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domingo, 30 de agosto de 2009

Sobre a prática



Sobre a prática
(Sobre a relação entre o conhecimento e a prática,entre o saber e o fazer)

Mao Tsé-tung


No nosso Partido havia certo número de camaradas dogmáticos que, durante longo tempo, rejeitaram a experiência da revolução chinesa, negando essa verdade que "o marxismo não é um dogma, mas um guia para a ação", e tentaram intimidar a gente com palavras e frases das obras marxistas, tiradas mecanicamente fora do contexto. Havia também certo número de camaradas empíricos que, durante longo tempo, se limitaram à sua fragmentária experiência pessoal, não entenderam a importância da teoria para a prática revolucionária e não viram a revolução no seu conjunto; embora trabalhassem com diligência, faziam-no as cegas. As ideias errôneas de uns e outros, e em particular dos mais dogmáticos, causaram entre 1931 e 1934, enormes danos à revolução chinesa; aliás, os dogmáticos, disfarçados de marxistas, desorientaram grande número de camaradas. "Sobre a prática" foi escrito com o intuito de denunciar, do ponto de vista da teoria marxista do conhecimento, os erros subjetivistas de dogmatismo e de empirismo no Partido, nomeadamente o do dogmatismo. Este trabalho foi intitulado "Sobre a prática" porque coloca ênfase na denúncia do dogmatismo, variedade do subjetivismo que menospreza a prática. As concepções contidas neste trabalho foram expostas pelo camarada Mao Tsé-tung em uma palestra no Instituto Político e Militar Antijaponês de Yenán.


O materialismo pré-marxista examinava os problemas do conhecimento sem ter em conta a natureza social dos homens nem o desenvolvimento histórico da humanidade e, por isso, era incapaz de compreender que o conhecimento depende da prática social, quer dizer, depende da produção e da luta de classes.


Os marxistas pensam, acima de tudo, que a atividade dos homens na produção constitui justamente a base da sua atividade prática, o determinante de todas as demais atividades. O conhecimento do homem depende essencialmente da sua atividade na produção material, durante a qual vai compreendendo progressivamente os fenômenos da Natureza, as suas propriedades, as suas leis, bem como as relações entre ele próprio e a Natureza; ao mesmo tempo, pela sua atividade de produção, aprende a conhecer paulatina e gradualmente certas relações existentes entre os próprios homens. Não é possível adquirir qualquer destes conhecimentos fora da atividade na produção. Numa sociedade sem classes, cada indivíduo por si, enquanto membro dessa sociedade, colabora com os demais membros e estabelece com eles determinadas relações de produção, dedica-se à produção para satisfazer as necessidades materiais dos homens. Em todas as sociedades de classes, os membros dessas sociedades pertencem às diferentes classes sociais e que, de diversas formas, estabelecem determinadas relações de produção, também se dedicam à produção, destinada a satisfazer as necessidades materiais dos homens. É aqui que está a fonte fundamental de onde brota o desenvolvimento do conhecimento humano.


A prática social dos homens não se reduz à sua atividade na produção. Ela apresenta-se sob muitas outras formas: a luta de classes, a vida política, as atividades científicas e artísticas; em resumo, o homem, como ser social, participa em todos os domínios da vida prática da sociedade. É por essa razão que o homem, ao aprender, apreende em graus diversos as diferentes relações entre os homens, não apenas na vida material, mas também na vida política e cultural (ambas estreitamente ligadas à vida material). Destas formas de prática social, a luta de classes, nas suas diversas manifestações, exerce uma influência particularmente profunda sobre o desenvolvimento do conhecimento humano. Numa sociedade de classes, cada indivíduo existe como membro de uma determinada classe e cada forma de pensamento está invariavelmente marcada com o selo de uma classe.


Os marxistas defendem que a produção na sociedade humana se desenvolve passo a passo, do inferior ao superior e que, em consequência, o conhecimento que o homem tem quer da natureza quer da sociedade, se desenvolve também passo a passo, dos graus inferiores aos superiores, quer dizer, do simples ao complexo, do unilateral ao multilateral. Durante um período histórico muito longo, o homem viu-se circunscrito a uma compreensão unilateral da história da sociedade, já que, de um lado, as classes exploradoras a deformavam constantemente devido aos seus preconceitos e, por outro lado, a escala reduzida da produção limitava o horizonte dos homens. Só quando, com a formação de gigantescas forças produtivas (a grande indústria), surgiu o proletariado moderno, os homens puderam atingir uma compreensão global e histórica do desenvolvimento da sociedade e transformar esse conhecimento numa ciência, a ciência do marxismo.


Os marxistas defendem que só a prática social dos homens pode constituir o critério da verdade dos conhecimentos que os homens possuem sobre o mundo exterior. Com efeito, o conhecimento do homem fica confirmado apenas quando consegue os resultados esperados no processo da prática social (produção material, luta de classes ou experimentação científica). Se se quiser atingir sucesso no trabalho, quer dizer, alcançar os resultados previstos, tem de se fazer concordar as ideias com as leis do mundo exterior objetivo; sem essa correspondência, fracassa-se na prática. Depois de se sofrer um fracasso, tira-se lições dele, modifica-se as ideias fazendo-as concordar com as leis do mundo exterior e, dessa forma, pode-se transformar o fracasso em sucesso: eis o que se quer dizer com "a derrota é a mãe da vitória" e "cada fracasso faz-nos mais experientes". A teoria materialista dialética do conhecimento coloca a prática no primeiro plano; considera que o conhecimento do homem não pode separar-se, em nenhum grau, da prática, e recusa todas as teorias errôneas que negam a importância da prática ou desligam o conhecimento da prática. Lenine dizia: "A prática é superior ao conhecimento (teórico), porque possui não apenas a dignidade da universalidade, mas também a da realidade imediata" [1]. A filosofia marxista – o materialismo dialético – tem duas características relevantes. Uma é o seu carácter de classe: afirma explicitamente que o materialismo dialético serve o proletariado. A outra é o seu caráter prático: vinca a dependência da teoria em relação à prática, sublinha que a prática é a base da teoria que, por sua vez, serve à prática. A verdade de um conhecimento ou de uma teoria não se determina por uma apreciação subjetiva, mas pelos resultados objeivos da prática social. O critério da verdade não pode ser outro senão a prática social. O ponto de vista da prática é o ponto de vista primeiro e fundamental da teoria materialista dialética do conhecimento.


Mas, como é que o conhecimento humano surge da prática e serve, por sua vez, essa mesma prática? Para se compreender basta olhar o processo de desenvolvimento do conhecimento [2].


No processo da prática, os homens não vêem, ao começo, senão as aparências, os aspectos isolados e as ligações externas das coisas. Por exemplo, as pessoas vindas a Yenan para ver como é, nos primeiros um ou dois dias, vêem a sua topografia, as ruas e as casas, tomam contato com muitas pessoas, assistem a recepções, reuniões e comícios, ouvem várias intervenções e lêem diferentes documentos: tudo isso é a aparência das coisas, os seus aspectos isolados e as suas ligações externas. Esta etapa do conhecimento denomina-se etapa sensorial, isto é, a etapa das sensações e das impressões. Quer dizer, as coisas de Yenan, isoladas, agindo sobre os órgãos dos sentidos das pessoas que cá vêm, provocam-lhes sensações e fazem surgir no seu cérebro uma grande quantidade de impressões e ideias aproximativas das ligações externas entre as ditas impressões: esta é a primeira etapa do conhecimento. Nesta etapa, os homens não podem ainda formar conceitos, pois estes correspondem a um nível mais profundo, nem tirar quaisquer conclusões lógicas.


A continuação da prática social implica a repetição múltipla de fatos que suscitam nos homens as concomitantes repetições de sensações e impressões. É então que se produz uma mudança súbita (um salto) na consciência desses homens e no seu processo do conhecimento: surgem os conceitos. Os conceitos já não são mais simples reflexos das aparências das coisas, dos seus aspectos isolados e das suas ligações externas, porque captam os fatos na sua essência, no seu conjunto e nas suas ligações internas. Entre o conceito e a sensação existe uma diferença não apenas quantitativa, mas também qualitativa. O desenvolvimento posterior, através do juízo e da dedução, pode levar a extrair conclusões lógicas. Quando no Romance dos três reinos [3] se diz "franziu a sombrancelha e veio-lhe à mente um estratagema", ou quando dizemos correntemente "deixe-me refletir", isso significa que, operando intelectualmente conceitos com o cérebro, ajuízamos e deduzimos. Esta é a segunda etapa do conhecimento. Os nossos visitantes, que constituem grupos de investigação, depois de reunirem dados variados e, mais importante, depois de refletirem, podem chegar ao juízo de que "a política da frente única nacional anti-japonesa, aplicada pelo Partido Comunista, é consequente, sincera e genuína". Depois, tendo formulado esse juízo e se forem genuínos partidários da unidade para salvar a pátria, podem ir mais longe e extrair a seguinte conclusão: "A frente única nacional anti-japonesa pode ter êxito". Esta etapa, a dos conceitos, dos juízos e das deduções, aparece como ainda mais importante no processo geral do conhecimento das coisas pelos homens: é a etapa do conhecimento racional. A verdadeira tarefa do conhecimento consiste em passar das sensações ao pensamento, em chegar progressivamente à compreensão das contradições internas dos fatos, das suas leis e das ligações internas entre processos, quer dizer, em atingir o conhecimento lógico. Repetimos: o conhecimento lógico difere do conhecimento sensorial na medida em que este atinge apenas os aspectos isolados, as aparências e as ligações externas das coisas, enquanto aquele, dando um enorme passo à frente, alcança a totalidade de cada fenômeno, a sua essência e a ligação interna das coisas, pondo a nu as contradições internas do mundo objetivo e pode, por isso mesmo, alcançar o domínio do desenvolvimento do mundo circundante no seu conjunto, nas ligações internas de todos os seus aspectos.


Ninguém, antes do marxismo, elaborou uma teoria como esta, a materialista dialética, sobre o processo de desenvolvimento do conhecimento, fundada na prática e indo do superficial ao profundo. Foi o materialismo marxista o primeiro a resolver corretamente este problema evidenciando, de uma maneira materialista e dialética o movimento de aprofundamento contínuo do conhecimento, movimento pelo qual os homens, como seres sociais, passam progressivamente do conhecimento sensorial ao conhecimento lógico na sua prática complexa e constantemente repetida da produção e da luta de classes. Lenine dizia: "A abstração da matéria, de uma lei natural, a abstração do valor, etc., numa palavra, todas as abstrações científicas (corretas, sérias, não arbitárias) refletem a Natureza mais profundamente, mais fielmente e mais completamente" [4]. O marxismo-leninismo sustenta que cada uma das duas etapas do processo cognitivo tem as suas próprias características, na etapa inferior, o conhecimento manifesta-se como conhecimento sensorial e, na etapa superior, como conhecimento lógico, mas ambas são etapas de um processo cognitivo único. O conhecimento sensorial e o conhecimento racional são qualitativamente diferentes, mas não estão desligados um do outro, pelo contrário, encontram-se unidos pela base da prática. A nossa prática é testemunho de que não podemos compreender imediatamente os dados de que temos apenas percepção sensorial, e que só aquilo que já compreendemos podemos sentir com maior profundidade. A sensação apenas resolve o problema das aparências; o problema da essência só pode ser resolvido pelo pensamento teórico. A solução destes problemas não pode afastar-se, nem um mínimo que seja, da prática. Quem quiser conhecer uma coisa, não poderá fazê-lo sem entrar em contato com ela, quer dizer, sem viver (praticar) no mesmo meio em que essa coisa existe. Na sociedade feudal era impossível conhecer antecipadamente as leis da sociedade capitalista, pois não tinha aparecido ainda o capitalismo e faltava a prática correspondente. O marxismo só podia ser produto da sociedade capitalista. Marx, na época do capitalismo liberal, não podia conhecer concretamente, de antemão, certas leis peculiares da época do imperialismo, já que não tinha aparecido ainda o imperialismo, fase suprema do capitalismo, e faltava a prática correspondente; apenas Lenine e Estaline puderam assumir essa tarefa. Para além do seu gênio, a razão principal pela qual Marx, Engels, Lenine e Estaline puderam criar as suas teorias foi a sua participação pessoal na prática da luta de classes e da experimentação científica do seu tempo; sem este requisito, nenhum gênio poderia tê-lo feito com sucesso. A expressão: "sem ultrapassar a ombreira da porta, o letrado pode saber tudo quanto acontece no mundo" não era mais do que uma frase oca nos tempos antigos, quando a técnica não estava ainda desenvolvida; e se na nossa época de técnica desenvolvida, tal coisa aparece como realizável, os únicos que podem possuir conhecimentos autênticos, de primeira mão, são quem "no mundo" se dedica à prática. E só quando, graças à escrita e a outros meios técnicos, os conhecimentos que estas pessoas adquiriram na sua prática chegam ao "letrado", pode este, indiretamente, "saber tudo quanto acontece no mundo". Para conhecer diretamente tal ou tal coisa ou coisas, é necessário participar pessoalmente na luta prática para transformar a realidade, para transformar a dita coisa ou coisas, já que este é o único meio de entrar em contato com a forma sob a qual essa coisa aparece (o fenômeno) e só assim é possível conhecer a essência da dita coisa ou coisas e compreendê-las. Tal é o processo cognitivo que todos os homens seguem na realidade, embora alguns, deformando deliberadamente os fatos, afirmem o contrário. Os mais ridículos são os "sabe-tudo" que, recolhendo de ouvido conhecimentos fragmentários e superficiais, se têm pela "máxima autoridade no mundo", o que apenas dá testemunho da sua fatuidade. O conhecimento é uma questão de ciência e esta não admite nem a menor desonestidade nem a menor presunção; o que requer é precisamente o contrário, honestidade e modéstia. Se se quiser conhecer, tem-se que participar na prática que transforma a realidade. Se se quiser conhecer o sabor de uma pêra, tem-se que transformá-la provando-a. Se se quiser conhecer a estrutura e as propriedades do átomo, tem-se que fazer experiências físicas e químicas modificando o estado do átomo. Se se quiser conhecer a teoria e os métodos da revolução, tem-se que participar na revolução. Todos os conhecimentos autênticos resultam da experiência direta. Porém, cada homem não pode ter uma experiência direta de todas as coisas, razão pela qual a maior parte dos nossos conhecimentos provêm da experiência indireta, por exemplo, todos os conhecimentos dos séculos passados e de outros países. Estes conhecimentos foram ou são, para os nossos antecessores e para os estrangeiros, produto da sua experiência direta, e merecem confiança se no decurso dessa experiência direta se cumpriu a condição de "abstração científica" de que falava Lenine e se refletem de um modo científico a realidade objetiva; se assim não for, não a merecem. Por isso, os conhecimentos de qualquer pessoa são constituídos por duas partes: os dados da experiência direta e os dados da experiência indireta. Contudo, o que para mim é experiência indireta, constitui para outros experiência direta. Daí que, considerando o seu conjunto, nenhum conhecimento, seja do tipo que for, está desligado da experiência direta. A fonte de todo o conhecimento são as sensações recebidas do mundo exterior objetivo pelos homens através dos seus órgãos dos sentidos. Não é materialista quem negar a sensação, negar a experiência direta, ou negar a participação pessoal na prática transformadora da realidade. É por isso que os "sabe-tudo" são tão ridículos. Um antigo ditado chinês pergunta: "se não se entrar no covil do tigre, como se lhe pode apanhar as crias?" Este ditado é verdadeiro tanto para a prática do homem quanto para a teoria do conhecimento. Não pode haver conhecimento desligado da prática.


Para pôr em evidência como o movimento materialista dialético do conhecimento, movimento de aprofundamento gradual do conhecimento, se funda na prática transformadora da realidade, daremos a seguir outros exemplos concretos.


No período inicial da sua prática, período de destruição das máquinas e de luta espontânea, o proletariado, no que diz respeito ao seu conhecimento da sociedade capitalista, apenas se encontrava na etapa do conhecimento sensorial: conhecia apenas aspectos isolados e ligações externas de diferentes fenômenos do capitalismo. Nessa época, o proletariado era ainda o que se chama de "classe em si". Só se tornou numa "classe para si" quando, entrando no segundo período da sua prática, período de luta econômica e política consciente e organizada, começou a compreender a essência da sociedade capitalista, as relações de exploração entre as classes sociais e as suas próprias tarefas históricas, graças as experiências práticas variadas, à experiência de luta prolongada e à generalização no seu seio da teoria marxista, teoria científica elaborada por Marx e Engels a partir da dita experiência.


O mesmo se passou no que respeita ao conhecimento do povo chinês sobre o imperialismo. A primeira etapa foi a do conhecimento sensorial, superficial, tal como se manifestou nas lutas indiscriminadas contra os estrangeiros, ocorridas durante os movimentos do Reino Celestial Taiping, do Yijetuan e outros. Só na segunda etapa, a do conhecimento racional, o povo chinês discerniu as diferentes contradições internas e externas do imperialismo e compreendeu a verdade essencial de que o imperialismo, em aliança com a burguesia compradora e a classe feudal, oprimia e explorava as amplas massas populares da China; tal conhecimento começou com o período do Movimento de 4 de Maio de 1919.


Vejamos, agora, a guerra. Se os dirigentes militares carecerem de experiência militar, no início não poderão compreender as leis profundas que regem o desenvolvimento de uma guerra específica (por exemplo, a nossa Guerra Revolucionária Agrária dos últimos dez anos). No início, só poderiam adquirir a experiência de numerosos combates e, o que é mais, sofreriam muitas derrotas. No entanto, essa experiência (a experiência dos combates ganhos e, sobretudo, a dos perdidos) permitir-lhes-iam compreender o que por dentro articula toda a guerra, quer dizer, as leis dessa guerra específica, compreender a estratégia e as tácticas e, por essa via, dirigi-la com segurança. Se nesse momento se confiasse a direção da guerra a alguém inexperiente, esse alguém também teria que sofrer uma série de derrotas (quer dizer, adquirir experiência) antes de conseguir compreender as verdadeiras leis da guerra.


Com frequência, ouve-se dizer a alguns camaradas sem coragem para aceitar uma dada tarefa: "não estou certo de poder cumpri-la". Por que é que pensam assim? Porque não compreendem o conteúdo e as condições desse trabalho de acordo com as leis que o regem, porque não tiveram ou tiveram muito pouco contato com semelhante trabalho, de forma que não se pode dizer que conheçam tais leis. Mas, depois de uma análise detalhada da natureza e das condições desse trabalho, sentir-se-ão relativamente confiantes e aceitá-lo-ão com satisfação. Se se dedicarem a ele por algum tempo e adquirirem experiência, e se estiverem dispostos a estudar a situação com prudência, em vez de considerarem as coisas de maneira subjetiva, unilateral e superficial, serão capazes de chegar por si próprios a conclusões sobre como deve ser realizada a tarefa e fá-la-ão com muito maior coragem. Só quem tem uma visão subjetiva, unilateral e superficial dos problemas, se põe a dar ordens presunçosamente logo que chega a um novo posto, sem levar em conta as circunstâncias, sem examinar as coisas na sua totalidade (a sua história e a sua situação atual considerada como um todo) nem apreender a sua essência (a sua natureza e as suas ligações internas com as outras coisas). Inevitavelmente semelhante gente tropeça e cai.



Em consequência, o primeiro passo no processo do conhecimento é o contato com os fenômenos do mundo exterior: a etapa das sensações. O segundo é a síntese dos dados fornecidos pelas sensações, ordenando-os e elaborando-os: a etapa dos conceitos, dos juízos e das deduções. Só quando os dados recebidos pelas sensações são muitos e ricos (não fragmentários e incompletos) e estão de acordo com a realidade (que não resultem de um erro dos sentidos), podem servir de base para formar conceitos corretos e uma teoria correta.



Cumpre sublinhar dois pontos importantes. O primeiro, que se assinalou acima mas que convém reiterar, é a dependência do conhecimento racional relativa ao conhecimento sensorial. É idealista quem considera possível que o conhecimento racional não provenha do conhecimento sensorial. Na história da filosofia houve a escola "racionalista", que só reconhecia a realidade da razão, negava a realidade da experiência, afirmava que não se podia fazer confiança a não ser na razão e nunca na experiência proveniente da percepção sensível; o seu erro consistia em inverter os fatos. O conhecimento racional merece crédito precisamente porque tem origem no sensorial; de outro modo, o conhecimento racional seria um rio sem nascente, uma árvore sem raízes, qualquer coisa exclusivamente subjetiva, autogerada e indigna de confiança. Na ordem do processo do conhecimento, a experiência sensorial vem em primeiro lugar; se vincamos a importância da prática social no processo do conhecimento é porque só ela pode dar origem ao conhecimento humano permitindo aos homens começarem a adquirir experiência sensorial do mundo exterior objetivo. Para uma pessoa que fecha os olhos e tapa os ouvidos e se isola totalmente do mundo exterior objetivo, não há conhecimento possível. O conhecimento inicia-se com a experiência: esse é o princípio materialista da teoria do conhecimento.


O segundo ponto é a necessidade de aprofundá-lo, a necessidade de o desenvolver da etapa sensorial para a racional: é aqui que está a dialética da teoria do conhecimento [5]. Pensar que o conhecimento poda ficar na etapa inferior, sensorial, e que apenas é digno de crédito o conhecimento sensorial e não o racional, significa cair no "empirismo", erro já conhecido na História. O erro desta teoria consiste em ignorar que os dados proporcionados pelas sensações, ainda que constituam reflexos de determinadas realidades do mundo exterior objetivo (aqui não me refiro ao empirismo idealista, que reduz a experiência à chamada introspecção), não passam de unilaterais e superficiais reflexos dos fenômenos, que não traduzem a essência das coisas. Para refletir plenamente uma coisa na sua totalidade, para refletir a sua essência e as suas leis internas, é preciso proceder a uma operação mental, submeter os ricos dados percepcionados pelos sentidos a uma elaboração que consiste em rejeitar a casca para ficar com o grão, eliminar o falso para conservar o verdadeiro, passar de um aspecto a outro e do externo ao interno, formando assim um sistema de conceitos e teorias; é preciso saltar do conhecimento sensorial ao conhecimento racional. Esta elaboração não torna os conhecimentos menos ricos nem menos dignos de confiança. Pelo contrário, tudo aquilo que no processo do conhecimento foi elaborado cientificamente com base na prática, reflete a realidade objetiva, como diz Lenine, de forma mais profunda, verdadeira e completa. Os "práticos" vulgares não procedem assim; respeitam a experiência mas desprezam a teoria e, em consequência, não podem ter uma visão que abranja um processo objetivo na sua totalidade, falta-lhes uma orientação clara e uma perspectiva de longo alcance, e embriagam-se com os seus êxitos ocasionais e com fragmentos da verdade. Se essas pessoas dirigissem a revolução, conduzi-la-iam a um beco sem saída.


O conhecimento racional depende do conhecimento sensorial, e este deve desenvolver-se em conhecimento racional: tal é a teoria materialista dialética do conhecimento. Na filosofia, nem o "racionalismo" nem o "empirismo" entendem o carácter histórico ou dialético do conhecimento, e ainda que cada uma destas escolas contenha um aspecto da verdade (refiro-me ao racionalismo e ao empirismo materialistas, e não idealistas), ambas são errôneas quanto à teoria do conhecimento no seu conjunto. O movimento materialista dialético do conhecimento sensorial ao racional tem lugar quer num pequeno processo cognitivo (por exemplo, conhecer uma só coisa, um só trabalho) quer num grande processo (por exemplo, conhecer uma dada sociedade ou uma dada revolução).


No entanto, o movimento do conhecimento não acaba aí. Se o movimento materialista dialético do conhecimento se detivesse no conhecimento racional, seria resolvida apenas metade do problema e, mais ainda, segundo a filosofia marxista, a metade menos importante. A filosofia marxista considera que o problema mais importante não consiste em compreender as leis do mundo objetivo para estar em condições de interpretá-lo, mas sim em aplicar o conhecimento dessas leis para transformá-lo ativamente. Para o marxismo, a teoria é importante, e a sua importância está plenamente expressa na seguinte frase de Lenine: "sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário" [6]. Mas o marxismo só vinca a importância da teoria precisa e unicamente porque pode guiar a atividade prática. Se tivermos uma teoria justa, mas nos contentarmos em fazer dela um tema de conversa e a deixarmos arquivada em lugar de pô-la em prática, semelhante teoria, por melhor que seja, carecerá de qualquer significação. O conhecimento começa pela prática, e todo o conhecimento teórico, adquirido através da prática, deve ser de novo levado à prática. A função ativa do conhecimento não se manifesta apenas no salto ativo do conhecimento sensorial para conhecimento racional, mas também, o que é ainda mais importante, deve manifestar-se no salto do conhecimento racional à prática revolucionária. O conhecimento adquirido sobre as leis do mundo deve ser dirigido de novo à prática transformadora do mundo, há que aplicá-lo novamente na prática da produção, na prática da luta de classes revolucionária e da luta nacional revolucionária, bem como na prática da experimentação científica. Eis o processo de comprovação e desenvolvimento da teoria, a continuação do processo global do conhecimento. O problema de saber se uma teoria corresponde à verdade objetiva não se resolve nem pode resolver-se completamente no movimento do conhecimento sensorial ao conhecimento racional anteriormente descrito. O único meio para resolver completamente este problema é dirigir de novo o conhecimento racional para a prática social, aplicar a teoria à prática e verificar se conduz aos objetivos propostos. Muitas teorias das ciências naturais são reconhecidas como verdadeiras não apenas porque foram criadas por cientistas, mas porque foram comprovadas pela prática científica ulterior. Igualmente, o marxismo-leninismo é reconhecido como verdade não só porque esta doutrina foi elaborada cientificamente por Marx, Engels, Lenine e Estaline, mas porque foi comprovada na prática ulterior da luta de classes e da luta nacional revolucionária. O materialismo dialético é uma verdade universal porque ninguém, na sua prática, pode fugir ao seu domínio. A história do conhecimento humano ensina-nos que a verdade de muitas teorias era incompleta e que a comprovação na prática permitiu corrigi-las. É por isto que a prática é o critério da verdade e que "o ponto de vista da vida, da prática, deve ser o ponto de vista primordial e fundamental da teoria do conhecimento" [7]. Estaline tinha razão ao dizer: "a teoria resulta sem objeto se não estiver vinculada à prática revolucionária, exactamente do mesmo modo que a prática resulta cega se a teoria revolucionária não iluminar o seu caminho" [8] .


Consuma-se aqui o movimento do conhecimento? Respondemos sim e não. Quando os homens, como membros da sociedade, se dedicam à prática transformadora de um determinado processo objetivo (quer natural, quer social), numa etapa determinada do seu desenvolvimento, podem, como consequência do reflexo do processo objetivo no seu cérebro e da sua própria atividade consciente, fazer avançar o seu conhecimento desde um grau sensorial até um grau racional, e criar ideias, teorias, planos ou projetos que correspondam, em termos gerais, às leis que regem o processo objetivo em questão. A seguir, levam essas ideias, teorias, planos ou projetos à prática desse mesmo processo objetivo. Se atingirem os objetivos formulados, quer dizer, se na prática desse processo conseguirem realizar as ideias, teorias, planos ou projetos previamente elaborados, ou realizá-los em linhas gerais, então pode considerar-se consumado o movimento do conhecimento desse processo específico. Podem dar-se por atingidos os objetivos previstos quando, por exemplo, no processo de transformar a natureza, se realiza um projeto de engenharia, se verifica uma hipótese científica, se fabrica um utensílio ou se colhe uma cultura, ou, no processo de transformar a sociedade, o sucesso de uma greve, a vitória numa guerra, ou se cumpre um plano de educação. Porém, geralmente, quer na prática que transforma a natureza, quer na que transforma a sociedade, só muito ocasionalmente é que se realizam sem qualquer alteração as ideias, teorias, planos ou projetos previamente elaborados pelos homens. Isto deve-se a que as pessoas que se dedicam à transformação da realidade estão sempre sujeitas a numerosas limitações; não apenas pelas condições científicas e técnicas existentes, como também pelo desenvolvimento do próprio processo objetivo e o grau em que este se manifesta (por ainda não terem sido completamente revelados os diferentes aspectos e a essência do próprio processo objetivo). Nesta situação, devido a que, no decurso da prática, se descobrem circunstâncias imprevistas, frequentemente se modificam parcialmente e por vezes mesmo completamente as ideias, teorias, planos ou projetos. Dito por outras palavras, há casos em que as ideias, teorias, planos ou projetos originais não correspondem, em parte ou no todo, à realidade, são parcial ou totalmente errados. Em muitos casos, só após repetidos fracassos se consegue corrigir os erros, e se faz o conhecimento concoincidir com as leis do processo objetivo e, portanto, e assim transformar o subjetivo em objetivo, quer dizer, atingir na prática os resultados esperados. Em todo o caso, quando se chega a este ponto, pode considerar-se consumado o movimento do conhecimento humano relativamente a um dado processo objetivo numa etapa determinada do seu desenvolvimento.


No entanto, considerando o processo no seu desenvolvimento, o movimento do conhecimento humano não está terminado. Em virtude das suas contradições e lutas internas, todo o processo, quer natural quer social, progride e desenvolve-se e, em consonância com esse desenvolvimento, também o movimento do conhecimento humano tem que progredir e desenvolver-se. Quando se trata de movimentos sociais, os autênticos dirigentes revolucionários não só devem saber corrigir os erros que se descubram nas suas ideias, teorias, planos ou projetos, da forma afirmada anteriormente, como também devem saber avançar e mudar no seu conhecimento subjetivo, consoante um determinado processo objetivo avança e muda passando de uma etapa de desenvolvimento a outra, e conseguir que todos os que participam na revolução façam o mesmo, quer dizer, devem chegar ao ponto de saber corresponder às mudanças produzidas na situação, novas tarefas revolucionárias e novos planos de trabalho. Num período revolucionário, a situação muda muito rapidamente e, se o conhecimento dos revolucionários não muda também tão rapidamente quanto a situação, estes tornar-se-ão incapazes de conduzir a revolução à vitória.


Todavia, acontece frequentemente que as ideias se atrasam em comparação com a realidade; isto é devido ao fato de o conhecimento dos homens estar limitado por numerosas condições sociais. Opomo-nos aos teimosos nas fileiras revolucionárias, porque as suas ideias não progridem ao ritmo de mudança da situação objetiva, o que, na história, se tem revelado como oportunismo de direita. Essas pessoas não vêem que a luta dos contrários já fez avançar o processo objetivo, enquanto que o seu conhecimento ainda permanece na etapa precedente. Isto é característico do pensamento de todos os teimosos. As suas ideias estão defasadas da prática social, não são capazes de guiar o carro do progresso social, limitam-se a seguir-lhe o rastro, resmungando que o carro vai demasiado rápido e tentando atrasá-lo ou inverter-lhe a marcha.


Também nos opomos ao vácuo palavreado de "esquerda". As ideias dos "esquerdistas" passam por cima de uma determinada etapa de desenvolvimento do processo objetivo; uns tomam as suas fantasias por verdades, outros pretendem realizar à força, no presente, ideais que só são realizáveis no futuro. Afastadas da prática presente da maioria das pessoas e da realidade do momento, as suas ideias traduzem-se na ação prática em aventureirismo.


O idealismo e materialismo mecanicista, o oportunismo e o aventureirismo, caracaterizam-se pela ruptura entre o subjetivo e o objetivo, pela separação entre o conhecimento e a prática. A teoria marxista-leninista do conhecimento, caracterizada pela prática social científica, não pode deixar de se opor categoricamente a estas concepções erradas. Os marxistas reconhecem que, no processo geral absoluto do desenvolvimento do universo, o desenvolvimento de cada processo determinado é relativo e que, por isso, na corrente infinita da verdade absoluta, o conhecimento humano de cada processo concreto e particular, em cada etapa do seu desenvolvimento, é só uma verdade relativa. A soma total das incontáveis verdades relativas é que constitui a verdade absoluta [9]. O desenvolvimento de qualquer processo objetivo está cheio de contradições e lutas, como também o está o desenvolvimento do movimento do conhecimento humano. Todo movimento dialético do mundo objetivo reflete-se, mais tarde ou mais cedo, no conhecimento humano. Na prática social, o processo de nascimento, desenvolvimento e extinção é infinito. Igualmente infinito é o processo de nascimento, desenvolvimento e extinção no conhecimento humano. É justamente porque a prática do homem, que transforma a realidade objetiva de acordo com determinadas ideias, teorias, planos ou projetos, progride constantemente que o conhecimento humano da realidade objetiva se aprofunda sem cessar. O movimento de mudança no mundo da realidade objetiva é eterno e ilimitado; igualmente eterno e ilimitado é o processo de conhecimento da verdade que os homens prosseguem através da prática. O marxismo-leninnismo não põe fim, de modo algum, à descoberta da verdade; pelo contrário, ele abre sem cessar o caminho para conhecimento da verdade no processo da prática. A nossa conclusão é que nós somos pela unidade concreta e histórica do subjetivo e do objetivo, da teoria e da prática, do saber e do fazer, e opomo-nos a todas as concepções erradas, de "esquerda" e de direita, que se afastam da história concreta.


Na presente época do desenvolvimento na sociedade, a história fez recair sobre os ombros do proletariado e do seu partido a responsabilidade de conhecer com exactidão o mundo e transformá-lo. Este processo, o da prática transformadora do mundo, determinado na base do conhecimento científico, atingiu já um momento histórico na China e no mundo inteiro, um grande momento sem precedentes na história, isto é, o momento de acabar completamente com as trevas na China e no resto do mundo, de transformar o nosso mundo num mundo radioso, nunca visto antes. A luta do proletariado e dos povos revolucionários pela transformação do mundo implica o cumprimento das seguintes tarefas: transformar o mundo objetivo e, ao mesmo tempo, transformar o seu próprio mundo subjetivo, quer dizer, as capacidades cognitivas de cada um e o relacionamento entre o mundo subjetivo de cada um e o mundo objetivo. Estas transformações já estão em marcha numa parte do globo terrestre, a União Soviética, onde se continua a aprofundar esse processo de transformações. Os povos da China e do resto do mundo também estão a passar ou passarão por semelhante processo. O mundo objetivo a transformar inclui igualmente todos os adversários destas transformações, que têm de passar por uma etapa de coação antes de poderem entrar na etapa de transformação consciente. A época em que a humanidade inteira proceda de maneira consciente à sua própria transformação e à do mundo, será a época do comunismo mundial.


Descobrir a verdade através da prática e, mais uma vez através da prática, comprová-la e desenvolvê-la. Partir do conhecimento sensorial e desenvolvê-lo ativamente convertendo-o em conhecimento racional; passar do conhecimento racional à direção ativa da prática revolucionária para transformar o mundo subjetivo e o mundo objetivo. Praticar, conhecer, praticar outra vez e conhecer de novo. Esta forma repete-se em infinitos ciclos e, a cada ciclo, o conteúdo da prática e do conhecimento eleva-se a um nível cada vez mais alto. Tal é, no seu conjunto, a teoria materialista-dialética do conhecimento, e tal é a teoria materialista-dialética da unidade do saber com a prática.


Julho de 1937


Comentário:
Esta versão em português deste importante texto de Mao Tsé-tung foi elaborada a partir de tradução galega do mesmo e da comparação com a edição em português do I Tomo das obras escolhidas de Mao Tsé-tung das Edições Pekim. Essas duas versões são bastante diferentes, embora nos pareça que a edição galega foi elaborada por tradução da versão inglesa (não temos a certeza). A versão das edições Pekim, possivelmente por ter sido elaborada por alguém relativamente desconhecedor da cultura portuguesa, está escrita em linguagem pouco habitual, se bem que correta. Daí a necessidade da confrontação das duas versões. Os critérios fundamentais foram os seguintes: a simplificação da linguagem sem alterar o sentido; entre a palavra "sensível" utilizada na versão das edições Pekim e a palavra "sensorial" da versão galega, optamos por "sensorial" dado que, se bem que os seus significados sejam muito similares, hoje predomina para "sensível" o significado de "que é detectável pelos sentidos", enquanto que para "sensorial" predomina o significado de "proveniente dos sentidos" que se adequa melhor ao contexto. Também coisa, fenômeno e fato estão traduzidos diferentemente numa e noutra versão. Aqui a opção foi, só empregar a palavra "fenômeno" quando não existiram dúvidas de que o sentido era o da "aparência das coisas", Por certo haverá alguma coisa a corrigir. Cuidaremos para que tal se venha a fazer. (http://textosmarxistas.blogs.sapo.pt/3796.html)


Notas:
[1] V. I. Lenine: Resumo do livro de Hegel "Ciência da lógica" - Cadernos Filosóficos
[2] Ver C. Marx, Teses sobre Feuerbach e V. I. Lenine, Materialismo e empiriocriticismo - capítulo II, seção 6
[3] Célebre romance histórico chinês escrito por Luo Kuan-chung (1330-1400)
[4] V. I. Lenine: Resumo do livro de Hegel "Ciência da lógica" - Cadernos Filosóficos
[5] Ver V. I. Lenine: Resumo do livro de Hegel "Ciência da lógica" - Cadernos Filosóficos: "Para compreender, há que começar a compreender e a estudar de uma maneira empírica, e elevar-se do empírico ao geral."
[6] V. I. Lenine: Que fazer? - capítulo I, seção 4
[7] V. I. Lenine: Materialismo e empiriocriticismo - capítulo II, seção 6
[8] J. V. Staline: "Os fundamentos do leninismo"
[9] Veja-se V. I. Lenin, Materialismo e empiriocriticismo - capítulo II, seção 5
* * *
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A política de segurança democrática não é de segurança nem é democrática; é de guerra.









Colômbia:A política de segurança democrática não é de segurança nem é democrática; é de guerra.



ilia Solano*

ALAI AMLATINA- A preocupação com a segurança é uma velha cartada que se dá na Colômbia para defender interesses e projetos, o investimento multinacional e o agora chamado "livre mercado".


Esta estratégia militar de guerra tem no coração um plano bélico contra os movimentos sociais e a insurgência, e mantém um fio condutor com antigas agendas de guerra contra o povo – como foi o "Plan Lazo", desenhado em 1964 para alcançar a então dita pacificação do país; assim como o "Plan Andes", que em 1968 defendeu a guerra contra a guerrilha; ou o “Manual Provisório para o Planejamento da Segurança Nacional” (1974); a "Estratégia Nacional” contra a Violência de Cesar Gaviria (1991); e ainda o “Plan Colombia” de Andrés Pastrana, que permitiu uma enorme influência militar estadunidense (1998), com um investimento militar de milhões de dólares.


Em 2002, junto com Álvaro Uribe, chega o programa militar da chamada "segurança democrática", incluído o que chamaram de "guerra total", que combina a doutrina da guerra de baixa intensidade com estratégias de guerra convencional; concepções militares baseadas em manobras massivas de artilharia, armamento blindado, grandes concentrações de tropas e organização do exército em corpos, divisões, brigadas, batalhões e outra vez o uso da população civil.

Quer dizer, o que cobre o manto da "segurança democrática" é outro capítulo da guerra que nos impuseram historicamente, uma política aparentemente exitosa porque tem as seguintes conquistas que a sustentam e os resultados que a justificam:

* Firma um modelo de governo criminoso, que se apóia nas forças armadas, nos paramilitares e nos narcotraficantes, pois lhes entrega o comando dos organismos de controle, administração, justiça, embaixadas, funcionalismo público etc.

* Protege os interesses das multinacionais europeias e estadunidenses, os negócios dos grupos empresariais locais, os mega-projetos e oferece Tratados de Livre Comércio.

* Converte os massacres do Estado em falsos positivos e promove os deslocamentos em massa, violência sexual, torturas e desaparecimentos, transformados em troféus da segurança democrática.

* Despreza o acordo humanitário, a saída política negociada ao conflito armado e rechaça a paz, a soberania, a autonomia e a integração da América Latina.

* Condena líderes à detenção arbitrária e os encarcera; viola seus processos e os princípios jurídicos, como a presunção de inocência, a investigação imparcial, o direito de defesa e o julgamento justo.
* Ignora obrigações relativas à promoção e à proteção dos direitos humanos, os quais viola com absoluta impunidade.

* Criminaliza as organizações camponesas, indígenas e afrocolombianas, estudantes, representantes de movimentos populares e sociais, feministas e militantes da oposição que lhes são incômodos, aos quais chama de terroristas.

* Aprova leis como a do Desenvolvimento Rural, legalizando a contra-reforma agrária impulsionada pelo narcotráfico, o paramilitarismo e os latifundiários para por a terra a serviço do grande capital financeiro.

* Agride violentamente a meninas, mulheres, adolescentes e a população GLBT.* Assegura polpudas recompensas e premia a quem assassina líderes sindicais.

* Provoca o êxodo de milhares de colombianos para diferentes lugares do mundo, fazendo com que muitos deles vivam em condições de desproteção e vulnerabilidade.

* Persegue intelectuais dedicados ao pensamento crítico e os chama “bloco de intelectuais da guerrilha”.

* Ataca as organizações de Direitos Humanos e as desqualificam por considerá-las "agentes do terrorismo”.

* Combate a liberdade de expressão, convertendo a maioria dos meios de comunicação em antenas repetidoras do discurso oficial.

* Justifica o não cumprimento dos Convênios e Tratados Internacionais para a defesa dos Direitos Humanos assinados pela Colômbia.

* Cataloga como terroristas os países da região que não estão a serviço dos interesses estadunidenses, e, portanto, considera que sua doutrina da segurança democrática pode ser extraterritorial.

* Impõe bases militares estadunidenses para contribuir com a desestabilização da região, com a pretensão de transformar a Colômbia em uma espécie de Israel, contra o resto dos povos irmãos.

* Apaga da memória coletiva a história oculta da repressão na Colômbia e aniquila a dignidade dos povos e seu esforço por construir uma verdadeira democracia.

O que vivemos na Colômbia não é política, nem é segurança, e muito menos democrática. É uma guerra de proporções gigantescas que, em nome da “luta contra o terrorismo”, pretende fazer com que ignoremos a pobreza e a miséria crescentes, o desemprego, o rearmamento de grupos paramilitares e narcotraficantes, o deslocamento forçado em níveis absurdos, a parapolítica, a delinquência organizada, a privatização dos serviços públicos, as torturas do DAS [Departamento Administrativo de Segurança] ordenadas pelos governos do momento, os assassinatos de jovens pobres por parte do exército e da polícia, a corrupção do governo e, em geral, a decomposição de um estado dedicado à criminalidade.

* Lilia Solano é professora e pesquisadora colombiana.
Tradução de Roberta Moratori






quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Honduras: a revolução nacional-libertadora tardia




As pedras de Tegucigalpa

Honduras: a revolução nacional-libertadora tardia

Ivan Pinheiro (*)

Os dias que passei em Honduras, na fraterna companhia de Amauri Soares e Marcelo Buzetto, serviram para consolidar as impressões que, desde o Brasil, expusera no artigo “Contra a manobra do pacto de elites”.

Definitivamente, o golpe não só contou como ainda conta com o apoio material e político do imperialismo estadunidense, que foi obrigado a dissimular sua participação em razão dos erros cometidos na execução do golpe, sobretudo o fato de o mundo ter sido surpreendido com a prisão e a retirada à força de Manuel Zelaya do país, sem uma satanização prévia.

O golpe em Honduras é parte do plano imperialista para tentar frear a ALBA e os processos de mudanças sociais na América Latina. Honduras fica entre a Nicarágua e El Salvador, vizinhos hoje governados por antigos movimentos guerrilheiros de libertação nacional, agora em versão moderada, que se desmilitarizaram nos anos 90: a Frente Sandinista e a Frente Farabundo Marti.

Além disso, o país possui grandes reservas não exploradas de petróleo, minério abundante e outros recursos naturais, além da base de Soto Cano, a mais importante e estratégica para os ianques na América Central. Zelaya é o detalhe do golpe, que é muito mais contra a ALBA, contra Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e os dois vizinhos limítrofes.

Ao que tudo indica, está a ponto de se consumar o plano B que o império adotou a partir da repulsa mundial no início do golpe: a sua legitimação e, em seguida, legalização.

A cada dia que passa fica mais difícil a volta de Zelaya ao governo, ainda que apenas para presidir as eleições gerais de novembro com as mãos atadas, sem ALBA, sem Constituinte, nem mesmo o direito de se candidatar ao mais simples cargo eletivo.

Um dos mais importantes lances deste plano B se deu no dia 12 de agosto, quando os membros da Corte Suprema e do Tribunal Superior Eleitoral anunciaram oficialmente a manutenção das eleições gerais para o dia 29 de novembro próximo. Logo em seguida, simulando surpresa, o presidente golpista reconhece a decisão do judiciário, como se estivesse submetendo-se a um poder autônomo, ao “império da lei e da justiça, ao estado democrático de direito”.

Tudo isso em cadeia nacional de televisão. No horário nobre, como convém a uma boa novela. Em seguida, ainda ao vivo, Honduras ganha de quatro a zero da rival Costa Rica, pelas eliminatórias da Copa do Mundo.

A sinalização é óbvia: até a posse do novo Presidente, em janeiro, Micheletti preside o país, o TSE realiza as eleições, a Corte Suprema as preside, as Forças Armadas as garantem e os observadores internacionais escolhidos a dedo as legitimam. Tudo para passar um ar de legalidade. Se assim for, Zelaya não volta nem para passar a faixa ao futuro Presidente.

No mesmo dia, em entrevista coletiva após uma cúpula do Nafta, entre sorridentes presidentes do Canadá e do México, Obama fez uma jogada de mestre, abandonando Zelaya à própria sorte. Aproveitando-se das ilusões alimentadas por este, de voltar ao poder por iniciativa dos EUA, Obama lavou as mãos, apontando a incoerência das pressões para que intervenha em Honduras por parte dos que pedem o fim da intervenção dos EUA nos países da América Latina.

No mesmo evento trilateral, Felipe Calderón – eleito presidente numa monumental fraude contra López Obrador - anuncia o reconhecimento do México ao governo Micheletti, seguindo o exemplo pioneiro do Canadá, cujas mineradoras transnacionais com sede no país ocupam quase um terço do território hondurenho. Para os que ainda não se deram conta de que o capitalismo brasileiro é parte do sistema imperialista, a mais poderosa dessas mineradoras tidas como canadenses (a INCO) foi recentemente comprada pela “nossa” Vale do Rio Doce.

Tudo indica que o núcleo duro da oligarquia e da cúpula militar que assumiu o governo em Honduras há mais de cinqüenta dias - agora falando grosso pelo decurso de prazo no poder - está com força para impor seu próprio projeto de pacto de elites para superar a crise e legitimar o golpe. Não só rechaçou as propostas conciliadoras feitas pelo Presidente da Costa Rica, como, em 10 de agosto, não recebeu uma delegação de chanceleres latino-americanos que, em nome da OEA, iriam a Tegucigalpa tentar mediar a crise. E olha que eram representantes apenas de governos moderados ou pró-imperialistas: Argentina, Canadá, Costa Rica, Jamaica, México e República Dominicana. Os golpistas só admitiram receber a Comissão da OEA no próximo 24 de agosto, ganhando mais duas semanas sem “mediações”.

Os golpistas conseguiram unificar todas as instituições e personalidades das classes dominantes: as cúpulas das Forças Armadas, da Igreja Católica, das entidades empresariais, do Judiciário, a grande maioria do Congresso Nacional, incluindo parlamentares do próprio partido de Zelaya, aliás o mesmo de Micheletti, o centenário Partido Liberal, uma espécie de PMDB hondurenho.

Esta unificação se expressa na mídia. Estão com o golpe todos os quatro jornais diários e, com a intervenção militar no canal 36 e a repressão a jornalistas independentes, todas as emissoras de televisão. Apenas uma estação de rádio ainda resistia, mas quando escrevo, deve estar fora do ar.

Creio que presenciamos em Honduras os momentos cruciais para o desfecho desta batalha, um capítulo da luta de classes que se expressa no país. Nos dias 11 e 12 de agosto, não por coincidência, chegaram ao auge a mobilização popular e a repressão. Sinto expressar a impressão de que os golpistas saíram mais fortalecidos dessas dramáticas 48 horas.

No dia 11, os protestos em Tegucigalpa, São Pedro de Sula e outras localidades envolveram quase cem mil manifestantes. Na capital, a marcha tentou ir até a Casa Presidencial, sede do governo federal, que fica num bairro de elite afastado do centro, sendo reprimida por um aparato de milhares de soldados da Polícia Nacional e do Exército. Na dispersão, como expressão da revolta popular, as pedras das mal calçadas ruas de Tegucigalpa se transformaram em armas contra símbolos do capital: as vidraças de bancos e redes multinacionais de comida rápida.

Na noite do dia 11, o governo retoma o toque de recolher. Na madrugada, veículos sem placa percorrem a capital com atiradores em trajes civis metralhando os dois principais locais de reunião da direção da Frente Nacional Contra o Golpe de Estado: as sedes do Sindicato dos Trabalhadores de Bebidas e da Via Campesina.

Na manhã do dia 12, quando nova manifestação pacífica se dirigia ao centro da cidade, para um protesto diante do Congresso Nacional, a repressão já havia montado um aparato impressionante, destinado a evacuar todo o centro da cidade com violência contra quem estivesse nas ruas, fossem ou não manifestantes.

Sou testemunha ocular de que o pretexto para justificar a violenta repressão foi montado por agentes provocadores que, numa ação combinada, simularam uma agressão e logo em seguida a proteção do Vice-Presidente do Congresso Nacional, um dos principais articuladores do golpe. Exatamente na hora em que passavam os manifestantes, ele saíra sozinho à porta do Parlamento em plena sessão legislativa. Estas cenas, algumas horas depois, foram exibidas à exaustão em todas as emissoras de televisão hondurenhas e possivelmente no mundo todo.

Na dispersão desordenada, grande parte dos manifestantes se dirigiu ao quartel general da resistência desde o início das mobilizações, o até então inviolável campus da Universidade Pedagógica, onde se realizam as Assembléias da resistência e se alojavam os militantes que moram fora da capital. Mas o campus já estava tomado pelas tropas, que sequer permitiram aos alojados retirarem seus pertences pessoais, cuja apreensão ainda serviu para manipular a “descoberta” de coquetéis molotov.

É impressionante a combatividade, a coragem e a determinação do povo hondurenho. É digna de registro a unidade das forças que impulsionam até aqui a resistência, organizadas na Frente Nacional Contra o Golpe de Estado, apesar das debilidades políticas, materiais e organizativas dos movimentos sociais e grupos de esquerda. Não fossem estas debilidades, a história poderia ser outra. Nos momentos seguintes ao golpe havia um conjunto de fatores que poderiam configurar uma situação pré-revolucionária.

Os sindicatos ainda não têm a força desejável, sobretudo na iniciativa privada, onde a greve geral não vicejou. Os agrupamentos revolucionários só agora estão se reorganizando, recuperando-se da desarticulação das décadas de 80 e 90, em função da derrota da luta armada, da repressão e da crise na construção do socialismo. Para se ter uma idéia, dois partidos que se reivindicavam comunistas se dissolveram naquele período e só agora alguns comunistas estão refundando o Partido.

Mas as classes dominantes, para além do Estado, possuem uma arma decisiva numa batalha como esta: a mídia, sobretudo a televisão. É por este meio que os golpistas conseguiram calar, enquadrar e cooptar a grande maioria da pequena burguesia, restringindo a resistência aos setores proletários e parte minoritária das camadas médias.

Com muita competência, diuturnamente, todos os canais de televisão legitimam o golpe e satanizam a resistência. Jogam com o medo, mostrando cenas de violência nas ruas, em que as tropas só atacam para se defender dos “violentos” manifestantes, chamados de bárbaros e terroristas. Jogam com o risco de se perderem empregos e negócios, por conta da paralisação de parte importante da economia do país. Jogam com o sentimento de autodeterminação, acusando a resistência de ser dirigida e financiada pela Venezuela e pela Nicarágua.

Todos os meios de comunicação se utilizam do mesmo padrão de manipulação. Os manifestantes são “vândalos, terroristas”; o golpe é uma “sucessão constitucional”. Não há qualquer debate na mídia eletrônica, em que haja espaço para o contraditório. Como aqui no Brasil, todos os “especialistas” chamados a comentar os fatos têm a mesma visão de mundo. A manipulação midiática não é apenas o que noticiam, mas também o que não noticiam. A solidariedade internacional não é conhecida pelo povo hondurenho. Zelaya tem sido satanizado como um meliante político, que queria rasgar a Constituição, a serviço de Hugo Chávez. Nesta fase de legitimação do golpe, o noticiário sobre Honduras vai sumindo na mídia mundial.

Confesso que foi impossível resistir à atração de vivenciar pessoalmente os confrontos do centro da cidade, ao lado dos manifestantes e do povo, para ajudar no que fosse possível. Confesso que foi difícil reprimir o impulso que as mãos suplicavam, quando as pedras me olhavam do chão.

A ofensiva da direita pode levar a um natural refluxo do movimento de massas, sobretudo face ao cansaço, à falta de resultados, ao isolamento social e, de uns tempos para cá, a uma certa desconfiança sobre a determinação de Zelaya. Ainda por cima, a mídia legitimou a repressão, o que dá ao governo golpista mãos livres para radicalizar mais nas próximas escaramuças.

Há muitos indícios de que o imperialismo já selou o destino de Zelaya: a possibilidade de uma volta ao país, “anistiado”, após a posse do novo Presidente. Não há qualquer sinal da saída de Micheletti antes disso, nem com a assunção de um tertius para disfarçar o golpe. Se um fato novo não ocorrer, Micheletti passa a faixa para o novo Presidente, em janeiro, certamente um cidadão “ilibado, acima das classes, de união nacional”, ou seja, da absoluta confiança do imperialismo e das classes dominantes locais.

Sinceramente, gostaria de trazer de Honduras avaliações diferentes.

Um exemplo deste plano é que, em 13 de agosto, partiu de Honduras para os EUA uma comissão de “notáveis” indicados pelo governo golpista, para explicar as razões do golpe ao Departamento de Estado, a convite deste. Lembram-se do compromisso de Obama de não receber delegações do governo golpista?

Os golpistas estão trocando os representantes diplomáticos hondurenhos no mundo todo, como a Cônsul Gioconda Perla, do Rio de Janeiro, que ficou fiel a Zelaya. Salvo os que aderiram ao golpe. Preencheram todos os cargos federais. O governo funciona a pleno vapor. As estradas estão sendo desobstruídas, para escoar a circulação de bens e a exportação, reativando a economia. Os defensores de Zelaya na elite política se calaram, com raras exceções. O caso mais emblemático do oportunismo político é do Embaixador hondurenho no Brasil, que havia sido nomeado por Zelaya. Como já sentiu para onde os ventos sopram, simulou uma internação por problema cardíaco no dia da chegada de Zelaya em Brasília, quando este foi recebido pelo Presidente Lula.

Como se vê, vai de vento em popa a tática da legitimação do golpe, ajudada pelo quase fim do mandato de Zelaya e, agora, por uma agenda eleitoral que dominará a cena política hondurenha daqui a poucos dias. Para se ter idéia do processo eleitoral, haverá mais de 20.000 candidatos a cerca de 2.850 cargos (Presidente, Deputados, Prefeitos, Vereadores), inclusive do único Partido considerado de esquerda entre os cinco registrados, o social democrata UD (Unificación Democrática), que tem seis Deputados - nem todos participando publicamente da resistência - numa Câmara de pouco mais de cem.

A partir deste 31 de agosto, os partidos e os candidatos registrados já poderão divulgar suas campanhas em matérias pagas, inclusive na televisão. Isto mudará a pauta nacional.

Aliás, a participação ou não no processo eleitoral pode ser um fator de divisão da Frente contra o golpe, que reúne a Unificación Democrática e o Bloque Popular, em que se encontram as organizações sociais e políticas mais à esquerda. A UD já lançou publicamente um candidato a Presidente, enquanto o Bloque Popular defende a não participação nas eleições, com o argumento de não legitimar o golpe.

Enquanto isso, Zelaya, num comportamento pendular, abandonou seu posto em território nicaragüense, em Ocotal, na fronteira com seu país, de onde anunciara que iria comandar pessoalmente a resistência popular, exatamente nos dias 11 e 12 de agosto, para os quais estava convocada a jornada de luta. Nesses dias, Zelaya optou por um giro pela América do Sul, visitando o Brasil e o Chile, para sinalizar uma inflexão do eixo Chávez/Ortega para Lula/Bachelet.

Mas já ontem o presidente deposto havia voltado ao seu posto na fronteira, de onde divulgou ao povo hondurenho um comunicado conclamando à manutenção da luta de resistência contra o golpe e ao não reconhecimento do processo eleitoral convocado, nem dos seus resultados. E as manifestações continuam, ainda que com participação menor. Neste domingo, haverá um grande concerto musical contra o golpe.

Em verdade, mesmo assim, parece chegar ao fim um dos últimos capítulos da ilusão da revolução nacional-libertadora, que já há algumas décadas passou do prazo de validade.

Zelaya, eleito por um partido da ordem, representava o que ainda resta de setores da burguesia hondurenha, pequenos e médios empresários, que têm algum nível de contradição com o imperialismo. Sua aproximação com a ALBA e a Petrocaribe não tinha um sentido de transição ao socialismo, ainda que o difuso “socialismo do século XXI”. Tratava-se do interesse desses setores não monopolistas da burguesia hondurenha de fazer crescer o mercado interno e ter acesso ao mercado dos países da ALBA. Para isso, precisavam nacionalizar algumas riquezas nacionais, participar de uma integração não imperialista para importar petróleo e outros insumos mais baratos e mitigar as injustiças para aumentar o poder de consumo popular, através de políticas compensatórias e aumento do salário mínimo.

A realidade está mostrando que estes setores residuais da burguesia não têm a mínima condição de disputar com os setores monopolistas. Na fase imperialista do capitalismo, ainda mais em meio à sua crise, a hegemonia no Estado burguês pertence aos segmentos associados aos grandes monopólios. Quem manda em Honduras são os bancos, o agronegócio, os exportadores de matéria prima, e as indústrias maquiadoras voltadas, como no caso da Nike, para o mercado externo.

Mas em Honduras, nada será como antes, principalmente a esquerda e sua vanguarda. Amadurecem e formam-se nesta legendária luta milhares de militantes e quadros. O comando da Frente, em especial do Bloque Popular, já ajustou corretamente a linha política e a organização popular às necessidades desta nova fase da luta. A bandeira da convocação da Constituinte, livre e soberana, com ou sem Zelaya, é um dos eixos políticos principais. Em Assembléia neste domingo, a resistência resolveu priorizar a organização popular, a partir das bases.

A grande lição que os militantes hondurenhos aprenderam é que os proletários só podem contar com eles próprios. Para grande parte desta heróica vanguarda, acabaram-se as ilusões em alianças com a burguesia, nas possibilidades de humanização do capitalismo e de transição ao socialismo nos marcos da institucionalidade burguesa.

E a certeza de que não bastam as pedras de Tegucigalpa.


* Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB.
Rio, 19 de agosto de 2009

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Honduras e a ocupação do Continente

Honduras e a ocupação do Continente

Mientras la nebulosa levantada por Honduras desvió la mirada, se volvieron
a desatar los montajes para acusar de cómplices de las FARC -catalogadas
como grupo terrorista en las listas del Pentágono-, a los Presidentes de
Venezuela y Ecuador; y se revive un viejo acuerdo entre Colombia y
Estados Unidos que otorga inmunidad a las tropas estadounidenses en suelo
colombiano y permite la instalación de 7 bases militares norteamericanas
que se suman a las seis ya reconocidas por el Pentágono en su Base
structure report, sancionado por el Congreso.
Para ler texto completo:

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A BRIGA COM AS FARC FICOU GRANDE DEMAIS PARA URIBE


A briga com as FARC ficou grande demais para Uribe

original em:


Com o acordo para o estabelecimento de sete bases militares norteamericanas em território colombiano, o Governo do presidente Álvaro Uribe Vélez, não somente entrega a soberania como também reconhece que a briga com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) ficou grande demais para ele.


ABN


Foi o que expressou o chefe máximo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Alfonso Cano, em entrevista concedida à revista neogranadina “Cambio”, cujo conteúdo foi divulgado nesta última quarta-feira.


Na sua primeira entrevista para qualquer meio de comunicação, desde que assumiu o cargo máximo das Farc, o chefe guerrilheiro, substituto do legendário Manuel Marulanda Vélez, o “Tiro Fijo”, dialogou via internet com “Cambio”.


Na conversa, o chefe guerrilheiro fala sobre os lança-foguetes com os quais as autoridades de Bogotá acusam à Venezuela de fornecê-los às Farc e revela como os obtiveram.Acrescentou que desde que o presidente Chávez foi retirado como negociador do processo interno de paz, não tem mantido contato com seu governo, ainda assim persiste a admiração pelos objetivos da sua gestão e a gratidão pelos seus esforços em prol do acordo humanitário.


Também se refere à suposta ajuda financeira que, segundo Bogotá, os insurgentes teriam fornecido à campanha eleitoral do atual presidente equatoriano, Rafael Correa.


Expressa que a Casa de Nariño e o Governo de Washington têm feito de tudo com os supostos computadores capturados do Comandante Raúl Reyes. “Os computadores supostamente encontrados têm o que os governos de Bogotá e Washington querem que contenham. Tem feito deles uma lâmpada de Aladim à que recorrem quando precisam uma desculpa ou justificativa”.


Também reflexiona sobre o significado que para as Farc teve a morte de Marulanda e fala da situação geral das Farc, das quais diz: “não temos problemas internos graves nem estamos em crise”


A seguir a entrevista:


__CAMBIO: Depois de que o presidente Uribe suspendeu a mediação do presidente Chávez na libertação dos sequestrados, as Farc continuaram tendo contatos com o Governo venezuelano?


__ALFONSO CANO: Não. Retirado o presidente Chávez como facilitador desse processo, cessaram nossas conversações, mas nossa admiração pelos seus objetivos bolivarianos do Governo venezuelano é a mesma de sempre e nossa gratidão pelos seus esforços em prol de um acordo humanitário será permanente.


__ CAMBIO: Você reconhece que o governo Uribe isolou às Farc no plano internacional?


__ALFONSO CANO: Enquanto se desenvolveram os diálogos de El Caguán ampliamos as relações com governos e organizações nos diferentes continentes. Interrompidos os diálogos, o governo Pastrana e a Casa Branca iniciaram uma ofensiva diplomática contra as Farc que, obviamente, gerou modificações nas formas de nos relacionarmos com a comunidade internacional. Mas mantemos relações em todo o mundo, sujeitas à devida discrição.


__ CAMBIO: A sensação é de que as Farc tem perdido interlocução internacional, que já não são tão fortes nesse campo.


__ ALFONSO CANO: Não poderia precisar quão tão fortes somos nesse campo porque é uma apreciação subjetiva, mas lhe garanto que, nas novas condições da diplomacia do século XXI, manteremos muito boas relações em muitas partes do mundo.


__ CAMBIO: O que significam a Venezuela e o Equador dentro da sua estratégia política?


__ ALFONSO CANO: O sonho bolivariano de uma pátria grande que integre todos os povos da América Latina e Caribe, que libere o seu enorme potencial de forma soberana e nos coloque diante o mundo como a grande nação que devemos ser.


__ CAMBIO: Que efeitos teve a morte de ‘Reyes’ para os vínculos externos das Farc?


__ ALFONSO CANO: ‘Raúl’ era o responsável das relações internacionais das Farc e, obviamente, sua morte teve um impacto importante nesse nível, mas dado que nas Farc todos os trabalhos de direção são analisados, planificados e desenvolvidos em equipe, podemos recobrar o ritmo. Hoje, a responsabilidade de lhe dar uma dinâmica adequada às necessidades do momento é do comandante ‘Iván Márquez’.


__ CAMBIO: A captura dos computadores de ‘Raúl Reyes’ deixou as Farc a descoberto, praticamente sem segredos...


__ ALFONSO CANO: Com os supostos computadores de ‘Raúl’, o que tem sido apresentado é uma mal feita manipulação propagandistica dos governos da Colômbia e dos Estados Unidos: como cortina de fumaça ou para ganhar pontos em alguma pesquisa, ou ainda para difundirem suspeitas públicas sobre algum presidente de países vizinhos toda vez que acham necessário. A retidão de muitas figuras públicas tem sido submetida ao escárnio e à lapidação. Nada do atribuído aos computadores tem sido sério e o pouco que ocorreu, pelo rigor da justiça, foi descartado por inconsistência.


__ CAMBIO: Os e-mails entre o Secretariado, encontrados nesses computadores, indicam que as Farc têm negócios de narcotráfico e de armas, além de investimentos na Venezuela.


__ ALFONSO CANO: Os computadores supostamente encontrados têm o que os governos de Bogotá e Washington querem que contenham. Fizeram deles uma lâmpada de Aladim à que recorrem quando precisam de uma desculpa ou justificativa. Foram transformados em aríetes contra os povos vizinhos, ao converter as ‘infiltrações’ ordenadas pela Presidência em pontas de lança da diplomacia colombiana e, em muitas ocasiões, da política interna, sem que ninguém possa dar fé da veracidade da informação, que difundem venenosamente.


__ CAMBIO: Também há comunicações entre membros das Farc com pessoas do gabinete do presidente do Brasil, ‘Lula’ da Silva. Qual é a relação com esse governo?


__ ALFONSO CANO: Na época do processo de El Caguán participaram, de diversas formas, muitos governos e organizações da comunidade internacional. O demais são especulações irresponsáveis.


__ CAMBIO: De quanto realmente foi a contribuição econômica das Farc à campanha de Rafael Correa a que o ‘Mono Jojoy’ se refere num vídeo conhecido há poucos dias?


__ ALFONSO CANO: Não temos entregado nem armas nem dinheiro a governos ou organizações de outros países, pois o que conseguimos mal dá para nosso próprio gasto. Por quê teríamos de contribuir com a campanha eleitoral de uma pessoa, como o atual presidente Rafael Correa, que sequer conhecemos?


__ CAMBIO: Como foram parar em poder das Farc os lança-foguetes que a Suécia vendeu ao Governo da Venezuela e que o Exército colombiano capturou em outubro de 2008?


__ ALFONSO CANO: Uribe recorreu ao terror midiatico para insinuar que o Governo da Venezuela nos facilitou lança-foguetes que teríamos capturado faz muito tempo num enfrentamento militar na fronteira, fato que foi amplamente informado à opinião pública naquela época. Nem os povos nem os governos do mundo são tão tolos como pensam o Pentágono e a Casa de Nariño. Simplesmente trata-se de cozinhar as condições para justificar a entrega da soberania nacional da Colômbia a Washington, reconhecendo que a briga contra as Farc ficou grande demais para ele.


__ CAMBIO: O que significou para as Farc a perda de Manuel Marulanda?


__ALFONSO CANO: A ausência de nosso líder e guia, de nosso referencial fundamental e nosso eixo. Mas também do mestre que nos inculcou a irrevogável decisão de perdurar no esforço que ele começou na companhia de Jacobo Arenas e seus companheiros de Marquetalia. Ensinou-nós, como na poesia de Neruda, que o mundo não termina em nós mesmos.


__ CAMBIO: E o assassinato de ‘Iván Rios’ em mãos de um subalterno? Isso foi interpretadocomo um sinal da crise e da decomposição que as Farc vivem...


__ ALFONSO CANO: É um fato espantoso, mas absolutamente isolado, de um demente ambicioso, percebido pelos serviços de inteligência do Estado, que foi capaz de assassinar covardemente a um revolucionário de grandes qualidades como ‘Iván’ e depois proceder com a crueldade que o mundo inteiro conheceu.


__ CAMBIO: Há razões para deduzir que as Farc têm graves problemas internos: diversos sequestrados escaparam com a ajuda dos seus carcereiros, o número de desertores aumenta, os combatentes que desertaram dizem que o moral da tropa é baixo...


__ ALFONSO CANO: Uma organização com o moral baixo não está em condições de manter uma atividade militar permanente como a que informamos através dos informes de guerra. O Governo tenta criar um estado psicológico triunfalista, mas de tanto mentir ao fim se transformará num bumerangue contra ele próprio. Desertores sempre houve; as chamadas desmobilizações são uma grande farsa sustentada em bazófia recolhida em povoados e prisões para aumentar as listagens, desviar recursos públicos e enganar à opinião pública. Não temos graves problemas internos, não há crise.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

BRASILEIROS EM HONDURAS


BRASILEIROS EM HONDURAS

COMUNICADO 2

Hoje, 11 de agosto, Honduras foi palco de grandes manifestações populares. Diversos movimentos, partidos e organizações da Frente Nacional de Luta Contra o Golpe de Estado deram continuidade às lutas que tiveram início em 28 de junho, quando foi deposto o presidente Manuel Zelaya.

Milhares de trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade se uniram numa mobilização que reuniu cerca de 50 mil pessoas na capital, Tegucigalpa. Estavam presentes camponeses/trabalhadores rurais da Via Campesina, membros da Confederação Nacional Indígena-COPIN, diversos setores do movimento operário-sindical (com destaque para os professores que mantêm uma greve por tempo indeterminado), Federação Universitária Revolucionária-FUR e outros setores do movimento estudantil, Frente dos Advogados Contra o Golpe, Feministas Contra o Golpe, setores do Partido Liberal, setores da igreja católica, Igreja Luterana, parlamentares e militantes do Partido da Unificação Democrática – UD, do Movimento Nova Democracia e inúmeras outras entidades dos movimentos social-operário-popular-estudantil.

As diversas marchas foram se encontrando num local muito próximo da Casa Presidencial. Falaram as delegações internacionalistas do Brasil, da Argentina e dos EUA. A concentração durou 5 horas, aguardando os companheiros e companheiras que vinham de várias regiões do interior do país. Enquanto isso, milhares também se concentravam em San Pedro de Sula.

Durante a marcha até Tegucigalpa foram acontecendo manifestações locais, fechamento de rodovias, etc.

Quando uma das últimas das marchas chegou, centenas foram se dirigindo até o Boulevard João Paulo II, avenida da Casa Presidencial, e a Frente convocou o povo para se dirigir até lá.

Enquanto se avaliava qual seria o rumo da marcha, que agora já contava com muita gente, a situação ficava tensa por causa do crescimento do número de soldados, da polícia e do exército. As ruas em torno da Casa Presidencial foram fechadas para pessoas e veículos. Batalhões de Choque e atiradores da polícia e do exército se posicionavam enquanto o povo gritava “Nos tienen miedo porque no tenemos medo”.

Diversos companheiros e companheiras reconhecem que o nível de consciência política e de organização das massas se elevou neste último período (pós-28/06), mas que ainda é insuficiente para impor uma esmagadora derrota no projeto golpista.

A esposa e a filha de Zelaya também falaram nos atos.

Existe um esforço em se organizar, e a Comissão de Disciplina do ato identificou infiltrados que, a pé e de moto, acompanhavam as marchas. Logo foram tomadas as medidas necessárias.

A marcha foi impedida de se aproximar da Casa Presidencial, e aí viveu-se um momento de impasse. A polícia iniciou uma negociação para que ocupássemos uma faixa da avenida e seguíssemos por uma rua próxima da Casa, mas o exército foi contra e mandou mais soldados para fortalecer a barreira criada pelas forças da repressão.

A avaliação foi que era preciso evitar um confronto desnecessário naquele momento. Foi dada orientação para não confrontar com as tropas e seguir em caminhada até a Universidade Pedagógica, onde todos ficariam alojados. No caminho um grupo de policiais atirou, segundo militantes que testemunharam o fato, num jovem militante. Então setores do povo reagiram com ações contra estabelecimentos comerciais de propriedade de empresários golpistas e um ônibus. A polícia aproveitou para desencadear a repressão disparando contra o povo. O resultado foi aproximadamente 50 presos. Não temos ainda o número total de feridos. Neste momento, advogados e membros da Frente estão tentando libertar os companheiros. Em resposta à grande mobilização de hoje, o governo anunciou às 19h00 o retorno do toque de recolher das 22h00-05h00, podendo ampliar o mesmo caso considere necessário.

Lembramos que no dia que o presidente Manuel Zelaya tentou entrar no país pela fronteira com a Nicarágua o governo estendeu o toque de recolher até ás 12h00, para impedir o povo de se encontrar com ele, e houve muitos conflitos.

O bloqueio midiático é total, mas a consciência do povo está despertando no dia-a-dia das lutas.

Fortalecer as marchas e mobilizações, fortalecer a unidade na Frente, defender em qualquer situação uma Assembléia Constituinte, parecem ser essas as tarefas principais desse momento.

Tegucigalpa, 11 de agosto de 2009

Amauri Soares Ivan Pinheiro Marcelo Buzetto
Deputado Estadual (SC) Secretário Geral do PCB Dirigente Nacional MST

terça-feira, 11 de agosto de 2009

EUA: MAIS TRÊS BANCOS ENTRAM EM COLAPSO


EUA: MAIS TRÊS BANCOS ENTRAM EM COLAPSO


Dia 7 de Agosto mais três bancos entraram em colapso nos EUA: First State Bank, Community National Bank (da Florida) e Community First Bank (do Oregon). O Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) deverá pagar US$185 milhões para cobrir os custos dos encerramentos dos três bancos. Só este ano, 72 bancos entraram em colapso nos EUA. Em 2008 este número foi de 25 e em 2007 de três. As falências recentes mostram que não está resolvido o problema dos activos tóxicos no sistema financeiro estado-unidense. Estima-se que monte a US$2 milhões de milhões (trillion) o total de dívidas podres nas contabilidades dos bancos, os quais recusam-se a reduzir os valores nela registados ou vendê-los pelo seu valor real (que é apenas uma pequena fracção do seu valor nominal).
A notícia está em Countercurrents .
A noticia esta também em : www.resistir.info

Voltar às ruas pela Reforma Agrária e por um Brasil sem latifúndio



Voltar às ruas pela Reforma Agrária e por um Brasil sem latifúndio


Neste mês de agosto a classe trabalhadora brasileira sairá às ruas para protestar e dialogar com a população sobre a crise econômica e suas consequências para os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade. Nós do MST lá estaremos marchando e debatendo sobre nossa proposta de Reforma Agrária Popular, como projeto sustentável de desenvolvimento social para o país, e denunciando o total abandono da Reforma Agrária por parte do Governo Lula.
Montaremos um Acampamento Nacional pela Reforma Agrária em Brasília, e lá ficaremos de 10 a 21 de agosto. Queremos debater com o governo e com a sociedade nossas propostas para melhorar a vida da população do campo e da cidade. Sairemos em marcha em vários estados e vamos nos somar às diversas forças organizadas no dia 14 em atos nas capitais.

Não são novidade para ninguém as críticas do MST ao Programa de Reforma Agrária do atual governo executado pelo Incra e pelo MDA. Essa posição política só é possível porque nos últimos anos, além de mantermos nossa autonomia em relação ao governo, não paramos de fazer luta contra o latifúndio e contra as grandes empresas transnacionais.
Frustrando as expectativas de quem acreditava em mudanças, o governo Lula manteve a mesma política agrária do governo tucano de FHC, fortalecendo o agronegócio, com incentivo às monoculturas e à exportação. Em relação à pequena agricultura e à Reforma Agrária continuamos com políticas centrais como o crédito Pronaf, que tem como resultado uma média de inadimplência de 60% das famílias assentadas, e a prioridade de assentamento de famílias na região da Amazônia legal - 52 % de todas as famílias assentadas nos dois governos foram nessa região.
E com isso, mais de 90 mil famílias continuam sofrendo acampadas, muitas delas há mais de 4 anos, ou sem infra-estrutura básica nos assentamentos que lhes permitam levar uma vida digna e produzir na terra.
O momento exige que saiamos dos acampamentos e assentamentos e caminhemos até às cidades. Queremos cobrar os compromissos que governo assumiu com os sem terra quando realizamos a Marcha de 2005: o assentamento imediato das 90 mil famílias acampadas e a regularização das mais de 40 mil famílias que estão em cima da terra sem crédito, infra-estrutura e moradia.
Reivindicamos a atualização dos índices de produtividade - medidas que permitem saber se as fazendas são ou não produtivas - que segundo a Constituição deveriam ser atualizados a cada 10 anos e vergonhosamente desde 1974 não o são, favorecendo assim apenas o agronegócio.
Exigimos o urgente descontingenciamento de todos os recursos destinados à Reforma Agrária e que seja feita suplementação dos recursos necessários para o assentamento de todas as famílias acampadas.
Sabemos que não estaremos sozinhos, esse é o momento de construir alianças políticas com todos os setores da classe trabalhadora e protestar contra a retirada de direitos conquistados pelo nosso povo de um modo geral.
E neste momento tão importante de luta e de avançar nas conquistas, Florestan Fernandes se faz mais atual que nunca quando nos lembra que não podemos nos deixar cooptar, nem esmagar, mas que temos que lutar sempre! Sempre!


Direção Nacional do MST
Acompanhe a Jornada por nossa página: http://www.mst.org.br/
Letraviva - MST Informa http://www.mst.org.br/

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

FORA IANQUES DA AMÉRICA LATINA!

FORA IANQUES DA AMÉRICA LATINA!
NÃO À INSTALAÇÃO DAS BASES MILITARES DOS EUA NA COLÔMBIA!
(Nota Política do PCB)

O Partido Comunista Brasileiro (PCB) vem a público repudiar a intenção do governo dos Estados Unidos, com o apoio e beneplácito do presidente fascista da Colômbia, Álvaro Uribe, de instalar bases militares em sete pontos do território colombiano. A estratégia, negociada secretamente entre os dois governos nos últimos meses e agora tornada pública, visa substituir a base de Manta, no Equador, até então o mais importante centro de operações dos EUA na região, depois da devolução do Canal do Panamá, em 1999.

O governo democrático e popular de Rafael Correa recusou-se a renovar a permanência dos militares estadunidenses em seu país, em respeito à decisão aprovada na reforma constitucional referendada pelo povo equatoriano em setembro de 2008. A atitude de Correa também foi uma resposta à ação terrorista contra as FARC, montada a partir da base de Manta, sob comando dos EUA e com apoio de Uribe, responsável pelo assassinato do dirigente revolucionário Raul Reyes.

A Colômbia passará a ser ocupada oficialmente pelos EUA através de sete bases militares, conforme anunciado pelo general James Jones, assessor de Segurança Nacional do presidente Barack Obama. Se depender do desejo de seu ditador de plantão, os colombianos perdem em definitivo a soberania de parte de seu território, oficializando, assim, a condição do país de mera base de operações e cabeça de ponte do imperialismo no hemisfério sul.

As bases militares, que serão usadas pelo Exército, a Marinha e a Aeronáutica dos EUA, servirão para que as forças armadas ianques, a partir do território colombiano, vigilância e controle militar e aéreo sobre os próprios colombianos e os povos da América Latina e do Caribe e, possivelmente, até sobre nações da África banhadas pelo Oceano Atlântico, que ficarão sob o poder de fogo da aviação norte-americana.

Há algumas semanas, o embaixador estadunidense na Colômbia, William Bronfield (cérebro da operação militar de dezembro de 1989, realizada para resgatar o ditador Noriega, aliado dos EUA no Panamá, à custa de cerca de dois mil civis mortos), confirmou tratar-se da transferência da base de Manta para a Colômbia. A subserviência do governo colombiano é tanta que um dos pontos do acordo prevê a total impunidade dos militares e civis estadunidenses perante a justiça local. No Equador, 300 norte-americanos jamais puderam ser julgados, mesmo tendo cometido delitos como roubos e homicídios.

O objetivo do plano é que as bases militares possam servir como ameaça permanente aos “perigosos” países vizinhos, como o Equador e a Venezuela, onde processos eleitorais associados a movimentos sociais marcados por intensa participação popular conduzem a importantes transformações socioeconômicas, responsáveis pelo enfrentamento à burguesia e pelo progressivo controle sobre o antes intocado poder do capital nestes países. As ações militares, mais uma vez sob o falso argumento de ampliar a guerra contra o narcotráfico e de atacar o “terrorismo” – isto é, as guerrilhas e as lutas das massas contra o capitalismo, serão dirigidas, centralmente, contra populações em toda a América Latina, do Pacífico ao Caribe.

Desde a década de 1980, em nome da pretensa guerra contra as drogas, os governos dos EUA financiam, treinam e armam tropas colombianas para o combate às guerrilhas formadas a partir da grande revolta popular de 1948, El Bogotazo (que desencadeou inúmeros conflitos sociais entre 1948 e 1953, período conhecido como La Violencia, quando morreram 180 mil colombianos). A estratégia de ocupação foi ampliada com o Plano Colômbia, em 2000, visando o combate às FARC, que passaram a dominar grande parte do território colombiano. Mas, fundamentalmente, aumentava-se a presença norte-americana em uma região de grande interesse geopolítico, por sua posição estratégica e pela riqueza em recursos minerais e energéticos, como petróleo, gás e carvão.

Está claro que a iniciativa do governo de Obama faz parte da política imperialista, que, em favor dos interesses das corporações e da indústria bélica estadunidense, mantém seus tentáculos mundo afora. A face moderada de Obama busca ofuscar a política do big stick. Mas a máscara começa a cair, pois o silêncio sobre o massacre israelense na Faixa de Gaza, o recrudescimento da guerra no Afeganistão, a manutenção da ocupação do Iraque, as ameaças veladas ao Irã e ao Paquistão, assim como o apoio ao golpe civil-militar em Honduras, demonstram que as ações do imperialismo, unindo os interesses econômicos das transnacionais à ameaça constante da guerra, continuam mais vivas que nunca. Na América do Sul, à reativação da IV Frota na costa sul-atlântica vem somar-se agora o projeto de instalação de bases militares na Colômbia.

O PCB repudia o acordo criminoso entre Obama e Uribe, denunciando a iniciativa como uma ameaça concreta à paz e à convivência fraterna entre os povos do nosso continente. Conclamamos as forças de esquerda, democráticas e populares em nosso país a prestar solidariedade ativa aos trabalhadores e movimentos sociais em luta em toda a América Latina e ao protesto organizado contra mais esta ação agressiva do imperialismo estadunidense.

PCB – Partido Comunista Brasileiro
Comitê Central
agosto de 2009

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

SETE PUNHAIS NO CORAÇÃO DA AMÉRICA


Fonte: Aporrea.org


Leio e volto a ler dados e artigos realizados por personalidades inteligentes, conhecidas ou pouco conhecidas, que escrevem para diversos meios e extraem a informação de fontes que não são questionadas por ninguém.


Os povos que habitam o planeta, em todas as partes, correm riscos econômicos, ambientais e bélicos, derivados da política dos Estados Unidos da América, mas em nenhuma outra região da terra vem-se ameaçados por tão graves problemas como seus vizinhos, os povos localizados neste continente ao Sul daquele país hegemônico.


A presença de tão poderoso império que em todos os continentes e oceanos dispõem de bases militares, porta-aviões e submarinos nucleares, navios de guerra modernos e aviões de combate sofisticados, portadores de todo o tipo de armas, centenas de milhares de soldados, cujo governo reclama impunidade absoluta para eles, constitui a dor de cabeça mais importante de qualquer governo, seja de esquerda, centro ou direita, aliado ou não dos Estados Unidos da América.


O problema, para os que somos seus vizinhos, não é que lá se fale outra língua e seja uma nação diferente. Há norteamericanos de todas as cores e todas as origens. São pessoas iguais a nós e capazes de qualquer sentimento num sentido ou outro. A questão dramática é o sistema que foi desenvolvido ali e imposto a todos. Tal sistema não é novo a respeito do uso da força e os métodos de domínio que tem prevalecido ao longo da história. O novo é a época que vivemos. Tratar o assunto desde pontos de vista tradicionais é um erro e não ajuda ninguém. Ler e saber o que pensam os defensores do sistema ilustra muito, porque significa estar cientes da natureza de um sistema apoiado no constante apelo ao egoísmo e aos instintos mais primários das pessoas.


Caso não existir a convicção do valor da consciência, e sua capacidade de prevalecer sobre os instintos, não poderia se expressar sequer a esperança de mudança em qualquer período da brevíssima história do homem. Também não poderiam compreender-se os terríveis obstáculos que encaram os diferentes líderes políticos nas nações latinoamericanas ou iberoamericanas do hemisfério. Em último termo, os povos que viviam nesta área do planeta há dezenas de milhares de anos, até a famosa descoberta da América, não tinham nada de latinos, de ibéricos ou europeus; suas características eram mais parecidas às dos asiáticos de onde procederam seus antepassados. Hoje os vemos nas faces dos índios do México, América Central, Venezuela, Colômbia, Equador, Brasil, Peru, Bolívia, Paraguai e Chile, um país onde os araucanos escreveram páginas inesquecíveis. Em certas zonas do Canadá e do Alasca conservam suas raízes indígenas com toda a pureza possível. Mas no território principal dos Estados Unidos da América a grande parte dos antigos povoadores foi exterminada pelos conquistadores brancos.


Como todo o mundo sabe, milhões de africanos foram tirados de suas terras para trabalhar como escravos neste hemisfério. Em algumas nações como Haiti e grande parte das ilhas do Caribe, seus descendentes constituem a maioria da população. Em outros países formam amplos setores. Nos Estados Unidos da América os descendentes de africanos constituem dezenas de milhões de cidadãos que, geralmente, são os mais pobres e discriminados.


Por séculos essa nação reclamou direitos privilegiados sobre o nosso Continente. Nos anos de Martí tentou impor uma moeda única baseada no ouro, um metal cujo valor tem sido o mais constante o longo da história. Geralmente o comércio internacional baseia-se nele. Hoje nem sequer isso. Desde os tempos de Nixon, o comércio mundial foi instrumentado com notas de papel impresso pelos Estados Unidos de América: o dólar, uma divisa que hoje tem um valor por volta de 27 vezes menor do que no começo da década de 70, uma das tantas maneiras de dominar e calotear o resto do mundo. Hoje, no entanto, outras divisas substituem o dólar no comércio internacional e nas reservas de moedas conversíveis.


Se por um lado as divisas do império são desvalorizadas, por outro suas reservas militares crescem. A ciência e a tecnologia mais moderna, monopolizada pela superpotência, foram orientadas consideravelmente para o desenvolvimento das armas. Atualmente não se fala só em milhares de ogivas nucleares, ou do poder destrutivo moderno das armas convencionais; se fala em aviões sem pilotos, tripulados por autômatos. Não se trata de uma simples fantasia. Já estão sendo usadas algumas naves aéreas desse tipo no Afeganistão e outros pontos. Recentes relatórios mostram que num futuro relativamente próximo, no ano 2020, muito antes do que a calota da Antártida derreta, o império, com seus 2500 aviões de guerra, projeta dispor de 1100 aviões de combate F-35 e F-22, em suas versões de caça e bombardeiros de quinta geração. Para se ter uma idéia desse potencial, baste dizer que os que dispõem na base de Soto Cano, em Honduras, para o treinamento de pilotos desse país são F-5; os que forneceram às forças aéreas, da Venezuela, antes de Chávez, ao Chile e outros países, eram pequenas esquadrilhas de F-16.


Mais importante ainda, o império projeta que daqui a 30 anos todos os aviões de combate dos Estados Unidos da América, desde caças até bombardeiros pesados e aviões de transporte, serão tripulados por robôs.


Esse poderio militar não é uma necessidade do mundo, é uma necessidade do sistema econômico que o império impõe ao mundo.


Qualquer um pode entender que se os autômatos podem substituir os pilotos de combate, também podem substituir os operários em muitas fábricas. Os acordos de livre comércio que o império tenta impor aos países deste hemisfério implicam que os trabalhadores terão que competir com a tecnologia avançada e os robôs da indústria ianque.


Os robôs não fazem greves, são obedientes e disciplinados. Já vimos pela televisão máquinas que colhem maçãs e outras frutas. É necessário fazer também a pergunta aos trabalhadores norte-americanos. Onde estarão as vagas? Qual é o futuro que o capitalismo sem fronteiras, em sua fase avançada do desenvolvimento designa aos cidadãos?


No limiar desta e de outras realidades, os governantes dos países da UNASUL, do MERCOSUL, do Grupo do Rio e de outros, não podem deixar de analisar a justa pergunta venezuelana. Qual é o sentido das bases militares e navais que os Estados Unidos querem estabelecer ao redor da Venezuela e no coração da América do Sul? Lembro que há vários anos, quando entre a Colômbia e a Venezuela, duas nações irmãs pela geografia e pela história, as relações ficaram perigosamente tensas, Cuba promoveu em silêncio importantes passos de paz entre ambos os países. Nós cubanos, jamais estimularemos a guerra entre países irmãos. A experiência histórica, o destino manifesto proclamado e aplicado pelos Estados Unidos, e a fraqueza das acusações contra a Venezuela de fornecer armas às FARC, associadas às negociações com o propósito de conceder sete pontos do seu território para uso aéreo e naval das Forças Armadas dos Estados Unidos, obrigam iniludivelmente a Venezuela a fazer investimentos em armas, recursos que poderiam ser usados na economia, nos programas sociais e na cooperação com outros países da região com menos desenvolvimento e recursos. A Venezuela não se arma contra o povo irmão da Colômbia, arma-se contra o império, que já tentou derrocar a Revolução e hoje tenta instalar nas proximidades da fronteira venezuelana as suas armas sofisticadas.


Seria um erro grave pensar que a ameaça é apenas contra a Venezuela; é dirigida a todos os países do Sul do continente. Nenhum deles poderia iludir o tema e vários deles o têm declarado dessa maneira.


As gerações presentes e futuras julgarão os seus líderes pela conduta que adotarem neste momento. Não se trata só dos Estados Unidos, mas sim dos Estados Unidos e do sistema. O que é que oferece? O que é que busca?


Oferece a ALCA, isto é, a ruína antecipada de todos os nossos países, o livre trânsito de bens e de capital, mas não livre trânsito de pessoas. Agora experimentam o temor de que a sociedade opulenta e consumista seja alagada de latinos pobres, índios, negros e mestiços ou brancos sem emprego em seus próprios países. Devolvem todos aqueles que cometem um erro, ou sobram. Muitas vezes matam-nos antes de entrarem, ou os retornam como rebanhos quando não precisam deles; 12 milhões de imigrantes latino-americanos ou caribenhos são ilegais nos Estados Unidos. Em nossos países surgiu uma nova economia, principalmente nos menores e mais pobres: a das remessas. Quando há crise, ela fustiga, sobretudo os imigrantes e seus familiares. Pais e filhos são separados de maneira cruel, às vezes para sempre. Se o imigrante tem idade militar, outorgam-lhe a possibilidade de alistar-se para combater a milhares de quilômetros de distância, “em nome da liberdade e da democracia”. Quando regressam, se não morrem, lhes é concedido o direito de serem cidadãos dos Estados Unidos. Como estão bem treinados oferecem-lhes a possibilidade de serem contratados não como soldados oficiais, mas sim como soldados civis das empresas privadas que prestam serviços nas guerras imperiais de conquista.


Existem outros gravíssimos perigos. Constantemente chegam notícias dos emigrantes mexicanos e de outros países de nossa região que morrem quando tentam atravessar a atual fronteira entre o México e os Estados Unidos. Todos os anos a cota de vítimas ultrapassa consideravelmente a totalidade dos que perderam a vida nos quase 28 anos de existência do famoso muro de Berlim.


O mais incrível ainda é que quase não circula pelo mundo a notícia de uma guerra que neste momento custa milhares de vidas por ano. Em 2009, já morreram mais mexicanos do que os soldados norte-americanos que morreram na guerra de Bush contra o Iraque ao longo de toda sua administração.


A guerra no México foi desatada por causa do maior mercado de drogas que existe no mundo: o dos Estados Unidos. Porém, dentro de seu território não existe uma guerra entre a polícia e as forças armadas dos Estados Unidos lutando contra os narcotraficantes. A guerra foi exportada para o México e a América Central, mas principalmente para o país asteca, o mais próximo do território dos Estados Unidos. São horríveis as imagens divulgadas pela televisão, de cadáveres amontoados e as notícias que chegam de pessoas assassinadas nas próprias salas de cirurgia onde tentavam salvar-lhes a vida. Nenhuma dessas imagens procede de território norte-americano.


Essa onda de violência e sangue estende-se em maior ou menor grau pelos países da América do Sul. Donde provém o dinheiro senão do infinito manancial que emerge do mercado norte-americano? Por sua vez, o consumo tende também a se estender aos outros países da região, causando vítimas e mais dano direto ou indireto do que a AIDS, a malária e outras doenças juntas.


Os planos imperiais de dominação são precedidos de enormes somas designadas para as tarefas de mentir e desinformar a opinião pública. Para isso contam com a total cumplicidade da oligarquia, da burguesia, da direita intelectual e da mídia.


São especialistas em divulgar os erros e as contradições dos políticos.A sorte da humanidade não deve ficar nas mãos de robôs convertidos em pessoas ou de pessoas convertidas em robôs.


No ano 2010, o governo dos Estados Unidos utilizará 2,2 bilhões de dólares através do Departamento de Estado e da USAID para promover sua política, 12% a mais do que os recebidos pelo governo de Bush no último ano do seu mandato. Destes, quase 450 milhões serão destinados a demonstrar que a tirania imposta ao mundo significa democracia e respeito aos direitos.


Apelam constantemente ao instinto e ao egoísmo dos seres humanos; desprezam o valor da educação e da consciência. É evidente a resistência demonstrada pelo povo cubano ao longo de 50 anos. Resistir é a arma à qual os povos não podem renunciar jamais; os portorriquenhos conseguiram fazer com que as manobras militares norteamericanas em Vieques acabassem, colocando-se no polígono de tiro.


A pátria de Bolívar hoje é o país que mais lhes preocupa, por seu papel histórico nas lutas pela independência dos Povos da América. Os cubanos que ali prestam seus serviços como especialistas na saúde, educadores, professores de educação física e esportes, informática, técnicos agrícolas, e outras áreas, devem dar tudo no cumprimento dos seus deveres internacionalistas, para demonstrar que os povos podem resistir e serem portadores dos princípios mais sagrados da sociedade humana. Caso contrário o império destruirá a civilização e própria espécie.


Fidel Castro Ruz

Agosto 5 de 2009

11h16