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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Inquérito sôbre a flotilha da liberdade: Sem moral e nenhuma ética


Miséria moral e ética


Por Filipe Diniz



A «comissão de inquérito» (comissão Turkel) nomeada pelo governo de Israel para analisar o ataque pirata – desencadeado em Maio passado por esse mesmo governo de Israel – contra a flotilha de solidariedade com o povo de Gaza fez entrega do seu relatório. As conclusões são as esperadas. Repetem o que a contra-informação sionista e os grandes média internacionais repetiram desde o início: legitimam a agressão, fazem de vítima o agressor e de agressores os militantes humanitários embarcados na flotilha.


Esta «comissão» constitui uma farsa desde o início. Tendo o governo sionista recusado uma comissão internacional de inquérito, e para fingir que não se tratava de uma operação de branqueamento meramente interna, integrou duas individualidades exteriores: David Trimble, da Irlanda do Norte, e Ken Watkin, do Canadá. Não se podendo dizer que agiram como simples cúmplices nesta operação, não pode ignorar-se que se prestaram a um papel vergonhoso. Aceitaram integrar a comissão sem direito a voto em relação às conclusões finais.


Conclui o relatório que as tropas de elite sionistas agiram em legítima defesa e no quadro da legalidade internacional. Entre as 300 páginas do relatório não devem constar os resultados das autópsias: todas as nove vítimas mortais foram atingidas por balas de 9 mm na parte superior do corpo. Várias foram atingidas com 4, 5 e até seis tiros. Algumas foram mortas com tiros na cabeça disparados à queima-roupa ou a curta distância. Tratou-se de um assassínio em massa, deliberado e executado com precisão profissional.


Este relatório é bem revelador da miséria moral e ética a que chegou o poder sionista. Quando o terrorismo, o racismo e a violência fascista se tornam políticas de Estado, todos os valores humanos, democráticos e éticos são arrasados.


Tiveram pouca sorte os criminosos nazi-fascistas em serem julgados pelo Tribunal de Nuremberg. Tivessem eles sido julgados por uma comissão de inquérito como esta e não apenas teria sido aceite o argumento invocado por tantos desses criminosos de que «apenas cumpriam ordens». Provavelmente teria também sido concluído que agiam em legítima defesa e respeito pela lei.


Texto original em Jornal Avante http://avante.pt/pt/1939/opiniao/112319/


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Temas atuais : Relações de dependência ou de interdepedência



Temas atuais do Movimento Comunista


Coleção de artigos e contribuições


Comité Central do Partido Comunista Grego (KKE)



Cap. II – SOBRE QUESTÕES INTERNACIONAIS ATUAIS


Relações de dependência ou de interdependência*


por Stefanos Loukas Membro da Comissão Política do CC do KKE



O caso do gás natural e o confronto entre a Rússia e a Ucrânia a propósito do seu fluxo para a UE e, especialmente, para a Alemanha, trouxe à superfície um problema – entre outros – que reflecte as relações entre estados capitalistas poderosos, no que respeita a assuntos energéticos e ao transporte de energia de um estado produtor para um estado consumidor. Esta questão colocou-se várias vezes e voltará a colocar-se. Aquelas relações prendem-se com os interesses dos monopólios e das economias dos dois estados. E tais relações de cooperação coexistem com relações de antagonismo.


Em resumo, a questão de dependência energética da Alemanha relativamente à Rússia verifica-se num sector estratégico da economia.Não é certamente este o único exemplo de tais relações entre economias capitalistas. Por exemplo, os EUA têm a maior dívida externa, embora tenham a economia capitalista mais forte do mundo e sejam o estado dirigente na pirâmide imperialista.


A economia dos Estados Unidos depende ainda daChina no que respeita à aquisição por esta de uma enorme quantidade de títulos do Tesouro americano. Os analistas económicos dizem que a economia norte-americana assenta num paiol que rebentará caso a China exija uma realização imediata dos títulos.


Estes são alguns exemplos de relações entre economias capitalistas a mostrarem que, junto com o aprofundamento do seu entrelaçamento, as economias capitalistas poderosas estão ligadas a outras, de que são dependentes. É isto correcto? É mais apropriado dizer que em condições de intensificação e aprofundamento da internacionalização capitalista, estas relações entre estados são relações de interdependência. Elas reflectem-se objectivamente na esfera política. Este fenómeno existe desde aera da instauração do capitalismo como sistema socioeconómico. Não é novo.



A partir da época do Manifesto do Partido Comunista


A acção do capital não tem fronteiras. A lei do máximo lucro, uma lei absoluta do capitalismo, guia objectivamente a sua acção. Não é possível conseguir uma reprodução mais prolongada sem que se alarguem as fronteiras nacionais, seja através da exportação de capital ou da exportação de bens. Isto acontece quando os limites do mercado nacional são estreitos, asfixiando a reprodução do capital e estorvando a obtenção do máximo lucro. Daí que o mercado global seja uma característica do sistema socioeconómico capitalista.


Em 1847, Marx e Engels escreveram sobre isto no «Manifesto do Partido Comunista»: «A grande indústria criou o mercado mundial, que a descoberta da América preparara. O mercado mundial imprimiu um gigantesco impulso ao comércio, à navegação, às comunicações por terra. […] A necessidade de encontrar mercados acicata a burguesia de uma ponta à outra do planeta. Em toda a parte nidifica, em toda a parte constrói, em toda a parte estabelece relações.»


Mais à frente:


«A burguesia, ao explorar o mercado mundial, dá à produção e ao consumo de todos os países um selo cosmopolita. Entre os lamentos dos reaccionários, destrói os alicerces nacionais da indústria. As velhas indústrias nacionais caiem por terra, atropeladas por outras novas, cuja instauração é um problema vital para todas as nações civilizadas; por indústrias que já não transformam como antes as matérias-primas do país, mas as que vêm das regiões mais longínquas e cujos produtos encontram saída não apenas dentro das fronteiras mas em todas as partes do mundo. Nascem necessidades novas que os frutos do país já não satisfazem, como noutros tempos, e que reclamam para a sua satisfação os produtos de terras remotas. Já não impera aquele mercado local e nacional que se bastava a si mesmo e onde não entrava nada de fora; agora, a rede do comércio é universal e nela entram, unidas por vínculos de interdependência, todas as nações. E o que acontece com a produção material acontece também com a do espírito. Os produtos espirituais das diferentes nações tornam-se propriedade comum. As limitações e particularidades do carácter nacional passam para outro plano e as literaturas locais e nacionais confluem todas numa literatura universal.»


Na era da fase superior do capitalismo, o imperialismo, a interdependência das economias capitalistas entre estados capitalistas aprofunda-se, torna-se mais estreita. Isto tem que ver com aformação dos monopólios. Os monopólios tendem a dominar; portanto, definem também a taxa de expansão e desenvolvimento do mercado capitalista mundial.

Assim, o fenómeno de entrelaçamento e interdependência de economias capitalistas – a internacionalização capitalista – intensifica-se juntamente com a transição do capitalismo pré-monopolista para o capitalismo monopolista e as suas formas de manifestação seguem o processo daevolução capitalista.

Através da história da evolução humana, as relações tendem a ser moldadas entre os estados. Os

termos em que se formam as relações entre os estados são os termos de cada sistema socioeconómico dominante. No capitalismo estas relações são antagónicas. Desde o tempo da «revolução industrial», o capitalismo aponta para a exportação das relações capitalistas de um estado para outro onde as relações capitalistas ainda não estão desenvolvidas. Por exemplo, os ingleses forçaram relações capitalistas de produção com as suas colónias (por exemplo, a Índia).



Formas de interdependência na era do imperialismo


Na era do imperialismo, a interdependência adquire formas novas, desde os acordos internacionais entre capitalistas até às associações imperialistas internacionais e regionais (o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, a União Europeia, a NAFTA1, etc.). Elas são necessárias porque a intensificação da interdependência impõe regulações estatais internacionais ou interestaduais de maneira a facilitar a reprodução do capital. A acção do capital, no âmbito do mercado global, reforça o entrelaçamento das suas partes em diferentes estados. A sua base nacional mantém-se definitivamente dominante.


Assim, a sua centralização (absorções, fusões, outros acordos entre monopólios de diferentes estados) pode acontecer a um nível internacional, mas o seu domínio é protegido por um certo estado e tem uma base nacional, apesar da sua acção internacional. Isto torna-se também evidente no aumento das contradições interimperialistas entre estados imperialistas ou uniões de estados (por exemplo, os EUA – a UE) e, ainda, entre sócios dentro de uniões imperialistas regionais, por exemplo entre a Inglaterra e o eixo franco-alemão. O último exemplo disto está relacionado com a crise económica.


Na tentativa da UE de estabelecer uma política uniforme na gestão da crise surgiram desentendimentos entre os países membros – por exemplo: se os bancos ou a indústria devem ser apoiados; se o fundo financeiro deverá ser constituído a nível da UE ou numa base nacional-estatal em cada país; ou na questão relativa ao afrouxamento do Pacto de Estabilidade. Na medida em que surgiram antagonismos internos, a partir do enfoque dos interesses particulares dos monopólios de cada país, a aplicação de uma política uniforme fracassou. Isto já ficara também expresso no passado – por exemplo, na guerra contra o Iraque, quando mais países da UE ficaram ao lado dos ingleses e norte-americanos (Espanha, Portugal, Itália, assim como os novos países membros, Polónia, República Checa, Hungria, etc.), ao contrário do eixo franco-alemão. Antes, na Cimeira de Nice sobre a unificação e o formato da UE, as contradições apareceram entre a Alemanha e a França, relativamente à tomada de decisões. Além disso, estas relações desenvolvem-se de maneira desigual entre estados, devido ao desigual desenvolvimento do capitalismo. Assim, o entrelaçamento daseconomias capitalistas nacionais, que se realiza através da luta, é marcado pelo mais forte.


Não obstante, é errado examinar a questão das relações económicas capitalistas, portanto, entre estados capitalistas, mesmo aqueles em posição intermédia ou inferior na pirâmide imperialista em comparação a outros estados mais fortes, como uma questão de dependência. Um tal enfoque não se compreende. Poderia levar à conclusão de que a Alemanha é um estado dependente, uma vez que a sua energia depende em 2/3 da Rússia. Ou que os Estados Unidos dependem da China.


podemos conseguir um enfoque correcto e compreensível das relações económicas capitalistas – e, portanto, das relações entre estados capitalistas –, examinando-as no âmbito da sua interdependência.


Por exemplo, o estado forte – isto é, a economia capitalista forte –, necessita de uma inferior, uma intermédia. Sem ela, sem a exportação de capital ou de bens para ela, é difícil ao capital reproduzir-se. O mesmo se aplica, naturalmente, à economia inferior com uma posição intermédia na pirâmide imperialista. Se não se entrelaça com a economia capitalista forte, a reprodução capitalista e a reprodução de relações capitalistas como um todo é posta em perigo. Por exemplo, não há nenhuma outra maneira de explicar a intervenção dos Estados Unidos contra a decisão do actual governo (da Grécia) de criar viadutos de energia com a Rússia, nem a insistência dos governos gregos em atrair investidores estrangeiros através de corporações e associações anteriormente públicas, como a Organização Helénica de Telecomunicações (OTE) e os anteriores bancos estatais (o banco Comercial).


Esta realidade, em condições de desenvolvimento desigual e antagonismo, determina objectivamente as relações internacionais entre estados. Porém, os elementos dominantes, a base, são as relações capitalistas de produção, que também determinam as relações entre estados da UE, a política da UE e dos seus estados membros.


A base económica, as relações capitalistas de produção e a sua abolição devem ser de primeira importância para o movimento da classe operária e seus aliados. Só este caminho pode levar à abolição das relações desiguais que, sob o capitalismo, na sua totalidade, seguem as leis do desenvolvimento capitalista, devido às leis do desenvolvimento da internacionalização capitalista em condições de desigual desenvolvimento.



Sobre a posição intermédia e inferior no sistema imperialista


Do ponto de vista da luta da classe operária e da sua orientação é muito importante ter um conhecimento profundo, acompanhar e estudar o sistema imperialista mundial e as relações entreestados e como se formam, no que respeita à sua posição na pirâmide imperialista. Porque, por umlado, estas relações são desiguais e, por outro, as suas contradições e antagonismos, assim como aformação de alianças e coligações temporárias ou, comparativamente, permanentes entre eles incluicompromissos e antagonismos.


Estas tendências, a formação de várias relações entre economias e estados, são influenciadas pela«força» de cada economia capitalista, dos monopólios e do Estado capitalista. Isto não pode contudo ser desligado e examinado isoladamente, separadamente da sua função real, ou seja, da reprodução do capital em cada estado, do fortalecimento das relações capitalistas de produção e dofortalecimento do poder político do capital. Daí que, tanto a política interna como a externa de cada país sejam determinadas pela sua posição no sistema imperialista mundial e sirvam conscientemente a reprodução e fortalecimento das relações de exploração.


Aqui, é necessário lembrar que o imperialismo constitui uma época histórica inteira de desenvolvimento do capitalismo e caracteriza as sociedades capitalistas de todos os países capitalistas, independentemente do nível de desenvolvimento capitalista e do desenvolvimento desigual entre eles. «Todos os países capitalistas estão integrados no sistema imperialista internacional, independentemente do nível de desenvolvimento das relações capitalistas e das formas e caminhos que toma a integração, seja através da integração em uniões capitalistas regionais interestatais ou mundiais ou através de programas de “assistência” das organizações imperialistas mundiais, através de regulações melhoradas de monopólios interestatais, da exportação de capital e mercadorias, através de intervenções militares e da guerra em geral, através de intervenções abertas ou encobertas na formação ou renovação do sistema político, etc.» (Extracto da leitura de «Questões ideológicas referentes à economia capitalista», da Comissão Política do CC do KKE -KOMEP, 2/2002, pp. 91-92).


Portanto, o estudo e a interpretação da política realizada pelos governos burgueses da Grécia devem ter em consideração tudo o que anteriormente foi referido, na sua relação dialéctica. Nesta base, poderemos entender as decisões e alianças da classe dominante, relativamente à integração em organizações e uniões imperialistas internacionais e regionais (por exemplo a UE). E decisões como a construção de relações com a Rússia, de acordo com a estratégia da classe dominante de melhorar a posição geoestratégica da Grécia nos Balcãs e da sua emergência como eixo energético, para servir a exportação e a penetração do capital nestes países.



O impacto na política dos governos burgueses


Baseando-nos no que anteriormente se referiu, a política realizada pelos governos burgueses na Grécia, tanto interna como externa, reflecte a posição intermédia do capitalismo grego e as decisões parecem ser «implementadas por compulsão», no sentido em que os governos burgueses as aplicam sem ligarem, aparentemente, ao seu efeito negativo no país. Estas são decisões conscientes, que resultam da posição da Grécia no sistema imperialista e beneficiam os interesses do capital em geral.


Por exemplo, a integração da Grécia da CEE e depois na UE e na UEM foi uma decisão que serviu o interesse geral da burguesia, independentemente de algumas das suas partes terem sofrido um golpe, devido ao mercado interno unificado ou aos acordos internacionais mais amplos da União com países fora da UE, que são obrigatórios para cada estado membro. Mais ainda, os governos decidem conjuntamente no âmbito da UE e a posição de cada um deles reflecte os interesses particulares do capital de cada país. O facto de os países com posição inferior relativamente aos países líderes da UE assumirem compromissos respeitantes a esses interesses, quando a sua posição difere, é uma expressão da desigualdade. Contudo, isto não anula o facto de que mesmo esses compromissos são determinados pelos interesses a longo prazo do capital do país em questão.


Esta desigualdade deu, por exemplo, um golpe na indústria naval no nosso país, quando a Alemanha e a Holanda exigiram o fim do seu desenvolvimento noutros estados, como a Grécia, por pretenderem dominar esta indústria em exclusivo. Além disto, os acordos internacionais a favor dos estados capitalistas fortes, relativamente à importação de mercadorias baratas fabricadas por indústrias tradicionais na Grécia, tais como as indústrias têxtil, de roupa e de couro, levou à redução das mesmas no nosso país. Para isto contribuiu também, seguramente, a baixa percentagem de lucro destes sectores, em comparação com os chamados sectores de capital intensivo. O que quer dizer que o capital investe e desenvolve sectores na base do lucro rápido e grande e não de acordo com o potencial dos recursos. Aliás, se estas relações não existissem e se os sectores tradicionais tivessem continuado a desenvolver-se (isto não teria acontecido), se a Grécia não fizesse parte da UE, teria a classe operária e o povo beneficiado da economia capitalista?


Seguramente, a burguesia na Grécia não perdeu, no global, com estes desenvolvimentos, dado que outros sectores – como, por exemplo, as telecomunicações, a energia, a informática, as companhias de construção, etc. –, se desenvolveram mais e, fundidas com o capital internacional, exportaram capital para uma região mais ampla (os Balcãs, o Mar Negro, etc.).


Outro assunto primordial é o fortalecimento do poder da burguesia num país em posição inferior ou intermédia, através da sua participação em uniões imperialistas interestatais. Através da NATO – que pode intervir nos estados membros se o poder do capital estiver em perigo – bem como da UE, das leis antiterroristas da UE, da cooperação policial, etc., a Grécia desenvolveu-se, sem dúvida. Realizou um desenvolvimento capitalista, daí que este desenvolvimento tenha um conteúdo de classe antipopular.


Ainda, se considerássemos correcto (que não é) o ponto de vista de que a integração da Grécia na UE impediu o seu desenvolvimento, que impedimento foi esse? Porque é que a produção agrícola diminui e se destruíram as pequenas e médias fazendas? Não foram os monopólios que impuseram a Política Agrícola Comum (PAC) da UE? Porque é que o desenvolvimento dos sectores industriais é desigual, porque é que não corresponde ao potencial dos recursos produtivos locais? Não o impuseram os monopólios? É este o cerne da questão. Assim, para que o desenvolvimento seja favorável ao povo é preciso que os monopólios sejam abolidos e a propriedade socializada.



Luta pela igualdade das relações capitalistas ou luta pelo socialismo?


Consequentemente, a classe operária e os sectores populares precisam de entender mais aprofundadamente e conhecer o cerne da questão da atitude da burguesia e dos governos das potências imperialistas dirigentes para com os governos dos países menos desenvolvidos. Esta compreensão deveria assentar em critérios de classe e não em superficiais critérios morais e de comportamento – por exemplo, respeitantes à separação entre proprietários e empregados, poderosos e servis, ou subordinados.


Há um argumento propagandístico que estabelece que certa política, como a PAC ou a reestruturação capitalista saída da estratégia de Lisboa, se implementa na Grécia porque a UE a impõe. Esta estratégia não se impõe sobre o governo porque foi elaborada pela UE mas porque serve os interesses do capital de todos os estados membros da UE como uma totalidade e, consequentemente, serve os interesses particulares do capital grego. É por isso que a aplicam. Esta estratégia permite a reprodução do capital. Assim sendo, a política antipopular não é resultado de uma imposição da UE. É realmente o resultado da necessidade do capital na Grécia. Esta política desenvolve-se de maneira conjunta com a participação dos governos burgueses da Grécia nos órgãos da UE. Quando esta política se torna, em maior ou menor grau, prejudicial para os interesses de algumas partes do capital e há contradições, estas resolvem-se através do poder dos monopólios.


Mesmo assim, quando os monopólios dos estados imperialistas fortes têm maiores benefícios, também o interesse geral do capital na Grécia beneficia e isto vê-se nos esforços dos governos para atrair capital estrangeiro e no entrelaçamento do capital grego com o estrangeiro, tanto em empresas do sector produtivo como em empresas comerciais, no sistema financeiro, etc. O que são os grupos monopolistas, como o «Marfin», o grupo Latsis ou os vários grandes supermercados? São associações de capitais gregos e estrangeiros. Por exemplo, o «Carrefour» fundiu-se com o «Marinopoulos», o grupo Latsis está entrelaçado com o capital alemão e assim por diante. Isto significa, sem dúvida alguma, que a luta da classe operária e dos outros sectores populares para se separar da UE e de todas as organizações imperialistas regionais e internacionais não deve ser independente da luta contra o domínio do capital. Porque estas relações do capitalismo grego, no âmbito da internacionalização capitalista, estão em concordância com a lei do desenvolvimento.


Referimo-nos tanto ao tema da dependência como da interdependência de estados capitalistas e da sua relação dialéctica na base económica do capitalismo. A nível político, e ainda mais nas relações internacionais, é errado atribuir as causas dos problemas populares à «dependência» ou falar da possibilidade do seu apaziguamento quando não há «dependência» (mesmo fora das uniões interestatais, as relações bilaterais determinam-se pelo «poder» dos monopólios) sem descortinar as causas primárias, que são as relações de produção capitalistas. Este enfoque não tem em conta as leis do movimento capitalista e, por outro lado, não contribui para amadurecer a consciência política da classe operária e dos seus aliados, a sua orientação na luta, que deve ser dirigida para o derrube do capitalismo, a conquista do poder e a construção do socialismo-comunismo. Consequentemente, este enfoque mina a estratégia do KKE, a sua política de alianças e a luta pelo poder popular.


Assim, o que deve ser de primordial importância para o movimento da classe operária e dos seus aliados é a abolição das relações de produção capitalistas e não a abolição das relações desiguais entre estados sob o capitalismo que, afinal de contas, seguem o processo de internacionalização capitalista em condições de desenvolvimento desigual, determinado pelas leis do desenvolvimento capitalista.


* Artigo publicado no jornal “Rizospastis”, em 25 de Janeiro de 2009




Publicado em www.pelosocialismo.net



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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Inglaterra: Protestos de Estudantes



Inglaterra


Estudantes voltam aos protestos



Os estudantes ingleses vão voltar a manifestar-se contra o aumento das propinas, aprovado no início de Dezembro pelo parlamento inglês. Depois das movimentações de massas, ocorridas no final do ano passado, contra a duplicação e, em alguns casos, a triplicação da taxa de frequência universitária, os estudantes reiteram que o importante, nesta fase, é mostrar ao governo a resistência à medida.


As acções contra os cortes e as propinas, e em defesa da educação e dos serviços públicos iniciaram-se ontem com concentrações e ocupação de vários estabelecimentos, mas é no próximo sábado, na capital, Londres, e em Manchester, que os jovens pretendem mostrar a determinação e unidade dos estudantes, aliando-lhes e o repúdio generalizado à política antipopular.


Nesse sentido, terão a seu lado professores, pais e funcionários, já que das conversações com os sindicatos mais representativos do sector resultou a adesão destes à jornada de luta, e a organização conjunta do protesto juvenil.


Desemprego recorde


Paralelamente, dados do gabinete estatístico britânico revelaram, a semana passada, que o desemprego entre os adultos menores de 25 anos bateu todos os recordes. De acordo com as informações publicadas pelo diário The Guardian, no final do mês de Novembro a desocupação juvenil alcançava os 20,3 por cento, o nível mais elevado desde que começou o registo, em 1992.


No total, cerca de um milhão de jovens em idade activa está sem emprego ou perspectivas do mesmo, situação que gera entre as novas gerações a legítima revolta para com o sistema incapaz de lhes garantir um futuro.


Entretanto, uma pesquisa realizada pela privada Badenoch & Clark afirma que 25 por cento dos britânicos se encontra descontente com o respectivo emprego, e mais de metade dos mil entrevistados revelam sentir-se mais infelizes devido à crise e aos cortes decididos pelo executivo de David Cameron.


Original Jornal Avante http://avante.pt/pt/1939/europa/112357/


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Bons Companheiros



Bispos e banqueiros são velhos companheiros

Por Jorge Messias


Tem interesse e ajuda a compreender o que no mundo actualmente se passa, recordar em traços gerais as afinidades que sempre ligaram as hierarquias religiosas aos altos postos e ao aparelho do capitalismo político e financeiro mundial. Necessariamente numa abordagem muito superficial e só para nossa informação.

A expressão igreja começou a ser usada na antiga Grécia vários séculos antes de Cristo. Designava conselhos eleitos entre os cidadãos com a finalidade de gerirem a polis ou cidade, conceito que depois evoluiu para a noção mais sofisticada de cidade-estado ou seja, cidade que era cabeça política de um território mais vasto.

Nessa fase tão recuada não havia grandes religiões organizadas. A igreja – uma estrutura de base popular – ligava-se no entanto aos mitos anteriores ao conhecimento científico e que sobreviveram depois no inconsciente colectivo como milagres. Atribuíam origens fantasiosas aos fenómenos naturais.

Estas funções básicas da igreja vieram a tomar outros sentidos. Convém reter que o termo Eklesia é muito anterior à noção de capitalismo. A Eklesia data do século V AC. A Igreja só viria a estabelecer-se em Roma cerca de mil anos depois. Finalmente, o sistema capitalista só a partir dos séculos XIV e XV se foi definindo, já era então o Papa autoridade suprema à qual obedeciam reis e imperadores.

Os primeiros papas, através da intriga diplomática, das alianças dinásticas e das famosas guerras da «Reconquista Cristã», tinham acumulado tesouros imensos, de certo modo herdados das rapinas do império romano. Porém, no Ocidente, entre as populações, o dinheiro era escasso ou inexistente e grande parte das terras permanecia ao abandono. Não havia suficientes navios mercantes e de pesca, nem linhas marítimas seguras para o escoamento da produção. Alternativas possíveis, nessa altura, implicariam enormes investimentos.

Só a partir dos finais do século XVI começaram a surgir no mercado poderosas empresas lideradas pelos mais ricos: a Coroa, a Igreja, a Nobreza e uma certa burguesia emergente – que impuseram a transição da economia para um sistema de capitalismo monopolista: «todo o dinheiro se deve transformar em capital de empresas monopolistas», era a palavra de ordem.

O alvo-tipo dos monopólios foi alcançada à custa do esmagamento da propriedade individual, pelas grandes empresas constituídas por acções. Toda a economia tradicional reagiu negativamente: as políticas comerciais dos monopólios orientavam-se para as colónias de onde vinham os diamantes, o oiro, as especiarias, o algodão, etc. – as matérias-primas que se transaccionavam com mais altas margens de lucro. Os campos ficavam cada vez mais desertos, aumentava o desemprego, a corrupção e a fuga dos trabalhadores para as colónias. A escravatura era prática corrente.

Os lucros financeiros acumulavam-se nos cofres dos grupos dominantes, nomeadamente os da Coroa e da Igreja. Não chegavam ao povo. Aliás, só a Igreja dispunha de uma rede social à escala nacional, centralizada e decalcada nas formas de organização das velhas eklesias. Uma marca que ainda persiste no projecto de «sociedade civil» fortemente apoiado pelo Patriarcado e pelas IPSS confessionais.

Agravava-se a dívida pública e a situação geral dos estados abeirava-se da bancarrota. Os pobres pagavam a crise. Os impostos subiam, o Estado lançava novas derramas e contraía dívidas sobre dívidas mas não reconhecia a gravidade da situação. «Resolveremos a crise… Nada de bancarrota, nada de subida dos impostos, nada de empréstimos externos...», clamava Turgot, homem do Vaticano e ministro de França. Ontem como hoje. As crises do capitalismo são insolúveis. Residem nas próprias contradições do sistema.

Quanto à Igreja, envolta nos seus dogmas, permanecia calada, tentando situar-se à margem da situação e sair com lucro da crise social. Os bispos eram, simultaneamente, políticos da direita radical, homens de negócios e banqueiros. A hierarquia tinha consciência do seu poder financeiro e da sua imensa influência em matérias-chaves como as do Ensino, da Assistência Social e do nebuloso e lucrativo «combate à pobreza» que orientava no plano da Caridade e da Resignação.

Curioso é este paralelo entre o que se passou há trezentos anos e o que se vai processando no nosso tempo. O namoro entre a Igreja e o poder continua. Não enfraqueceu a atracção pelo dinheiro que está na base do convívio fraterno entre bispos e banqueiros. A gula dos ricos pela carne dos pobres é insaciável.

Não esqueçamos, porém, que o capitalismo de Estado setecentista culminou, em França, com uma Revolução universal.

Texto Original em http://avante.pt/pt/1939/argumentos/112304/

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Importância do socialismo construído no século XX e a sua conexão com as lutas presentes


A Importância do socialismo construído no século XX e a sua conexão com as lutas presentes

A classe operária novamente no centro do combate anticapitalista*
por Pável Blanco Cabrera**


Em primeiro lugar agradeço aos organizadores do Encontro Civilização ou Barbárie, particularmente a Miguel Urbano, e à Câmara comunista de Serpa. O primeiro reconhecimento é, apesar da grande quantidade de reuniões aparentemente semelhantes, o quadro ideológico em que este Encontro se circunscreve, que não dá lugar a especuladores nem a franco-atiradores, pois caracteriza-se pela seriedade na reflexão e pela sua contribuição para a luta ideológica, elemento inseparável dos que diariamente enfrentam o capitalismo monopolista, o imperialismo, levantando a bandeira de uma sociedade sem explorados nem exploradores.

Perante a contra-revolução capitalista do final do século XX sempre houve resistência; desde as lutas dos trabalhadores contra as privatizações e retirada de direitos sociais conquistados, as lutas camponeses contra o despojo da terra e os povos índios em defesa do seu direito à vida e à sua cultura, contra a política de extermínio e morte a que o capitalismo os condena.

Também houve resistência para poder afirmar a identidade comunista dos partidos da classe operária que surgiram inspirados pela maturação do movimento operário e pela grande influência da Revolução Socialista de Outubro, e contra os objetivos de uma grande campanha ideológica para afundá-los no derrotismo e na trânsfuga que, há que reconhecê-lo, em alguns casos alcançou o seu objetivo, não só em consequência do que sucedeu no campo socialista e na URSS, mas também como consequência da erosão oportunista que os afetou, ao desenharem os seus objetivos, como eurocomunismo, por exemplo.

Resistência também das forças insurrecionais na Colômbia, do povo cubano, que com o seu exemplo mostraram que não há que se submeter.

A resistência, no entanto, foi adquirindo formas mais coerentes e massivas com o ascenso das lutas populares na América Latina e os triunfos eleitorais progressistas, sobretudo os da Venezuela, Bolívia e Equador, em clara contradição com os EUA, mas também com as grandes respostas do mundo à guerra contra o Iraque e a emergência dos chamados movimentos sociais que tiveram a sua expressão nas reuniões do Fórum Social Mundial.

A combinação com a crise estrutural do capitalismo deu azo a uma avalanche de reflexões à volta da questão da alternativa anticapitalista. Naturalmente estão descartadas as que emanam da social-democracia expressas na Terceira Via de Anthony Giddens, Toni Blair, Massimo D’Alema, e na América Latina no «Consenso de Buenos Aires», cujo exemplo de «esquerda» era Bill Clinton.

As que prendem a nossa atenção são as que expressam também o pensamento social-democrata, mas ancoradas no movimentismo, no academismo e na oenegenização (Ong) da política e das lutas. Foi Marx quem disse que «um passo do movimento real vale mais que mil programas», e muitos programas que geram a confusão em nada contribuem para a dinamização do confronto de classe e popular contra o modo de produção capitalista num momento de urgência – já descrito como possibilidade no Manifesto – isto é, se uma classe não triunfa sobre outra, sobrevém o afundamento, que inspirou a que Engels e Rosa Luxemburgo o resumissem na disjuntiva «ou socialismo ou barbárie».

Tal aspiração apoia-se na negativa influência de posições não só confrontadas com a posição dos comunistas, mas em posições revisionistas do marxismo, tais como a questão dos novos sujeitos, da negação da luta pelo poder, da animadversão à política e da organização partidária, particularmente a de novo tipo que Lenine propôs, das posições de um «império» que viria a substituir a fase estudada em Imperialismo, fase superior do capitalismo e que apelam ao abandono da luta nacional, por uma luta supostamente global contra as multinacionais, que já não teriam base «geográfica» e que, por consequência, a luta apenas radicava no confronto com um poder global, no qual existiam contradições inter-imperialistas.

Assim desfilaram conceitos como «mudar o mundo sem tomar o poder», «multidão», «cidanização», «sociedade civil»; emergiu um pacifismo descafeinado e amorfo e uma rejeição de todas as forças que obrigadas pelas circunstâncias desenvolveram a sua luta de armas na mão.

A tal extremo se chegou que tais «teorizações» opunham o social às participações dos partidos revolucionários, e não esqueçamos que a maximização de tais concepções chegou ao ponto de numa das edições do FSM se pretender excluir a participação de Hugo Chávez e dos revolucionários colombianos.

Tais posições apresentam como principal credencial o fato de serem reflexões novas, apesar de tão «novíssimas» ideias poderem ser encontradas nos momentos de viragem da história, como por exemplo na altura da decomposição da II Internacional, em Bernstein e em Kautsky: «o movimento é tudo», o «ultra-imperialismo», à oposição ao poder operário e popular que representa a Ditadura do proletariado por uma democracia sem adjetivos, parlamentar e burguesa, à oposição entre reforma e revolução. Em síntese, roupagem pós moderna e de vistosa multicoloridade para velhas posições, de que o menos que se pode dizer é que contribuem para a confusão, numa época em que esta é essencialmente promovida pela ideologia da classe dominante e uma sufocante máquina de desinformação ao seu serviço que causaria inveja ao ministro nazi Goebbels.

Enquanto a ação e o pensamento dos que lutam, sejam eles indivíduos, organizações, movimento ou povos é ocultado, deformado ou criminalizado, e têm como única possibilidade os seus próprios meios de expressão e os meios alternativos – os quais travam uma das mais impressionantes batalhas para difundir a verdade, «o outro olhar» – os novos profetas são promovidos em grandes editoriais e contam com inusitada promoção.

Aparentemente algumas dessas posições têm em comum a sua rejeição da construção socialista do século XX. Ninguém sustentará que tal experiência foi isenta de erros, mas isso não deve motivar a rejeição em bloco nem o necessário estudo e aprendizagem de uma sociedade que como se afirma num dos artigos do primeiro número da Revista Comunista Internacional «…é um fato histórico que na década de 30 havia dois mundos: um mundo dilacerado pela concorrência e a crise capitalista, e um mundo socialista que se caracterizava não só pelas suas impressionantes taxas de produção industrial mas também por impressionantes taxas de desenvolvimento na prosperidade social.» [nota1]

Não estou aqui para fazer a apologia da URSS, que aliás seria merecida e que ficará na História pela sua grande contribuição em múltiplas frentes, entre elas a derrota do fascismo no Mundo, a libertação da Europa, a descolonização e a sua grande solidariedade para com os trabalhadores do mundo, por mostrar que a vida pode continuar sem os capitalistas, e demonstrou a potencialidade criativa dos trabalhadores, os sucessos numa vida melhor, na cultura, educação, saúde, liberdade e democracia.

O que pretendo é ressaltar a importância do estudo crítico da experiência socialista, as suas lições para o presente e a ligação com o combate anticapitalista contemporâneo.

Tal como a experiência dos 70 dias da Comuna de Paris contribuiu para a teoria marxista, sobretudo na importante questão da Ditadura do proletariado, também iluminar a luta da classe operária e dos povos do mundo, a experiência do socialismo e o seu estudo vêm enriquecer a teoria marxista-leninista e a ação dos partidos comunistas e operários, a luta das forças partidárias da transformação profunda.

Chamo a atenção para um texto fundamental, um estudo de muitos anos, coletivo, científico, intitulado As Teses do Socialismo, que é a Resolução do XVIII Congresso do Partido Comunista da Grécia.

A experiência da construção socialista é o objetivo de sempre da maquinaria ideológica do capital, mas é-o também daquelas correntes que procurando «alternativas» e um «novo socialismo», um «socialismo democrático», um «socialismo renovado», acabam por o rejeitar, demonizando o comunismo e os comunistas.

Na luta de classes, desde que as condições de desenvolvimento social tornaram possível a criação da concepção materialista da história, não é a primeira vez que os comunistas se confrontam com correntes que, em nome do socialismo defendem as posições da pequena burguesia, não é pois a primeira vez que frente a frente se coloca a reforma ou a revolução.

Na Ideologia Alemã e no Manifesto do Partido Comunista, para citar apenas duas obras de Karl Marx e Friederich Engels, faz-se um ajuste de contas com o «socialismo verdadeiro», com o «socialismo reacionário» («feudal», «pequeno-burguês»), com o «socialismo conservador ou burguês» e com o «socialismo e o comunismo crítico-utópico». Noutra obra, o resultado da polêmica de Marx e Engels com During (ainda que o trabalho, como era costume na divisão de tarefas dos teóricos do proletariado, só levava a assinatura de um deles) afirma-se o seguinte: «Desde que apareceu na lição da história o modo de produção capitalista têm havido indivíduos e grupos inteiros perante os quais se projetou, mais ou menos vagamente, como ideal futuro a apropriação de todos os meios de produção pela sociedade. Mas, para que isto fosse realizável, para que se convertesse numa necessidade histórica, era mister que se dessem as condições objetivas para a sua realização.» [nota 2]

Pode a classe operária assegurar os seus objetivos se desconhece a sua própria experiência na construção de uma nova sociedade? Pode fazer-se um ponto aparte sobre a experiência do socialismo?

Com a crise econômica que é profunda e não só financeira revela-se a contradição da época, a contradição existente entre o capital e o trabalho.

Ao contrário de toda a pretensão ideológica de Fukuyama, a centralidade da luta anticapitalista é assumida pela classe operária.

Na Grécia várias greves gerais de 34 e 48 horas, mobilizações incessantes e desde a Acrópole vem o apelo realista dos comunistas: Povos da Europa levantem-se!

A resposta operária foi massiva em Espanha, Portugal. Em também em França, com a sua contundente resposta há poucos dias contra as medidas capitalistas e a sua greve geral que paralisou boa parte dos locais de trabalho, os transportes e outras ações que golpeiam o capital.

Todo este ano de jornadas de luta dos trabalhadores da Europa deita por terra o mito que com maior insistência se apregoou nos últimos 20 anos: o fim da classe operária, o fim do mundo do trabalho e a total submissão dos assalariados ao status quo, a substituição da classe trabalhadora pelos movimentos na contestação anticapitalista, e a sua negação como classe portadora de transformações radicais na sociedade.

Ao mesmo tempo desmonta-se a imagem de submissão dos povos aos ditames da União Europeia, isto é, à ditadura de classe. Desde as ruas de Atenas Tsalônica, Paris, Lyon, Madrid, Barcelona, Lisboa a classe operária proclama: Fui, sou e serei! A sua força é a paralisação dos locais de trabalho. As ações mais odiadas pelo capital florescem, insubmissas: fábricas em greve, aeroportos impossibilitados de operar, aviões sem circular, comboios parados, barcos parados. O Estado de direito, a jóia mais apreciada que coroa a democracia burguesa, tenta impor aos marinheiros do porto de Pireu, na Grécia, a proibição da sua greve e teve a resposta: a greve faz-se e sob a palavra de ordem da PAME: os direitos dos trabalhadores hão de ser a lei é assumida por milhares de sindicalistas.

Não estamos a falar migalhas desligadas do combate dos trabalhadores, mas de uma coisa primordial, a centralidade do combate anticapitalista é assumida pela classe dos que não têm nada a perder a não ser as suas algemas.

Na base do trabalho está esta atividade quotidiana, paciente, das forças classistas, dos partidos comunistas. Não se trata de bocadinhos espontâneos.

Mas a questão mais importante é se a dinâmica das lutas tem ligação com a alternativa possível, o socialismo. Se a resposta é afirmativa, a experiência da construção na URSS e noutros países terá um enorme valor em função do que representou o poder dos trabalhadores, das lições da socialização da economia, da planificação central, do combate às relações mercantilistas, do controlo operário, da ditadura do proletariado, das contradições existentes entre o campo e a cidade, entre o trabalho manual e intelectual, entre o trabalho simples e complexo, entre as nacionalidades, pois, recordando Lucrécio, nada nasce do nada, e desprezar a experiência da História e as suas lições teóricas não contribuirá para este combate final entre a civilização e a barbárie.

Serpa, Outubro de 2010.

* Intervenção no III Encontro Civilização ou Barbárie
** Pável Blanco Cabrera é Primeiro Secretário do Partido Comunista do México
Notas:
1 - Belu, Eleni; La crisis económica capitalista internacional – La posición de Grecia- Las evaluaciones del KKE; en Revista Comunista Internacional, Número 1; Edición Mexicana.
2 - Engels, F.; Del socialismo utópico al socialismo científico; en Obras Escogidas de Marx y Engels en dos Tomos; Tomo II; Editorial Progreso; Moscú; 1971; Pág. 14
Reproduzido de
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Dias 20 e 21 de Novembro, integrado às comemorações do centenário do início da Revolução Mexicana, realizou-se o IV Congresso do Partido dos Comunistas Mexicanos, com o objetivo de dar um novo passo organizativo que fará afinar os motores da luta pelo socialismo no nosso país. (...) Leia o Comunicado do IV Congresso do Partido Comunista do México:
http://www.odiario.info/?p=1886
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Brasil: chuvas no Rio de Janeiro


O consenso no vazio e o passado que retorna: notas acerca das chuvas no Rio de Janeiro
Escrito por Maria Clara Arruda e Rafael Oliveira


"Eu não sei quase nada, mas desconfio de muita coisa"
(Grande sertão: veredas)


O momento é de dor, as imagens são assustadoras e o número de vítimas nos tira o sono, entristece, entretanto, o que mais nos perturba é lembrar que esta não é a primeira e tão pouco será a última catástrofe que assola o Rio de Janeiro.

Mais do que chuva, dos céus, na região serrana do Estado, o que caiu sobre as vítimas desta tragédia foi o fardo histórico de uma sociedade que década a década, geração a geração, continua a optar por um modelo de organização societária baseado na primazia da propriedade privada frente à totalidade dos interesses e imperativos que compõe o social.

O importante é que não se perca de vista que esta tragédia é fundamentalmente resultado das formas de produção e reprodução às quais os homens estão submetidos a partir da lógica do capital. Havendo, portanto, toda uma cadeia causal onde se pode alcançar a base histórica e material, por assim dizer, destes acontecimentos que, por sua vez, não são oriundas do reino da natureza ou da casualidade.

Durante o ano de 2010, os cidadãos do estado mundialmente conhecido por suas belezas naturais, do bem-viver e da determinação inabalável de seu povo, imaginavam já terem testemunhado o que de mais perverso e petrificador poderia ocorrer na sinistra equação "chuvas/moradias em encostas".

Outrossim, o mal parido 2010 trouxe consigo o óbito de cerca de 50 pessoas que celebravam a virada do ano em Angra dos Reis – todas estas vidas consumidas por desmoronamentos de terra, ocorridos em regiões de moradia em encostas – classificadas pelo Estado como "moradias irregulares" e cuja culpabilidade da desgraça repousaria, portanto, nos próprios desgraçados.

Mais ainda, passados poucos meses do infeliz episódio em Angra dos Reis, na região metropolitana do Rio de Janeiro foram registradas cerca de 257 mortes após chuvas intensas no mês de abril. O saldo mais desolador destes acontecimentos, talvez, sejam aqueles alocados na cidade de Niterói – especificamente no Morro do Bumba, onde 47 pessoas morreram e mais de 3 mil ficaram desabrigadas.

Apesar do intenso acompanhamento midiático (ou será espetacularização?), passados nove meses da tragédia, não houve qualquer política habitacional direcionada a estes cidadãos. Segundo o presidente da Associação de Vítimas do Bumba, Francisco Carlos Ferreira de Souza, aproximadamente 800 famílias ainda esperam receber o aluguel social e apenas 93 foram beneficiadas com casas do programa "Minha Casa, Minha Vida". Sem alternativa e à mercê do descaso do Estado muitas pessoas permanecem morando no Bumba.

Um capítulo à parte, vale destacar, é o papel que os meios de comunicação exercem na não politização deste cataclisma social substancialmente baseado numa perspectiva ahistórica do mesmo. Haja vista que a cobertura feita pela grande mídia é pautada em uma abordagem massiva, sensacionalista e superficial. A dramatização dos acontecimentos da realidade fornece a base necessária para a não apreensão histórica destes e consequentemente para a sua alienação. As crônicas em meio a fundos musicais, edificadas e pensadas como o capítulo de uma novela, reduzem o sofrimento alheio e se diluem no emaranhado do senso comum marcado a ferro e fogo pelo próximo reality show a ser televisionado – já que, como se sabe, esmaecida, a memória se torna uma ilha de edição.

Temos ouvido de muitos companheiros (e de nem tão companheiros assim), que "não é hora de fazer política" e sim de "ajudar". Ficamos nos perguntando, como seria possível sanar a dor das centenas de vítimas e evitar que tantas outras padeçam sem a implementação de Políticas Públicas? A não politização das tragédias recentes na região serrana do Rio de Janeiro foi preenchida por um senso de solidariedade que reduz o problema dos desabrigados e mortos da chuva a uma "questão de consciência". Muito embora nossa atitude mental e disposição humanitária façam parte da construção de soluções para os problemas das vítimas, não se pode crer que a superação deste trauma seja sanada sem a presença do Estado, munido daquilo que o justifica e legitima: o sentido do público.

A opção histórica pela eternização do passado, pela conservação do inviável, vitimou a população da região serrana assim como vitima diariamente aqueles que nos grandes centros urbanos fazem suas habitações em encostas dos morros. Uma vez que a grande causa histórica que materializa estas tragédias é a inexistência de uma reforma agrária bem como de um amplo plano de habitação – que por sua vez exigiria tanto a reforma agrária como a reorganização espacial do perímetro urbano.

A especulação imobiliária, assim como o latifúndio, representa até onde vai o compromisso burguês com as bandeiras democráticas – rasgadas pelos imperativos do capital, expressão histórica do modo de produção burguês. A moradia é um direito até onde este direito não macule o direito à propriedade privada – traço distintivo da sociedade burguesa.

Isto posto, não nos causa espanto que, por exemplo, a regulação dos preços de suprimentos e mantimentos considerados como de primeira necessidade por parte deste status quo que ai está não seja realizada pelo poder publico – pois como já se sabe o preço de 20 litros de água chegou ao surreal valor de 40 reais, em meio à catástrofe na região serrana.

Comungando com o que conclama Bertoltd Brecht "Nós vos pedimos com insistência: nunca digam ‘isto é natural’ diante dos acontecimentos de cada dia". Contudo, que o espanto e a não naturalização seja o da indignação daquele que não se resigna, como defendido por Darcy Ribeiro, e não o espanto do incapaz de lembrar.

Maria Clara Arruda é assistente social e mestranda do PPG da FSS/ UERJ.
Rafael Oliveira é cientista social pela UERJ e professor de sociologia do Estado do Rio de Janeiro.

Ambos Pesquisadores Associados do Programa de Estudos de América Latina e Caribe-PROEALC.
Este texto encontra-se em CORREIO DA CIDADANIA http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5420/9/
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

EUA: Fascismo cristão - a mira do fuzil de Sarah Palin


Na mira do sonho Americano

Por Alejandro Nadal - La Jornada


Samuel Johnson, autor inglês da segunda metade do século XVIII, disse que o patriotismo era o último refúgio do canalha. Sua sentença se aplica bem ao caso da extrema direita estadunidense.


Ninguém duvida da safadeza de personagens como Sarah Palin e alguns pseudo-jornalistas, mas agora se tem a conexão direta com o super patriotismo homicida. É importante não esquecer que no Arizona já existia um ambiente político protofascista que literalmente tem os imigrantes latinos na mira.


A direita e seus aliados nos meios de comunicação foram o motor do clima de ódio que impera não só no Arizona, mas em muitos outros estados dos EUA.


O portal de internet do comitê político de Sarah Palin incluía Gabrielle Giffords, a parlamentar do Arizona, na lista dos 20 membros do Congresso que tinham aprovado a legislação de Obama sobre a saúde. Não era uma lista qualquer. Os nomes apareciam abaixo de um mapa, a cujos estados esses parlamentares pertencem, marcados com a típica cruz de mira telescópica de um rifle. Na parte superior do mapa havia outra legenda belicosa, em que se faz alusão à necessidade de resistir.

A que se deve resistir, senhora Palin? Resposta: a nada menos que a marcha secular em direção ao socialismo que a administração Obama quer impor aos Estados Unidos. Assim mesmo: há uma marcha secular em direção ao socialismo e Obama é o artífice dessa transformação. Essa retórica foi referência repetida de Palin e de outros safados da extrema direita nos Estados Unidos.

Desde que apareceu o mencionado mapa no portal da senhora Palin www.palinpac.com muitas pessoas notaram essa incitação à violência. Mas nem Palin, nem os seus seguidores fizeram algo para mudá-la ou para modificar o tom da retórica utilizada para designar os seus opositores políticos. A senhora Palin introduziu seu mapa dos 20 parlamentares democratas malvados no twitter, com a frase: "Não retrocedam! Ao contrário, recarreguem!".

Hoje a representante Giffords luta para sobreviver num hospital de Tucson, depois que um fanático disparou contra ela, na cabeça, em 8 de janeiro, no momento em que a parlamentar levava a cabo uma reunião destinada a entrar em contato direto com seus eleitores. O assassino matou 6 pessoas (inclusive uma criança de 9 anos) e feriu outras 14. Pode ser que o homicida Jared Loughner seja uma pessoa perturbada mentalmente, mas isso não elimina a conexão com o discurso da incitação à violência utilizado por Palin e muitos políticos que mantém posições conservadoras nos Estados Unidos.

O opositor de Gifford no mesmo distrito eleitoral em 2010 é Jesse Kelly, membro da extrema direita do Partido Republicano. É provável que este personagem seja quem mais longe foi na incitação à violência. Sua marca de campanha no ano passado incluía a convocatória a um ato com estas palavras: "Dê a vitória em novembro ao branco. Ajude a retirar Gabrielle Giffords de seu posto. Dispare um M16 automático com Jesse Kelly". O quadro mostrava o político, um ex-marine, com seu uniforme de campanha, empunhando seu querido fuzil.

A militarização da retórica eleitoral nos Estados Unidos não é casualidade. Em meio a sua pior crise econômica em sete décadas, o país cada vez afunda mais numa trajetória de decadência.

Seu setor financeiro, outrora orgulho de seu desempenho econômico, foi o epicentro dessa crise.

Hoje a triste recuperação promete altos níveis de desempenho para muitos anos.

A desigualdade econômica se parece cada vez mais com a de um país subdesenvolvido, dominado por uma oligarquia feroz.

A extraordinária concentração de riqueza vai de par com a deterioração do sistema educativo em todo o país.

Por último, os desequilíbrios macroeconômicos que marcam a economia estadunidense não são só um problema doméstico, mas, dado o papel chave do dólar no sistema internacional de pagamentos, pioram a dor de cabeça da economia mundial.

O senhor Loughner provavelmente não tem ideia desses problemas. Em seu delírio, pensa que só atua defendendo o Sonho Americano que a senhora Palin reclama para si com tanta insistência. Equivoca-se. O paradoxo é que a deputada Giffords não era a única na mira da nova extrema direita estadunidense. O principal alvo desse movimento é precisamente toda a geração de Loughner, uma geração golpeada e condenada a viver sem educação, sem a promessa de um emprego bem remunerado e estável, sem serviços de saúde adequados.

Uma geração perdida que nunca poderá aspirar a um melhor nível de vida. Seu sacrifício é para que uma pequena minoria de privilegiados possam viver o sonho americano, sem sonhar com mais nada.

Samuel Johnson, autor inglês da segunda metade do século XVIII disse que o patriotismo era o último refúgio do canalha. Sua sentença se aplica bem ao caso da extrema direita estadunidense. Ninguém duvida da safadeza de personagens como Palin e alguns pseudo-jornalistas, mas agora se tem a conexão direta com o super patriotismo homicida.

Só que não há que se esquecer que no Arizona já existia um ambiente político protofascista que literalmente tem os imigrantes latinos na mira.


A direita e seus aliados nos meios de comunicação foram o motor do clima de ódio que impera não só no Arizona, mas em muitos outros estados. Afinal de contas, todo aquele que proclama como método a violência inexoravelmente deverá eleger a mentira como princípio.

(*) Alejandro Nadal é economista, professor pesquisador do Centro de Estudos Econômicos, no Colégio do México. Colaborador do jornal La Jornada.
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