Pesquisa Mafarrico

Translate

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

História: "Cebola" Gorbatchov

Regresso à «cebola Gorbatchov»?


Por Kurt Gossweiler



Terão todos os comunistas e socialistas despachado Mikhail Gorbatchov para o caixote do lixo da história – lugar a que esta gente pertence – depois da publicação da sua entrevista na Spiegel, em Janeiro de 1993 (cf. «A cebola», ponto VIII), ou o mais tardar após a publicação do seu discurso em Ankara, em Outubro de 1999 (cf. ponto IX), no jornal do DKP Unsere Zeit, de 8 de Setembro de 2000?


Estava absolutamente convencido de que sim, mas, como para meu imenso espanto tive de constatar – isso foi um erro. O meu espanto foi imenso porquanto foi-me provocado por um jornal e um texto de um dos seus colaboradores, de quem nunca esperaria tal coisa.


Trata-se do único jornal consequentemente anti-imperialista da Alemanha, o Junge Welt, e do seu colaborador Werner Pirker, com cujos artigos concordei quase sempre até agora.


Precisamente no 50.º aniversário do XX Congresso do PCUS, em Fevereiro de 1956, que encheu de esperança os inimigos da União Soviética e do socialismo, e lançou o movimento comunista numa crise cada vez mais profunda, e no 20.º aniversário do XXVII Congresso do PCUS, em Fevereiro de 1986, que impulsionou a crise final da União Soviética e dos seus aliados europeus, o Junge Welt surgiu em várias edições com artigos de Werner Pirker de apreço destes congressos e dos seus organizadores Khruchov e Gorbatchov.


Aqui só falaremos de Gorbatchov. A incompreensível defesa da honra de Gorbatchov nos artigos de Pirker, publicados no Junge Welt, de 28 de Fevereiro e 1 de Março do corrente ano, não pode ficar sem réplica em nome da verdade histórica.


No primeiro artigo sobre o XXVII Congresso – Junge Welt de 28 de Fevereiro – Pirker assume logo no início a tese através da qual todas as acusações de traição são eliminadas: «O PCUS não foi liquidado pelo ataque de forças inimigas, mas sim vítima de si próprio.»


Gorbatchov afirmara abertamente no seu discurso em Ankara: «O objectivo da minha vida era eliminar o comunismo.»


Pirker sabe isto e muito mais. Ensina-nos sobre a atitude de Gorbatchov no XXVII Congresso: «Mikhail Gorbatchov nem sequer tentou confrontar os delegados com um programa radicalmente novo. Teria sido porque não tinha a coragem que Khruchov demonstrou em 1956? Ou porque ele – perestroika para cá, glasnost para lá – queria deixar os delegados na incerteza sobre as suas verdadeiras intenções? O mais provável é a suposição de que ele próprio não sabia que destino teria a viagem.» (Sublinhados meus, KG)


Gorbatchov – di-lo Pirker – é na verdade uma vítima do «modelo de socialismo burocrático»: «Os problemas do modelo do socialismo burocrático estavam à vista no início da era Gorbatchov e, na verdade, já se tinham tornado irresistíveis (…) No seu espartilho burocrático, o socialismo não conseguiu criar nenhuma opinião pública democrática adequada. Ao conservadorismo estrutural correspondia a inércia social das massas.»


Por conseguinte, segundo Pirker, foi a inércia das massas que impediu Gorbatchov de fazer o necessário!


Na verdade, o que impediu Gorbatchov de realizar de imediato as suas intenções não foi «a inércia social das massas», mas sim o seu receio da resistência das massas contra o desmantelamento da ordem socialista.


Na sua entrevista à Spiegel, Gorbatchov revelou como escarneceu das massas e as enganou deliberadamente sobre as suas verdadeiras intenções: O jornalista da Spiegel comentou sobre o desenrolar da perestroika: «Para uns era muito lento, para outros tudo era demasiado radical.


«Gorbatchov – E Gorbatchov teve de timonar o navio da perestroika através dos recifes. Nessa altura ainda não era possível anunciar ao povo as coisas para as quais o povo ainda não estava preparado. (Sublinhado meu, KG)


Pirker inicia o seu comentário sobre a «inércia das massas» com a seguinte observação:


«Nesta perspectiva, a reflexão de romper as condições através de um novo sistema de abertura social era apropriada à situação. No seu relatório ao partido, Gorbatchov disse que sem “glasnost não há nem pode haver democracia (…) A glasnost é necessária no centro, mas também ou talvez até ainda mais na base, lá onde as pessoas vivem e trabalham”.


Isto ainda expressava uma ideia de democracia que só se pode desenvolver na base de relações de produção e de propriedade socialistas. E uma ideia de abertura que não tem como modelo o parlamentarismo burguês, mas aponta para um amplo debate social, revela evoluções erradas, repele a mentalidade submissa, activa formas de controlo popular e assim liberta o potencial criativo das bases. Nisto consistia a filosofia inicial da perestroika, que se expressava no lema “Mais democracia, mais socialismo”.»


Nesta altura, Pirker deve ter receado estar a abusar do leitor com este elogio a Gorbatchov, apresentando-o como um modelo de democrata socialista, já que relativiza com a frase seguinte: «Pelo menos assim parece.»


Depois de Pirker nos ter mostrado que afinal Gorbatchov se encontrava no caminho certo para a verdadeira democracia socialista, não poderia deixar de explicar por que razão, contudo, «falhou».


Para isso alega características pessoais de Gorbatchov: «A sua escassa ligação ao povo e a sua arrogância social.» Essas são as razões por que «nunca atingiu grande popularidade» – aspecto de que nós temos outras recordações entre os anos 1985 e 1987! – e isso também preparou «as bases para a ascensão do seu grande rival Boris Nikoláievitch Iéltsine.»


Também isto é um espantoso erro de avaliação: onde Pirker só vê rivalidade, houve na realidade, nos primeiros anos, inteira concordância entre Gorbatchov e Iéltsine sobre a meta e um acordo sobre a divisão de tarefas, como descrevi no ponto IV da «Cebola»: Gorbatchov desempenhava o papel de defensor do rumo moderado correcto contra a oposição de esquerda e de direita, Iéltsine desempenhava o papel do opositor que pressiona na direcção de reformas muito mais amplas, mas era apenas o precursor no caminho para o objectivo de ambos – a restauração do capitalismo na União Soviética.


Porém, isto não era alcançável por caminhos directos, sem o embuste de combates ensaiados a propósito do rumo a tomar.


Entre Gorbatchov e Iéltsine só houve concorrência, e só podia haver, depois de a meta estar praticamente alcançada.


Pirker «identificou» uma outra razão para o «fracasso» de Gorbatchov no facto de ele ser demasiado burro para reconhecer os objectivos do imperialismo. Descobriu em Gorbatchov um «desconhecimento do carácter agressivo da essência imperialismo». Um testemunho deste «desconhecimento» é, para Pirker, a «tese nuclear do novo pensamento» sobre a«prioridade dos interesses gerais da humanidade sobre os interesses de classe.»


Não deveria ter dado que pensar a Pirker o facto de esta «tese nuclear do novo pensamento» – na verdade ainda gérmen – já ter sido referida por Khruchov? No XXI Congresso do PCUS (1959) foi assim formulada: «Seria melhor para todos, se os políticos e militares americanos se deixassem conduzir por considerações humanas gerais e não por intenções egoístas.» (Citado com indicação da fonte em Taubenfusschronik (Crónica dos Pés de Lã), 2.º vol., p. 235). O mesmo Khruchov, durante a sua visita ao presidente dos EUA, Eisenhower (1959), afirmou este tinha reconhecido efectivamente a coexistência pacífica com o mundo do socialismo! O «desconhecimento do carácter agressivo da essência do imperialismo» já caracterizava fortemente o precursor de Gorbatchov, o que na verdade parece ter escapado a Pirker.


Manifestamente os seus estudos sobre o XX e XXI congressos do PCUS não foram suficientes para compreender que a sua linha condutora foi o revisionismo moderno, uma das características fundamentais do qual é a substituição da luta contra o imperialismo pela reconciliação e cooperação com ele.


Pirker parece muito longe de uma tal compreensão; em todo o caso, claramente, afasta dela o leitor, pintando-lhe a imagem de um Gorbatchov sem nenhuma conceptualização e empurrado pelos acontecimentos, alguém que de forma nenhuma trabalhou conscientemente para provocar o fim da União Soviética:


«Quanto mais a perestroika marcava passo, mais radical se tornava a sua teoria. Pareceu querer alterar pela esquerda as condições. “O poder ao povo”, as fábricas aos operários, a terra aos camponeses”, declarou o centro do poder que girava à volta do secretário-geral. Isto prometia mais e não menos socialismo. Estava na ordem do dia uma real socialização dos meios de produção, que ia além da sua nacionalização. Permanecerá para sempre um segredo que ideias eram, na realidade, as que orientaram, nessa época, o estado-maior da perestroika.»


Se Pirker tivesse lido minuciosamente o discurso de Gorbatchov perante os representantes dos meios de comunicação de massas e o tivesse analisado enquanto marxista, então teria podido perceber que Gorbatchov não só sabia exactamente para onde queria ir, como até anunciou o seu objectivo – mesmo que não directamente e sem reservas: a reintrodução da propriedade privada dos meios de produção! (cf. ponto IV).


Mas já antes deste discurso – ao qual Pirker até faz referência no último parágrafo do seu artigo sob o título «Enriquecei-vos!» (JW de 28.02) – tinham sido aprovadas, em Dezembro de 1986, a «Lei sobre a Actividade Individual» e a «Lei sobre as Cooperativas», as quais Pirker, espantosamente, comenta assim: «É difícil dizer se se trata de confusão teórica ou se já havia a intenção de destruir a propriedade social.»


Como são possíveis tais dúvidas se o próprio Gorbatchov não lhes deixa qualquer espaço com as suas afirmações quer na Spiegel, quer no discurso em Ankara? Resposta de Gorbatchov na entrevista à Spiegel de 1993 à questão se ele ainda é comunista: «Se considerar as minhas afirmações, então será claro para si que as minhas simpatias políticas pertencem à social-democracia e à ideia de um Estado social do género do da República Federal da Alemanha.»


E Gorbatchov em Ankara em 1999: «Quando conheci pessoalmente o Ocidente, percebi que não podia renunciar ao objectivo definido. E, para ser alcançado, precisava de substituir toda a direcção do PCUS e da URSS, bem como a direcção em todos os países socialistas. O meu ideal nessa altura era a via dos países sociais-democratas.»


Não tinha aqui Pirker todas as razões para agradecer a Gorbatchov por lhe ter tirado todas as dúvidas sobre os seus objectivos e motivos? Mas não! Manifestamente quer mantê-las e para além disso quer que os seus leitores também as partilhem: «Devia-se», escreve, «proteger Mikhail Serguéievitch de se auto-difamar de ter conspirado contra o socialismo.»


Como assim? Pirker acrescenta: Gorbatchov «não devia ainda nessa altura ter qualquer plano. Quando o fracasso do projecto de renovação socialista se tornou definível, deixou as coisas correr como correram.»


Comunistas como por exemplo Rolf Vellay não precisam de nenhuma confissão de Gorbatchov, como as citadas, para reconhecer nele um inimigo consciente do socialismo. Na chamada Conferência da Perestroika do DKP, no IMSF de Frankfurt, em 1987, Vellay afirmou clarividente: «Mikhail Gorbatchov, secretário-geral – é a contra-revolução na direcção no PCUS! Mikhail Gorbatchov, presidente da URSS – é o fim do socialismo na União Soviética! “Novo pensamento” – é a paralisia do conteúdo revolucionário do movimento comunista mundial.» (Rolf Vellay, Ensaios Escolhidos, Cartas, Discursos, Caderno 83, Berlim, Maio 2002, Schriftenreihe fuer marxistische-leninistische Bildung der KPD, (Cadernos para a Educação Marxista-Leninista do Partido Comunista da Alemanha).


Como se explica que alguém como Werner Pirker, que os leitores do «Junge Welt» conheceram durante anos como um analista perspicaz das tramas imperialistas, não só tem dificuldades em reconhecer a verdade, nos casos de Khruchov e Gorbatchov, como a declara não existente, apesar de estar à vista? A resposta é suficientemente simples: Pirker «conhece-a » há muito, e também a dá a conhecer logo no início do artigo: «O PCUS não foi liquidado pelo ataque de forças inimigas, mas sim vítima de si próprio.»


Se os factos o contradizem, pior para os factos! Como o PCUS, segundo a decisão de Pirker, não foi liquidado, mas liquidou-se, as confissões de Gorbatchov só podem ser invenções, na melhor das hipóteses uma «auto-difamação», de que o devemos proteger…


O estranho fechar de olhos de Pirker a factos há muito comprovados tem a sua razão no facto de que, para ele como para todos os antileninistas antes dele – de Kautsky, passando por Trótski e Tito até Gysi, Brie e Bisky –, o «sistema soviético» fundado por Lénine e consolidado por Stáline, o «modelo soviético», «o modelo de poder e o partido leninista», «o socialismo de Estado», «o sistema de comando burocrático», desde o início que continha o gérmen da morte e tinha, mais cedo ou mais tarde, necessariamente que fracassar, «destruirse a si próprio». Surpreendente acordo sobre esta interpretação entre ele e Robert Steigerwald.


Steigerwald afirma de forma idêntica: «A causa principal do declínio histórico é, portanto, o tipo de organização… O grupo de Gorbatchov foi confrontado com esta constelação de becos sem saída. Hoje, os seus principais representantes orgulham-se de ter iniciado o caminho da destruição da União Soviética conscientes e com empréstimos da social-democracia. Eu até considero isto uma intrujice que inventaram para apresentar o seu fracasso como o seu mérito e se tornarem meninos bonitos no Ocidente.» (RobertSteigerwald, Kommunistische Stand- und Streitpunkte (Perspectivas e Litígios Comunistas),GNN Verlag, Schkeuditz, 2002, p. 34 e seg.)


A consequência de tais interpretações consiste na conclusão: não há nada a aprender com este modelo de socialismo, excepto como não se deve fazer! As graves consequências de uma tal interpretação devem estudar-se, entre outros, no destino dos partidos comunistas francês e austríaco e na proposta de programa do DKP.


Questionámos no título: «Porquê este regresso à “cebola Gorbatchov”?» A resposta é quando o único jornal diário alemão consequentemente anti-imperialista e um dos seus justamente mais considerados colaboradores deixam tão claramente compreender que necessitam de ajuda na área da análise histórico-materialista de factos históricos, então todos os que podem contribuir com alguma coisa, devem fazê-lo, em seu benefício dos seus leitores.


Redigido em Berlim, a 15 de Março de 2006, publicado em «Offensiv – Zeitschrift für Frieden und Sozialismus» 4/06 (Março – Abril 2006), pp. 36 – 40.



Fonte: Para a história do socialismo

O Mafarrico

Nenhum comentário:

Postar um comentário