Pesquisa Mafarrico

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O QUE OS POVOS INDÍGENAS PODEM ESPERAR?

O QUE OS POVOS INDÍGENAS PODEM ESPERAR?
por Yuri Vasconcelos*

"Portanto, os Povos Indígenas não podem esperar nada da institucionalidade burguesa para esse próximo período. Os graves problemas vivenciados pelas comunidades indígenas não serão resolvidos pela manutenção e desenvolvimento do mercado e da economia capitalista, uma vez que esse modo de produção possui, em sua essência, a lógica do lucro, a mercantilização da terra, a degradação ambiental, a homogeneização da cultura e a exploração do homem pelo homem."

A questão indígena no Brasil continua a ser um debate secundarizado ou mesmo abandonado pelas políticas públicas. Depois de séculos de extermínio sistemático e vários anos sendo considerados, legalmente, como seres inferiorizados e forçados a uma política integracionista e homogeneizadora, as políticas neoliberais na atualidade aprofundam o descaso do Estado brasileiro com as populações indígenas.

Passadas as eleições 2014, as comunidades indígenas já começam a sentir que a “nova” velha política do Estado brasileiro dará continuidade às mazelas plantadas pelo colonialismo, como a perda de suas terras ancestrais, a pobreza, os altos índices de mortalidade infantil, o preconceito, entre outras.

As políticas neoliberais implementadas pelos sucessivos governos (tucanos e petistas) intensificam os ataques aos direitos indígenas. Observa-se um aprofundamento do que chamamos de mercantilização da vida, ou seja, a mercantilização dos serviços públicos essenciais, como saúde, educação, transporte, previdência, moradia, cultura, alimentação, enfim, o direito à vida.

Os processos de privatização (estradas, telecomunicações, sistemas de geração e distribuição de energia, empresas de saneamento, sistema de ferrovias, empresas de transporte público, aeroportos) partem de uma falsa lógica de que a ação privada é melhor para o conjunto da sociedade e que levariam a uma oferta de bens e serviços de qualidade superior e preços mais adequados. Entretanto, longe de atender às necessidades da população, observa-se que as decisões políticas sempre operam no sentido de favorecer as empresas privadas, aumentando os seus lucros, como, por exemplo, nos casos das tarifas elevadas e nos péssimos serviços ofertados, como saúde e educação.

A resistência palestiniana é uma necessidade

Entrevista a Leila Khaled
A resistência palestiniana é uma necessidade

Isolar Israel e responsabilizar os criminosos sionistas, resistir à liquidação do povo e da causa palestiniana e garantir a unidade das forças nacionais, são os objectivos que Leila Khaled, dirigente da Frente Popular para a Libertação da Palestina e membro do Conselho Nacional Palestiniano, indicou como prioritários em entrevista ao Avante!, concedida à margem da sua participação no Seminário Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano, realizado a 29 de Novembro, em Almada.

Qual é o objectivo da sua participação, em nome da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), neste Seminário Internacional de solidariedade com o povo palestiniano?

Fomos convidados pelas organizações portuguesas que promoveram o Seminário. A vinda a Portugal permitiu, ainda, que nos encontrássemos com todos os partidos e grupos parlamentares da Assembleia da República, incluindo o Partido Comunista Português. O PCP recebeu-nos também ao nível da sua direcção, com quem mantivemos uma conversa franca, entre camaradas que pretendem reforçar os laços fraternais que nos unem.

Não tive tempo para ver as cidades de Lisboa ou de Almada. Para mim a geografia não diz tudo. Diz-me mais o contacto com o povo. São as pessoas e o relacionamento com elas que transmitem o país. E esse é um dos elementos que retiro desta visita, na qual mantive sempre a sensação de estar entre camaradas, entre irmãos, quase como se estivesse em casa.

Essa sensação traduz os laços fraternais entre os povos português e palestiniano? 

Claro que sim, e isso é muito importante para a nossa luta. Importante foram, também os encontros com as várias forças parlamentares, as quais, por princípio, devem representar o seu povo. Ora, na esmagadora maioria dos casos, recebemos sólidas garantias de apreço pela causa palestiniana, bem como de vontade em contribuir para o reconhecimento dos direitos do meu povo e do meu país. Espero que assim seja.

Retira daí que o reconhecimento do Estado da Palestina pelo Governo português é uma possibilidade para breve?

Pelo Governo não creio. Mas o parlamento pode fazê-lo, o que será, por um lado, um passo simbólico, mas ao mesmo tempo uma tomada de posição inequívoca a favor do fim das agressões criminosas de Israel, com consequências diplomáticas evidentes, mas também ao nível económico, militar.

Engels - Um salário justo por um dia de trabalho justo

Um salário justo por um dia de trabalho justo
Friederich Engels (1) 1881


"A justiça da economia política, na medida em que esta traduz verdadeiramente as leis que regem a atual sociedade, é uma justiça para um só lado – o lado do capital. Que o velho mote seja pois enterrado para sempre e substituído por outro: A apropriação dos meios de trabalho – matérias-primas, fábricas e maquinaria – pelos próprios trabalhadores."



Este foi o lema do movimento operário inglês nos últimos 50 anos. Prestou bons serviços no período de crescimento dos sindicatos, depois da revogação, em 1824, da infame lei sobre o direito de associação 2; prestou ainda melhores serviços durante o glorioso movimento cartista 3, quando os operários ingleses encabeçavam a marcha da classe operária europeia. Mas os tempos mudam, e muitas coisas que eram desejáveis e úteis há 50 anos ou mesmo há 30 anos, estão agora obsoletas e seriam completamente desadequadas. Será o caso desta antiga e consagrada palavra de ordem?

Um salário justo para um dia de trabalho justo? Mas o que é um salário justo, e o que é um dia de trabalho justo? De que forma são determinados pelas leis, sob as quais a sociedade moderna existe e se desenvolve? Para responder a esta pergunta, não podemos apelar à ciência da moral ou ao direito e à equidade, nem mesmo a qualquer sentimento de humanidade, de justiça, ou até de caridade. O que é justo do ponto de vista da moral ou mesmo do direito, pode estar longe ser justo do ponto vista social. A justiça ou injustiça social só podem ser determinadas por uma única ciência: a ciência que lida com os factos materiais da produção e da distribuição – a ciência da economia política. 

Mas o que é que a economia política designa como salário justo e dia trabalho justo?Simplesmente o montante do salário e a duração e intensidade do dia trabalho que são determinados pela concorrência entre empresários e operários no mercado livre. E o que representam quando estes os determinam?

O salário justo por um dia de trabalho, em condições normais, é a soma que o operário precisa para adquirir os meios de subsistência necessários à manutenção da sua força de trabalho e sustento da sua família, de acordo com os padrões de vida do seu posto e do respectivo país. O nível efectivo dos salários, consoante as flutuações do mercado, pode por vezes estar acima e por vezes abaixo desse montante; mas, em condições justas, o seu montante deve ser a média de todas as oscilações.

Um dia justo de trabalho é aquele cuja duração e intensidade esgota completamente a força de trabalho do operário, sem afectar a sua capacidade de realizar a mesma quantidade de trabalho no outro dia e seguintes.

Assim, a transacção pode ser descrita do seguinte modo: o operário dá ao capitalista toda a sua força de trabalho de um dia; ou seja, tudo o que pode dar sem tornar impossível a repetição contínua da transacção. Em troca recebe a estrita quantidade de meios de subsistência, e não mais, necessários para repetir todos os dias o mesmo contrato. O operário dá o máximo e o capitalista dá o mínimo que a natureza da negociação permitir. É um tipo muito peculiar de justiça.

domingo, 28 de dezembro de 2014

As reivindicações feministas

As reivindicações feministas
por J C MARIÁTEGUI

"artigo publicado em 1924, no qual o espírito atento de repórter do autor registra o nascimento das lutas das mulheres em seu país."

"O trabalho muda radicalmente a mentalidade feminina. A mulher adquire, em virtude do trabalho, uma nova noção de si mesma.

Antigamente a sociedade a destinava ao matrimônio ou ao amancebamento. Aqueles que (hoje) rechaçam o feminismo e seus progressos com argumentos sentimentais ou tradicionalistas pretendem que a mulher seja educada só para o lar.

A defesa poética do lar é, na realidade, uma defesa da servidão. Em vez de enobrecer e dignificar o papel da mulher, o diminui e rebaixa. A mulher é muito mais que uma mãe e uma fêmea, assim como o homem é mais que um macho."

Pulsam no Peru as primeiras inquietudes feministas. Existem algumas células, alguns núcleos de feminismo. Os propugnadores do nacionalismo extremo pensarão provavelmente: aí está outra ideia exótica, outra ideia forasteira que se enxerta na mentalidade peruana.

Tranquilizemos um pouco a essa gente apreensiva. Não se deve ver no feminismo uma ideia exótica, estrangeira. Deve-se ver nele, simplesmente, uma ideia humana. Uma ideia característica de uma civilização, peculiar a uma época. E, por consequência, uma ideia com direito de cidadania no Peru, como em qualquer outro segmento do mundo civilizado.

O feminismo não apareceu no Peru (de maneira) artificial nem arbitrariamente. Apareceu como uma consequência das novas formas de trabalho intelectual e manual da mulher.

As mulheres de real filiação feminista são aquelas que trabalham e que estudam.

A ideia feminista prospera entre as mulheres de ofício intelectual ou de ofício manual: professoras universitárias e operárias. Encontra um ambiente propício a seu desenvolvimento nas salas universitárias, que atraem cada vez mais as mulheres peruanas, e nos sindicatos operários, nos quais as mulheres das fábricas se envolvem e se organizam, com os mesmos direitos e os mesmos deveres que os homens.

Presas por dirigir, mulheres serão julgadas em tribunal para terroristas na Arábia Saudita

Mulheres sauditas são oprimidas!
Presas por dirigir, mulheres serão julgadas em tribunal para terroristas na Arábia Saudita
Redação | São Paulo - Opera Mundi

"A Arábia Saudita é regida por uma interpretação da lei islâmica que impõe a segregação de sexos em espaços públicos e restrições às mulheres para, além de dirigir, viajar para fora do país sem um homem da família. Não há nenhuma lei que explicite a proibição para mulheres dirigirem no país, mas o reino se recusa a emitir carteiras de motorista para mulheres, temendo que a ampliação dos direitos civis leve a "problemas sociais"."

Ativistas pelos direitos das mulheres estão presas há quase um mês; lei antiterrorista tem sido utilizada para julgar dissidentes e ativistas pacíficos

As sauditas Loujain al-Hathloul, 25 anos, and Maysa al-Amoudi, 33, detidas no começo de dezembro por dirigir, serão julgadas por um tribunal especial para casos de terrorismo na Arábia Saudita.

Segundo ativistas, é a primeira vez que mulheres presas por dirigir são transferidas para o tribunal especial com sede em Riad, capital do país árabe, o único no mundo a proibir que mulheres dirijam automóveis.

Pessoas próximas al-Hathloul e al-Amoudi afirmaram que elas estão sendo julgadas não por dirigir, mas por expressar suas opiniões online. As duas ativistas têm mais de 350 mil seguidores no Twitter e são as principais vozes da campanha pelo direito das mulheres de dirigir no país.

Em entrevista à Agência Efe, o ativista Yahya Asiri explicou que as autoridades judiciais estão aplicando a nova lei antiterrorista, que entrou em vigor em fevereiro de 2014, segundo a qual devem ser julgadas pessoas que prejudiquem a reputação do país.

A norma define o delito de terrorismo como "qualquer ato criminoso que de forma direta ou indireta altere a ordem pública, atente contra a segurança da comunidade e a estabilidade do Estado, ou ponha em perigo a união nacional". Segundo o jornal britânico The Guardian, o tribunal especial foi estabelecido para julgar casos de terrorismo tem sido utilizado também para julgar dissidentes e ativistas pacíficos, como as duas mulheres.

Asiri destacou que na audiência realizada ontem (25/12), a segunda do julgamento, a promotoria e os advogados das duas mulheres rejeitaram a mudança, e previu que a corte pode pronunciar-se nos próximos dias sobre se aceita ou não levar o processo.

As sauditas, que têm carteiras de motorista dos Emirados Arábes Unidos, foram detidas na fronteira entre o país e a Arábia Saudita ao tentar entrar dirigindo em seu país de origem.

Elas vinham pedindo na internet o fim da proibição de dirigir para as sauditas, existente de forma oficial no país desde 1990, e tinham convocado outras pessoas a desafiar a norma.

Terrorismo organizado

Terrorismo organizado
por Ângelo Alves 


"Estamos a falar de brutais crimes, de terrorismo de Estado, de crimes contra a Humanidade que numa outra qualquer situação já teriam sido motivo de várias resoluções do Conselho de Segurança da ONU e muito possivelmente de uma agressão militar em nome da «liberdade» e contra a «ditadura». Da nossa parte tão somente exigimos que os responsáveis – executivos e políticos – sejam punidos, que as vítimas sejam compensadas e que por todo o Mundo se retire a lição: um dos factores de maior perigo na situação internacional são os EUA, o seu governo, as suas forças armadas e as suas agências de terrorismo organizado."


O Senado norte-americano discutiu um relatório de 6000 páginas - das quais apenas 524 foram desclassificadas - sobre um assunto que mereceria a maior atenção de todo o Mundo. O pouco que se conhece do relatório confirma aquilo que já se sabia: a CIA, sob as ordens do presidente Bush, desenvolveu um chamado «programa de detenção e interrogatório» que incluía «técnicas reforçadas de interrogatório», ou seja as mais abjectas torturas praticadas em Guantanamo e em vários outros campos de detenção espalhados pelo mundo. 

No sumário do relatório é possível identificar práticas como tortura do sono durante semanas a fio, alimentação e hidratação forçada por via rectal, simulação de afogamento, isolamento, iminência de assassinato, humilhações de variada espécie, estátua, entre outras. Técnicas de tortura, algumas das quais muitos comunistas e outros democratas portugueses conhecem bem e que, no tempo da ditadura fascista, eram já inspiradas nas «ordens» do «Big Brother».

Este relatório apenas vem confirmar aquilo que já se sabia: o carácter criminoso de um regime político de uma grande potência capitalista, que se coloca acima da lei e de quaisquer obrigações do direito internacional. Vem também reforçar a exigência de se apurar toda a verdade quer no que toca à tortura, quer relativamente aos raptos, aos chamados «voos da CIA» e à verdadeira dimensão dos campos de detenção, nomeadamente na Europa, todos eles elementos de uma estratégia brutal.

Mas vem sobretudo colocar a questão da responsabilização e da culpa. Tudo foi feito para adiar e esconder a apresentação do conteúdo deste relatório. Após a divulgação do seu sumário executivo o esforço foi direccionado para alimentar um criminoso e falso dilema que se poderia resumir numa frase: «vale a pena torturar?».

A diáspora portuguesa


Emigração
Causas e consequências
por Anselmo Dias


"Para essa gente que está no Governo – e para os seus mandantes –, a emigração, em termos globais, serve um propósito ideológico para vender a imagem do chamado «empreendedorismo», do desafio à capacidade individual de cada um na procura de soluções e na valorização do «self-made-man» que «prospera» e «enriquece no estrangeiro», ou seja, mentiras sobre mentiras. 
Com os casos de «sucesso» – que existem –, muitos dos quais à custa de muito trabalho e sacrifícios, não se pode iludir a realidade em que vive e trabalha a maioria dos(as) portugueses(as) no estrangeiro"
O empobrecimento da população cujo consumo próprio tem um peso expressivo no PIB havia de dar no que deu: um dramático crescimento do desemprego

Quem, nos anos de chumbo do fascismo, no contexto da pobreza, da repressão a todos os níveis e da guerra colonial não se lembra dos milhares e milhares de concidadãos que através do «salto» ou por via legal se viram obrigados a emigrar?


Foram muitos milhares aqueles que, então, deixaram a nossa pátria tendo, em 1966, atingindo o seu máximo valor, estimado na altura em cerca de 120 000 portugueses.


Na década de sessenta – 1960/9 –, estima-se que a emigração, em termos de média anual, andava à volta de 64 000 emigrantes.

Pois bem, nos últimos três anos, 2011 a 2013, foram obrigados a deixar a sua terra, a sua família, os seus amigos e os seus afectos cerca de 350 500 portugueses, o que corresponde a uma média anual de 116 800 compatriotas.

Este valor é, para a gente que se alimenta do lucro, da ganância e da exploração, não só uma fria e mera estatística como um agradável «tubo-de-escape» à contestação social que de Norte a Sul grassa pelo País e da qual se destaca as grandiosas manifestações promovidas pela CGTP.

sábado, 27 de dezembro de 2014

UPPs nas favelas do Rio de Janeiro

Cooperação em segurança entre Brasil e Colômbia: 
como foram construídas e quais as consequências da implantação das UPPs nas favelas do Rio de Janeiro
por José Alves de Sousa 


"O modelo de segurança militarizada das favelas, até por se inspirar no modelo colombiano de policiamento por quadrantes de Bogotá e Medelín, guarda semelhanças com a política de “segurança democrática” do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe Vélez, continuada com o eufemismo da Política Integral de Segurança e Defesa para a Prosperidade, do actual presidente Juan Manuel Santos."

Com o fim da Guerra Fria, os governos norte-americanos vitoriosos na “guerra contra o comunismo” ficaram sem seu inimigo principal, a URSS e o Pacto de Varsóvia, mas não desistiram de continuar mantendo em pleno funcionamento seu poderoso complexo militar-industrial, espinhal dorsal da economia, muito menos desarticularam seu braço armado representado pela OTAN. Portanto era urgente a necessidade de fabricar uma nova doutrina militar para encontrar um novo inimigo que combater.

Os atentados terroristas às torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, eram a oportunidade e o pretexto perfeito que precisavam os neoconservadores republicanos no poder, com a eleição de George W. Bush com presidente, para dar a conhecer o documento conhecido como Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América.

No entanto, esse documento se centra em um componente que, não sendo novidade, assume um papel central no sentido assegurar as pretensões hegemônicas dos EUA, ou seja, a realização de ataques preventivos e a dissuasão de potenciais adversários. Esses postulados são desenvolvidos de maneira sistemática em um segundo documento, divulgado meses depois com o título de Estratégia Nacional para a derrota do Terrorismo (fevereiro de 2003). Esclareça-se que aqui a noção de ―terrorismo‖ é ampliada de propósito ao ponto de incluir não só delinquentes comuns, mas também dissidentes políticos e ativistas sociais para, assim, silenciar os movimentos de resistência anticapitalista ou anti-imperialista. É desencadeada, então, uma “guerra contra o terrorismo” contra o regime Talibã no Afeganistão e a invasão do Iraque sob o pretexto falso de desmantelar supostas armas de destruição massiva, o que ilustra claramente o modus operandi do imperialismo.

No ano de 2000 entra em vigor o chamado Plano Colômbia de ”guerra ao narcotráfico”, ainda sob o governo Clinton, acordo bilateral entre os EUA e a Colômbia cuja finalidade oficial principal seria prover o país andino de ajuda financeira e treinamento militar e técnico para combater o tráfico de drogas, o que transformaria esse país no terceiro maior receptor de ajuda norte-americana, atrás apenas de Israel e Egito.

Portugal : Um Zoo humano de inimigos do povo

Um Zoo humano de inimigos do povo
por Miguel Urbano Rodrigues


O governo Passos-Portas, a fauna que preenche o “comentário político”, a casta de aventureiros sem escrúpulos que a política de direita fez florescer tornam o país um microcosmos do capitalismo no seu estado mais apodrecido. Na tentativa de impedimento do direito à greve na TAP a questão já não é apenas a ostensiva ilegalidade. É a utilização, tal como nos tempos do salazarismo, do argumento das “motivações ideológicas” da greve. Este bando fascizante torna o país irrespirável.


Diariamente, ao abrir o televisor e escutar o discurso do governo, sou sacudido pelo absurdo.

Sinto-me projetado num teatro onde os atores se comportam no palco como seres extraterrestres. Eufóricos, dizem, com convicção e arrogância, coisas nunca ouvidas. Nem na época de Salazar gente tão insolente e corrupta se moveu nos terraços do Poder. Os ministros eram então mais cautelosos.

Um estigma doloroso turva, contudo, a alegria da atual ditadura da burguesia: não pode substituir a máscara da fachada democrática e exibir-se como fascizante porque lhe está vedado criar uma PIDE e recorrer ao exército para reprimir o povo.

Mas na prática da vida, Passos, Portas & Companhia ignoram a Constituição e as leis da República e, invocando «o interesse nacional», impõem ao País medidas brutais que o empobrecem cada vez mais.

Repetidamente o Tribunal Constitucional declarou inconstitucionais decisões governativas que violavam a Carta Magna, reduzindo os salários dos trabalhadores e desrespeitando direitos fundamentais.

Como reagiu o Executivo? Em piruetas jurídicas retomou a ofensiva contra o mundo do trabalho (cortes, despedimentos, etc) sob novo figurino para atingir o mesmo objetivo: o seu empobrecimento.

As exigências inadmissíveis da troika que tutela Portugal foram há muito ultrapassadas. O Governo, ao golpear múltiplas áreas sociais, foi mais longe do que os representantes do grande capital internacional: o FMI, a Comissão Europeia e o BCE.

A crise de 1929


A crise de 1929
I.V. Stáline ( 1 )
"Se o capitalismo pudesse ajustar a produção não para a obtenção do lucro máximo, mas para a melhoria sistemática da situação material das massas populares, se pudesse dirigir o lucro não para a satisfação dos caprichos das classes parasitárias, não para o aperfeiçoamento dos métodos de exploração, não para a exportação de capitais, mas para a elevação sistemática da situação material dos operários e camponeses, então não haveria crises. Mas então também o capitalismo não seria capitalismo. Para eliminar as crises é preciso eliminar o capitalismo."

(…) Hoje, quando a crise econômica mundial desenvolve a sua acção destruidora, afundando camadas inteiras de pequenos e médios capitalistas, devastando grupos inteiros da aristocracia operária e de agricultores e condenado à fome milhões de trabalhadores, todos perguntam: qual é a causa da crise, qual a sua origem, como combatê-la, como eliminá-la? Inventam-se as mais diversas «teorias» da crise. Propõem-se projectos inteiros de «mitigação», de «prevenção», de «liquidação» da crise. 

As oposições burguesas culpam os governos burgueses, que, verifica-se, «não tomaram todas as medidas» para prevenir a crise. Os «democratas» acusam os «republicanos», os «republicanos» acusam os «democratas», e todos juntos acusam o grupo de Hoover e o seu Sistema de Reserva Federal, que não foi capaz de «refrear» a crise. (…)

É evidente que todas estas «teorias» e projectos não têm nada a ver com ciência. É preciso reconhecer que os economistas burgueses revelaram a sua total falência ante a crise. Mais que isso, revelaram-se até desprovidos daquele mínimo sentido da vida, o qual nem sempre se pôde negar aos seus predecessores. Esses senhores esquecem que as crises não podem ser vistas como fenômenos acidentais no sistema de economia capitalista. Esses senhores esquecem que as crises nasceram juntamente com o surgimento do domínio do capitalismo. Ao longo de mais de cem anos repetiram-se em intervalos de 12-10-8 anos e inferiores. Neste período os governos burgueses de todas as procedências e cores, políticos burgueses de todos os títulos e capacidades – todos sem excepção tentaram pôr à prova as suas forças em matéria da «prevenção» e «eliminação» das crises. Mas todos foram derrotados. Foram derrotados porque não se pode prevenir ou eliminar as crises econômicas permanecendo no quadro do capitalismo. 

Haverá algo de surpreendente se os políticos burgueses actuais forem também derrotados? Haverá algo de surpreendente se as medidas dos governos burgueses não conduzirem à mitigação da crise, não conduzirem ao alívio da situação de massas de milhões de trabalhadores, mas a novas falências, a novas vagas de desemprego, à absorção das uniões capitalistas menos fortes pelas uniões capitalistas mais fortes?

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Inquisição americana

O 11/Set e a "Inquisição americana"
por Michel Chossudovsky


"A inquisição da América é utilizada para estender a esfera de influência estado-unidense e justificar intervenções militares, como parte de uma campanha internacional contra "terroristas islâmicos". Seu objectivo final, o qual nunca é mencionado nos relatos da imprensa, é conquista territorial e controle de recursos estratégicos. "

*Nota do mafarrico : texto publicado originalmente wm setembro/2008"


A "Guerra global ao terrorismo" é uma forma moderna de inquisição. Ela tem todos os ingredientes essenciais das inquisições francesa e espanhola. 

Perseguir "terroristas islâmicos", executar uma guerra antecipativa (preemptive) à escala mundial para "proteger a pátria" são argumentos utilizados para justificar uma agenda militar. 

A "Guerra global ao terrorismo" (GGT) é apresentada como um "Choque de civilizações", uma guerra entre valores e religiões em competição, quando na realidade é uma clara guerra de conquista, guiada por objectivos estratégicos e económicos. 

A GGT é a espinha dorsal ideológica do Império Americano. Ela define a doutrina militar dos EUA, incluindo a utilização antecipativa de armas nucleares contra os "Estados patrocinadores" de terrorismo. 

A doutrina da "guerra defensiva" antecipativa e a da "guerra ao terrorismo" contra a Al Qaeda constituem tijolos para a construção da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA tal como formulada no princípio de 2002. O objectivo é apresentar "acção militar antecipativa" – o que significa a guerra como um acto de "auto-defesa" contra duas categorias de inimigos, "Estados vilões" e "terroristas islâmicos", ambos os quais são ditos possuir armas de destruição em massa. 

A lógica do "inimigo exterior" e malfeitor, responsável por mortes civis, prevalece sobre o senso comum. No âmago da consciência dos americanos, os ataques de 11 de Setembro de 2001 justificam actos de guerra e conquista.

"Como foi demonstrado pelas perdas no 11 de Setembro de 2001, baixas em massa de civis são o objectivo específico de terroristas e estas perdas seriam exponencialmente mais severas se terroristas adquirissem e utilizassem armas de destruição em massa" ( National Security Strategy , White House, Washington, 2002)

Bispos e banqueiros são velhos companheiros

Bispos e banqueiros são velhos companheiros
por Jorge Messias


"Curioso é este paralelo entre o que se passou há trezentos anos e o que se vai processando no nosso tempo. O namoro entre a Igreja e o poder continua. Não enfraqueceu a atração pelo dinheiro que está na base do convívio fraterno entre bispos e banqueiros. A gula dos ricos pela carne dos pobres é insaciável."

Tem interesse e ajuda a compreender o que no mundo actualmente se passa, recordar em traços gerais as afinidades que sempre ligaram as hierarquias religiosas aos altos postos e ao aparelho do capitalismo político e financeiro mundial. Necessariamente numa abordagem muito superficial e só para nossa informação.

A expressão igreja começou a ser usada na antiga Grécia vários séculos antes de Cristo. Designava conselhos eleitos entre os cidadãos com a finalidade de gerirem a polis ou cidade, conceito que depois evoluiu para a noção mais sofisticada de cidade-estado ou seja, cidade que era cabeça política de um território mais vasto.

Nessa fase tão recuada não havia grandes religiões organizadas. A igreja – uma estrutura de base popular – ligava-se no entanto aos mitos anteriores ao conhecimento científico e que sobreviveram depois no inconsciente colectivo como milagres. Atribuíam origens fantasiosas aos fenómenos naturais.

Estas funções básicas da igreja vieram a tomar outros sentidos. Convém reter que o termo Eklesia é muito anterior à noção de capitalismo. A Eklesia data do século V AC. A Igreja só viria a estabelecer-se em Roma cerca de mil anos depois. Finalmente, o sistema capitalista só a partir dos séculos XIV e XV se foi definindo, já era então o Papa autoridade suprema à qual obedeciam reis e imperadores.

Os primeiros papas, através da intriga diplomática, das alianças dinásticas e das famosas guerras da «Reconquista Cristã», tinham acumulado tesouros imensos, de certo modo herdados das rapinas do império romano. Porém, no Ocidente, entre as populações, o dinheiro era escasso ou inexistente e grande parte das terras permanecia ao abandono. Não havia suficientes navios mercantes e de pesca, nem linhas marítimas seguras para o escoamento da produção. Alternativas possíveis, nessa altura, implicariam enormes investimentos.

Brasil : Presidente Rousseff declara guerra à classe trabalhadora

O Brasil e a política do neoliberalismo
Presidente Rousseff declara guerra à classe trabalhadora
por James Petras

"A tarefa de Levy de reconcentrar rendimento, ascender lucros e reverter políticas sociais será muito mais árdua em 2014-2015 do que foi em 2003-2005. Principalmente porque, anteriormente, ele estava simplesmente a continuar as políticas do regime Cardoso – e Lula prometeu aos trabalhadores que isso era apenas temporário. Hoje Levy deve cortar e retalhar ganhos que os trabalhadores e os pobres consideravam como garantidos. De facto, em 2013-2014 movimentos de massa urbanos pressionavam por maiores despesas sociais em transportes, educação e saúde.

Para a terapia de choque de Levy avançar, em algum ponto será necessária repressão, como foi o caso no Chile e na Europa do Sul quando políticas de austeridade semelhantes deprimiram rendimentos e multiplicaram o desemprego. "
A classe trabalhadora brasileira está a enfrentar o mais selvagem assalto aos seus padrões de vida em mais de uma década. E não são apenas os trabalhadores industriais que estão sob ataque. Os trabalhadores rurais sem terra, os empregados assalariados do sector público e privado, professores, profissionais da saúde, desempregados e pobres estão a enfrentar cortes maciços no rendimento, nos empregos e nos pagamentos de pensões. 

Quaisquer que tenham sido os ganhos obtidos entre 2003-2013, serão revertidos. Os trabalhadores brasileiros enfrentam uma "década de infâmia". O regime Rousseff abraçou a política do "capitalismo selvagem" tal como personificado na nomeação de dois dos mais extremos advogados de políticas neoliberais. 

O "Partido dos Trabalhadores" e a ascendência do capital financeiro 

No princípio de Dezembro de 2014, a presidente Rousseff nomeou Joaquim Levy como o novo ministro das Finanças – de facto o novo czar económico para dirigir a economia brasileira. Levy é um importante membro da oligarquia financeira brasileira. Entre 2010-2014 foi presidente do Bradesco Asset Management, um braço de gestão de activos do gigantesco conglomerado Bradesco que administra mais de 130 mil milhões de dólares. Desde os seus tempos de doutoramento na Universidade de Chicago, Levy é um leal seguidor do supremo neoliberal, o professor Milton Friedman, antigo conselheiro econômico do ditador militar chileno Augusto Pinochet. Como antigo responsável de topo no Fundo Monetário Internacional (1992-1999), Levy foi um forte advogado de duros programas de austeridade os quais uma década depois empobreceram o Sul da Europa e a Irlanda. 

Jornalismo em tempos macabros

Jornalismo em tempos macabros
O horror como mercadoria noticiosa

"Exercer o trabalho jornalístico com a razão anestésica como editorial oculta, é traficar a ideologia do amo à custa, inclusivamente, dos interesses laborais do “jornalista”. Convertem-se em serventes de uma máquina de guerra ideológica que elimina toda a possibilidade de entendimento crítico sobre as barbaridades que ocorrem e sobre as barbaridades com que se “informa” o “público”, o “consumidor” ou a “audiência”. Nunca falam de igual para igual a um interlocutor igual. Mas fazem-se “objectivos”, “neutros”… põem cara “inocente” e defendem como feras o seu “direito” a travestir-se como seres informativos “autónomos” ou “independentes”. Tudo falácias de mercado com que se domestica uma massa de profissionais que não podem, que não querem e que não se interessam em transformar o mundo que, também a eles, explora e esmaga."
"A isso nos têm acostumado no México, por exemplo. A isso nos têm submetido sem consulta e inclementemente durante décadas e mais décadas. Os monopólios da “informação” atacam os povos diariamente com a sua metralha de mentiras e “notícias” tendenciosas nas quais ninguém se salva, de tal forma se tornou complicada, estrutural e sistémica a lógica de mercantilizar o horror. Como se isso fosse um sucesso profissional. Cada episodio macabro é presa de um embrulho “jornalístico” que avança para arrebanhar o seu pedacinho de gloria “informativa” arrancada das faces da injustiça, da impunidade ou do desamparo social. E passam-no na tele."

Não se trata de uma “novidade” de ocasião, mortos, feridos e desaparecidos – às pazadas - são uma constante da paisagem macabra orquestrada pela obstinação assassina do capitalismo para se apropriar das riquezas naturais, do trabalho e da consciência de todos os seres humanos. O Apocalipse em “câmara lenta”. São séculos de estultícia e crime convertidos em indústria bélica santificados, além do mais, pelos bancos e por um empresariado global cúmplice contumaz de assassínios massivos e impunes. É o capitalismo e a sua sede de barbárie. É isso uma noticia nova? Salvem-se as excepções que possam salvar-se.

Na sua maioria mais esmagadora, as indústrias da notícia têm sido também comparticipantes do crime cometido pelo capitalismo, porque cumpriram com o seu papel enquanto assassinas públicas da verdade. Apesar do seu “prestígio” autoproduzido, de se auto-premiarem e auto-aplaudirem; de que se digam “decanas do jornalismo”, “paradigmas da objectividade” e do bom juízo informativo… o certo é que um resumo em perspectiva sobre o papel da imprensa nos séculos que o capitalismo leva depredando o mundo é realmente vergonhoso. Uma vergonha nutrida por episódios infinitos de corrupção, conivência criminosa e serviçalidade mercantil perante o “delito de lesa humanidade” que é saquear, explorar e alienar os povos.

E uma das piores consequências dessa “indústria da notícia” baseada em mentir, com formas sofisticadas, consiste em fabricar “escolas” (em todos os seus sentidos), em espargir os seus germes ideológicos entre um séquito de “jornalistas” acríticos, mansos e servis, que rastejam por todo o planeta gerando metástases da sua estultícia e do seu servilismo jornalístico. Orientam cátedras, publicam livros, enciclopédias e manuais, promovem ateliers, seminários e colóquios. Tudo isso enquanto ocorrem os crimes do capitalismo, as suas fraudes políticas, os roubos dos banqueiros, os saques das empresas transnacionais e o extermínio lento e extenso da classe trabalhadora sob o peso descomunal da “legalidade” burguesa. Na imprensa nem uma palavra. Muitos dos que saem das escolas do jornalismo burguês exibem com orgulho as cicatrizes do seu cérebro onde foram obturadas todas as capacidades críticas. Uma monstruosidade com títulos universitários para aparecer na “tele” dos seus amos.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Obama, cinco anos de crimes com o Nobel da Paz nas mãos

Obama, cinco anos de crimes com o Nobel da Paz nas mãos
Fonte:  RT  -  [Tradução do Diário Liberdade]




"Ultimamente, a retórica agressiva contra a Rússia é cada vez mais frequente nos discursos de Obama. Assim, o presidente dos EUA tenta apresentar a Rússia como "um dos maiores perigos que afronta a comunidade internacional". Ao mesmo tempo, a OTAN se aproxima cada vez mais das fronteira com a Rússia. "É a OTAN e não a Rússia quem tem bases militares por todo o planeta", indicou o presidente russo Vladimir Putin em uma recente entrevista. A tática de Obama de pressionar a Rússia por meio de sanções econômicas tampouco parece ser muito amistosa."
Cinco anos atrás o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi presenteado com o Prêmio Nobel da Paz. Desde então, os EUA bombardearam sete países, armaram o Estado Islâmico e provocaram conflitos militares em vários países.

Em dezembro de 2009, apenas dois meses após se converter em nobel da paz, Obama ordenou reforçar a presença dos EUA no Afeganistão com 30 mil soldados. Ainda que desde 1942 os EUA não tenha declarado nenhuma guerra, isso não o impediu de atacar e invadir outros países. Durante a presidência de Obama, as forças dos EUA bombardearam os territórios de Afeganistão, Líbia, Somália, Paquistão, Iêmem, Iraque e Síria.

Primavera Árabe

Washington orquestrou a Primavera Árabe na Líbia e na Síria, segundo vários especialistas. O politólogo francês Thierry Meyssan revelou o importante papel do senador John McCain durante o início da primavera árabe, assim como sua relação com uma milícia do Estado Islâmico. Meyssan sugere que McCain não é o líder da oposição política nos EUA, mas um alto funcionário que trabalha para o Governo desse país. Segundo o historiador estadunidense Robert W. Merry, os EUA criaram com suas próprias mãos a oportunidade para que o inimigo real – islamistas radicais empenhados em atacar o Ocidente – obtivesse tanto poder.

Líbia

Os EUA, sob o mandato de Obama, conseguiu deixar seu rastro de destruição na Líbia, onde a partir de março de 2011 participou de uma operação militar para derrubar o ex-líder líbio Muammar Gadafi. Como resultado, o mandatário líbio foi assassinado sob falácias democráticas, o que marcou o começo de um período de instabilidade e de luta armada pelo poder na Líbia e desembocou na desintegração efetiva do país e no crescimento do islamismo e do tribalismo.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Brasil - BOLSONARO: O CÔNEGO E O MYRAMEMBECA

BOLSONARO: O CÔNEGO E O MYRAMEMBECA
por José Ribamar Bessa Freire


"Nos últimos anos, Bolsonaro atacou mulheres, sempre mulheres, no melhor estilo Myramembeca. Diferente do pedreiro de Manaus, o deputado não faz isso escondido num porão, mas da tribuna do Congresso com um salário que é pago por nós, contribuintes. Resta saber as razões pelas quais ele odeia mulheres, um assunto que deixa de ser privado quando aflora num discurso público. 
No caso do Mauro Chibé, tudo ficou esclarecido a partir de uma pista dada por Wundt, criador do laboratório do Instituto Experimental de Psicologia da Universidade de Leipzig. Dona Odaléa, então professora de Psicologia no Instituto de Educação do Amazonas, vidrada em Wundt, sugere que os apelidos são indicativos do caráter e da psique humana e animal.

Por isso, ela procurou o significado de Myramembeca e não hesitou em diagnosticar a virulência de Mauro Chibé contra as mulheres como resultado de sua impotência sexual. O cara era brocha."

O mistério só foi decifrado quando a psicóloga Odaléa Frazão descobriu o significado de "myramembeca". Até então ninguém sabia porque a alma do Cônego aterrorizava exclusivamente o mulherio, jamais os homens, quando vagava - segundo diziam - pelos corredores e salas de aula. Várias alunas do curso noturno, muitas delas empregadas domésticas, contaram à polícia que no momento em que faziam xixi no banheiro uma voz cavernosa e mefistofélica vinda não se sabe de onde ameaçava com absoluta clareza:

- Mijoooona! Estou vendo tua xoxota cabeluuuda! Vou comer eeela!

Alucinação? Isso acontecia uma ou duas vezes por mês, sempre à noite, no banheiro feminino com a porta fechada. As agredidas interrompiam a mijada e saíam em disparada humilhante, calcinha nas mãos, perseguidas por palavras que reverberavam em zigue-zague como se surfassem numa onda sonora. Por causa disso, de puro medo, o xixi passou a ser feito em patota. Era o "bonde do mijo". Mesmo assim, como a voz continuou atacando, foi possível registrar o testemunho coletivo, desfazendo qualquer dúvida sobre possível histeria das mulheres. A voz existia mesmo.

Com medo, várias alunas abandonaram os estudos, outras pediram transferência dali, dando adeus ao GECA - Grupo Escolar Cônego Azevedo, um prédio antigo e mal-assombrado com porão, duas palmeiras na frente e um pé de mandacaru, situado à Rua Xavier de Mendonça, Bairro de Aparecida, Manaus. O nome é homenagem ao Cônego Joaquim Gonçalves de Azevedo (1814-1879), que foi diretor geral da Instrução Pública na Província do Amazonas e depois bispo de Goiás, Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil.

Gruta-do-amor

Por que um ilustre membro da hierarquia católica faria uma maldade dessas com as mulheres? Mistério. A zeladora do GECA, Maria Tapuia, antes de pedir demissão disse convicta - "a voz é dele" - apontando o retrato a óleo do Cônego pendurado na parede do salão nobre, todo paramentado, com um anelão no dedo. "Só pode ser dele" - confirmou sua substituta Geny Coruja, observando que os olhos autoritários e desorbitados do Cônego pareciam seguir as pessoas em qualquer canto da sala que estivessem.

O irrespirável ar da América

O irrespirável ar da América
por António Santos

"O ar da América tornou-se irrespirável porque o racismo está profundamente institucionalizado e dele depende o funcionamento da economia: em comparação à população branca, a taxa de desemprego dos negros e o seu nível de pobreza são três vezes mais elevados; a taxa de encarceração é sete vezes superior; os afro-americanos vivem em média menos 10 anos que os brancos e são afectados pelo dobro da percentagem de abandono escolar. "
" Na atmosfera democraticamente rarefeita dos EUA persiste a segregação legal, a discriminação institucional e o racismo estrutural. É uma doença que não se cura com panaceias verbais nem paliativos legais. O racismo (enquanto actual opressão sistémica) nasceu com o capitalismo e não poderá desaparecer enquanto um homem explorar outro homem."

«Não consigo respirar» Eric Garner repetiu em vão. Os olhos do mundo inteiro assistiram, atônitos de indignação e repulsa, ao vídeo da execução pública de um homem negro pela polícia de Nova Iorque. O disco é velho e toca sempre o mesmo: uma vez mais, o sistema judicial estado-unidense decidiu não julgar a polícia pelo estrangulamento de Garner, acusado postumamente de fugir aos impostos na venda de cigarros avulso. 

Nos EUA, onde empresas multi-bilionárias como a General Electric, a Bristol-Meyers Squibb ou a Verizon são aplaudidas por não pagarem um dólar de impostos, a suspeita de vender cigarros não taxados serve de pretexto para matar um negro. Mas as mais de 500 000 pessoas que esta semana inundaram as ruas de todas as grandes cidades dos EUA não protestam apenas contra o racismo e a brutalidade policial. É o capitalismo estado-unidense que se senta no banco dos réus: se a América não acusa os assassinos do povo, o povo acusa a América. No maior movimento de massas que os EUA conheceram em mais de uma década, os trabalhadores estado-unidenses fazem suas as palavras de Eric Garner: também eles não conseguem respirar.

Sobre a mulheridade e a opressão

Sobre a mulheridade e a opressão
por Elaine Tavares

"Vivo mulheridade. As fases lunares, as delicadezas, a ternura, a emoção, o desejo de esmaltes e batons. Vivo a mulheridade na forma de estar no mundo, sem oprimir quando com poder. Uso e abuso das dessemelhanças. Na luta das mulheres quando necessário, feminina todos os dias. Assim, como a centopeia antes de saber dos pés. Sendo mulher. E nesse passo cadenciado, vou carregando os tijolos da construção da sociedade justa, sem discriminação, sem preconceito, sem violência. Esse mundo no qual nem o homem nem a mulher sejam lobos de si mesmos. Essa utopia... Vivo a mulheridade, sempre, mas sem esquecer de onde eu venho nem a classe a qual pertenço. Essa é a minha opção!"

Nunca me vi discriminada ou oprimida por ser mulher. Na família, jamais. Desde pequena, mergulhada no mundo dos livros, aprendi que para conquistar os sonhos que brotavam na cabeça, o que tinha de fazer era levantar e agir. A condição feminina não me colocava limite para a luta política, o estudo, o trabalho, nada. Fazia o que tinha de fazer. Com 20 anos fui trabalhar na televisão. Espaço masculino. Ali – eu não sabia – a mulher, ou era capacho, ou era puta. Eu, nem uma coisa, nem outra. Meu negócio era trabalhar. Repórter, viajando pelos caminhos com uma equipe de homens, jamais percebi um olhar de soslaio. Não havia. Na firmeza, eu cavava meu lugar.

Talvez por conta disso, naqueles dias de juventude, as lutas feministas não me atraíssem. Primeiro, porque eu sempre acreditei que as questões referentes à mulher tinham de caminhar junto com a luta de classe. Mesmo a liberdade sexual, da qual usufruí sem nunca pensar sobre ela, me parecia um tema desnecessário. Via mais as coisas pela ótica do Malleus Maleficarum – O Martelo das Feiticeiras – livro que marcou minha vida – o qual narrava os horrores da inquisição com as mulheres chamadas de feiticeiras por ousarem ter poder no mundo dos homens, do que pelo Relatório Hite – famoso livro que teorizava sobre o orgasmo feminino.

Carta aberta do Comandante das FARC ao General Alzate

Carta aberta do Comandante das FARC ao General Alzate
Escrito por Timoleón Jiménez - Timoshenko


"Interesses alheios a nossa realidade, como a guerra fria, impuseram a doutrina de segurança nacional às forças armadas colombianas, com suas correspondentes sequelas de violações aos direitos humanos e o levante armado, situação que se agravou ainda mais com a imposição das chamadas guerras contra as drogas e o terrorismo, que não eram nem de perto nossas.

É fato comprovado que a noção de narco-guerrilhas, idealizada pelo embaixador norte-americano Lewis Tambs, em 1984, quando vinculou sem o menor respaldo comprobatório as FARC ao famoso complexo de cocaína de Tranquilandia, não tinha outro propósito que dissimular a aliança entre o Pentágono, a CIA e as máfias colombianas para fornecer armas contra a Nicarágua.

Porém, ainda que o próprio Congresso estadunidense tenha descoberto e publicado a trama que vinculava o governo de Ronald Reagan e Lewis Tambs aos cartéis de Medellín e Cali, em uma suja negociata que enriqueceu extremamente personagens, como Gonzalo Rodríguez Gacha e Pablo Escobar, foram as FARC que terminaram carregando a famosa difamação."

A grande imprensa e o anedotário colombiano, cada dia mais assimiláveis por obra do monopólio na propriedade das grandes mídias, frequentemente constroem frases altissonantes com relação ao conflito colombiano. Agora a moda é aquela que, fazendo relação com seu caso, fala do primeiro general em serviço ativo que cai nas mãos das FARC em cinquenta anos de guerra.

Trata-se de um caso excepcional e raríssimo, ainda que também possa indicar que a profundidade do confronto começa a afetar as mais altas hierarquias do comando militar, algo impensável até agora. É claro que esta última interpretação não resulta do agrado do Estabelecimento, que prefere atribuir o fato ao azar ou, inclusive, a sua negligência pessoal.

O primeiro a fazê-lo, curiosamente, foi o Presidente Santos, talvez afetado pelo fato do senador Uribe ter se encarregado de publicar a notícia. Antes de expressar algum tipo de preocupação pela vida ou pela liberdade de um general da República, tinha que exigir explicações sobre seus motivos para estar expondo-se de tal modo.

Sem reparar que dito questionamento colocava em evidencia uma verdade inocultável. Ninguém que baixe a guarda um segundo, nem sequer o comandante de uma força multidisciplinar de combate, ainda em meio a sua área de operações, se encontra a salvo de uma ação da guerrilha na Colômbia. Mensagem desalentadora à confiança dos investidores.

EUA: Crime... e depois?

Crime... e depois?
por Anabela Fino



"Ser «suspeito» em qualquer parte do mundo, seja pela cor da pele, pela religião, pelas ideias tornou-se uma via aberta para a prisão, para a tortura, para a morte. Os EUA – patrocinadores de instâncias judiciais a que não se submetem, como é o caso do Tribunal Penal Internacional – criaram a prisão de Guantánamo em território ocupado de Cuba e transformaram-na numa terra sem lei para tratar os presos com total impunidade. Sabendo que as convenções de Genebra consagram direitos elementares, decidiram que as mesmas não se aplicavam aos «seus» presos, assim destituídos da condição humana, pelo que ficaram com as mãos livres para todos os crimes. E cometeram-nos. Como já o haviam feito em Abu Ghaib, no Iraque, ou no Afeganistão, ou onde quer que seja que chegue o longo braço da CIA."



O relatório divulgado anteontem pela Comissão para os Serviços de Informações do Senado dos Estados Unidos confirma o que já se sabia e que alguns – em contra corrente à opinião publicada – não se cansam de repetir: a CIA não olha a meios para atingir os seus fins. Dito de outro modo, os EUA, de que a CIA é parte intrínseca, espiam, mentem, prendem, torturam, invadem, matam seja quem for e onde for para atingir os seus objectivos.

O relatório agora vindo a público, uma versão censurada do documento original de 6300 páginas que resultou da investigação levada a cabo durante cinco anos, é ele próprio um testemunho da verdadeira face da política norte-americana tanto pelo que diz como sobretudo pelo que oculta, ou seja por aquilo que o veto neste caso dos republicanos, em maioria no Senado – tal como já fizeram os democratas – impediu de vir à luz do dia.

As prisões indiscriminadas levadas a cabo depois dos ataques terroristas do 11 de Setembro, que também serviram de pretexto, é bom lembrar, para cercear liberdades e garantias ao povo norte-americano, violaram todas as leis que caracterizam os estados de Direito, incluindo naturalmente os EUA. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Os capitalistas já votaram e escolheram o Podemos

Os capitalistas já votaram e escolheram o Podemos
por Marat



"O Podemos espanhol começa a assemelhar-se a outras coisas já vistas, nomeadamente com o Syriza grego: partidos que cavalgam movimentos sociais inorgânicos, construídos à volta de uma figura intensamente promovida mediaticamente, com o rótulo de “radicais” e exteriores ao “sistema”, mas que o mesmo “sistema” acarinha e coopta. Partidos que são contra “os Partidos e contra “as ideologias”. E cujas propostas “radicais” se vão diluindo à medida que lhes acenam com a proximidade do poder."


“Nada revive o passado com tanta força como um odor ao qual esteve alguma vez associado.” (Vladimir Nabokov)


1.- O rastilho, a gasolina e o fogo:

Às vezes somos tentados a bater com a cabeça na parede quando observamos o modo simplista com que muita gente se limita a não descortinar a realidade social, económica e política espanholas mais além de onde chega a ponta do seu nariz. Façam o exercício de olhar o referido apêndice e comprovarão que aquilo que Valle Inclán fazia dizer a um Max Estrella bêbado é muito certo: “Os heróis clássicos reflectidos em espelhos côncavos dão o Esperpento. O sentido trágico da vida espanhola apenas pode apresentar-se por meio de uma estética sistematicamente deformada.”

A realidade da sociedade espanhola já não passa nem pelo olhar crítico da selvagem exploração da classe trabalhadora e pela penosa situação de milhões de desempregados - isso importa pouco no ruído nacional desde há anos -, nem sequer pela mais comedida crítica da crescente desigualdade ou pela visão das limitações das liberdades por parte de um governo liberticida e criminoso que está a criar um Estado totalitário de direito, nem tão pouco por esse mesmo governo que encara o processo soberanista da Catalunha a partir da perspectiva do louco ao qual pouco importa o choque dos comboios desde que a outra parte fracasse e isso lhe dê votos do lado de cá do Ebro.

Não. A única coisa que parece acender a raiva nacional é a corrupção, evidentemente apenas dos políticos que foram corrompidos e não daqueles que os compraram, os seus corruptores: o apodrecido empresariado deste país que, atendendo à sua condição de classe, não ignora que a corrupção é o óleo que lubrifica a engrenagem deste sistema económico ao qual quase ninguém parece opor-se.

Esta não é uma atitude de sucesso. Parece que apenas é indecente o corrupto político mas que quem compra esse político deve sair quase sempre ileso. A corrupção política está associada a centenas de pessoas mas o corruptor económico tem apenas um nome, “a doutrina Botín” e vocês já sabem como aquilo acabou. A ideologia dominante leva a que o pessoal queira triunfar a qualquer preço dentro da iniciativa privada.

A corrupção é a luz ofuscante que encobre qualquer outra realidade nacional: a pobreza de milhões de espanhóis, o subsídio de desemprego esgotado por tanto trabalhador quarentão ou cinquentão que já ficou definitivamente desprovido de futuro, os filhos dos filhos do desamparo que não são universitários amplamente preparados e não terão oportunidades de sair para o estrangeiro porque não adquiriram título académico, nem sabem outras línguas senão a própria, nem tiveram sequer a possibilidade de conhecer por uma primeira vez na sua vida o que é essa coisa chamada trabalho.

A realidade nacional tem na corrupção o rastilho da raiva colectiva. E na demagogia que a converte em quase o único problema de que o país padece encontra a gasolina que faz de acelerador do incêndio. No ambiente de taberna dos meios de manipulação (mass media e redes sociais) o fogo que liga com as anteriores. O que fica menos à vista é a mão dos poderes fácticos que maneja o rastilho incendiário: o poder económico em primeiro lugar e outros que seguramente não são já a Igreja nem o exército porque perderam influência na pirâmide do próprio poder mas que constituem a mão invisível que embala o berço. Deixo a sua identificação ao vosso critério.