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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Colonialismo, Neocolonialismo e Balcanização

Colonialismo, Neocolonialismo e Balcanização
por Said Bouamama*

"Desde que Cristóvão Colombo mandou os seus soldados desembarcarem a história mundial transformou-se numa história única, global, relacionada, globalizada. A pobreza de uns já não se pode explicar sem nos interrogarmos sobre as relações de causalidade com a riqueza dos demais. O desenvolvimento econômico de uns é indissociável do subdesenvolvimento de outros. O progresso dos direitos sociais só aqui é possível por meio da negociação dos direitos dali."

"Há invariabilidade porque todos os rostos do racismo, desde o biologismo à islamofobia, têm uma comunidade de resultado: a hierarquização da humanidade. Também há mutação porque cada rosto do racismo corresponde a um estado do sistema econômico de depreciação e a um estado de relação de forças políticas. Ao capitalismo monopolista corresponderá a escravatura e a colonização como forma de dominação política e o biologismo como forma do racismo. Ao capitalismo monopolista globalizado e senil corresponderá a balcanização e o caos como forma de dominação, e a islamofobia (em espera de outras versões para outras religiões do Sul em função dos países que há que balcanizar) como forma de racismo."

As três idades de uma dominação

O autor defende que a lista de países destruídos pela intervenção militar do imperialismo norte-americano acolitado pela UE aumenta sem cessar.

Defendendo que a uma «primeira idade» do capitalismo e ao neocolonialismo de uma «segunda idade» está a suceder uma «terceira idade»: a balcanização, uma generalização do caos.

«Paralelamente, constata-se uma mutação das formas do racismo. Depois da Segunda Guerra Mundial o racismo culturalista sucedeu ao racismo biológico e desde há algumas décadas tende a apresentar-se a partir da religiosidade, sob a forma dominante da islamofobia. Na opinião do autor estamos na presença de três historicidades estreitamente ligadas: a do sistema económico, a das formas políticas e a das ideologias de legitimação».

Regresso a Cristóvão Colombo

A visão dominante do eurocentrismo explica a emergência e posterior extensão do capitalismo a partir de factores internos das sociedades europeias. Dai se depreende a famosa tese de que algumas sociedades (algumas culturas, algumas religiões, etc.) estão dotadas de uma historicidade e outras carecem dela. Quando Nicolas Sarkozy afirma em 2007 que «o drama de África é que o homem africano não entrou suficientemente na história [1]» não faz mais do que retornar a um tema reiterativo das ideologias de justificação da escravatura e da colonização.

Capitalismo de casino, democracia de casino

Capitalismo de casino, democracia de casino
por Filipe Diniz

"Num referendo, com respostas «sim» ou «não», uns ganham e outros perdem. Mas há alguns que ganham sempre. É o caso dos especuladores multimilionários George Soros e Crespin Odey. Soros, em cujo currículo consta a especulação de 1992 contra a libra que «quebrou» o Banco de Inglaterra e lhe deu a ganhar 1,5 milhares de milhões de libras. Desta vez, aconselhando a permanência, precaveu-se comprando 193 milhões de libras de acções da maior empresa mineira de ouro, a Barrick Gold (Independent, 25.06.2016). O preço do ouro disparou após a votação, atingindo o valor mais alto desde Março de 2014."

O enorme e apocalíptico volume de notícias e comentários que o referendo na Grã-Bretanha gerou contém um rico leque de temas e notas de rodapé. Por exemplo acerca do capitalismo de casino e dos seus figurões, alguns dos quais repetem na vida quotidiana a imagem do grotesco estertor dos impérios em decadência.

Num referendo, com respostas «sim» ou «não», uns ganham e outros perdem. Mas há alguns que ganham sempre. É o caso dos especuladores multimilionários George Soros e Crespin Odey. Soros, em cujo currículo consta a especulação de 1992 contra a libra que «quebrou» o Banco de Inglaterra e lhe deu a ganhar 1,5 milhares de milhões de libras. Desta vez, aconselhando a permanência, precaveu-se comprando 193 milhões de libras de acções da maior empresa mineira de ouro, a Barrick Gold (Independent, 25.06.2016). O preço do ouro disparou após a votação, atingindo o valor mais alto desde Março de 2014.

Crespin Odey, um especulador de «hedge funds», apostou 7,5 milhares de milhões de libras no «brexit» e, ao que parece, acrescentou com isso 220 milhões à sua fortuna pessoal. Enquanto Soros é mais conhecido por um poder que lhe permite especular e conspirar contra países inteiros (nomeadamente através das conhecidas fundações «Open Society»), Odey destaca-se por outras extravagâncias, a mais divulgada das quais é a mansão de estilo palaciano, em cantaria, que construiu para alojar as suas galinhas.

EUA: assim funciona o sistema de assassinatos

EUA: assim funciona o sistema de assassinatos
Por Jeremy Scahill | Tradução: Inês Castilho

"As equipes de inteligência dos EUA coletam informações sobre alvos potenciais obtidas a partir de “listas de observação” e do trabalho das agências de inteligência, militares e policiais. Na época do estudo do ISR, quando alguém era colocado na lista de mortes, analistas de inteligência criavam um retrato do suspeito e da ameaça que aquela pessoa significava, juntando-os “num formato condensado conhecido como baseball card [semelhante a uma figurinha de um álbum de jogadores de futebol, numa aproximação cultural como o Brasil (Nota da Tradução)]. As informações eram em seguida articuladas, junto com dados operacionais, numa “ficha informativa sobre o alvo” a ser “enviada para escalões mais altos” para ação. Na média, indica um dos slides, demorava cinquenta e oito dias para o presidente assinalar um alvo. A partir daquele momento, as forças norte-americanas tinham sessenta dias para executar o ataque. Os documentos incluem dois estudos de caso que são parcialmente baseados em informação detalhada nos baseball cards.'

Quase dez mil “inimigos” de Washington já foram mortos por meio de drones. Como são escolhidos os alvos. Qual o papel de Obama. Por que tantos civis são liquidados “por engano”

O texto a seguir é um excerto do novo livro The Assassination Complex, de Jeremy Scahill & equipe do The Intercept (Simon & Schuster, 2016), que será publicado no Brasil pela Autonomia Literária, editora parceira de Outras Palavras.

Desde seus primeiros dias como comandante em chefe, o presidente Barack Obama fez do drone sua arma preferida, usada pelos militares e pela CIA para perseguir e matar as pessoas que seu governo considerou – por meio de processos secretos, sem acusação ou julgamento – merecedores de execução. A opinião pública tem colocado foco na tecnologia do assassinato remoto, mas isso tem servido frequentemente para evitar que se examine em profundidade algo muito mais crucial: o poder do Estado sobre a vida e a morte das pessoas.

Os drones são uma ferramenta, não uma política. A política é de assassínio. Embora todos os presidentes norte-americanos, desde Gerald Ford, mantivessem uma norma executiva que bania assassinatos por funcionários dos EUA, o Congresso evitou legislar sobre esse assunto ou até definir a palavra “assassinato”. Isto permitiu que os proponentes de guerras por meio de drones renomeassem assassinatos [assassinations] com adjetivos mais palatáveis, como o termo da moda, “mortes seletivas” [targeted killings].