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domingo, 6 de janeiro de 2013

Alguns minutos com Marx e Engels - A história de um ajuste de contas

Alguns minutos com Marx e Engels - A história de um ajuste de contas
por Gisela Conceição
    

1. A Ideologia Alemã de Karl Marx e Friedrich Engels (1) , obra começada a redigir na Primavera de 1845, em Bruxelas, apresenta o seguinte subtítulo: Crítica da Filosofia alemã mais recente na pessoa dos seus representantes Feuerbach, Bruno Bauer e Stirner, e do socialismo alemão na dos seus diferentes profetas.

Centrar-nos-emos no primeiro capítulo que se ocupa de Feuerbach ou, mais precisamente, da oposição das concepções materialista e idealista
(2) . Antes, derivo para um excurso breve, abrangendo dois tópicos introdutórios. Primeiro tópico: impõe-se situar o autor visado. Ludwig Feuerbach (1804-1872) é um filósofo alemão representado na História da Filosofia com um estatuto de pensador respeitável. Aluno de Hegel em Berlim, conhece uma primeira fase, efémera, de influência hegeliana. Rompe abertamente com Hegel. Passa por um período humanista e, posteriormente, desenvolve uma filosofia que configura uma certa forma de materialismo.
 
Inspira Marx e Engels. Ambos, em dado momento, consideraram-se feuerbachianos. Segundo tópico: o texto em apreço refere velhos-hegelianos ditos conservadores e critica, com sarcasmo, o movimento dos jovens-hegelianos alegadamente de esquerda. No sentido de potenciar o seu entendimento, parece-me oportuna a abordagem concisa da relação teórica Marx-Hegel. Lénine aponta o que considera as três fontes teóricas do marxismo: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês (3) .
 
Retenho apenas a filosofia alemã e, dentro dela, isolo Hegel. E pergunto: qual a dívida teórica de Marx em relação a Hegel? Sem reticências: a dialéctica. Marx reconhece-o, inequivocamente, no Posfácio à 2.ª edição alemã do primeiro livro de O Capital. Mas, do mesmo passo, vinca a diferença: em Hegel, a dialéctica encontra-se de pernas para o ar, ou seja, é idealista; é preciso virá-la ao contrário, colocando-a numa base materialista (4) .Encerrado o excurso, avanço para a incursão.
 
2. Marx e Engels caracterizam impiedosamente o espaço filosófico e ideológico em que se inscreve a crítica a Feuerbach. Usando a sua terminologia, trata-se de um clima de «industriais da filosofia» (5) , e de «charlatanice filosófica» (6) . O objecto de A Ideologia Alemã, na sua vertente crítica, é o «processo de putrescência do espírito absoluto» (7) em que se atolam os jovens-hegelianos. Marx e Engels sabem do que falam. Ambos, em momentos diferentes, frequentaram, em Berlim, o círculo dos hegelianos ditos de esquerda, o Doktorclub, onde pontificava Bruno Bauer. Cingindo-me ao essencial, na actividade intelectual frenética dos jovens-hegelianos não há qualquer vínculo entre as especulações e a realidade objectiva, empiricamente verificável. Em suma: tudo ocorre no pensamento puro. Os autores de A Ideologia Alemã estruturam a sua crítica a partir de um topos teórico preciso. Especifico, citando o texto em análise: «(…) para o materialista prático, isto é, para o comunista, trata-se de revolucionar o mundo existente, de atacar e transformar na prática as coisas que encontra no mundo.» (8) 
 
Estamos perante um concentrado programático que exige algum breve desdobramento. Assim, podemos dizer que o lugar teórico de onde Marx e Engels consideram Feuerbach se constitui a partir do entrosamento de quatro linhas de sentido fulcrais. São elas: o materialismo, que implica o primado da materialidade natural e social, empiricamente verificável, e a autonomia relativa da consciência; a dialéctica, entendida como as formas do movimento segundo o qual se processa a transformação, inscrita no mundo real objectivo, na empiria observável; a História, feita pelos homens concretos, em determinadas condições dadas, passíveis de superação no sentido forte do termo; a prática, compreendida como actividade sensível, como actividade social objectiva de transformação material. Em síntese: «O facto é, portanto, este: o de determinados indivíduos, que trabalham produtivamente de determinado modo, entrarem em determinadas relações sociais e políticas. A observação empírica tem de mostrar, em cada um dos casos, empiricamente e sem qualquer mistificação e especulação, a conexão da estrutura social e política com a produção.» (9)
 
3. O que é, substantivamente, criticado em Feuerbach por Marx e Engels? Quase tudo. Sobram, apenas, dois elogios mitigados a aspectos específicos do seu pensamento; e uma apreciação positiva, de carácter genérico, envolvida em reservas. Concretizemos: o que está em causa é o materialismo contemplativo e inconsequente de Feuerbach. A análise de Marx e Engels de tal configuração do materialismo desenvolve-se segundo alguns núcleos de sentido crítico que passo a enunciar.
 
Primeira incidência crítica: a ausência, em Feuerbach, da compreensão da prática sensível transformadora. O autor entende que também o homem é «objecto sensível» e isso significa uma «grande vantagem» sobre os «materialistas “puros”». (10) Mas mantém-se na teoria, incapaz de chegar aos homens activos, aos homens realmente existentes.
 
Segunda incidência crítica: a ausência do reconhecimento da História. Feuerbach é um filósofo a-histórico. Quando entra em ruptura com a sua fase hegeliana, o autor ganha um pensamento autónomo mas perde a dialéctica e o sentido da História. Marx e Engels lavram o ponto da situação: «Enquanto materialista, para Feuerbach a História não conta, e quando considera a História não é materialista.» (11) .
 
Terceira incidência crítica: o essencialismo que preside à concepção de «o Homem», concepção inscrita na pura abstracção, divorciada do conjunto das condições materiais de existência.
 
Quarta incidência crítica: ausência de relações sociais geradas pela prática. As relações humanas que Feuerbach concebe são só fundadas no sentimento (amizade, amor – aliás idealizados). Por último: a recaída no idealismo. A partir da instauração do conceito de homem comunitário, Feuerbach declara-se um comunista, transformando o termo «comunista» num predicado de «o Homem», numa simples categoria do pensamento, desligada da realidade material em devir, empiricamente verificável.

4. Nem sempre a percepção de um autor, em relação à sua obra, é a mais justa. No valioso Prefácio a Para a crítica da economia política
(12) , com data de 1859, Marx refere-se a A Ideologia Alemã nos seguintes termos: «(…) quando, na Primavera de 1845, ele [ Engels ] se radicou igualmente em Bruxelas, decidimos esclarecer em conjunto a oposição da nossa maneira de ver contra a [ maneira de ver ] ideológica da filosofia alemã, de facto ajustar contas com a nossa consciência filosófica anterior. (…) Abandonámos o manuscrito à crítica roedora dos ratos de tanto melhor vontade quanto havíamos alcançado o nosso objectivo principal – autocompreensão.» (13)
 
Raramente um simples ajuste de contas teórico se revela tão fértil e produtivo, com poderosas implicações na prática. Não subscrevo o radicalismo da releitura do texto marxista levada a cabo, a partir de 1965, por Louis Althusser, nem a violência deliberada da sua aplicação da categoria epistémica de «corte epistemológico» a A Ideologia Alemã (14) . Mas entendo que a obra representa, no processo de constituição do pensamento de Marx, um momento de ruptura decisiva para o desenvolvimento da fase de maturidade. Sublinho: o robustecimento do conceito de materialismo, fundado no suposto ontológico da materialidade do real; a afinação de instrumentos teóricos, de constructos científicos enraizados na prática (a saber: relações sociais, luta de classes, classe dominante, forças de produção, relações de produção, força de trabalho).
 
Ressalto: o travejamento de algumas ciências sociais. Em A Ideologia Alemã, surpreendemos a emergência de uma nova Filosofia (o materialismo dialéctico) e de uma nova concepção de História (o materialismo histórico). A Sociologia moderna reconhece a obra em apreço como seu momento fundador, de importância decisiva para o estabelecimento de um estatuto epistemológico credível. No já referido Prefácio de 1859, Marx convoca o Dante de A Divina Comédia, em jeito de palavra de ordem poética. Cito: «À entrada para a ciência, (…) como à entrada para o inferno, tem de ser posta a exigência: “Aqui tem de se banir toda a desconfiança/Toda a cobardia tem aqui de ser morta.”» (15)

5. «Toda a cobardia tem aqui de ser morta». O Manifesto do Partido Comunista
(16) é a inflorescência audaciosa de certo ajuste de contas gerador de um novo e revolucionário universo científico de incidência prática. Sublinhe-se: nem o ajuste de contas, nem o Manifesto tomaram forma no plano do pensamento puro, especulativo. Marx e Engels desenvolveram dialecticamente a sua reflexão no horizonte de uma realidade objectiva a que estavam atentos e na qual investiram a sua energia criadora com o estatuto irrecusável de agentes participativos. Refiro-me, sobretudo, ao fortalecimento do movimento operário internacional. Consideremos os factos. Marx e Engels empreenderam a elaboração do Manifesto a pedido da Liga dos Comunistas (uma associação operária internacional secreta), visando, em síntese, a «publicação de um programa teórico e prático pormenorizado do Partido» (17) .
 
A redacção do texto, iniciada em Dezembro de 1847, ficou concluída em Janeiro de 1848. O Manifesto do Partido Comunista foi impresso em Londres em Fevereiro de 1848, pouco tempo antes da revolução de Fevereiro em França. 1848 foi um ano histórico para a consciência revolucionária do proletariado na Alemanha e em França. Referiremos apenas, a título exemplar, a insurreição de Junho dos operários de Paris que pode ser lida como a primeira grande guerra civil da história entre o proletariado e a burguesia. A sucinta, brevíssima evocação de circunstâncias históricas coevas do nascimento do Manifesto nada retira à ousada clarividência dos seus autores, antes a acrescenta.
 
O Manifesto do Partido Comunista é o primeiro documento programático do comunismo científico. Nele se encontram formulados, com sistematicidade e rigor, os princípios básicos do marxismo. A este respeito, surpreendamos o pensamento de Lénine: «Esta obra expõe, com uma clareza e um vigor geniais, a nova concepção do mundo, o materialismo consequente aplicado também ao domínio da vida social, a dialéctica como a doutrina mais vasta e mais profunda do desenvolvimento, a teoria da luta de classes e do papel revolucionário histórico universal do proletariado, criador de uma sociedade nova, a sociedade comunista.» (18) Para terminar, escute-se Karl Marx e Friedrich Engels. Assim escreveram no ano de 1872: «Embora as condições muito se tenham alterado nos últimos vinte e cinco anos, os princípios gerais desenvolvidos neste Manifesto conservam ainda hoje, no seu todo, a sua plena correcção. Aqui e além seria de melhorar um pormenor ou outro. A aplicação prática destes princípios, como o próprio Manifesto torna claro, dependerá sempre e em toda a parte das circunstâncias históricas existentes (…).» (19)




Notas


(1) Karl Marx e Friedrich Engels, Die deutsche Ideologie, Karl Marx – Friedrich Engels Werke (MEW), Dietz Verlag, Berlin, 1962, vol. 3.
(2) O manuscrito de A Ideologia Alemã compunha-se de dois tomos. No primeiro capítulo do primeiro tomo é exposto o conteúdo positivo fundamental de toda a obra, assumindo um significado autónomo. Os leitores poderão consultá-lo, em tradução portuguesa, em Marx–Engels, Obras Escolhidas, Tomo 1, Edições «Avante!», Lisboa, 1982, pp. 4-75.
(3) Naturalmente, a intersecção teórica das três fontes do marxismo apenas produz o seu efeito desde o momento em que o jovem Marx se desloca para posições políticas e para posições teóricas de classe do proletariado.
(4) «A mistificação que a dialéctica sofre nas mãos de Hegel de modo algum impede que ele tenha exposto pela primeira vez as suas formas gerais de movimento de modo compreensivo e consciente. Nele ela está de pernas para o ar. É preciso virá-la [ao contrário] para descobrir no invólucro místico o núcleo racional.», Karl Marx, Das Kapital, Nachwort zur zweiten Auflage, MEW, vol. 23, p. 27.
(5) A Ideologia Alemã, tradução portuguesa referida na nota (2), p. 4.
(6) Ibidem, p. 5
(7) Ibidem, p. 4.
(8) Ibidem, p. 16.
(9) Ibidem, p. 13.
(10) Ibidem, p. 18.
(11) Ibidem, p. 19.
(12) Karl Marx, Para a crítica da economia política (Prefácio), Marx–Engels, Obras Escolhidas, Tomo 1, Edições «Avante!», Lisboa, 1982, pp. 529-533.
(13) Ibidem, p. 532.
(14) É em 1845 que ocorre, segundo Althusser, o famoso corte epistemológico (indissociável da distinção althusseriana entre ciência e ideologia). O corte epistemológico é o separar das águas. Uma data e uma obra – A Ideologia Alemã – são miticamente investidas de uma dupla função: eliminar toda a produção anterior de Marx como pertencendo ao domínio do ideológico (leia-se: pré-científico); instaurar a ciência marxista. (Cf. Louis Althusser, Pour Marx, F. Maspero, Paris, 1974).
(15) Karl Marx, Para a crítica da economia política (Prefácio), ed. cit., p. 533.
(16) Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, Marx–Engels, Obras Escolhidas, Tomo 1, Edições «Avante!», Lisboa, 1982, pp. 95-136.
(17) Marx e Engels, Prefácio à Edição Alemã de 1872 do Manifesto do Partido Comunista, ed. cit., p. 95.
(18) V. I. Lenine, Obras Escolhidas, Edições «Avante!»–Edições Progresso, Lisboa–Moscovo, 1977, Tomo 1, p. 5.
(19) Marx e Engels, Prefácio à Edição Alemã de 1872 do Manifesto do Partido Comunista, ed. cit., p. 95.


Fonte: Revista teórica O Militante em www.omilitante.pcp.pt


Mafarrico Vermelho
 

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