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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Ucrânia, um ano depois do golpe

Ucrânia, um ano depois do golpe
por Luís Carapinha




"No rescaldo do cessar-fogo saído das complexas negociações de Minsk II (em que Kiev continua a recusar sentar-se directamente à mesa com os representantes do Donbass), a Ucrânia mantém-se suspensa entre o reatar da guerra e a trégua precária, cruzada por tiros e salvas de artilharia. A ameaça dos EUA em fornecer – agora abertamente – material de combate ao governo golpista constitui um aviso sério. Como mostra o anterior cessar-fogo, os perigos de nova escalada e alastramento da guerra não podem ser subestimados. A conquista da paz far-se-á com os trabalhadores da Ucrânia e a luta pelo afastamento do poder fantoche de Kiev, derrotando a política insana dos golpistas da Maidan."

A vida tornou-se hoje infinitamente mais difícil para a esmagadora maioria dos ucranianos, um ano após a consumação do golpe de Estado de 21-22 de Fevereiro de 2014. A usurpação do poder pelos sectores mais reacionários e aventureiristas do grande capital ucraniano não só significou a instalação de um Estado anti-democrático e repressivo no país, com a censura, o livre arbítrio das forças e ideias mais retrógradas e o clima persecutório, em que pontifica a campanha que visa banir o PCU e «erradicar» a ideologia comunista, transformados em realidade rotineira. Cavou também as linhas de divisão e separação internas e lançou a Ucrânia no precipício da guerra civil.

O país apresenta-se mais vulnerável do que nunca nestes 24 anos que distam do fim da URSS. A soberania e independência da Ucrânia foram pulverizadas, apesar dos brados e hurras de «Glória à Ucrânia» que a propaganda oficial foi buscar às consignas do movimento nacionalista fascista de Bandera, aliado da ocupação nazi na II Guerra Mundial. É no quadro da nova realidade política do golpe de Estado patrocinado pelo imperialismo, e perante a real ameaça de ajuste de contas do poder liberal-fascista, que têm lugar as manifestações populares e antifascistas nas regiões do Sul e Leste do país. 

A população da Crimeia apoiou amplamente a reintegração da república autônoma na Federação Russa. Sem praticamente disparar um tiro, Moscovo assegurou o regresso da república estratégica que serve de base à frota do Mar Negro, território há muito cobiçado pelos interesses dos EUA e NATO. Na Bacia do Don são proclamadas as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, contra as quais a Junta de Kiev não hesitou em decretar a 7 de Abril o início da criminosa campanha militar «antiterrrorista». 

Noutras zonas do Leste e Sul da Ucrânia, caso das cidades de Kharkov e Odessa, o governo títere recorreu à repressão brutal para impor a sua ordem. A chacina na Casa dos Sindicatos de Odessa, a 2 de Maio, é bem a imagem de marca terrorista do poder ditatorial instalado em Kiev.

Num clima de terror e guerra, a Junta realizou eleições presidenciais – e mais tarde legislativas – de mais do que duvidosa legitimidade. A inefável «comunidade internacional» não tardou em certificar o seu inequívoco carácter «democrático». 

Porochenko, um dos principais magnatas ucranianos e antigo ministro em vários governos ucranianos, incluindo do deposto presidente Ianukóvitch, toma posse como chefe de Estado a 7 de Junho. Dias antes prometera derrotar rebelião no Donbass em questão de dias. Mais tarde garantiu que não bombardearia Donetsk. O momento da consagração de um golpe iniciado com a recusa do anterior governo ucraniano em assinar o gravoso acordo de Associação com a UE chegou pouco depois com a assinatura do tratado que entrega o mercado interno da Ucrânia à rapina dos grandes monopólios, abre portas ao programa de desregulamento econômico do FMI e deixa o país de mãos atadas perante as imposições dos «credores» e a agenda do grande capital. 

As consequências para a debilitada economia ucraniana da «associação» com a UE são tão graves que a entrada em vigor da zona de livre comércio, componente fundamental do acordo assinado, foi adiada para 2016. Mas tudo isto aconteceu já depois do golpe da Maidan ter cumprido o seu papel «histórico». Mais tarde é revogado o estatuto de neutralidade da Ucrânia e a Rússia declarada como «Estado agressor».

A par do imenso drama humanitário que os números oficiais de vítimas e refugiados da guerra desatada pelo poder golpista no Donbass tentam minorar, o povo ucraniano defronta-se com uma situação que se aproxima rapidamente da calamidade económica e social. Ao mesmo tempo, a conversão da Ucrânia em testa-de-ponte da estratégia de desestabilização e confrontação com a Rússia e o regresso da guerra ao continente europeu configuram um novo e perigoso marco no (des)equilíbrio de forças mundial, representando uma insofismável ameaça à segurança e paz globais.

Em pinceladas grossas são estas as principais consequências do putsch em que desembocou a Maidan.

Acto que vem selar a absoluta subordinação da classe dirigente da Ucrânia à agenda imposta por Washington e seguida no essencial pela UE, FMI e NATO (apesar das inquietações e sinais de descontentamento que, em surdina ou mais alto, se vão manifestando em Berlim, Paris e outras capitais da UE, reflexo essencial dos danos económicos resultantes das sanções e espiral de confrontação impostas à Rússia). Que, simultaneamente, constitui um novo capítulo da renovada e encarniçada pugna pela redivisão da propriedade e esferas de poder no seio da oligarquia ucraniana.

Submissão cega aos EUA e UE

O fenômeno do ultranacionalismo possui raízes históricas na Ucrânia. Após a derrota da Alemanha nazi, a «tutela» do movimento nacionalista ucraniano foi assumida pelos serviços secretos norte-americanos. No período que sucedeu à desintegração da URSS o imperialismo redobrou esforços e meios na promoção da ideologia nacionalista e, sobretudo, na fusão desta com os interesses da burguesia emergente e das classes dominantes saídas do grande saque e esbulho da propriedade socialista. 

A política de assimilação nacional e ucranização compulsiva tornou-se um traço determinante da nova classe dirigente, independentemente das raízes linguísticas e culturais dos seus agentes. A nova postura tinha implícita a submissão cega ao poder dos EUA e da UE (a mitologia da pertença e rumo «europeus» da Ucrânia) e a diabolização de todo o relacionamento com o vizinho do Leste, apesar das estreitas conexões com a Rússia e dos laços de cooperação econômica herdados ainda da URSS. O triunfo da Maidan representa o corolário desta trajectória – a que não são alheias, de modo algum, as marcas e responsabilidades do capitalismo russo –, que se afigura incompatível com as verdadeiras aspirações e interesses do povo ucraniano em garantir um futuro de paz e justiça e progresso sociais.

Não admira que as centrais de desinformação e propaganda do grande capital prossigam a efabulação dos acontecimentos da Maidan como o triunfo de um levantamento popular, negando a evidência da teia de interesses e nexos determinantes para o seu carácter e desfecho. Fazem por ignorar o facto saliente da instrumentalização de reais sentimentos acumulados de insatisfação e descontentamento populares que são inseparáveis do caminho depressivo e turbulento percorrido pela Ucrânia ao longo de mais de duas décadas de restauração capitalista. A perversão mediática que ainda ontem cantava loas ao tropel de «revoluções coloridas» e agora agita com a «ameaça russa» insiste em classificar de «revolução» o golpe de Fevereiro de 2014. Segura da asseptização do «perigoso» substantivo, a campanha dominante projecta os holofotes na «marcha da dignidade» que, nas celebrações de Kiev do nefasto aniversário, reuniu Porochenko, a fina flor golpista e delegações de alguns dos comparsas e mentores da Maidan.

Apesar de toda a pompa da campanha mistificatória, foi evidente a esparsa moldura humana das comemorações e o minguante séquito que acompanhou a marcha dos (in)dignos. Há pouco mais de um ano, os patrocinadores internacionais da «revolução laranja – parte 2» pavoneavam-se na Maidan sem freio e pingo de decência, distribuindo bolachinhas e «pins pela democracia» à turba nacionalista, fingindo não notar a presença abundante da escória neonazi.

Victoria Nuland, alta-funcionária do Departamento de Estado dos EUA, viria mais tarde confessar que os EUA desde 1991 financiaram com milhares de milhões de dólares o nacionalismo ucraniano e as «forças democráticas» responsáveis pela Maidan (em que se incluem as forças paramilitares e a tropa de choque de uniforme com os símbolos da suástica que depois a Junta enviou para a linha de combate no Donbass). O próprio Obama concedeu eufemisticamente em entrevista recente que os EUA foram de facto «mediadores» do golpe de Estado, que designou como processo de «transição» na Ucrânia.

Consequências terríveis

A verdade porém é que um número crescente de milhões de ucranianos, de diferentes simpatias e quadrantes políticos, despreza e amaldiçoa a Maidan. Mesmo no campo dos seus simpatizantes são cada vez mais os que hoje identificam os acontecimentos de há um ano com as desgraças que se abateram sobre o país.

Se para as populações do Donbass os últimos doze meses correspondem a um verdadeiro ano horribilis, as graves consequências econômicas e sociais são sentidas por toda a população. Os números disponíveis são avassaladores. As estimativas do PIB em 2014 apontam para um retrocesso de -6.5 a -10 por cento, consoante as fontes. Dados oficiais mostram uma quebra do produto no último trimestre de cerca de -15 por cento, enquanto os dados da produção industrial registam uma quebra superior a -16 por cento no mesmo período. A guerra no Donbass (região responsável por mais de um quarto da produção industrial nacional) não ceifou só milhares de vítimas humanas e deixou esventradas cidades e aldeias. Infra-estruturas básicas, fábricas, campos agrícolas, escolas e hospitais foram também massivamente atingidos, com reflexos profundos na economia. A quebra do PIB continuará em 2015 com uma previsão de novo recuo de -5.5 por cento.

O desemprego superou os nove por cento no final do ano e continua a subir. A espiral de desvalorização da moeda nacional não tem fim à vista, liquidando as poupanças de milhões de famílias. O executivo de Kiev promete uma inflação de 27 por cento no final de 2015 e anuncia novos aumentos de eletricidade, aquecimento e gás, que podem chegar a 280 por cento no caso do gás. Medidas que se inserem no pacote de «ajuda financeira» prestada pelo FMI e os restantes «credores», que segundo o anunciado pode ascender a 40 mil milhões de dólares nos próximos quatro anos. Sempre condicionada ao cumprimento rigoroso do plano de ajuste e de reformas, cujos resultados o povo ucraniano já sente na plenitude. O fardo da dívida pública e externa da Ucrânia avoluma-se e as reservas de divisas de Kiev desceram para níveis alarmantes. A Junta vangloria-se do aumento das exportações para a UE em 2014 (de 2.6 por cento), indicador que contrasta fortemente com a quebra das exportações para a Rússia e os países da CEI, respectivamente de 33.7 e 31.3 por cento.

No rescaldo do cessar-fogo saído das complexas negociações de Minsk II (em que Kiev continua a recusar sentar-se directamente à mesa com os representantes do Donbass), a Ucrânia mantém-se suspensa entre o reatar da guerra e a trégua precária, cruzada por tiros e salvas de artilharia. A ameaça dos EUA em fornecer – agora abertamente – material de combate ao governo golpista constitui um aviso sério. Como mostra o anterior cessar-fogo, os perigos de nova escalada e alastramento da guerra não podem ser subestimados. A conquista da paz far-se-á com os trabalhadores da Ucrânia e a luta pelo afastamento do poder fantoche de Kiev, derrotando a política insana dos golpistas da Maidan.




Fonte: Avante


Mafarrico Vermelho

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