Pesquisa Mafarrico

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quarta-feira, 30 de julho de 2014

O colapso da URSS revisitado

O colapso da URSS revisitado 
Roger Keeran e Thomas Kenny1




"Qualquer pessoa minimamente familiarizada com a historiografia ocidental dificilmente estranhará que alguns autores culpem Stáline pelo colapso da União Soviética, uma vez que toda uma série de outros lhe atribuem a responsabilidade por praticamente todas as calamidades do século XX. "

Para a maioria dos intelectuais ocidentais o dogma de que «Stáline é um monstro» não é susceptível de discussão. É um axioma. Pior, é um tabu. É a chave-mestra que dá acesso à família de autores admitidos pela ideologia dominante. Os acadêmicos dos EUA, mesmo aqueles com pontos de vista não ortodoxos, inscrevem rotineiramente referências hostis a Stáline nos seus trabalhos, mesmo quando não incidem sobre a história da União Soviética, para assim garantirem a sua aceitação política. A razão de o anti-stalinismo continuar a ser a pedra-de-toque merece mais atenção do que tem tido. Recentemente, académicos como Domenico Losurdo e Grover Furr lançaram luz sobre esta questão. A circunstância de a demonização de Stáline ter o apoio de toda a esquerda, graças a Trótski e a Khruchov, é seguramente um dos factores. Uma outra razão é o facto de Stáline ser o símbolo personificado da URSS entre 1924 e 1953, o período do êxito da construção do socialismo, e também o período em que o Estado soviético era o maior inimigo do imperialismo. Seja qual for a razão, para os marxistas, como são alguns dos nossos críticos, condescender com estereótipos anti-Stáline e polemizar na sua base, deve ser entendido como uma concessão oportunista à pressão da ideologia da classe dominante. Evidentemente que a rejeição do anti-stalinismo não equivale à beatificação de Stáline, a um amontoado de elogios à sua pessoa, ou ainda menos ao escamoteamento dos problemas associados à sua liderança. Significará antes, um trabalho acadêmico paciente, que use os mesmos critérios que são requeridos para avaliar qualquer líder do século XX.

Em 2004, Thomas Kenny e eu escrevemos o livro O Socialismo Traído – Por Trás do Colapso da União Soviética.2 Desde esse ano, o livro foi publicado e recenseado na Bulgária, Rússia, Irão, Turquia, Grécia, Portugal, França, Cuba e Espanha. Juntos ou separadamente, os autores participaram em debates sobre o livro na Grécia, Portugal, França e Cuba, e foram publicadas várias críticas em jornais de esquerda. Nesta exposição, Kenny e eu queremos responder a dois tipos de críticas e a uma questão suscitadas pelo livro. Nele desenvolvemos uma explicação do colapso da União Soviética. Usámos as palavras «colapso» e «traído» no título, apesar das possíveis conotações equívocas de ambas as palavras.

Propaganda para encobrir as atrocidades que Israel comete: Como Israel “noticia” os próprios crimes de guerra



por [*] Patrick Cockburn, Counterpunch


Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"Em todos os casos e ocasiões, o modo como porta-vozes israelenses apresentam os fatos é planejado para dar a norte-americanos e a europeus a impressão de que Israel desejaria muito a paz com os palestinos e estaria disposta a ceder para chegar à paz. Todas as evidências, e também o Manual do Dr. Luntz, sugerem que tudo aí, são MENTIRAS. Embora não tenha sido requisitado ou produzido com essa finalidade, poucos estudos mais reveladores foram jamais escritos sobre a Israel contemporânea, em tempos de guerra e paz."


Os porta-vozes israelenses já têm muito trabalho tentando explicar como os israelenses assassinaram mais de 1.000 palestinos em Gaza, a maioria dos quais civis, em comparação com apenas 3 civis mortos em Israel por foguetes e fogo de morteiro do Hamás. Mas pela televisão e pelo rádio e pelos jornais, porta-vozes do governo israelense hoje, como Mark Regev, parecem menos enroladores e menos agressivos que predecessores, que eram muito mais visivelmente indiferentes ao número de palestinos mortos.

Há pelo menos uma boa razão para esse “aprimoramento” das capacidades de Relações Públicas dos porta-vozes de Israel. A julgar pelo que se os veem dizer, já estão trabalhando conforme um estudo feito por profissionais, bem pesquisado e confidencial, sobre como influenciar a mídia e a opinião pública nos EUA e na Europa.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Brasil : Quanto mais presos, maior o lucro

Quanto mais presos, maior o lucro
por Paula Sacchetta

" interessa ao consórcio que, além de haver cada dia mais presos, os que já estão lá sejam mantidos por mais tempo. Uma das cláusula do contrato da PPP de Neves estabelece como uma das “obrigações do poder público” a garantia “de demanda mínima de 90% da capacidade do complexo penal, durante o contrato”. Ou seja, durante os 27 anos do contrato pelo menos 90% das 3336 vagas devem estar sempre ocupadas. A lógica é a seguinte: se o país mudar muito em três décadas, parar de encarcerar e tiver cada dia menos presos, pessoas terão de ser presas para cumprir a cota estabelecida entre o Estado e seu parceiro privado. “Dentro de uma lógica da cidadania, você devia pensar sempre na possibilidade de se ter menos presos e o que acontece ali é exatamente o contrário”, afirma Robson Sávio."

"Os entrevistados dão um outro alerta: nesse primeiro momento, vai se investir muito em marketing para que modelos como o de Neves sejam replicados Brasil afora. Hamilton Mitre diz que a unidade será usada como um “cartão de visitas” e fontes afirmam que o modelo de privatização de presídios será plataforma de campanha de Aécio Neves, candidato à presidência nas eleições do fim deste ano.No Brasil, país do “bandido bom é bandido morto”, da “bancada da bala” e onde presos não têm direitos simplesmente por estarem presos, a privatização também assusta do ponto de vista da garantia dos direitos humanos dos presos. “Será que num sistema que a sociedade nem quer saber e não está preocupada, como é o prisional, haverá fiscalização e transparência suficiente? Ou será que agora estamos criando a indústria do preso brasileiro?”, pergunta Sávio."

"Na primeira penitenciária privada desde a licitação, o Estado garante 90% de lotação mínima e seleciona os presos para facilitar o sucesso do projeto."



Em janeiro do ano passado (2013), assistimos ao anúncio da inauguração da “primeira penitenciária privada do país”, em Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. Porém, prisões “terceirizadas” já existem em pelo menos outras 22 localidades, a diferença é que esta de Ribeirão das Neves é uma PPP (parceria público-privada) desde sua licitação e projeto, e as outras eram unidades públicas que em algum momento passaram para as mãos de uma administração privada. Na prática, o modelo de Ribeirão das Neves cria penitenciárias privadas de fato, nos outros casos, a gestão ou determinados serviços são terceirizados, como a saúde dos presos e a alimentação.

Hoje existem no mundo aproximadamente 200 presídios privados, sendo metade deles nos Estados Unidos. O modelo começou a ser implantado naquele país ainda nos anos 1980, no governo Ronald Reagan, seguindo a lógica de aumentar o encarceramento e reduzir os custos, e hoje atende a 7% da população carcerária. O modelo também é bastante difundido na Inglaterra – lá implantado por Margareth Thatcher – e foi fonte de inspiração da PPP de Minas, segundo o governador do estado Antônio Anastasia. Em Ribeirão das Neves o contrato da PPP foi assinado em 2009, na gestão do então governador Aécio Neves.

domingo, 27 de julho de 2014

Algumas questões sobre a unidade do movimento comunista internacional

Algumas questões sobre a unidade do movimento comunista internacional

por Secção de Relações Internacionais do CC do KKE




"A própria experiência de «governos de esquerda» demonstra que a gestão (esquerda) do capitalismo, inclusive com o uso de «consignas revolucionárias» não só não pode responder à abertura do caminho para o socialismo como, sobretudo, funciona em parlamentarismo como meio de assimilação de consciências, fomenta falsas ilusões e atrasa a organização da classe operária, a sua luta em direcção ao questionar o sistema de exploração, e a sua preparação para o derrube do capitalismo."

"É característico o exemplo do Brasil que hoje em dia está nas notícias devido ao Campeonato do Mundo. No Brasil, o poder capitalista é gerido por «um governo de esquerda». É evidente, segundo dados estatísticas, que os 10% mais ricos do país concentram 42,5% do rendimento nacional, 40 vezes mais do que possuem os 10% mais pobres, enquanto 5% dos mais ricos tem rendimentos maiores que os 50% dos mais pobres. No Brasil predominam os monopólios apesar de existir um «governo de esquerda». Os resultados brutos de dez grandes grupos empresariais atingiram um volume de vendas bruto que corresponde aproximadamente a 25% do PIB. Estes grupos são líderes na indústria, nas minas, no comércio de produtos agrícolas, bem como no comércio e nos serviços em geral, o que significa que os monopólios prevalecem em todos os sectores da economia do Brasil."

O facto de no 15º Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários (EIPCO), realizado em Lisboa, em 2013, não ter sido possível emitir um comunicado comum, intensificou o debate sobre a situação do movimento comunista e a questão da sua unidade.

Neste debate nota-se que se manifestam também posições esquemáticas e simplistas que nem sequer respeitam os critérios que derivam da nossa cosmovisão, da experiência histórica, do desenvolvimento contemporâneo do capitalismo e da necessidade de resolver a contradição básica (capital-trabalho) que rege o capitalismo, pois isso exigiria o estudo autocrítico de direcções estratégicas e o controlo de se estas correspondem às necessidades actuais da luta de classes, da luta pelo socialismo-comunismo.

O esforço para caluniar os partidos comunistas que lutam contra o capitalismo e destacam a necessidade e actualidade do socialismo é um sinal de grande debilidade. Principalmente quando se aproveita selectivamente o 15º EIPCO, apesar de vários partidos comunistas terem exposto a falência da estratégia dos «governos de esquerda», destacado a necessidade da luta pela mudança revolucionária e se terem oposto à tentativa de imposição de um comunicado comum, fora dos princípios da nossa cosmovisão e contrário à independência política e ideológica de vários partidos comunistas.

Sempre os problemas foram bastante mais complexos que a avaliação escolástica tipo «oportunismo de direita e de esquerda», como alguns camaradas de outros países pretenderam apresentar a controvérsia que teve lugar no 15º Encontro Internacional, camaradas que recusam tirar as conclusões da trajectória do movimento comunista. Porque o oportunismo deve ser exposto de forma concreta e não com aforismos «centristas», tendo em conta que na história do movimento comunista internacional, por exemplo no período em que Lenine tentava formar o seu partido, também existia um «atoleiro» entre a corrente revolucionária e a corrente oportunista. Mais tarde(1921-1923) existia a Internacional dois e meio que só de nome se tinha distanciado da II Internacional e que depois se uniu a esta criando a chamada «Internacional Operária e Socialista». Lenine escreveu sobre isto: «Os senhores da Internacional I Ie meio apresentam-se como revolucionários; mas em toda esta situação demonstram ser contra-revolucionários, pois temem a destruição violenta da velha máquina de Estado, e não têm confiança na força da classe operária».

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Gaza -O cheiro a gás... e a sangue e o genocídio e suas (des)razões

O cheiro a gás... e a sangue
por  Ângelo Alves


O massacre israelita prossegue em Gaza. Os números são elucidativos do crime contra a Humanidade que ali está a acontecer. Os mortos palestinianos ascendem, no momento em que escrevemos, a 512. Apenas no passado domingo o exército israelita matou 100 palestinianos. As vítimas são civis e na sua maioria mulheres, crianças e idosos. Os alvos são zonas residenciais como o bairro de Shejaiya onde ocorreu o massacre que o mundo viu. Nas praias de Gaza crianças são assassinadas enquanto brincam. Sentem o primeiro bombardeamento lançado de um submarino israelita. Põem-se em fuga, correm e tentam resguardar-se numa cabana de pescador. O segundo «tiro» do submarino não falha e mata as três crianças.


Os feridos são, ao momento da redacção deste artigo, francamente mais de 3000. Os refugiados internos contam-se já em 63 000, amontoados em 48 centros da ONU. Colonos israelitas montam plateias improvisadas para ver o «espectáculo» da matança. A loucura racista e fascista vai tão longe que Mordechai Kedar, um dito professor de Literatura Árabe na Universidade de Bar-Ilan, recomendou, num programa de rádio, a violação de mulheres palestinianas como forma de impedir «ataques terroristas». Mas os palestinianos não estão sós. São centenas as cidades, por todo o mundo, onde o povo faz ouvir, por estes dias, a solidariedade com a Palestina.


Israel apenas é apoiado pelos seus cúmplices. Esses respondem com frases assassinas como «direito de Israel de se defender» (Obama), ou como «pedido de contenção a Israel» (Ban Ki Moon) ou ainda discursos cúmplices como «lamentar a perda de vidas civis» (Laurent Fabius). Mas respondem também de outra forma, com repressão. Hollande, o tal «social-democrata de esquerda», acabou de tornar a França num dos primeiros países do mundo a proibir manifestações pela Palestina. A CNN retirou a sua repórter de Gaza porque esta não se conteve e disse no Tweeter a verdade. Um judeu americano que manifestava a sua solidariedade com a palestina foi violentamente levado por soldados. Entretanto circula a informação que Israel prepara um novo poder político em Gaza para controlar as reservas de gás recentemente descobertas ao largo de Gaza. A cumplicidade do crime cheira a gás... e a sangue.


Este artigo encontra-se no Jornal Avante em http://avante.pt/pt/2121/opiniao/131357/





Gaza: o genocídio e suas (des)razões

por Atilio A. Boron [*]



Portugal : Três anos de Pacto de Agressão, um balanço desastroso

Três anos de Pacto de Agressão, um balanço desastroso
por JOSÉ ALBERTO LOURENÇO

"O nosso país vive hoje a maior crise económica e social do pós 25 de Abril, empurrando para a pobreza e miséria milhares e milhares de portugueses, forçando mensalmente mais de 10 mil portugueses a emigrar, procurando lá fora o emprego que aqui lhes é negado. Os níveis de emigração mensal superam já o período negro dos anos 60, em que milhares portugueses se viram forçados a emigrar para fugir à guerra colonial, ou procurar lá fora empregos e salários que aqui não existiam."




Centenas de milhares de empregos destruídos, mais precariedade no emprego, mais desemprego, reduções nos salários e pensões, enorme aumento de impostos sobre os trabalhadores, reformados e suas famílias, cortes nas prestações sociais, na saúde e na educação, perto de 3 milhões de portugueses na pobreza, centenas de milhares de portugueses forçados a emigrar

Três anos depois da assinatura do Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF), entre atroika nacional (PS/PSD/CDS) e a troika internacional (CE/BCE/FMI), a que nós chamámos e chamamos muito justamente Pacto de Agressão, começam a ser divulgados os primeiros dados macroeconómicos de 2013 referentes à evolução do PIB, do Comércio Externo, do Emprego, do Desemprego, da Dívida Pública, do Défice Orçamental e das Contas Públicas, tornando possível a comparação dos resultados obtidos com aqueles que foram prometidos em 2011 aos portugueses aquando da assinatura do memorando de entendimento.

Vejamos os resultados mais significativos:

Disseram-nos que o PIB nestes três anos iria cair 2,8% em termos reais e que, em 2013, a nossa economia cresceria já 1,2%. Ora aquilo a que assistimos foi a uma queda do PIB ininterrupta de 6,0%, mais do dobro do prometido, com o PIB a cair, em 2013, 1,4%. O nosso país vive hoje o mais longo e profundo período de recessão da sua história, três anos consecutivos, com uma quebra da riqueza produzida em termos reais de 9,3 mil milhões de euros;

Disseram-nos que o Investimento cairia 15,7%, caiu 35,2%;

Disseram-nos que o ajustamento que teria que ser feito no mercado de trabalho iria levar à queda de 2,2% do emprego total, ora a queda no emprego foi nos últimos três anos de 10,2%. Isto é, a destruição de empregos foi cinco vezes superior ao previsto inicialmente. Neste três anos foram destruídos 469 mil empregos, dos quais cerca de 100 mil na Administração Pública.

Disseram-nos que o desemprego em sentido restrito, passaria de 10,8% em 2010 para 13,3% em 2013, ora o desemprego subiu para 16,3% em 2013. O desemprego agravou-se em mais 22,6% do que o previsto. Portugal tem hoje 876 mil desempregados em sentido restrito, mais de 1 milhão e quatrocentos mil em sentido lato. Nos últimos três anos estima-se que cerca de 670 mil portugueses ficaram no desemprego. E o desemprego só não é maior porque muitos que perderam o emprego emigraram, ou desistiram de procurar e cairam na situação de inactivos.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

As quatro irmãs - Negócios familiares, proximidade com governos, financiamento de campanhas


As quatro irmãs
por Adriano Belisário

"Além do controle familiar, outro traço comum é o fato de serem grandes financiadoras de campanhas. Entre as eleições de 2002 e 2012, juntas, as quatro empresas investiram mais de R$ 479 milhões em diversos comitês partidários e candidaturas pelo Brasil. No Estado do Rio de Janeiro, o PMDB é de longe o partido mais beneficiado, com R$ 6,27 milhões, mais que a soma dos quatro seguintes: PT, PSDB, PV e DEM. Porém os repasses podem ser ainda maiores em anos não-eleitorais. Em 2013, por exemplo, somente a Odebrecht repassou R$ 11 milhões dos R$ 17 milhões arrecadados pelo PMDB."


Negócios familiares, proximidade com governos, financiamento de campanhas e diversificação de atividades – da telefonia ao setor armamentício – compõem a história das gigantes Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez

Apesar de mais conhecidas no Brasil por sua atuação no setor de construção civil, as chamadas “quatro irmãs” – Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez – hoje atuam em diversas outras atividades. As empreiteiras respondem apenas por parte dos lucros destes grupos econômicos que atuam em todos os continentes, com foco nos mercados da África, América Latina e Ásia. Juntas, possuem empreendimentos que vão do agronegócio à moda, passando pela petroquímica, setor armamentício, telefonia e operação de concessões diversas.

Os controladores, porém, permanecem os mesmos e os maiores ganhos ficam com as famílias que comandam as empresas. “O controle de base familiar é uma característica da formação do capital monopolista dos grupos econômicos constituídos no Brasil. Embora isso não impeça a abertura de capital, esta é feita de modo a preservar sempre o controle acionário dos ativos mais rentáveis pelas famílias controladoras. Isso confere à estrutura societária desses grupos um formato piramidal, em que um controlador último controla toda uma cadeia de empresas”, analisa o cientista político da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) João Roberto, que coordena o Instituto Mais Democracia.

França aumenta ingerência em África

Presidente Francês
França aumenta ingerência em África
por Carlos Lopes Pereira


"Para consagrar o estabelecimento desde aparelho militar, Hollande visitou no final da semana passada Abidjan, Niamey e Djamena, onde foi recebido pelos seus homólogos, amigos e aliados Allassane Ouattara, Mahamadou Issoufou e Idriss Déby Itno. Todos estão de acordo com a necessidade desta «ajuda» das tropas francesas na luta contra os grupos «terroristas» que actuam em todo o Sahel a partir do Sul da Líbia. 
Convenientemente, pouco se falou durante a visita da participação da França na brutal agressão da NATO à Líbia (intervenção de que resultou a destruição de um dos países mais desenvolvidos de África). Ou da missão Sangaris, lançada por Paris em finais de 2013 na República Centro-Africana e que provocou no país o disparar da violência étnica e religiosa e o caos sem fim à vista. Ou ainda do fracasso da operação Serval, no Mali, considerada «terminada» mas na verdade deixando activos os grupos jihadistas e por resolver as reivindicações independentistas dos movimentos tuaregues."


A França está a reorganizar e reforçar o seu dispositivo militar no Sahel, colocando sob comando único três mil soldados e equipamento sofisticado localizado em diferentes países oeste-africanos.

Trata-se de mais uma medida no quadro da velha política neocolonialista de Paris em relação a África, que se intensificou com a chegada ao Eliseu de François Hollande. Sob novas roupagens, a «Françafrique» continua a caracterizar-se pela exploração económica das riquezas africanas, por interesses e negócios obscuros, por frequentes golpes de estado e intervenções militares nas antigas colónias.

A economia paralela na URSS: Como tudo começou

A economia paralela na URSS: Como tudo começou 
por Valentine Katassonov1

"A economia paralela, enquanto fenômeno assinalável, surgiu no final dos anos 50, princípios dos anos 60. Todos os investigadores univocamente relacionam este fenômeno com a chegada ao poder de Khruchov, que a par de outras decisões irrefletidas, fez sair da garrafa o gênio da economia paralela. É de assinalar que até aqueles autores que fazem uma apreciação bastante negativa da figura de Stáline, são obrigados a reconhecer que no período em que Stáline esteve no poder, não havia praticamente economia paralela ou clandestina. Em contrapartida havia a pequena produção mercantil, nomeadamente as cooperativas artesanais e industriais nas cidades. Khruchov liquidou a pequena produção mercantil, e o seu lugar foi ocupado pela economia paralela."

"Os donos de negócios ilegais acumularam capitais tão importantes que puderam começar a fazer lobby junto do poder político do País. Mas os limites do modo de produção socialista, mesmo que já só formais em muitos aspectos, tornaram-se apertados para os empresários da economia paralela. Começaram então a preparar a restauração completa do capitalismo. Isso aconteceu no período em que Gorbatchov estava no poder, sob a capa das consignas falsas lançadas na perestroika. Esta perestroika, em última análise, foi iniciada não por Gorbatchov ou Iákovlev. Ela foi organizada pelo capital clandestino, por ordem de quem agiram os «reformadores» do PCUS."

terça-feira, 22 de julho de 2014

Brasil : Um jogo para poucos

Um jogo para poucos
por Adriano Belisário

"Levantamento do Reportagem Pública mostra como as “quatro irmãs”, Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, se revezam nos contratos para as grandes obras da Copa e Olimpíadas no Rio de Janeiro"

"Segundo o historiador Pedro Campos, professor da Universidade Federal Rural de Rio de Janeiro, a prática de cartelização no Brasil vem de longa data e é típica de períodos com grandes investimentos públicos. “Quando se trata de períodos de regressão econômica as empreiteiras entram em uma briga fratricida. Mas na ditadura, por exemplo, elas agiram claramente de forma cartelizada. Isso era aberto”.
Em sua tese de doutorado, ele aponta como a divisão de obras era explícita mesmo às vésperas da redemocratização do país, tendo nos sindicatos e associações empresariais os principais intermediários. “Eles combinavam inclusive possíveis brigas e recursos. Dividiam obras para garantir sempre um maior taxa de rentabilidade. Entre as empreiteiras isso é notório”, afirma. A prática ocorria às claras, principalmente por meio dos sindicatos patronais e associações de empreiteiras."


Nas maiores intervenções urbanas no Rio de Janeiro em função da Copa e Olimpíadas mudam os objetivos das obras, os valores, os impactos e as suspeitas de ilegalidade na condução dos projetos. Só não mudam as empresas beneficiadas. Por meio de consórcios firmados entre si e com outras empresas, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e OAS se revezam nos dez maiores investimentos relacionados aos jogos.

De acordo com um levantamento feito pela reportagem, chega a quase R$ 30 bilhões o valor oficial das dez maiores obras. São elas: a Linha 4 do Metrô; a construção do Porto Maravilha; a reforma do Maracanã e entorno; os corredores expressos Transcarioca, Transolímpica e Transoeste; a Vila dos Atletas e o Parque Olímpico; o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT); e a Reabilitação Ambiental da Bacia de Jacarepaguá.Veja o infográfico interativo:

As mulheres militantes na grande Revolução de Outubro


As mulheres militantes na grande Revolução de Outubro
por José Levino

"Ao recordar das mulheres que tomaram parte na Grande Revolução de Outubro, mais e mais nomes e faces surgem como mágica da memória. Poderíamos deixar de honrar a memória de Vera Slutskaya, que trabalhou de modo abnegado na preparação para a revolução e que foi morta pelos Cossacos no primeiro front Vermelho próximo a Petrogrado? Podemos nos esquecer de Yevgenia Bosh, com seu temperamento inflamado, sempre pronta para a batalha? Ela também morreu no trabalho revolucionário. Podemos nos omitir de mencionar aqui dois nomes intimamente ligados com a vida e a atividade de V. I. Lênin – suas duas irmãs e companheiras em armas, Anna Ilyinichna Yelizarova e Maria Ilyinichna Ulyanova?"


Há uma infinidade de obras sobre a Revolução Russa e seus grandes líderes. Porém, sobre a participação das mulheres não há um número significativo de publicações, à exceção das obras de Alexandra Kollontai, que foi a única ministra do primeiro governo bolchevique. A libertação da mulher foi o eixo fundamental da sua vida, como escritora e como militante. Num artigo raro, publicado no Diário Feminino de Moscou, edição de 11 de novembro de 1927, é a própria Kollontai que fala sobre essa temática. Segue um extrato do seu artigo. 

As mulheres que participaram da Grande Revolução de Outubro – quem eram elas? Indivíduos isolados? Não, havia multidões delas; dezenas, centenas e milhares de heroínas anônimas que, marchando lado a lado com os operários e camponeses sob a Bandeira Vermelha e a palavra-de-ordem dos Sovietes, passou por cima das ruínas do czarismo rumo a um novo futuro…

Se alguém olhar para o passado, poderá vê-las, essa massa de heroínas anônimas que outubro encontrou vivendo nas cidades famintas, em aldeias empobrecidas e saqueadas pela guerra… O lenço em sua cabeça, uma saia gasta, uma jaqueta de inverno remendada… Jovens e velhas, mulheres trabalhadoras e esposas de soldados camponesas e donas-de-casa das cidades pobres. 

O ovo da serpente fascista: Presos políticos no Rio

Presos políticos no Rio: MP quer usar movimentos como bodes espiatórios
Da Redação do Jornal A Verdade


"Os ativistas que tiveram mandato de prisão emitido estão sendo acusados de formação de quadrilha armada, organização de atentados e depredação de patrimônio. Entre os presos políticos está a advogada Eloísa Samy, que se encontra refugiada na embaixada do Uruguai e pediu asilo político para aquele país."

"O objetivo dos governos estadual e federal é isolar determinadas organizações com o objetivo de intimidar todos os ativistas sociais e, assim, criminalizar o protesto, a luta por direitos e colocar na defensiva todo o movimento social. É preciso conformar uma unidade popular para defender todos os perseguidos políticos em todos os estados do país."



Militantes de direitos humanos tiveram acesso ao documento vazado à imprensa pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, que pede a prisão de 19 ativistas e mantem presos outros 2. É um documento de elevada importância para entender a atual escalada repressiva aos movimentos sociais, e todos os militantes devem se esforçar para conhecer. (documento reproduzido na íntegra abaixo)

Fica claro que o inquérito policial 218-01646/2013, utilizado pelo Ministério Público para embasar suas acusações, mobilizou uma enorme quantidade de agentes e recursos públicos para vigiar, fazer escutas telefônicas e, inclusive, infiltrar informantes no seio de várias organizações sociais.

Os ativistas que tiveram mandato de prisão emitido estão sendo acusados de formação de quadrilha armada, organização de atentados e depredação de patrimônio. Entre os presos políticos está a advogada Eloísa Samy, que se encontra refugiada na embaixada do Uruguai e pediu asilo político para aquele país.

O objetivo dos governos estadual e federal é isolar determinadas organizações com o objetivo de intimidar todos os ativistas sociais e, assim, criminalizar o protesto, a luta por direitos e colocar na defensiva todo o movimento social. É preciso conformar uma unidade popular para defender  todos os perseguidos políticos em todos os estados do país.

Reproduzimos abaixo a íntegra da denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro:

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Brasil - Rio : Embasado em conceitos FASCISTAS ativistas são presos

Rio: Perseguida, advogada ativista pede asilo político ao Uruguai
Redação Brasil de Fato


"Os conceitos que tentam embasar as prisões são “fascistas” e foram empregados pela primeira vez no Código Penal mussoliniano, na Itália."

"O advogado Marcelo Cerqueira também se pronunciou sobre a “origem terrível das interpretações jurídicas que resultaram nas prisões”. Segundo ele, a polícia e o Ministério Público têm denunciado cidadãos que rigorosamente não praticaram concretamente qualquer delito punível."

“Mais grave é que magistrados ‘autorizam’ os pedidos de prisão em bloco e, pelo que se sabe (processos correm em segredo de justiça [sic]), as ‘provas’ são fabricadas pela polícia e o MP e os juízes, sempre apressados, não as examinam. O trabalho dos advogados é tolhido pelo arbítrio da ‘justiça’”, afirmou.


A advogada Eloisa Samy pediu asilo político ao Uruguai nesta segunda-feira (21). Ao lado de outros 22 ativistas, ela é acusada pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro), como resultado da Operação Firewall, da Polícia civil daquele estado, de suspeita de envolvimento em atos violentos durante protestos no Rio que estavam marcados para a final da Copa do Mundo.

Segundo informações da Mídia Ninja, a ativista está na sede do Consulado uruguaio no Rio de Janeiro, onde já se encontram jornalistas e viaturas da Polícia Militar.

Em um vídeo (veja abaixo), a advogada afirmou que teve seus direitos fundamentais violados no Brasil.


O míssil era de Putin!

O míssil era de Putin!
por Pepe Escobar*

"A tragédia do avião abatido sobre a Ucrânia tem duas interpretações: a de Washington e dos media ao seu serviço, que já sabem tudo: o que aconteceu, como aconteceu, e quem são os responsáveis. E a de outras fontes cuja informação começa a juntar as peças do acontecimento, que não tirou ainda conclusões, mas que começa a revelar dados muito significativos. Dados que podem talvez explicar a pressa do imperialismo em impor a sua versão.


Eis o veredicto da Guerra da contra-informação: a presente tragédia das linhas aéreas da Malásia – a segunda em quatro meses – é “terrorismo” perpetrado por “terroristas pró-russos”, armados pela Rússia, e Vladimir Putin é o principal responsável. Assunto arrumado. Se alguém tiver opinião diferente, que fique calado.

Porquê? Porque a CIA disse que foi assim. Porque Hillary “viemos, vimos, ele morreu” Clinton disse que foi assim. Porque a doida varrida Samantha “R2P” Power disse que foi assim – trovejando na ONU, e tudo devidamente impresso num Washington Post infestado de “neo-cons”. [1]

Porque os media corporativos anglo-americanos – da CNN à FOX (que tentou comprar a Time Warner, proprietária da CNN) disseram que foi assim. Porque o Presidente dos Estados Unidos disse que foi assim. E sobretudo porque Kiev tinha em primeiro lugar vociferado que foi assim.

Alinharam todos pela mesma cartilha – o invariável cortejo de “peritos” da “comunidade de informações dos EUA”, salivando literalmente contra a “perversa” Rússia e o “perverso Putin; especialistas de vigilância electrónica que, embora não tenham sido capazes de identificar um comboio de reluzentes Toyotas brancos atravessando o deserto para tomar Mosul, sentenciaram já que são desnecessárias mais averiguações, resolvendo instantaneamente o enigma do voo MH17.

Não importa que o Presidente Putin tenha sublinhado que a tragédia do MH17 deve ser investigada com objectividade. E “com objectividade” não significa certamente aquela fictícia noção de “comunidade internacional” construída por Washington – a habitual congregação de maleáveis vassalos/fantoches.

E então que se passa com Carlos?

Uma simples pesquisa revela que o MH17 foi efectivamente desviado 200 quilómetros para norte em relação à rota habitualmente seguida pela Malaysia Airlines nos dias anteriores – e que mergulhou directamente para o meio da zona de guerra. Porquê? Que tipo de comunicação recebeu o MH17 da torre de controlo de tráfego aéreo de Kiev?

sábado, 19 de julho de 2014

O fascismo em Kiev: Sobre terminologia

O fascismo em Kiev: Sobre terminologia
[*] colonelcassad.eng (original em russo)

Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu

"Como se pode ver, os oponentes da Junta de Kiev são abertamente aterrorizados, o que inclui exterminação física, intimidação, sequestros com captura de reféns, prisões ilegais, detenções, tortura e outros elementos do terrorismo. Um pequeno grupo de pessoas que chegou ao poder por meio de golpe autoriza e supervisiona esse terror. Essa ditadura em Kiev é estreitamente reacionária e representa as formas mais radicais do nacionalismo e do fascismo integralistas ucranianos, os quais, como se vê nas declarações feitas por Yarosh, não ocultam as próprias tendências imperialistas, em primeiro lugar à custa da Federação Russa capitalista."

Mais uma vez, sobre a essência da Junta de Kiev, que é algo que alguns de nós ainda tendem a negar.

Tomemos a definição clássica de fascismo, de Georgi Dimitrov, considerada a mais clara definição de fascismo, do ponto de vista da teoria comunista na URSS.
Fascismo é declarada ditadura terrorista dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro (...). O fascismo não é nem o governo sem classes, nem o governo da pequena burguesia ou do lumpen-proletariat sobre o capital financeiro. Fascismo é o governo do próprio capital financeiro, ele mesmo. É um massacre organizado da classe trabalhadora e da fatia revolucionária do campesinato e da inteligência. O fascismo, na sua política externa, é a forma mais brutal de chovinismo, que cultiva ódio zoológico contra outros povos.
Dentre várias outras definições, é a que considero mais correta e à qual recorro, pessoalmente, sempre que tenho de avaliar o grau de fascismo de um regime.

Examinemos as correspondências entre diferentes traços da Junta de Kiev e essa definição.

Como se pode ver, os oponentes da Junta de Kiev são abertamente aterrorizados, o que inclui exterminação física, intimidação, sequestros com captura de reféns, prisões ilegais, detenções, tortura e outros elementos do terrorismo. Um pequeno grupo de pessoas que chegou ao poder por meio de golpe autoriza e supervisiona esse terror. Essa ditadura em Kiev é estreitamente reacionária e representa as formas mais radicais do nacionalismo e do fascismo integralistas ucranianos, os quais, como se vê nas declarações feitas por Yarosh, não ocultam as próprias tendências imperialistas, em primeiro lugar à custa da Federação Russa capitalista.

Do fim do começo ao começo do fim - Capitalismo, violência e decadência sistémica

Do fim do começo ao começo do fim
Capitalismo, violência e decadência sistémica

por Jorge Beinstein*


"Agora, quando vemos o cancro fascista propagar-se tranquilamente por toda Europa ao ritmo da crise, desde o avanço irresistível da Frente Nacional em França até à vitória neonazi na Ucrânia, passando pela Holanda, Bélgica, Croácia, Hungria, países bálticos, Grécia, etc., não podemos deixar de constatar o profundo enraizamento do mesmo não só na tragédia dos anos 1920-1930-1940 mas em histórias muito mais antigas, em fanatismos religiosos, em genocídios coloniais e outras práticas sociais de grande crueldade (o nazismo clássico não era superficial nem inautêntico, enterrava as suas raízes na longa trajectória criminal do Ocidente).

Mas o mais significativo e terrível foi a reinstalação sem grandes escândalos da doutrina hitleriana da guerra total, rebaptizada de Guerra de Quarta Geração, por vezes adoçada como «golpes brandos» ou «suaves» ou sob a delirante apresentação de guerras ou bombardeamentos «humanitários». Agora já não se trata de uma experiência pioneira e de certo modo surpreendente, «anormal», mas de um vale-tudo aceite pelo conjunto das elites imperialistas. O facto de a forma capitalista de fazer a guerra ter sofrido tal transformação está estreitamente ligado (faz parte dele) à transformação do capitalismo num sistema destruidor de forças produtivas, estendendo-se ao contexto ambiental com as suas terras, mares, montanhas, animais, etc., apontando para a aniquilação de todo o património histórico da humanidade, de toda a acumulação de civilizações."



Da Líbia à Venezuela passando pela Síria e México, Ucrânia, Afeganistão ou Iraque… no tempo que passou da década actual assistimos ao permanente desencadear da violência directa ou indirecta (terceirizada) pelos Estados Unidos e os seus parceiros-vassalos da OTAN, toda a periferia foi convertida no seu mega objectivo militar. A onda agressiva não se aquieta, nalguns casos combina-se com pressões e negociações, mas a experiência indica-nos que o Império não agride para ficar melhor posicionado em negociações mas negocia, pressiona para ficar melhor posicionado para a agressão.

Quando estas intervenções têm sucesso como na Líbia ou Iraque não concluem com a instauração de regimes «pacificados», controlados por estruturas estáveis, como acontecia nas velhas estruturas periféricas do Ocidente, mas desembocam em espaços caóticos atravessados por guerras internas. Trata-se da emergência induzida de sociedades-em-dissolução, da configuração de desastres sociais como forma concreta de submissão, o que coloca a dúvida sobre se nos encontramos perante uma diabólica planificação racional que pretende «governar o caos», submergir as populações numa espécie de indefesa absoluta, convertendo-as em não-sociedades para assim saquear os seus recursos naturais e/ou anular inimigos ou concorrentes… ou melhor, se se trata de um resultado não necessariamente procurado pelos agressores, expressão do seu fracasso como amos coloniais, da sua elevada capacidade destrutiva associada à sua incapacidade para instaurar uma ordem colonial («incapacidade» derivada da sua decadência económica, cultural, institucional, militar). Provavelmente, encontramo-nos perante a combinação de ambas as situações.

Aborto e a cidade de Nova Iorque

A religiosa liberdade de destruir as outras
por António Santos


"Mas o que mais me chocava eram as manifestações diárias que a extrema-direita organizava ali, mesmo à porta da clínica privada onde as mulheres podiam abortar. Quando uma mulher entrava, os fascistas insultavam-na, ameaçavam-na, faziam-na chorar. Chamavam a isso exercer a sua liberdade de expressão. Mas depois a lei mudou: com o Obamacare a interrupção voluntária da gravidez passou a estar coberta pelos planos das seguradoras e os fanáticos anti-mulheres ficaram obrigados a respeitar uma distância de dez metros das clínicas."


Para quem aprecie os episódios de O Sexo e a Cidade pode parecer inacreditável, mas detestei viver em Nova Iorque. Todas as manhãs atravessava as intermináveis ruas de Queens, roídas de miséria e toxicodependência. Esta cidade não é para ricos. Depois o Metro, uma cova fétida com centenas de paragens, todas iguais, onde chove sempre. Entre os carris o lixo, a água e as ratazanas, de que perdemos o medo e nos entretêm enquanto esperamos pelo comboio. 

Por fim Manhattan, desproporcional das estaturas humanas, claustrofóbica e epileticamente impacientada pela nossa presença. Manhattan é deliciosa para o turista como o deserto é para o viajante. E igualmente inabitável: os preços eram insuportáveis e a indecência repartia-se pródiga entre a extrema miséria dos mendigos e o luxo extremo dos muito ricos. As meninas da série de televisão já cá não moram e esta cidade não é para pobres. Mas o que mais me chocava eram as manifestações diárias que a extrema-direita organizava ali, mesmo à porta da clínica privada onde as mulheres podiam abortar. Quando uma mulher entrava, os fascistas insultavam-na, ameaçavam-na, faziam-na chorar. Chamavam a isso exercer a sua liberdade de expressão. Mas depois a lei mudou: com o Obamacare a interrupção voluntária da gravidez passou a estar coberta pelos planos das seguradoras e os fanáticos anti-mulheres ficaram obrigados a respeitar uma distância de dez metros das clínicas.

Porém, no passado dia 30 de Junho o Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu, por cinco votos a favor e quatro contra, retroceder dez anos as conquistas das mulheres daquele país norte-americano. Por um lado, o Supremo Tribunal decidiu que o limite de dez metros violava a liberdade dos manifestantes, por outro, o mesmo órgão considerou que a liberdade religiosa do empregador estava posta em causa pelo Obamacare. O novo sistema de saúde, que obriga toda a população a comprar um seguro de saúde privado em leilões controlados pelo governo, permitia que o trabalhador escolhesse o seu seguro, ficando o patrão sujeito a comparticipá-lo. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Israel: prossegue o GENOCÍDIO, por etapas, no gueto de Gaza

 Israel: prossegue o GENOCÍDIO, por etapas, no gueto de Gaza
[*] Ilan Pappé, The Electronic Intifada

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


"Os assassinatos bárbaros e desumanos cometidos por israelenses ainda são elogiados, publicamente autorizados e aprovados até pelo presidente dos EUA, por líderes da União Europeia e por outros amigos de Israel em todo o mundo."

"Outra vez, veem-se também agora vários traços sempre presentes nesse genocídio cumulativo. A maioria dos judeus israelenses apoiam o massacre de civis na Faixa de Gaza, sem que se ouça qualquer voz significativa de dissenso."

"Todos os que cometem atrocidades no mundo árabe contra minorias oprimidas e comunidades desamparadas – assim como os israelenses que hoje assassinam palestinos – têm de ser julgados pelos mesmos padrões morais e éticos. Todos são criminosos de guerra. A diferença é que, no caso da Palestina, os criminosos de guerra estão em ação, sem parar, há mais tempo que qualquer outro criminoso, em qualquer outra guerra."



Em artigo de setembro de 2006 para The Electronic Intifada, defini a política israelense para a Faixa de Gaza como genocídio por etapas.

O assalto contra Gaza que Israel comete hoje indica, desgraçadamente, que essa política não mudou. A expressão ajuda a ver que a ação bárbara dos israelenses – em 2006, como hoje – faz-se por passos, em contexto histórico mais amplo.

É preciso insistir sempre sobre esse contexto, porque a máquina de propaganda israelense só faz repetir e repetir uma mesma narrativa, como se as políticas israelenses acontecessem fora de qualquer contexto; e converte o pretexto que encontrem para cada nova onda de destruição, em alguma espécie de principal ‘justificativa’ para ondas de assassinato indiscriminado, nos campos de morte de palestinos pelos quais os israelenses passeiam.

O contexto

A estratégia sionista para apresentar suas políticas brutais como resposta ad hoc a uma ou outra ação dos palestinos é tão velha quanto a presença maléfica de israelenses na Palestina. Sempre foi usada, repetidamente, como justificativa para impor a visão sionista de uma Palestina futura, onde haveria bem poucos, se algum, palestinos nativos.

Brasil presos políticos - Governo federal declara apoio às prisões ilegais no Rio

Governo federal declara apoio às prisões ilegais no Rio
Jornal A Verdade

"Sabemos que todas essas prisões, assim como as de Fábio Hideki e Rafael Lugharski em São Paulo, foram feitas para atender aos interesses econômicos da FIFA, do Itaú e da Rede Globo, que auferiram fabulosos lucros com a realização da Copa no Brasil. Com as declarações dos ministros, ficou claro para quem ainda tinha dúvida, que os governos de São Paulo (Alckmin/PSDB), Rio de Janeiro (Pezão/PMDB) e o governo federal estão unidos na repressão ao movimento popular."

A decisão de prender, de maneira totalmente ilegal, na manhã do dia 12 de julho a vinte e seis ativistas sem nenhuma comprovação de atividade ilícita e de maneira preventiva, foi apoiada pelo governo federal. É o que declarou ontem à agência Estado o ministro da justiça, Eduardo Cardozo.

Cardozo declarou que confia nas alegações do Secretário de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro, José Beltrame, o mesmo que mantem livre os policiais que fizeram desaparecer Amarildo de Souza e os que assassinaram Cláudia Silva e o dançarino DG. Para Cardozo, a declaração do secretário é suficiente para concluir que há consistentes provas de organização de atos ilícitos e até de uma suposta bomba no metrô.

Outro representante do governo federal, o ministro da Advocacia Geral da União (AGU) Luís Adams, declarou que todas as prisões foram feitas com base no respeito à legalidade.

Sabemos que todas essas prisões, assim como as de Fábio Hideki e Rafael Lugharski em São Paulo, foram feitas para atender aos interesses econômicos da FIFA, do Itaú e da Rede Globo, que auferiram fabulosos lucros com a realização da Copa no Brasil. Com as declarações dos ministros, ficou claro para quem ainda tinha dúvida, que os governos de São Paulo (Alckmin/PSDB), Rio de Janeiro (Pezão/PMDB) e o governo federal estão unidos na repressão ao movimento popular.

É o momento de levantar a solidariedade a todos os perseguidos políticos e defender a liberdade de organização e manifestação como valores fundamentais para que o Brasil seja um país democrático.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Os Estados Unidos, longe da independência energética

Os Estados Unidos, longe da independência energética

por Atilio Boron

"A íntima relação que o capitalismo atual estabeleceu entre petróleo, política e guerra permite extrair quatro conclusões preliminares.

Primeiro, que a dependência energética dos Estados Unidos continuará sendo muito elevada, e talvez crescente em função da evolução da procura doméstica, e que isto reforçará as tendências belicistas do império para tratar de assegurar a obtenção do petróleo de que necessita por qualquer meio, a qualquer preço e em qualquer lugar. Não esquecer que desde o início do século vinte as intervenções militares dos Estados Unidos em países terceiros tiveram como causas fundamentais o petróleo e as alegadas ameaças à “segurança nacional” colocadas por governos que não estavam dispostos a sacrificar a autodeterminação nacional.

Segundo, que os planos para destruir a OPEP – um objetivo largamente acalentado por Washington desde 1973 a partir do auto-abastecimento petroleiro - terão que ser arquivados por muito tempo, talvez definitivamente, o que constitui um duríssimo revés para a política exterior dos Estados Unidos."


As estimativas feitas acerca do potencial das jazidas de xisto betuminoso na Califórnia erraram. Ao que parece, a realidade é 96% inferior. Má notícia para a independência energética dos EUA. Má notícia também para os países produtores, nomeadamente a Venezuela, contra quem irá intensificar-se a ofensiva imperialista.

" A Copa das Copas" - E o protesto popular não se cala


E o protesto popular não se cala

Editorial do Jornal A Nova Democracia


"É um rol enorme de arbitrariedades e direitos revogados pela gerência oportunista, no seu afã de manter a boa vida dos capi da Fifa e impedir que os protestos contra o governo se ampliem. Toda essa gente defensora do velho Estado se esmera em brandir a “constituição cidadã”, o “Estado democrático de direito”, mas enfurecida com as massas rebeladas não faz qualquer cerimônia para rasgar suas vestes, mandando baixar o pau para nos tomar as migalhas de direitos de livre manifestação e aquele, tão propalado por eles mesmos como sagrado, de “ir e vir”.

O problema, para eles, é que o direito de manifestação é garantido pelo próprio povo nas ruas, e não por letras escritas num papel. Os protestos seguem durante toda a Copa, praticamente em todas capitais, maiores ou menores, mas seguem, enfrentam a repressão, denunciam a sua brutalidade, defendem seus presos políticos e comovem os trabalhadores e explorados do mundo, que manifestam sua solidariedade."



Estima-se que mais de 200 mil militares estejam envolvidos na “segurança” da Copa da Fifa, a maioria voltada a reprimir a parte do povo que protesta contra o evento. Oficialmente são 60 mil efetivos das forças armadas, 10 mil da Força Nacional de Segurança, mil policiais federais; o restante se refere a policiais militares dos estados-sede dos jogos.

Cerca de 1,9 bilhão de reais foram gastos pelo governo federal em equipamentos e logística dessa tropa de sítio, fora o que foi gasto pelos governos estaduais. O sistema que integra os comandos das forças de “segurança” foi comprado de Israel.

domingo, 13 de julho de 2014

Os marxistas e a Questão Palestina: os desafios da esquerda

Os marxistas e a Questão Palestina: os desafios da esquerda
por Marcelo Buzetto


"Os “acordos de paz” firmados com Israel em 1994 alimentam ilusões e ignoram a natureza expansionista/imperialista deste Estado, que negocia e, ao mesmo tempo, faz crescer o número de colônias judias nos territórios palestinos ocupados em 1948 e 1967. Além disso, Israel aplica até hoje uma política de assassinatos seletivos de lideranças políticas palestinas, e de perseguição e prisão em massa. Um resultado dessa política de repressão intensa e permanente são os 8 mil presos políticos palestinos, alguns vivendo nos cárceres israelenses há pelo menos 20 anos. Desses 8 mil, mais de 700 estão condenados a prisão perpétua. Entre 1993 e 2005, apesar de inúmeras reuniões, conferências e acordos firmados entre a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e o governo do Estado de Israel, e apesar das expectativas de uma paz duradoura apresentadas pelo presidente palestino eleito em 1996 com 87% dos votos, Yasser Arafat, o que se viu foi uma continuada violação dos direitos humanos e dos direitos fundamentais do povo palestino, assim como a negação do direito nacional à independência e à soberania, deixando ainda mais distante o sonho do Estado Palestino Laico e Democrático."

A Questão Palestina sempre despertou o interesse de intelectuais e organizações de orientação marxista, pois a luta entre as potências capitalistas europeias e o Império Turco-Otomano pelo controle desse território ocorre num período de expansão do capital industrial e financeiro para o chamado “Oriente Médio” e para a Ásia. Expansionismo, militarismo e guerras de conquista são características típicas da fase imperialista do capitalismo, que produz uma desigualdade entre as nações e impõe uma desigual Divisão Internacional do Trabalho. Longe de promover uma situação homogênea no campo das relações internacionais, o processo de internacionalização do capital e do capitalismo tem como resultado a produção de inúmeros conflitos regionais cujo centro da disputa é a definição das fronteiras nacionais, o estabelecimento de novas nações que atendam interesses de nacionalidades oprimidas ou a luta pela independência e soberania. Portanto, diversas lutas nacionais, nacionalistas, anticolonialistas e antiimperialistas se desenvolvem, surgem e se multiplicam durante os séculos XIX e XX. E é nesse contexto que a Palestina, por vários motivos, adquire importância estratégica para os projetos políticos da classe dominante da Europa e do Mundo Árabe.

Batalha contra as políticas antipopulares e a UE


Batalha contra as políticas antipopulares e a UE

 por KKE

"Não acreditamos como partido que o capitalismo possa ser transformado e que a nova sociedade comunista-socialista possa ser construída através do parlamento burguês, as eleições burguesas, através da formação de “governos de esquerda”. De facto, através do nosso estudo da história, do partido e do movimento comunista internacional, chegámos a certas conclusões e criticamos a estratégia que prevaleceu no movimento comunista internacional após a 2a Guerra Mundial, sobre “um caminho pacífico para o socialismo”, assim como o chamado “Euro-comunismo”, que semeou uma plêiade de ilusões de que o capitalismo pode ser transformado através de eleições, das instituições burguesas e da melhoria das constituições e leis burguesas. Abandonámos esta visão e este ponto de vista dos estágios para o socialismo, em 1996. Consideramos que a revolução na Grécia será socialista. No nosso programa descrevemos aspetos básicos das tarefas do partido na preparação dofator subjetivo para a perspetiva da revolução socialista, apesar de o tempo específico da sua manifestação ser determinado pelas pré-condições objetivas, a situação revolucionária."