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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Miséria econômica (de “classe média”) & dominação (de classe dominante): Obama: O golpe ideológico da hora

Miséria econômica (de “classe média”) & dominação (de classe dominante): Obama: O golpe ideológico da hora

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


"Em nenhum lugar mais que nos EUA, com seus mentirosos clamores de democracia, de superação das classes, de guardião da paz do mundo e do estado de direito, o poder traz com ele mais falsa consciência, com a IDEOLOGIA que vem à tona na estabilização e aprofundamento do capitalismo."

"Obama é talhado para nossos tempos, sujeito sem nenhum escrúpulo, agente avançado da plutocracia. Com seus predecessores a chicanería era óbvia; Clinton, o Democrata, mãos-nas-mãos com Bush, o Republicano, passo a passo na arena da desregulação, penetração no mercado do outro lado do mundo, e estímulo econômico de preparação para a guerra, solenemente pronunciado “segurança” e “defesa”."

Por que tentar agora uma discussão teórica do capitalismo, embora esquelética e fragmentada, quando tanta coisa acontece pelo mundo, a militarização da cultura dos EUA com reforço social para sua postura hegemonista – mais ameaçada do que nunca antes desde a IIª Guerra Mundial pelo crescimento de outras nações e respectivas economias políticas, no que se vai rapidamente tornando um sistema internacional multipolar? A pergunta quase se autorresponde.

Os EUA correm cada vez mais apertados, talvez já com medo, nada habituados a que alguém desafie seu domínio exclusivo unilateral sobre o tal sistema, apoiado em “amigos e aliados” servis e na FORÇA, real e de reserva, para implementar a suserania norte-americana.

Essa semana, foram Índia e Arábia Saudita: fazer a sintonia fina do Império, negociar e/ou renovar alianças militares, oferecer garantias de segurança-proteção, processo sem fim de pôr um dedo no buraco para fechar a represa, sendo o buraco, nesse caso, a aspiração das pessoas a uma vida livre de exploração, acordos comerciais enviesados e tortos, o cogumelo nuclear engordando sempre no céu e escurecendo todos os futuros.

Por que agora, outra vez? Talvez pela mais transparente das razões, o discurso Estado da União de Obama, com seu mais recente clichê de enganação: a chamada economia de classe média, para encobrir a diferença escandalosa entre ricos e pobres, para, assim, enrijecer a estrutura de classes nos EUA, com consequências mais antidemocráticas a cada dia.

Novos dados da distribuição de renda explicam o golpe, pelo menos em parte. Mas não explicam tudo, porque o poder cresce geometricamente quanto mais amplas sejam as fundações, e quanto mais seja dado por indiscutível e confirmado pelo povão (submisso, doutrinado, engambelado, acostumado).

Em nenhum lugar mais que nos EUA, com seus mentirosos clamores de democracia, de superação das classes, de guardião da paz do mundo e do estado de direito, o poder traz com ele mais falsa consciência, com a IDEOLOGIA que vem à tona na estabilização e aprofundamento do capitalismo.

Daí, a economia de classe média, que não passa de capitalismo de monopólio embrulhado em papel-de-seda para parecer política inclusiva de oportunidades feita conforme a receita: Todos somos capitalistas! Todos somos altruístas! Somos todos iguais – posto que todos somos norte-americanos.

O subterfúgio é velho como as montanhas – Tocqueville bebeu no mito, as modernas empresas de relações públicas/propaganda/publicidade vivem da coisa, desde então, e o Evangelho dos Ricos opera sem parar, executivos de empresas & bancos, glutões in extremis, varrendo a entrada.

Obama é talhado para nossos tempos, sujeito sem nenhum escrúpulo, agente avançado da plutocracia. Com seus predecessores a chicanería era óbvia; Clinton, o Democrata, mãos-nas-mãos com Bush, o Republicano, passo a passo na arena da desregulação, penetração no mercado do outro lado do mundo, e estímulo econômico de preparação para a guerra, solenemente pronunciado “segurança” e “defesa”.

Mas quem leva a taça é Obama, enterrando o processo de acumulação de riqueza nas platitudes do norte-americanismo, a mais modernosa economia de classe média.

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Herbert Marcuse em Razão e Revolução, [1] um dos trabalhos mais significativos da filosofia política do século XX, diz no Epílogo que a sobrevivência do capitalismo dependeria de ele absorver a própria negatividade, tarefa crítica para que fosse bem-sucedido, mas superior aos seus meios. Dito de modo mais simples, o capitalismo é suas contradições, não como alguma fórmula abstrata (para mim) de materialismo dialético, mas nos modos políticos e estruturais mais pão-com-manteiga, de comportamento sistêmico que leve à formação e à manutenção de um estado-classe no qual os trabalhadores em termos relativos, aproximam-se muito do exército industrial de reserva de Marx, via uma condição de subconsumo que o mantenha onde está, e o princípio da HIERARQUIA firmemente intacto no dia a dia.

Contradições que são como código, então, para normalizar a repressão. Mas... não! Pode-se chamar a coisa toda, mais simples, de “economia de classe média”.

Discuti recentemente nessas páginas aquele discurso, o golpe de Ben e Rebekah [convidados de Michelle Obama para assistirem ao discurso na Casa Branca] para personificar e miniaturizar o capitalismo avançado, Todos & Todas sentados à mesa do café da manhã preparando a lista de compras do dia, enquanto Johnny sai para a escola – um conto de Megacapitalismo digno, como escrevi, de Goebbels.

Mas voltemos à distribuição de renda, não com Kuznets, ou melhor, Gabriel Kolko de “Riqueza e Poder”, para contrabalançar o piegas social-democrata de Michael Harrington “A Outra América”.

Em vez disso, tomemos o artigo de Dionne Searcey e Robert Gebeloff no New York Times, “Nos EUA, a classe média só encolhe, com mais gente saindo dela, do que ascendendo para ela” (Jan. 26, 2015), como resposta informal à economia de classe média. Começam assim:

A classe média que o presidente Obama identificou em seu discurso do Estado da União semana passada, como o fundamento da economia norte-americana vem encolhendo já há quase meio século.

Nada mau para o The NYTimes, até aí.

Mas eles também desapontam, usando uma banda elástica de renda, de US$ 35 mil a US$ 100 mil, para definir a classe média, onde se encaixavam, no final dos anos 1960s, metade dos lares norte-americanos. Ninguém (exceto, claro, os que foram expulsos da “classe”) percebeu a mudança em curso, porque muitos mais estavam “ascendendo a ladeira econômica para as faixas mais altas”.

Nesse ponto, Searcey-Gebeloff ficam mais sérios (digo isso, porque estatísticas pré-2000 mostram quadro diferente, quando os níveis de renda são mais precisos, incluindo a proporção nos 2/10 inferiores de renda):

Mas desde 2000, a faixa de classe média continuou a diminuir nos EUA. A razão principal da diminuição é que mais gente passou a escorregar para faixas inferiores. Ao mesmo tempo, poucos e cada vez mais poucos dos que estavam nesse grupo enquadram-se na imagem tradicional de casal casado com filhos em casa, espaço preenchido cada vez mais por idosos.

E os autores admitem:

Mesmo assim, independente da renda, muitos norte-americanos identificam-se como “classe média”.

O termo é de tal modo amorfo, que políticos muitas vezes citam esse grupo ao introduzir propostas para as quais buscam apoio amplo. (E, ideia minha: nem pensar que Obama estaria usando o discurso do Estado da União para fazer a mais reles propaganda!) Mesmo nessa faixa de renda, “muitos norte-americanos que fazem mais que US$ 100 mil se autoconsideram de classe média”, especialmente “quem viva em regiões caras”, como a Costa do Nordeste e a Costa do Pacífico. Quase dá pena dos que estão na ou acima da faixa dos US$ 100 mil – mais uma vez: a minha; os jornalistas observam: “Contudo, as linhas estão traçadas, é claro que milhões estão lutando para não perder itens que a maioria dos especialistas consideram essenciais para uma vida de classe média”.


Diminuição da Classe Média nos EUA (1967-2013) 

As mudanças demográficas na composição da “classe média” são instrutivas. “A classe média passou por uma transformação, ao mesmo tempo em que encolhia” – escrevem eles. – Idosos trabalhando depois de se aposentarem caem aí; casais com filhos pequenos caem abaixo dessa faixa como a vemos hoje. Significa que “em anos recentes, o componente de mais rápido crescimento da nova classe média têm sido lares chefiados por pessoas com mais de 65 anos”, com as aposentadorias garantindo alguma proteção, “agora que norte-americanos idosos cada vez mais trabalham até bem depois da idade tradicional de aposentadoria”. Por outro lado “casais com crianças – a categoria que mais encolheu – são a categoria que também diminui mais rapidamente de toda a classe média”. Mulheres casadas na força de trabalho vêm impedindo que esse grupo caia ainda mais. “A mais recente recessão pôs fim a qualquer avanço mesmo nessa categoria em geral bem-sucedida. Sua porcentagem na classe média caiu três pontos percentuais, e o grupo que vive com menos de US$ 35 mil dólares/ano aumentou”.

Mas vai tudo bem no Mundo Todo Feito de Pirulitos de Obama.

Adiante, o comentário que enviei ao The New York Times, sobre o artigo de Searcey-Gebeloff:

Enquanto alguém falar de “classe média”, seja estatisticamente (a faixa de US$ 35 mil-US$ 100 mil é absurda) ou como tópico de narrativa, continuaremos a ser enganados, induzidos a pensar que a distribuição de renda é mais democrática do que é, e que o poder está distribuído mais equitativamente do que na verdade está.

A tal “classe média” de Obama não passa de bordão de Relações Públicas, truque deliberado para não deixar ver a realidade. O presidente apela às almas boas para que vejam os EUA em termos não estruturais de não classe, ocultando assim a concentração de riqueza e varrendo para baixo do tapete tudo que só faz aumentar a DESIGUALDADE.

Ao usar esse quadro de referências que, claro, foi predominante por décadas, The NY Times contribui para a visão de que pobreza e riqueza possam ser analisadas e discutidas em termos não sistêmicos. Mas... E se a desigualdade estiver inscrita nas fundações da sociedade norte-americana?

E o quanto, para o bem ou para o mal, têm a ver com o fracasso econômico demográfico, o gasto militar massivo, a guerra, a intervenção e o militarismo em geral?

Os EUA como nação dependemos do militarismo. Os números seriam ainda piores se não estivessem aí esses gastos e essas políticas militaristas. E nem se fala do empurrão artificial que a economia recebeu.

O discurso “Estado da União” de Obama foi solene farsa, em plena discussão séria sobre “em que pé estamos?”. O imposto para empresas que ele propõe é inferior ao que temos vigente hoje. A “desregulação” de Obama só faz promover a consolidação financeira de vários modos da acumulação de capital. Ponha na mesma conta a inflação, e o que se tem, seja por decisão política ou por consenso bipartidário, é muita gente lutando para não morrer.


Nota dos Tradutores

[1] HERBERT MARCUSE [1898-1979] (1941) Razão e Revolução. Hegel e o surgimento da teoria social, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

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[*] Norman Pollack é o autor de “The Populist Response to Industrial America” (Harvard) e “The Just Polity” (Illinois), Guggenheim Fellow e professor emérito de História na Michigan State University. Seu último livro, Eichmann on the Potomac, foi publicado por CounterPunch/AK Press, no outono de 2013.







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