Leve um homem e um boi ao matadouro; aquele que berrar é o homem.Mesmo que seja o boi


O HOMEM E O BOI

Por Wladimir Safatle


Depois da crise econômica, a Europa agora conhece a crise social. Um após o outro, os países europeus caem.

Antigos modelos de desenvolvimento até então vendidos como exemplo de sucesso, como a Irlanda (o "tigre celta"), expõem a olhos nus o apodrecimento de seu sistema financeiro.


Outros, como Portugal, mostram claramente como não tinham nenhuma margem de manobra para se contrapor à "desconfiança do mercado".


Países como o Reino Unido anunciam a supressão de 400 mil empregos no serviço público e o fim efetivo da educação pública universitária( veja imagens do protesto dos estudantes Ingeleses em http://www.boston.com/bigpicture/2010/12/london_tuition_fee_protest.html ).


A França parte para a milésima reforma da sua previdência social.

Diante de tal situação de catástrofe que parece nunca terminar, todos os países europeus conhecem só uma resposta: "plano de austeridade". A escolha da palavra é uma pérola. Afinal, quem poderia ser contra a retidão moral da austeridade a não ser crianças mimadas, acostumadas ao desperdício e àquilo que um ministro britânico teve a coragem de chamar de "cultura da dependência", produzida, segundo ele, pelo Estado do bem-estar social?

Mas é engraçado ver como nos escondemos atrás das palavras. Se quiséssemos realmente respeitá-las, "austeridade" deveria significar ser austero e duro contra aqueles que produziram tal crise, ou seja, o sistema financeiro.

Significaria não instaurar um verdadeiro "capitalismo de espoliação", no interior do qual o sistema financeiro espolia o Estado chantageando-o com a ameaça da propagação de uma crise que, no fundo, já se propagou. Significaria não pegar dinheiro do povo para pagar "stock-options" de executivos especialistas em maquiar balanços. Melhor seria decretar moratória, controle estrito de capitais e, se necessário, quebra de contratos.

Mas os governos europeus preferem transformar a "austeridade" em uma cortina de fumaça que visa esconder o mais brutal processo de pauperização social e de desmantelamento de redes de assistência que o continente conheceu. Tudo isso embalado em uma xenofobia cínica, que tenta fazer acreditar que o problema está na fronteira, quando ele está no coração da City.Contra isso, vemos as populações europeias radicalizando sua insatisfação através de greves gerais e manifestações constantes.

Certamente, este é apenas o começo. A era das mobilizações volta paulatinamente.Porque logo os europeus aprenderão a beleza da poesia de Torquato Neto, o mesmo que escreveu: "Leve um homem e um boi ao matadouro; aquele que berrar é o homem.Mesmo que seja o boi".

O que faz do homem um homem é sua capacidade de gritar quando quem o governa lhe oferece a pura e simples imagem do matadouro.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Redesenhar o mapa da Federação Russa: Partição da Rússia após uma III Guerra Mundial?

DESENVOLVIMENTO DO HOMEM E DA SOCIEDADE - Da comunidade primitiva ao fim do feudalismo

O movimento operário e sindical