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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

BRASIL : O endividamento da União e a disputa presidencial




O endividamento da União e a disputa presidencial



O primeiro turno das eleições presidenciais já se encerrou e nos encontramos em plena disputa do segundo turno, mais uma vez envolvendo os candidatos do PT e do PSDB.

Em 1994 e em 1998, esta disputa também se deu, porém FHC - o candidato dos tucanos à época - acabou por vencer as eleições já no primeiro turno. Em 2002 e em 2006, a decisão apenas se deu no segundo turno.

Há dezesseis anos, portanto, a polarização entre PSDB e PT marca a disputa da eleição mais importante do país.

Contudo, ao contrário do que um eleitor mais desavisado poderia supor, a discussão sobre a realidade econômica e as políticas a serem adotadas pelos candidatos, caso sejam eleitos, continuam a ser escamoteadas.

Em 1994, em meio à euforia do lançamento do Real, a plataforma agressiva das privatizações do PSDB não foi antecipada por FHC, assim como em 1998, no direito a uma reeleição comprada por meio de uma emenda constitucional, o mesmo FHC não deu ciência ao país do acordo em curso com o FMI, provocado pela situação falimentar em que se encontrava o Brasil.

Em 2002, tivemos mais conhecimento da crise que vivíamos, por força de um novo acordo celebrado com o mesmo FMI, e do compromisso, que todos os candidatos acabaram por assumir, em respeitar as exigências que nos eram impostas. O que Lula, o vencedor daquela eleição, não divulgou foi a sua intenção em ser mais realista do que o rei. Já como presidente, sua primeira medida foi aumentar a meta do superávit primário estabelecida inicialmente com o FMI, de 3,75%, para 4,25% do PIB.

Em 2006, forçado a uma disputa com o reacionário Geraldo Alckmin, Lula usou e abusou da pertinente acusação de privatista, contra o seu adversário. O que o mesmo Lula não esclareceu ao eleitorado foi a sua intenção, materializada logo no início do seu segundo mandato, em privatizar o trecho da BR-101, ligando o Rio de Janeiro à cidade de Campos, no norte fluminense.

Esses exemplos mostram muito bem como os candidatos de confiança do sistema financeiro - sistema que parece ser uma espécie de fiel da balança dos políticos de sucesso - agem em relação ao eleitorado.

Agora, em 2010, há um silêncio sepulcral, dos ungidos pelas generosas verbas de campanha, em relação ao grave problema do endividamento da União.

Ao contrário, o candidato tucano - apesar de toda a grita de economistas ligados ao seu PSDB contra a "explosão dos gastos correntes" no governo Lula - promete um salário mínimo de R$ 600,00, reajuste de 10% nas pensões e aposentadorias do INSS e 13º "salário" para o Bolsa Família!!

Demagogias ou falsas promessas à parte, o problema é que temos de fato um sério desafio pela frente. Plínio de Arruda, do PSOL, no primeiro turno das eleições, com toda razão apontou a necessidade de uma séria auditoria da dívida pública do país, conforme uma das conclusões da CPI da Dívida Pública, realizada pela Câmara Federal.

E o problema não é a tal explosão dos gastos correntes, genericamente denunciada pelos economistas liberais, em geral mirando novas mudanças nas regras da previdência.

Desde o lançamento do Plano Real, em julho de 1994, a evolução da dívida em títulos da União é espetacular. E esta é a principal dívida financeira que temos de enfrentar. Em dezembro daquele ano, essa chamada dívida mobiliária da União era de R$ 59,4 bilhões de reais. Ao final do ano seguinte, primeiro ano do mandato de FHC, essa dívida chegava a R$ 84,6 bilhões, com um crescimento nominal em relação a dezembro de 1994 de 42%(!!), correspondendo a 12% do PIB. Para quem possa se espantar com essa evolução, lembro que FHC chega ao final do seu primeiro mandato, em dezembro de 1998, com essa dívida já em R$ 343,82 bilhões, correspondentes a 35,11% do PIB.

As razões desse explosivo crescimento da dívida pública em títulos são decorrentes essencialmente da própria forma de funcionamento da economia, pós-lançamento do Real. A integração financeira do Brasil com os mercados financeiros do mundo, com a livre movimentação de capitais, subordina a política monetária aos humores dos investidores e especuladores internacionais.

De 1994 a 1998, a idéia de um Real "forte" (um real = um dólar) exigia acúmulo de reservas em dólar, de modo a se garantir a equivalência da nova moeda nacional com a moeda dos Estados Unidos. Os juros extremamente elevados e o programa de privatizações de empresas estatais garantiram uma enxurrada de dólares para o país. Entretanto, na medida em que esses dólares são transformados em reais, levando a uma expansão do volume de reais em circulação na economia, o Banco Central entra no mercado vendendo títulos públicos, com o objetivo de retirar o chamado excesso de moeda em circulação.

Houve, nesse período também, a maior parte das renegociações das dívidas de estados e municípios com o governo central, federalizando-se essas dívidas, o que ajudou o crescimento da dívida em títulos da União. Porém, o fator mais importante foi a necessidade do acúmulo de reservas, com base em taxas de juros reais elevadas.

A partir de 1999, com a mudança do regime cambial (até então, relativamente fixo) para o chamado câmbio flutuante, o papel das altas taxas de juros - que continuam a vigorar - passa a ser justificado como instrumento vital para se conseguir manter a inflação projetada para cada ano, dentro das metas definidas pela política monetária. A política econômica passa a ser guiada de acordo com o que recomenda o FMI.

Isso não impede que o país vá novamente recorrer ao FMI, em 2002, e FHC entrega o governo a Lula com a dívida em títulos alcançando o montante de R$ 687,30 (bilhões) correspondentes a 46,51% do PIB. É interessante notar que durante esse período, que se inicia em 1999, o governo federal passa a ter de cumprir metas de superávit primário, nunca inferiores a 3% do PIB. Mesmo assim, nota-se que, sempre em função das altas taxas reais de juros vigentes, a dívida continua em trajetória ascendente.

É essa política que Lula deu continuidade. E é por isso que hoje temos uma dívida em títulos que supera a cifra de R$ 2,2 trilhões, mais de 70% do PIB do país, com uma carga líquida anual de juros sempre superior a R$ 150 bilhões. Ou seja: além de o montante dessa dívida continuar a subir de forma astronômica, há um comprometimento crescente da maior parte do orçamento público da União com o pagamento de juros e amortizações. No exercício de 2009, por exemplo, 36% desse orçamento foram gastos com essa finalidade. Ao mesmo tempo, áreas consideradas estratégicas, como a saúde ou a educação, foram contempladas, respectivamente, com menos de 5% e de 3% desse mesmo orçamento.

Essa é a realidade que Dilma e Serra não querem debater. Mas, essa é uma questão que não deixará de ser enfrentada no próximo governo. Até porque, por força da valorização do Real - decorrente da permanente pressão produzida pelos dólares que entram no país - voltamos a ter déficits em nossas transações com o exterior, o que nos torna ainda mais vulneráveis à necessidade de financiamento em dólares.

A dívida externa, por sua vez, apesar de todas as falsas informações veiculadas, muitas vezes pelo próprio Lula, continua a existir e de forma robusta: hoje já ultrapassa a US$ 300 bilhões. Com reservas internacionais de US$ 280 bilhões, para muitos isso não seria um grande problema. Contudo, frente a qualquer reversão do quadro internacional para uma nova onda de fortes instabilidades nos mercados financeiros, não há dúvidas sobre o preço que pagaremos.

Já se observam fortes pressões para uma nova rodada de mudanças nas regras da Previdência Pública. Trata-se, a rigor, da última variável importante para os liberais, na busca de fontes para novos cortes orçamentários, com o objetivo de se tentar segurar um modelo econômico que tem de ser superado.

Fora outrora, o PT seria um aliado nessa luta.

Hoje, frente ao transformismo desse partido, sua candidata à eleição presidencial é apenas mais uma protagonista da tentativa de se esconder do povo brasileiro a gravidade dessa situação.


TEXTO DE AUTORIA DE :

Paulo Passarinho é economista e conselheiro do CORECON-RJ.


artigo recebido via e-mail de Secretaria Geral - PCB

terça-feira, 26 de outubro de 2010

"Cuba não se rende ao Capitalismo"


"Cuba não se rende ao Capitalismo"


Entrevista no Avante N.º 1923 .


Prosseguir e reforçar a solidariedade com a sua Revolução Socialista, afirmam Ângelo Alves e Carlos Chaparro em entrevista ao Avante! sobre a sua recente visita a Cuba.

Quais foram os principais objectivos da visita da delegação do PCP?

Ângelo Alves: O primeiro foi, naturalmente, estreitar os laços de amizade e cooperação entre o PCP e o PCC e abordar aspectos das relações bilaterais. O segundo, foi aprofundar aspectos da situação internacional e trocar ideias sobre questões relativas ao movimento comunista e revolucionário internacional. Finalmente, permitiu-nos uma visão mais aprofundada da realidade social, económica e política e das medidas em curso de actualização do modelo económico socialista cubano.


Ficaram com uma ideia mais clara sobre essa actualização do modelo económico cubano?


Ângelo Alves: Sim, e devido à abertura dos camaradas foi possível abordar as medidas que estão em discussão. A impressão que trazemos é a de que, contrariamente ao que se ventila em Portugal, Cuba não está a tomar medidas avulsas resultantes de um qualquer desespero económico e muito menos terá iniciado uma «rendição» ao capitalismo.Da informação que nos foi dada, pode-se afirmar que o que se está a passar é um processo natural no contexto de uma revolução socialista que o quer continuar a ser.

O que está em curso é um amplo e ambicioso processo de reflexão e decisão, iniciado há já vários anos, sobre a necessidade do fortalecimento da economia, factor que os camaradas consideram fundamental para manter a médio e longo prazo as importantes conquistas da revolução socialista, para elevar as condições de vida do seu povo e para garantir a independência e soberania de Cuba.


As medidas em consideração são inúmeras, afectam toda a sociedade e visam desenvolver as forças produtivas, modernizar o sector produtivo, aumentar a capacidade produtiva da economia, a sua eficiência e produtividade. Simultaneamente pretende-se acabar com factores que estão a entravar o desenvolvimento da economia cubana como a dupla circulação monetária, a economia informal, a burocracia e o excessivo paternalismo do Estado que em algumas situações leva ao laxismo e mesmo à corrupção.

A maior parte das medidas foram já apontadas no V Congresso do Partido Comunista de Cuba realizado em 1997, tais como o reordenamento da economia de modo a aumentar a produção e a produtividade e assim inverter a tendência negativa da balança comercial; a libertação de recursos para aumentar o nível de vida dos cubanos aplicando o princípio Socialista de «a cada um segundo o seu trabalho»; a realocação da mão-de-obra disponível combatendo o sobredimensionamento de alguns sectores e canalizando mão-de-obra para áreas produtivas fundamentais como a Agricultura, a Construção, a Indústria, mas também preenchendo necessidades na área das conquistas essenciais da revolução como a Saúde e a Educação. Simultaneamente está em curso uma reflexão sobre a organização administrativa, seja do território, do Estado, das empresas, do exército, assim como, noutro plano, da própria organização do Partido. A palavra de ordem é simplificar, eliminar gastos desnecessários e tornar mais eficientes todas as estruturas económicas, políticas e administrativas.


Carlos Chaparro: Basicamente, Cuba está a realizar, desde uma perspectiva social e revolucionária, o balanço da evolução da sua economia, a fazer a crítica e a autocrítica que são necessárias, a identificar as virtudes do modelo económico mas também as suas insuficiências e erros, e a tentar, num quadro económico nacional e internacional exigente, tomar as medidas necessárias para garantir a sustentabilidade do seu sistema económico, social e político.


E os 500 000 desempregados de que tanto se fala?


Ângelo Alves: Podemos dizer que também nós fizemos essa pergunta em vários encontros e recebemos sempre a mesma resposta: «em Cuba ninguém que queira trabalhar ficará desamparado, é um princípio da nossa Revolução». Como referi a realocação de força de trabalho é uma das várias medidas que se estão a tomar. O desenvolvimento dos sectores produtivos – seja por via do sector empresarial do Estado seja por via do sector cooperativo – absorverá, segundo os camaradas cubanos, uma grande parte da mão-de-obra excedentária em outros sectores e permitirá a libertação de recursos financeiros que serão aplicados na elevação geral dos salários. Simultaneamente o Estado irá proceder à legalização e regulamentação de uma realidade que já existe – o trabalho por contra própria. Alguns dos trabalhadores excedentários serão estimulados a estabelecer-se por contra própria e para tal existirá um sistema quer de subsídio temporário quer de empréstimos do Estado para início de pequenos negócios. As 178 profissões em que será possível fazê-lo foram já divulgadas, o processo está em discussão e obrigará à criação de novas leis e a alterações no sistema fiscal.

Carlos Chaparro: Aliás, uma parte destas medidas já está em curso num sector considerado como «assunto de segurança nacional»: a agricultura. Os camaradas consideram que cerca de 70% das importações de bens alimentares são evitáveis se desenvolverem a sua agricultura e a tornarem mais eficiente. Então, o que está em curso é toda uma reorganização e modernização do sector agrícola em que coexistem já o sector estatal, o cooperativo e o trabalho por conta própria, e os resultados têm sido positivos. Mas atenção, o Estado cubano não privatizou nem a agricultura, nem a terra! Aquilo que aqui na Europa se apelidou de «entrega de terras a privados» é tão só o princípio que nos é tão querido de «a terra a quem a trabalha», com a concessão de um total de 1 milhão de hectares de terra que não estava a ser explorada a quem se comprometa a trabalhá-la. Concessão que a qualquer momento pode ser retirada se se comprovar que não há produção.


Uma maior abertura à iniciativa privada não poderá fazer emergir uma camada social desinteressada no aprofundamento do socialismo?


Ângelo Alves: Bem, o termo iniciativa privada não é o mais adequado. Será mais correcto falar de um sector de trabalho por conta própria, que, aliás, já existe, por exemplo os célebres “Paladares” que nada mais são do que empresas familiares. Colocámos aos camaradas a mesma questão e eles esclareceram que não haverá iniciativa privada em Cuba como a conhecemos nos países capitalistas. A propriedade social é um dos princípios que nos foi transmitido como um dos pilares destas medidas. A planificação económica, ou seja o controlo da economia pelo poder popular, continuará a ser a pedra angular da economia cubana. Assim, a propriedade de negócios e a contratação de força de trabalho serão regulamentados e limitados pelo Estado através do mecanismo de licenças. Além disso a dimensão dos negócios por conta própria será limitada ao nível do que aqui chamamos micro e pequenas empresas, uma vez que, segundo nos foi referido, o modelo fiscal em estudo para o sector «cuenta propista» irá por si impedir processos de concentração.

Reuniram com a Central dos Trabalhadores Cubanos e União dos Jovens Comunistas. Qual o papel destas estruturas neste processo?


Carlos Chaparro: O seu papel é envolver todo o povo no processo de consulta sobre as medidas propostas, visando construir um consenso político em torno das decisões a tomar pela Assembleia do Poder Popular, que, contrariamente à ideia que passou em Portugal, ainda não legislou sobre o conjunto das medidas. A CTC tem um papel central. Desde logo pelo seu «peso» político. Num país onde a sindicalização é uma decisão individual e livre de cada trabalhador, os filiados nos sindicatos da CTC representam 95% dos trabalhadores. Quer isto dizer que a CTC está neste momento a discutir directamente com cerca de três milhões e quatrocentos mil trabalhadores as medidas propostas e a sua aplicação concreta em cada local de trabalho. Mas a CTC não discute apenas com os seus filiados, promove o debate com todos os trabalhadores, à semelhança do Partido e de muitas outras organizações de massas, como os Comités de Defesa da Revolução. Mas não é só a capacidade mobilização que dita a importância da CTC neste processo. A Central tem tido, como estrutura sindical, uma participação directa no estudo e definição das medidas, garantindo à partida que os direitos laborais e o controlo operário da economia não são tocados com estas medidas e que os trabalhadores são quem discute e decide da sua aplicação em cada local de trabalho, através da eleição de comités com a participação de um elemento da administração, um do movimento sindical e mais 6 trabalhadores eleitos pelos seus pares. Ou seja, o papel da CTC é o de assegurar que a participação dos trabalhadores é garantida, e mais que isso, determina o resultado final deste processo. A União dos Jovens Comunistas tem também um importante papel nos centros laborais com grande concentração de mão-de-obra juvenil, além de os seus 500 000 membros estarem envolvidos numa profunda discussão com os jovens cubanos sobre as medidas. Nas visitas que fizemos constatámos sempre um papel activo da UJC nos mais diversos planos, e isso é muito interessante, porque não se limita a discutir os problemas dos jovens, discute tudo.

Que questões estão a ser levantadas e que soluções se apresentam no debate em curso?

Ângelo Alves: Eu diria que as questões são aquelas que é normal serem levantadas num processo desta envergadura. As pessoas interrogam-se sobre várias coisas, e naturalmente sobre a sua vida, mas têm uma possibilidade que é negada, por exemplo, aos trabalhadores portugueses, que é a de ter uma participação directa na definição e na aplicação das medidas, e isso transmite confiança a quem como nós observou o processo de discussão. Há uma consciência no povo de que se tem de superar atrasos, insuficiências e problemas, e melhorar o funcionamento da economia. As pessoas têm noção das dificuldades decorrentes de factores como o impacte das catástrofes naturais que assolaram a ilha, a crise económica internacional que também está a afectar Cuba, nomeadamente no turismo, e, claro, o bloqueio dos EUA que em cálculos recentes revela um impacte directo de, no mínimo, mais de 100 000 milhões de dólares. Entendem portanto a necessidade das medidas em discussão. As soluções são muitas e variadas e por exemplo numa fábrica de charutos que visitámos o resultado das medidas será o aumento de mais de uma centena e meia de novos postos de trabalho. Num plano geral, haverá por exemplo formação profissional para quem mude de profissão e há a intenção de aumentar o salário médio para o dobro, de modo a garantir que este cobre todas as necessidades essenciais do povo. Mas para isso a produção terá de aumentar. Como nos foi dito, o processo foi iniciado, tem balizas e princípios bem definidos, e tem como objectivo final tornar mais sustentável o sistema socialista e simultaneamente responsabilizar o conjunto da população pelo sucesso das medidas. Mas é um processo cujos resultados só serão possíveis de analisar daqui para a frente. Os camaradas cubanos são os primeiros a dizer que será necessário ir medindo a cada passo se os objectivos estão a ser alcançados.


E que papel têm os comunistas neste debate?


Ângelo Alves: O Partido Comunista tem um papel muito importante na unidade do povo cubano e no estímulo ao funcionamento da democracia, e é esse o seu principal papel. Como nos foi afirmado num interessante encontro com um comité do poder popular de bairro, o Partido não interfere nos processos eleitorais, nem no funcionamento dos diferentes órgãos de poder popular. Mas, como referi, este processo vai muito além do Partido, envolve toda a população. Aliás, como se verificou em processos anteriores e igualmente exigentes como o Período Especial. Se há dado que se destaca de todos os que recolhemos, é o da ampla participação popular na construção do socialismo em Cuba e essa é uma razão mais para termos confiança no futuro de Cuba, prosseguirmos e reforçarmos a solidariedade com aquele povo e a sua Revolução Socialista.


Contra a cimeira da NATO( OTAN ) em Portugal


Contra a cimeira da NATO ( OTAN ) em Portugal

Intervenção de Paula Santos na Assembleia de República


Saudamos a Campanha Paz Sim! NATO Não!, todas as associações e organizações que a compõem e os subscritores da petição que hoje discutimos, em defesa da paz e contra a realização da Cimeira da NATO em Portugal.

O que está em cima da mesa nesta Cimeira é a reformulação do “conceito estratégico” da Nato, a procura de uma saída para a guerra do Afeganistão e a instalação de um novo sistema antimíssil na Europa. Pretendem elevar a Nato a um novo patamar, como instrumento de ingerência e de agressão a nível mundial. Os objectivos passam por alargar a sua intervenção a todo o globo, ampliar o âmbito das suas missões a questões como a energia, o ambiente, as migrações e a segurança interna dos Estados; reafirmar-se como bloco militar; desenvolver o complexo industrial e a investigação militar; exigir aumento das despesas militares dos seus membros; corrida aos armamentos; instalação de sistemas de míssil na Europa; incluir nas missões acções de ingerência directa e ocupações a pretexto da manutenção da paz e aprofundar a instrumentalização das Nações Unidas para prosseguir os seus propósitos.

A realização da Cimeira da NATO em Lisboa, associa o nosso país a uma nova escalada da agressão contra os povos, e que colide com os princípios constitucionais que regem as relações internacionais de Portugal, de respeito pelos direitos dos povos, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados, preconizando a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, pelo desarmamento e pela dissolução dos blocos político-militares.

Num momento em que o Governo anuncia uma brutal ataque aos rendimentos do trabalho, aos direitos dos trabalhadores e do povo português, com vista ao aumento da exploração, exigindo mais sacrifícios a quem menos tem, continua a colocar as forças militares portuguesas ao serviço da NATO, das suas agressões, que nada têm a ver com os interesses nacionais.
Saudamos também o Movimento da Paz em Portugal, reunido na Campanha “Paz Sim! NATO Não!”, pelo esclarecimento do povo português e pela realização da manifestação a 20 de Novembro, pela paz.

O PCP está de acordo com os objectivos da petição. Neste sentido apresentamos um projecto de resolução que recomenda ao Governo que rejeite o novo conceito estratégico da NATO, a dissolução e a progressiva desvinculação de Portugal da NATO, a retirada das forças portuguesas envolvidas em missões militares da NATO, o fim das bases militares estrangeiras e das instalações da NATO em território nacional, o desarmamento e o fim das armas nucleares e de destruição maciça e o cumprimento pelas autoridades portuguesas da Carta das Nações Unidas e da Constituição da República Portuguesa, em respeito pelo direito internacional, e pela soberania e igualdade dos povos, pela paz e progresso da humanidade.


Disse!


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

SERRA E A FARSA- PARTE lll- Bolinha de papel - uma arma letal ???



ATINGIDO POR CHUVA DE PAPEL PICADO SERRA É HOSPITALIZADO
por Laerte Braga
O ex-governador São Paulo José FHC Serra foi hospitalizado hoje e vai ser submetido a uma tomografia detalhada depois de ter sido atingido por uma chuva de papel picado.

O jornal FOLHA DE SÃO PAULO afirmou que a Polícia paulista encontrou 500 folhas de papel A4 e um comitê da candidata Dilma Roussef. O candidato tucano José FHC Serra está exigindo que qualquer cidadão que seja pego portando papel seja indiciado por porte ilegal de armas.

O primeiro boletim médico liberado pelo ex-secretário de Saúde de César Maia indica que José FHC Serra não tem nada na cabeça. Já o rolo de fita crepe nega qualquer envolvimento na fraude da REDE GLOBO e diz não conhecer a bolinha de papel.

O militante que atirou a bolinha de papel no candidato foi condenado a uma semana sem recreio e a CHAMEX está sendo intimada pela Polícia Federal sob a acusação de dar suporte para ataques terroristas.

O PT, por sua vez, de olho no apoio de Marina da Silva, disse em nota oficial que doravante só serão usadas bolas de papel reciclado.

Segundo a nota as bolas de papel estão sendo vendidas a cinqüenta centavos. O preço de uma tomografia é de setecentos reais e ver a verdade vencendo mentira não tem preço.

O candidato José FHC Serra foi o primeiro ser humano a ser avisado por telefone que está “sentindo-se mal”, a revelação é de VEJA, porta-voz da verdade absoluta. A FOLHA DE SÃO PAULO garante (tem até infográfico) que o papel que deu origem à bola de papel foi comprado com cartão de crédito da ex-chefe do Gabinete Civil Erenice das Quantas.

A FOLHA garante ainda que o candidato José FHC Serra vai processar o papel higiênico. É que foi ao banheiro e em seguida percebeu crime de “violento atentado ao pudor”.

Informações conseguidas junto às autoridades policiais dão conta que na bolinha de papel que atingiu o candidato José FHC Serra estava escrito “não se abandona um líder ferido na estrada”. A assinatura era de Paulo Preto, engenheiro e assessor de José FHC Serra no governo de São Paulo.

O caso ganhou proporções internacionais e o governo dos EUA convocou o Conselho de Segurança das Nações Unidas para aprovar sanções contra o Irã. O país está desenvolvendo projetos de enriquecimento de celulose.

Na área do Judiciário o TSE – TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL – braço da campanha de José FHC, Serra absolveu o rolo de fita adesiva e aceitou a denúncia contra a bola de papel. Essa, por sua vez, nega qualquer vínculo partidário.

Em estado de perplexidade e ao mesmo tempo irado, o candidato José FHC Serra prometeu um tomógrafo para cada escola pública do País. O temor é que as crianças ao perceberem que bolinhas de papel garantem 24 horas de repouso, deixem as escolas vazias.

Por outro lado, as investigações se concentram num veio importante. José FHC Serra teria sido atingido por um pacote de papel A4 contendo o dossiê Aécio Neves.

A ANAC – AGÊNCIA NACIONAL DE AVIAÇÃO CIVIL – determinou que em todos os aeroportos do Brasil sejam presas as pessoas que tentam embarcar com papel ou bolinhas de papel. José FHC Serra vai acusar o governo de Lula de estar desenvolvendo projetos secretos de enriquecimento de celulose. A dúvida é que de que organização terrorista partiu a bola que atingiu José FHC Serra. Segundo as autoridades as investigações preliminares permitiram descobrir que como foi bola a AL QAEDA não tem nada a ver com o atentado. Se fosse aviãozinho de papel estaria comprovada a participação da organização de Osama bin Laden.

Por outro lado ficou certo que José FHC Serra é lerdo. Bush escapou da sapatada e Serra não conseguiu evitar a bolinha de papel.

O exame de balística do projétil determinou que bolinha/bala saiu de um chumaço de MAXPRINT, calibre A4, o que levou a ONU a interditar as fábricas da CHAMEX e da TILIBRA.

Segundo um porta-voz do Pentágono ainda bem que o ataque às torres gêmeas foi com aviões de verdade e não de papel, do contrário o estrago teria sido maior e sabe-se lá o que teria acontecido com o povo norte-americano

O bispo de Guarulhos D. Luís Gonzaga Bergonzini mostrou-se horrorizado com o ataque e recomendou a padre José Augusto a dizer aos fiéis que o mundo está perdido. “Hoje bolinha de papel, amanhã confete e serpentina, onde vamos parar?”

Cientistas de todo o mundo afirmaram em nota oficial que as academias de ciências e universidades de todo o planeta perceberam agora o que causou a extinção dos dinossauros. Uma super bola de papel que veio do espaço.

Um militante do PT, vizinho do primo da cunhada da filha da Dilma foi preso nas últimas horas e apontado como principal suspeito do atentado contra José FHC Serra.

Obama já disse que não vai tolerar programas de enriquecimento de celulose em qualquer país, exceto os EUA. Ermírio de Moraes entrou em desespero com a medida do presidente dos EUA, teme o risco de ir a falência.

A REDE GLOBO de televisão destacou vários de seus jornalistas para apurar a fabricação clandestina de bolas de papel. Quer que a Polícia suba os morros e detenha quem esteja portando papel. O jogo do bicho, tradicional instituição brasileira está sob ameaça de extinção.

Onde anotar os palpites?

O governador eleito do Paraná, Beto Richa, em estrita observância à liberdade de expressão, proibiu a divulgação de pesquisas de intenção de votos que mostrem José FHC Serra em queda, atribuindo os números ao papelório dos principais institutos de pesquisas no Brasil.

Segundo o governador eleito, tucano, é para preservar a moral e os bons costumes.

Um novo boletim médico sobre o estado de saúde de José FHC Serra, atingido por uma chuva de papel picado, deve ser emitido antes das 22 horas.

Observação – esse artigo foi escrito em cima de dados passados por uma guerreira histórica da luta popular no Brasil.
Texto recebido por e-mail de Carta O Berro "Vanderley - Revista" vanderleycaixe@revistaoberro.com.br

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PORTUGAL : Elevar o patamar da luta para responder à ofensiva



Comunicado do Comité Central do PCP
Elevar o patamar da luta para responder à ofensiva


O Comité Central do PCP, reunido a 17 de Outubro, analisou o actual momento político, económico e social e identificou as linhas fundamentais da ofensiva contra os trabalhadores e o povo, desencadeada pelo PS, PSD e pelo grande capital. O Comité Central do PCP decidiu das grandes tarefas que se colocam aos comunistas, reafirmou a luta de massas como o elemento fundamental de combate à ofensiva em curso e sublinhou a importância acrescida que assume a batalha das presidenciais. O Comité Central do PCP manifestou solidariedade com a luta em desenvolvimento, destacou a convocação da greve geral e apelou aos trabalhadores, às populações e a todos os democratas a que não se resignem perante a ofensiva e que lutem pela alternativa de esquerda e patriótica.

I Um roubo aos trabalhadores, ao povo e ao País

Na sequência de sucessivos pacotes de medidas restritivas e anti-sociais, o último dos quais anunciado a 29 de Setembro, o Governo apresenta uma proposta de Orçamento do Estado para 2011 que confirma a natureza de classe da política que PS e PSD têm em curso, ao serviço dos grandes grupos económicos e do capital financeiro, com a cumplicidade do CDS-PP e o patrocínio do Presidente da República.

Somando crise à crise, estas medidas – na continuidade da mesma política de direita que conduziu o País à actual situação e que a crise do capitalismo veio expor em toda a sua dimensão – não só não resolverão nenhum dos problemas com que o País está confrontado, como constituirão factor do seu agravamento e de maior vulnerabilidade e mais exposição à voragem do capital transnacional e aos interesses das principais potências europeias.

A apresentação pelo Governo da proposta de Orçamento de Estado para 2011 e do conjunto de medidas nele contidas, algumas das quais com aplicação ainda em 2010, constitui um grave passo na brutal escalada que, a pretexto da crise e em nome dos «mercados financeiros», tem por objectivos aumentar a exploração, liquidar direitos e favorecer a acumulação capitalista.

A proposta de orçamento apresentada pelo Governo ataca os salários e remunerações enquanto elemento essencial para o aumento da exploração, atingindo todos os trabalhadores (com cortes que poderão significar uma perda de poder de compra entre 7,5 e 15% nestes dois anos no caso dos trabalhadores da Administração Pública). De facto, a diminuição dos salários é agravada com o aumento da inflação (de 1,3 em 2010 para 2,2% em 2011), aumentos do IVA e da passagem para a taxação máxima de 23% de vários produtos, aumento da electricidade de 3,8%, cortes das indemnizações compensatórias às empresas de transportes, com o aumento das custas judiciais e outras taxas do Estado e de outros bens fundamentais. A proposta do Governo conduzirá inevitavelmente a uma nova recessão económica, aumentando o desemprego e ameaçando a sobrevivência de milhares de micro, pequenas e médias empresas, designadamente com a penalização do consumo interno que deriva da restrição do poder de compra dos trabalhadores e dos reformados, de mais uma quebra brutal no investimento público e de novas restrições nas transferências para as regiões autónomas e as autarquias locais (em relação ao orçamento de 2010 menos 2% e 2,5% respectivamente para os Açores e a Madeira e menos 9,5% para as autarquias locais).

A proposta do Governo ataca a protecção social com novos cortes em subsídios como o do abono de família (atingindo cerca de um milhão e quinhentas mil famílias) ou de inserção social, com o congelamento do valor das reformas e pensões (atingindo três milhões e quinhentas mil pessoas) e o alargamento da cobrança fiscal sobre elas, na redução da comparticipação nas despesas de saúde e nos medicamentos. Em simultâneo fragiliza a segurança social, aplicando um corte de mais de 10% nas transferências do Estado.

A proposta do Governo ataca o emprego e os direitos dos trabalhadores com a anunciada eliminação de postos de trabalho na administração pública e o congelamento de admissões que, para lá do comprometimento do conjunto das funções do Estado, constituirá um agravamento dos níveis de desemprego e desmantelamento dos serviços públicos, a que se junta o efeito da inevitável recessão na diminuição do emprego no sector privado.
A proposta do Governo aprofunda a linha privatizadora dos últimos anos e acentua a carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, aumentando a cobrança de IRS, designadamente através da imposição de limites às deduções a partir de rendimentos de 530 euros por mês, para além do efeito cego do aumento do IVA.

O CC do PCP denuncia que, a par destes insuportáveis sacrifícios impostos aos trabalhadores, PS e PSD preparam-se para manter intocáveis os privilégios e as condições de acumulação do lucro pelos principais grupos económicos e financeiros. Com mais de 90% da factura dirigida aos trabalhadores – alvos directos quer das medidas de aumento da receita (1700 milhões de euros) quer do corte na despesa (3420 milhões de euros) – o grande capital vê, uma vez mais, os seus interesses acautelados.

Envolta numa imensa operação ideológica destinada a apresentá-la como inevitável – seja pela manipulação da ideia de uma crise imposta de fora, da chantagem a pretexto da especulação dos centros financeiros ou da dramatização apocalíptica da crise política resultante de uma eventual não aprovação do Orçamento de Estado – esta nova ofensiva visa contribuir para a erradicação de direitos e assegurar as condições exigidas pelo grande capital para a intensificação da exploração, num processo premeditado destinado a amarrar o País aos interesses das grandes potências e do capital transnacional, num rumo sem saída que compromete o futuro e a soberania nacionais e arrasta para a pobreza os trabalhadores e o povo português. Com uma marca de classe incontornável, o que agora se anuncia visa fazer pagar aos trabalhadores, aos reformados e pensionistas, aos pequenos empresários, às novas gerações a factura da política de direita.

O CC do PCP chama a atenção de que aquilo que se pretende apresentar como inevitável é, no fundo, a mesma opção de sempre, uma opção determinada pelos interesses de classe capitalistas que PS, PSD e CDS-PP há muito prosseguem. Uma opção que tem cavado injustiças e desigualdades e que é responsável pela dependência do País. Uma opção à qual o PCP se opõe de forma clara e dá combate, fá-lo no contributo decisivo na dinamização da luta de massas, fá-lo-á na Assembleia da República com o voto contra da proposta de orçamento de Estado. Os trabalhadores, o povo e o País precisam com urgência de uma ruptura com a política de direita e de uma mudança na vida política nacional.

O PCP reafirma que há um outro rumo que responde aos problemas com que o País se confronta. Um rumo que enfrente as pressões do capital e não soçobre perante a ingerência externa. Um rumo que defenda e dinamize a produção nacional e o aparelho produtivo enquanto condição para aumentar a riqueza nacional, combater o desemprego, desenvolver as exportações, reduzir as importações, diminuir o défice e o endividamento externos. Um rumo que aposte na valorização dos salários (desde logo do salário mínimo nacional para os 500 euros a 1 de Janeiro de 2011 cumprindo o acordo estabelecido e aumentando o seu valor para pelos menos 600 euros em 2013) e pensões e no investimento público enquanto factor de dinamização económica e de garantia da protecção social indispensáveis para dinamizar o mercado interno, garantir a subsistência das pequenas e médias empresas. Um rumo que imponha uma política fiscal orientada para ir buscar recursos ao inesgotável cofre de lucros construídos sobre a especulação financeira, a usura das taxas de juro e a cada vez mais intensa exploração do trabalho. Um rumo que trave as privatizações e coloque nas mãos do Estado sectores básicos e estratégicos da economia. Um rumo que lute por outra Europa e pelo fim da união económica e monetária e que afirme a soberania e independência nacionais. Um rumo que contraponha ao declínio económico e retrocesso social, a concretização de uma outra política, patriótica e de esquerda.

II Greve Geral – novo patamar da luta de massas

O desenvolvimento e a intensificação da luta de massas apresenta-se como o elemento central para travar a política de direita e as suas brutais consequências. A única alternativa que se coloca aos trabalhadores, às populações e a todos os que são alvo da profunda injustiça social é a de elevar os patamares da luta e trazer para a rua a sua voz, transformando as suas justas indignações em luta.

O CC do PCP afirma a importância da convocação pela CGTP-IN da greve geral para o próximo dia 24 de Novembro, decisão que corresponde a uma necessidade de elevação da luta dos trabalhadores face à brutal ofensiva em curso. Uma resposta necessária num momento em que o novo pacote de «austeridade» veio acrescentar razões para a intensificação da luta. É tempo de dizer basta, é tempo de elevar a voz do trabalho e de os trabalhadores darem uma resposta clara e inequívoca.

O CC do PCP alerta para as manobras e pressões que terão como objectivo procurar travar o desenvolvimento da luta. Fomentando a resignação com base nas inevitabilidades e difundindo a ideia da inutilidade da luta, usando a pressão e a chantagem a partir das condições de precariedade e dos níveis de desemprego ou recorrendo a ameaças e à violação da lei da greve, o capital e todos quanto o suportam utilizarão todos os meios ao seu dispor para dar combate à greve e condicionar a adesão dos trabalhadores. O conjunto amplo e diverso de apoios e de adesão à greve, o entusiasmo e a disponibilidade já manifestada pelos trabalhadores, revelam grandes potencialidades de travar com enorme êxito esta jornada.

Num quadro de ferozes ataques aos salários e direitos e de forte chantagem do patronato, ganha importância acrescida a resposta organizada dos trabalhadores que com coragem dinamizam nas empresas e locais de trabalho a luta. São exemplos disso neste período, a luta dos trabalhadores da Brasileira, dos CTT, a greve dos trabalhadores das autarquias locais convocada pelo STAL no passado dia 20 de Setembro e a acção de contacto e recolha nas empresas de mais de 20 mil assinaturas na petição contra a precariedade levada a cabo pela Interjovem/CGTP-IN.
O CC do PCP sublinha o significado politico e de confiança no prosseguimento da luta que constituíram as acções promovidas pela CGTP-IN no passado dia 29 de Setembro. Um dia de acções e iniciativas de luta em diversas empresas, como foram os casos da Soflusa, da Sovena, da Lisnave, da Lisnave Yards, da Comet, da Fernando Branco e Silva, dos corticeiros do grupo Amorim, dos trabalhadores do comércio, e que culminou com grandiosas manifestações realizadas em Lisboa com mais de 50 mil trabalhadores e no Porto com mais de 20 mil.

O CC do PCP valoriza a dinâmica reivindicativa e o esforço em curso de contacto, esclarecimento e de mobilização que se desenvolve nas empresas e locais de trabalho e o conjunto de acções de luta que para já estão em preparação nos sectores da indústria e dos transportes. Neste quadro de desenvolvimento da luta, o CC do PCP destaca ainda a manifestação nacional dos trabalhadores da Administração Pública convocada pela Frente Comum de sindicatos para 6 de Novembro, em Lisboa.

O CC do PCP apela aos diversos sectores alvos da política em curso e às populações para que se associem à greve geral e exorta os trabalhadores a que se envolvam na sua preparação e organização, e que nela participem numa grande demonstração de resistência, inconformismo e de luta. Uma luta que, travada em circunstâncias muito exigentes, se tem desenvolvido e ampliado a diversos sectores, camadas e populações, como foi o caso das diversas acções contra a introdução e custos das portagens no passado dia 8 de Outubro em vários pontos do país, o buzinão na ponte 25 de Abril a 14 de Outubro, a luta dos utentes contra os encerramentos e a degradação de serviços de saúde, contra os encerramentos de escolas e a falta de condições materiais e humanas nos estabelecimentos de ensino e com a vitoriosa luta de forças de segurança. O CC do PCP manifesta a sua solidariedade com a luta desenvolvida e com as acções em preparação, nomeadamente a jornada de luta dos agricultores no próximo dia 20, em Aveiro.

A par e indissociável da luta social contra a exploração, é necessário intensificar a luta contra o militarismo, a agressão e a guerra – instrumentos do imperialismo para subjugar os povos. Neste quadro o CC do PCP releva a luta contra a NATO – braço armado do imperialismo, e sublinha a particular importância da manifestação contra a cimeira da NATO e seus objectivos, convocada pela campanha «Paz Sim! Nato Não!», para o dia 20 de Novembro, em Lisboa, e apela à sua participação.

III Nas eleições presidenciais afirmar um projecto patriótico e de esquerda

O CC do PCP sublinha, num quadro marcado por uma nova e mais brutal ofensiva contra os trabalhadores e o povo, a importância e valores acrescidos da candidatura de Francisco Lopes à Presidência da República. Com uma clareza de objectivos e um posicionamento que a distingue de forma cada vez mais evidente de todas as outras, a candidatura de Francisco Lopes assume nestas eleições um papel essencial e insubstituível, quer pela sua sólida vinculação aos interesses dos trabalhadores e do povo quer pela coerente assumpção da sua luta e aspirações enquanto factores de construção de uma política alternativa, patriótica e de esquerda.

Uma candidatura que assume os poderes e funções presidenciais como meio de intervir no sentido de contribuir para a concretização de uma democracia política, económica, social e cultural e que apresenta aos portugueses e ao País um projecto capaz de assegurar um Portugal desenvolvido, de progresso e soberano.

Uma candidatura que, ao contrário de todas as outras, não tem um rasto de comprometimento e envolvimento na política de direita que tem arrastado o País para o declínio.

Uma candidatura que, recolhendo uma crescente corrente de apoios e revelando uma expressiva participação e alargamento unitários, afirma um sentido de confiança nas possibilidades do país e na capacidade do seu povo para construir um outro rumo na vida política nacional.

IV Mais organização, intervenção e iniciativa - Avante por um PCP mais forte

O CC do PCP destaca a intensa actividade das organizações e militantes do Partido, na dinamização da luta dos trabalhadores e do povo, bem como no esclarecimento e mobilização contra a política de direita e as suas graves consequências. Não há silenciamento, manipulação ou discriminação que possa escamotear o papel do PCP, como motor da luta popular, como força da ruptura e mudança de política, da concretização duma política patriótica e de esquerda.

A realização da 34.ª Festa do Avante! constituiu um assinalável êxito pela sua dimensão e pela sua transbordante confiança e determinação de que é possível um outro rumo para Portugal.

Face à situação do País e às dramáticas consequências da política de direita e de abdicação nacional, o CC do PCP apela às organizações e militantes para uma intervenção forte, determinada e confiante no prosseguimento da acção de reforço do Partido Avante! Por um PCP mais forte, concretizando de forma integrada as direcções de trabalho decididas, em particular: a responsabilização, acompanhamento e formação ideológica dos quadros e dos militantes; o reforço da organização e intervenção junto da classe operária e dos trabalhadores, nas empresas e locais de trabalho; o fortalecimento e dinamização das organizações de base; a acção junto de camadas sociais específicas; o recrutamento de novos militantes e a sua integração; o trabalho de informação e propaganda; a difusão da imprensa partidária e o alargamento da base financeira própria, num trabalho sempre associado ao propósito de reforçar a acção, alargar a influência e ligação às massas, afirmar o PCP e a sua identidade comunista e preparar o Partido para cumprir o seu papel, sejam quais forem as condições em que tenha que vir a actuar.

No quadro da situação política e social, assume grande actualidade a campanha Portugal a Produzir, abrindo não só um amplo espaço para a intervenção e reflexão sobre a realidade, mas também como elemento de afirmação e projecção das propostas do Partido para uma ruptura com o rumo de declínio nacional em curso.

Reforçar o Partido, alargar a intervenção política, reforçar as organizações e movimentos unitários, dinamizar a luta de massas, concretizar uma ampla campanha de mobilização e esclarecimento na batalha eleitoral das presidenciais, eis as questões decisivas que se colocam e que exigem uma empenhada e confiante intervenção de todos os militantes e organizações do Partido na sua concretização.

V Uma força imensa, capaz de impor um novo rumo para Portugal

A mais brutal ofensiva em curso contra os direitos dos trabalhadores e do povo português desde o fascismo, o processo de chantagem e pressão sobre os interesses nacionais dirigido a partir do grande capital nacional e estrangeiro a que se associa um quadro de crescente subordinação às orientações da União Europeia, a subserviência do poder político ao poder económico, não podem ser derrotados sem uma ruptura com a política de direita e uma profunda mudança na vida nacional.

Num momento em que o capitalismo revela de forma mais evidente o carácter opressor, a natureza exploradora, os crimes e limites do sistema; apesar da profunda e poderosa ofensiva ideológica do grande capital visando a resignação e o conformismo; do permanente recurso ao anticomunismo, revelador do receio que as classes dominantes têm da acção organizada e do papel da classe operária e dos trabalhadores – a verdade é que cresce a indignação e o protesto e se alarga a consciência de que, a par do reforço do PCP, só com o desenvolvimento e intensificação da luta se travará a actual ofensiva.

O PCP afirma-se como a força indispensável aos trabalhadores e ao povo português e dirige-se a todos os que estão a ser duramente atingidos nos seus legítimos direitos, a todos os que são alvo das injustiças, a todos os democratas e patriotas que se inquietam com o rumo de retrocesso social e declínio nacional, para que façam ouvir a sua voz. Juntos constituiremos uma força imensa, para impedir o afundamento do País e para alicerçar a construção duma política alternativa e uma alternativa política, patriótica e de esquerda, para Portugal.

Os trabalhadores e o povo podem contar com o PCP. Podem contar com um partido confiante, combativo e decidido a cumprir o seu papel na ruptura com a actual política, na construção de uma democracia avançada e do socialismo.

texto original em http://www.avante.pt/pt/1925/emfoco/110937/

A xenofobia não tem função ideológica: é um instrumento de classe


A xenofobia não tem função ideológica: é um instrumento de classe
Annie Lacroix-Riz


...a xenofobia, brandida pela enésima vez em França, não tem função ideológica: praticada com intensidade em tempos de crise,[...] insere-se plenamente na luta pelo esmagamento dos salários – quer dizer pela manutenção e até mesmo aumento dos lucros tornado possível pela divisão dos assalariados (entre mulheres e homens, estrangeiros e franceses, jovens e velhos, etc.).



Artigo publicado na edição do jornal Avante! de 14 de Outubro de 2010
http://www.avante.pt/pt/1924/temas/110806/

Colocado on line em 2010/10/20 http://aaweb.org/teste/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=105&Itemid=11


Esta indignação contra a ignomínia é lírica e comovente, mas convém recordar que a xenofobia, brandida pela enésima vez em França, não tem função ideológica: praticada com intensidade em tempos de crise, com uma eficácia particularmente temível nos países colonizadores (a França já o foi e ainda o é de facto), ela caracterizou o fim da Terceira República, em particular a era Daladier-Reynaud, e insere-se plenamente na luta pelo esmagamento dos salários – quer dizer pela manutenção e até mesmo aumento dos lucros tornado possível pela divisão dos assalariados (entre mulheres e homens, estrangeiros e franceses, jovens e velhos, etc.).

A xenofobia obteve o aval, então oficial, da «esquerda governamental», que estava precisamente «em funções», diferença (uma das únicas) com a situação actual (estamos actualmente na fase de assalto do tipo Doumergue-Laval), e que, por conseguinte, tomou a iniciativa oficial.

Ora, a referida iniciativa foi ditada pelas potências do dinheiro – a Câmara de Comércio de Paris, alta instância do grande capital francês, feudo da Confederação Geral do Patronato Francês (CGPF), antepassado do MEDEF, que ditava a Daladier e aos seus ministros os seus textos de 1938-1940 contra os estrangeiros em geral e os judeus estrangeiros em particular. Digo ditava, stricto sensu, como se vangloriava então o presidente da dita câmara na frente dos seus mandantes em assembléia-geral (provas escritas testemunham-no, visto que comparava os textos submetidos aos ministros com os decretos finalmente adoptados) [1].

É também esta a dimensão essencial da luta actual contra os funcionários públicos, lei LRU incluída, cujo alcance estes não entenderam.

O destino do nosso movimento demonstrou-o em 2009. Na universidade houve a tendência para acreditar que a ofensiva thatcheriana era ideológica, imputável a um analfabeto ignorante das letras (uma coisa não impede a outra: para incarnar a luta contra o intelecto mais vale escolher outra coisa que um ilustre letrado), e posta em prática por uma administração débil, através de reformas «absurdas» (eliminação das línguas vivas na formação de professores de línguas,* e outras fantasias da mesma massa, que estupidez!).

Quando, em cima, se quer destruir tudo, pratica-se uma política de aparência absurda, que confronta as suas vítimas de baixo com uma incompreensão total, como por exemplo a semana de seis dias e as 48 horas semanais legais, restabelecidas em Novembro de 1938 numa França onde a média da semana de trabalho era de aproximadamente 36 horas. O que Naomi Klein qualifica de «estratégia do choque» tem uma longa história na guerra social, a qual não decorre nem dos sentimentos nem dos estados de alma que estão no coração do generoso texto citado por Ophélie Hetzel.

Georges Sadoul, no seu Diário de Guerra, cita o caso da supressão do descanso dominical «por um grande banco» parisiense, descanso substituído por «dois meios-dias de folga que nunca poderiam ser gozados juntos num só dia», o que sobrecarregou as famílias, «sobretudo as mulheres». Quando a jovem secretária «católica bem-pensante [e…] bem educada» do estabelecimento reclamou ao seu subdirector, em 1939, o regresso ao descanso dominical, argumentando que «o banco não funcionaria pior. Porquê então tomar uma medida tão desumana?», ele escarneceu: «”Mas porque agora estão à nossa mercê, minha pequena”» [2].

O assalto contra as pensões foi lançado não porque vivemos mais tempo, mas porque «a reforma» é partilhada pela direita supostamente «republicana», a extrema (da qual a primeira já não se distingue mais) e «a esquerda governamental», que a subscreveu quando estava «em funções» e se empenhava nos tratados «europeus». Ele vai levar-nos às reformas de miséria anteriores à guerra, e tem exatamente a mesma função que a gigantesca injustiça fiscal, a caça aos estrangeiros, o combate ao estatuto da função pública (daqui em diante seriamente encetado), etc.

O capitalismo não trai as suas idéias

Quando nós próprios e as nossas organizações de defesa reatarmos aquelas análises que eram
correntemente feitas, durante a crise sistêmica dos anos 30, pela fracção radical, hoje muito
enfraquecida, do movimento operário – e com a acção correspondente, bater-nos-emos mais
eficazmente contra o inimigo comum dos ciganos, franceses ou estrangeiros, dos estrangeiros (pobres, não ricos) em geral e de nós próprios. O capitalismo em crise não «trai [as suas] leis» agindo como o faz atualmente, antes põe-as em prática como nas crises de 1873 e 1929-1931.

A direita fasciza-se hoje como se fascizou entre as duas guerras, a esquerda governamental «[não] baixa os olhos», mantém-se fiel a si mesma, privada de política de substituição, porque não dispõe de nenhum meio contra o grande capital, que a controla em larga medida: é um facto, não uma avaliação ideológica – aqueles que duvidam apenas têm de fazer um longo estágio nos fundos das Informações Gerais, séries B/A e G/A, nos Arquivos da Prefeitura de Polícia, ou do Ministério do Interior, na série F7, nos Arquivos Nacionais, que poderá conduzi-los até um período bastante recente em certos processos ligados à formação profissional.**


Esta esquerda convencida de que o capitalismo decorre da mesma fatalidade que a chuva e o bom tempo não criará nenhuma alternativa em 2012, é ela própria que o reconhece, aliás com grande simplicidade, e o [jornal] Le Canard enchaîné [3] não é o único a dizê-lo, sendo que já Daladier, chefe do Partido Radical, fingiu virar à esquerda antes das eleições da Frente Popular.

Em 1936, a população francesa, ou «o povo de esquerda», ignorava que Blum e Vincent Auriol tinham obtido o seu programa socioeconômico do Banco de França e de elementos franceses (oriundos do Banco de França) do Banco de Compensações Internacionais.

Não temos a desculpa de ignorar hoje que o Partido Socialista, mesmo entre os adversários pessoais do Sr. Strauss-Kahn, não tem outra política que a que é ditada pelo FMI – ou seja pelo clube constituído desde Julho de 1944 pelas classes dirigentes dos nossos países e dos Estados Unidos, garantes em última análise e até nova ordem do cofre forte das primeiras.


Recriar instrumentos de defesa

Enquanto considerarmos que abordar estas questões significa «sair do quadro da defesa sindical» ou afins continuaremos a perder com a mesma regularidade que temos perdido, sem interrupção, desde há 30 anos. De resto, a vitória social de 1936 não foi eleitoral – o programa social e económico de Blum era o da austeridade financeira do Banco de França – mas deveu-se exclusivamente à acção de Maio-Junho de 1936 dos trabalhadores franceses, favorecida pelos «unitários» e combatida pela maioria dos «confederados» (dos quais as nossas actuais «direcções sindicais» são quase sem excepção suas herdeiras); foi ela que deu uma trégua real às famílias de imigrantes, vítimas desde o início da crise de uma verdadeira perseguição, nomeadamente policial, trégua infelizmente muito breve. «A esquerda governamental» muito rapidamente após este grande sucesso mal preservado preparou em grande medida a via para Vichy, inclusive em matéria de imigração, afirmação, sublinho-o,absolutamente não polêmica.

Globalmente, somos nós que, certamente sem o querer, traímos os nossos próprios interesses em proveito dos que nos fazem frente, os quais não traem nunca os seus, porque são servidos por mandatários eficazes, estritamente controlados (nós não podemos dizer o mesmo), que não cessam nunca de «raciocinar», ou seja, calculam todos os seus golpes, ao milímetro (funciona enquanto não nos mexermos). Nunca abdicam. Até agora, só no campo dos trabalhadores a abdicação reinou. Não há «cleros» em geral, há «cleros» que servem interesses de classe, e os que nos sobrecarregam, reduzindo os nossos salários directos e indirectos, escolhem, para nos fazer aceitá-lo, e têm toda razão, aqueles e apenas aqueles que lhes são devotados. Só nos resta recriar os instrumentos de defesa que devolverão visibilidade e eco aos «cleros» que servem o nosso campo. E aqui há um longo caminho a percorrer.

Precisamos tanto senão mesmo mais de lucidez socioeconômica e política (e de conhecimento frio da história) como de indignação épica (relendo Os Miseráveis, reconheço, contudo, aquilo que devemos aos impulsos de Victor Hugo, e admiro o valente Baudin, que declarou: «Vão ver como morremos por 25 francos [por dia]!»(, antes de se entregar ao fogo dos golpistas de Dezembro de 1851).


Impõe-se naturalmente assinar todas as petições de defesa dos ciganos, o que fiz, como todos nós, sem dúvida. Mas defendê-los-iamos melhor, bem como à maioria das pessoas que vivem na França, a nós inclusive, tendo em conta o que está para trás e renunciando a sonhar com 2012 [eleições presidenciais em França (NR)], sonho que pode tornar-se em pesadelo. Ver o caso grego, espanhol, etc.


[1] cf. o artigo publicado no recentemente defunto Siné Hebdo em Maio de 2009, «”A caça aos
clandestinos” da III República agonizante».

[2] Journal de guerre (2 de Setembro de 1939-20 de Julho de 1940), Paris, Les Éditeurs français
réunis, 1977, p. 105

[3] Da semana passada, a propósito de F. Hollande.

* No original é usada a sigla CAPE, Certificat d'aptitude au professorat de l'enseignement du second degré, (certificado de aptidão ao professorado do ensino de segundo grau). (NR)

** No original é usada a sigla APP, Atelier de Pédagogie Personnalisée, (atelier de pedagogia
personalizada). NR

Texto publicado em http://www.rougemidi.org/spip.php?article5237. (1.09.2010)


Tradução e subtítulos da responsabilidade da Redacção do Avante!.

SERRA E A FARSA - PARTE ll











quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A farsa de Serra e a coragem do padre (e etc)




A farsa de Serra e a coragem do padre (e etc)






















A FARSA:


Qualquer telespectador que assistiu a entrevista de José Serra nos noticiários da Globo e da GoboNews, após a agressão de que ele foi vítima, sentiu-se deverasmente (como diria o outro - Odorico, no caso) compungido. E linhas gerais, José Serra simplesmente não conseguia entender o porque de tanto ódio, não há motivos para agressões, etc, etc. A ponto de alguns sacanas batizá-lo de Serra Tereza de Calcutá.


A considerar a Globo, numa caminhada em Campo Grande, Rio de Janeiro/RJ, militantes petistas atingiram a cabeça de Serra com um objeto pesado. Depois, já havia se transformado em um rolo de fita crepe. Tão agressiva foi a agressão (desculpem a redundância) que Serra foi a um hospital para primeiros atendimentos e depois, passou por uma tomografia. Nada grave. Mas ele se viu, por instruções médicas, obrigado a cancelar a agenda do dia.


Comentários primeiros:- A manifestação foi chamada por sindicalistas. (Pra lembrar, o então ministro Serra demitiu 5.000 trabalhadores que combatiam a dengue - o que lhe rendeu o apelido, em 2002, de PresiDengue)- A CBN acompanhava a caminhada e ao vivo informou que militantes do PSDB é que partiram para cima dos sindicalistas.- Militantes petistas, que faziam panfletagem nas proximidades, entraram na briga.


Infelizmente, para o abjeto senhor Serra, o SBT mostrou o que aconteceu de fato:- Na caminhada, Serra recebeu uma bolinha de papel que quicou em sua careca e caiu. Ele nem percebeu. Continuou a caminhada.- Vinte minutos depois recebeu uma ligação em seu celular. Atendeu. E na sequência botou a mão na cabeça. Dai passou a rolar a versão da Globo.- A matéria do SBT está nesse link. Assistam. http://goo.gl/pM2n


A CORAGEM


No último domingo foram celebradas diversas missas em louvor a São Francisco, em Canindé, no Ceará. Coisa de 100 mil pessoas no lugarSerra e Tasso (o do jatinho) lá estavam. Jesus Serra, claro, para se mostrar como religioso e tals. E, claro, seus militantes distribuir os tais panfletos "apócrifos" contra Dilma.Só que o padre Francisco não gostou da zona e deu uma dura nos dois. O resto, a gente já sabe, o padre teve que sair protegido senão Jereissati ia cobrí-lo na porrada.


Bem, o áudio do esporro pode ser ouvido aqui, http://www.youtube.com/watch?v=3vuebps_weo
E ETC


- Claro, Globo e GloboNews não fizeram a mínima menção ao incidente de Canindé.


- Muitas pessoas acham que Serra se sentiu mal porque foi informado do resultado do Ibope, dando 12 pontos a mais pra Dilma, nos votos válidos. (Na segunda, para lembrar, Vox-Populi já apontava a tendência de crescimento de Dilma, abrindo 14 pontos sobre Serra)



Texto enviado à ESK por Marinho "Marinho (NeoCrumb)" neocrumb@gmail.com

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ELEIÇÕES 2010: ANTES, A TRAGÉDIA; AGORA, A FARSA


Eleições 2010:

ANTES, A TRAGÉDIA; AGORA, A FARSA


Karl Marx, em 18 de Brumário, 1852, livro escrito para explicar o golpe de Estado dado por Luis Napoleão, sobrinho do velho Napoleão, cita Hegel quando este afirma que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E acrescenta a sua famosa frase: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Herbert Marcuse arremata para concluir que a repetição de um evento como farsa pode ser ainda mais terrível do que a tragédia original. É o que aconteceria, caso Serra vencesse as eleições de 2010.

A tragédia aconteceu com FHC, quando este institui o Real. Com esse plano, criou as condições sem as quais o capital não poderia se desenvolver livremente. Privatizou as empresas estatais; abriu as portas para a corrida e implantação de faculdades particulares; fez uso de vários expedientes legislativos (Projetos de Leis em regime de urgência de votação, portarias e normas do Ministério do Trabalho) para flexibilizar a legislação trabalhista; desindexou a política de reajuste salarial e, para coroar suas mediadas liberalizantes, criou a Lei de Responsabilidade Fiscal, um verdadeiro garrote, utilizado para extrair recursos do Tesouro para o pagamento da dívida pública.

Agora, vem Serra, figura insossa e pálida, conjurar ansiosamente em seu auxílio o espectro do governo FHC. Tempera a tragédia que foi aquele governo vestindo trajes lulista, para afirmar que, se eleito, vai aprofundar o programa social do presidente operário e fortalecer o patrimônio do povo brasileiro. Fortalecer! Que diabo isso quer dizer? Que não vai privatizar o que sobrou de estatais do governo FHC? Ou será que fortalecer significa deixar que instituições como o BNDES, BNB, Petrobras encontrem no mercado as condições de crescimento como assim fizera o presidente intelectual? Por que Serra não mostra sua cara e diz em alto e bom som que fortalecer é fazer o que seu “herói” do passado fez, ou seja: privatizar?

Figura caricatural, Serra é obrigado a fazer uso de expressões ambíguas e vazias de conteúdo. E não poderia ser diferente. Ele sabe que não pode mais repetir o governo do seu consorte de partido. Afinal, tudo que o mercado exigiu, FHC já o fez. Por isso, se ganhasse as eleições, seu governo seria uma farsa ainda mais terrível do que a tragédia que fora aquele governo. É bom lembrar que gato escaldado tem medo de água fria. O povo brasileiro não vai pagar, nas urnas, para viver novamente a desgraça do Real. E já ri das bazófias desse fanfarrão “psdbista”. O eleitor bem que lhe poderia recitar uma frase de uma das fábulas de Esopo: Hic Rhodos, hic salta! Tal como o atleta alardeador de Esopo, que vivia a invocar testemunhas de que havia realizado, em Rodes, um salto prodigioso que sua constituição física por si já o desmentia, Serra também não pode provar o que diz que fez e vai fazer. E se pudesse, dessa incumbência está desobrigado. Seu governo, em São Paulo , é a prova mais eloqüente do que é capaz de promoter e não cumprir.


Texto escrito por Francisco José Soares Teixeira
Professor da Universidade Estadual do Ceará e
Da Universidade de Fortaleza.

Autor de “Pensando com Marx” (Ensaio) e
co-autor de “Marx no século XXI” (Cortez)


Recebido por e-mail enviado à ESK pelo Porf. Epitacio Macario


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Construir um Portugal com futuro


Construir um Portugal com futuro

Francisco Lopes


Portugal enfrenta uma situação com uma gravidade sem precedentes desde o fascismo, que coloca ao povo português a necessidade de fazer opções quanto ao futuro, baseadas na análise das razões que nos conduziram à actual situação e no rumo capaz de a enfrentar e superar, na afirmação convicta que Portugal tem futuro, de que é possível um País mais desenvolvido e mais justo.

Ao longo das últimas décadas, em consequência da natureza do capitalismo e do agravamento da sua crise, do processo de integração europeia, com a intervenção e estímulo dos governos e de outros responsáveis políticos, diversos mecanismos trituradores foram accionados contra o País.

O mecanismo do mercado único que conduziu à destruição do aparelho produtivo e da produção nacional em larga escala e ao desaproveitamento dos recursos nacionais. O mecanismo dos baixos salários e pensões, do seu condicionamento ou redução, da generalização da precariedade, do retrocesso dos direitos e das condições de vida, com o agravamento da exploração, a insegurança, a desvalorização do trabalho e a desqualificação dos trabalhadores.

O mecanismo de privatização, desmantelamento e desagregação dos serviços públicos, nomeadamente o Serviço Nacional de Saúde, a escola pública e a Segurança Social, sustentado na invocação da necessidade de corte nas despesas sociais e de investimento público, mas que, ao mesmo tempo, é acompanhada da mobilização de milhares de milhões de euros para os grupos económicos e financeiros, para a banca, de que a delapidação de dinheiro público sobre a fraude do BPN é apenas um exemplo.

O mecanismo de privatização generalizada de sectores básicos e estratégicos, com o domínio dos grupos económicos e financeiros, da banca e de outros grupos monopolistas, cujos colossais lucros se baseiam na descapitalização e ruína do sector produtivo, liquidação de muitos milhares de pequenas e médias empresas e explorações agrícolas. Um processo alimentado ao longo de anos pela promoção do endividamento das famílias e de recurso a empréstimos ao estrangeiro, em que a banca funciona simultaneamente como aspirador dos orçamentos familiares com taxas e juros proibitivos em benefício dos seus lucros e como agente de transferência de parte significativa desses recursos para os lucros dos bancos estrangeiros junto dos quais se financia. Um processo baseado na usura e na especulação, contrário à produção, ao emprego e ao desenvolvimento.

O mecanismo de extorsão do erário público, dos recursos nacionais, que aproveitando a dependência externa e os défices provocados pela liquidação do sector produtivo e da produção nacional, empurra o País para obter empréstimos aos bancos cinco pontos percentuais acima do que estes conseguem no financiamento pelo Banco Central Europeu (BCE), traduzindo-se tal processo, baseado na recusa desse banco central de empréstimo directo aos Estados, no saque de centenas de milhões de euros por ano (milhares de milhões de euros ao longo dos anos) ao erário público transferindo-os para os lucros da banca e a especulação financeira.
É um processo marcado pelo comprometimento da soberania nacional, designadamente na submissão à lógica da integração europeia e do seu rumo e pelo ataque à democracia e aos direitos democráticos.

Tempos de luta e confiança

É assim que chegámos ao grau actual de declínio e injustiças sociais que caracteriza o País. As causas são evidentes, os responsáveis estão identificados. No entanto, aqueles que conduziram o País à situação em que se encontra multiplicam-se com iniciativas de insistência no mesmo rumo de desastre, com ou sem o recurso ao FMI, agora defendendo a aplicação de medidas ainda mais drásticas, chamadas de austeridade, mas que verdadeiramente constituem um pacote brutal de injustiça social e afundamento do País.

A exigência é de ruptura e mudança, de um caminho novo, patriótico e de esquerda, vinculado aos valores de Abril e ao cumprimento da Constituição da República Portuguesa. Um programa de mudança que impõe como elementos centrais pôr Portugal a produzir, a criar emprego com direitos, a distribuir a riqueza com justiça, a melhorar os salários, as pensões e as condições de vida, a garantir serviços públicos com qualidade e eficiência.

Um projecto patriótico e de esquerda, de desenvolvimento, soberania, democracia, justiça e progresso social cuja concretização exige a participação e a luta dos trabalhadores e do povo português de que é significativa expressão a Greve Geral de 24 de Novembro e tem nas eleições presidenciais, no apoio à nossa candidatura, uma oportunidade para abrir caminho à sua concretização.

Os tempos que vivemos são de preocupação e incerteza, mas são também de luta, esperança, confiança e determinação para a construção de um País mais justo e desenvolvido.

* Francisco Lopes, candidato à Presidência da República, é membro da Comissão Política do CC do Partido Comunista Português.

Este texto foi publicado no Avante nº 1.924 de 14 de Outubro de 2010.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Preconceito fascista em FRANÇA



Ficheiro secreto contra ciganos
A polícia francesa utiliza desde há vários anos um ficheiro secreto e ilegal com dados pessoais de ciganos franceses e estrangeiros.

Segundo revelou o LeMonde.fr, no dia 7, o arquivo denominado MENS, sigla de minorias étnicas não sedentarizadas, constituído pelo Gabinete Central de Luta Contra a Delinquência Itinerante, viola claramente a lei francesa que proíbe bases de dados não declaradas com menção de origem racial e étnica, delitos que são punidos com cinco anos de prisão e 300 mil euros de multa.

Na posse de documentos comprovativos, dois advogados das quatro principais associações de ciganos e de nómadas apresentaram na passada semana uma queixa ao procurador de Paris.

O Ministério do Interior afirmou, num primeiro instante, que «não tem conhecimento» de tal ficheiro e a própria polícia desmentiu a sua existência. Porém, horas mais tarde veio reconhecer em comunicado que existiu mas foi destruído em Dezembro de 2007.

Por seu lado, o ministro do Interior, Brice Hortefeux, declarou que «a confirmar-se a existência desse ficheiro» irá «retirar todas as consequências».




Nove anos de guerra imperialista no Afeganistão


Nove anos de guerra imperialista no Afeganistão

Derrota impossível de esconder


Nove anos depois do início da guerra do Afeganistão, o imperialismo procura ocultar o atoleiro em que se tornou a ocupação do território. O recrudescimento da resistência faz disparar as baixas entre as tropas estrangeiras tornando cada vez mais evidente que só a retirada pode pôr fim ao conflito.


A 7 de Outubro de 2001, os EUA e a Grã-Bretanha iniciaram o ataque ao Afeganistão bombardeando a capital, Cabul, e outras grandes cidades do país, como Jalalabad, Kandahar, Herat, Kunduz, Farah ou Mazar. Seguiu-se a invasão, a deposição do governo talibã e a ocupação do país com a NATO a assumir o comando das operações. Nove anos depois, o balanço é trágico.
O objectivo de democratizar a vida política nunca passou de propaganda. Nas últimas «eleições», por exemplo, apenas 24 por cento dos eleitores habilitados compareceu às urnas e os relatos de compra de votos, coacção ou tráfico de credenciais voltaram a marcar o acto.

A corrupção é intrínseca ao regime sustentado pelos EUA e seus aliados, sobejando denúncias de apropriação dos fundos destinados à «reconstrução». A produção de ópio, segundo as Nações Unidas, floresceu como nunca estendendo-se agora por mais de um milhão e cem mil hectares.
O número de civis mortos em consequência das acções militares dos ocupantes supera os 33 mil (veteransforpeace.org), ao que acrescem, de acordo com dados oficiais, 27 mil mortos entre os membros dos grupos armados da resistência e cerca de 7 mil efectivos do contingente afegão.
A guerra nunca cessou. Mais de 2100 soldados ocupantes já morreram em combate, cerca de 60 por cento dos quais são norte-americanos. Mais de 7 mil soldados dos EUA foram feridos e milhares regressaram das respectivas comissões com graves distúrbios psíquicos.

São os próprios norte-americanos que admitem que nos últimos três anos os insurrectos ganharam vigor. O ano de 2010 é já o mais mortífero para as tropas invasoras com mais de 560 soldados abatidos em combate.

Obama pior que Bush

Barack Obama aumentou o contingente dos EUA garantindo o início da retirada para o segundo semestre de 2011. Mas a realidade mostra que a chamada nova estratégia do presidente norte-americano não conduziu à pacificação do território.

Depois da maior ofensiva militar desde 2001, realizada em Fevereiro passado, na província de Helmand, os grupos que resistem à ocupação acumularam simpatia popular e ganharam terreno.
Actualmente, os rebeldes dizem controlar 75 por cento do território e a esmagadora maioria da rede viária. O total de norte-americanos mortos no Afeganistão durante a administração Obama superou, em Agosto deste ano, o total de baixas durante a administração Bush.

A ONU admite que nos primeiros seis meses de 2010, mais de 3200 civis afegãos morreram ou ficaram gravemente feridos na sequência de operações dos EUA/NATO, o que representa um aumento de 31 por cento face ao mesmo período de 2009.

Por outro lado, os grupos da resistência estão longe de ser um corpo homogéneo de inspiração confessional ligado aos talibans. O ano passado, Matthew Hoh, alto quadro do Departamento de Estado no Afeganistão, admitiu, na carta da sua demissão, que, ao contrário do procuram fazer crer os EUA, a maioria dos combatentes não luta pela recuperação do poder pelos talibans mas pela expulsão dos estrangeiros do país.

Retirada é a solução

Neste quadro, a retirada das tropas ocupantes é a única solução viável. E enquanto o imperialismo procura ocultar o atoleiro em que se transformou o Afeganistão (abafando, minimizando ou mentindo sobre as ocorrências violentas e os combates), manobra nos bastidores uma trégua com alguns dos senhores da guerra.

Não o faz directamente. Por intermédio do seu homem de mão, Hamid Karzai, promove o chamado Alto Conselho da Paz – estrutura que reúne membros do governo e líderes territoriais e de grupos armados–, alicia os combatentes com garantias de dinheiro e emprego e apoia o estabelecimento de pontes de diálogo com o ex-arqui-inimigo Mohammad Omar.

O objectivo é não permitir que se consolide uma derrota humilhante, a qual beliscaria a imagem do imperialismo norte-americano como superpotência militar e animaria a resistência de outros povos face às acções belicistas de Washington.


«Fogo amigo» pode ter morto refém inglesa

O comandante das forças ocupantes no Afeganistão, David Patreus, admitiu que a britânica Linda Norgrove pode ter morrido na sequência da explosão de uma granada lançada por soldados dos EUA durante a tentativa de resgate.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, admitiu igualmente que a escocesa pode ter sido morta pelos militares envolvidos na operação e anunciou a abertura de um inquérito conjunto angolo-norte-americano para apurar o sucedido.

Linda Norgrove, 36 anos, foi raptada dia 26 de Setembro na província de Kunar. A primeira versão dos acontecimentos indicava que a funcionária da Development Alternatives Inc. (empresa fachada dos serviços secretos norte-americanos) tinha sido executada pelos raptores.


Texto original no Jornal Avante em http://www.avante.pt/pt/1924/internacional/110869/




quarta-feira, 6 de outubro de 2010

DE VANGUARDA ARTÍSTICA VIVA DE SEU TEMPO A HOJE “VIVER SEM RAZÃO”



ENTREVISTA DE GERALDO VANDRÉ A GLOBO NEWS

DE VANGUARDA ARTÍSTICA VIVA DE SEU TEMPO A HOJE “VIVER SEM RAZÃO”


Geraldo Vandré, um dos compositores mais emblemáticos e geniais oriundo de uma geração de artistas talentosos da MPB na década de 60 do século passado, ao completar 75 anos de idade, após longos 37 anos de um longo silêncio acerca do que realmente teria acontecido com ele, concedeu uma entrevista para a TV a cabo Globo News. Mas qual o interesse da organização dos Marinhos em mostrar o célebre ícone da resistência cultural do pós-golpe militar de 1964, anunciando em tom de grande sensacionalismo, “Geraldo Vandré quebra o silêncio em entrevista exclusiva”?

A Globo News ordena que o entrevistador (Geneton Morais) centrasse suas perguntas em apenas dois pontos básicos, as músicas “Disparada” e “Pra não dizer que não falei das flores”, Geneton insiste em pedir explicações do porquê destas canções , como se ambas fossem as únicas “obras-primas” criadas por Vandré. No entanto, a obra do genial Vandré, hoje reduzido a uma sombra do seu próprio passado é muito mais vasta e mais direta nas palavras, como diz esta canção chamada “Cantiga Brava”: “O terreiro lá de casa/ Não se varre com vassoura/ Varre com ponta de lança/ E bala de metralhadora”. Não, isto não interessa para os barões da comunicação no Brasil. O objetivo traçado na pauta era demonstrar como um agitador cultural, considerado antes como “subversivo”, foi esmagado mentalmente pelo regime militar e hoje se dedica exclusivamente a lançar loas à Força Aérea Brasileira. Isto, às vésperas das eleições presidenciais, não foi mera casualidade. Vejamos quem foi e qual significado da obra de Vandré dentro da história recente do Brasil.

UMA OBRA EM CONEXÃO COM A EBULIÇÃO SOCIAL/CULTURAL DOS ANOS 60

A década de 60 foi profundamente marcada pela Revolução Cubana deflagrada em pleno “quintal” do imperialismo ianque, pela Revolução Cultural na China, o Maio Francês em 1968. Ecos que se manifestaram com força no Brasil antes e após o golpe militar de 1964. A inquietação das ruas encontrava expressão nas artes: o teatro de José Celso Martinez (“Roda Viva” de Chico Buarque), o Cinema Novo de Glauber Rocha (“Dragão da maldade contra o Santo Guerreiro”), o periódico “O Sol” no jornalismo, só para citar uns poucos exemplos.

Neste contexto, a carreira musical de Vandré foi curta, mas incisiva, tornando-se conhecido do grande público após os festivais promovidos por emissoras de televisão. Fora influenciado pela Bossa Nova, mas não demorou muito para criar um estilo próprio, fundindo dialeticamente jazz/bossa/baião. Em 1966 ele ganhara o da Excelsior com a música “Porta-estandarte” e o da Record com “Disparada”. Poucos sabem que foi Vandré o primeiro a cantar em festival uma música do novato Chico Buarque em 1965 (“Sonho de um Carnaval”). Em companhia de Carlos Lyra, ajudou a criar os CPC (Centro Popular de Cultura da UNE). Foi um dos pioneiros na divulgação da importante obra de Luiz Gonzaga em todo o Brasil: em seu segundo disco, “Hora de lutar” (1965) cantou “Asa Branca” numa releitura bem original, guerreira.

Em meados de 1968, quando a agitação política e cultural evoluía rapidamente no país, Vandré passa a ser o ícone da resistência às arbitrariedades provocadas pelo regime militar, brota a canção “Pra não dizer que não falei das flores” com o “Quarteto Livre”, formado por Nana Vasconcelos, Franklin, Nelson Ângelo e Geraldo Azevedo, no festival Internacional da Canção promovido pela Rede Globo. Os festivais foram campos férteis para o sentimento de revolta da juventude oprimida. Os músicos atuavam como porta-vozes da angustia e da frustração da população. Ou seja, estes festivais apresentavam uma questão mais de fundo do que a aparência de uma simples competição. Nas ruas a cada dia crescia a insatisfação com o regime.

PARA OS MILITARES ERA NECESSÁRIO DESTRUIR AS REFERÊNCIAS POLITICO-CULTURAIS DAS MASSAS

No dia 13 de dezembro de 1968 é instaurado o AI-5. O regime militar recrudesce a repressão política sobre o movimento de massas, cujas prisões, torturas e assassinatos de militantes estavam a serviço da acumulação capitalista de uma burguesia associada ao imperialismo ianque. O parque industrial nacional foi subordinado aos monopólios imperialistas e sua economia de rapina voltada para o mercado externo. A cultura, como expressão da superestrutura econômica, deveria ser “substituída” por uma outra inofensiva para o regime. Despontava neste sentido, o fenômeno vazio da “Jovem Guarda” e sucessos ufanistas do tipo “País Tropical” de Jorge Ben. Precisamente por isso, artistas e intelectuais que estavam em consonância com a efervescência social vigente à época foram perseguidos, censurados, muitos torturados e expulsos do país.

Vandré encaixava-se perfeitamente neste “estigma” de artista engajado, porta-voz dos anseios das massas oprimidas. Para os militares, deveria sofrer uma punição exemplar. Conheciam, através dos “serviços de inteligência”, as fraquezas do gênio da música popular. Tinha uma estrutura psicológica bastante frágil e vulnerável, mesmo assim foi obrigado a exilar-se no exterior após o AI-5.

Ao receber ameaças, ser perseguido política e ideologicamente, preso e torturado (senão física, mas psicologicamente), não conseguiu suportar uma realidade totalmente adversa de isolamento social. Em sua obra revelava um sonho, ser um “guerrilheiro”. Em “Terra plana” diz: “Se um dia eu lhe enfrentar/Não se assuste capitão/Só atiro pra matar/E nunca maltrato não/Na frente da minha mira/Não há dor nem solidão”. Atordoado pela solidão, os militares sabendo desta situação dramática “acolheram” o frágil Vandré em um manicômio em 1973. Forçaram-no a declarar em uma entrevista “editada” veiculada no Jornal Nacional em agosto de 1973 em que renegava seu passado e que a partir deste momento comporá apenas canções de amor. Aqui sofre toda sorte de torturas psicológicas possíveis. Acaba destroçado, para “viver sem razão”.

Artigos divulgados pela Internet afirmam que Vandré não fora torturado, o que é no mínimo uma tremenda ingenuidade, pois é conhecido o papel eminentemente criminoso das FFAA no que tange à tortura. Ele foi, antes de tudo, a expressão mais cabal daquilo que representou a tortura no Brasil: a tentativa do regime político de quebrar forças militantes, o movimento de massas e ativistas culturais para implantar um modelo econômico agro-exportador pró-ianque.

Só para se fazer uma analogia política, uma das vítimas da ditadura militar, Frei Tito, foi brutalmente torturado nas dependências do DOPS, não suportou as sequelas psíquicas e cometeu suicídio, afirmando em um bilhete escrito de próprio punho antes de morrer: “É melhor morrer do que perder a vida”. Geraldo Vandré, ao contrário, “optou” por “perder a vida”... afirmando que vive exilado de si mesmo e que o velho Vandré conhecido por todos morreu no tempo, há quarenta anos atrás.Não é casual que em toda duração da entrevista peça para ver suas imagens perdidas do passado, como que buscasse desesperadamente se reencontrar consigo mesmo.

A ATUAL ETAPA DE RETROCESSO IDEOLÓGICO

No atual regime democratizante cabe responder a pergunta inicial deste artigo, qual o interesse da Globo em entrevistar alguém que “ficou fora dos acontecimentos dos últimos quarenta anos” como Vandré se autodefine? Demonstrar que não existem mais referências político-culturais no mundo atual e a subseqüente “desmoralização” dos ativistas de esquerda. A queda do Muro de Berlim, o fim dos Estados operários do Leste europeu, a queda da URSS e a contra-revolução que ronda o Estado operário cubano, a criminalização dos movimentos sociais provocam um imenso retrocesso na consciência ideológica das massas. Assim, interessa ao regime da democracia dos ricos apresentar um “velho senhor” de boné que diz que não foi maltratado pela ditadura e ainda por cima compõe versos à Força Aérea (“Fabiana”). Confuso, alterna parcos momentos de lucidez com declarações desconexas, perdido em seu mundo próprio. O que sobrou hoje não é mais Vandré; e o que fora, estava intimamente conectado à verve de seu tempo.

Mas Vandré é apenas uma expressão mais trágica dos efeitos do “moedor de carne” da atual etapa histórica, figuras como Chico Buarque que usava sua música contra a ditadura, hoje oculta seu passado militante (do MR-8) sem estar perdido na demência, o que importa hoje é negar valores. Ou seja, a arte acompanha o retrocesso das massas, não vale a pena enfrentar algo que fuja aos interesses da opinião pública burguesa e das novas “necessidades” mercadológicas da indústria cultural, por isto temos que nos conformar com os clones de ícones do melhor de nossa arte, como a “pop star” Maria Rita tão admirada por uma juventude orkuteira e desprovida de ideais.

Este quadro de atraso cultural e bestialização ideológica somente poderá ser superado com a mudança da atual correlação de forças entre as classes sociais, ou seja, com o surgimento de uma nova ofensiva das massas, como ocorreu em 68, em todos os terrenos da vida humana, forjando uma nova geração de intelectuais e artistas comprometidos com um novo mundo socialista e não mais com as exigências dos senhores do “sagrado” mercado.

LIGA BOLCHEVIQUE INTERNACIONALISTA

Texto original em :
http://www.lbiqi.org