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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Papa João Paulo ll


O PAPA JOÃO PAULO ll


A DESCOBERTA TARDIA DA AMÉRICA E SUAS LACUNAS: SOBRE A
OBRA DE CARL BERNSTEIN E MARCO POLITI, SUA SANTIDADE. JOÃO
PAULO II E A HISTÓRIA ESCONDIDA DA NOSSA ÉPOCA, PLON, PARIS, 1996.

Para tentar beneficiar dos contributos da obra de Carl Bernstein e Marco Politi, convém abstrairmo-nos de um estilo hagiográfico ao ponto de obscurecer análises, além do mais, plausíveis. Os autores, para o fim da obra – portanto, sobre o período da «crise» profunda do ídolo, que revela a fragilidade da espetacular ofensiva clerical dos anos 1978-1990 –, recuperam o sangue-frio perdido nas centenas de páginas precedentes.
Tem-se, até então e demasiadas vezes, a impressão de ler uma crônica de santo nesta biografia de um papa com créditos firmados na sua contribuição para a «destruição do comunismo», e brutalmente – por que milagre? - passado do estado de clérigo místico ao de homem político integrado, justamente pelo 'menu', na estratégia e na táctica americanas na Europa e na América latina (e noutras partes?).

O método presta-se ao sorriso, no que respeita a Karol Wojtyla, personalidade fundamentalmente política, como o confirmam todos os dados discerníveis da sua carreira (o não-dito e o não - preciso abundam), do começo do sacerdócio ao pontificado. A obsessão antirrussa e antibolchevique deste polaco germanófilo – um caso de figura representativa da hierarquia da Igreja polaca – é aqui transfigurada em amor de Deus e da Virgem (de Fátima, muitas vezes, à qual Pacelli-Pio XII votava o mesmo culto). A colaboração quotidiana da Cúria e do seu chefe com os serviços secretos americanos enquadra-se mal com a alegada «natureza mística» do papa: a vaga de literatura de espionagem militar (donde emerge o coronel polaco Kuklisnki, grande informador dos americanos, p. 272 e sgs.), sobre o fundo de mísseis ou de projectos de aniquilação da Teologia da Libertação e do poderio soviético na Europa, e não só, convive mal com as preces, a venaração de Maria e os êxtases que teriam sido partilhados por Reagan, os seus colaboradores mais próximos – integristas católicos e, de há muito,responsáveis dos serviços secretos – e Wojtyla. Este revestimento lírico e devoto – enquanto as ligações do papa com o Opus Dei são reduzidas a uma nota (p. 334) – constrange acentuadamente a leitura, sem falar da tendência à confusão e à desordem, escolho que permitiu evitar um maior respeito pela cronologia.

Por outro lado, este livro ensina-nos muito menos do que pretende, tendo sido
precedido por trabalhos históricos sobre um grande número de questões. Se os autores pretendem revelar-nos «a história escondida da nossa época», eles afastaram quase totalmente a questão jugoslava, grande dossiê deste reinado, tratado na tradição germano-italiana antissérvia da Santa-Sé. O acento tónico colocado sobre as relações americano-vaticanas – com efeito, um dado fundamental da política vaticana do século – conduziu os autores a negligenciar as raízes alemãs desta grande aliança concluída no termo do primeiro conflito mundial, e não no lampejo entre um Reagan, grande cruzado contra «o Império do mal» no «cristianismo salvador» (p. 303), e um Wojtila comungante no amor da Virgem Maria.

Ao reunir as peças de um puzzle espalhadas por mais de 450 páginas, vê-se confirmado o retrato – efectuado pelos arquivos diplomáticos franceses – de Karol Wojtila e do universo clerical que o formou e enquadrou. Na base de uma biografia redigida por hagiógrafos, o futuro papa aparece de súbito como um polaco violentamente antirrusso – sólida tradição, bem anterior à era bolchevique – para ensaiar com o Reich simpatias que a circunspecção dos autores apenas aborda: germanófono, ele é apresentado como «hostil aos nazis» mas, sobretudo, como um dos clérigos mais hostis a toda a resistência ao ocupante (p. 43 e sgs., até à 59, p. 89, etc.); duvida-se do seu antinazismo ao saber-se que, face à barbárie alemã, que castigava até os salesianos da sua paróquia, consagrou os seus esforços, com sucesso, «a convencer a maior parte» dos seus amigos «do Rosário Vivo» - organização secreta sobre a qual gostaríamos de conhecer mais - «a não desenvolver a luta clandestina»: «orar era a única coisa a fazer» (p. 56-57), teria ele então sentenciado – serenidade que, seguramente, não regeu as suas relações tumultuosas com o mundo russo. Ele teria amado os judeus, neste país em que a Igreja conduzia a todo-poderosa coligação antissemita, sob o báculo do primaz Hlond (p. 32 e sg.), um dos protagonistas essenciais da organização pró-alemã –
tanto francófoba como russófoba – da política polaca anterior a 1939.


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