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sábado, 12 de janeiro de 2013

KKE: Sobre o Movimento Comunista Internacional (II)

Partido Comunista da Grécia (KKE): sobre o Movimento Comunista Internacional (II)
 

"A experiência apresentada quer por uns quer por outros partidos leva à conclusão de que o ataque do capital é severo e unificado. O seu objetivo é reduzir ainda mais o preço da força de trabalho, para aumentar os lucros dos monopólios e para transferir o ônus da crise para os povos. O regime de exploração do homem pelo homem cria e agrava os problemas sociais. As necessidades sociais não podem ser satisfeitas no terreno do capitalismo! "



Segunda intervenção de Elisseos Vagenas no Seminário "O movimento comunista internacional Hoje e Amanhã", organizado pelo Partido Comunista da Federação Russa (PCFR) em Moscou, 15 e 16 de Dezembro de 2012.



Durante a discussão, vieram à tona questões básicas, em que há uma luta ideológica e política nas fileiras do movimento comunista. Essas questões são: as causas da crise capitalista, a importância da luta a nível nacional e o seu desenvolvimento a nível regional e internacional; a postura dos comunistas perante o chamado mundo multipolar e o direito internacional de hoje, que se tornou mais reacionário; a postura perante o grupo dos países BRICS³ e, genericamente, aqueles governos burgueses que por enquanto não foram envolvidos na crise capitalista global; os pontos de vista que, em nome de particularidades nacionais, negam as leis da revolução e construção socialistas; as causas das relações interestatais desiguais, que se desenvolvem entre os Estados capitalistas; a questão das alianças dos PC; o modo como se deve lidar com as organizações neofascistas; a proposta política dos comunistas, as chamadas “etapas intermédias” para o socialismo, etc.

Diferentes pontos de vista, mesmo diametralmente opostos, foram expressos sobre estas questões, confirmando assim a avaliação das Teses do CC do KKE do 19º Congresso, que menciona que "o movimento comunista permanece organizacionalmente e ideologicamente fragmentado".

O representante do KKE, Elisseos Vagenas, membro do CC e responsável pela Seção de Relações Internacionais do KKE, tomou a palavra e observou o seguinte, na sua segunda intervenção: 

«Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao PCFR pelo convite para este encontro informal, que nos deu a possibilidade de trocar pontos de vista sobre as questões do movimento comunista e as suas perspectivas futuras.

Caros camaradas,


Estamos a discutir questões muito complicadas, que cada partido aborda do ponto do ponto de vista da sua experiência, da experiência do desenvolvimento da luta de classes no seu país contra o ataque do capital e das forças políticas que servem os seus interesses.

Sim! Há diferentes abordagens entre os nossos partidos sobre questões muito sérias, questões de importância estratégica. O movimento comunista enfrenta grandes dificuldades, mas temos de insistir. A concretização da estratégia e tática revolucionárias que lhe dê resposta é uma questão difícil, mas inevitável. É a ferramenta insubstituível que criará uma base sólida para a luta político-ideológica e de massas e contribuirá para a concentração e preparação das forças da classe operária e popular no conflito com o capital, os seus partidos e uniões imperialistas e para a derrota da barbárie capitalista.

Esta é a causa dos comunistas. É a causa dos partidos comunistas que se opõem à erosão oportunista e defendem a luta de classes até o fim, dos partidos que lutam pela perspectiva socialista.

A experiência apresentada quer por uns quer por outros partidos leva à conclusão de que o ataque do capital é severo e unificado. O seu objetivo é reduzir ainda mais o preço da força de trabalho, para aumentar os lucros dos monopólios e para transferir o ônus da crise para os povos. O regime de exploração do homem pelo homem cria e agrava os problemas sociais. As necessidades sociais não podem ser satisfeitas no terreno do capitalismo!

As forças que administram o capitalismo e a sua crise estão a servir consistentemente este grande objetivo, independentemente da forma de gestão adotada, como acontece nos países da UE, nomeadamente, com a política restritiva, que aprofunda a recessão da economia capitalista, ou como acontece nos EUA, com a política expansiva que inflaciona os déficits e a dívida.

Em ambos os casos, é o povo que paga as consequências, através da redução dos salários e pensões, de altas taxas de desemprego, da abolição de direitos laborais e da segurança social, da comercialização de serviços sociais, das privatizações, de duras medidas fiscais.

Ouvimos muitas vezes dizer que a deterioração da situação da classe operária, dos camponeses, dos estratos médios urbanos e a degradação do futuro da juventude são devidas ao capitalismo "desenfreado", ao neoliberalismo, ao capitalismo de casino.

Isto requer atenção. É um esforço organizado e planificado para enganar o povo. Estas caraterizações procuram esconder a essência, ou seja, que o responsável pelo desemprego, a pobreza, os problemas do povo em geral, as crises e as guerras imperialistas é o modo de produção capitalista e não apenas uma forma da sua gestão. Isto quer dizer: o sistema que vive e respira com a exploração da classe operária, com a extração da mais-valia, a busca do lucro, a competição para a expansão para novos mercados; o sistema que é baseado no poder dos monopólios e na propriedade capitalista dos meios de produção.

A vida mostra que é impossível seguir uma linha política favorável aos trabalhadores com o poder, os instrumentos econômicos e a riqueza nas mãos do capital. É uma armadilha bem engendrada que devemos pôr a nu e combater e devemos explicar a verdade aos povos de uma forma aberta e decisiva.

É verdade que hoje a crise não se manifestou em certos países capitalistas, com altas taxas de desenvolvimento. Isto é um resultado da lei do desigual desenvolvimento capitalista. Antes da crise, a Grécia teve taxas relativamente altas de desenvolvimento capitalista durante um período de 20 anos! Neste período, manifestou-se a crise dos "tigres asiáticos", a crise na Rússia e na Turquia, e em vários outros países. Hoje, há uma crise na Grécia, enquanto as estatísticas burguesas mostram que na Rússia e na Turquia há crescimento. Mesmo no exemplo em que se reinicia o motor capitalista, o crescimento será marcado pela mais selvagem exploração, que terá lugar sobre as ruínas dos direitos dos trabalhadores e do povo.

Caros camaradas,

A competição capitalista intensificar-se-á, o sistema tornar-se-á mais agressivo, as suas possibilidades de concessões serão posteriormente ainda mais reduzidas. Não devemos esquecer que as pré-condições para uma nova crise serão criadas nas condições do crescimento capitalista, onde quer que aconteça!

Assim, a luta dos comunistas adquire uma grande e crucial importância, pois tem a tarefa histórica de fortalecer a luta pelo derrube do sistema podre, para que a classe operária e o povo tomem o poder em suas próprias mãos e construam a nova sociedade, o socialismo, que é mais oportuno e necessário do que antes. Este poder operário e popular expressa os interesses de muitos.

Em nossa opinião, isto significa que os meios de produção e a riqueza ficarão sob a propriedade daqueles que a produzem, que a criam, que a economia será organizada de acordo com a satisfação das necessidades do povo, será desenvolvida de forma planificada e será capaz de garantir o direito ao trabalho para todos, bem como serviços sociais gratuitos. Este caminho de desenvolvimento rechaçará as causas das crises capitalistas. O poder dos trabalhadores e do povo avançará na saída das uniões imperialistas, a OTAN e a UE.

Na nossa luta deveremos definitivamente ter em conta as peculiaridades nacionais, por exemplo, o nível de desenvolvimento das forças produtivas, a sua posição geográfica, a tradição cultural etc. No entanto, isso não significa que possamos invocar as peculiaridades nacionais para abandonar as leis da revolução socialista. Esta é uma discussão muito grande, que começou depois da Grande Revolução Socialista de Outubro, quando vários partidos, em nome das peculiaridades nacionais da Rússia, sugeriram o abandono da experiência dessa grande Revolução. Numa série de PC, na Europa Ocidental, isso levou por sua vez à prevalência da corrente do "eurocomunismo", sob a invocação das peculiaridades nacionais, mas, de fato abandonaram as leis da revolução socialista, a ditadura do proletariado e, em geral, a luta revolucionária. Estes partidos consideraram que o sistema capitalista podia ser transformado em socialista, através de "mudanças estruturais" e "democracia política". Nós acreditamos que a vida refutou estas abordagens.


Algumas palavras sobre a União Europeia (EU)


Há 30 milhões de desempregados e 127 milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza na UE, que foi construída para servir os interesses do capital e das multinacionais à custa do povo e se vai tornar mais reacionária.

A UE não é uma organização supranacional, é uma união imperialista interestatal. Isso quer dizer uma união de Estados capitalistas, em que a classe burguesa e os seus partidos unem as suas forças contra os povos.

O Estado burguês continua a ser a base dos monopólios. O Estado burguês, como um aparelho para a opressão da classe operária pela burguesia, não desaparece dentro da união imperialista, mas ajusta suas funções. Vemos isto todos os dias. O conflito de interesses, a competição por novos mercados e mais lucros mantém-se, as contradições interimperialistas agudizam-se.

As relações desiguais manifestam-se entre os Estados capitalistas e, mais genericamente, entre o sistema imperialista, devido às diferenças que existem entre os seus históricos pontos de partida, o seu potencial de desenvolvimento, as suas vantagens geográficas, a sua força econômica e político-militar.

Este é o elemento básico que reflete a realidade e responde às análises erradas sobre "ocupação", "colônias", "centro-periferia" ou "norte-sul".

A classe burguesa é hostil aos povos, independentemente da sua posição geográfica e da posição do Estado capitalista no sistema imperialista. Por exemplo, na Alemanha e na Irlanda, na França e na Grécia.

A concessão de direitos de soberania feita pela classe burguesa dentro de uma organização imperialista, como a UE ou a OTAN, é algo realizado de forma consciente e o seu critério é a unificação dos interesses de classe contra o povo, para a perpetuação do sistema capitalista, para o mais eficaz funcionamento das uniões imperialistas.

De fato, no âmbito do sistema de exploração desenvolvem-se relações de dependência ou, mais precisamente, relações desiguais de interdependência. No entanto, este problema, que está ligado à assimilação do país na "pirâmide" imperialista, só pode ser erradicado através da eliminação das causas que lhe dão origem, ou seja, através da derrota da organização capitalista da economia e da sociedade, com a solução dos problemas do poder e da propriedade dos meios de produção.

Caso contrário, a luta pela independência e soberania, de acordo com uma expressão de V. I. Lenine, será realizada "sob uma falsa bandeira".


Algumas palavras sobre a política de alianças dos Partidos Comunistas

O nosso partido tem uma experiência histórica da formação de uniões de "esquerda" e "patrióticas" com outras forças. Duas vezes, em 1968 e 1991, elas foram transformadas em "Cavalo de Tróia" da classe burguesa tendo em vista a dissolução do Partido Comunista.

Depois de ter estudado esta experiência e a experiência das alianças em geral, chegamos à conclusão de que a política de alianças dos comunistas é determinada pelo objetivo de derrubar o regime de exploração e não de o manter. Cada força política é julgada, não pelo rótulo que dá a si própria, mas pela sua posição perante a exploração do trabalho pelo capital, a sua posição perante as uniões imperialistas.

Por essa razão, concentramos a nossa atenção na aliança social da classe operária, dos estratos populares e das organizações de massas e sindicais. Neste campo, temos resultados concretos, especialmente com a formação da Frente Militante de Todos os Trabalhadores, que une centenas de sindicatos, federações industriais, centros de trabalho e comitês de luta!

É um fato que temos de lutar contra as organizações fascistas. Na Grécia, o nosso partido já está a lutar contra a organização neofascista "Golden Dawn", que entrou no Parlamento. É óbvio que o fortalecimento deste partido é o resultado do seu apoio pelo capital nacional e pelas forças políticas que estão na ponta final do ataque contra o KKE e o movimento sindical de classe. O fortalecimento do movimento neofascista está intimamente relacionado com o chamado "movimento das praças" e "movimento de cidadãos indignados". Nos nossos boletins informativos temos escrito muitas vezes sobre esse "movimento" e as responsabilidades dos oportunistas, que carregam uma enorme responsabilidade pelo surgimento do movimento neofascista.

Acreditamos que o movimento de classe pode lidar com sucesso com o partido neofascista e não há razão para criar uma "frente antifascista" com a social-democracia e todos os que são responsáveis pelo reforço deste partido e estão agora a derramar lágrimas de crocodilo. Em nossa opinião, a luta contra o fascismo pode ser eficaz se se voltar contra as causas que o criaram e visar a sua erradicação.

Sobre a questão de participar em governos. O nosso partido tem uma experiência própria em muitos casos e não apenas na administração local. A possibilidade de formar um governo de "esquerda" foi uma questão importante nas recentes eleições. Eles persistiram em chamar o KKE a participar nele. O nosso partido recusou, desde o início, participar num tal governo, pois está bem ciente de que nenhum governo que administra o capitalismo, o poder dos monopólios e a propriedade privada dos meios de produção, nenhum governo que implemente um programa baseado nos lucros capitalistas, na competitividade, produtividade e rentabilidade dos grandes grupos empresariais pode assumir uma linha política a favor da classe operária e das camadas populares.

Nenhum governo assim, que funcione no âmbito da UE e da OTAN, da propriedade capitalista e do poder burguês, pode controlar as leis do sistema, as suas contradições e evitar a eclosão da crise capitalista.

Mais cedo ou mais tarde, as promessas de "aliviar" o povo serão goradas, provarão ser palavras vãs, e a expectativa e esperanças de algo melhor por parte do povo serão substituídas pela desilusão e pelo recuo do movimento operário. Há um exemplo recente do que estou a dizer: Chipre.

Por isso, é de grande importância que o KKE mantenha uma posição de princípio rejeitando a base de participação num governo de gestão burguesa, mesmo se esse governo for chamado “de esquerda”. O nosso partido opta por continuar a luta de classes, enfrentando as dificuldades, ciente de que, temporariamente, pode sofrer algumas perdas nas eleições. No entanto, o número de votos nas eleições é apenas um indicador e, de fato, nem é o mais importante! Isto é provado muito vivamente pela história dos nossos vizinhos, dos nossos camaradas italianos.

Em relação às questões internacionais, observaria que não nos podemos referir à democratização do direito internacional e da organização internacional como a "Internacional Socialista" e o "Partido da Esquerda Europeia" estão a apelar, fomentando ilusões de que as guerras imperialistas podem parar, sem tocar no capitalismo e no poder do capital. Condenamos as injustas guerras imperialistas e lutamos para que o país se retire das mesmas! No entanto, sabemos que as guerras que constituem a continuação da política por outros, violentos, meios são inevitáveis enquanto a sociedade estiver dividida em classes, enquanto houver exploração do homem pelo homem, enquanto o imperialismo dominar. A substituição da guerra pela paz, em benefício do povo, não pode ser alcançada sem a substituição do capitalismo pelo socialismo. Esta verdade torna hoje a nossa luta ainda mais oportuna e necessária.

Por último, houve uma pergunta sobre as razões da fundação da "Revista Comunista Internacional". A resposta é simples: a emissão da "Revista Comunista Internacional" expressa a necessidade de cooperação entre as publicações teóricas e políticas dos Partidos Comunistas, que têm posições comuns sobre uma série de questões teóricas e ideológicas fundamentais. Estas questões estão incluídas na Declaração de Istambul. Não há necessidade de a ler aqui, pois está disponível no sítio da rede da RCI.

O KKE tem vindo a falar sobre a necessidade do polo comunista entre os partidos comunistas que têm pontos de vista ideológicos e políticos convergentes, entre os partidos que defendem o marxismo-leninismo, a contribuição do socialismo que conhecemos, assim como a necessidade da luta pelo socialismo, desde o seu 17º Congresso, há 8 anos. Também sobre a melhoria da cooperação, a sua extensão a questões de desenvolvimento teórico, a questões que estão no epicentro do conflito atual, ao estudo internacional sobre as causas da vitória da contrarrevolução, à elaboração de uma estratégia conjunta perante o imperialismo.

Não compartilhamos os medos de que tal esforço coletivo possa criar dificuldades no esforço geral dos partidos comunistas e operários que têm diferenças na coordenação em torno dos objetivos anti-imperialistas.»

 
 
 
³ BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul países apelidados de emergentes. [NT]
Publicados originalmente em: http://inter.kke.gr/News/news2012/2012-12-17-omilia-elisaioy/
 
Tradução do inglês de PAT
 
Colocado em linha em: 2013/01/06
Fonte: http://www.pelosocialismo.net
 
 
Mafarrico Vermelho

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