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quarta-feira, 4 de março de 2015

Basta de falsas ilusões!

Basta de falsas ilusões!
por Unidad y Lucha

"A imagem de sindicalista e de líder de bairro não vende como em 1978, entre outras coisas, porque hoje não se parte dos quarenta anos da heroica luta antifascista, encabeçada pela classe trabalhadora, mas dos trinta anos da traição a essa causa e do predomínio de uma corrupta e vendida aristocracia operária, tão bem representada pelas submissas cúpulas sindicais e o reformismo político. Portanto, quem em seu momento foi peça fundamental da “transição”, o PCE eurocomunista, é atirado à lixeira da história e tratado como cachorro morto, uma vez cumprido seu triste papel e, inclusive, é excluído das assembleias de convergência, como recentemente ocorreu em Oviedo. O que hoje vende é outra coisa, algo mais parecido com o que, anteriormente, foi a anticomunista nova esquerda, porém mais jovem, mais poliglota, cosmopolita e profissional. Um verdadeiro distanciamento da classe no qual, no campo popular, a velha e corrompida aristocracia operária é removida dos postos de comando por uma raivosa e amplamente preparada pequena burguesia urbana."

A “esquerda” vive tempos convulsos. Não existe dia em que não tomamos café da manhã com uma nova notícia sobre expulsões, cisões e novas plataformas. Desde o Podemos até o PSOE, passando pelas equivocadas fileiras da Izquierda Unida [Esquerda Unida] e do PCE, se sucedem as mudanças e os novos alinhamentos. Pablo Iglesias, Alberto Garzón, Monedero, Tania Sánchez, Mauricio Valiente, Ada Colau, Ángel Pérez, Tomás Gómez, Pedro Sánchez...; personagens que participam diariamente da vida de milhões de trabalhadores e trabalhadoras através das telas de plasma, páginas de jornal, emissoras de rádio e redes sociais.

O gatopardismo e a “crise do regime de 78”.

A “onda de ilusão”, a “mudança irrefreável”, a “convergência” e as candidaturas da “unidade popular” se apresentam diariamente na forma de reality show. Porém, o fenômeno não afeta apenas a margem esquerda do capitalismo espanhol. Pelo flanco direito, historicamente afetado por uma apatia patológica, entram também em cena novos atores. Albert Rivera e o fenômeno Ciudadanos [Cidadãos], seguem mimeticamente o manual empregado meses atrás com o Podemos e Pablo Iglesias: telegenia, juventude, transversalidade... E uma bandeira perfeitamente estudada a serviço de uma “mudança” calculada. A crise na cúpula capitalista, consequência da crise em sua base econômica, faz com que as classes dominantes se coloquem em marcha para dirigir essa “mudança”.

Poderia citar Lenin para descrever o processo vivido pela política espanhola, porém creio que a maneira mais gráfica de fazê-lo está em ’El gatopardo”, quando o personagem Tancredi expõe a seu tio Fabricio: “se queremos que tudo continue como está, é necessário que tudo mude”. “E agora, o que acontecerá? Bah! Negociações costuradas de tiroteios inócuos e, depois, tudo será igual apesar de tudo ter mudado”, “... uma dessas batalhas que se lidera, para que todo continue como está”.

O único assunto não contemplado pelos escritores deste reality é que os atores secundários do processo são pessoas de carne e osso: desempregados, jovens de quem se rouba o futuro, operários e operárias explorados até a exaustão, pessoas expulsas de sua casa, trabalhadores imigrantes parados com vaias, cacetetes e balas de borracha..., com cujas ilusões se joga um dia após o outro.

Se existe algo em que estamos de acordo com os fotogênicos atores do novo gatopardismo é que “o regime de 78” está em crise. E o que foi esse regime senão a nova forma de dominação adotada pelo capitalismo espanhol no momento histórico já que, após décadas de terror, o franquismo tinha deixado de servir aos interesses dos monopólios? Um momento no qual, assim como nos nossos dias, a “mudança” tornou-se moda e, entre outras coisas, pactuou-se um sistema eleitoral de bipartidarismo imperfeito no qual “todos tinham um lugar” sob o “guarda-chuva democrático” da Monarquia, afiançado posteriormente em 23 de fevereiro.

Crise bipartidária e “convergência”.

A ansiada “ruptura democrática” se transformou em renúncia, compromisso e transição de uma forma de dominação para outra. É que a realidade é teimosa e as crises capitalistas continuam sendo cíclicas e cada vez mais intensas. A riqueza de uns se acumula explorando outros e depois décadas de modernização do capitalismo espanhol, acompanhado de uma impudica orgia de corrupção e roubo massivo, o pilar bipartidarista se cambaleia diante da escassez crescente de nosso sofrido povo.

Novamente, é necessária uma “mudança” e, pela “esquerda”, se sucedem os movimentos. O PSOE resiste a seguir os passos do grego PASOK e busca novos atores-estrela para manter o barco flutuando. Na Izquierda Unida se pinta um quadro no qual não é Saturno quem devora seus filhos, mas são os filhos que devoram Saturno. E nesta “segunda transição” o operário não está na moda. A imagem de sindicalista e de líder de bairro não vende como em 1978, entre outras coisas, porque hoje não se parte dos quarenta anos da heroica luta antifascista, encabeçada pela classe trabalhadora, mas dos trinta anos da traição a essa causa e do predomínio de uma corrupta e vendida aristocracia operária, tão bem representada pelas submissas cúpulas sindicais e o reformismo político. Portanto, quem em seu momento foi peça fundamental da “transição”, o PCE eurocomunista, é atirado à lixeira da história e tratado como cachorro morto, uma vez cumprido seu triste papel e, inclusive, é excluído das assembleias de convergência, como recentemente ocorreu em Oviedo. O que hoje vende é outra coisa, algo mais parecido com o que, anteriormente, foi a anticomunista nova esquerda, porém mais jovem, mais poliglota, cosmopolita e profissional. Um verdadeiro distanciamento da classe no qual, no campo popular, a velha e corrompida aristocracia operária é removida dos postos de comando por uma raivosa e amplamente preparada pequena burguesia urbana.

Assim, o processo de “confluência” se converte em um reagrupamento sob as bandeiras neossocialdemocratas, as quais, com irrisórias resistências, a velha guarda eurocomunista se dobra. Isso, a sua maneira, dando um tiro após outro nos pés, com uma constante fuga para Podemos – Ganemos, ou como queiram chamar, em forma de conta-gotas e, às vezes, de jorro, e tudo isso sob o aplauso de Gerardo Iglesias, Julio Anguita e algum outro líder do naufrágio eurocomunista, que veem como esses jovens tão preparados podem agora culminar seu velho projeto, cristalizado tempo antes e com maior lucidez pelo senhor Santiago Carrillo no “Eurocomunismo e Estado”.

O reality show conta, de vez em quando, com alguns convidados-estrela. Vão dos vários intelectuais progressistas, quanto mais anglo-saxões ou nórdicos melhor, ao guru do Syriza, a estrela do Partido da Izquierda Europea... Alexis Tsipras. Tsipras é o novo menino da moda e os dirigentes da IU e Podemos competem até o ridículo para ver quem se parece mais com o Syriza e quem faz mais fotos com o dirigente europeu da nova socialdemocracia. O problema do convidado-estrela é que a tragédia grega avança com rapidez pela via de sentido único da União Europeia do capital e da guerra. Por isso, alguns aqui tratam de separar-se do que seus camaradas fazem em terras helênicas e repetem cada vez mais que a Grécia não é Espanha.

O polifônico coro da “convergência” se completa com uma plêiade de arrependidos e convertidos que atuam como camisas vermelhas do processo gatopardista e atacam a conduta da militância comunista, como sempre, como dogmática e sectária. São os mesmos que viram nascer os “sovietes” nas praças, de volta ao 15 de maio de 2011, e que consequentemente veem nos processos de convergência o germe de uma Frente Popular, o que na realidade apenas existe nos mais subjetivos recôncavos de sua própria frustração política. Mestre da tática flexível, gênios das mil etapas, que de vez em quando devem comparar seus próprios sonhos com a realidade ou reconhecer aberta e honestamente que cruzaram definitivamente o Rubicão.

Um caminho sem saída, um jogo com a ilusão.

Um dos recursos mais habituais do oportunismo intelectual da socialdemocracia, seja mais ou menos nova, é a separação hipócrita entre economia e política. É aí onde se joga impudicamente com as ilusões de milhões e milhões de pessoas. A nova socialdemocracia também não se contrapõe ao capitalismo. Seus dirigentes sabem perfeitamente que, sem derrotar o poder dos monopólios, as medidas políticas que propõem são cantos da sereia dirigidos a receber votos – e também os sonhos – de um povo que sofre e que aspira viver dignamente. Sabem que se o poder lhes dá certa margem de atuação, muito generosa nestes momentos, é precisamente porque nas condições de crise capitalista o oportunismo de ontem e de hoje atua como válvula de segurança do próprio sistema. Esse mesmo sistema que os novos socialdemocratas embelezam diariamente, gerando a falsa ilusão de que é possível uma democracia capitalista sem ditadura da classe dominante, a falsa ilusão de crer na utopia de dar marcha-ré na história e, de reforma em reforma, reverter o atual processo imperialista para chegar a uma idealizada fase pré-monopolista do capitalismo. É a alternativa recomendada do poder dos monopólios, precisamente porque é a “ilusão” das pessoas que querem encerrar nos parâmetros do aceitável pelo poder, e “imaginação” não lhes falta. Ou, dito mais cruelmente, é utilizada imaginativamente a ilusão das pessoas como querem chegar ao governo para servir ao poder, oferecendo uma gestão socialdemocracia que se faça de alternativa à gestão neoliberal representada pela direita e a velha socialdemocracia.

Nenhuma tolerância com o oportunismo e a nova socialdemocracia.

Por todas estas razões e, apesar das velhas e novas acusações de dogmatismo e sectarismo, ante as quais por força do costume esboçamos adiantadamente um amplo sorriso, hoje afirmamos que não podem existir tolerância nem coexistência alguma com o oportunismo e a nova socialdemocracia, e é uma necessidade que a vanguarda ideológica, política e organizativa da classe operária se expresse de forma distinta através do Partido Comunista.

Ruptura com a UE, com o Euro e a OTAN, socialização dos setores fundamentais da economia e poder da classe operária. Luta de classe e organização das forças operárias e populares em uma aliança, em uma frente operária e popular que aponte a saída socialista–comunista frente à barbárie capitalista. Nesse caminho, estamos todos unidos. E ao mesmo tempo, lutamos abertamente contra aqueles que pretendem apartar a classe operária desse caminho e conduzi-la, de novo, ao pântano capitalista da conciliação de classes, por trás de bandeiras estrangeiras e de falsas ilusões.

Combatendo a nova socialdemocracia!


R.M.T.




Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)



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