O preço astronómico dos crimes e dos erros de cálculo dos ricos terá de ser integralmente pago pelos pobres.


Lágrimas de crocodilo

Por Jorge Messias



Uma das técnicas mais comuns no mundo capitalista é a da «insaciedade». Bem podem os lucros aumentar e o mercado crescer: um bom capitalista nunca se confessa saciado. É um princípio de que ele se serve para engordar e crescer. E esta técnica completa-se com uma outra. Se o bom capitalista age em função do lucro e despreza a ética naquilo em que ela lhe possa estorvar a acção, nem por isso deve incorrer no erro de pensar que cada manobra comercial pode deixar de revestir-se de álibis altruístas destinados a convencer a opinião pública de que um roubo é uma louvável acção social. Diziam os antigos que salteadores de estrada e comerciantes tinham um só deus! Assim continua a ser.

Nesta época de crise para o povo multiplicam-se as iniciativas com duas caras (caridade e negócio lucrativo) e os ricos procuram surgir aos olhos dos pobres como benfeitores. É o caso das várias faces generosas da «luta contra a pobreza». Ou o dos milionários que renunciam às fortunas para se dedicarem aos pobres. Contas feitas, os ricos são cada vez mais ricos e só tentam maquilhar a própria imagem dando aparentes esmolas. E essas acções «solidárias» surgem sempre com uma marca cristã, invocando os princípios doutrinais que proclamam deverem os bens essenciais «chegar equitativamente às mãos de todos». Aos apóstolos da banca, falar não custa; e os sacerdotes da Igreja, como sempre, aproveitam a «deixa» para fornecerem ao capitalismo a cobertura moral de que ele, por si só, não dispõe.

O Vaticano é capitalista e, como tal, procura captar o lucro em quaisquer situações. Com o aumento dos subsídios públicos ou com a valorização dos capitais privados (dos quais ele é largamente accionista) a sua Igreja, em tempos de crise e de pobreza, acumula lucros sobre lucros, como qualquer outro banqueiro bem sucedido. Mas também, tal como os empresários, chora e arrepela-se por tudo e por nada. Por exemplo, enquanto a fome alastra diz que os «bancos alimentares» se arruínam ou que muitas IPSS estão à beira da falência, e reclama do Estado aumentos dos subsídios. O mesmo acontece nas outras áreas sociais, tais como o ensino, a saúde, as misericórdias e o campo sócio-caritativo, etc. Em troca, a hierarquia fornece ao capital financeiro a capa de «uma ética de prudência imbuída de caridade», nas palavras de João Paulo II. Estava-se, então, em 1986, muito antes de explodir a actual crise do capitalismo a qual, no entanto, a Igreja nessa altura já previa.

Não há dúvida que o Vaticano profetiza a longo prazo!

Alguns números mesmo que irreais

Antes do mais, devemos pôr os pés na terra e conhecer melhor o poço sem fundo em que o capitalismo nos está a mergulhar. Metendo no mesmo saco capitalismo e neocapitalismo, cruzada e imperialismo, ditadura ou parlamentarismo. Há muitos séculos que todos estes falsos valores vegetam e foram crescendo ocultamente na sociedade portuguesa. Minaram mentalidades e criaram falsos mitos. Por isso mesmo, aceite como um mal inevitável, o capitalismo foi sobrevivendo sem que em nenhum momento houvesse, entre o povo e o polvo, rupturas reais e duradouras.

Actualmente, os números da miséria traduzem, ainda que aquém da realidade, o estado em que as coisas se encontram. São dados retirados de estatísticas oficiais ou dos noticiários bem controlados dos jornais de maiores tiragens. É a partir dessa base concreta que poderemos fundamentar algumas considerações sobre a luta contra a pobreza em Portugal. A pobreza que já cá está e a outra que aí vem.

Portugal, 2011: desemprego, 11% em 6 milhões de postos de trabalho (cerca de 660 mil desempregados); pobreza (-420 euros/mês), à volta de 2 milhões de cidadãos; trabalhadores em risco eminente de pobreza, mais de 500 000; crianças pobres e muito pobres, cerca de 50% da população escolar; abandono precoce da escolaridade, 36%; o salário mínimo nacional, por imposição do Governo, permanece em 475 euros/mês, sensivelmente o mesmo valor do limiar da pobreza.

São alarmantes dados estatísticos que se agravam constantemente. Após uma década de feroz capitalismo, Portugal está pobre e caminha a largos passos para a miséria. O pior vem aí mas já se anuncia: «Todo o poder ao patronato, toda a servidão do povo em benefício do grande capital». O preço astronómico dos crimes e dos erros de cálculo dos ricos terá de ser integralmente pago pelos pobres.

Só a nossa força mudará o nosso destino colectivo. A força de um povo e a sua capacidade de resistência à tirania.


Texto original no sitio do Jornal Avante ( Portugal ) http://www.avante.pt/pt/1933/argumentos/111686/

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