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quarta-feira, 20 de junho de 2012

O «resgate» espanhol

O «resgate» espanhol

por Ângelo Alves


A imprensa titulou: «A Espanha pediu ajuda financeira para recapitalizar a banca». As centrais de (des)informação apressaram-se a chamar-lhe um «resgate suave» ou «descafeinado» (nas palavras de um jornal espanhol), pois não se trataria de um «resgate» similar aos efectuados em Portugal, Irlanda ou Grécia e portanto não haveria lugar a «austeridade». Mariano Rajoy e o ministro da economia espanhol recusaram-se a usar o termo «resgate» e insistem na ideia de uma simples «linha de crédito» à banca. Por cá até o Bloco de Esquerda utilizou a mesma fórmula e atirou a matar (nos pés) considerando inaceitável que Espanha tivesse direito a um empréstimo sem medidas de austeridade quando no nosso País as condições foram diferentes.

A ideia de uma «simples» linha de crédito que irá «resolver» os problemas da banca, ainda para mais sem medidas ditas de «austeridade», trata-se, obviamente, de um embuste, de uma mentira cuja dimensão é proporcional ao valor milionário do resgate – 100 mil milhões de euros. Uma mentira desde logo porque esta decisão é apenas a ponta de um imenso iceberg – uma crise económica e social em rápido aprofundamento na 5.ª maior economia da União Europeia e um gigantesco esvaziamento da bolha especulativa espanhola que muito possivelmente sorverá muito mais recursos do que os 100 mil milhões agora anunciados.


Em segundo lugar porque o dinheiro que vai ser entregue à banca espanhola vai sê-lo por via do Estado espanhol que se vai endividar, para já, em 100 mil milhões de euros, podendo a dívida pública espanhola disparar rapidamente para, pelo menos, 90% do PIB.

Ora, tal decisão terá obviamente consequências e serão os trabalhadores e os povos de Espanha as suas vítimas. Aliás, basta ler com atenção o comunicado do Eurogrupo para se concluir facilmente que irão ser impostas ao povo espanhol mais medidas contra os seus direitos e condições de vida e que a aplicação de tais medidas será monitorizada de perto pelo FMI e pela União Europeia.

A verdade é que este resgate se trata, com outras roupagens é certo, da mesmíssima coisa que se está a passar na Irlanda, em Portugal ou na Grécia, ou seja o uso do Estado como um gigantesco aspirador que suga os recursos públicos e os rendimentos do trabalho, canalizando-os para os cofres da banca e do grande capital financeiro. Esta é que é a verdade que sustenta a afirmação do PCP de que o que é necessário não são renegociações de pactos de agressão – como vieram hipocritamente propor o Partido Socialista e Bloco de Esquerda – mas antes a sua rejeição e a ruptura com as políticas da União Europeia e dos governos ao serviço do grande capital, seja aqui ou em Espanha.

Mas, se a gigantesca operação de salvamento do grande capital em Espanha coloca novos desafios àquele povo e à sua luta em defesa dos seus direitos, o «resgate» da Espanha não pode deixar de ter impacto internacional, ou não se tratasse da 12.ª maior economia do Mundo.

O facto de uma economia desta dimensão ter ficado à mercê dos processos de extorsão do grande capital financeiro a pontos de ter de se entregar nas mãos da dita «ajuda externa» demonstra a profundidade da crise do capitalismo.

Uma crise que não é limitada a este ou aquele país e que alastra muito rapidamente. A comprová-lo estão os níveis recorde de desemprego na zona euro; o anúncio oficial de que a França entrará em recessão já este trimestre; o anúncio da quebra de 1,7% nas exportações alemãs ente Abril e Março deste ano e ainda (e porventura o mais importante) a revelação dos dados do crescimento do desemprego nos EUA que atinge agora o valor oficial de 8,2% (o que corresponde a uma taxa real de 14,8%) e a forte travagem da economia norte-americana em função da contracção da despesa pública pelo sexto trimestre consecutivo, da quase estagnação do consumo interno e do aumento do défice comercial doméstico.

Como afirmou o PCP em 2008, as medidas do sistema para tentar lidar com a sua própria crise mais não são do que sementes de novas e mais profundas crises. O resgate de Espanha é mais uma delas.


Texto original no Jornal Avante



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