Pesquisa Mafarrico

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terça-feira, 6 de junho de 2017

Kollontai: "A Prostituição e as maneiras de combatê-la"

"A Prostituição e as maneiras de combatê-la"
por Alexandra Kollontai
"Quando a renda de uma mulher é insuficiente para mantê-la viva, a venda de favores parece uma possível ocupação subsidiária. A moral hipócrita da sociedade burguesa encoraja a prostituição pela estrutura de sua economia exploradora, enquanto ao mesmo tempo cobre impiedosamente de desprezo qualquer menina ou mulher que é forçada à tomar este caminho."

"O mundo da burguesia não poupa nem ao menos as crianças, forçando jovens meninas de nove e dez anos nos sórdidos abraços dos velhos ricos e depravados. "

"A venda da carne de mulher é conduzida abertamente, o que não é surpreendente quando você considera que todo o modo de vida burguês é baseado na compra e venda. "
Camaradas, a questão da prostituição é um assunto difícil e espinhoso que tem recebido pouquíssima atenção na Rússia Soviética. O sinistro legado de nosso passado capitalista burguês continua a envenenar a atmosfera da república operária e afeta a saúde física e moral do povo trabalhador da Rússia Soviética. É verdade que nos três anos da revolução a natureza da prostituição tem, sob a pressão das mudanças econômicas e sociais, alterado de certa forma. Mas ainda estamos longe de nos ver livres deste mal. A prostituição continua a existir e ameaça o sentimento de solidariedade e camaradagem entre os homens e mulheres trabalhadoras, os membros da república operária. E este sentimento é a fundação e a base da sociedade comunista que estamos construindo e tornando uma realidade. É hora de pensar e prestar atenção às razões por trás da prostituição. É hora de encontrarmos maneiras e meios nos livrarmos de uma vez por todas deste mal, que não tem lugar em uma república operária.

Nossa república operária até então não criou leis direcionadas à eliminação da prostituição, e nem ao menos lançou uma fórmula clara e científica sobre a visão de que a prostituição é algo que fere o coletivo. Sabemos que a prostituição é um mal, também temos conhecimento de que no momento, neste período transicional com todos os seus problemas, a prostituição se tornou extremamente difundida. Mas varremos tal problema para de baixo do tapete, temos estado em silêncio sobre isso. Isto é, parcialmente, por conta das atitudes hipócritas que herdamos da burguesia, e parcialmente por causa de nossa relutância em considerar e aceitar os danos que a prostituição em larga escala causa à coletividade. E nossa falta de entusiasmo na luta contra a prostituição se refletiu na nossa legislação.

Nós ainda não passamos nenhum estatuto reconhecendo a prostituição como um fenômeno social prejudicial. Quando as velhas leis czaristas foram revogadas pelo Conselho de Comissários do Povo, todos os estatutos relativos à prostituição foram abolidos. Todavia nenhuma medida nova baseada nos interesses do trabalho coletivo foi introduzida. Deste modo as políticas das autoridades soviéticas direcionadas às prostitutas e à prostituição têm sido caracterizadas por diversidade e contradições. Em algumas áreas a polícia ainda realiza batidas políciais contra as prostitutas como nos velhos tempos. Em outros lugares, os bordéis existem abertamente. (A Comissão Interdepartamental sobre a Luta contra a Prostituição possui dados sobre isso.) E ainda existem algumas outras áreas em que as prostitutas são consideradas criminosas e são jogadas em campos de trabalho forçado. As diferentes atitudes das autoridades locais evidenciam a ausência de um estatuto claramente redigido. Nossa vaga atitude se tratando deste fenômeno social complexo é responsável, por uma série de distorções e desvios dos princípios subjacentes à nossa legislação e moralidade.

Sendo assim, nós devemos não somente confrontar o problema da prostituição, mas buscar uma solução que seja alinhada com nossos princípios básicos e com o programa de mudança social e econômica adotados pelo partido dos comunistas. Devemos, acima de tudo, definir claramente o que é a prostituição. A prostituição é um fenômeno que está intimamente ligado à renda não produtiva e que prospera na época dominada pelo capital e pela propriedade privada. As prostitutas, sob nosso ponto de vista, são mulheres que vendem seus corpos pelo benefício material – por comida decente, por vestimentas e outras vantagens; as prostitutas são todas aquelas que evitam a necessidade de trabalhar dando-se para um homem, seja em uma base temporária ou por toda a vida.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Crítica a certas visões oportunistas contemporâneas sobre o estado

Crítica a certas visões oportunistas contemporâneas sobre o estado

por KKE [*]

"Na realidade não há “neutralidade” de classe por parte do estado burguês e suas instituições. O estado, como o marxismo-leninismo tem demonstrado, tem um claro conteúdo de classe, o qual não pode ser usado através de processos eleitorais e soluções governamentais burguesas em favor da classe trabalhadora e da mudança social."

"Consideramos que não podemos julgar um estado e a nossa posição em relação a ele exclusivamente com base em como ele se auto-define e nas suas proclamações. Um critério básico deve ser qual classe possui os meios de produção e mantém o poder no estado específico, que espécies de relações de produção são predominantes no país específico. E isto é assim porque o estado, para marxistas-leninistas, é uma “máquina repressiva”, o qual objetivamente na nossa era, no século XXI, na era da passagem do capitalismo para o socialismo, anunciada pela Revolução de Outubro, ou estará nas mãos da classe burguesa ou da classe trabalhadora. Não há caminho intermédio!"

A importância e actualidade do trabalho de Lenine sobre o estado

Cem anos atrás, poucos meses antes da Grande Revolução Socialista de Outubro e em condições políticas particularmente difíceis e complexas, V.I. Lenine escreveu um trabalho de importância fundamental, “O Estado e a Revolução”, o qual foi publicado pela primeira vez  após a Revolução de Outubro, em 1918.

Neste trabalho, Lenine destacou a natureza de classe do estado e a sua essência. “O estado é um produto e uma manifestação da irreconciabilidade dos antagonismos de classe. O estado ascende onde, quando e na medida em que antagonismos de classe objectivamente não podem ser reconciliados. E, inversamente, a existência do estado prova que os antagonismos de classe são irreconciliáveis”. [1]

Lenine também estabelece neste trabalho a necessidade e actualidade da revolução socialista e do estado dos trabalhadores.

domingo, 4 de junho de 2017

Brasil : “Cracolândia”: cinco faces de uma ação demente

“Cracolândia”: cinco faces de uma ação demente
Por Juliana Machado, Marina Mattar, Taniele Rui e Vera Telles

"Ao dispersar dependentes químicos, operação policial desmantela assistência a eles. Cidade torna-se mais insegura. Fechamento do comércio local amplia abandono do bairro. Só especuladores sorriem."

"São os “feios, sujos e malvados” que não cabem na Cidade Linda pregada por Doria. A julgar por esse histórico, enquanto não houver vontade política para promover desencarceramento e mudança na legislação sobre drogas, bem como para ofertar aos pobres urbanos condições decentes de trabalho, moradia, educação e afirmação social, nada anuncia que o prefeito será bem-sucedido em sua empreitada. Nesses anos de existência, a inscrição no espaço é a maior luta vital de que dá prova essa população."

A “Cracolândia” teve mais uma vez o seu fim decretado, dessa vez pelo atual prefeito de São Paulo João Doria, depois de uma megaoperação policial, coordenada pelo Grupo de Operações Especiais da Polícia Civil. Chefiada pelo governador Geraldo Alckmin, a investida teve início na manhã de domingo, 21 de maio, com a dispersão de pessoas através de tiros de bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo e seguiu durante a semana com abordagens, demolição de imóveis e rondas policiais. Segundo as gestões municipal e estadual, o foco era acabar com a “feira livre da droga”, tantas vezes denunciada em reportagens da imprensa, e prender traficantes da região. A “guerra ao tráfico” parece oferecer um discurso eficaz à opinião pública e, por meio dele, justificou-se uma operação que, na realidade, foi orquestrada para promover mudanças estruturais do território com o despejo de moradores, pequenos comerciantes e pessoas em situação de rua, que não sabem nem para onde ir e agora têm sua circulação controlada.

Passada a espetacularização policial, tanto o governador Geraldo Alckmin quanto o prefeito João Doria declararam a violência como passo necessário ao segundo movimento de internar os usuários de crack em comunidades terapêuticas conveniadas com o governo, pagando mais de mil reais por mês por pessoa atendida. Em tempos de Lava Jato, é importante nos perguntarmos, de partida, quem são os proprietários dessas clínicas, quais os acordos para o convênio entre CTs e governo e se há algum tipo de fiscalização pública desses equipamentos. Para refletir mais detidamente sobre os acontecimentos recentes, pesquisadores do assunto reuniram aqui 5 perguntas sobre essa megaoperação, contrapondo a narrativa oficial corrente. Também levantamos outras questões inquietantes que nossos governantes ainda não responderam.

Economia digital e robotização - Valorizar o trabalho e os trabalhadores

Economia digital e robotização - Valorizar o trabalho e os trabalhadores
por ARMANDO FARIAS


"Está provado que não é inevitável que as inovações tecnológicas provoquem desemprego ou a falência da segurança social. A flexibilização dos horários e a desregulamentação do trabalho também não vêm inscritas nas máquinas. São opções adotadas pelos Governos do capital que, independentemente das inovações tecnológicas, produzem legislação destinada a enfraquecer os direitos dos trabalhadores, como é o caso do código do trabalho e o regime de caducidade das convenções colectivas, para que o patronato aumente a exploração.

Contudo, apesar de todos os esforços e dos meios que o imperialismo dispõe para atrasar o relógio da história, e dos apelos ao conformismo e à resignação, é certo e seguro que chegará o momento em que pela força da luta de massas e da conjugação das demais condições objectivas, ocorrerá a superação revolucionária do capitalismo e a possibilidade de iniciar novos caminhos, rumo à construção de uma sociedade livre da exploração do homem pelo homem."

«A humanidade coloca sempre a si mesma apenas as tarefas que pode resolver»
(Karl Marx, «Para a Crítica da Economia Política» (Prefácio) in Marx/Engels,
Obras Escolhidas, edições Avante!, p. 53.

As mudanças tecnológicas são um importante motor de crescimento e desenvolvimento. Contudo, o modo como são utilizadas depende do modo de produção da sociedade, uma vez que tanto podem ser aproveitadas para melhorar as condições de vida dos trabalhadores e dos povos, como podem ser usadas, a pretexto da competitividade e da globalização, para intensificar a política de exploração da força de trabalho e o empobrecimento dos povos.

No sistema em que predominam as relações de produção capitalista, o imperialismo apropria-se dos progressos da ciência e da técnica para intensificar a exploração sobre os trabalhadores e agredir violentamente os povos. Qual cão raivoso que ataca violentamente quando encurralado, recorre à ingerência e intervencionismo militar sobre Estados soberanos, como forma de procurar travar o irreversível declínio económico, acentuar o processo de concentração e centralização de capital e reforçar a hegemonia em todo o mundo.

É neste contexto que ocorre o debate, ou a falta dele, sobre a chamada economia digital, em particular as consequências e impactos sobre o trabalho. A discussão é feita dentro dos limites que, do ponto de vista ideológico, servem os interesses do capital, sendo arredados quaisquer questionamentos quanto à natureza de classe.

sábado, 3 de junho de 2017

Brasil em chamas e sangue!

Brasil em chamas e sangue!
por Nova Cultura

"A civilização e a justiça da ordem burguesa aparecem em todo o seu pálido esplendor sempre que os escravos e os párias dessa ordem se rebelam contra seus senhores. Então essa civilização e essa justiça mostram-se como uma indisfarçada selvageria e vingança sem lei. Cada nova crise na luta de classes entre o apropriador e o produtor faz ressaltar esse fato com mais clareza." Marx, Karl.

O dia de hoje (24 de maio) ficará marcado como um dia de repressão, violência e massacres na história de nosso país. Hoje, não só o governo, mas também o próprio Estado brasileiro apresentaram sem rodeios seu verdadeiro caráter, à quais interesses ele serve e até onde está disposto a ir para garanti-los. 

Mesmo diante de gravíssima crise econômica; da desmoralização completa das instituições políticas; de escândalos epidêmicos de corrupção e de inconteste insatisfação popular - que ganha sua forma nos atos de hoje em Brasília – o discurso unitário de todas as forças políticas fiéis às elites dominantes e ao velho Estado é: “aprovemos as reformas!”. 

É o programa de brutais medidas anti-povo - sobretudo a reforma trabalhista e da previdência - que unificam desde Michel Temer, passando por Dória e Bolsonaro, até a Rede Globo (que é um dos principais Partidos políticos do imperialismo e das elites dominantes no Brasil). Este é também o discurso das forças econômicas que verdadeiramente comandam nosso país: da Confederação Nacional da Indústria aos principais bancos privados. 

O motivo do impeachment e do golpe de Estado sempre fora este: aumentar brutalmente a exploração das massas trabalhadoras operárias e camponesas em nosso país e sua apropriação por elites hiper-parasitárias (monopólios estrangeiros, rentistas de todos os tipos, grandes industriais e latifundiários). Por isto que independe se sejam aprovadas as medidas com Temer ou sem; se haverão eleições diretas ou indiretas. O que importa para esta casta é que a imensa maioria do povo trabalhe para eles sem direitos por um salário de fome e até morrer. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

EUA e Democracia

EUA e Democracia
por Ângelo Alves
"Ora, pegando nesse rol de «preocupações» o que seria de esperar era que o referido relatório referisse, por exemplo: a prisão ilegal de Guantánamo e a defesa por responsáveis dos EUA do uso da tortura; a situação explosiva nas prisões norte-americanas e a violência policial contra a comunidade afro-americana; os diversos escândalos financeiros e de corrupção, ou as discriminações contra migrantes e refugiados, nos EUA e na União Europeia; as sucessivas revelações do envolvimento dos serviços secretos dos EUA em vários processos eleitorais e nas próprias eleições norte-americanas; o assassinato de activistas políticos pelo regime das Honduras, apoiado pelos EUA; o golpe de Estado no Brasil, apoiado pelos EUA, com a manipulação do sistema judicial; ou ainda o assassinato de activistas políticos e a perseguição aos comunistas pelo regime ucraniano, apoiado pelos EUA e a UE; entre muitos outros possíveis exemplos."
O Departamento de Estado dos EUA emitiu, na passada sexta-feira, mais um dos seus relatórios anuais sobre o estado da democracia no Mundo. O relatório afirma que «as liberdades básicas de expressão e associação estão em declínio no mundo». Identifica o aprofundamento de vários problemas, como a corrupção, a tortura e as discriminações contra minorias. Contém ainda várias referências a presos políticos, ao «uso indiscriminado» da ação policial, a execuções extrajudiciais e ao «sistemático e politizado uso do sistema judicial».

Ora, pegando nesse rol de «preocupações» o que seria de esperar era que o referido relatório referisse, por exemplo: a prisão ilegal de Guantánamo e a defesa por responsáveis dos EUA do uso da tortura; a situação explosiva nas prisões norte-americanas e a violência policial contra a comunidade afro-americana; os diversos escândalos financeiros e de corrupção, ou as discriminações contra migrantes e refugiados, nos EUA e na União Europeia; as sucessivas revelações do envolvimento dos serviços secretos dos EUA em vários processos eleitorais e nas próprias eleições norte-americanas; o assassinato de activistas políticos pelo regime das Honduras, apoiado pelos EUA; o golpe de Estado no Brasil, apoiado pelos EUA, com a manipulação do sistema judicial; ou ainda o assassinato de activistas políticos e a perseguição aos comunistas pelo regime ucraniano, apoiado pelos EUA e a UE; entre muitos outros possíveis exemplos.

Mas isso não acontece. E não admira. Este e outros relatórios similares, nomeadamente no âmbito da União Europeia, não visam defender a democracia. Visam antes impor a visão política e ideológica do imperialismo à escala mundial, identificar os alvos da sua ação agressiva e de ingerência e ocultar uma verdade cada vez mais evidente: o carácter antidemocrático do regime político e de poder imperialista dos EUA.


quarta-feira, 8 de março de 2017

Tratado de Roma – a crise na e da União Europeia

Tratado de Roma – a crise na e da União Europeia
por JOÃO FERREIRA
"Confrontamo-nos hoje com as consequências do desenvolvimento do processo de integração capitalista europeu.

Vive-se um tempo de grande instabilidade, de profunda crise econômica e social, de retrocesso civilizacional – indissociáveis das políticas e orientações associadas à integração capitalista Europeia, na sua configuração actual: a UE.

Algumas das mais negras páginas da História do continente, como a guerra e o fascismo, surgem novamente no horizonte. Vários Estados foram arrastados para processos de destruição económica e de devastação social. Direitos democráticos e de soberania são postos em causa. A extrema-direita ganha terreno em vários países. Alguns dos falsamente proclamados princípios e valores da UE, como a democracia e os direitos humanos, são abertamente espezinhados. Veja-se a forma como a UE lidou com a «crise do Euro» ou com a «crise dos refugiados».

Em confronto aberto com os direitos, os interesses e as aspirações dos povos, a UE confirma-se como um instrumento dos monopólios, do grande capital transnacional europeu e das principais potências capitalistas europeias, com a Alemanha à cabeça."

A crise do processo de integração capitalista europeu é indissociável, por um lado, da crise mais geral do capitalismo e, por outro lado, das características matriciais e dos objectivos do próprio processo. Por isso falamos de uma crise na e da União Europeia (UE) – ou seja, uma crise que é expressão da crise do capitalismo na UE e, ao mesmo tempo, o resultado do desenvolvimento do processo de integração e por isso uma crise da UE.

Passam este ano sessenta anos sobre a assinatura do Tratado de Roma, o tratado constitutivo da Comunidade Económica Europeia (CEE) e da Comunidade Europeia da Energia Atómica, tido como o momento fundador da, hoje, União Europeia.

Nunca ao longo das últimas seis décadas a CEE/UE conheceu uma crise como a que hoje enfrenta. Pela sua profundidade e persistência, esta crise leva a que, pela primeira vez, se admita abertamente a possibilidade da integração dar lugar a uma desintegração – de que a saída do Reino Unido, o chamado Brexit, será já (precurssora?) expressão.

A destruição do Brasil e sua decomposição moral

Quando a democracia burguesa se despe das suas roupagens respeitáveis
A destruição do Brasil e sua decomposição moralpor Aldo Fornazieri
"Qual é o sentido moral que resta neste país quando se nomeia um ministro da Corte Suprema com a intenção manifesta de que sua função será a de proteger corruptos? O que se pode esperar da moralidade social quando os juízes são íntimos daqueles que deveriam julgar, como é o caso de Gilmar Mendes [juiz do STF e apoiante do PSDB, NR] com Temer e com tucanos [este pássaro é o símbolo do PSDB, NR] de alta plumagem? O fato é que as nossas mais altas autoridades perderam todas as medidas, todos os critérios, toda a sensatez, toda prudência, toda a vergonha. Sem metros e sem limites morais, sem sentido social, sem senso de Justiça, sem os valores da dignidade e dos direitos humanos, o Brasil pós-golpe se decompõem diariamente a olhos vistos, exalando putrefação pelos seus poros. "

A consequência mais trágica do golpe [o impeachment da presidente Roussef em 2016, NR] é a destruição do Brasil enquanto nação e a decomposição moral das suas instituições. Se o impeachment em si representou um ataque aos fundamentos democráticos e republicanos da Constituição, o trabalho de sapa do governo ilegítimo [de Temer, NR] consiste em destruir de forma implacável e impiedosa o sentido social que o país vinha construindo desde a Constituição de 1988. As medidas do governo falam por si e se sintetizam na PEC dos gastos [Proposta de Emenda Constitucional destinada a congelar as despesas públicas durante 20 anos, NR], nas propostas de Reforma da Previdência e Trabalhista e na lenta destruição de programas sociais como o Prouni [bolsa de acesso ao ensino superior, NR], Minha Casa Minha Vida [programa de habitação popular, NR], o Bolsa Família [subsídio familiar, NR], o financiamento estudantil etc. 

O governo federal, junto com governos de estados, particularmente do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, vêm destruindo a pesquisa científica e a Cultura, cortando verbas, fechando instituições e institutos de pesquisa, acabando com programas, demitindo orquestras sinfônicas, minando as universidades públicas. Há uma conjura deliberada anti-social, contra a ciência, a pesquisa, cultura, a educação e a saúde pública. Serão necessárias décadas de reconstrução, com perdas incalculáveis em termos de avanços, recursos e capacidades. O que está em curso é um grande desastre social, com um massacre de direitos de tal magnitude poucas vezes visto em nossa história. 

Do ponto de vista econômico, em Brasília, o país está à venda. Grupos de assalto cercam o governo pronto a satisfazê-los, entregando-lhes petróleo e gás, serviços e infraestrutura, previdência e direitos sociais, perdoando dívidas do agronegócio, num devastador jogo de pirataria econômica. O resultado é uma economia paralisada com quase treze milhões de desempregados, com empresas fechando as portas e com a capacidade ociosa nas alturas [a Ford acaba de impor férias forçadas aos seus trabalhadores, NR]. O milagre da recuperação rápida se revelou uma grande mentira. [1]

Offshores, democracia e capitalismo

Offshores, democracia e capitalismo
por Miguel Tiago


"O PCP não concede na campanha que as instituições do capitalismo – entre as quais a União Europeia – vão alimentando em torno da introdução de normas de supervisão e regulação e de desencorajamento à utilização de paraísos fiscais e territórios não cooperantes como se estas fossem deficiências do sistema capitalista. Pelo contrário, o PCP reafirma que estes métodos e estes territórios fiscais decorrem da natureza do próprio sistema capitalista e a permissividade política para com estas práticas resulta precisamente da captura das instituições políticas pelos interesses da classe dominante, ou seja, resulta do facto de a lei e o Estado serem instrumentos da classe dominante."

Enquanto sujeitava os trabalhadores portugueses a uma política de empobrecimento e de aumento da exploração, o governo PSD/CDS tratava das benesses dos grandes grupos econômicos. A opção e compromisso de classe com a grande burguesia nunca foi sequer iludida e esteve sempre presente nas medidas que PSD e CDS tomaram para fazer pender a balança do rendimento nacional para o lado do capital em detrimento do trabalho.

Enquanto aumentavam impostos sobre o trabalho e diminuíam sobre os lucros e enquanto esbulhavam até à última migalha os bolsos, poupanças e rendimentos dos trabalhadores e pensionistas, esmagavam os serviços públicos, entregavam todo o sector empresarial do Estado a grandes grupos econômicos. 

As opções foram sempre muito evidentes e perpassam todos os orçamentos do Estado aprovados pela maioria PSD/CDS. As últimas notícias sobre o não tratamento de um conjunto de transferências financeiras para contas sedeadas em offshore apenas acrescentam ao negro rol de opções contra o interesse nacional que o governo PSD/CDS protagonizou.

terça-feira, 7 de março de 2017

Catástrofe Climática, Imperialismo e a Grande Fome do século XIX ou Tranquem a Inglaterra na cadeia ou num asilo de loucos!

Catástrofe Climática, Imperialismo e a Grande Fome do século XIX
por DAVIS, Mike. Holocaustos Coloniais. Clima, Fome e Imperialismo na Formação do Terceiro Mundo. Rio de Janeiro: Record, 2002
"Só quero reiterar que aquilo em que creio deveria ser mui óbvio, mas de alguma forma não o é, pelo menos para bilhões de pessoas em todo o mundo: “Aqueles caras britânicos que dirigem a mídia-empresa e as redes de propaganda global não merecem nenhuma confiança. Durante séculos, nenhum outro país trouxe tanto sofrimento ao planeta, destruiu tantas vidas, arruinou tantas nações e culturas, roubou tantos recursos naturais dos ‘nativos’ quanto o Reino Unido.” Tudo isso foi feito na cara de pau, tudo explicado e justificado pelo mais avançado aparelho de propaganda do planeta, tudo ‘moralmente defendido’. Todo o emaranhado conceito de ‘justiça’ à britânica foi primeiramente introduzido domesticamente e depois exportado para diversos cantos do globo."
"O novo modelo econômico mundial implementado à força em regiões agrícolas da Ásia foi, portanto, um dos maiores responsáveis diretos pela Grande Fome que dizimou milhões de pessoas no final do século XIX, numa época de secas jamais vistas. Essas pessoas não estavam de fora do sistema; elas estavam dentro, fazendo parte das engrenagens do capital, sendo vítimas dele. Na Era de Ouro do capitalismo liberal, a humanidade enfrentou uma de suas piores provações de todos os tempos. Como se pode explicar essa contradição, senão pelo fato de que a miséria e a fome são justamente partes intrínsecas do próprio sistema sem as quais uma pequena minoria não poderia se rejubilar de todo o conforto e riqueza que o dinheiro é capaz de proporcionar? "

Essa é uma história pouco contada pelos historiadores. A história de três catástrofes humanitárias causadas pela seca na Ásia e em outras partes do mundo na segunda metade do século XIX, que poderiam ter sido evitadas. Poderiam, se, para a infelicidade dos pobres camponeses das regiões afetadas, esta também não fosse a era do Imperialismo Europeu. Em nome do liberalismo econômico e da economia de mercado, produziu-se um verdadeiro holocausto humano de 40 milhões de vítimas da Fome, enquanto a Europa prosperava em abundância.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Derrotar Trump

Trump não é outsider. Representa o sistema


Derrotar Trump
por Ângelo Alves

"A administração Trump será um acrescido factor de exploração, guerra, turbulência e incerteza. Mas como o balanço da administração Obama demonstra, esses perigos não nasceram com a eleição de Trump nem fazem dos seus antecessores, ou rivais, imaculados progressistas. A sua eleição é uma expressão e uma consequência da incerteza e perigos que decorrem da evolução do Mundo e da principal potência imperialista mundial. Analisar o que já se passou, e o que se vai passar, sem ter como pano de fundo o aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, o extremamente complexo processo de rearrumação de forças que marca a realidade mundial, e a violenta ofensiva do imperialismo que está a conduzir o Mundo a uma situação de guerra generalizada e à emergência de forças reaccionárias e fascistas, seria um erro.

Trump não é outsider. Representa o sistema, é a face da reação do grande capital e do imperialismo à crise do capitalismo. A linha política de Trump e dos seus secretários aponta para um rumo de ainda maior exploração dos trabalhadores e do povo norte-americano; para uma ainda mais violenta afirmação belicista dos EUA e para uma ainda mais vincada deriva reacionária da política interna e externa dos EUA."

A aproximação da tomada de posse do novo presidente dos EUA não deve fazer perder de vista as tendências de fundo da situação internacional e nos principais centros do imperialismo, com destaque para aquela que ainda é indiscutivelmente a sua maior potência – os EUA.

As eleições nos EUA revelaram um conjunto muito significativo de contradições: na própria sociedade norte-americana cada vez mais mergulhada numa profunda crise social de gigantescas e crescentes desigualdades e discriminações; no estado da economia norte-americana, cujo grau de financeirização, componente externa e de pilhagem internacional ainda tenta esconder uma crise económica que não cessa de acumular enormes factores de risco; no seio das classes dominantes, cujas rivalidades se acentuam face à profundidade da crise económica, ao declínio económico relativo mundial dos EUA e ao processo de rearrumação de forças no plano internacional; e ainda no plano político quando se assiste a uma erosão ideológica do sistema de poder que tem dominado aquele país.

A administração Trump será um acrescido factor de exploração, guerra, turbulência e incerteza. Mas como o balanço da administração Obama demonstra, esses perigos não nasceram com a eleição de Trump nem fazem dos seus antecessores, ou rivais, imaculados progressistas. A sua eleição é uma expressão e uma consequência da incerteza e perigos que decorrem da evolução do Mundo e da principal potência imperialista mundial. Analisar o que já se passou, e o que se vai passar, sem ter como pano de fundo o aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, o extremamente complexo processo de rearrumação de forças que marca a realidade mundial, e a violenta ofensiva do imperialismo que está a conduzir o Mundo a uma situação de guerra generalizada e à emergência de forças reaccionárias e fascistas, seria um erro. 

Trump não é outsider. Representa o sistema, é a face da reação do grande capital e do imperialismo à crise do capitalismo. A linha política de Trump e dos seus secretários aponta para um rumo de ainda maior exploração dos trabalhadores e do povo norte-americano; para uma ainda mais violenta afirmação belicista dos EUA e para uma ainda mais vincada deriva reacionária da política interna e externa dos EUA.

Obama, o criminoso de guerra carrasco de mulheres e crianças

Obama, o criminoso de guerra carrasco de mulheres e crianças
por Paul Craig Roberts
"O único propósito destes crimes é enriquecer a indústria de armamentos e avançar a insana ideologia neoconservadora da hegemonia mundial estado-unidense. Um minúsculo punhado de pessoas desprezíveis foi capaz de destruir a reputação dos Estados Unidos e assassinar milhões de pessoas, enviando ondas de refugiados de guerra para os EUA e a Europa.

Chamamos a isto "guerra", mas elas não são. São invasões, em grande parte a partir do ar, mas no Afeganistão e no Iraque de tropas sobre o terreno. As invasões por ar e por terra são inteiramente baseadas em mentiras flagrantes e transparentes. A "justificações" para as invasões mudaram uma dúzia de vezes.

As perguntas são: se Trump se tornar presidente, será que os crimes maciços de Washington contra a humanidade continuarão? Se assim for, será que o resto do mundo continuará a tolerar a perversidade extraordinária de Washington? "
Não há dúvida de que o presidente Barak Obama é um criminoso de guerra assim como o são seus responsáveis militares e de inteligência e a maior parte da Câmara e do Senado. 

Obama foi o primeiro presidente a manter os EUA em guerra durante toda a duração dos seus oito anos de mandato. Só em 2016 os EUA despejaram 26.171 bombas sobre festas de casamento, funerais, jogos de futebol de garotos, hospitais, escolas, pessoas nas suas casas e a andarem nas ruas e agricultores a lavrarem seus campos em sete países: Iraque, Síria, Afeganistão, Líbia, Iémen, Somália e Paquistão.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A libertação de Auschwitz pelo Exército Soviético

A libertação de Auschwitz pelo Exército Soviético
por MANUELA PIRES
"Não deixar esquecer os crimes do nazismo e lutar hoje contra os perigos do nazi-fascismo e as ameaças de uma nova guerra é tarefa inadiável a exigir a mobilização das forças democráticas e de todos os trabalhadores."

"«O fascismo é a ditadura terrorista dos círculos mais reacionários e agressivos do capital financeiro. Hitler foi um instrumento dos monopólios alemães que alimentaram, apoiaram e lucraram com a criminosa política nazi, incluindo com a mão-de-obra escrava dos prisioneiros dos campos de concentração. Nada disto pode ser esquecido. As tentativas para apagar as responsabilidades do grande capital na hecatombe da Segunda Guerra Mundial e esconder a natureza de classe do nazi-fascismo devem ser fortemente combatidas. (…) Devem ser firmemente rejeitadas operações de falsificação da História que visem apagar, diminuir ou deformar a heroica contribuição do movimento operário, dos comunistas e da União Soviética para a derrota do nazi-fascismo e absolver os EUA, a Grã-Bretanha e a França da política de “apaziguamento” simbolizada pela traição de Munique que, procurando encaminhar a Alemanha nazi contra a URSS, conduziu ao desencadeamento da guerra.»"
Assinalar os 72 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz pelo Exército Vermelho não deve ser encarado como uma mera efeméride, mas sim como mais um momento da permanente reflexão sobre as causas e as consequências do ascenso do nazismo e da Segunda Guerra Mundial que lhes estão associadas, retirando as necessárias conclusões para o presente e para o futuro. Uma reflexão tanto mais imprescindível quanto um pouco por todo o lado se assiste ao levantar cabeça das forças neonazis e a uma ofensiva de desvalorização e apagamento do papel determinante da União Soviética e do Exército Vermelho para a derrota do nazismo e a libertação dos povos.

Um momento para relembrar a conivência do fascismo português com o nazi-fascismo alemão e italiano, não permitindo que se apague da memória que o governo fascista de Salazar, já depois de ter activamente participado ao lado de Franco na mortífera Guerra de Espanha (1936-1939), tinha afirmado a neutralidade portuguesa, o que seria de facto uma permanente colaboração. As notícias sobre os campos de concentração eram cortadas pela censura. Na Igreja dos Mártires da Pátria celebrou-se missa pela alma de Mussolini e mais tarde pela de Hitler. O campo de concentração do Tarrafal (inaugurado em 1936) continuou a funcionar até 1956, sendo reaberto em 1961 para os resistentes das ex-colónias.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O capitalismo não cairá sozinho, é preciso derrubá-lo

O capitalismo não cairá sozinho, é preciso derrubá-lo
por Fernando Bossi Rojas
"O detalhe está em que o capitalismo não cairá por si só, nem colapsará por mera “implosão”, como desejam muitos, fundamentalmente aqueles que negam a luta de classes. O capitalismo, entendo, terá que ser derrotado, destruído e sepultado a partir de um profundo processo revolucionário, que inclui, de uma forma ou de outra, a ditadura do proletariado, ou a ditadura das maiorias, ou como quiser se chamar esse período em que a contrarrevolução terá que ser tratada inflexivelmente. Sobram descrições e prognósticos mas faltam, sobre essas análises e descrições – valiosas, sem dúvida –, propostas concretas."

"Sem organização, consciência e disciplina da classe operária, não vislumbro possibilidade alguma de socialismo. E para nossos países, espoliados pelo imperialismo, entendo que a frente anti-imperialista e de libertação nacional tem também vigência, considerando que em seu seio o partido da classe operária deve lutar para conduzi-la. As experiências nacional-burguesas de Brasil e Argentina testemunham que a condução burguesa, por mais “nacional” que se diga, deriva sempre em claudicação ou derrota."
Começando pelo próprio Marx e chegando até o momento atual, observamos que muitos intelectuais e pensadores de esquerda em geral vêm sustentando que a crise terminal do sistema capitalista é um fato demonstrado. A cada crise cíclica do capitalismo aparece a sentença inapelável de que o sistema está caindo. Incluindo, obviamente, a crise de 2008.

Talvez seja assim, não o nego, mas o sistema capitalista, atualmente, não parece reconhecer esse categórico veredito ou, ao menos, se o analisamos pelo tempo que se passou, a suposta agonia se apresenta muito prolongada. No entanto, o discurso se repete periodicamente: “ao diminuir a taxa de lucro, etcetera, etcetera, etcetera…”

O detalhe está em que o capitalismo não cairá por si só, nem colapsará por mera “implosão”, como desejam muitos, fundamentalmente aqueles que negam a luta de classes. O capitalismo, entendo, terá que ser derrotado, destruído e sepultado a partir de um profundo processo revolucionário, que inclui, de uma forma ou de outra, a ditadura do proletariado, ou a ditadura das maiorias, ou como quiser se chamar esse período em que a contrarrevolução terá que ser tratada inflexivelmente. Sobram descrições e prognósticos mas faltam, sobre essas análises e descrições – valiosas, sem dúvida –, propostas concretas.

Capitalismo, guerra e pão

Capitalismo, guerra e pão
por JOÃO VIEIRA
"Os governos descuram completamente os aspectos da soberania alimentar, andam ocupados com o acessório e deixaram o essencial nas mãos das multinacionais, para as quais vida ou morte tudo é negócio."

O trigo pela importância que tem, e continua a ter, na história do desenvolvimento da humanidade é hoje uma arma nas mãos do capital na atual guerra da Síria e do Iraque, onde o trigo é traficado ao lado de barris de petróleo. A tal ponto faz parte do saque imperialista que o Diretor de uma multinacional americana de cereais foi despachado para o Iraque para controlar a produção e o sector das sementes junto dos agricultores, a quem foi proibida a utilização das suas sementes.

Sabe-se ainda que o trigo «Kamut», originário do Egipto, está patenteado a favor de uma multinacional, sendo um valor seguro no mercado da especialidade de trigos antigos.

Trigo e pão estiveram sempre presentes em momentos decisivos. Lembremos a expressão «Pão e circo» da época romana, no contexto em que o Império já estava em decadência, a população de Roma aumentava e o pão escasseava, gerando o descontentamento e criando condições para uma nova etapa. No que diz respeito ao circo existem algumas semelhanças com o nosso tempo, só que, bem entendido, nos dias de hoje ele é mediático.

Lembremos ainda Maria Antonieta, rainha de França. Decorria o ano de 1789, a fome assolava, não havia trigo nem pão e o povo de Paris protestava apinhado no pátio dos milagres (Cour des Miracles) sem que o seu clamor se fizesse ouvir no sumptuoso Palácio de Versalhes. Informada do protesto, a rainha respondeu com a célebre frase: «Se o povo não tem pão, que coma brioches», ainda hoje um bolo típico dos franceses. Obviamente que se não havia farinha para pão, também não poderia haver para brioches! A par de outros problemas, também aqui trigo e pão foram o rastilho para a eclosão da Revolução sob o lema «Liberdade, Igualdade, Fraternidade», que mudou o curso da história na Europa.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Sobre as eleições presidenciais nos EUA

Sobre as eleições presidenciais nos EUA
por JORGE CADIMA
"É hoje uma evidência incontestável, proclamada até por alguns candidatos à Casa Branca, que a tão propalada 'democracia' norte-americana é na realidade um sistema de poder duma pequena minoria de ultra-ricos, visando torná-los ainda mais ricos. Como os comunistas sempre afirmaram, não é possível esquecer o adjectivo 'burguesa' quando se avalia a realidade de sistemas formalmente democráticos no contexto do capitalismo. Quanto muito, a expressão 'democracia burguesa' peca por alargar demasiado o quadro dos beneficiários do sistema hoje vigente nos EUA."

"Décadas de deslocalização da produção pelo grande capital norte-americano (que servia também para atacar a situação social da classe operária dos EUA), a especulação, a fraude, os mecanismos financeiros cada vez mais divorciados da produção (que a baixa tendencial da taxa de lucro deixava de tornar atraente) criaram um sistema fictício de 'riqueza' sem contrapartida material. Um sistema assente na hegemonia do imperialismo norte-americano sobre o sistema financeiro mundial; na sua grande comunicação social de massas (incluindo a sua componente hollywoodiana); e no seu gigantesco aparato de guerra (incluindo os seus serviços secretos como a CIA). O resto do planeta alimentava o cada vez mais parasitário e decadente capitalismo dos EUA, que se afundava num endividamento insustentável."

"A vitória de Trump nas eleições presidenciais dos EUA não está desligada desta dupla faceta – interna e externa – da crise dos EUA. Multimilionário,Trump não é um candidato anti-sistema, apesar de toda a sua retórica. Pelo contrário, é expressão desse sistema, embora cavalgue o descontentamento que ele gera. Reflecte clivagens no seio da classe dominante sobre a melhor forma de enfrentar a crise da super-potência do capitalismo. "
As eleições presidenciais norte-americanas de 2016 evidenciaram de forma inquestionável a profunda crise social, econômica, política e ideológica da super-potência imperialista. Revelaram também, de forma contundente, a existência de profundas clivagens no seio da classe dominante dos EUA, e com o grande capital europeu promotor do cada vez mais anti-democrático processo de integração capitalista na Europa. Tudo isto é expressão da profunda crise do sistema capitalista e, em particular, da crise que assola os dois principais pilares desse sistema no plano mundial: os EUA e a UE. Independentemente das muitas incertezas e da possibilidade de acontecimentos surpreendentes, mesmo no futuro imediato, é seguro que a vitória de Trump irá acelerar as contradições e provocar novos sobressaltos que agudizarão ainda mais a crise. Não é mesmo de excluir a possibilidade que se esteja perante um processo de grandes convulsões no sistema capitalista mundial.

A palavra nos EUA hoje é... "impeachment"

A palavra nos EUA hoje é... "impeachment" 
Campanha para desestabilizar o governo Trump
Prof Michel Chossudovsky
"O povo dos EUA é a vítima sempre ignorada, à qual não se assegura a palavra e que ninguém representa ou defende, colhida no fogo cruzado de duas facções capitalistas com interesses divergentes. As duas facções servem a interesses exclusivos das elites, em detrimento do eleitorado nos EUA."

"O que falta aos EUA para os próximos meses são "movimentos sociais reais contra o novo governo Trump que considere questões sociais e econômicas amplas, direitos civis, saúde pública, criação de empregos, questões ambientais, política exterior e as guerras que os EUA disseminam pelo mundo, gastos da Defesa, imigrantes, etc.

Movimentos de base independentes devem pois separar-se ativamente dos protestos manipulados apoiados e financiados (diretamente ou indiretamente) por interesses empresariais. Não é tarefa fácil. Financiar e "fabricar o dissenso", a manipulação escancarada dos movimentos sociais estão hoje fundamente enraizadas nos EUA."

A agenda de política externa de Trump já foi alvo de "golpes sujos" desencadeados pela facção Clinton. Mas o novo governo eleito também tem apoiadores empresariais poderosos que com certeza responderiam – e estão respondendo – aos movimentos dos neoconservadores, inclusive apoiadores que operam na comunidade de inteligência. Interessante observar que Trump também tem apoiadores no lobby pró-Israel e dentro dos setores da inteligência israelense. Em dezembro, o chefe do Mossad reuniu-se com a equipe de Trump em Washington.

Cronograma do projeto de desestabilização

Desde o início, já antes das eleições de 8 de novembro, o projeto para tumultuar e desestabilizar o governo Trump estava formado de vários processos coordenados e inter-relacionados, alguns dos quais continuam em andamento, e outros que já foram completados (ou deixaram de ser relevantes):

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Líbia, sepultada no crime e no silêncio

Líbia, sepultada no crime e no silêncio
por Higino Polo
Passam em Março próximo 6 anos sobre o início da agressão à Líbia pela NATO. O país foi destruído. O povo líbio vive no inferno. Mas deixou de ser assunto para os grandes media internacionais, até porque operações semelhantes prosseguem noutros lugares, nomeadamente na Síria. Enquanto Obama se despede da presidência dos EUA, é indispensável não deixar esquecer nenhuma peça do seu criminoso currículo. O imperialismo, do qual os EUA constituem a mais agressiva potência, é o pior inimigo de toda a humanidade.
" A Líbia, convertida num estado falhado, com presença do Daesh (que acaba de perder Sirte), onde todos os grupos e milícias cometem crimes de guerra ante a indiferença ocidental, é hoje um país pelo qual nenhuma potência da NATO assume responsabilidade, embora uma terça parte da população necessite de ajuda alimentar urgente, embora os líbios tenham que comer ratos e beber águas pestilentas, embora se vejam obrigados a contemplar constantes assassínios e decapitações, embora ali a vida não valha nada, e os governos dessas potências sejam conscientes de que os líbios foram condenados a viver num inferno."

Não sabemos quantas pessoas morreram na Líbia em consequência da brutal intervenção da NATO em 2011. Algumas fontes falam de uns trinta mil mortos; outras aumentam esse número. A Cruz Vermelha, por seu lado, calcula uns cento e vinte mil mortos, mas não há dúvida de que essa guerra que a NATO iniciou destruiu o país e afundou os seus seis milhões de habitantes num pesadelo sinistro.

Em Março próximo passam seis anos sobre o início da matança: os EUA, França e Grã-Bretanha lançaram a partir de navios e aviões um diluvio de bombas e de misseis de cruzeiro. Justificaram a guerra e a carniçaria com a resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, que apenas falava de utilizar as “medidas necessárias” para proteger a população civil que “estivesse ameaçada”, e que autorizou uma zona de exclusão aérea, mas não a invasão do país. Não havia autorização alguma para iniciar uma intervenção militar, nem muito menos um ataque para derrubar o governo. China e Rússia, bem como a India e a Alemanha, abstiveram-se naquela votação do Conselho de Segurança e, posteriormente, perante a guerra imposta, tanto Moscovo como Pequim denunciaram a abusiva interpretação que Washington, os seus aliados europeus e a NATO tinham feito da resolução do Conselho. A África do Sul, que também tinha votado a favor da resolução, denunciou depois o uso desmesurado do acordo para forçar uma “mudança de regime e a ocupação militar do país”.

Foi tal a hipocrisia de Washington, Londres e Paris, que os seus aviões chegaram a bombardear a população civil em Bengasi e Misrata, entre outras cidades líbias, matando centenas de pessoas, apesar de supostamente intervirem em sua defesa. Previamente, as “forças rebeldes” foram treinadas por instrutores militares norte-americanos e de outros países da NATO, ao mesmo tempo que lhes forneceram armamento sofisticado e informação, e o Departamento de Estado norte-americano trabalhou para criar um Conselho Nacional de Transição para o impor como novo governo após a derrota de Kadhafi. De facto, desde antes do início da agressão militar, comandos militares britânicos e norte-americanos (em operações aprovadas por Cameron e Obama, violando a legalidade internacional) tinham-se infiltrado na Líbia e levavam a cabo acções de sabotagem e assassínios selectivos. Os militares ocidentais chegaram ao extremo de utilizar vestimenta similar aos milicianos do bando rebelde, para camuflar a sua intervenção ante as instituições internacionais: eram militares da NATO, mas nunca reconheceram a sua condição, e treinaram os rebeldes e lutaram junto a eles.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

«Centenário da Revolução de Outubro – Socialismo, exigência da actualidade e do futuro»

«Centenário da Revolução de Outubro – Socialismo, exigência da actualidade e do futuro»
Resolução do Comité Central do PCP

"Comemorar este centenário é denunciar a natureza do capitalismo com os dramáticos flagelos sociais e ameaças que encerra para a vida dos povos e para a sobrevivência da própria humanidade, é salientar a actualidade e validade do socialismo, é reafirmar a necessidade e possibilidade da superação revolucionária do capitalismo pelo socialismo e o comunismo.

Comemorar este centenário é valorizar o papel da classe operária, dos trabalhadores e dos povos na transformação da sociedade, é evidenciar a força que resulta da sua unidade, organização e luta. É reafirmar que têm nas suas mãos o êxito da resistência à actual ofensiva do grande capital, do imperialismo, e da conquista da sua emancipação social e nacional.

Comemorar a Revolução de Outubro é homenagear os seus obreiros e afirmar as grandes conquistas e realizações políticas, económicas, sociais, culturais, científicas, tecnológicas e civilizacionais do socialismo na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o seu imenso contributo para o avanço da luta emancipadora dos trabalhadores e dos povos."

"Comemorar a Revolução de Outubro é afirmar que o futuro não pertence ao capitalismo, pertence ao socialismo e ao comunismo."
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Em 2017 assinalam-se 100 anos sobre a Revolução Socialista de Outubro de 1917.

No processo histórico de emancipação dos explorados, dos oprimidos, dos trabalhadores e dos povos, desde a sociedade primitiva, ao esclavagismo, ao feudalismo e ao capitalismo, marcados por importantes acontecimentos revolucionários, a Revolução de Outubro é o acontecimento maior.

Depois de milénios de sociedades em que os sistemas socioeconómicos se basearam na exploração do homem pelo homem, a Revolução de Outubro iniciou uma nova época na história da humanidade, a época da passagem do capitalismo ao socialismo, sendo a primeira revolução que, concretizando profundas transformações democráticas nos domínios político, económico, social e cultural, assegurando a justiça e o progresso social e respondendo aos anseios dos trabalhadores e dos povos, empreendeu a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados.

A aguardar Trump: A crise sistémica global e algumas bofetadas desesperadas

A aguardar Trump: A crise sistémica global e algumas bofetadas desesperadas
por Jorge Beinstein

"Mas as duas décadas de globalização acelerada foram principalmente um movimento de financiarização, de hegemonia total do parasitismo financeiro sobre o conjunto da economia mundial."
"A crise é global, obedece à dinâmica do capitalismo como sistema planetário, à sua degeneração parasitária que degrada tanto os países centrais como os periféricos, emergentes ou não. "
"A esses processos econômicos acrescentou-se uma profunda crise geopolítica. O expansionismo político-militar do Império foi travado no seu principal território de operações: a Ásia. Os dois rivais estratégicos do ocidente, a China e a Rússia, estreitaram a sua aliança e foram para o seu espaço grandes, médios e pequenos estados da região: desde a Índia até o Irão, passando pelos países da Ásia Central. 
" No seu recuo rumo ao pátio traseiro histórico imperial, os Estados Unidos executam aí uma estratégia flexível e esmagadora de reconquista e saqueio que em poucos anos conseguiu deslocar os governos de Honduras, Paraguai, Brasil e Argentina, encurralar a Venezuela e por de joelhos a cúpula da insurgência colombiana. Contudo essa reconquista produz-se no quadro da crise econômica, social-institucional, cultural e geopolítica do Ocidente que leva ao pântano os regimes lacaios do continente. As vitórias direitistas no Paraguai, Argentina ou Brasil anunciam profundas crises de governabilidade, onde seus "governos", na realidade bandos de saqueadores, geram com as suas acções grandes destruições do tecido econômico e inevitavelmente a ascensão de protestos sociais maciços e crescentes. "
A partir da vitória de Trump os meios de comunicação hegemónicos lançaram uma avalanche de referências ao"proteccionismo económico" do futuro governo imperial e, em consequência, ao possível início de uma era de desglobalização. 

Na realidade, a causa dessa desglobalização anunciada não será a posse de Trump e sim o resultado de um processo que deu o seu primeiro passo com a crise financeira de 2008 e que desde 2014 se acelerou, quando o império entrou num percurso descendente irresistível.

Do ponto de vista do comércio internacional a desglobalização vem avançando desde há aproximadamente cinco anos. Segundo dados do Banco Mundial, na década de 1960 as exportações representaram em média 12,2% do Produto Global Bruto; na década seguinte passaram a 15,8%; nos anos 1980 chegaram aos 18,7% mas em fins dessa década o processo acelerou-se e em 2008 atingiu o seu nível máximo com 30,8%. A crise desse ano assinalou o tecto do fenómeno, a partir do qual ocorreu uma descida suave que se acentuou a partir de 2014-2015[1] . A propaganda de que as economias se internacionalizavam cada vez mais, condenadas a exportar porções crescentes da sua produção, foi desmentida pela realidade. Desde 2008 até agora a globalização comercial começar a reverter.