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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A solução é o socialismo


A solução é o socialismo

A intervenção do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia nas finanças públicas da Irlanda é considerada pelo Sinn Fein, como «a prova clara do fracasso absoluto» das políticas capitalistas do governo de centro direita, apoiado pelo Fianna Fáil.

Fergal Moore, vice-presidente do Sinn Fein, alerta em comunicado que «o FMI e os funcionários da UE vão criar una ditadura capitalista sem nenhuma fachada de democracia».
Denunciando os cortes massivos no sector público, novos impostos e a venda do que resta do património do Estado, o Sinn Fein considera que «a solução dos problemas económicos actuais é a criação de uma nova Irlanda, baseada nos princípios socialistas, com todas as instituições bancárias e financeiras sob controlo social».

«Só com a destruição do actual sistema baseado na agiotagem, no clientelismo e na demagogia da classe capitalista, será possível a construção de uma Irlanda que valorize realmente todos os seus filhos por igual. Só uma solução socialista será capaz de resolver este problema causado pelo capitalismo».

Texto original em http://www.avante.pt/pt/1930/europa/111441/

Uma guerra pela regeografização do Rio de Janeiro. Entrevista especial com José Cláudio Alves



Uma guerra pela regeografização do Rio de Janeiro.


Entrevista especial com José Cláudio Alves

“O que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade”. Assim descreve o sociólogo José Cláudio Souza Alves a motivação principal dos conflitos que estão se dando entre traficantes e a polícia do Rio de Janeiro. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, o professor analisa a composição geográfica do conflito e reflete as estratégias de reorganização das facções e milícias durante esses embates. “A mídia nos faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada nisso – que há uma luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública e a polícia do Rio de Janeiro e o mal são os traficantes que estão sendo combatidos. Na verdade, isso é uma falácia. Não existe essa realidade. O que existe é essa reorganização da estrutura do crime”, explica.

José Cláudio Souza Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e membro do Iser Assessoria.


Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que está por trás desses conflitos atuais no Rio de Janeiro?
José Cláudio Alves – O que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade. Isso já vem se dando há algum tempo e culminou na situação que estamos vivendo atualmente. Há elementos presentes nesse conflito que vêm de períodos maiores da história do Rio de Janeiro, um deles é o surgimento das milícias que nada mais são do que estruturas de violência construídas a partir do aparato policial de forma mais explícita. Elas, portanto, controlarão várias favelas do RJ e serão inseridas no processo de expulsão do Comando Vermelho e pelo fortalecimento de uma outra facção chamada Terceiro Comando.

Há uma terceira facção chamada Ada, que é um desdobramento do Comando Vermelho e que opera nos confrontos que vão ocorrer junto a essa primeira facção em determinadas áreas. Na verdade, o Comando Vermelho foi se transformando num segmento que está perdendo sua hegemonia sobre a organização do crime no Rio de Janeiro. Quem está avançando, ao longo do tempo, são as milícias em articulação com o Terceiro Comando.

Um elemento determinante nessa reconfiguração foi o surgimento das UPPs a partir de uma política de ocupação de determinadas favelas, sobretudo da zona sul do RJ. Seus interesses estão voltados para a questão do capital do turismo, industrial, comercial, terceiro setor, ou seja, o capital que estará envolvido nas Olimpíadas.

Então, a expulsão das favelas cariocas feita pelas UPPs ocorre em cima do segmento do Comando Vermelho.

Por isso, o que está acontecendo agora é um rearranjo dessa estrutura. O Comando Vermelho está indo agora para um confronto que aterroriza a população para que um novo acordo se estabeleça em relação a áreas e espaços para que esse segmento se estabeleça e sobreviva.

IHU On-Line – Mas, então, o que está em jogo?
José Cláudio Alves – Não está em jogo a destruição da estrutura do crime, ela está se rearranjando apenas. Nesse rearranjo quem vai se sobressair são, sobretudo, as milícias, o Terceiro Comando – que vem crescendo junto e operando com as milícias – e a política de segurança do Estado calcada nas UPPs – que não alteraram a relação com o tráfico de drogas.

A mídia nos faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada nisso – que há uma luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública e a polícia do Rio de Janeiro e o mal são os traficantes que estão sendo combatidos.

Na verdade, isso é uma falácia. Não existe essa realidade. O que existe é essa reorganização da estrutura do crime. A realidade do RJ exige hoje uma análise muito profunda e complexa e não essa espetacularização midiática, que tem um objetivo: escorraçar um segmento do crime organizado e favorecer a constelação de outra composição hegemônica do crime no RJ.

IHU On-Line – Por que esse confronto nasceu na Vila Cruzeiro?
José Cláudio Alves – Porque a partir dessa reconfiguração que foi sendo feita das milícias e das UPPs (Unidades de Policiamento Pacificadoras), o Comando Vermelho começou a estabelecer uma base operacional muito forte no Complexo do Alemão. Este lugar envolve um conjunto de favelas com um conjunto de entradas e saídas.

O centro desse complexo é constituído de áreas abertas que são remanescentes de matas. Essa estruturação geográfica e paisagística daquela região favoreceu muito a presença do Comando Vermelho lá. Mas se observarmos todas as operações, veremos que elas estão seguindo o eixo da Central do Brasil e Leopoldina, que são dois eixos ferroviários que conectam o centro do RJ ao subúrbio e à Baixada Fluminense. Todos os confrontos estão ocorrendo nesse eixo.

IHU On-Line – Por que nesse eixo, em específico?
José Cláudio Alves – Porque, ao longo desse eixo, há várias comunidades que ainda pertencem ao Comando Vermelho.

Não tão fortemente estruturadas, não de forma organizada como no Complexo do Alemão, mas são comunidades que permanecem como núcleos que são facilmente articulados.

Por exemplo: a favela de Vigário Geral foi tomada pelo Terceiro Comando porque hoje as milícias controlam essa favela e a de Parada de Lucas a alugam para o Terceiro Comando.

Mas ao lado, cerca de dois quilômetros de distância dessa favela, existe uma menor que é a favela de Furquim Mendes, controlada pelo Comando Vermelho. Logo, as operações que estão ocorrendo agora em Vigário Geral, Jardim América e em Duque de Caxias estão tendo um núcleo de operação a partir de Furquim Mendes.

O objetivo maior é, portanto, desmobilizar e rearranjar essa configuração favorecendo novamente o Comando Vermelho.Então, o combate no Complexo do Alemão é meramente simbólico nessa disputa. Por isso, invadir o Complexo do Alemão não vai acabar com o tráfico no Rio de Janeiro.

Há vários pontos onde as milícias e as diferentes facções estão instaladas. O mais drástico é que quem vai morrer nesse confronto é a população civil e inocente, que não tem acesso à comunicação, saúde, luz... Há todo um drama social que essa população vai ser submetida de forma injusta, arbitrária, ignorante, estúpida, meramente voltada aos interesses midiáticos, de venda de imagens e para os interesses de um projeto de política de segurança pública que ressalta a execução sumária.

No Rio de Janeiro a execução sumária foi elevada à categoria de política pública pelo atual governo.


IHU On-Line – Em que contexto geográfico está localizado a Vila Cruzeiro?
José Cláudio Alves – A Vila Cruzeiro está localizada no que nós chamamos de zona da Leopoldina. Ela está ao pé do Complexo do Alemão, só que na face que esse complexo tem voltada para a Penha. A Penha é um bairro da Leopoldina.

Essa região da Leopoldina se constituiu no eixo da estrada de ferro Leopoldina, que começa na Central do Brasil, passa por São Cristóvão e dali vai seguir por Bom Sucesso, Penha, Olaria, Vigário Geral – que é onde eu moro e que é a última parada da Leopoldina e aí se entra na Baixada Fluminense com a estação de Duque de Caxias.

Esse “corredor” foi um dos maiores eixos de favelização da cidade do Rio de Janeiro. A favelização que, inicialmente, ocorre na zona sul não encontra a possibilidade de adensamento maior. Ela fica restrita a algumas favelas. Tirando a da Rocinha, que é a maior do Rio de Janeiro, os outros complexos todos – como o da Maré e do Alemão – estão localizados no eixo da zona da Leopoldina até Avenida Brasil.

A Leopoldina é de 1887-1888, já a Avenida Brasil é de 1946. É nesse prazo de tempo que esse eixo se tornou o mais favelizado do RJ. Logo, a Vila Cruzeiro é apenas uma das faces do Complexo do Alemão e é a de maior facilidade para a entrada da polícia, onde se pode fazer operações de grande porte como foi feita na quinta-feira, dia 25-11.

No entanto, isso não expressa o Complexo do Alemão em si. A Maré fica do outro lado da Avenida Brasil. Ela tem quase 200 mil habitantes. Uma parte dela pertence ao Comando Vermelho, a outra parte é do Terceiro Comando. Por que não se faz nenhuma operação num complexo tão grande ou maior do que o do Alemão? Ninguém cita isso! Por que não se entra nas favelas onde os o Terceiro Comando está operando? Porque o Terceiro Comando já tem acordo com as milícias e com a política de segurança.

Por isso, as atuações se dão em cima de uma das faces mais frágeis do Complexo do Alemão, como se isso fosse alguma coisa significativa.

IHU On-Line – Estando a Vila Cruzeiro numa das faces do Complexo, por que o Alemão se tornou o reduto de fuga dos traficantes?
José Cláudio Alves – A estrutura dele é muito mais complexa para que se faça qualquer tipo de operação lá. Há facilidade de fuga, porque há várias faces de saída. Não é uma favela que a polícia consegue cercar. Mesmo juntando a polícia do RJ inteiro e o Exército Nacional jamais se conseguiria cercar o complexo.

O Alemão é muito maior do que se possa imaginar. Então, é uma área que permite a reorganização e reestruturação do Comando Vermelho.

Mas existem várias outras bases do Comando Vermelho pulverizadas em toda a área da Leopoldina e Central do Brasil que estão também operando.

Mesmo que se consiga ocupar todo o Complexo do Alemão, o Comando Vermelho ainda tem possibilidades de reestruturação em outras pequenas áreas.

Ninguém fala, por exemplo, da Baixada Fluminense, mas Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo são áreas que hoje estão sendo reconfiguradas em termos de tráfico de drogas a partir da ida do Comando Vermelho para lá.

Por exemplo, um bairro de Duque de Caxias chamado Olavo Bilac é próximo de uma comunidade chamada Mangueirinha, que é um morro. Essa comunidade já é controlada pelo Comando Vermelho que está adensando a elevação da Mangueirinha e Olavo Bilac já está sentindo os efeitos diretos dessa reocupação. Mas ninguém está falando nada sobre isso.A realidade do Rio de Janeiro é muito mais complexa do que se possa imaginar.

O Comando Vermelho, assim como outras facções e milícias, estabelece relação direta com o aparato de segurança pública do Rio de Janeiro. Em todas essas áreas há tráfico de armas feito pela polícia, em todas essas áreas o tráfico de drogas permanece em função de acordos com o aparato policial

IHU On-Line – Podemos comparar esses traficantes que estão coordenando os conflitos no RJ com o PCC, de São Paulo?
José Cláudio Alves – Só podemos analisar a história do Rio de Janeiro, fazendo um retrospecto da história e da geografia. O PCC, em São Paulo, tem uma trajetória muito diferente das facções do Rio de Janeiro, tanto que a estrutura do PCC se dá dentro dos presídios.

Quando a mídia noticia que os traficantes no Rio de Janeiro presos estão operando os conflitos, leia-se, por trás disso, que a estrutura penitenciária do Estado se transformou na estrutura organizacional do crime.

Não estou dizendo que o Estado foi corrompido. Estou dizendo que o próprio estado em si é o crime. O mercado e o Estado são os grandes problemas da sociedade brasileira.

O mercado de drogas, articulado com o mercado de segurança pública, com o mercado de tráfico de drogas, de roubo, com o próprio sistema financeiro brasileiro, é quem tem interesse em perpetuar tudo isso.

A articulação entre economia formal, economia criminosa e aparato estatal se dá em São Paulo de uma forma diferente em relação ao Rio de Janeiro.

Expulsar o Comando Vermelho dessas áreas interessa à manutenção econômica do capital. O que há de semelhança são as operações de terror, operações de confronto aberto dentro da cidade para reestruturar o crime e reorganizá-lo em patamares mais favoráveis ao segmento que está ganhando ou perdendo.

IHU On-Line – Como o senhor avalia essa política de instalação das UPPs – Unidades de Policiamento Pacificadoras nas favelas do Rio de Janeiro?
José Cláudio Alves – É uma política midiática de visibilidade de segurança no Rio de Janeiro e Brasil.

A presidente eleita quase transformou as UPPs na política de segurança pública do país e quer reproduzir as UPPs em todo o Brasil. A UPP é uma grande farsa. Nas favelas ocupadas pelas UPSs podem ser encontrados ex-traficantes que continuam operando, mas com menos intensidade. A desigualdade social permanece, assim como o não acesso à saúde, educação, propriedade da terra, transporte. A polícia está lá para garantir o não tiroteio, mas isso não garante a não existência de crimes.

A meu ver, até agora, as UPPs são apenas formas de fachada de uma política de segurança e econômica de grupos de capitais dominantes na cidade para estabelecer um novo projeto e reconfiguração dessa estrutura.

IHU On-Line – A tensão no Rio de Janeiro, neste momento, é diferente de outros momentos de conflito entre polícia e traficantes?
José Cláudio Alves – Sim, porque a dimensão é mais ampla, mais aberta. Dizer que eles estão operando de forma desarticulada, desesperada, desorganizada é uma mentira.

A estrutura que o Comando Vermelho organiza vem sendo elaborada há mais de cinco anos e ela tem sido, agora, colocada em prática de uma forma muito mais intensa do que jamais foi visto.

A grande questão é saber o que se opera no fundo imaginário e simbólico que está sendo construído de quem são, de fato, os inimigos da sociedade fluminense e brasileira.

Essa questão vai ter efeitos muito mais venosos para a sociedade empobrecida e favelizada.


É isso que está em jogo agora.


IGREJA CATÓLICA - A NOVA PELE DE CORDEIRO


Igreja Católica- A nova pele de cordeiro


Tem interesse informativo observar-se como a grande «crise do capitalismo» se reflecte na crise paralela que a Igreja atravessa. Todas as grandes referências de cada uma dessas milenares instituições surgem postas em causa. O Poder central mostra-se incapaz de resolver os problemas fundamentais - económicos, financeiros e sociais. Da parte da Igreja, revelam-se as mesmas fragilidades da perda de influência sobre as massas populares, da capacidade eclesiástica de dar respostas aos problemas que o materialismo agnóstico crescentemente suscita e das dificuldades que revela ao tentar refrescar os estilos do clero ou em renovar as estruturas eclesiais.


A identidade (ou a oposição) entre a natureza da intervenção do Estado e a doutrina social da Igreja tem igualmente inegável interesse, sendo certo que no campo das realidades prevalece sempre uma enorme atracção entre as duas. Há dinheiro e há poder. Há experiência política em ambas as partes. Dir-se-ia, pois, existir actualmente terreno fértil para uma unidade de interesses e de objectivos. Mas não.

Se os objectivos são os mesmos – a posse do poder e do dinheiro – o ponto de partida e a procura das tácticas adequadas estão muito desalinhados. Desde os finais dos anos 50, o capitalismo alucinou-se com os seus próprios êxitos. Queimou etapas para mais depressa atingir o sucesso final. Arriscou «tudo por tudo» e fixou metas utópicas. É a história e o ponto actual do capitalismo, da globalização.

A hierarquia da Igreja, pesadamente ortodoxa, deixou-se embalar demasiado tempo pelos seus antiquíssimos sonhos de grandeza e pelos seus bolorentos dogmas, encobertos pelos véus de uma decrépita e desacreditada santidade. Assim se chega aos quadros que se deparam às actuais hierarquias: a Igreja precisa de se «modernizar» mantendo intactas as alianças com o capitalismo e recobrindo-as com uma original e inovadora «pele de cordeiro».

Quanto ao sistema capitalista, apoiado em complexas estruturas financeiras (para as quais «parar é morrer») e senhor de poderosas tecnologias, reconhece agora ter-se precipitado e precisar de efectuar «recuos tácticos». Avançou cedo de mais e cometeu o erro básico de ter triturado a economia produtiva. Por outro lado, foi pouco hábil no encobrimento da teologia da santificação do lucro e do dinheiro. Julgou poder dispensar o «ópio do povo» tradicional. Erros de palmatória que terá de corrigir urgentemente, se puder. Ficando bem claro que o que se pretende não é «retirar» mas apenas «realinhar». Mudam-se os comparsas, mudam-se os cenários: políticas e objectivos serão exactamente os mesmos.

As contra-ofensivas bem ordenadas

Do lado da Igreja, já as mudanças tácticas começam a revelar-se nos discursos oratorianos. Não há tempo a perder. O clero, «perito em humanidades» e forte em verbo divino, começa por aí a anunciada «transfiguração». Vamos começar a ouvir os bispos a falarem «linguagem de esquerda».Vamos ver padrões do património popular das lutas pela liberdade serem manipulados para veicularem melhor o caos dos padrões da «sociedade civil», do perdão fraterno, da solidariedade cristã, da filantropia dos ricos ou das virtudes teologais. A nuvem negra da exploração do homem pelo homem permanecerá oculta, para melhor desferir depois os seus raios destruidores. Como por magia, o FMI, o Banco Europeu, as centrais patronais, a NATO, a banca ou as Bolsas, transformar-se-ão em catedrais onde os anjos entoam
coros em louvor da paz, da justiça, da liberdade e do progresso. E, tocadas pela «revelação», as grandes fortunas pessoais irão acelerar a sua corrida à filantropia e investir o seu dinheiro na terra de missão que é o «combate à pobreza».

Nesta fase inicial, os bispos portugueses saltam a sua tradicional «barreira de silêncio» e começam a surgir como agitadores político-sociais das lutas de classes: o modelo económico em curso é «indecente» e as altas retribuições a quadros do Estado, «exorbitantes»; o Orçamento do Estado 20l1 consagra graves injustiças sociais; os pobres não são prioridade para o actual Governo; etc. Toda esta verbosidade escorre pelos moldes tradicionais da igreja, através de acusações genéricas que não implicam fundamentação nem identificação precisa de vítimas e culpados, ambiguamente, e com uma porta sempre entreaberta para todos os corredores.
Pior, ainda: permitem-se insinuar que a hierarquia da Igreja não tem informação sobre o que se passa nas esferas do poder e não tem culpas, ela também, em tudo quanto se passou, passa e virá a passar-se em Portugal!...


A culpa morre solteira.



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A memória histórica como campo da luta de classes (1ª parte)



A memória histórica como campo da luta de classes (1ª parte)


Por Augusto Buonicore





Se perguntássemos para qualquer pessoa comum o que é história, ela rapidamente nos diria: É algo que trata de fatos e personagens que existiram num passado mais ou menos distante. Estes três elementos (fatos, personagens e passado), sem dúvida, entrariam em duas de cada três definições do que seria História. E, ao referir-se ao passado, pensavam-na como uma coisa morta, que nada poderia nos dizer e, muito menos, nos ensinar sobre o presente.

Não é sem razão que no interior das salas de aula a história muitas vezes foi tida como uma disciplina chata. Isto se deu especialmente devido a pouca relação estabelecida entre o que era ministrado e os problemas concretos vividos pelos alunos. Não existia qualquer convicção de que o aprendizado da história pudesse ajudá-los desvendar e, principalmente, transformar o mundo em que viviam.

O problema é que o passado do historiador não deveria ser – e não é - algo morto, como o fóssil de um dinossauro encravado numa rocha ou exposto num museu. Os fatos, como uma espécie de matéria-prima da história, não são coisas mortas que apenas devem ser coletados e colocados numa seqüência rigorosamente cronológica.

Repito, não é possível estudar uma comunidade humana e seu desenvolvimento histórico como se fosse uma colméia ou um conglomerado de rochas. Estranhamente, este passado continua vivendo e produzindo seus efeitos sobre nós e é, justamente, por isso que deve ser estudado e melhor compreendido.

No caso das ciências humanas – ao contrário das ciências naturais e exatas – não há uma muralha da China separando o objeto a ser estudado (as sociedades) e o sujeito que o estuda (o historiador, o sociólogo etc.), mesmo tratando-se do estudo de agrupamentos que viveram há milhares de anos.

Para os antigos historiadores, de tendência positivista, os fatos eram como coisas brutas. Eles estavam permanentemente atrás dos fatos puros, duros e irretorquíveis.

Contra os fatos não há argumentos, gostavam de dizer. Contudo, os fatos não falam por si mesmos, como afirma o senso comum positivista. Segundo o historiador inglês Edward Carr, “os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vem à cena e em que ordem e em que contexto”. E conclui: “A convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem objetiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de ser erradicada”.

No entanto, o historiador que se propõe fazer perguntas ao passado não é um ser desencarnado, separado do mundo. Ele é membro de uma determinada sociedade, de uma determinada época, de uma determinada classe social. Ele se encaixa no interior de determinadas ideologias e perspectivas teórico-metodológicas, que, na maioria das vezes, têm um forte sentido classista. Portanto, o historiador não é neutro diante dos conflitos e dos problemas que aparecem à sua frente durante a pesquisa que realiza.

É sua situação no mundo que determina as perguntas e as escolhas cotidianas que faz. Isto, é claro, vai direcionar as respostas que ele procura encontrar. Um historiador liberal-burguês, por exemplo, jamais colocaria a questão: De onde vem a exploração do trabalho? Para ele, o conceito exploração nada teria de científico, não passaria de uma excrescência ideológica - invenção de alguns socialistas inconformados.

A história não é a simples catalogação neutra de fatos ocorridos no passado. A missão dos historiadores é relacioná-los numa totalidade concreta (processo histórico) e, principalmente, interpretá-los. E a interpretação sempre tem por base determinada teoria ou ideologia. A partir dos mesmos fatos podemos construir várias e contraditórias interpretações.

O historiador marxista tem como objetivo fornecer uma explicação coerente das origens e desenvolvimento das sociedades humanas em suas diversas dimensões. Compreender as inúmeras transformações por que elas passaram. As mudanças sociais devem ser, em última instância, os verdadeiros objetos da história.

As sociedades humanas – como tudo no universo - estão num constante movimento. Elas nascem, desenvolvem-se - conhecem várias fases – e depois fenecessem. Estas transformações podem se dar lentamente – quase imperceptíveis - ou de maneira abrupta, como ocorre nas guerras e nas explosões revolucionárias.

Mas, qual é o motor dessas permanentes mudanças? São as contradições existentes no seio de cada sociedade, que se traduzem naquilo que os marxistas chamaram de lutas de classes.

Por que os trabalhadores devem conhecer a história?

Em todas as comunidades humanas existe um combate surdo pela memória. Este combate faz parte de uma luta ainda maior que é a travada pela conquista da hegemonia. Em outras palavras, a história é um espaço no qual grupos sociais se enfrentam para decidir qual deles dirigirá os rumos da nação e mesmo do planeta.

Por isso, as classes dominantes sempre procuraram reconstruir o passado para, no presente, justificar sua própria dominação. Os líderes das nações imperialistas também buscaram se utilizar da chamada história universal para justificar a dominação e a exploração que exerciam sobre outros povos, considerados inferiores.

Vejamos alguns exemplos extremos destas tentativas: os faraós do Egito foram transformados em filhos diletos do Deus Rá, alguns governantes gregos e romanos também foram transformados em descendentes de deuses e heróis olímpicos. Para justificar a escravidão africana, os negros foram considerados descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé. Deveriam pagar, através da servidão, pelos pecados de seus antepassados. Estes são apenas exemplos mais descarados da reconstrução mítica da história feita pelos membros das classes proprietárias no poder e seus escribas. Existem outros exemplos mais sutis, menos perceptíveis, mas, nem por isso, menos perversos.

Os deserdados da terra, os povos explorados, escravizados - ou mesmo eliminados - deixaram poucos rastros na história. Os escravos do Egito, Roma e Grécia não nos deixaram nenhuma obra escrita, apresentando seu ponto de vista sobre a situação na qual viviam. Quem escreveu a história dessas sociedades antigas foram homens livres e, na sua quase totalidade, proprietários de terras e de escravos. Alguns imperadores, também, aventuraram-se no oficio de escrever história. É claro que para enaltecer os seus próprios feitos e dos seus antepassados.

No Brasil, as coisas não podiam ser diferentes. Aqui, também, não foram os índios e negros escravizados que escreveram a história do país. Afinal, a quase totalidade deles não sabia ler e escrever – era lhes proibido freqüentar escolas. O que sabemos deles, num primeiro momento, nos foram contados por viajantes estrangeiros e jesuítas. Relatos que muitas vezes descreviam o martírio desses povos, mas, em geral, vinham carregados de inúmeros preconceitos e graves incompreensões.

Somente na segunda metade do século XIX, ao começar ser questionada a escravidão, surgiu pela pena dos abolicionistas uma outra história, mais crítica ao passado escravista. Mesmo assim, apesar de sua boa vontade, os abolicionistas não poderiam expressar adequadamente as opiniões dos explorados. E aqui não vai nenhum demérito a eles. Pois, foi através dos óculos desses escritores que começamos conhecer um pouco mais da evolução e vicissitudes de nossa sociedade.

Não quero dizer com isto que se os índios e os negros escravizados soubessem ler e escrever produziriam uma interpretação exata da sociedade na qual viviam. Eles ainda não tinham o instrumental teórico necessários para isso. Mas, com certeza, seus depoimentos nos permitiram ver a realidade por outros ângulos e acabar de montar o quebra-cabeça do que foi a nossa sociedade colonial e escravista. O olhar da senzala jamais será o mesmo da Casa Grande, mesmo que por ela pudesse ser fortemente influenciado. Este, inclusive, o erro daqueles que pretendem generalizar as conclusões de Gilberto Freyre na sua obra magna.

Podemos dizer que somente com o advento do capitalismo e a formação de uma classe operária moderna, que sabia ler e escrever – podendo, assim, produzir seus próprios intelectuais orgânicos -, é que foi possível construir uma história mais coerente das classes exploradas. Apesar disso, por um bom tempo, esta nova história (socialista) tendeu a ser marginal, fora dos grandes circuitos, como as academias e o mercado editorial. Afinal, as idéias dominantes são sempre – ou quase sempre – as idéias das classes dominantes.

Somente tendo a consciência que a história é um espaço de luta de classes, os trabalhadores poderão se dedicar com mais afinco ao seu estudo e elaboração. O domínio da história e da dinâmica das sociedades em que vivem – como das experiências de resistência desenvolvidas por seus antepassados - os ajudará travar, de maneira mais conseqüente, as lutas do presente, avançando rumo ao socialismo.

Saber que as sociedades se transformam – que nada é imutável -, e que o principal instrumento dessas mudanças é a ação consciente dos homens, tem um efeito decisivo no processo de constituição da classe dos trabalhadores, como agente ativo de sua própria história.

Bibliografia

BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988 PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983

Esta é a primeira parte do texto que foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP)

texto original em http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=8&id_noticia=4218

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Desemprego, fome e falências no império


Crise persiste nos EUA

Desemprego, fome e falências


Os dados referentes ao desemprego, ao total de famílias dependentes do Estado para se alimentarem e às contínuas falências confirmam que a crise capitalista continua a abater-se sobre os trabalhadores norte-americanos.


As estatísticas oficiais indicam que durante o mês de Outubro a economia norte-americana criou 151 mil postos de trabalho, mas tal crescimento é uma gota de água num imenso oceano de desespero provocado pelo desemprego e pelo emprego precário que, no país, continuam a cifrar-se em números avassaladores.

De acordo com os mesmos dados, cerca de 15 milhões de norte-americanos permanecem desocupados. Quatro em cada dez desempregados encontram-se nessa situação há mais de sete meses.

A soma dos desempregados com os que laboram a tempo parcial eleva o total a 30 milhões de trabalhadores, confirmando que a precariedade é um fenómeno tão presente como a falta de trabalho.

Principais vítimas do flagelo do desemprego são os jovens entre os 16 e os 20 anos, cuja taxa de desocupação alcança os 27 por cento. Ainda por grupos sociais, os afro-americanos, com uma taxa de 15,7 por cento, são particularmente visados. Os hispânicos, com um índice de 12,6 por cento, também ficam acima da média nacional - 9,6 por cento - enquanto que os caucasianos, com 8,8 por cento, e os asiáticos, com 7,1 por cento, são grupos cuja taxa de desemprego oficial fica abaixo da média.

Por sector, a construção civil é das que mais contribui para o desemprego, com uma taxa de 17,3 por cento, ao passo que o sector público é o que mais distante se encontra da média nacional, com uma taxa de 4,3 por cento.

Pobreza aumenta

Em consequência do desemprego e do subemprego, o total de famílias que dependem do Estado para se alimentarem aumentou exponencialmente nos EUA. O Departamento da Agricultura admite que, em Agosto, mais de 42 milhões 350 mil pessoas receberam senhas de alimentação, número que consubstancia um aumento de 17 por cento face a igual período de 2009, e de 58,5 por cento quando comparado com Agosto de 2007.

Mas não se julgue que esta ajuda, sendo fundamental para a sobrevivência de milhões, permite algo mais que subsistir. Em média, cada pessoa recebeu 133,90 dólares. Por domicílio, a média rondou os 287,82 dólares.

Num artigo escrito no Wall Street Journal, Sara Murray adianta que no último mês de Agosto as crianças regressaram às escolas para beneficiarem das refeições gratuitas. Dos 195 milhões de almoços servidos naquele período, quase 60 por cento foram a custo zero e outros 8,4 por cento a preço reduzido.

Em Setembro, os almoços servidos a crianças carenciadas disparou para 590 milhões, 64 por cento dos quais graciosos ou a preço reduzido, revelou igualmente Murray no periódico norte-americano.

Falências sucedem-se

Se o desemprego e a miséria são sinais evidentes da crise capitalista, a sucessão de falências não lhes fica atrás. Nos primeiros dias de Novembro, por exemplo, foi a mítica Metro Goldwyn Mayer (MGM) quem deixou de «rugir».

Depois de terem rejeitado uma proposta de compra do rival Lions Gate, os estúdios apresentaram perante o tribunal um pedido de declaração de insolvência resultante de dívidas que ascendem a 4 mil milhões de dólares.

A MGM, fruto da fusão, no início do século passado, de três estúdios então existentes, está nas mãos do capital financeiro, da japonesa Sony e da distribuidora de televisão por cabo Comcast.

No mesmo sentido, no sector bancário o número de instituições que sucumbem não pára. De acordo com a autoridade federal respeitante, citada pela Reuters, durante o ano de 2010 já declararam bancarrota 139 pequenas e médias entidades.

No final de Outubro, outros sete bancos foram encerrados pela FDIC, autoridade que estima em 52 mil milhões de dólares o total de dívida absorvida e cujo prazo de liquidação termina em 2014.


Texto publicado originalmente no jornal Avante http://www.avante.pt/pt/1928/internacional/111281/


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Revisão do Tratado da UE - Atentado Social


Revisão do Tratado da UE
Atentado social


Os chefes de Estado e de governo da UE anunciaram, dia 29, a abertura de um processo de consultas sobre uma revisão do Tratado de Lisboa que visa impor novos constrangimentos financeiros aos estados.


O projecto, cozinhado previamente entre a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, pretende transformar o Tratado da União Europeia num instrumento ainda mais contundente para a imposição de novos planos de austeridade aos povos dos países «incumpridores».

Após oito horas de negociações, o presidente da UE, Herman Van Rompuy, ficou incumbido de elaborar um projecto de revisão do Tratado e definir os contornos do novo mecanismo destinado a «reforçar o euro», no qual se reserva um papel à intervenção dos bancos privados e do Fundo Monetário Internacional.

Na prática, caso as alterações sejam aprovadas, o Conselho e a Comissão Europeia poderiam impor aos países economicamente mais fracos programas de empobrecimento dos respectivos povos, fiscalizando os respectivos orçamentos do Estado e agravando as medidas já em curso de desmantelamento dos sistemas de protecção social, redução dos salários, do emprego público, de aumento da carga fiscal e de privatização dos serviços públicos. Não é por acaso que, a par do reforço das sanções financeiras, se prevê recompensas para os estados que se comprometerem a destruir os respectivos sistemas de segurança social.

Constituindo um intolerável ataque à soberania dos estados, que podem ver suspenso o seu direito de voto, os planos do eixo franco-alemão têm o apoio do Reino Unido, com a condição de que as novas regras se apliquem apenas à zona euro, isto é, não sujeitem o governo britânico ao seu cumprimento.

O projecto de revisão deverá ser apresentado para aprovação na cimeira da UE de 16 e 17 de Dezembro, devendo o processo de ratificação ficar terminado o mais tardar até 30 de Junho de 2013, data em que o Fundo de Estabilidade Financeira, criado em Maio na sequência da crise grega, deixará de existir.

Este processo poderá decorrer totalmente à margem dos povos, já que os seus promotores pretendem utilizar o artigo 48-6 do Tratado que permite um procedimento acelerado de revisão, sem passar por referendos e evitando até uma votação no próprio Parlamento Europeu, que poderá ser apenas consultado.




O espectro, o medo e o futuro


O espectro, o medo e o futuro

por João Ferreira


Anda um espectro pela Europa. O espectro percorre latitudes e longitudes diversas: do Báltico ao Mar Egeu, do Mediterrâneo ao Mar do Norte, do Mar Negro ao Atlântico. Milhões de homens, de mulheres e de jovens, com graus muito diversos de desenvolvimento e de amadurecimento da sua consciência social e política, engrossam uma corrente de protesto e de luta que se vai erguendo no velho continente. Reagem a ataques brutais às suas condições de vida e de trabalho; ataques que, na maioria dos casos, não encontram paralelo, pela sua intensidade, nas suas memórias e trajectos de vida.

Um olhar breve pelas páginas do Avante! das últimas semanas mostra-nos aquilo que a comunicação social dominante (porque ao serviço das classes dominantes) se tem esforçado por ocultar: que há vida e luta para lá da farsa que em Portugal se montou em torno do Orçamento do Estado para 2011. Em Portugal e não só.

Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Itália, Grécia, Chipre, Roménia, República Checa, Polónia, Lituânia, Letónia, Finlândia, Reino Unido (incluindo Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) e Irlanda: em todos estes países, os meses de Setembro e de Outubro ficaram assinalados por formas diversas de luta dos trabalhadores – greves, protestos, paralisações, concentrações ou manifestações.

À semelhança do que sucedia em meados do século XIX, «os poderes da velha Europa» agitam-se, inquietos, perante este espectro. Sabem que estão a esticar a corda, a um ponto que ameaça ultrapassar o seu limite de resistência. Sabem que estão a expor, de forma cada vez mais evidente, o carácter opressor e predatório do sistema que defendem e que os mantém, a sua natureza exploradora e injusta e, sobretudo, os seus limites, contradições e irracionalidade intrínsecas. E tomam as medidas que julgam necessárias para manter no futuro um sistema historicamente condenado, que não tem futuro, mas que pode ainda causar incontáveis sofrimentos à humanidade e perigosos estragos no planeta que habitamos.

À resistência e à luta dos trabalhadores e dos povos opõem o vasto e diversificado arsenal comunicacional, que ajuda a compor o poderoso aparelho ideológico ao serviço do sistema, visando semear a resignação e o conformismo. Mas se esta resistência, mesmo assim, não puder ser vencida no quadro do «normal» funcionamento de um regime «democrático», toma-se medidas adicionais. Afinal de contas, só pela via da força se podem impor certos retrocessos sociais. E o capital sabe-o. Inserem-se nesta linha, que vem sendo prosseguida ao nível da União Europeia: a ofensiva institucional que visa amputar ainda mais parcelas de soberania aos estados e concentrar ainda mais poder nas grandes potências, com a Alemanha à cabeça; o aprofundamento do militarismo e dos aparelhos repressivos; as diversas tentativas de criminalização da luta e do protesto, de que o anticomunismo é expressão inquietante e indissociável, para além de muito actual (ainda os ecos da atribuição do Nobel da Paz ao chinês Liu Xiaobo não cessaram e aí temos o anúncio da atribuição, pelo Parlamento Europeu, do prémio Sakharov 2011 ao cubano Guillermo Fariñas).

Mas a verdade é que nada disto parece ser suficiente para apaziguar o frémito de medo que percorre os senhores da velha Europa, que os agita e indispõe. Esse frémito deve-se afinal ao mesmo espectro que há 160 anos já por cá andava. Deve-se ao medo que têm de que os trabalhadores que hoje se erguem na luta por essa Europa fora, mais cedo ou mais tarde, compreendam que o alcance dessa luta será sempre curto se limitado apenas a objectivos mais imediatos e se confinado aos limites impostos pelo sistema económico e social vigente. Deve-se ao medo de que o desenvolvimento da consciência, da organização, da unidade e da combatividade dos trabalhadores, coloque, mais cedo ou mais tarde, como um objectivo de luta uma mudança das relações sociais de produção e a necessária ruptura com o capitalismo – a sua indispensável superação.

Post scriptum:

No último Conselho Europeu, repetiu-se o triste espectáculo do enforcado erguendo a bandeira do carrasco. Num inqualificável dobrar de cerviz perante os senhores da velha Europa, o governo do PS de Sócrates e Amado, aceitaram (e defenderam!) as imposições que a Alemanha vem fazendo, no âmbito da chamada «governação económica europeia». A serem levadas à prática, estas imposições traduzir-se-ão, no futuro, numa ainda maior vulnerabilidade da nossa economia e num pretexto para renovados ataques aos trabalhadores e ao povo português.


A Esquerda Fantasma


A Esquerda Fantasma

Por Chris Hedges


A esquerda estadunidense é um fantasma. É evocada pela direita para rotular Barack Obama como um socialista e usada pela social-democracia para justificar sua complacência e letargia. Ela desvia a atenção do poder das corporações, e com isso, perpetua o mito de um sistema democrático que é influenciável pelos votos dos cidadãos, pelas plataformas políticas e pelo esforço dos seus representantes. E que mantém o mundo claramente dividido em esquerda e direita. A esquerda fantasma funciona como um conveniente bode expiatório. A direita a acusa pela degeneração moral e pelo caos fiscal. A social-democracia a utiliza para apelar à "moderação". E enquanto perdemos nosso tempo a falar bobagens, a máquina do poder corporativo está, cega, cruel e irrefletidamente, a devorar com gosto o Estado.


O desaparecimento da esquerda radical na política estadunidense tem-se demonstrado catastrófico. Noutros tempos, a esquerda abrigava desde militantes anarquistas a uma imprensa alternativa e independente, passando por movimentos sociais e políticos desatrelados do mecenato corporativo. Mas o seu desaparecimento, resultante da longa caça às bruxas anticomunista, à pós-industrialização e ao silenciamento de quem não subscreveu a visão utópica da globalização, significa que não há forças a se contrapor à nossa regressão ao neofeudalismo corporativo. Esta dura realidade, no entanto, não é exatamente palatável. Assim, as empresas que controlam a comunicação de massa conjuram o fantasma de uma esquerda, e põem nele a culpa por nossa decadência. E nos põem a falar em coisas absurdas.


A esquerda fantasma desempenhou um papel central nas ruas neste fim de semana em Washington. Teve, para Glenn Beck (1), um desempenho admirável, a tal ponto que ele o utilizou em seu próprio comício, como uma espécie de para-raios, para despertar a raiva e o medo. E essa mesma esquerda fantasma mostrou-se igualmente útil para os comediantes Jon Stewart e Stephen Colbert (2), que falaram para a multidão fantasiada de vermelho, branco e azul. Os dois comediantes evocaram o fantasma da esquerda, como os social-democratas sempre fazem, na defesa de moderação, ou melhor, apatia. O argumento que se segue é: se a direita é insana e a esquerda também, então nós, os moderados, somos os razoáveis. Sejamos bacanas. A Exxon e a Goldman Sachs, juntamente com os outros bancos rapinantes e a indústria bélica, podem estar rasgando as tripas do país, nossos direitos básicos – incluindo o habeas corpus – podem estar sendo revogados, mas não nos enfureçamos com isso. Não sejamos histéricos. Não façamos como os lunáticos esquerdistas.


Jon Stewart perguntou: “Por que trabalhar com os marxistas para subverter ativamente a nossa Constituição, ou com os racistas e homófobos que não enxergam nenhuma humanidade a não ser a própria?” E continuou: “Nós ouvimos todo santo dia sobre como o país se encontra fragilizado, sobre como está à beira da catástrofe, sobre como se encontra rasgado pelo ódio da polarização, e sobre como é uma vergonha que não possamos nos unir para superar os problemas. Mas a verdade é que o fazemos. Trabalhamos juntos para resolver as coisas, todo santo dia. Os únicos lugares onde não estamos juntos são aqui [em Washington] ou na TV a cabo.”


O comício foi uma mensagem política desprovida de realidade ou conteúdo. A corrupção da política eleitoral por recursos de empresas e lobistas, a crença ingênua de que podemos de alguma forma votar pelo retorno à democracia, tudo foi ignorado para fins de catarse emocional. A direita odeia. Os social-democratas riem. E o país se torna refém dos dois.

O “Rally To Restore Sanity” (Comício pela Restauração da Racionalidade), realizado no National Mall de Washington [em 30 de outubro de 2010], trouxe consigo outra nota triste: a morte da social-democracia. Foi tão inócuo quanto uma reunião de escoteiros. Expôs o Tea Party ao ridículo sem reconhecer que a dor e o sofrimento de muitos de seus apoiadores são não somente reais, mas legítimos. Fez troça de bufões que estão a erguer-se do pântano moral para tomar de assalto o Partido Republicano, sem aceitar que aqueles que os apoiam tenham sido vendidos pelos social-democratas, em particular, por um Partido Democrata que virou as costas à classe trabalhadora em prol do dinheiro das empresas.


Glenn Beck, da Fox News, e os seus aliados da extrema-direita podem usar o ódio para mobilizar, porque há dezenas de milhões de estadunidenses que têm boas razões para o ódio. Eles foram traídos pela elite política que dirige o Estado corporativo, pelos dois principais partidos políticos e pelos apologistas da social-democracia, incluídos aí os que têm espaço na televisão, e que aconselham a moderação enquanto os empregos desaparecem, os salários despencam e o seguro-desemprego se esgota. Enquanto a social-democracia falar com a voz morta da moderação, continuará a dar combustível à reação furiosa da extrema-direita. Somente quando aquela se apropriar dessa fúria como sua própria, somente quando se insurgir contra os sistemas estabelecidos de poder, incluindo o Partido Democrata, nós poderemos ter alguma esperança de conter essa nova frente ensandecida do Partido Republicano.


O saqueio do Tesouro Nacional por Wall Street, o cerceamento de nossas liberdades civis, os milhões de execuções de hipotecas fraudulentas, o desemprego permanente, as falências pessoais causadas por contas médicas, as guerras sem fim no Oriente Médio e o acúmulo de trilhões de dólares em dívidas que nunca poderão ser pagas estão nos conduzindo a um mundo hobbesiano em colapso. Ser bacana e moderado não vai ajudar. As forças corporativas têm a intenção de reconfigurar os Estados Unidos num sistema de neofeudalismo. Estas forças da sociedade não serão interrompidas por cartazes engraçadinhos, sujeitos vestidos como o Capitão América ou por belas palavras.


A social-democracia quer se eternizar no centro político para permanecer moral e politicamente desconectada. Enquanto houver uma esquerda fantasma, tão ridículo e atrofiada como a direita, a social-democracia poderá se manter à margem do compromisso político. Se esta classe admitir que o poder foi arrancado do povo, será obrigada, caso resolva agir, a construir movimentos externos ao sistema político. Isto exigiria que a social-democracia protagonizasse demandas por atos de resistência, incluindo a desobediência civil, numa tentativa de salvar o que resta do nosso anêmico estado democrático. Mas este tipo de atividade política, tão custosa quanto difícil, é muito desagradável para um establishment social-democrata falido que vendeu sua alma aos interesses corporativos. Assim, a esquerda fantasma ficará conosco por um longo tempo.


A política nos EUA tornou-se um espetáculo. É uma outra espécie de show business. A multidão em Washington, bem treinada pela televisão, foi condicionada a desempenhar o seu papel diante das câmeras. Os cartazes – “O Volume do Blablablá Está Alto Demais”, “Os Patriotas de Verdade Podem Lidar com Diferenças de Opinião”, ou “Eu me Masturbo e Voto” – refletem a vacuidade do discurso político atual e a epistemologia perversa da televisão. Os discursos do comício foram proferidos exclusivamente na iconografia empobrecida e na linguagem televisivas. Estavam cheios de hipocrisia política despida de sentido, músicas e piadas. Era como qualquer outro programa de variedades da televisão. Vendiam-se personalidades, não plataformas políticas. Na verdade, a sociedade do espetáculo é exatamente isto.


O espetáculo moderno, como o teórico Guy Debord (3) assinalou, é uma ferramenta potente para o apaziguamento e a despolitização. Trata-se de uma “guerra do ópio permanente” que entorpece seus telespectadores e os desconecta das forças que controlam suas vidas. O espetáculo desvia a raiva para os fantasmas e para longe dos perpetradores da exploração e da injustiça. Produz sensação de euforia. Ele faz com que os participantes acabem por confundir o espetáculo em si com a ação política real.

As celebridades da Comedy Central e os apresentadores dos talk shows podres da Fox News estão no mesmo negócio. Eles são divertidos. Eles fornecem o material vazio e emocionalmente carregado que anima conversas intermináveis que vêm e vão sobre supostos programas de televisão de esquerda e direita. É uma pantomima nacional. Mas não se engane. Não é política. É entretenimento. É espetáculo. Todo o debate nacional nas ondas eletromagnéticas é impulsionado pela mesma fofoca vazia, pela mesma trivialidade absurda, pelos mesmos fricotes de de celebridades e pela mesma postura ridícula. Pode ser apresentado de diferentes maneiras. Mas nada disso diz respeito a ideias ou à verdade. Não se trata de informar, e sim de emocionar. Trata-se de nos levar a confundir os nossos sentimentos com o conhecimento. E no fim, para aqueles que nos servem essas asneiras, o que importa é mesmo o dinheiro, na forma de índices de audiência e publicidade. Beck, Colbert e Stewart servem todos aos mesmos senhores. E não somos nós.


Notas:
(1) Apresentador da TV a cabo Fox News e um dos incentivadores do movimento de extrema-direita Tea Party, dissidência do Partido Republicano formada em 2009.

(2) Apresentadores dos programas “The Daily Show” e “The Colbert Report”, transmitidos nos EUA pela TV a cabo Comedy Central.




Texto enviado à ESK por LUIZ LIMA


tradução ao português do artigo de Chris Hedges publicado em 31/10 no sítio truthdig.com.Aos que desejarem ler o original, o endereço é http://www.truthdig.com/report/item/the_phantom_left_20101031/ .

31 DE OUTUBRO: GRANDE DERROTA DO PRO-IMPERIALISMO NEOLIBERAL


31 DE OUTUBRO: GRANDE DERROTA DO PRO-IMPERIALISMO NEOLIBERAL


Chico Buarque sintetizou com insuperável concisão, num ato em apoio à candidatura Dilma Rousseff, os dois princípios complementares da política externa da tucanagem: falar fino com os Estados Unidos, falar grosso com a Bolívia e o Paraguai. São princípios tradicionais da direita liberal, sempre subserviente ao “colosso do Norte”, como dizem carinhosamente, sempre arrogante porém com os povos em luta.

Dentre as maneiras de tentar justificar a servidão voluntária ao “colosso”, é especialmente insidiosa uma que está exposta em peçonhenta revista do plutocrata Civita. No momento em que, após ter submetido o Afeganistão a um holocausto balístico em que massacrou indiscriminadamente a população civil, como já havia feito tantas vezes no passado, o Pentágono preparava a invasão do Iraque, Veja (nº 1.791, de 26 de fevereiro de 2003) ofereceu a seguinte explicação para a indignação da melhor parcela da humanidade perante esta escalada de atrocidades:


"Os americanos são ainda odiados por um motivo mais prosaico: porque há décadas vivem uma era de prosperidade sem igual na história humana. Num planeta em que 45% das pessoas subsistem com menos de 2 dólares por dia, os americanos são os beneficiários de uma opulência que agride os brios dos países retardatários. Além disso, os Estados Unidos têm valores, como a democracia e a liberdade absoluta de manifestação de idéias e crenças, que chocam todos aqueles que aprovam regimes totalitários, entre eles os radicais islâmicos. Os EUA, como país, resultaram da convivência das diferenças. O individualismo de seu povo é uma característica cujos resultados são assombrosamente positivos. Isso produz ressentimento".

Tenham ou não haurido de Nietzsche essa denúncia do “ressentimento”, os poodles do truste Abril apenas expressam seus valores vulgares e sua indigência político-cultural. Só no grotesco Castelo de Caras, a revista dos cafonas endinheirados e dos basbaques que os admiram, é possível falar em “era de prosperidade sem igual na história humana” sem cair no ridículo. Em Wall Street , viveiro do dólar gerando dólar, prosperam os Madoffs e outros canalhas; enquanto isso, na periferia do imperialismo, quando se ouve um gringo do Pentágono cacarejar “democracy, democracy” (pronuncia-se “dimócraci”), todos vão logo correndo se entocar, porque os mísseis costumam vir logo atrás. Ronald Reagan, pioneiro da Cruzada neoliberal de recolonização do planeta, justificava o apoio militar que concedia aos talebãs em luta contra os comunistas afegãos, argumentando que eles “não eram terroristas e sim guerrilheiros da liberdade”. Os “democratas-ocidentais”, sob o comando de Bush pai, de Clinton e de Bush filho prosseguiram na Cruzada assassina contra o que chamam “Eixo do Mal”, composto na verdade pelos países que se recusam a lamber as botas do Pentágono e de seus sócios da OTAN.

No Iraque, o holocausto começou antes mesmo da invasão e ocupação do país pelos mercenários do mentecapto G.W.Bush. O embargo econômico decretado contra aquele país pelo “democrat” Clinton e executado por sua secretária de Estado, Madeleine Albright, fez cerca de 500 mil crianças morreram de fome. Quando lhe pediram para explicar essa monstruosidade, a secretária respondeu: “é um preço que nós pagamos pela democracia”. Nós quem, harpia?

No mesmo momento, Veja incumbia-se do trabalho rasteiro de ajudar a satanizar Saddam Hussein. Entre outras safadezas pró-imperialistas, publicou matéria intitulada “Chumbo na chuteira” (nº 1.612, de 25 de agosto de 1999). Dizendo basear-se no jornal britânico The Sunday Times, acusa Udai, filho de Saddam Hussein, de mandar espancar e até torturar jogadores da equipe nacional do Iraque quando perdiam partidas importantes. Em princípio, uma denúncia pode ser verdadeira ou falsa. Mas considerando que a mediática imperialista, inclusive a britânica, divulgou toda sorte de pretextos mentirosos para se apoderar do petróleo iraquiano, não dá para acreditar na raivosa compilação da revista do Mister Civita. De qualquer modo, a tropa da Veja deve ter exultado mais adiante, quando Udai, junto com o irmão Qusai, foram executados à queima roupa pelos pistoleiros do Pentágono. O pai foi em seguida enforcado, após um simulacro de processo mais grotesco do que o dos nazistas. Tudo em nome da “democracy”, claro.

Não é só a tucanagem, porém que fala fino com os Estados Unidos e grosso com os recalcitrantes da periferia. Havíamos já deplorado que Marina Silva (a nova maneira do capital fazer política) tenha escolhido exatamente a hora em que o Cartel da Otan ameaça incendiar o Irã para declamar em Washington, no dia 24 de abril passado, a ladainha que os gringos queriam ouvir: "O Brasil é a única democracia ocidental que tem dado audiência para o Ahmadinejad. A própria China não tem dado, nem a Rússia". A declaração, além de eleitoreira (caçando votos anti-Lula na faixa pró-imperialista que come na mão da Rede Globo), é ideologicamente sintomática: auto-identificação subalterna com a “democracia ocidental” (a “dimócraci”), subserviência aos interesses da Casa Branca e alusão pejorativa à “própria” China. Entre as espécies verdes com quem Marina se identifica estão, pelo visto, os papagaios de pirata da mediática capitalista.

Coerente com sua opção pró-imperialista, a candidata do PV chamou para seu principal assessor econômico o ultra-liberal Eduardo Giannetti da Fonseca. Sem medo de desfiar as mais surradas trivialidades do receituário econômico da direita, o assessor alertou seu bando (em entrevista reproduzida em Estadão.com de 23 de agosto passado): “com Dilma, vemos um avanço de um estatismo e dirigismo na economia, o governo criando estatais de seguros, telefonia, e os bancos estatais promovendo uma marcha forçada de crescimento”. Terrível, não? Explicou também a propósito da competitividade das exportações brasileiras que "é reduzindo o custo Brasil que vamos resolver esse problema, não é com administração de câmbio". A expressão “custo Brasil” já denota o sabujo, para o qual a culpa é sempre do Brasil. Ademais, só a um imbecil escapa que com o dólar, digamos a 2,5 reais é mais fácil exportar do que com um dólar a 1,7 reais. Enfim, revelando um traço profundo dos verdes, de que seus eleitores bem intencionados não se deram conta, é pela direita que Giannetti discorda dos tucanos: "Juros são sintoma, não são causa do nosso problema", disse ele contrapondo-se às “críticas duras” que Serra fez contra o Banco Central, questionando sua autonomia. Como todos os ultra-liberais, o assessor de Marina quer um Banco Central independente das orientações políticas do governo e dos legisladores eleitos pelo sufrágio universal.

Nesse aspecto importante, Serra é, como diz o caboclo, menos pior que Marina. Ia terminar meu pequeno artigo com essa não sectária ponderação quando, sacudindo a poeira de meu vasto e um tanto caótico arquivo de jornais, deparei-me na primeira página do Estadão/Mesquitão de 22 de maio de 1996, sob o título “Light é privatizada em leilão recorde”, com uma foto de figurões sorridentes, felizes. No centro da foto está Serra, rindo ao bater o martelo. Na seção de economia do mesmo jornal, mais esclarecimentos sob o título “Estatal francesa compra Light por preço mínimo”. O candidato à presidência duas vezes derrotado partilha com FHC a responsabilidade de ter entregue a um Estado estrangeiro, a preço vil, um setor estratégico de nossa economia. Felizmente, o eleitor brasileiro derrotou tucanos e papagaios de pirata.

João Quartim de Moraes

Escritor e Professor


Texto enviado à ESK em 06/11/10

AMÉRICA LATINA(Chile): Não à extradição, não à criminalização!

Não à extradição,
não à criminalização!


ANNCOL


Publicamos denúncia e alerta do comitê executivo do Movimento Continental Bolivariano. Os tentáculos dos gorilas colombianos devem ser amputados com a denúncia e o protesto em massa no mundo inteiro.



Leiamos:


Com surpresa recebemos a notícia da detenção no Chile do desenhista gráfico Manuel Olate Céspedes, militante do Partidão Comunista do Chile, membro do Movimento Continental Bolivariano e representante do Movimento de solidariedade pela paz na Colômbia, o qual foi detido no seu domicílio em Santiago pela sua suposta vinculação com a guerrilha colombiana FARC-EP, depois da ordem da Ministra da Corte Suprema Margarita Herreros, que acolheu uma solicitação de detenção enviada pela justiça Colombiana.

Conforme a notícia se espalha nossa perplexidade aumenta, já que desde as declarações dos diferentes atores, são ventiladas cada vez com mais vivacidade as notáveis contradições no processo de detenção e inculpação de Manuel. Por um lado, nas primeiras horas, foi dito que Olate foi detido em função de uma solicitação de extradição do governo colombiano. Mais adiante, o presidente da Colômbia enquanto manifestava seu júbilo pela detenção do chileno, declarou que nos próximos dois meses se formalizará o pedido de extradição.

Depois das declarações de Santos as informações mudaram, em função de assinalar que Olate foi detido após uma ordem de detenção emitida pelo Ministério Público Colombiano. É necessário esclarecer que Manuel Olate se encontrava fora do Chile até o dia 13 de Outubro e que até esse momento não pesava nenhuma ordem contra o mesmo, de maneira que não foi detido ao retornar ao país. Deduz-se assim que, apesar de não ser acusado de delito algum, o Governo Chileno informou de sua entrada no Chile, e em seguida a Colômbia solicitou sua detenção.

Por outro lado, as notícias no Chile não são menos confusas; de um lado, informam que um funcionário judicial foi notificar Olate de sua detenção e pedido de extradição por parte da justiça colombiana, apesar de a Colômbia ainda não ter solicitado tal extradição, isto segundo o que foi dito pelo próprio Juan Manuel Santos. Destacamos que, ainda assim, na terça-feira a juíza analisará a situação judicial de Manuel e que ainda hoje pedirá provas à justiça colombiana que assegurem sua detenção e possível extradição.

Diante disto, cabe perguntar: Com base em que Manuel Olate foi privado de sua liberdade?

Diante de tal confusão não é difícil inferir que depois da detenção do chileno, percebe-se uma atitude colaboracionista do governo chileno, o qual se presta à internacionalização do conflito colombiano para o resto da América, organizando assim a perseguição de todos aqueles que se levantam contra a posição guerrista do governo, e a ferrenha determinação de extermínio físico e político de todos aqueles que defendem a idéia de uma saída política ao conflito, como fica demonstrado no assassinato de mais de 20 ativistas de direitos humanos na Colômbia nos poucos 75 primeiros dias do governo de Santos, nas arbitrárias acusações feitas contra a Senadora Piedad Córdoba, uma das principais impulsionadoras dos acordos para a Paz e que hoje se encontra inabilitada e judicialmente perseguida, e na saída do país do cabo Mocayo, ex-prisioneiro de guerra das FARC, libertado unilateralmente durante este ano, que teve de abandonar a Colômbia depois das constantes ameaças de morte e amedrontamentos pelo seu compromisso com a causa da Paz e contra a política de enfrentamento armado como saída à guerra que castigou por mais de 50 anos a Colômbia.

No Chile, é de conhecimento público o compromisso do Partido Comunista com uma saída política e pacífica ao conflito colombiano, e assim se tem manifestado em numerosas ocasiões apoiando as iniciativas que aprofundem esta busca de Paz , entendendo que esta passa pela manifestação de vontades políticas reais, tendentes a restituir as garantias políticas e sociais de todos os colombianos, assegurando a inviolabilidade de seus direitos fundamentais, o respeito às posições divergentes e o retrocesso das políticas de criminalização do movimento popular e de direitos humanos, as quais sob o pretexto da luta contra o terrorismo, se transformaram em uma política de estado, que tem sua forma mais perversa nos chamados “Falsos positivos”.

O compromisso político de Manuel Olate se encaixa na prática solidária, prática que o levou a visitar em 2008 o acampamento do extinto comandante das FARC-EP Raúl Reyes, por conta da realização de uma entrevista, a qual foi publicada posteriormente no Semanário “El Siglo”. Essa entrevista foi realizada apenas alguns dias antes do bombardeio em território equatoriano do acampamento de Reyes, onde o exército colombiano teria encontrado provas fotográficas que dariam conta da presença recente de Olate no lugar; presença que de fato seria posteriormente divulgada, dada a iminente publicação da entrevista ao comandante das FARC, em um meio de comunicação chileno de cobertura nacional.É necessário assinalar que dias antes de sua detenção, Manuel, juntamente com seu advogado se encontrava pronto para apresentar ações judiciais para esclarecer sua situação legal no Chile, já que, desde os acontecimentos de Sucumbios foi, de forma sistemática e reiteradamente, condenado pela imprensa, sem que existisse até esse momento nada contra ele, confiando na solidez de sua inocência, já que não é responsável por nenhuma das acusações que arbitrariamente e sem sustento legal lhe são atribuídas.

Quanto às acusações feitas pela justiça colombiana, estas se baseiam na suposta aparição de um pseudônimo, atribuído a Olate, nos e-mails do computador de Raúl Reyes (está comprovado e reconhecido que são documentos no formato Word, portanto não se trata de provas jurídicas) e que isto, segundo eles, teria um caráter incriminátorio. O fato de não se tratar de e-mails não é um detalhe, já que isto desabilita estes arquivos como documentos probatórios.

É preciso destacar que a isto se soma o fato de que o oficial colombiano a cargo dos supostos computadores de Reyes, declarou sob juramento que não existiam tais correios propriamente ditos, além de que não tinha sido cumprida a corrente de custódia dos computadores e que, portanto, não havia forma de provar que estes não tinham sido manipulados.Diante da detenção de Manuel Olate, o Movimento Continental Bolivariano expressa sua solidariedade e preocupação pela detenção arbitrária de um de nossos responsáveis no Chile, que é a nova vítima da perseguição e criminalização da solidariedade internacionalista.

Solicitamos às autoridades no Chile que deixem Manuel em liberdade e que não o extraditem, já que não existem garantias jurídicas que possam dar lugar a um julgamento justo e conforme o devido processo na Colômbia, tendo em vista tratar-se de uma acusação sem sustento jurídico que não justifica sua detenção e sua possível extradição.

Fazemos um chamado às organizações e dirigentes políticos e sociais nacionais e internacionais para que se mobilizem pela libertação de Manuel Olate, rejeitando desde já a idéia de sua possível extradição, já que, como se assinalou em reiteradas ocasiões na Colômbia, não existem as condições mínimas para um processo justo que garanta o respeito a seus direitos fundamentais como dão conta os mais de 7.500 presos políticos desse país.

Declaramo-nos em estado de alerta e mobilização permanente.

LIBERDADE A TODOS OS PRESOS POLITICOS DO CONTINENTE!
LIBERDADE PARA MANUEL OLATE!

Direção Executiva

Movimento Continental Bolivariano


Tradução: Valeria Lima--
texto na Página do PCB – http://www.pcb.org.br/

Tendências da Barbárie e Perspectivas do Socialismo


III Encontro Civilização ou Barbárie


Comunicação de James Petras


Tendências da Barbárie e Perspectivas do Socialismo


Introdução

As sociedades e Estados ocidentais caminham inexoravelmente para condições que aparentam barbárie; acontecem mudanças estruturais que invertem décadas de benefícios sociais e submetem os trabalhadores, recursos naturais e a riqueza das nações à exploração, pilhagem e roubo, baixando o nível de vida e criando patamares de descontentamento sem precedentes.

A barbárie torna-se mais evidente nas guerras genocidas, organizadas e dirigidas pelos EUA e pela Europa Ocidental. A destruição imperial de sociedades inteiras é acompanhada pela desarticulação, assassínios e exílio do actual núcleo científico secular e artístico da sociedade iraquiana e pelo fomento de conflitos étnico-religiosos retrógrados e sátrapas. A barbárie imperial manifesta-se na aplicação sistemática de castigos cruéis e pouco habituais, torturas sancionadas pelo governo e assassinatos transfronteiras fazendo parte da política de Estado. O imperialismo bárbaro é conduzido pelos militaristas e sionistas que tentam destruir os adversários, as suas economias e sociedades, em contraste com os imperialistas tradicionais que procuram controlar e explorar os recursos e os trabalhadores especializados. As práticas barbáricas são o resultado dos formuladores das políticas e os seus assessores infiltrados em instituições barbáricas: médicos e psicólogos aconselham e participam nas torturas; académicos propagam doutrinas («guerras justas») que defendem guerras bárbaras; responsáveis militares projectam e praticam crimes contra a humanidade para garantir promoções, salários maiores e pensões lucrativas. Os grandes meios de comunicação social transmitem os eufemismos triunfalistas oficiais apoiando os deslocamentos em massa das populações, atribuindo crimes de guerra às vítimas e aplaudindo os carrascos. Em suma, a barbárie começa com a elite urbana e filtra até ao trabalhador manual provinciano.

Vamos continuar definindo os processos económicos, políticos e militares que impulsionam o processo de declínio e decomposição e seguir com um relato da resposta popular das massas às suas condições em deterioração. As profundas mudanças estruturais que acompanham o crescimento da barbárie tornam-se a base para analisar as perspectivas do socialismo no século XXI.

A Onda Crescente da Barbárie


Na sociedade antiga a «barbárie» e os seus portadores, «os bárbaros», foram encarados como ameaças de invasores exteriores de regiões afastadas que desciam sobre Roma e Atenas. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, os bárbaros vieram de dentro, da elite da sociedade, apostados em impor uma nova ordem que destrói o tecido social e a base produtiva da sociedade, transformando meios de vida estáveis num dia a dia inseguro e em deterioração.

A chave para a barbárie contemporânea encontra-se nas profundas estruturas do Estado e da economia. Elas incluem:

1. A ascendência de uma elite financeira e especulativa que pilhou biliões de dólares dos aforristas, investidores, pessoas com hipotecas, consumidores e Estados, sugando enormes recursos da economia produtiva para uma elite parasitária infiltrada dentro do Estado e numa economia de papel.

2. Uma elite política militarista que se encontra num estado de guerra permanente desde os meados do século passado. Guerras intermináveis, assassínios transfronteiras, terrorismo de Estado, suspensão das garantias tradicionais levaram a uma concentração de poderes ditatoriais, prisões arbitrárias, torturas e negação de habeas corpus.

3. No meio de uma profunda recessão económica, grandes gastos do Estado na construção de um império económico e militar à custa da economia interna e o nível de vida reflectem a subordinação da economia local às actividades do Estado imperial.

4. Crimes e corrupção ao mais alto nível, em todas as esferas da actividade do Estado e negócios – desde as compras do Estado às privatizações, aos subsídios para os super-ricos – estimulam o crescimento do crime internacional de cima para baixo, a lumpenização da classe capitalista e um Estado onde a lei e ordem caíram em desgraça.

5. Como resultado dos grandes custos de construção do império e da pilhagem pela oligarquia financeira, o peso socio-económico recaiu em cheio sobre os ombros dos salários e trabalhadores assalariados, pensionistas e trabalhadores por conta própria, criando um abaixamento da mobilidade a longo prazo e em larga escala. Com a perda de empregos e a perda de empregos bem remunerados, a execução de hipotecas dispara em flecha e a classe média estável e trabalhadora encolhe e é obrigada a aumentar as suas horas e anos de trabalho.

6. À medida que as guerras imperiais se espalham pelo mundo atingindo populações inteiras, com bombardeamentos continuados e operações de terror clandestinas, geram-se redes de terroristas opositoras que também atingem civis nos mercados, nos transportes e nos espaços públicos. O mundo parece um mundo Hobbesiano, sem regras, de «todos contra todos».

Na realidade, o «mundo occidental» (EUA/UE/NATO/Israel e seus satélites) estão empenhados numa «guerra total» contra os povos do mundo, que resistem a submissão imperialista e sionista. A «guerra total» tal como é praticada pelo Ocidente, significa que

(a) não existe distinção entre alvos militares e civis – todos são sempre considerados dignos de destruição. Num sentido perverso de ironia totalitária, ao bombardear os civis, os poderes imperiais transformam uma guerra de guerrilha numa «guerra popular»: guerras totais unem comunidades, famílias, clãs aos lutadores da resistência.

(b) As guerras totais utilizam todos os meios para aniquilar o inimigo – armas de envenenamento em massa (urânio enfraquecido), esquadrões de morte, execuções sumárias, bombardeamento indiscriminado de aldeias com drones teleguiados, prisões em massa de homens adultos nas regiões de grande conflito. Como resultado da «guerra total» imperial como padrão de conflito, a oposição replica, atingindo civis, incluindo professores, médicos e tradutores utilizados pelas agências internacionais.


7. O crescente extremismo étnico-religioso ligado ao militarismo existe entre os cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, substituindo a solidariedade internacional de classe por doutrinas de supremacia racial e penetrando com profundidade as estruturas do Estado e da sociedade,Um dos mais flagrantes resultados do período pós 2ª Guerra Mundial tem sido a influência sem precedentes da configuração do poder Judaico-Sionista e o seu papel central dentro do Estado imperial dos EUA, juntando as bárbaras práticas imperiais dos EUA e Israelitas. Essas incluem torturas sistemáticas, sanções económicas, bombardeamento de civis e outros crimes contra a humanidade. Às longas guerras de Israel contra os povos árabes e muçulmanos – mais de 60 anos e continuam – juntam-se agora aos estrategas sionistas em Washington que promovem guerras prolongadas, em série e que seguem a agenda israelita incitando uma islamofobia histérica através dos grandes meios de comunicação social e a academia. Hoje, o Judeo-fascismo está infiltrado no governo israelita (3 ministros), exército, ordens religiosas e sectores significativos da população.


8. O desaparecimento do colectivismo providêncial Europeu e Asiático – na ex-URSS e China – retirou as pressões de competição sobre o capitalismo ocidental e animou-o a revogar todas as concessões de previdência concedidas aos trabalhadores no período pós 2ª Guerra Mundial.


9. O desaparecimento do Comunismo e a integração da social-democracia no sistema capitalista conduziu a um forte enfraquecimento da Esquerda, que os protestos sociais esporádicos dos movimentos sociais não conseguiram substituir.


10. Tendo em vista o actual ataque em grande escala contra o nível de vida dos trabalhadores e da classe média, existem protestos ocasionais na melhor das hipóteses e impotência política no mínimo.


11. A exploração maciva do trabalho nas sociedades pós-revolucionárias, como na China e Vietname, inclui a exclusão de centenas de milhões de trabalhadores emigrantes dos serviços públicos elementares de ensino e saúde. A pilhagem sem precedentes e o confisco pelos oligarcas domésticos e multinacionais de milhares de empresas públicas estratégicas lucrativas na Rússia, nas repúblicas ex-Soviéticas, Europa do Leste, os Balcãs e países Bálticos representou a maior transferência da riqueza pública para o privado e no mais curto período de toda a história.

Em suma, a «barbárie» surgiu como uma realidade definidora, produto da emergência nos EUA de uma classe parasitária dominante militarista sionizada e financeira. Os bárbaros estão aqui e agora, presentes dentro das fronteiras das sociedades e Estados ocidentais. São dominantes e prosseguem agressivamente uma agenda que reduz continuamente o nível de vida, transfere a riqueza pública para os seus cofres privados, pilham recursos públicos, destroem direitos constitucionais na sua busca de guerras imperiais, segregando e perseguindo milhões de trabalhadores imigrantes e promovendo a desintegração e diminuição de uma classe média e trabalhadora estável. Mais do que nunca na história recente, 1% da população do topo controla uma parte cada vez maior da riqueza e os recursos nacionais.

Mitos e Realidades do Capitalismo Histórico

O corte, sustentado e em larga escala, dos direitos e disposições sociais, salários, segurança no emprego, pensões e salários demonstra a falsidade das ideias de um progresso linear do capitalismo. O retrocesso, fruto do maior poder da classe capitalista, demonstra a validade da proposição marxista de que a luta de classes é a força motora da história – pelo menos, na medida em que a condição humana é considerada o centro da história.

A segunda premissa falsa é que os Estados com base em «economias de mercado» precisam da paz e o corolário de que os «mercados» derrotam o militarismo, é refutada pelo facto de que a economia de mercado principal, os Estados Unidos, tem estado num estado de guerra constante desde os princípios de 1940; activamente empenhados em guerras, em quatro continentes, até aos dias de hoje. Com novas guerras maiores e mais sangrentas no horizonte. A causa e resultado da guerra permanente, é o crescimento de um «Estado nacional securitário» monstruoso que não reconhece quaisquer fronteiras nacionais e absorve a maior parte do orçamento nacional.

O terceiro mito do capitalismo “avançado” maduro é que ele revoluciona constantemente a produção através da inovação e da tecnologia. Com o crescimento da elite militarista e financeira especulativa, as forças produtivas têm sido pilhadas e a “inovação” fica principalmente pela criação de instrumentos financeiros que exploram os investidores, roubam os activos e aniquilam o emprego produtivo.

Enquanto o império cresce, a economia interna diminui, o poder fica centralizado no executivo, os poderes legislativos são cortados e nega-se à cidadania uma representatividade real e até mesmo um veto através de processos eleitorais.

A Resposta das Massas ao Crescimento da Barbárie

O crescimento da barbárie no nosso seio criou uma repulsa pública maciça contra o seus principais autores. As sondagens mostram repetidamente:
1. Um desgosto profundo e repulsa contra todos os partidos políticos.

2. Vastas maiorias sentem uma grande desconfiança em relação à elite empresarial e política.

3. Maiorias rejeitam a concentração do poder empresarial e o abuso deste poder, principalmente pelos banqueiros e financeiros.

4. Existe um questionamento generalizado das credenciais democráticas dos dirigentes políticos que actuam ao mando da elite empresarial e promovem as políticas repressivas do Estado de segurança nacional.

5. Uma grande maioria rejeita a pilhagem dos cofres do Estado para salvar os bancos e a elite financeira, ao mesmo tempo que impõem programas regressivos de austeridade na classe média e trabalhadora.


A Transição do Imperialismo Económico para o Bárbaro

Os EUA têm estado envolvidos em guerras imperiais contínuas há mais de 60 anos. A guerra tem sido endémica ao sistema imperial: na maioria dos casos tem sido para garantir recursos económicos, quotas de mercado e a exploração de mão-de-obra barata. A dialéctica entre expansão militar e conquista, domínio político através de regimes colaborantes e acesso económico privilegiado para as corporações multinacionais dos EUA (CMC) foi efectivamente o carácter definidor do imperialismo dos EUA. Hoje, a dialéctica imperial já não funciona. O crescimento do capital financeiro e a fuga das CMC dos EUA para o estrangeiro, para Estados asiáticos soberanos enfraqueceu o papel do capital industrial como motor da expansão imperial. Hoje, existem novos mecanismos que fomentam as guerras imperiais – militarismo e sionismo – que olham para as guerras e conquista militar como «um fim em si mesmo». Não capturam recursos ou quotas de mercado, destroem-nos, como demonstram as guerras dos EUA no Iraque, Afeganistão, Somália, Iémen, Honduras e noutros locais. Estas guerras destroem a riqueza das nações. Elas enfraquecem o tesouro americano. Não enriquecem as corporações (excepto temporariamente as empresas de mercenários de guerra) e não levam a uma remessa de lucros para os EUA/UE.

As guerras imperiais, que destroem a sociedade civil, o Estado e desarticulam as sociedades modernas seculares, criam alianças com as colectividades clericais e étnicas mais retrógradas que compartilham as tendências assassinas bárbaras dos seus apoiantes e patrocinadores imperiais.

Perspectivas do Socialismo


As esperanças ténues do socialismo existem fora da Europa e dos Estados Unidos. Mesmo nas regiões de guerra anti-imperialista de grande intensidade como no Golfo, Ásia do Sul, o Corno de África, as principais forças de resistência são dirigidas por movimentos islâmicos que rejeitam os programas socialistas seculares. Movimentos liderados por movimentos islâmicos podem enfraquecer o império mas também são contra e reprimem quaisquer movimentos operários abertamente marxistas. Na América Latina, os regimes nacionalistas têm enfraquecido o garrote do imperialismo americano sobre a sua política externa e criaram oportunidades para que a classe capitalista local ganhasse novos mercados, mas também se desradicalizaram, desmobilizaram e cooptaram os antigos movimentos de classe independentes e sindicatos dirigidos pelos marxistas e socialistas.

Na medida em que o socialismo existe como fenómeno de massas – e não apenas entre os académicos e os intelectuais que comparecem nas conferências uns dos outros – encontra-se entre sectores dissidentes dos mineiros bolivianos, trabalhadores industriais e do sector público, sindicatos, sectores dos sem-terra brasileiros e espalhando-se entre minorias nos sindicatos e movimentos camponeses em toda a região. Somente na Venezuela, com o Presidente Chávez, um programa socialista tem um apoio popular do Estado e das massas populares, apesar de co-existirem grandes contradições entre «Estado» e «regime».

Na Ásia, as recentes ondas de greves dos trabalhadores, num quadro de um passado revolucionário socialista, dá substância à esperança de um renascimento socialista de massas baseado na militância da classe operária e do campesinato. O mesmo se aplica ao Vietname, onde a militância dos trabalhadores procura organizações de classe independentes contra a exploração selvagem do capital estrangeiro e oligarcas locais «comunistas». Na Índia, guerrilheiros camponeses controlam vastas extensões de regiões tribais e estabeleceram um «poder duplo» em certos domínios, sujeitos a cerco militar e missões de busca e destruição. Protestos de massas na Grécia, Espanha, França e Itália mostram uma grande hostilidade dos trabalhadores contra os programas de austeridade de classe selectivos. Teoricamente, poderiam constituir uma base para o renascimento de uma política marxista; mas de momento, nenhum partido revolucionário importante ou movimento existe para transformar as greves num projecto de poder político.

Embora as perspectivas do socialismo, nomeadamente nos EUA, estejam bastante distantes e actualmente quase invisíveis, certas situações poderiam provocar um ressurgimento radical – que infelizmente pode «virar à direita» antes de olhar para a esquerda. Em qualquer caso, as perspectivas de socialismo nos EUA e na Europa Ocidental envolvem um processo longo e difícil, baseado na (re)criação da consciência e organização de classe.

A ofensiva capitalista tem certamente um grande impacto nas condições objectivas e subjectivas das classes trabalhadoras e médias, aumentado a miséria e criando uma onda crescente de descontentamento pessoal, mas não ainda movimentos anti-capitalistas massivos ou mesmo uma resistência organizada dinâmica.

Grandes mudanças estruturais requerem um acerto de contas com as actuais circunstâncias adversas e a identificação de novas entidades e formas de luta de classes e de transformação.

Um dos principais problemas é a necessidade de recriar uma economia produtiva e reconstruir um novo operariado industrial, tendo em conta anos de pilhagem financeira e de desindustrialização. Não necessariamente as indústrias «sujas» do passado, mas certamente novas indústrias que utilizem e inventem novos recursos energéticos limpos.

Em segundo lugar, as sociedades capitalistas altamente endividadas necessitam de uma mudança fundamental no militarismo e construção de império muito caros para uma espécie de austeridade baseada na classe, que imponha sacrifícios e reformas estruturais aos sectores da banca, financeiros e sectores de retalho de grande importação, substituindo pela produção local as importações de consumo baratas.

Em terceiro lugar, a redução dos sectores financeiro e de retalho exige a melhoria das qualificações dos trabalhadores e empregados deslocados, bem como mudanças no sector das TI para se adaptar às mudanças da economia. Mudanças paradigmáticas do salário em dinheiro para salário social, em que o ensino público gratuito ao mais alto nível e cuidados de saúde universais e pensões adequadas substituam o consumismo financiado pelo endividamento. Estas mudanças podem tornar-se a base para fortalecer a consciência de classe contra o consumismo individual.

A questão que se põe é saber como transportar movimentos laborais e sociais enfraquecidos, fragmentados em retracção ou na defensiva para uma posição de lançar uma ofensiva anti-capitalista.

Talvez muitos factores subjectivos e objectivos trabalhem para esse fim. Em primeiro lugar, existe uma rejeição crescente de largas maiorias contra os políticos incumbentes e em particular contra as elites financeiras e económicas que são claramente identificadas pela quebra das condições de vida e desigualdades crescentes. Em segundo lugar, existe uma opinião popular, partilhada por milhões, de que os actuais programas de austeridade são claramente injustos – com os trabalhadores a pagarem pelas crises criadas pela classe capitalista. Contudo, estas maiorias são mais «anti» situação do que pró transformação. A transição do descontentamento privado para acção colectiva é uma questão em aberto sobre quem e como, mas a oportunidade existe.

Vários factores objectivos podem desencadear uma mudança qualitativa do descontentamento de raiva passivo num movimento anti-capitalista massivo. Uma recessão muito acentuada, o fim da actual recuperação anémica e o aparecimento de uma recessão/depressão mais profunda e prolongada, podem desacreditar ainda mais os actuais governantes e os seus apoiantes económicos.

Em segundo lugar um período de austeridade interminável e profundo iria desacreditar a noção actual da classe dirigente da «dor necessária para ganhos futuros» e abrir as mentes e movimentar as entidades para procurar soluções políticas no sentido obter ganhos imediatos infringindo dor nas elites económicas

Guerras imperiais sem fim e não vitoriosas que sangram a economia, acabam por criar a consciência de que a classe dirigente «sacrificou o país» sem «qualquer propósito útil».

Talvez, a combinação de uma nova fase da recessão, a austeridade perpétua e guerras imperiais irracionais possam virar o actual mal-estar das massas e lançar hostilidade contra a elite política e económica, para os movimentos, partidos e sindicatos socialistas…

James Petras* Professor (Emeritus) de Sociologia na Universidade Binghamton de Nova York e professor adjunto na Universidade Saint Mary, no Canadá.

Recebeu numerosas distinções profissionais e académicas.

É autor de mais de 60 livros e de centenas de artigos especializados na área da Sociologia, e de mais de 2.000 artigos de opinião publicados em jornais internacionais de grande projecção.

Actualmente colabora com regularidade no jornal mexicano La Jornada, contribui para o Conter Punch e Atlantic Free Press, e integra o colectivo editorial de Canadian Dimension.


Texto original publicado no sítio ODIARIO.INFO http://www.odiario.info/?p=1788