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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Por que lutavam eles na defesa de Madrid em 1936?

Por que lutavam eles na defesa de Madrid em 1936?
Por Miguel Urbano Rodrigues
 
"Nestes dias em que, encastelada no Poder, uma direita cavernícola, fascizante, tenta em Portugal destruir o que resta da Revolução de Abril e impõe ao povo uma autentica ditadura do capital, concretizada em leis e decretos que trazem à memoria a era de Salazar – é também um dever combater essa escória humana, derrotar a sua politica criminosa."
 
18 de Fevereiro de 1936 é a data do início da sublevação fascista em Espanha, do início da guerra civil. Recordá-la nos dias de hoje é também relembrar que as potências ocidentais que assumiram a posição de “não intervenção” (hoje empenhadas em agressões imperialistas em vários continentes) agiram como aliados objectivos da intervenção directa dos fascistas alemães e italianos. É, por outro lado, lembrar a heróica solidariedade combatente das Brigadas Internacionais. Recordar esses revolucionários maravilhosos é um dever numa época em que o fascismo levanta a cabeça na Europa, nos EUA, na América Latina. Nas planuras e montanhas da Espanha eles souberam lutar e morrer em defesa da Humanidade, de valores e ideais que conferem significado à vida.


Em passagem recente por Madrid, um impulso de saudosismo levou-me até à Cidade Universitária. Perdi-me em amplas avenidas entre edifícios modernos de diferentes Faculdades e Institutos rodeados de aprazíveis espaços verdes.

Tive a sensação de chegar a um lugar desconhecido. E não era. A ilusão do “novo” nascia da ação do homem; a Cidade Universitária fora reconstruida durante a ditadura.

Caminhara por ali em 1947 durante a minha primeira visita a Espanha. O panorama era na época outro. Eu levava na mão o livro de um francês que descrevia com minucias a defesa de Madrid no Outono de 1936.

Eu era então um jovem sem formação política, modelado por uma educação burguesa. Mas o choque da leitura fora tao forte que me atraiu ao cenário da batalha. Guardava na memória imagens e emoções das semanas em que republicanos espanhóis apareciam no monte onde eu, adolescente, residia em Moura com os meus pais. Minha mãe era uma senhora muito conservadora, mas tinha pena daquela gente que atravessava a fronteira e deixava-os dormir uma ou duas noites num palheiro. Eles fugiam da coluna franquista de Yague que, subindo de Sevilha, de rumo a Badajoz e Madrid, cometia massacres medonhos por onde passava.

Transcorridas mais de seis décadas, era difícil imaginar na serenidade quase bucólica da Cidade Universitária que ali se travara às portas de Madrid uma batalha cujo desfecho prolongou o conflito espanhol até às vésperas da II Guerra Mundial.

Comparei no livro as imagens que distanciavam a Cidade Universitária que eu conhecera da inicial e esta da atual.

Em 1947, a reconstrução apenas principiara. Eram ainda identificáveis ruinas de edifícios destruídos durante os combates.

O livro do escritor francês, cujo nome não recordo, era factual. Evocava os acontecimentos quase cronologicamente a partir do golpe de estado de 36,iniciado por Franco em Marrocos e Mola no Norte.

Recordo que o relato deixou na memória sementes tao fortes que durante o meu longo exilio brasileiro escrevi um conto cuja personagem lutara na frente de Madrid pelos republicanos.

Mas somente muitos anos depois, já comunista, e tendo lido obras fundamentais sobre aquela guerra trágica e romântica compreendi o significado profundo da épica defesa de Madrid.

No inverno da vida, evocar o que ali se passou nas margens do Mazanares, encaminhou-me para uma reflexão muito diferente da que na juventude me conduzira à Cidade Universitária em reconstrução.

Nessa primeira visita eu esforçara -me por ir ao encontro da Historia através da leitura dos combates em que se enfrentaram forças antagónicas. Tentava imaginar o choque das tropas do general Varela e do coronel Yague com os milicianos e as colunas anarquistas que assumiram a defesa da capital, sob o comando de Miaja e Rojo, enquanto se formava o exército popular da Republica.

Sentado num talude, contemplando ruinas na ladeira que descia para o Mazanares, tinha o dedo num mapa que localizava as antigas faculdades destruídas quando alguém me tocou no ombro.

Era uma mulher de uns 70 anos. Perguntou: «Que livro é esse?»


Disse-lhe que era o livro de um escritor estrangeiro sobre a defesa de Madrid quando chegaram ali os mouros.

Ela sorriu. A minha resposta abateu o muro da desconfiança. Sentou-se a meu lado e falou durante muito tempo, enquanto eu a ouvia, calado.

Contou que trabalhava no Hospital Clínico, arrasado dias depois, tal como a Casa de Velasquez, quando a vanguarda dos franquistas atacou no início de Novembro de 36. O ímpeto da ofensiva foi tao forte que os milicianos e os anarquistas da improvisada linha defensiva recuaram em desordem. O Governo de Largo Caballero saíra da capital para Valencia. Os civis do bairro pensaram que a guerra acabaria logo. Os aviões italianos e alemães bombardeavam todos dias Madrid. Uma companhia de mouros penetrou até à Plaza de Espanha. Mas de repente tudo mudou.

Fendendo o ar pesado da tarde com a mão que apontava para lugares que nomeava, onde a batalha fora mais intensa, a velha senhora, testemunha da batalha, pronunciou palavras que não esqueci: «No dia 18, chegaram os homens da XI Brigada Internacional. Avançaram ao encontro do inimigo e obrigaram os mouros a recuar. Alguns, os poucos que sabiam espanhol, cantavam um hino que começava assim:

País lejano nos ha visto nacer
De odio llena el alma hemos traído
Mas la pátria no la hemos aun perdido
Nuestra pátria está hoy en Madrid

E então, voltamos a acreditar. O povo de Madrid principiou a gritar nas ruas o No Pasarán. E os franquistas não passaram!

No dia 23 de Novembro, os combates acabaram. Os nacionalistas enterraram-se em trincheiras na Cidade Universitária e ali ficaram até ao fim da guerra».

A mulher, assim como aparecera, inesperadamente, desapareceu. Despediu-se com um seco «Adios, señor» e afastou-se.

Teria participado de alguma maneira ao lado dos defensores de Madrid? A atmosfera em Espanha, naquela época, desaconselhava perguntas a uma desconhecida.


A «NÃO INTERVENÇÃO»


Ao rever a atual Cidade Universitária, vivia no meu corpo envelhecido um homem muito diferente do jovem que por ali passara na plenitude da ditadura de Franco, empurrado pelo desejoso de compreender o que se passara nas margens do Mazanares em dias decisivos de uma guerra que o perturbava desde a adolescência.

Tinha lido milhares de páginas sobre o tema desde os quatro volumes da «Guerra y Revolucion en España» (1) ao romance «A Casa de Eulália» (2) e muitas obras sobre os debates na Sociedade das Naçoes e no Comité de Não Intervenção criado para evitar o envolvimento das grandes potências no conflito.

Eu sabia que o Comité, instalado em Londres, não atingira o objetivo proposto. Fora na prática um organismo de fachada. A Alemanha e a Itália desrespeitaram desde o início as suas resoluções, com a cumplicidade farisáica da Inglaterra e da França. Quando Hitler e Mussolini decidiram apoiar militarmente a sublevação de Franco e Mola, a Inglaterra, potencia naval hegemónica, poderia ter impedido o desembarque de tanques, aviões e de milhares de soldados italianos nos portos da Andaluzia. Mas limitou-se a protestos hipócritas. A França de Leon Blum fechou a fronteira com a Catalunha, impedindo a entrega ao governo do presidente Manuel Azaña de armas que este havia comprado e pago.

Isso enquanto os aviões alemães da Legião Condor, pilotados por nazis da futura Luftwaffe, bombardeava a população civil de cidades da Republica. A destruição de Guernica é recordada como exemplo e simbolo da barbárie fascista.

Foi somente em Outubro que cargueiros vindos da URSS, em resposta à ostensiva intervenção das potências do Eixo, descarregaram em Cartagena os primeiros caças Policarpo I-16. Conhecidos em Madrid por “Chatos» e «Moscas», entraram em combate imediatamente, derrubando numerosos Heinkel, Junkers e Fiat para surpresa dos estados-maiores de Londres e Paris.

A passividade britânica e francesa estimulou a escalada do fascismo. Hitler interpretou-a corretamente. A política da «Não intervenção» funcionou na prática como um prólogo da capitulação de Munique.

A GESTA DAS BRIGADAS

Dezenas de livros em muitos países evocam a epopeia das Brigadas Internacionais, desde teses académicas a memórias e reportagens. Até romances. O cinema também lhe dedicou atenção.

Questões polémicas são transversais nesse conjunto heterogéneo de trabalhos. As contradições principiam nas estatísticas. Não existem registos oficias sobre o numero de participantes nas sete Brigadas formadas em Albacete, a cidade onde funcionou o estado-maior da organização, sob o comando do francês André Marty. As avaliações oscilam entre 35 000 e 50 000.

As Brigadas foram criadas em Paris, por iniciativa da III Internacional. Mas é falso que todos os seus integrantes fossem comunistas.

Alguns deles tornaram-se, anos depois, personalidades de renome mundial: o alemão Willy Brandt, o jugoslavo Josip Tito, os italianos Pietro Neni e Luigi Longo, o albanês Enver Hosha,o mexicano David Alfaro Siqueiros. Milhares de voluntários estrangeiros combateram pela Republica sem pertencerem às Brigadas. Entre outros o francês André Malraux e o inglês Geoges Orwell, ambos escritores famosos.

Existe consenso sobre o comportamento heroico das Brigadas nas múltiplas frentes em que se bateram. A grande maioria dessa gente não tinha formação militar. Mas eles deixaram como coletivo revolucionário memória de combatentes exemplares.

Dois generais das Brigadas, o húngaro Lukács e o soviético Kleber, adquiriram prestígio internacional pela sua capacidade como estrategos nas batalhas em que intervieram.

Quando as Brigadas se retiraram de Espanha no final de 1938,sob a pressão internacional, centenas dos seus membros, não podendo regressar aos seus países, foram tratados como apátridas e perseguidos, alguns internados em campos de concentração.

Mas a calúnia, a falsificação da História e a propaganda fascista não podiam apagar a gesta desses homens. Hoje, em 15 cidades de três continentes erguem-se monumentos a ela dedicados.

Por que se bateram eles em Espanha?

Os nomes de algumas Brigadas encerram de certa maneira a resposta à pergunta: Garibaldi, Dimitrov, Thaelman, Louise Michel, Lincoln, Viallant Couturier, Henri Barbusse, Comuna de Paris.

Com opções ideológicas diferenciadas, eles combateram irmanados pelo sentimento de solidariedade com o povo espanhol agredido pelo fascismo.

Recordar esses revolucionários maravilhosos é um dever numa época em que o fascismo levanta a cabeça na Europa, nos EUA, na América Latina. Nas planuras e montanhas da Espanha eles souberam lutar e morrer em defesa da Humanidade, de valores e ideais que conferem significado à vida.

Nestes dias em que, encastelada no Poder, uma direita cavernícola, fascizante, tenta em Portugal destruir o que resta da Revolução de Abril e impõe ao povo uma autentica ditadura do capital, concretizada em leis e decretos que trazem à memoria a era de Salazar – é também um dever combater essa escória humana, derrotar a sua politica criminosa.

Não será como na Espanha de 36 pelas armas que os portugueses poderão hoje enfrentar o monstruoso sistema que os oprime e lança na miséria. Mas, inevitavelmente, o povo trabalhador, à medida que se aprofunde nas massas a consciência de que a ditadura de fachada democrática da classe dominante o conduz à ruina e a uma servidão de novo tipo, voltará, como em grandes momentos da nossa Historia, a assumir-se como sujeito no processo de transformação da vida. Esse dia, sem data previsível, chegará pela força da lógica da Historia.


1.«Guerra y Revolucion en España», obra elaborada por uma Comissão presidida por Dolores Ibarruri,Editorial Progreso,Moscovo,1967
2. Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal), «A Casa de Eulália», Ed. Avante, Lisboa 1997
 
 
 
Fonte: O Diário em www.odiario.info
 
 

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