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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

De Ferguson ao Iraque

De Ferguson ao Iraque
por Ângelo Alves

"A questão racial tem sido o mote da abordagem das notícias sobre estes graves acontecimentos, mas enganam-se aqueles que pensam que a raiz dos protestos reside num «mero» conflito racial. Não! A questão que está por detrás destes e de outros muitos acontecimentos nos EUA é de classe, não pode ser dissociada da profunda crise económica e social que grassa na sociedade norte-americana e que nos últimos anos se acentuou significativamente, apesar de sistematicamente escondida pela propaganda oficial para manter a imagem internacional dos EUA de grande potência. "

"Quem mais sofre com a realidade social dos EUA são exactamente aqueles que agora protestam: os imigrantes, os afro-americanos e os hispânicos, entre outras. Os dados não deixam dúvidas. O rendimento médio de uma família afro-americana é 60% do rendimento de uma família de «brancos». Segundo relatórios de 2013, 42,5 % dos afro-americanos menores de cinco anos e 37,1 por cento dos hispânicos da mesma idade enfrentam o desafio da pobreza. 37% da imensa população prisional dos EUA são jovens afro-americanos que abandonaram a escola. É esta guerra social que explodiu em Ferguson. Uma guerra social ditada por uma política de classe que usa o racismo, a xenofobia e a repressão para manter o poder das classes dominantes independentemente da tonalidade da pele daqueles que gerem esse sistema de exploração. "

A localidade de Ferguson, subúrbio de Saint Louis no estado do Missouri, está em estado de guerra. Na passada segunda-feira a Guarda Nacional chegou à cidade, armada até aos dentes. A sua chegada – ironicamente coincidente com os apelos de Obama à «reconciliação» – provocou de imediato mais duas mortes. Para trás ficam mais de 10 dias de manifestações e confrontos ocorridos após a morte de Michael Brown pela polícia, um jovem afro-americano que, desarmado, foi alvejado mortalmente com seis tiros, dois dos quais na cabeça.

Aos protestos o Estado norte-americano respondeu com a chamada de forças militares e com a imposição de um recolher obrigatório. Mas nem as medidas de brutal repressão calaram as manifestações que entretanto se estendem a outras cidades e regiões dos EUA.

Esquerda Ferguson - direita Iraque

A questão racial tem sido o mote da abordagem das notícias sobre estes graves acontecimentos, mas enganam-se aqueles que pensam que a raiz dos protestos reside num «mero» conflito racial. Não! A questão que está por detrás destes e de outros muitos acontecimentos nos EUA é de classe, não pode ser dissociada da profunda crise económica e social que grassa na sociedade norte-americana e que nos últimos anos se acentuou significativamente, apesar de sistematicamente escondida pela propaganda oficial para manter a imagem internacional dos EUA de grande potência. 

Esquerda Ferguson - direita Iraque


Os EUA são um dos países mais desiguais do Mundo. A desigualdade de rendimentos na ainda maior potência económica mundial atingiu o maior valor de sempre dos últimos 100 anos. O país que gasta por ano 700 mil milhões de dólares em despesas militares é o mesmo que regista uma percentagem de pobres acima dos 17%, é o mesmo em que cerca de 15% dos agregados familiares vivem numa situação de insegurança alimentar e é o mesmo em que o desemprego e o subemprego atingem mais de 20 milhões de pessoas.

Os EUA são uma bomba relógio social, e não somos apenas nós que o dizemos. «Insuspeitos» economistas apontam as desigualdades, a pobreza e o desemprego – a par com o endividamento galopante da economia norte-americana – como factores que aprofundarão ainda mais a crise nos EUA. O sistema de poder dos EUA sabe-o e é por isso que desde a década de 90 que tem vindo a militarizar cada vez mais as suas forças de segurança e que nos últimos anos tem vindo a treinar unidades especiais do exército para «convulsões sociais».

Quem mais sofre com a realidade social dos EUA são exactamente aqueles que agora protestam: os imigrantes, os afro-americanos e os hispânicos, entre outras. Os dados não deixam dúvidas. O rendimento médio de uma família afro-americana é 60% do rendimento de uma família de «brancos». Segundo relatórios de 2013, 42,5 % dos afro-americanos menores de cinco anos e 37,1 por cento dos hispânicos da mesma idade enfrentam o desafio da pobreza. 37% da imensa população prisional dos EUA são jovens afro-americanos que abandonaram a escola. É esta guerra social que explodiu em Ferguson. Uma guerra social ditada por uma política de classe que usa o racismo, a xenofobia e a repressão para manter o poder das classes dominantes independentemente da tonalidade da pele daqueles que gerem esse sistema de exploração. 

Os cidadãos de Ferguson são vítimas dessa política, da mesma forma que o são as populações do Médio Oriente que se vêem mergulhadas em vários conflitos militares desencadeados por uma política racista que durante anos financiou e treinou aqueles que a título de exemplo agora bombardeia no Iraque, acusando-os hipocritamente de intolerantes e genocidas ao mesmo tempo que trabalha para balcanizar a região, tentando dividir para reinar e assim contrariar aquilo que na «homeland» já é bem visível: o declínio dos EUA como potência económica mundial.





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