Pesquisa Mafarrico

Translate

domingo, 8 de março de 2015

Lenine e o movimento das mulheres

Lenine e o movimento das mulheres 1
Clara Zetkin - 1925

"– Por isso é inteiramente justo que façamos reivindicações a favor das mulheres. Não é um programa mínimo, nem um programa de reformas no espírito da social-democracia, no espírito da II Internacional. Não é admitirmos que acreditamos na eternidade ou sequer na existência prolongada da burguesia e do seu Estado. Também não é uma tentativa de apaziguar as massas de mulheres com reformas e desviá-las da via da luta revolucionária. Não há nada aqui em comum com os embustes reformistas. As nossas reivindicações são apenas uma decorrência prática das necessidades candentes e humilhações ignominiosas sofridas pela mulher, fraca e privada de direitos, no regime burguês. Demostramos com isto que conhecemos essas necessidades, que temos consciência da opressão da mulher e da situação privilegiada do homem, e que odiamos, sim, odiamos e queremos eliminar tudo o que oprime e atormenta a operária, a mulher do operário, a camponesa, a mulher do homem comum e até, em muitos aspectos, a mulher das classes abastadas. Com efeito, até as medidas sociais que exigimos da sociedade burguesa a favor da mulher são a demonstração de que compreendemos a situação e interesses das mulheres e que os levaremos em conta na ditadura do proletariado. Naturalmente que não o faremos por via de medidas anestesiantes tutelares. De modo nenhum. Agiremos como revolucionários que apelam às mulheres, de igual para igual, a trabalharem elas próprias na transformação da economia e da superstrutura ideológica."

O camarada Lenine falou comigo em várias ocasiões sobre a questão feminina. Via-se que atribuía uma importância muito grande ao movimento das mulheres, como parte integrante fundamental do movimento de massas, que, em determinadas condições, pode tornar-se decisiva. Como é óbvio, Lenine considerava a total igualdade social da mulher como um princípio absolutamente indiscutível para um comunista. 

A primeira conversa prolongada que tivemos sobre este tema decorreu no Outono de 1920, no grande gabinete de Lenine no Kremlin. 

Lenine estava sentado à sua secretária, coberta de papéis e livros, que testemunhava estudo e trabalho, mas não havia nenhuma «desordem dos gênios». 

– Sem dúvida que temos de criar um poderoso movimento feminino internacional, numa base teórica clara e definida – começou ele a nossa conversa, depois nos cumprimentarmos. Sem teoria marxista não pode haver uma boa prática, isto é claro. Nós, comunistas, precisamos de ter também nesta questão a maior pureza de princípios. Devemos demarcar-nos nitidamente de todos os outros partidos. É verdade que o nosso II Congresso Internacional, infelizmente, não conseguiu discutir a questão feminina. Colocou a questão, mas não teve tempo de tomar uma posição definida. O assunto ficou entregue a uma comissão, que deve elaborar uma resolução, teses e uma linha firme. Mas até agora pouco avançou nos seus trabalhos. Você deve ajudá-la nisto. 

Já tinha ouvido a outros aquilo que Lenine agora me comunicava, e exprimi a minha surpresa a esse respeito. Estava cheia de entusiasmo por tudo o que as mulheres russas tinham realizado durante a revolução e por tudo o que faziam agora para a defender e continuar a desenvolver. No que respeita à situação e actividade das camaradas mulheres no partido dos bolcheviques, parecia-me que o partido era neste aspecto verdadeiramente exemplar. Sozinho fornecia ao movimento comunista internacional das mulheres valiosos quadros formados e experimentados, dando simultaneamente um grande exemplo histórico.

– Isso é verdade. Isso é muito bom – observou Lenine com um ligeiro sorriso. – Em Petrogrado, aqui em Moscovo, nas cidades e nos centros industriais situados nos locais mais remotos, as proletárias tiveram um comportamento notável durante a Revolução. Sem elas não teríamos vencido. Ou dificilmente teríamos vencido. É a minha opinião. Que coragem revelaram, como continuam a ser corajosas agora! Imagine os sofrimentos e as privações por que passam. E mantêm-se firmes, mantêm-se firmes porque querem defender os sovietes, porque querem a liberdade e o comunismo. Sim, as nossas operárias são admiráveis, são combatentes de classe. Merecem admiração e carinho. Aliás, deve-se reconhecer que mesmo as senhoras do Partido Democrata Constitucional revelaram mais coragem do que os junkers, durante os combates contra nós em Petrogrado. 

– É verdade que temos no nosso partido mulheres comunistas fiéis, inteligentes e infatigáveis. Poderiam ocupar postos de responsabilidade nos sovietes, nos comités executivos, nos comissariados do povo, nas instituições. Muitas delas trabalham dia e noite no partido, junto das massas proletárias e camponesas, ou no Exército Vermelho. Isto é para nós muito valioso. E também é importante para as mulheres do mundo inteiro, testemunhando a capacidade das mulheres, o alto valor do seu trabalho para a sociedade. A primeira ditadura proletária abre realmente caminho para a completa igualdade de direitos sociais das mulheres e erradica mais preconceitos do que pilhas de livros sobre a igualdade da mulher. No entanto, apesar disto tudo, não temos ainda um movimento comunista internacional das mulheres e temos de conseguir criá-lo custe o que custar. Devemos começar imediatamente a criá-lo. Sem esse movimento o trabalho da nossa internacional e dos seus partidos será sempre incompleto. Ora o nosso trabalho revolucionário deve ser realizado integralmente. Diga-me em que situação está o trabalho comunista no estrangeiro. 

Comecei a contar tudo o que podia saber a partir das ligações fracas e irregulares entre partidos que tinham aderido ao Komintern. Lenine escutava atentamente, inclinando-se ligeiramente para a frente, sem sinais de aborrecimento, impaciência ou cansaço, seguindo com grande interesse mesmo pormenores secundários. Nunca conheci ninguém que soubesse ouvir tão bem como ele, ordenar rapidamente tudo aquilo, estabelecendo uma relação geral. Isso notava-se nas perguntas, curtas e sempre muito incisivas, que introduzia por vezes na minha exposição, e quando retomava este ou aquele pormenor da conversa. Lenine também tomou algumas breves notas.

Como é evidente, falei mais em detalhe da situação na Alemanha. Contei-lhe que Rosa 2 atribuía uma grande importância ao envolvimento das mais amplas massas de mulheres na luta revolucionária. Desde a fundação do Partido Comunista que Rosa insistia na publicação de um jornal dedicado ao movimento das mulheres. Leo Jogisches,3 no nosso último encontro, 36 horas antes do seu assassínio, discutiu comigo o plano de trabalho do partido e encarregou-me de diversas tarefas, nomeadamente da elaboração de um plano de trabalho junto das mulheres operárias. Logo na sua primeira conferência clandestina, o partido discutiu esta questão. As mulheres que se tinham tornado antes e durante a guerra propagandistas e dirigentes instruídas e experientes tinham permanecido quase sem excepção nos partidos sociais-democratas das duas tendências e mantinham sob a sua influência as massas agitadas das operárias. No entanto, também entre as mulheres, já se tinha formado um pequeno núcleo de camaradas enérgicas e abnegadas que participavam em todo o trabalho e luta do nosso partido. O próprio partido tinha organizado uma actividade regular junto das operárias. Claro que tudo isto era só o começo, mas, em todo o caso, um bom começo. 

– Nada mal, mesmo nada mal – disse Lenine. – A energia, a abnegação e o entusiasmo das comunistas, a sua coragem e inteligência no período da acção clandestina ou semi clandestina abrem boas perspectivas para o desenvolvimento do trabalho. Para o crescimento do partido e o aumento da sua força, a ligação às massas, a organização de acções são momentos valiosos. Mas qual é a situação a respeito desta questão, da compreensão clara dos seus princípios e da formação das camaradas? É que isto tem uma importância decisiva no trabalho de massas. Não me consigo lembrar de momento quem disse que «para se fazerem grandes coisas, é preciso entusiasmo». Nós e os trabalhadores do mundo inteiro temos ainda pela frente grandes coisas para realizar. Pois bem, o que é que anima as vossas camaradas, as mulheres proletárias da Alemanha? Qual é o nível da sua consciência proletária de classe? Os seus interesses e a sua acção convergem com as reivindicações políticas do momento? Em que se concentram os seus pensamentos? 

Ouvi dizer a camaradas russos e alemães coisas estranhas a este respeito, que tenho de lhe contar. Disseram-me que uma talentosa comunista edita em Hamburgo um jornal para prostitutas e procura organizá-las para a luta revolucionária. Rosa, como comunista, agiu e teve sentimentos humanos quando, num dos seus  artigos, interveio em defesa de uma prostituta que tinha sido presa por infracção de normas policiais, relacionadas com a sua triste profissão. Estas mulheres, duplamente vítimas da sociedade burguesa, são dignas de compaixão. Em primeiro lugar são vítimas do maldito sistema de propriedade, depois ainda da maldita hipocrisia moral. Isto é claro. Só uma pessoa rude e de vistas curtas pode esquecê-lo. Mas uma coisa é compreender isto, outra complemente diferente é, por assim dizer, organizar prostitutas num destacamento de combate revolucionário especial e editar um órgão profissional para elas. Será que na Alemanha já não há operárias industriais que é preciso organizar, para as quais deve existir um jornal e que é necessário conquistar para a vossa luta? O que temos aqui é um desvio doentio. A mim isto lembra-me a moda literária que conferia a qualquer prostituta a imagem de uma doce madona. É certo que também aqui a raiz era sã: a compaixão social, a indignação contra a hipocrisia moral da honorável burguesia. Mas este princípio são foi sujeito à corrosão burguesa e degenerou. De resto, a prostituição também ainda nos coloca perante problemas muito difíceis. Fazer regressar as prostitutas ao trabalho produtivo, encontrar-lhes um lugar na economia social, eis ao que se resume a tarefa. Mas no estado actual da nossa economia e no conjunto das condições existentes, isto é difícil e complicado de fazer. Este é um aspecto da questão feminina que, após a tomada do poder de Estado pelo proletariado, nos está colocado em toda a sua amplitude e requer solução. Ainda nos causará muitos problemas na Rússia soviética. Mas voltemos ao caso particular da Alemanha. Em caso algum o partido deverá assistir tranquilamente a tais actos inopinados dos seus membros. Isso cria confusão e dispersa forças. E você, o que fez para impedir isso?

Antes que pudesse responder, Lenine continuou: 

– Clara, a lista dos vossos pecados ainda não terminou. Disseram-me que durante as sessões de leitura e discussão com as operárias tratam sobretudo de questões sexuais e matrimoniais. Parece que este é o objecto principal do ensino político e do trabalho cultural. Nem acreditei no que estava a ouvir. O primeiro Estado da ditadura do proletariado combate os contra-revolucionários do mundo inteiro. A situação na própria Alemanha exige a maior unidade de todas as forças proletárias revolucionárias para fazer frente à pressão cada vez maior da contra-revolução. E num momento destes, as militantes comunistas tratam de problemas sexuais e das formas de matrimônio no presente, passado e futuro! Consideram que o seu dever mais importante é educar as operárias neste domínio. Diz-se que a brochura mais lida é a de uma comunista de Viena sobre a questão sexual. Esse livrinho não passa de uma bagatela! O que tem de justo, há muito que os operários conhecem de Bebel.4 Não na forma enfadonha, torpe e esquemática da brochura, mas sim no estilo vivo da agitação política, repleto de invectivas contra a sociedade burguesa. A referência às hipóteses de Freud dá à brochura uma aparência «científica», mas tudo isto não passa de uma borradura diletante. Hoje, a teoria de Freud também é uma espécie de capricho que está na moda. Desconfio das teorias sexuais expostas em artigos, relatórios, brochuras, etc., em suma, nessa literatura específica que tem florescido pomposamente no esterco da sociedade burguesa. Desconfio daqueles que estão constante e obstinadamente absorvidos pelas questões sexuais, como um faquir hindu a contemplar o seu umbigo. Parece-me que esta profusão de teorias sobre a sexualidade, que na sua grande parte não passam de hipóteses, com frequência arbitrárias, decorre de necessidades pessoais. Nomeadamente da ânsia de justificar perante a moral burguesa a sua própria vida sexual anômala ou desmedida e implorar indulgência para si. Este respeito disfarçado pela moral burguesa repugna-me tanto como escavação apaixonada dos problemas sexuais. Por mais rebelde e revolucionária que esta ocupação procure mostrar-se, ela é, ao fim e ao cabo, inteiramente burguesa. É uma ocupação particularmente predilecta dos intelectuais e das camadas que lhes estão próximas. No partido, no seio do proletariado que luta com consciência de classe, não há lugar para ela.

Observei neste momento que as questões da sexualidade e do matrimônio, sob o domínio da propriedade privada e do regime burguês, reflectem o amadurecimento de uma multiplicidade de problemas, conflitos e sofrimentos das mulheres de todas as classes e camadas sociais. A guerra e as suas consequências agudizaram extraordinariamente os conflitos e sofrimentos das mulheres anteriormente existentes precisamente no campo das relações entre os sexos. Estes problemas, que antes as mulheres não viam, vêm agora ao de cima. Isto junta-se ao ambiente da revolução que começou. O mundo dos antigos sentimentos e ideias desmorona-se. As relações sociais anteriores enfraquecem e rompem-se. Germinam novas premissas ideológicas, que ainda não têm uma forma definida, para novas relações entre as pessoas. O interesse que estas questões suscitam explica-se pela necessidade de clarificação da situação, pela necessidade de uma orientação nova. Nisto também se faz sentir uma reacção contra as perversões e os embustes da sociedade burguesa. A mudança das formas de matrimônio e da família ao longo da história, em função da economia, é um meio adequado para extirpar do espírito das operárias o preconceito sobre a eternidade da sociedade burguesa. Da análise histórica crítica deve passar-se à dissecação sem reservas do regime burguês, expondo a sua essência e repercussões, incluindo a estigmatização hipócrita da moral sexual. Todos os caminhos vão dar a Roma. Qualquer análise marxista relativa a uma parte importante da superstrutura da sociedade, relativa a um fenômeno social relevante deve conduzir à análise do regime burguês e da sua base – a propriedade privada; e toda a análise deste tipo deve levar à conclusão de que «Cartago deve ser destruída».5 

Lenine, sorrindo, assentia com a cabeça. 

– Ora essa! Você defende como um advogado os seus camaradas e o seu partido! Claro que o que diz é justo. Mas no que toca ao erro cometido na Alemanha, isso poderá quanto muito servir de desculpa, mas não de justificação. O erro feito continua a ser um erro. Pode garantir-me seriamente que, durante as leituras e discussões, as questões da sexualidade e do matrimônio são abordadas do ponto de vista consistente e vivo do materialismo histórico? É que isso pressupõe um conhecimento profundo e diversificado, um domínio rigoroso, marxista, de um enorme conjunto de materiais. Terão forças para isso? Se as tivessem, então a brochura de que falamos nunca poderia ter servido de manual nas sessões de leitura e discussão. Em vez de ser criticada, essa brochura é recomendada e divulgada. A que leva, no fim de contas, esse debate superficial, não-marxista, da questão? Leva a que as questões da sexualidade e do matrimônio não sejam encaradas como parte da principal questão social. Pelo contrário, é esta grande questão social que aparece como parte, como um apêndice da questão da sexualidade. O mais importante é relegado para segundo plano, como uma coisa secundária. Isto não só torna esta questão menos clara como obscurece em geral o pensamento, obscurece consciência de classe das operárias.

Além disso, há ainda outra observação que não é supérflua. Já o sábio Salomão dizia que há um tempo para cada coisa. Diga-me, por favor, acaso é agora tempo para entreter as operárias durante meses inteiros sobre a maneira de amar e de ser amada, de cortejarem e serem cortejadas. E claro, tudo isto no passado, presente e futuro, e nos diferentes povos. E depois chamam a isto orgulhosamente materialismo histórico. Neste momento todos os pensamentos das operárias devem ser orientados para a revolução proletária. É ela que criará a base também para a renovação efectiva das condições de casamento e das relações entre gêneros. Mas agora, realmente, os problemas que estão em primeiro plano não são as formas de matrimônio dos aborígenes australianos ou os casamentos consanguíneos da antiguidade. Na ordem do dia do proletariado alemão, a história coloca como antes a questão dos sovietes, da paz de Versalhes e da sua influência na vida das massas femininas, do desemprego, da queda dos salários, dos impostos e de muitas outras coisas. Em suma, mantenho a opinião de que esse método de educação política e social das operárias não é de forma alguma é correcto. Como pôde ficar calada? Devia interpor a sua autoridade contra isto.  

Expliquei ao meu caloroso amigo que não tinha perdido a ocasião de criticar, de manifestar objecções às camaradas dirigentes e de intervir em certos lugares. Mas ele sabia que ninguém é profeta na sua terra e entre os seus parentes. As críticas que fizera tinham levantado a suspeita de que ainda conservava «fortes sobrevivências da posição social-democrata e da pequena burguesia antiquada». Todavia, no final, verificou-se que a crítica não fora em vão. As questões da sexualidade e do matrimónio deixaram de estar em primeiro plano nos círculos e sessões de discussão.  

Lenine continuou a desenvolver o seu raciocínio. 

– Eu sei, eu sei – disse ele – também sou suspeito de farisaísmo a este respeito. Mas isso não me perturba. Os pintainhos de bico amarelo acabados de sair do ovo das concepções burguesas são sempre espantosamente inteligentes. Temos que nos resignar com isso, mas sem nos emendarmos. O movimento juvenil também é adepto da formulação moderna das questões do sexo e dá-lhes uma atenção excessiva.  

Lenine acentuara com ironia a palavra «moderna», como se quisesse demarcar-se dela. 

– Segundo me disseram, os problemas da sexualidade são também o assunto de estudo preferido nas vossas organizações de juventude. Dizem que os conferencistas sobre este tema não têm mãos a medir. É um escândalo particularmente nocivo e perigoso para o movimento juvenil. Pode contribuir muito facilmente para excitar e inflamar desmesuradamente a vida sexual de alguns indivíduos e conduzir a um desperdício da saúde e forças da juventude. Deveis também lutar contra este fenômeno. Como se vê, os movimentos feminino e juvenil têm bastantes pontos em comum. As nossas camaradas comunistas devem realizar por toda a parte um trabalho sistemático conjunto com a juventude. Isto eleva-as e transfere-as do mundo da maternidade individual para o mundo da maternidade social. É necessário encorajar todo o despertar de vida e actividade social das mulheres, para que possam ultrapassar a estreiteza da sua psicologia pequeno-burguesa, individualista, doméstica e familiar. Isto entre outras coisas.

Também no nosso país uma grande parte dos jovens se dedica aplicadamente à «revisão da concepção e moral burguesas» nas questões da sexualidade. E devo acrescentar que se trata de uma parte importante dos nossos melhores jovens, verdadeiramente prometedores. As coisas são como acabou de dizer. No ambiente do rescaldo da guerra e do começo da revolução, os velhos valores ideológicos desmoronam-se, perdendo a sua força moderadora. Os novos valores cristalizam-se lentamente, através da luta. A visão sobre as relações entre pessoas, sobre as relações entre o homem e a mulher revoluciona-se, assim como os sentimentos e as ideias. Estabelecem-se novos limites entre os direitos do indivíduo e os direitos do colectivo, e portanto também aos deveres de cada indivíduo. É um processo lento e com frequência muito doloroso de extinção e nascimento. Tudo isto afecta o domínio das relações sexuais, como do matrimônio e da família. A decadência, putrefacção e imundice do casamento burguês, que dificulta o divórcio, confere liberdade ao marido e escravidão à mulher, a infame falsidade da moral sexual e relações entre os sexos provocam um sentimento de aversão nas pessoas mais bem formadas.

O jugo das leis do Estado burguês sobre o casamento e a família agrava o mal e agudiza os conflitos. É o jugo da «sacrossanta propriedade privada» que santifica a venalidade, a baixeza, o opróbrio. A ilusão da «virtuosa» sociedade burguesa faz o resto. As pessoas levantam-se contra o domínio da vileza e perversidade. E nesta época, em que se desmoronam os Estados mais poderosos, quando se rompem as velhas relações de dominação e começa a afundar-se todo um mundo social, os modos de sentir das pessoas mudam rapidamente. A sede espicaçada de diversidade de prazeres adquire facilmente uma força irresistível. As formas de matrimônio e de relacionamento entre os sexos no sentido burguês já não são satisfatórias. No domínio do matrimônio e das relações entre os gêneros aproxima-se uma revolução consonante com a revolução proletária. Compreende-se que o entrelaçamento extraordinariamente intrincado destes problemas absorva profundamente tanto as mulheres como os homens. Aquelas e estes sofrem com particular intensidade em consequência da actual confusão no domínio das relações sexuais. A juventude rebela-se contra isto, com a impetuosidade própria da idade. Compreende-se. Não poderia haver nada de mais falso do que começar a pregar à juventude o ascetismo monacal e a santidade sórdida da moral burguesa. Contudo, não seria certamente bom que os problemas sexuais, que se levantam com insistência por causas naturais, dominem a psique dos jovens. As consequências podem ser fatais.

A mudança da atitude dos jovens para com as questões da vida sexual é, sem dúvida, uma mudança de «princípio» e apoia-se alegadamente na teoria. Muitos qualificam a sua posição de «revolucionária» e de «comunista». E acreditam sinceramente que o é. A mim, que já estou velho, isto não me impressiona. Apesar de não ser de todo um asceta lúgubre, a chamada «nova vida sexual» dos jovens e por vezes também dos adultos, com bastante frequência, parece-me pura e simplesmente burguesa, assemelha-se a uma variante do velho bordel burguês. Nada disto tem a vez com o amor livre, tal como nós, comunistas, o entendemos. Você conhece decerto a famosa teoria segundo a qual, na sociedade comunista, seria tão fácil satisfazer o desejo sexual e a necessidade de amor como beber um copo de água. Pois  a nossa juventude deixou-se levar por esta teoria do «copo de água». Esta teoria tornou-se um mal fatal para muitos rapazes e raparigas. Os seus adeptos afirmam que é uma teoria marxista. Poupem-nos de um «marxismo» que infere todos os fenômenos e mudanças na superstrutura ideológica da sociedade directa, linear e totalmente apenas da base econômica. As coisas não são assim tão simples. Há muito que um certo Friedrich Engels estabeleceu esta verdade no que respeita ao materialismo histórico.

Considero que a famosa teoria do «copo de água» não tem absolutamente nada de marxista e é, além disso, anti-social. Na vida sexual manifesta-se não só o que é dado pela natureza, mas também o que a cultura nos trouxe, seja de elevado ou de baixo. Em A Origem da Família, Engels referiu a importância disto para o desenvolvimento e refinação da vida sexual. As relações entre sexos não são apenas um jogo entre a economia social e a necessidade física. Não seria marxismo, mas sim racionalismo, pretender reduzir estas alterações em si mesmas directamente à base econômica da sociedade, isoladas das suas ligações à ideologia no seu conjunto. Certamente que a sede exige ser saciada. Mas será que uma pessoa normal, em condições normais, irá deitar-se na rua, no meio da lama, para beber de um charco? Ou mesmo de um copo, cujos bordos tenham as marcas de dezenas de lábios? Porém, mais importante que tudo é o lado social. Beber água é realmente um acto individual. Mas no amor intervêm dois seres pessoas, e surge um terceiro, uma nova vida. Isto envolve o interesse social, e faz surgir um dever em relação ao colectivo.

Como comunista, não alimento a menor simpatia pela teoria do «copo de água», mesmo que exiba a etiqueta do «amor livre». Ademais, ela não é nova nem comunista. Talvez se lembre que esta teoria era professada na literatura de ficção por volta de meados do século passado como «emancipação do coração». Na prática burguesa converteu-se em emancipação do corpo. Nesse tempo, a propaganda fazia-se com mais talento; quanto à prática não posso julgar.

Com esta crítica não pretendo professar o ascetismo. Nem sequer me passa pela cabeça. O comunismo deve trazer não o ascetismo, mas a alegria de viver e vigor, proporcionados também por uma vida amorosa plena. Todavia, em minha opinião, uma vida sexual excessiva, que hoje observamos com frequência, não proporcionam essa alegria de viver e vigor, mas, pelo contrário, diminuem-nos. Ora, durante uma revolução, isso é mau, muito mau.

A juventude em particular precisa de alegria de viver e vigor. Desportos saudá- veis como a ginástica, natação, caminhadas, exercícios físicos de toda a espécie, diversidade de interesses intelectuais, o estudo, a análise, a investigação, tudo isto em conjunto tanto quanto possível! Isto dá à juventude mais do que os eternos discursos e discussões sobre as questões da sexualidade e o chamado «aproveitamento da vida». Mente sã em corpo são! Nem monges, nem Don Juan, nem tão pouco o farisaísmo alemão como ponto intermédio. Você conhece o jovem camarada X. Um excelente rapaz e muito talentoso! Pois, apesar de tudo, temo que dali não sairá nada de bom. Salta de um caso de amor para outro. Isso não serve nem a luta política nem a revolução. Também não me fio na fidelidade e firmeza na luta das mulheres cujos romances pessoais se entrelaçam com a política, nem nos homens que correm atrás de qualquer saia e se deixam enroscar com qualquer moça nova. Não, não, isso não condiz com a revolução.

Lenine levantou-se de um salto, batendo com a mão na mesa, e deu alguns passos pela sala.

– A revolução exige das massas e do indivíduo concentração, tensão de forças. Ela não tolera estados orgíacos, próprios das personagens decadentes de D’Annunzio.6 A vida sexual desregrada é um fenômeno burguês, um sinal de decadência. O proletariado é uma classe ascendente. Não necessita de uma embriaguez que o atordoe ou excite. Não necessita da embriaguez da luxúria nem do álcool. Não ousa nem quer esquecer a ignomínia, a sordidez e a barbárie do capitalismo. Ele encontra o mais forte impulso para a luta na situação da sua classe, no ideal comunista. O proletariado precisa de lucidez, lucidez e sempre lucidez. Por isso, repito, não deve haver fraqueza, dispersão e perda de forças. O autodomínio e a disciplina não são escravidão; são necessárias também no amor. Mas perdoe-me, Clara, afastei-me muito do ponto inicial da nossa conversa. Porque não me chamou à ordem? É a preocupação que me faz falar tanto. O futuro da nossa juventude preocupa-me muito. Ela é parte da revolução. E se os fenômenos nocivos da sociedade burguesa começam a alastrar ao mundo da revolução como as raízes de certas ervas daninhas, então é melhor manifestarmo-nos contra isso desde já. As questões que abordamos também estão ligadas ao problema feminino.

Lenine falava de uma maneira muito viva e persuasiva. Eu sentia que cada uma das suas palavras lhe vinha do fundo da alma; a sua expressão facial confirmava-o. Por vezes sublinhava o seu pensamento com um gesto enérgico. Surpreendia-me que Lenine, a par das questões políticas mais importantes, prestasse tanta atenção a fenômenos isolados e os analisasse. E não só na Rússia Soviética, mas também nos Estados capitalistas. Como notável marxista considerava os casos particulares, quaisquer que fossem as suas manifestações, na sua relação com o conjunto, analisando o papel que nele desempenhavam. A sua vontade e o objectivo da sua vida estavam orientados inteira e firmemente, como uma força imparável da natureza, para uma só coisa: acelerar a revolução como obra das massas. Avaliava todas as coisas em função da influência que pudessem ter sobre as forças revolucionárias conscientes, tanto nacionais como internacionais, uma vez que, levando em conta as particularidades históricas de cada país e as diferentes etapas do seu desenvolvimento, nunca perdia de vista a revolução proletária mundial, una e indivisível.

– Camarada Lenine – exclamei – que pena as suas palavras não poderem ser ouvidas por centenas, por milhares de pessoas. Sabe bem que não precisa de me persuadir. Mas seria muito importante que a sua opinião fosse ouvida por amigos e inimigos!

 Lenine sorriu com bonomia.

– Talvez um dia destes faça um discurso ou escreva sobre estas questões. Mais tarde, agora não. Agora temos de concentrar todo o tempo e forças noutras coisas. Há preocupações mais importantes e pesadas. A luta pela defesa e consolidação do poder soviético está longe de ter terminada. Temos de nos empenhar em conseguir o melhor desfecho da guerra com a Polônia. Wrangel 7 ainda está no Sul. É certo que  tenho a firme convicção de que daremos conta dele. Isso obrigará os imperialistas ingleses e franceses e os seus pequenos vassalos a meditar. Mas a parte mais difícil da nossa tarefa ainda está pela frente: a reconstrução. No decorrer da sua realização, os problemas das relações entre os gêneros, as questões do matrimônio e da família ganharão importância. Mas por enquanto é preciso combater onde e quando for necessário. Não se pode permitir que estas questões sejam tratadas de forma não marxista e que deem lugar a desvios e deformações desorganizadoras. Eis que finalmente chego ao seu trabalho.

Lenine consultou o relógio.

– Já passou metade do tempo de que dispunha. Fartei-me de falar. É preciso que escreva as teses orientadoras sobre o trabalho comunista junto das mulheres. Conheço os seus pontos de vista fundamentais e a sua experiência prática. Por isso a nossa conversa sobre o assunto será curta. Pois bem, qual é a sua ideia sobre essas teses?

Resumidamente apresentei-lhe as minhas ideias. Lenine assentiu várias vezes com a cabeça, sem me interromper. Quando terminei, olhei-o interrogativamente.

– Correcto. Seria também bom se fizesse um relatório sobre isso na reunião de funcionários responsáveis do partido. Lamento, lamento muito que a camarada Inessa 8 não esteja cá. Está doente e foi para o Cáucaso. Depois do debate redija as teses. A comissão examiná-las-á e o Comité Executivo tomará a decisão final. Só intervirei sobre alguns pontos importantes, sobre os quais partilho inteiramente a sua posição. Parecem-me importantes também para o nosso trabalho quotidiano de agitação e propaganda, já que pretendemos organizar intervenções com êxito e combates vitoriosos.

As teses devem deixar bem sublinhado que a verdadeira libertação da mulher só é possível com o comunismo. É preciso analisar a fundo a questão da ligação indissociável entre a situação da mulher, enquanto ser humano e enquanto membro da sociedade, e a propriedade privada dos meios de produção. Deste modo demarcamo-nos com segurança do movimento burguês pela «emancipação da mulher». Isso também nos dá fundamento para examinar a questão feminina como parte da questão social, operária, e desse modo, permite-nos ligá-la solidamente à luta de classe do proletariado e à revolução. O movimento comunista feminino deve ser de massas, deve ser parte do movimento geral das massas, e não só do movimento dos proletários, mas de todas os explorados e oprimidos, de todas as vítimas do capitalismo. É nisto que consiste a importância do movimento feminino para a luta de classe do proletariado e para a sua missão histórica criadora: a criação da sociedade comunista. Podemos orgulhar-nos com razão de termos a fina flor das mulheres revolucionárias no nosso partido, no Komintern. Mas esse facto não tem por si só uma importância decisiva. Temos de chamar milhões de mulheres trabalhadoras  da cidade e do campo a participar na nossa luta, em particular na causa da reconstrução comunista da sociedade. Sem as mulheres não pode haver um verdadeiro movimento de massas.

Da nossa concepção ideológica decorrem também as medidas de organização. Nada de organizações separadas de mulheres comunistas! Uma comunista é um membro do partido com os mesmos deveres e direitos que os seus camaradas masculinos. Nisto não pode haver quaisquer divergências. No entanto, não podemos fechar os olhos perante os factos. O partido deve ter órgãos, grupos de trabalho, comissões, comités, secções, ou como lhe queiram chamar, cuja tarefa específica consistirá em despertar as amplas massas de mulheres, ligá-las ao partido e mantê-las sob a sua influência. Para isso, naturalmente, é necessário que desenvolvamos um trabalho verdadeiramente sistemático junto destas massas de mulheres. Devemos educar as mulheres que saíram da passividade, recrutá-las e armá-las para a luta proletária de classe sob a direcção do Partido Comunista. Penso não só nas proletárias que trabalham nas fábricas ou se ocupam do trabalho doméstico, mas também nas camponesas, nas mulheres das diversas camadas da pequena burguesia. Todas elas são também vítimas do capitalismo, e desde a guerra são-no mais que nunca. A mentalidade atrasada, apolítica, a-social dessas mulheres, a estreiteza do seu campo de actividade, todo o seu modo de vida – estes são os factos. Seria absurdo, totalmente absurdo não termos isto em atenção. Precisamos de ter os nossos organismos para o trabalho junto das mulheres, métodos de agitação e formas de organização específicos. Não se trata da defesa burguesa dos «direitos das mulheres», mas de uma racionalidade prática revolucionária.

Disse a Lenine que os seus argumentos eram para mim um apoio precioso. Muitos camaradas, bons camaradas, tinham-se oposto resolutamente a que o partido criasse organismos específicos para o trabalho regular junto das amplas massas de mulheres. Declararam que isso era o regresso às tradições sociais-democratas e à famigerada «emancipação da mulher». Alegaram que os partidos comunistas, uma vez que reconhecem, por princípio, inteiramente a igualdade de direitos das mulheres, devem realizar o seu trabalho junto das massas trabalhadoras sem quaisquer distinções. A atitude para com as mulheres deve ser a mesma que para com os homens. Todas as tentativas de ter em conta na agitação ou organização as circunstâncias assinaladas por Lenine eram rotuladas pelos defensores da opinião contrária como oportunismo, traição e abandono dos princípios.

– Isso não é novo e não prova nada – replicou Lenine. – Não se deixe induzir em erro. Porque é que em parte alguma, nem mesmo na Rússia Soviética, o partido não tem tantas mulheres como homens? Porque é que o número de operárias sindicalizadas é tão reduzido? Estes factos dão que pensar. A negação da necessidade de organismos específicos para o nosso trabalho junto das amplas massas de mulheres é uma das manifestações da posição de princípio extremamente radical dos nossos «queridos amigos» do Partido Comunista Operário.9 Segundo eles deve existir uma única forma de organização: a união operária. Sei isso. As cabeças revolucionárias, mas confusas, invocam os princípios «justamente quando o conceito falha»,10 ou seja, quando a razão se recusa a analisar os factos reais que devem ser tidos em conta. Como é que esses guardiões da «pureza de princípios» fariam frente às necessidades que a história nos impôs na nossa política revolucionária? Todos esses raciocínios se desfazem em pó perante uma necessidade implacável: nós não podemos realizar a ditadura do proletariado sem os milhões de mulheres, sem elas não podemos levar a cabo a edificação comunista. Temos de encontrar o caminho até elas, e para o encontrarmos temos muito que estudar e muito que experimentar.

– Por isso é inteiramente justo que façamos reivindicações a favor das mulheres. Não é um programa mínimo, nem um programa de reformas no espírito da social-democracia, no espírito da II Internacional. Não é admitirmos que acreditamos na eternidade ou sequer na existência prolongada da burguesia e do seu Estado. Também não é uma tentativa de apaziguar as massas de mulheres com reformas e desviá-las da via da luta revolucionária. Não há nada aqui em comum com os embustes reformistas. As nossas reivindicações são apenas uma decorrência prática das necessidades candentes e humilhações ignominiosas sofridas pela mulher, fraca e privada de direitos, no regime burguês. Demostramos com isto que conhecemos essas necessidades, que temos consciência da opressão da mulher e da situação privilegiada do homem, e que odiamos, sim, odiamos e queremos eliminar tudo o que oprime e atormenta a operária, a mulher do operário, a camponesa, a mulher do homem comum e até, em muitos aspectos, a mulher das classes abastadas. Com efeito, até as medidas sociais que exigimos da sociedade burguesa a favor da mulher são a demonstração de que compreendemos a situação e interesses das mulheres e que os levaremos em conta na ditadura do proletariado. Naturalmente que não o faremos por via de medidas anestesiantes tutelares. De modo nenhum. Agiremos como revolucionários que apelam às mulheres, de igual para igual, a trabalharem elas próprias na transformação da economia e da superstrutura ideológica.

Assegurei a Lenine que partilhava o seu ponto de vista, mas que enfrentaria indubitavelmente muita resistência. As mentes hesitantes e temerosas iriam rejeitá-lo como um «oportunismo perigoso». E não se podia negar que também as nossas reivindicações actuais a favor das mulheres podiam ser mal compreendidas e interpretadas.

– Qual quê! – exclamou Lenine com um pouco de irritação. – Há esse perigo em tudo o que dizemos e fazemos. Se perante o medo de não sermos compreendidos nos abstemos de empreender acções sensatas e necessárias, então podemos transformar-nos em ascetas hindus.11 Não nos movamos, acima de tudo não nos movamos, porque senão podemos tombar do alto do pilar dos nossos princípios! No nosso caso trata-se não só do que exigimos, mas também da maneira como o fazemos. Creio que sublinhei isto com bastante clareza. É óbvio que na nossa propaganda não devemos desfiar o rosário das nossas reivindicações para as mulheres. Não. Em função das condições existentes devemos lutar ora por umas, ora por outras reivindicações, e sempre, evidentemente, em ligação com os interesses comuns do proletariado.

Naturalmente que cada escaramuça nos coloca em contradição com a honorável clique burguesa e com os seus não menos honoráveis lacaios reformistas. Isto obrigará os últimos a ou lutar juntamente connosco, sob a nossa direcção, o que não querem, ou a tirar a máscara. Deste modo, a luta demarcar-nos-á com nitidez e fará ressaltar a nossa face comunista. Suscitará a confiança em nós das amplas massas de mulheres, que se sentem exploradas, escravizadas, esmagadas pelo domínio dos homens, pelo poder do patrão e por toda a sociedade burguesa no seu conjunto. Traídas e abandonadas as mulheres trabalhadoras começam a compreender que devem lutar connosco. Precisaremos de nos certificar uns aos outros de que a luta pelos direitos das mulheres deve estar ligada ao objectivo fundamental: à conquista do poder e à instauração da ditadura do proletariado? Isto é no presente e continuará a ser o nosso alfa e ômega. É claro, perfeitamente claro. Porém, as mais amplas massas populares de mulheres trabalhadoras não sentirão o desejo irresistível de partilhar connosco a luta pelo poder, se fizéssemos soar apenas esta reivindicação, ainda que o fizéssemos com as trombetas de Jericó.12 Não, não. Devemos ligar politicamente o nosso apelo, e também na consciência das mulheres, com os sofrimentos, necessidades e desejos das mulheres trabalhadoras. Elas devem saber que a ditadura do proletariado significa a total igualdade de direitos em relação aos homens, tanto juridicamente como na prática, na família, no Estado, na sociedade, bem como a destruição do poder da burguesia.

A Rússia Soviética – exclamei – demonstra-o e servir-nos-á de grande exemplo. Lenine prosseguiu.

– A Rússia Soviética lança uma nova luz sobre as nossas reivindicações a favor das mulheres. Sob a ditadura do proletariado, elas já não são objecto de luta entre o proletariado e a burguesia, mas são elementos da edificação da sociedade comunista. Isto mostra às mulheres dos outros países a importância da tomada do poder pelo proletariado. As diferenças entre a sua situação cá e lá devem ser claramente estabelecidas para que as massas de mulheres vos sigam na luta revolucionária de classe do proletariado. A sua mobilização, realizada na base firme da organização, com a compreensão clara dos princípios, é uma questão decisiva para a vida e vitória do partido comunista. Mas não nos enganemos. As nossas secções nacionais ainda não têm uma compreensão correcta desta questão. Têm uma atitude passiva, expectante face ao problema da criação de um movimento de massas de mulheres trabalhadoras, sob a direcção dos comunistas. Não compreendem que o desenvolvimento desse movimento de massas e a sua direcção representam uma parte importantíssima da actividade do partido, representam mesmo metade do trabalho de todo o partido. O seu reconhecimento, ocasional, da necessidade e importância de um poderoso movimento comunista de mulheres, é um reconhecimento platônico, verbal, e não uma preocupação constante e um dever do partido.

O trabalho de agitação e propaganda junto das massas de mulheres, o seu despertar para a revolução, é encarado como algo secundário, como uma tarefa que cabe apenas às comunistas. E estas são censuradas pelo facto de o trabalho não avançar mais rápida e energicamente. Isto é errado, é profundamente errado! É um verdadeiro separatismo e uma igualdade à rebours, 13 como dizem os franceses. Em que radica essa a posição errônea das nossas secções nacionais? (Não me refiro à Rússia Soviética.) Em última análise não se trata de outra coisa senão da subestimação das mulheres e do seu trabalho. Exactamente assim. Infelizmente, há ainda muitos camaradas nossos de quem se pode dizer: «raspem em pouco o comunista e encontrareis o filisteu». Claro que é preciso raspar numa parte sensível: a sua mentalidade a respeito das mulheres. Haverá disso prova mais evidente do que o facto de os homens verem, tranquilamente, as mulheres desgastarem-se num trabalho menor e monótono, extenuante, que lhes absorve o tempo e as forças: o trabalho doméstico? E como isso lhes restringe o horizonte, lhes embota o espírito, afrouxa o bater do seu coração e lhes enfraquece a vontade. Não me refiro, claro, às damas burguesas que relegam para os empregados todo o trabalho doméstico, incluindo o cuidar dos filhos. O que digo diz respeito à grande maioria das mulheres, nomeadamente às mulheres dos operários, mesmo aquelas que passam o dia inteiro na fábrica e ganham o seu salário.

São muito poucos os maridos, mesmo proletários, que se preocupam com o facto de que poderiam aliviar fortemente o peso e cuidados que recaem sobre as mulheres, se quisessem ajudar no «trabalho feminino». Mas não o fazem, já que isso seria contrário aos «direitos» e à «dignidade do marido». Exigem para si repouso e conforto. A vida doméstica é o sacrifício diário da mulher em milhares de pequenos nadas. O antigo domínio do marido continua a sobreviver de forma latente. A sua escrava vinga-se dele objectivamente também de uma forma latente: o atraso da mulher, a sua incompreensão dos ideais revolucionários do marido, enfraquece-lhe a coragem e a sua determinação de lutar. São estes os vermes minúsculos que imperceptível e lentamente, mas efectivamente roem e minam. Conheço a vida dos operários, e não só pelos livros. O nosso trabalho comunista junto das massas de mulheres e o nosso trabalho político em geral implica que uma parte significativa seja dedicada à educação dos próprios homens. Devemos extirpar até às últimas raízes a velha mentalidade esclavagista, isto tanto no partido como nas massas. Esta é uma das nossas tarefas políticas, tal como a necessidade instante de formar um estado-maior de camaradas homens e mulheres, com uma sólida preparação teórica e prática, para realizar e fazer avançar o trabalho do partido junto das mulheres trabalhadoras.

 À minha pergunta sobre as condições actuais na Rússia Soviética, Lenine respondeu:

– O governo da ditadura do proletariado, naturalmente em aliança com o partido comunista e os sindicatos, envida todos os esforços para vencer as ideias atrasadas dos homens e mulheres e desse modo diminuir o campo da mentalidade não comunista. Será preciso dizer que a igualdade de direitos entre homens e mulheres já está consagrada na legislação? Em todos os domínios da vida é notório o desejo sincero de levar à prática essa igualdade. Incentivamos as mulheres a participarem na vida econômica, na gestão, na actividade legislativa e na governação. Abrimos-lhes as portas de todos os cursos e estabelecimentos de ensino, para aumentar a sua preparação profissional e social. Estamos a criar cozinhas públicas e cantinas, lavandarias e oficinas de reparações, creches e jardins-de-infância, orfanatos, todo o tipo de estabelecimentos de educação. Em resumo, estamos a realizar seriamente a consigna do nosso programa de transferir para a sociedade as funções económicas e educativas do trabalho doméstico individual. Por esta via, a mulher liberta-se da antiga servidão doméstica e de toda a dependência do marido. São-lhe dadas todas as possibilidades de desenvolver actividades na sociedade, de acordo com as suas aptidões e inclinações. As crianças têm condições mais favoráveis ao seu desenvolvimento do que teriam em casa. Temos a legislação mais avançada do mundo no que respeita à segurança no trabalho das mulheres, cujo cumprimento é assegurado por representantes organizados dos operários. Estamos a criar maternidades, lares para mães e recém-nascidos, organizamos consultas para as mães, cursos de puericultura, exposições sobre protecção da maternidade e da infância, etc. Envidamos grandes esforços para satisfazer as necessidades das mulheres carenciadas e desempregadas.

Sabemos perfeitamente que tudo isto é pouco em comparação com as necessidades das massas de mulheres trabalhadoras, que tudo isto é manifestamente insuficiente para a sua efectiva emancipação. Ainda assim, é um passo de gigante relativamente à situação existente na Rússia tsarista capitalista. É muito mesmo em relação ao que se faz nos países onde o capitalismo ainda domina sem limites. É um bom começo. A orientação adoptada é justa e iremos desenvolvê-la consequentemente com todas as nossas energias. Vocês, no estrangeiro, podem estar certos disso. A cada dia de existência do Estado soviético torna-se cada vez mais claro que não poderemos progredir sem os milhões de mulheres. Imagine o que isto significa num país onde os camponeses constituem mais de 80 por cento da população. A pequena exploração camponesa é sinônimo de economia individual doméstica à qual as mulheres estão vinculadas. Sob este aspecto, as coisas serão muito mais fáceis para vocês, com a condição, naturalmente, de que as vossas massas proletárias tomem consciência da sua maturidade histórica objectiva para a tomada do poder. Mas não vamos desesperar. As nossas forças crescem a par das dificuldades. A necessidade prática empurra-nos para novos caminhos também no que respeita à emancipação das mulheres. Em associação com o Estado soviético a solidariedade entre camaradas realizará grandes feitos. Trata-se é claro da solidariedade entre camaradas no sentido comunista, e não no sentido burguês que lhe é dado pelos reformistas, cujo entusiasmo revolucionário se dissipa como o cheiro do vinagre barato. A solidariedade entre camaradas deve ir de mão dada com a iniciativa individual, que se transforma em actividade colectiva e se funde com ela. Sob a ditadura do proletariado, a emancipação das mulheres pela via da concretização do comunismo terá lugar também no campo. Neste ponto deposito grandes expectativas na electrificação da nossa indústria e agricultura. É um empreendimento grandioso! As dificuldades para o realizar são extraordinariamente grandes. Para as superarmos é necessário libertar e educar as poderosas forças das massas. Milhões de mulheres deverão participar nisto.

Nos últimos dez minutos tinham batido duas vezes à porta, mas Lénine continuou a falar. Desta vez abriu a porta e gritou:

– Já vou! – virando-se para mim, acrescentou, sorrindo:

– Sabe, Clara, vou aproveitar o facto de ter estado a conversar com um mulher para justificar o meu atraso, evidentemente que invocarei a famigerada prolixidade feminina. Apesar de, desta vez, na realidade, o homem tenha sido o mais falador. Aliás, devo reconhecer que você sabe ouvir muito bem. Talvez tenha sido isso que me fez falar tanto.

Enquanto fazia esta observação com humor, Lenine ajudou-me a vestir o casaco.

– Você devia usar roupa mais quente – disse com solicitude. – Moscovo não é Estugarda. Tem de ter cuidado consigo. Não apanhe frio. Até à próxima.

E deu-me um forte aperto de mão.

A minha conversa seguinte com Lenine sobre o movimento das mulheres decorreu cerca de duas semanas mais tarde: Lenine veio a minha casa. Como quase sempre a sua visita foi inesperada, improvisada durante uma pausa no trabalho imenso que o líder da revolução vitoriosa desenvolvia. Lenine parecia muito cansado e preocupado. Wrangel ainda não tinha sido definitivamente derrotado, e o problema do abastecimento das grandes cidades com víveres continuava diante do governo soviético como uma esfinge implacável.

Lenine perguntou-me em que ponto estavam as teses. Informei-o de que se tinha realizado uma reunião alargada da comissão, na qual participaram e se pronunciaram todas as comunistas destacadas que se encontravam em Moscovo. As teses estavam prontas e deviam agora ser debatidas numa reunião restrita da comissão. Lenine indicou que devíamos procurar que o III Congresso mundial examinasse a questão com a devida atenção.14 Por si só esse facto venceria os preconceitos de muitos camaradas. As comunistas deviam empenhar-se nisso em primeiro lugar e empenhar-se seriamente.

– Não devem tagarelar como tias simpáticas, mas falar alto, como combatentes, falar claro, – exclamou Lenine com vivacidade. – O Congresso não é um salão onde as damas devem brilhar pelos seus encantos, como se diz nos romances. O Congresso é a arena de luta, onde nos batemos pelo conhecimento necessário à acção revolucionária. Demonstrem que sabem lutar. Em primeiro lugar, evidentemente, contra os inimigos, mas também no seio do partido, quando se torna necessário. Trata-se aqui das amplas massas de mulheres. O nosso partido russo intervirá a favor de todas as propostas e medidas que ajudem a conquistar essas massas. Se as mulheres não estiverem connosco, os contra-revolucionários poderão conseguir virá-las contra nós. Devemos ter sempre isto presente.

 – As massas de mulheres devem estar connosco, mesmo que estejam ligadas ao céu por correntes, – sintetizei assim o pensamento de Lenine. – Aqui no centro da revolução, onde a vida está em ebulição, pulsando rápida e vigorosamente, surgiu-me um plano para uma grande acção internacional das massas de mulheres trabalhadoras. Foram as vossas grandes conferências e congressos de mulheres sem filiação partidária que me deram o principal impulso. Devíamos tentar transformar estas conferências nacionais em internacionais. É um facto inquestionável que a guerra mundial e as suas sequelas abalaram profundamente as amplas massas de mulheres das diversas classes e camadas sociais. Algo fermenta nelas, já estão em movimento. As aflições por que passaram para garantir e preencher a sua existência levantaram questões desconhecidas para a maioria das mulheres, das quais só uma minoria tinha consciência. A sociedade burguesa não está em condições de lhes dar uma resposta satisfatória. Só o comunismo o pode fazer. É isto que precisamos que as amplas massas femininas dos países capitalistas tomem consciência e para isso temos de convocar um congresso internacional de mulheres sem filiação partidária.

Lenine levou algum tempo a responder. Meditava, como se olhasse para dentro, cerrando fortemente os lábios, esticando ligeiramente para fora o inferior.

– Sim – disse finalmente – devemos fazê-lo. O plano é bom. Mas um bom plano, mesmo que seja excelente, não vale nada se não for bem executado. Já pensou na sua execução? Como a imagina?

Expus detalhadamente as minhas ideias sobre o assunto. Primeiro devia-se criar um comité de mulheres comunistas nos diferentes países, em permanente e estreito contacto com as nossas secções nacionais, para a preparação e realização do congresso. Deveria comité começar a trabalhar imediatamente de forma oficial e pública? Esta era uma questão que devia ser pesada do ponto de vista da sua conveniência. Em todo o caso, a primeira tarefa dos membros do comité seria contactar nos vários países as dirigentes das operárias sindicalizadas do movimento feminino político proletário, das organizações burguesas de mulheres de todos os tipos e tendências e, finalmente, mulheres eminentes, médicas, professoras, escritoras, etc., e formar uma comissão preparatória sem filiação partidária. Membros destas comissões deveriam formar um comité internacional, que prepararia a convocação do congresso internacional e definiria a ordem de trabalhos, o local e a data da abertura.

Em minha opinião, o congresso devia discutir, em primeiro lugar, o direito das mulheres ao trabalho profissional. Ao mesmo tempo, seria preciso desenvolver as questões relativas ao desemprego, à igualdade salarial para trabalho igual, à consagração na legislação do horário das oito horas diárias e da segurança no trabalho das operárias, à organização dos sindicatos, à protecção social da maternidade e da infância, a medidas sociais tendentes a aliviar a situação das mulheres domésticas, das mães, etc. Depois, deveria constar na ordem de trabalhos a situação das mulheres face ao direito familiar, matrimonial, público e político. Fundamentando estas propostas, expliquei que, na minha opinião, os comités nacionais deveriam preparar de forma consistente o congresso em cada país, promovendo uma campanha nas reuniões e na imprensa. Esta campanha devia ter um grande impacto e despertar as amplas massas de mulheres, dando-lhes um forte incentivo ao estudo sério das questões apresentadas ao debate, atraindo a sua atenção para o congresso e também dessa forma para o comunismo e para os partidos da Internacional Comunista. A campanha deveria ser dirigida às trabalhadoras de todas as camadas sociais e garantir a colaboração e presença no congresso de representantes de todas as organizações com trabalho nesta área, bem como de delegadas eleitas em assembleias públicas de mulheres. O congresso deveria ser uma «representação popular», num sentido completamente diferente dos parlamentos burgueses.

Como é evidente, as comunistas deveriam ser não só a força motriz, mas também a força dirigente no trabalho preparatório, ao qual as nossas secções deviam prestar o apoio mais enérgico. Naturalmente que tudo isto se refere também à actividade do comité internacional, aos trabalhos do próprio congresso e à sua ampla divulgação. Em todos os pontos da ordem de trabalhos dever-se-ia apresentar propostas de teses comunistas e das correspondentes resoluções, cuidadosamente redigidas no que respeita aos princípios e solidamente fundamentadas, com base na análise científica dos factos sociais. Estas teses deviam ser previamente discutidas e aprovadas pelo Comité Executivo do Komintern. As resoluções e palavras de ordem comunistas deveriam estar no centro dos trabalhos do Congresso e suscitar o interesse da opinião pública. Depois do Congresso seria necessário divulgá-las através da agitação e da propaganda entre as amplas massas de mulheres, para que as consignas marcassem as futuras acções internacionais de massas das mulheres. Evidentemente, era uma condição prévia necessária que as mulheres comunistas interviessem em todos os comités e no próprio congresso como um todo homogêneo, que agissem articuladamente, juntando esforços, demonstrando clareza de princípios e uma forte organização. Não deveriam ser feitas intervenções não acordadas previamente.

Durante a minha exposição, Lenine assentiu com a cabeça várias vezes, em sinal de concordância, e fez curtas observações de aprovação.

– Parece-me, Clara – disse ele – que você pensou este assunto muito bem, tanto o lado político, como os seus traços gerais, bem como o aspecto organizativo. Estou inteiramente de acordo em que na actual situação um congresso deste gênero poderia ser uma coisa importante. Ele abre-nos possibilidades de conquistar as amplas massas de femininas, em particular as massas de mulheres que desempenham actividades profissionais de todo tipo, operárias industriais, trabalhadoras domésticas, bem como professoras e outras empregadas. Seria bom, mesmo muito bom! Pense na situação. Num momento de grandes embates econômicos ou mesmo de greves políticas, que aumento de forças não traria ao proletariado revolucionário a revolta consciente das massas femininas! Com a condição, naturalmente, de sermos capazes de as conquistar e preservar. As vantagens seriam grandes, seriam mesmo enormes. Mas que pensa você sobre algumas questões que se colocam? É provável que as autoridades reajam negativamente à convocação do congresso e tentem impedir a sua realização. No entanto, dificilmente ousarão reprimi-lo brutalmente. Em todo o caso isso não a assusta. Mas não receia que vocês, mulheres comunistas, quer nos comités quer no próprio congresso, sejam esmagadas pela superioridade numérica das representantes da burguesia e do reformismo e pela sua indubitável maior destreza? E, primeiro que tudo, está efectivamente confiante na preparação marxista das nossas camaradas comunistas, no sentido em que é possível seleccionar um grupo de choque capaz de resistir com honra a esse combate?

Respondi a Lenine que era pouco provável que as autoridades ameaçassem o congresso com punho de ferro. Quanto à zombaria e ataques grosseiros reverteriam a favor do congresso. Ao número e destreza dos elementos não comunistas, nós, comunistas, poderíamos opor a superioridade científica do materialismo histórico na abordagem e análise dos problemas sociais e a coerência das nossas reivindicações para a sua resolução. Finalmente, o que não era de somenos, poderíamos contrapor-lhes a vitória da revolução proletária na Rússia e o seu trabalho pela causa da emancipação da mulher. A preparação insuficiente de algumas camaradas poderia ser colmatada por uma formação regular e pelo trabalho conjunto. A este propósito esperava uma valiosa ajuda das comunistas russas. Elas deveriam constituir o núcleo de ferro da nossa falange. Com elas aceitaria calmamente desafios muito maiores do que os combates no congresso. Além disso, mesmo que fossemos derrotadas na votação, o simples facto de a nossa luta colocar o comunismo em primeiro plano teria um grande efeito de propaganda, proporcionando-nos ao mesmo tempo novos pontos de apoio para o trabalho futuro.

Lenine desatou a rir.

– Mantém o entusiasmo de sempre pelas revolucionárias russas. Pois é, não se esquece um velho amor. Penso que tem razão. Mesmo uma derrota após uma luta obstinada seria uma vitória, uma preparação para futuras conquistas entre as massas de mulheres trabalhadoras. No geral, trata-se de uma iniciativa em que vale a pena arriscar. Em caso algum seremos totalmente derrotados. Mas, é claro, tenho esperança na vitória, e desejo-lhe a vitória do fundo do coração. Ela consolidaria significativamente o nosso poder, alargaria e reforçaria a nossa frente de luta, traria ânimo às nossas fileiras, movimento e acção. Isto é sempre útil. Além disso, o congresso aumentaria a inquietação, a incerteza, as contradições e conflitos no campo da burguesia e dos seus amigos reformistas. Podemos imaginar quem se reunirá às «hienas da revolução» se as coisas correrem bem sob a sua direcção: não faltarão os sociais-democratas honestos, sob o comando supremo de Scheidemann,15 de Dittmann,16 de Legien,17 e cristãs devotas, abençoadas pelo Papa ou pelos seguidores da doutrina de Lutero; e haverá respeitáveis filhas de conselheiros privados e esposas de conselheiros recém-agraciados; ingleses de bom-tom, ladies pacifistas e fervorosas sufragistas francesas. Que quadro de caos, de desintegração do mundo burguês irá o Congresso exibir! Que quadro do seu inconsolável desespero! O congresso aceleraria a desintegração e desse modo enfraqueceria as forças da contra-revolução. Todo o enfraquecimento das forças do inimigo equivale ao reforço do nosso poder. Sou a favor do Congresso. Comece a trabalhar. Desejo-lhe êxitos na luta.

Falamos ainda da situação na Alemanha, em particular do «congresso unificador» dos antigos espartaquistas com a ala esquerda dos independentes. Depois Lenine saiu apressado, cumprimentando amistosamente vários camaradas que trabalhavam na sala que teve de atravessar.

Com alegria e esperança lancei-me ao trabalho de preparação. Mas a ideia do congresso embateu na posição das comunistas alemãs e búlgaras que, nessa altura, dirigiam os movimentos de mulheres mais importantes, se exceptuarmos a Rússia Soviética. Rejeitaram categoricamente a convocação do congresso. Quando comuniquei isto a Lenine, ele respondeu-me:

– É pena, muita pena! Esses camaradas perderam uma possibilidade excelente de abrir às amplas massas de mulheres novas e melhores perspectivas e assim envolve-las na luta revolucionária do proletariado. Quem sabe se voltará a surgir tão cedo uma ocasião tão favorável. Deve-se malhar o ferro enquanto está quente. Mas a tarefa mantém-se. Deve continuar a procurar o caminho para chegar às massas de mulheres, que o capitalismo sujeita às mais terríveis necessidades. Deve procurar esse caminho custe o que custar. Não nos podemos alhear desta necessidade. Sem a actividade organizada das massas sob a direcção dos comunistas, não há vitória sobre o capitalismo, nem edificação do comunismo. Assim, é preciso que o Aqueronte 18 das massas feministas comece a correr.


Clara Zetkin - 1925



Notas:

1 Originalmente, este texto foi publicado em Moscovo, em Janeiro de 1925, sob o título Do Meu Livro de Notas, e incluía os relatos de dois encontros com Lenine em que foi abordada a questão do movimento feminino. Mais tarde, em 1955, volta a ser publicado em Moscovo, numa brochura com prefácio de Nadejda Krupskaia, datado de Agosto de 1933, que reúne dois outros textos de Clara Zetkin, um dos quais intitulado «Recordações de Lenine», editado originalmente em Moscovo, em Janeiro de 1924, imediatamente a seguir à morte do grande revolucionário russo. Sob este último título, o presente relato de Clara Zetkin foi publicado em vários países, nomeadamente em Portugal, sob a chancela das Edições 8 de Março. No Brasil foi inserido na colectânea O Socialismo e a Emancipação da Mulher, Editorial Vitória, 1956, com o título «Lênin e o Movimento Feminino» (http://www. marxists.org/portugues/zetkin/1920/mes/lenin.htm). Na presente edição, seguimos a edição russa de 1955, consultando naturalmente as anteriores traduções para a nossa língua, incluindo a edição brasileira, da qual adaptamos o título. (N. Ed.)

2 Rosa Luxemburg (1871-1919), destacada personalidade do movimento operário alemão, polaco e internacional. Pertencendo à ala esquerda da II Internacional, integrou o grupo fundador do Partido Comunista da Alemanha (Dezembro de 1918), formado na base da Liga Espártaco, criada em 1916 na sequência da cisão no SPD, devido ao seu apoio à guerra imperialista. (N. Ed.)

3 Leo Jogisches (1867-1919), nascido em Vilnius, na Lituânia, integrou o movimento comunista polaco-lituano e germânico. Preso em 1888 e 1889, emigrou para a Suíça, onde colaborou com o grupo de Plekhánov, «Emancipação do Trabalho». Em 1900 instalou-se em Berlim. Participa na revolução de 1905 em Varsóvia, é preso e deportado para a Sibéria, donde se evade em 1907, regressando a Berlim. Participou no V Congresso do POSDR em Londres, sendo eleito candidato ao CC. Durante a I Guerra Mundial formou a corrente internacionalista no SPD. A partir de 1916 é um dos organizadores e dirigentes da Liga Espártaco e um dos fundadores do Partido Comunista da Alemanha. Após o assassínio de Rosa Luxemburg e de Karl Liebknecht, lidera o partido até 9 de Março de 1919, data em que é detido e assassinado na prisão. (N. Ed.)

4 August Bebel (1840-1913), um dos fundadores e dirigentes da social-democracia alemã e da II Internacional. Torneiro de profissão encabeçou a ala revolucionária da social-democracia alemã. Em 1879 escreveu o livro A Mulher no Passado, no presente e no Futuro, a que Lenine alude no presente texto. (N. Ed.)

5 Delenda esse Carthago (Cartago deve ser destruída), palavras com que o senador romano Catão (séc. II e II a.C.) terminava todos os seus discursos, ficando na história como expressão que traduz a vontade determinada de realizar uma ideia ou um plano. (N. Ed.)

6 Gabriel D’Annunzio (1865-1938), político, poeta e dramaturgo italiano, símbolo do decadentismo. (N. Ed.)

7 Piotr Nikolaiévitch Wrangel (1878-1928), de origem nobre, tenente-general (1917), fixa-se na Crimeia em 1918 onde se junta ao exército voluntário branco. Em Abril de 1920 é escolhido como comandante-em-chefe do chamado exército russo da Crimeia. Após a derrota na Táurida do Norte e na Crimeia cruza a fronteira levando consigo uma parte do exército. (N. Ed.)

8 Inessa Armand (1874-1920), verdadeiro nome Élisabeth Pécheux d’Herbenville, nascida em França, foi uma destacada dirigente do movimento revolucionário. Adere ao POSDR em 1904 e conhece Lenine em 1909, com quem chega à Rússia em Abril de 1917. Dirigiu a secção feminina do CC do partido entre 1918 e 1919 e foi uma das organizadoras da I Conferência Internacional de Mulheres Comunistas, realizada em 1920. Morre nesse ano vítima de cólera. (N. Ed.)

9 Trata-se do Partido Comunista Operário da Alemanha, de tendência anarco-sindicalista, fundado em 1919 por dissidentes do Partido Comunista da Alemanha. (N. Ed.)

10 Citação de Goethe, Fausto, tradução de João Barrento, ed. Círculo dos Leitores, Lisboa, 1999, v. 1995, p. 114. (N. Ed.)

11 Estilitas hindus no original: as ascetas que viviam em cima de colunas ou pórticos em ruínas. (N. Ed.)

12 Alusão ao episódio bíblico segundo o qual Josué destruiu as muralhas de Jericó simplesmente tocando as trombetas de chifre de carneiro. (N. Ed.)

13 Em francês no original: às avessas. (N. Ed.)

14 Trata-se do III Congresso da Internacional Comunista (Komintern), realizado em Moscovo entre 22 de Junho e 12 de Julho de 1921. (N. Ed.)

15 Philipp Heinrich Scheidemann (1865-1939), social-democrata alemão, apoiante do governo durante a I Guerra, é ele quem proclama a República Alemã, em 8 de Novembro de 1918, antecipando-se proclamação da república socialista por Karl Liebknecht. Até Janeiro de 1919, integrou o Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Friedrich Ebert, que reprime a revolução espartaquista. Em Fevereiro de 1919 torna-se chanceler da República de Weimar, sucedendo a Ebert. (N. Ed.)

16 Wilhelm Dittmann (1874-1954), dirigente do Partido Social-Democrata da Alemanha. Participou activamente na campanha ocidental contra a Rússia Soviética durante a guerra civil e a intervenção estrangeira. (N. Ed.)

17 Carl Legien (1861-1920), sindicalista alemão, social-democrata, foi o primeiro presidente da Federação Internacional de Sindicatos (1913-1919), também conhecida como a Internacional de Amesterdão. (N. Ed.)

18 Aqueronte é um rio situado no Épiro, no Noroeste da Grécia. Na mitologia grega, era através dele que Caronte, o barqueiro, transportava as almas para o inferno. (N. Ed.)



(original em: http://www.hrono.ru/libris/lib_c/cetkin_lenin.php)  


Fonte: Para a História do Socialismo


Mafarrico Vermelho
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário