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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ucrânia : Diplomacia franco-germânica

Diplomacia franco-germânica
por Jacques Sapir



"O facto de as forças de Kiev alvejarem deliberadamente os civis está hoje confirmado . Portanto não foram estes os factos que desencadearam o esforço de mediação da França e da Alemanha, é preciso sublinhar, mas antes a derrota da forças de Kiev em Debaltsevo."
"O país está arruinado e falido, as esperanças de ali desenvolver a indústria do gás de xisto evaporaram-se. É claro que só uma ajuda importante da parte da União Europeia pode permitir-lhe que continue a flutuar. Esta ajuda deve ser considerada a fim de forçar os Estados Unidos a renunciarem a uma intervenção, tanto directa como indirecta, na Ucrânia. Esta é a única condição para obter a confiança da Rússia. "



O Presidente François Hollande e a Chanceler Angela Merkel tentam actualmente em Moscovo, nesta sexta-feira 6 de Fevereiro, aquilo que é descrito como uma "mediação de última oportunidade" sobre a crise ucraniana. Mas isto na realidade já era o caso desde há várias semanas. Os bombardeamentos das forças de Kiev sobre a população civil das cidades de Donetsk, Lugansk e aldeias circundantes, constituíam – e constituem sempre – um escândalo permanente. Estamos na presença de crimes de guerra deliberados. O facto de as forças de Kiev alvejarem deliberadamente os civis está hoje confirmado[1] . Portanto não foram estes os factos que desencadearam o esforço de mediação da França e da Alemanha, é preciso sublinhar, mas antes a derrota da forças de Kiev em Debaltsevo. 

Com esta derrota paira a possibilidade de a NATO, ou os Estados Unidos, se empenharem um pouco mais do que actualmente no fornecimento de armas e materiais às forças de Kiev. Poder-se-á tirar as conclusões que se quiser. Isso não altera o facto de que esta derrota, que fora anunciada, pode permitir que se imponha um cessar-fogo durável. 

As propostas franco-alemãs 

A sra. Merkel e o sr. Hollande nesta sexta-feira partiram com várias propostas ao encontro do Presidente Putin. Sem entrar nos pormenores, estas incluíam uma "neutralização" de facto da Ucrânia que não poderia entrar na NATO e um acordo reforçado para fazer respeitar o cessar-fogo. François Hollande evocou igualmente a necessidade de garantir a integridade da Ucrânia e um estatuto federal alargado que poderia ser reconhecido aos insurrectos do Donbass. 

Estas propostas constituem um progresso em relação ao que era até então anunciado. Mas dois grandes problemas subsistem. Primeiramente, se a Alemanha e a França, que são membros da NATO, podem bloquear a adesão da Ucrânia a esta organização, estes países não têm os meios de se opor – num sentido jurídico – a um acordo de defesa entre os Estados Unidos e a Ucrânia. Ora, se a questão da adesão à NATO apresenta um problema, isto é com certeza devido ao peso do Estados Unidos nesta organização. Portanto não há razão para que os dirigentes russos fiquem particularmente tranquilizados por um empenhamento qualquer da França e da Alemanha sobre este ponto. Um segundo problema tem a ver com a vontade de Kiev de respeitar o cessar-fogo. Desde o mês de Setembro é sobre este ponto que fracassaram todas as tentativas anteriores. Por qual milagre a França e a Alemanha poderiam garantir que Kiev respeitará a sua palavra? Naturalmente, se forças de interposição, os "capacetes azuis", pudessem estar presentes, isso mudaria a situação. Mas os capacetes azuis não podem ser instalados no terreno senão com o acordo do Conselho de Segurança das Nações Unidas, ou seja, com o acordo dos Estados Unidos. 

O dilema franco-alemão 

De facto, a França e a Alemanha desejariam resolver a questão da Ucrânia sem os Estados Unidos. Mas estes últimos já se encontram maciçamente na Ucrânia, quer sob a forma de conselheiros governamentais ou sob a forma de conselheiros militares. Os Estados Unidos são parte integrante da crise ucraniana e devem portanto ser parte integrante da solução política. A França e a Alemanha não terão o menor peso sobre Washington a não ser que estes dois países digam claramente que sem uma retirada dos Estados Unidos da Ucrânia, e de um compromisso politicamente obrigatório deste país acerca deste ponto, a Ucrânia não poderia receber nem um Euro da União Europeia. 

O país está arruinado e falido, as esperanças de ali desenvolver a indústria do gás de xisto evaporaram-se. É claro que só uma ajuda importante da parte da União Europeia pode permitir-lhe que continue a flutuar. Esta ajuda deve ser considerada a fim de forçar os Estados Unidos a renunciarem a uma intervenção, tanto directa como indirecta, na Ucrânia. Esta é a única condição para obter a confiança da Rússia. 

É demasiado tarde? 

De facto, cada parte teria a ganhar com um acordo político. Os insurrectos seriam enfim reconhecidos diplomaticamente. A Rússia se desenvencilharia de um caso que se verifica custoso para ela. A União Europeia poderia retomar seu comércio com a Rússia. Mesmo os Estados Unidos ficariam livres para se concentrarem sobre outros problemas e poderiam retomar o diálogo necessário com a Rússia sobre a questão das armas nucleares. Tornar-se-ia possível, desde que um cessar-fogo real fosse estabelecido, curar as feridas e começar a reconstrução. Os refugiados, dos quais grande parte fugiu para a Rússia, poderiam então retornar aos seus lares. Não se deve no entanto ter demasiada ilusão. A violência das forças de Kiev para com a população do Donbass deixou traços profundos. Uma solução federal, que teria sido possível em Março de 2014, é hoje impensável. Na melhor das hipóteses isso conduzirá a um estatuto de autonomia, como existe por exemplo com a região do Curdistão autónomo do Iraque. 

Mas enquanto as forças da guerra não tiverem sido designadas como tais, e submetidas a fortes pressões, quer seja em Kiev ou em Washington, este acordo política permanecerá um objectivo ilusório. No fundo, a incerteza está em Washington e não em Moscovo. Devemos estar atentos às intenções reais dos Estados Unidos e, caso necessário, tomar claramente distâncias de uma política que não tem nenhum sentido para os interesses dos povos europeus. As consequências desta política nefasta são já evidentes na Líbia. Tal deveria ser a linha diplomática de Paris e de Berlim. 

Terão a França e a Alemanha a coragem de dizer as coisas claramente? Pode-se esperar, mas também se pode duvidar.


Situação militar em 4 de Fevereiro à tarde







O original encontra-se em http://russeurope.hypotheses.org/3404



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .



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