contribuições dos activos (e das entidades patronais) como fonte de financiamento das despesas com pensões; e que está em causa o equilíbrio anual entre as quotizações resultantes do trabalho e as despesas com prestações sociais, designadamente dos reformados e pensionistas.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"HÁ COMPROMISSOS E COMPROMISSOS"


"HÁ COMPROMISSOS E COMPROMISSOS"
por Gil C. Santos
(Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa)

"Face a todos estes tipos de riscos, é compreensível que Lénine tenha sentido a necessidade de evitar, quer os infantis e sectários voluntarismos revolucionários esquerdistas, quer as derivas oportunistas e capitulantes de direita – designadamente, procurando determinar critérios objetivos que permitam distinguir os diferentes tipos de compromissos que os partidos comunistas podem estabelecer com forças políticas burguesas e capitalistas.

Numa palavra: é contra os esquerdistas que Lénine nega o não incondicional a qualquer tipo de compromisso, assim como é contra os oportunistas de direita que Lénine nega o seu sim incondicional."

1. Da importância dos compromissos contra todos os esquerdismos

No contexto da luta dos comunistas, Lénine (1920a: 70) defendeu, consistentemente, a importância e a necessidade da realização de compromissos com outras forças proletárias e, até mesmo, burguesas e capitalistas.

Os voluntarismos esquerdistas, os sectarismos e as impaciências subjectivas não constituem uma atitude marxista. Recorde-se a crítica que Engels, em 1874, endereçou aos 33 communards blanquistas que queriam “saltar por cima de estações intermediárias e de compromissos”, pretendendo ‘introduzir’ o comunismo “depois de amanhã” (Lénine 1920b: 126-127).

Nesta óptica, “negar os compromissos ‘por princípio’, negar a admissibilidade dos compromissos em geral, quaisquer que sejam, é uma criancice que até é difícil de levar a sério” (Lénine 1920b: 101).Aliás, recorda Lenine (op. cit.: 129), “toda a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro, está cheia de casos de manobra, de conciliação e de compromissos com outros partidos, incluindo os partidos burgueses!”.

Engels: "Contribuição Para a História do Cristianismo Primitivo"

Engels: "Contribuição Para a História do Cristianismo Primitivo"
por Friedrich Engels, publicado no Die Neue Zeit, em 1895


"O nosso livro, com a data (68 ou 69) atestada de maneira tão particular, é indubitavelmente o mais antigo da literatura cristã no seu conjunto. Nenhum outro é escrito numa língua tão bárbara, em que formigam os hebraísmos, as construções impossíveis, os erros gramaticais. Só os teólogos de profissão, ou outros historiógrafos interessados, continuam a negar que os Evangelhos e os “Atos dos Apóstolos” são arranjos tardios de escritos hoje perdidos e cujo tênue núcleo histórico já não pode ser descoberto sob a luxuriante lenda; mesmo as três ou quatro “Epístolas” apostólicas pretensamente autênticas de Bruno Bauer não representam mais do que escritos de uma época posterior, ou, na melhor das hipóteses, composições mais antigas de autores desconhecidos, retocadas e embelezadas por numerosas adições e interpolações."

A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria; o cristianismo transpõe essa libertação para o Além, numa vida depois da morte, no céu; o socialismo coloca-a no mundo, numa transformação da sociedade. Os dois são perseguidos e encurralados, os seus aderentes são proscritos e submetidos a leis de exceção, uns como inimigos do gênero humano, os outros como inimigos do governo, da religião, da família, da ordem social. E, apesar de todas as perseguições, e mesmo diretamente servidos por elas, um e outro abrem caminho vitoriosamente. Três séculos depois do seu nascimento, o cristianismo é reconhecido como a religião do Estado e do Império romano: em menos de sessenta anos, o socialismo conquistou uma posição tal que o seu triunfo definitivo está absolutamente assegurado.

Conseqüentemente, se o Sr. Professor A. Menger, no seu “Direito ao Produto Integral do Trabalho”, se espanta de que, sob os imperadores romanos, tendo em vista a colossal centralização das riquezas e os sofrimentos infinitos da classe trabalhadora, composta essencialmente de escravos, “o socialismo não tenha sido implantado depois da queda do Império romano ocidental”, é porque precisamente não vê que esse “socialismo”, na medida em que era possível na época, existia efetivamente e chegava ao poder. . . com o cristianismo. Só que o cristianismo, como tinha fatalmente de ser, considerando as condições históricas, não queria a transformação social neste mundo, mas no Além, no céu, na vida eterna depois da morte, no millenium eminente.

Já na Idade Média o paralelismo dos dois fenômenos se impõe, quando dos primeiros levantamentos dos camponeses oprimidos e, sobretudo, dos plebeus das cidades. Esses levantamentos, tal como todos os movimentos de massas na Idade Média, tiveram necessariamente uma máscara religiosa; aparecem como restaurações do cristianismo primitivo em conseqüência de uma degenerescência crescente, mas atrás da exaltação religiosa escondem-se, regularmente, interesses muito positivos deste mundo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O Mito de uma Europa em paz

Barbárie francesa em Argélia
O Mito de uma Europa em paz
por Nadine Rosa-Rosso
"Uma interessante retrospectiva da “paz” promovida pelas grandes potências europeias desde o final da II Guerra. O balanço que é feito é breve, e poderia prolongar-se até à atualidade. Não apenas com o rol crescente de intervenções militares imperialistas europeias no Médio Oriente e em África, mas com o registro da sua intervenção na própria Europa no processo de destruição da Jugoslávia."
No dia seguinte aos atentados de 13 de Novembro em Paris, perante o Congresso, François Hollande afirmou em tom grave: «a França está em guerra». A mesma frase repete-a sem cessar após cada atentado. Depois dos acontecimentos de Niza, acrescentou que a «guerra está fora e dentro da França». A terra sagrada dos direitos humanos, da paz e das Luzes amanheceu em estado de sítio, cobardemente atacada pela barbárie e o obscurantismo.

Esta é a versão da história que se supõe que deveríamos aceitar e assumir, nós, os povos de uma Europa civilizada que temos conseguido viver em paz há setenta anos.

Na realidade, nunca deixamos de estar em guerra. E a França é um bom exemplo do que é um estado de guerra permanente. Impõe-se a necessidade de recordar a história.

Um período de guerras ininterruptas

Mal acabara a II Guerra Mundial, o governo provisório francês surgido, das forças da resistência e tantas vezes representado como exemplo pela esquerda atual, envia ao Vietname (nessa época parte da Indochina francesa) um corpo militar expedicionário para tratar de acabar com a guerra de independência. Sob a presidência de Leon Blum, figura política modelar para a esquerda atual, a intervenção transforma-se numa verdadeira guerra. A França envia cerca de meio milhão de soldados para salvaguardar o seu território colonial: 43,5% dos soldados desse exército provem das outras colônias francesas (Magreb e África negra) A França será derrotada na batalha de Dien Bien Phu, em Maio de 1954.

Nesse mesmo período, em 1947, a França perpetra um massacre em Madagáscar contra a rebelião dos malgaches, houve 11 mil mortos, segundo as versões oficiais francesas e 100 mil mortos segundo os resistentes malgaches. Nessa guerra, uma vez mais, as tropas de repressão francesas eram constituídas na sua maioria por soldados provenientes das colônias africanas e magrebinas.

Marx: "A Burguesia e a Contrarrevolução"

Marx: "A Burguesia e a Contrarrevolução"
Artigo de Karl Marx, publicado na Neue Rheinische Zeitung de 15 de Dezembro de 1848

"As revoluções de 1648 e de 1789 de modo algum foram revoluções inglesas ou francesas, foram revoluções de estilo europeu. Não foram a vitória de uma classe determinada da sociedade sobre a velha ordem política; foram a proclamação da ordem política para a nova sociedade europeia. Nelas, a burguesia venceu; mas a vitória da burguesia foi então a vitória de uma nova ordem social, a vitória da propriedade burguesa sobre a feudal, da nacionalidade sobre o provincianismo, da concorrência sobre a corporação, da divisão [da propriedade] sobre o morgadio, da dominação do proprietário da terra sobre o domínio do proprietário pela terra, das luzes sobre a superstição, da família sobre o nome de família, da indústria sobre a preguiça heroica, do direito burguês sobre os privilégios medievais. A revolução de 1648 foi a vitória do século XVII sobre o século XVI, a revolução de 1789 a vitória do século XVIII sobre o século XVII. Estas revoluções exprimem mais ainda as necessidades do mundo de então do que das regiões do mundo em que se deram, a Inglaterra e a França."

Quando o dilúvio de Março — um dilúvio em miniatura — passou, não deixou à superfície da terra berlinense quaisquer prodígios, quaisquer colossos revolucionários, mas criaturas do estilo antigo, figuras burguesmente atarracadas — os liberais da Dieta unida, os representantes da burguesia prussiana consciente. As províncias que possuíam a burguesia mais desenvolvida, a Província Renana e a Silésia, forneciam o contingente principal para os novos ministérios. Atrás deles, todo um séquito de juristas renanos. À medida que a burguesia era empurrada para um plano secundário pelos feudais, nos ministérios, a Província Renana e a Silésia cediam lugar às primitivas províncias prussianas. O ministério Brandenburg só ainda tem ligação com a Província Renana através de um tory de Elberfeld. Hansemann e von der Heydt! Nestes dois nomes reside, para a burguesia prussiana, toda a diferença entre Março e Dezembro de 1848!

A burguesia prussiana foi atirada para os píncaros do Estado, porém, não, como tinha desejado, por meio de uma transição pacífica com a Coroa, mas por meio de uma revolução. Não eram os seus próprios interesses, mas os interesses do povo, que devia representar contra a Coroa, isto é, contra si própria, uma vez que um movimento popular lhe tinha preparado o caminho. Aos seus olhos, a Coroa era, porém, precisamente apenas o escudo pela graça de Deus por detrás do qual se deviam ocultar os seus interesses próprios profanos. A inviolabilidade dos seus interesses próprios e das formas políticas correspondentes ao seu interesse, traduzida na linguagem constitucional, devia soar [assim]: inviolabilidade da Coroa, Daí o entusiasmo da burguesia alemã e, especialmente, da prussiana pela monarquia constitucional. Daí que, se a revolução de Fevereiro com todas as suas sequelas alemãs, foi bem recebida pela burguesia prussiana, porque por ela o leme do Estado lhe foi posto nas mãos, ela igualmente foi um golpe nos seus cálculos, porque, deste modo, a sua dominação ficava ligada a condições que ela não queria cumprir nem podia cumprir.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Paz ou Violência?

Paz ou Violência?
Por Vo Nguyen Giap

"Os que engoliram o veneno do pacifismo e humanitarismo burgueses se opõe a toda forma de violência. Não fazem nenhuma distinção do caráter de classe dos diversos tipos de violência. Para eles a violência empregada pela burguesia com o objetivo de reprimir o proletariado e a violência utilizada por este último para resistir à burguesia são a mesma coisa. Lenin disse uma vez: “Falar de ‘violência’ em geral, sem distinguir as condições que diferenciam a violência reacionária da revolucionária, é equiparar-se a um filisteu que renega a revolução, ou simplesmente, engana a si mesmo e engana aos demais com sofismas” "

Extrato de um artigo de Vo Nguyen Giap, publicado em “El Hombre y el Arma”, pg. 153 a 158, das edições La Rosa Blindada, 1968.

A violência: parteira do novo sistema social

Desde o momento em que a sociedade foi dividida em classes, as classes dominantes estabeleceram sua máquina de Estado para oprimir e explorar as classes dominadas por elas. O Estado é o instrumento de violência empregado pelas classes dominantes para esmagar toda a resistência que possa surgir das classes dominadas. Os dominadores empregam tropas, polícias, espiões, tribunais de justiça e prisões contra os dominados. As classes exploradoras no Poder empregam sempre, por uma parte, a violência para reprimir as classes exploradas. Por outra parte, empregam seus “teóricos” para difundir o pacifismo e a teoria da “não violência” fazendo com que os explorados resignem-se de seu destino sem recorrer a violência para resistir aos ataques das classes exploradoras no Poder.

Entretanto, os que constantemente recorrem a violência para a repressão do povo trabalhador, são os que clamam contra o uso da violência. A violência que se opõe e atacam é a que os oprimidos e explorados por eles empregam para resistirem, tanto que a violência que eles utilizam frequentemente para reprimir o povo trabalhador a proclamam como um favor que concedem a este último.

UE : Assim vai o estado da «União»...

Assim vai o estado da «União»...
por João Ferreira

"É sintomático do actual estado de coisas na UE e, bem assim, dos perigos e ameaças que este processo comporta para o futuro da Europa e dos seus povos, que a grande novidade do discurso de Juncker tenha sido a da constituição de um novo fundo da UE – não para promover a coesão econômica e social, não para combater o desemprego e a pobreza, nem sequer destinado à proteção do ambiente, mas sim para desenvolver e incrementar as capacidades militares da UE. Disse-o o mesmo Juncker que poucos minutos antes tinha desfiado a ladainha da UE como projecto garante da paz (sem precedente nem paralelo) no continente europeu. Mas o consabido atrevimento do presidente da Comissão Europeia deu para isto e deu para mais. Deu para afirmar, sem corar de vergonha, a sua firme intenção de combater a evasão fiscal – ele que, enquanto ministro das Finanças, primeiro, e primeiro-ministro do Luxemburgo, depois, assinou acordos secretos com várias multinacionais para as ajudar a fugir ao pagamento de impostos."

Disposto a evitar salgar feridas recém-abertas, num registro sóbrio e contido, distante da «europeísta» bazófia de outros tempos, registro esse sintomático da dimensão e profundidade da crise do projeto de integração capitalista europeu, assim se apresentou o presidente da Comissão Europeia, perante o Parlamento Europeu, no último debate sobre a situação da União Europeia.

O primeiro desde a decisão do Reino Unido de sair da UE, este debate iniciou-se com Juncker cauteloso e condescendente, aqui e ali jogando à defesa. Que a Europa está em crise, sim, mas que não se procure na UE e na sua acção a justificação única para esta crise. Que se procure antes na UE a solução para a crise. Com «mais e melhor Europa», está claro (entenda-se: mais UE).

Tentando a todo o custo evitar que outros vejam na porta aberta pelos britânicos a serventia da casa, Juncker apressou-se a sossegar os mais inquietos: «a UE não é nem será um super-estado». Nem tampouco pretende, deus os livre, desrespeitar as soberanias nacionais. Pelo contrário, a «Europa» cá estará apenas para «ajudar», para «acrescentar» e não para dificultar a vida aos estados nacionais. Exercício grotesco este, ou não fossem estas palavras proferidas num momento em que pesam sobre estados nacionais, como Portugal, chantagens e ameaças de sanções da UE por não serem acatadas as suas imposições. Mas este exercício demonstra, ao mesmo tempo, que quem o faz sabe perfeitamente, para lá das nuvens de poeira erguidas nos últimos meses, quais foram as causas fundas do resultado do referendo no Reino Unido: a percepção pelos povos do carácter crescentemente antidemocrático, antinacional e anti-social da UE.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Engels: "O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem"

Engels: "O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem"
por Friedrich Engels, escrito em 1876 e publicado no Neue Zeit em 1896.


"A ciência social da burguesia, a economia política clássica, só se ocupa preferentemente daquelas conseqüências sociais que constituem o objetivo imediato dos atos realizados pelos homens na produção e na troca. Isso corresponde plenamente ao regime social cuja expressão teórica é essa ciência. Porquanto os capitalistas isolados produzem ou trocam com o único fim de obter lucros imediatos, só podem ser levados em conta, primeiramente, os resultados mais próximos e mais imediatos. Quando um industrial ou um comerciante vende a mercadoria produzida ou comprada por ele e obtém o lucro habitual, dá-se por satisfeito e não lhe interessa de maneira alguma o que possa ocorrer depois com essa mercadoria e seu comprador. O mesmo se verifica com as conseqüências naturais dessas mesmas ações. Quando, em Cuba, os plantadores espanhóis queimavam os bosques nas encostas das montanhas para obter com a cinza um adubo que só lhes permitia fertilizar uma geração de cafeeiros de alto rendimento pouco lhes importava que as chuvas torrenciais dos trópicos varressem a camada vegetal do solo, privada da proteção das arvores, e não deixassem depois de si senão rochas desnudas! Com o atual modo de produção, e no que se refere tanto às conseqüências naturais como às conseqüência sociais dos atos realizados pelos homens, o que interessa prioritariamente são apenas os primeiros resultados, os mais palpáveis."

O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem.

Há muitas centenas de milhares de anos, numa época, ainda não estabelecida em definitivo, daquele período do desenvolvimento da Terra que os geólogos denominam terciário, provavelmente em fins desse período, vivia em algum lugar da zona tropical — talvez em um extenso continente hoje desaparecido nas profundezas do Oceano Indico — uma raça de macacos antropomorfos extraordinariamente desenvolvida. Darwin nos deu uma descrição aproximada desses nossos antepassados. Eram totalmente cobertos de pelo, tinham barba, orelhas pontiagudas, viviam nas árvores e formavam manadas.

É de supor que, como conseqüência direta de seu gênero de vida, devido ao qual as mãos, ao trepar, tinham que desempenhar funções distintas das dos pés, esses macacos foram-se acostumando a prescindir de suas mãos ao caminhar pelo chão e começaram a adotar cada vez mais uma posição ereta. Foi o passo decisivo para a transição do macaco ao homem.

Todos os macacos antropomorfos que existem hoje podem permanecer em posição erecta e caminhar apoiando-se unicamente sobre seus pés; mas o fazem só em casos de extrema necessidade e, além disso, com enorme lentidão. Caminham habitualmente em atitude semi-erecta, e sua marcha inclui o uso das mãos. A maioria desses macacos apóiam no solo os dedos e, encolhendo as pernas, fazem avançar o corpo por entre os seus largos braços, como um paralítico que caminha com muletas. Em geral, podemos ainda hoje observar entre os macacos todas as formas de transição entre a marcha a quatro patas e a marcha em posição erecta. Mas para nenhum deles a posição erecta vai além de um recurso circunstancial.

Os carrascos dos Balcãs

Os carrascos dos Balcãs
Guerras democráticas, crimes humanitários e mentiras caridosas 
por Anabela Fino

A prontidão com que se encerrou o «ficheiro Milosevic» legitima a convicção de quantos não se deixaram enganar pela campanha de desinformação levada a cabo a nível mundial, e que cedo perceberam que o grande «perigo» do julgamento do dirigente sérvio não era que este viesse a provar a sua inocência, mas antes que provasse as atrocidades cometidas pela NATO com o patrocínio dos EUA e da União Europeia (UE), e desmascarasse o plano concebido e executado por Washington para a destruição da Federação Jugoslava.

Não terá sido certamente por acaso que o julgamento de Milosevic começou, há cerca de quatro anos e meio, como um grande espectáculo mediático, e em poucas semanas foi banido dos noticiários, até cair no esquecimento.

Como escreveu a propósito Paul Craig Roberts (ex-secretário adjunto do Tesouro na administração Reagan, editor associado do Wall Street Journal, colaborador da National Review e co-autor de «A Tirania das Boas Intenções») se a «massiva campanha de propaganda contra Milosevic tivesse sido apoiada por muitos factos, ele teria sido condenado em Haia». Não foi.

Coloca-se então a questão de saber porquê.

[NE: como se refere no cabeçalho, sublinha-se que este artigo foi publicado em 2006/04/06. Além do mais, bastaria a breve referência a Guterres e Durão Barroso para justificar a sua publicação]

«Slobodan Milosevic, presidente do Partido Socialista da Sérvia e ex-presidente da Sérvia e da Jugoslávia, foi assassinado hoje no Tribunal de Haia. A decisão do Tribunal de recusar o tratamento médico de Milosevic no Instituto Bakunin em Moscovo representa um prescrição de sentença de morte contra Milosevic. A verdade e a justiça estavam do seu lado e por isso utilizaram uma estratégia de assassinato gradual de Slobodan Milosevic. A responsabilidade da sua morte recai evidentemente sobre o Tribunal de Haia.»

A acusação é de Zoran Andelkovic, dirigente do Partido Socialista Sérvio, e foi proferida a 11 de Março de 2006, o próprio dia da morte de Milosevic. 

Cerca de um mês depois, a pesada cortina de silêncio imposta sobre as obscuras causas do seu desaparecimento só tem paralelo na que envolve a actividade do «tribunal» e na que esconde os verdadeiros motivos da sua criação. 

É necessário retroceder mais de duas décadas para encontrar a ponta desta intricada meada que, segundo Sean Gervasi («Alemanha, Estados Unidos e a Crise Jugoslava», Covert Action Quarterly, nº 43), citado num artigo de Michel Chossudovsky, consta do documento secreto intitulado «Política dos Estados Unidos para a Jugoslávia».

domingo, 16 de outubro de 2016

Ameaças

Ameaças
por Jorge Cadima

"Há anos que os EUA impõem pela força a sua vontade. Quem se recusa a cumprir ordens é vítima de sanções econômicas, «revoluções coloridas», exércitos terroristas a seu soldo, invasões e guerras. Poucos são hoje os governos que se atrevem a votar contra as potências imperialistas na ONU. A Rússia, para lá do seu sistema social ou das questões de classe, é objecto dum cerco cada vez mais evidente. A NATO foi alargada até às suas portas. Os vassalos dos EUA provocam-na para a guerra (Geórgia em 2008, Ucrânia em 2014, Polônia em 2016). Quem se pode surpreender se depois de ver o destino da Jugoslávia, Iraque ou Líbia, os dirigentes russos chegarem à conclusão que enfrentar os EUA é uma questão de vida ou de morte para o seu país? Salvar o (legítimo, reconhecido pelos próprios EUA!) governo sírio e travar o monstro da guerra imperialista na Síria é tentar impedir que ele chegue ao seu próprio país. Para os EUA, uma derrota da sua guerra interposta contra a Síria seria um golpe profundo no seu poderio hegemônico. É por isso que o Gen. Milley invectiva contra «aqueles que se tentam opor aos Estados Unidos» e ameaça «esmagá-los»."
Nunca a luta pela paz e contra a loucura belicista foi tão urgente.

O Chefe de Estado Maior do Exército dos EUA, Gen. Milley, ameaçou num discurso oficial: «quero ser muito claro com aqueles que se tentam opor aos Estados Unidos […] vamos travar-vos e vamos esmagar-vos de forma mais dura do que alguma vez vos tenham esmagado» (no YouTube, e citado em www.military.com, 5.10.16). A ameaça é dirigida à segunda maior potência nuclear do planeta, a Rússia. Outra ameaça veio do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros dos EUA: «grupos extremistas irão expandir as suas operações, incluindo – sem qualquer dúvida – ataques a interesses russos, talvez mesmo contra cidades russas» (NYT, 29.9.16). Um editorial do New York Times (29.9.16) tem o título «O Estado fora-da-lei de Vladimir Putin». Porquê tamanha histeria contra a Rússia capitalista?

O acordo de cessar-fogo na Síria, assinado por Kerry e Lavrov, foi enterrado em poucas horas pelo ataque dos EUA que matou quase 100 soldados sírios que defendiam a cidade de Deir-ez-Zor, cercada pelo ISIL. Ataque que Kerry afirmou ter sido um «erro», mas sobre o qual o Chefe de Estado Maior General dos EUA, Gen. Dunford, tem outra opinião: «pode ser que, após concluída a investigação [...] digamos que voltaríamos a fazer o que fizemos» (Reuters, 19.9.16). 

A aparente insubordinação militar vinha de trás: o New York Times (13.9.16) deu (timidamente) conta duma conferência de imprensa no Pentágono em que os militares dos EUA se recusavam a prometer cumprir a sua parte do acordo assinado por Kerry. Já a quando da sua nomeação, o Gen. Dunford afirmara que «a Rússia era a principal ameaça aos EUA», referindo «como as mais importantes ameaças seguintes à segurança dos EUA, e por essa ordem, a China, a Coreia do Norte e o Estado Islâmico» (Washington Post, 9.7.15). O ministro da Defesa de Obama concorda: «Ashton Carter listou a hierarquia de ameaças aos Estados Unidos, que incluía a China, a Coreia do Norte, o Irão e, por fim, a luta contra o terrorismo. Mas o seu alvo prioritário foi a Rússia» (editorial do NYT, 3.2.16). 

O grande negócio por detrás do óleo de palma

O grande negócio por detrás do óleo de palma
por Ana Álvarez

"No sudeste asiático, o cultivo da palma relaciona-se com a deflorestação, os incêndios massivos, as inundações e os problemas de abastecimento de água. “A Indonésia ultrapassou em 2012 o Brasil na rapidez com que perde as suas florestas e tem agora a taxa de deflorestação mais elevada do mundo”, indicam. 1,7 milhões de hectares foram arrasados em 2015 por fogos que se repetem cada ano. “Queimar o solo é a forma mais rápida de o limpar. Por isso a utilizam”, explica Laura Villadiego. E por este motivo a Indonésia é, também, a terceira emissora mundial de gases de efeito de estufa, atrás apenas de Estados Unidos e Brasil."

"O crescimento meteórico da indústria palmeira foi impulsionado pelas agências de Cooperação para o Desenvolvimento de diversos países europeus, o Banco Mundial e muitos fundos de investimento, como o Fundo Africano para a Agricultura. Estas instituições deram apoio a supostos projetos de desenvolvimento relacionados com a palma. Assim sucedeu na ilha de Sumatra (Indonésia) ou na R. D. do Congo, onde una empresa financiada por organismos de cooperação europeus, entre os quais a AECID espanhola, foi acusada de usurpação de terras e exploração dos seus trabalhadores."

Consomes óleo de palma todos os dias, mas é provável que nunca o tenhas visto fisicamente. Nem saibas que detrás de este produto há uma história de deflorestação, deslocação de populações, exploração laboral, investimento de fundos públicos e grandes lucros para uns poucos. O projecto de investigação do colectivo de jornalistas Carro de Combate põe a descoberto tudo o que há detrás deste líquido vermelho.

“Parecia-nos muito interessante falar do óleo de palma porque é um produto acerca do qual a população em geral tem pouca informação. Parece que não o consumimos”, explica Aurora Moreno, uma das autoras da investigação. Foi em resultado de uma mudança na regulamentação europeia de etiquetagem que este produto se tornou mais visível. “Até há pouco podia colocar-se na lista de ingredientes simplesmente óleo vegetal. Agora têm que colocar que tipo de óleo utilizam. Por isso pensamos que era um momento muito oportuno, porque muitos consumidores iam dar-se conta de que o óleo de palma está em todo o lado”, explicam os Carro de Combate.

O primeiro aspecto que surpreende é descobrir que metade dos produtos processados que consumimos contêm óleo de palma. Encontramo-lo nas bolachas, chocolates, bolos, doces, margarina e sopas embaladas, por exemplo. Mas também está presente em produtos de higiene como champô, gel ou pasta de dentes, e a partir dele pode produzir-se biodiesel. Isto pode dar-nos uma ideia da importância que essa matéria-prima alcançou na economia mundial. “Está muito distante de nós, porque não se produz nas zonas onde vivemos e, entretanto, consumimo-lo massivamente”, destacam as investigadoras.

sábado, 15 de outubro de 2016

O racismo mortal dos liberais imperialistas 'antirracistas'


O racismo mortal dos liberais imperialistas 'antirracistas'
por Neil Clark

"Imagine se grandes progroms racistas contra negros começarem a ser lançados por grupos de direita na França. Com certeza gerariam indignação a mais justificada. Os perpetradores teriam de ser julgados e condenados. Mas, como Dan Glazebrook demonstrou, progroms racistas contra pessoas negras foram 'característica' da rebelião que o ocidente patrocinou na Líbia em 2011, desde os primeiros dias. Pois liberais ocidentais 'antirracistas' ainda assim continuaram a apoiar os raids, ataques aéreos 'humanitários' a favor de 'rebeldes' racistas. Como pode alguém ser contra pogroms racistas contra pessoas negras na Europa, mas apoiar o mesmo tipo de pogrom racista contra negros na Líbia? Ora! Para imperialistas liberais 'antirracistas' é fácil. Como Maximilian Forte escreveu: "Se isso fosse 'humanitarismo' só seria possível se, antes, esse 'humanitarismo' desqualificasse os povos africanos como estranhos à humanidade dos demais seres humanos.""
Em matéria de hipocrisia, os liberais ocidentais pró-guerra são recordistas mundiais. Ao mesmo tempo em que se declara opositor(a) do racismo, o(a) liberal pró-guerra é garoto(a) propaganda da mais perigosa e mais mortal forma de racismo que há hoje no mundo: o imperialismo contemporâneo puxado por EUA/Ocidente.

É racismo muito pouco denunciado ou comentado, mas que já semeou desgraça até reduzir países inteiros à miséria mais absoluta e matou milhões de pessoas – e que agora ameaça arrastar os norte-americanos a um confronto potencialmente catastrófico com a Rússia.

Pode-se ver esse racismo abominável à vista novamente nas discussões em círculos da elite dos EUA, sobre a Síria. Dá-se por comprovado que "nós", quer dizer, os EUA e aliados, teriam pleno direito para declarar que é e quem não é governo sírio legítimo. Podemos exigir o quando se queira que "Assad tem de sair", mas é claro que nenhum governo sírio poderia exigir que um dos NOSSOS governantes ocidentais saísse imediatamente. Até a simples cogitação é tomada como ofensa ao 'ocidente'! 

"Nós" temos direito de impor "Zonas Aéreas de Exclusão", as quais, claro, não se aplicam aos NOSSOS aviões –, só aos DELES. Temos direito de bombardear ou invadir ilegalmente qualquer país, quantas vezes queiramos – pelas razões mais fictícias –, mas, se povos nascidos nos países-alvos ousam resistir contra os invasores, são declarados "genocidas" e o governante dos povos que resistam (e aliados) é declarado criminoso de guerra e nós os mandamos para Haia. Enquanto isso, os governantes dos EUA podem infringir todas as leis internacionais e matar centenas de milhares, em total impunidade.

Primeiro-damismo e sororidade

Primeiro-damismo e sororidade
por CFCAM

"Governo e grande mídia investem na figura de Marcela Temer e escancaram a visão burguesa do papel da mulher na sociedade: servidão e docilidade para atender ao trabalho reprodutivo gratuitamente. Ao “amadrinhar” o programa federal “Criança Feliz”, Marcela Temer, que não é nenhuma estudiosa ou profissional do ramo, discursa em favor da romantização da caridade em detrimento a responsabilidade estatal de combater as desigualdades sociais. Afirma seu trabalho voluntário, na contramão da profissionalização do atendimento às demandas sociais decorrentes das desigualdades econômicas, de gênero, racial e do cuidado com crianças e jovens. Ainda, faz afirmações infames sobre “instinto feminino” e “instinto materno”, expressões da ideologia burguesa para naturalizar a exploração do trabalho feminino e o abandono do Estado burguês em relação às demandas sociais. Assistimos a volta das “damas caridosas” da alta sociedade e o primeiro-damismo."

Marcela Temer e o seu papel no avanço da política neoliberal

Desde que assumiu, o novo governo, alinhado com setores mais conservadores e o projeto neoliberal para o Brasil, com Michel Temer como sua principal liderança, vem de forma truculenta atacando direitos da classe trabalhadora e provocando grandes retrocessos na Educação, na Política de Assistência e na Saúde Pública.

Quase que diariamente, um Projeto de Lei é aprovado definitivamente ou avança pelas instâncias necessárias para isso. Essa semana, tivemos PL 12.351, que muda as regras de exploração da camada do pré-sal, e PEC 241 que limita os gastos públicos, aprovadas e alterações na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) foram feitas retirando a obrigatoriedade de diversas disciplinas, principalmente no Ensino Médio.

Alterações na previdência são engatilhadas e programas sociais vêm sofrendo cortes, como o Bolsa Família. Recentemente, o Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro (CFCAM) publicou uma Nota sobre como estes ataques fazem sangrar, ainda mais, as mulheres da classe trabalhadora. Veja no link.

Primeiro-damismo: caridade e responsabilidade do Estado

Sobre os acordos de paz na Colômbia

Sobre os acordos de paz na Colômbia
por Rizospastis

"O acordo não se avalia sob o critério de levar ou não a uma mudança das formas de luta. É da responsabilidade e obrigação de cada partido e movimento revolucionário escolher a forma de luta adequada em relação às condições e às exigências da luta de classes no seu próprio país. O critério é se obriga o movimento popular do país a concessões graves, inaceitáveis, perante a classe capitalista e seu poder, que o desarmarão política e ideologicamente e de maneira objectiva abrirão caminho a acontecimentos que levarão à agudização da repressão contra o movimento popular, ou à sua assimilação, ou a ambos simultaneamente. "

Como já se sabe, domingo 2 de Outubro celebrou-se um plebiscito como objectivo de ratificar o acordo de paz firmado entre o governo da Colômbia e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP). A participação no plebiscito chegou aos 37% do recenseamento eleitoral e o acordo de paz foi recusado com 50,2% dos votos. 

O acordo, fruto de quatro anos de negociações em Oslo e em Havana, têve como objectivo terminar o conflito armado que começou em 1964, quando foram fundadas as FARC-EP a fim de responder à violência desencadeada pelo exército burguês contra a população rural de Marquetalia [1] . Enquanto isso, havia sido anunciado que o governo exploraria as opções para começar o diálogo com o Exército de Libertação Nacional (ELN), outra organização guerrilheira importante do país. 

O massacre da "União Patriótica" 

No passado houve outras tentativas de chegar à paz, com as negociações dos anos 1982-1984 com o governo de Belisario Betancourt sendo as mais conhecidas. O referido processo resultou na formação da "União Patriótica" (UP) como partido político legal das FARC-EP e do Partido Comunista Colombiano (PCC). A UP foi sujeita a uma verdadeira matança pelo estado burguês e pelo paramilitarismo. Numa década foram assassinados mais de 5000 membros e quadros da UP, entre eles dois candidatos presidenciais, 7 senadores, 13 congressistas, 11 alcaides, 69 vereadores, enquanto milhares de pessoas tiveram que seguir o caminho do exílio político fugindo para o estrangeiro.