O Estado ultraliberal e a Igreja em Portugal

O Estado ultraliberal e a Igreja em Portugal
por Jorge Messias

"No caso da Igreja católica, a Concordata em vigor mostra a cada passo as suas virtudes. Os cortes e as cargas fiscais só funcionam em terrenos laicos: o imenso Estado dentro do Estado, constituído por empresas, fundações, instituições não-lucrativas, patrimónios de ordens religiosas e de Misericórdias, transacção de terrenos, comércio de obras de arte, etc., etc., fazem parte dos direitos e liberdades cujo reconhecimento está assegurado pela Concordata entre o Estado português e a Santa Sé, em nome da Santíssima Trindade. Tudo é pago com o dinheiro dos contribuintes. A Igreja não arrisca um tostão do seu fabuloso erário."
«A sociedade somos todos nós e a Igreja faz parte dela. Simplesmente, a Igreja, como grupo religioso organizado, aparece também como com uma capacidade muito grande de se organizar para servir e tem o seu poder próprio. O poder que ela tem, para além do poder sagrado – que é para quem acredita e o aceita – é o de poder servir, e mais nada!» (D. José Policarpo, cardeal-patriarca, Reunião com ex-deputados da Assembleia da República, 2006).

 
«Está-se a assistir à construção de um novo paradigma de resposta social... Todos os dias as IPSS se reinventam, se adequam às novas exigências, encontram novas formas de chegar a quem precisa e, por isso, faz todo o sentido que o Estado, ciente das suas limitações, com elas contratualize uma resposta social de confiança e parceria como até hoje Portugal não teve» (Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade e Segurança Social, no acto de assinatura do Protocolo de Cooperação para 2013/2014).

 
«A aliança entre a religião e o Estado surge de forma natural sempre que a religião se considere como um elemento de unidade social. Desde porém que a religião divida os homens em vez de os unir, o Estado deve separar-se dela sob pena de se tornar, ele próprio, um agente da desordem civil. Deve laicizar-se. Porque esta laicização põe claramente em evidência o conteúdo profano da política: somos aqui políticos e não teólogos» (K. Marx, «Os marxistas e a religião», Michel Verret).


Sem dúvida que, no essencial, a visão política do alto clero liberal se ajusta às grandes linhas do projecto tecnocrático capitalista. Destruição acelerada das estruturas da sociedade antiga. Eliminação das classes médias. Esmagamento do proletariado. Formação de poderosas corporações capitalistas assentes sobre a centralização dos bancos, de forma a que se possam fundir num só os poderes político e financeiro. Depois se verá, quanto às religiões.

O Vaticano encontra-se profundamente empenhado nesta mudança. Ainda há poucos dias apresentou nos centros de decisão do movimento capitalista mundial duas propostas básicas integradas nas teses da Nova Ordem da globalização: um governo único para a Europa e uma só administração política e financeira para os grandes bancos da comunidade europeia. O arame farpado de um gigantesco campo de concentração e extermínio. A bênção sobre o golpe final na Democracia.

Entre nós, portugueses, já várias fontes denunciam que a crescente miséria imposta aos trabalhadores contribui para «fazer engordar a Igreja». A troika impõe cortes nos rendimentos do trabalho, acelera os níveis de desemprego, lança na falência as pequena e médias empresas, destrói as famílias. O Estado vira as costas aos seus compromissos sociais e trespassa-os para as ONG e IPSS que funcionam, quase todas elas, na órbita da doutrina social católica. Chovem os subsídios e a Igreja portuguesa «engorda».

No plano fiscal é esmagadora e discriminatória a subida dos impostos. Mas a banca, os accionistas das grandes empresas e a Igreja, não têm razões de queixa. Nunca os mais ricos foram tão ricos como agora são.

No caso da Igreja católica, a Concordata em vigor mostra a cada passo as suas virtudes. Os cortes e as cargas fiscais só funcionam em terrenos laicos: o imenso Estado dentro do Estado, constituído por empresas, fundações, instituições não-lucrativas, patrimónios de ordens religiosas e de Misericórdias, transacção de terrenos, comércio de obras de arte, etc., etc., fazem parte dos direitos e liberdades cujo reconhecimento está assegurado pela Concordata entre o Estado português e a Santa Sé, em nome da Santíssima Trindade. Tudo é pago com o dinheiro dos contribuintes. A Igreja não arrisca um tostão do seu fabuloso erário.

Ter dinheiro é ter poder. Tal como agora se vê, cada vez mais claramente, a hierarquia católica procura organizar as suas células da sociedade civil em núcleos disciplinados que, a curto prazo, possam vir a preencher as funções sociais previstas na Constituição da República. A sua grande habilidade consistirá em destruir o Estado Social, conservando-o de nome no papel. À sombra da solidariedade cristã correm rios de dinheiro que, inevitavelmente, se transformarão em poder.

Bom seria que os crentes honestos, perante o triste espectáculo de um país corrupto, despertassem do seu sonambulismo servil...
 
 
 
Fonte: Jornal Avante em www.avante.pt
 
 
 

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