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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A opção Faluja na Ucrânia do Leste

A razão real porque Washington se sente ameaçada por Moscovo
A opção Faluja na Ucrânia do Leste
por Mike Whitney [*]


"Na verdade, se o combate acabasse amanhã as sanções seriam levantadas pouco após e a economia russa começaria a recuperar. Como é que isso beneficiaria Washington?

Não beneficiaria. Minaria o plano mais vasto de Washington de integrar a China e a Rússia no sistema económico prevalecente, o sistema dólar. Pessoas influentes nos EUA percebem que o actual sistema deve ou expandir-se ou entrar em colapso. Ou a China e a Rússia são submetidas e persuadidas a aceitar um papel subordinado na ordem global liderada pelos EUA ou a permanência de Washington como poder hegemônico global chegará a um fim.

Esta é a razão porque as hostilidades no Leste da Ucrânia escalaram e continuarão a escalar. Esta é a razão porque o Congresso dos EUA aprovou uma lei para aplicar sanções mais duras ao sector energético da Rússia e ajuda letal aos militares da Ucrânia. Esta é a razão porque Washington enviou instrutores militares para a Ucrânia e prepara-se para providenciar US$3 milhares de milhões em "mísseis anti-blindagem, drones de reconhecimento, Humvees armados e radares que possam determinar a localização de rockets e fogo de artilharia inimigo". Todas as acções de Washington são concebidas com um único propósito em mente: intensificar o combate e escalar o conflito. As pesadas perdas do inexperiente exército da Ucrânia e o terrível sofrimento dos civis em Lugansk e Donetsk não têm interesse para os planeadores de guerra dos EUA."

Washington precisa de uma guerra na Ucrânia para alcançar seus objectivos estratégicos. Este ponto não pode ser demasiado enfatizado. 

Os EUA querem empurrar a NATO para as fronteiras ocidentais da Rússia. Querem uma ponte de terra para a Ásia a fim de espalhar bases militares estado-unidenses por todo o continente. Querem controlar os corredores de gasodutos da Rússia para a Europa a fim de monitorar as receitas de Moscovo e assegurar que o [preço do] gás continua a ser denominado em dólares. E querem uma Rússia mais fraca e instável pois assim fica mais propensa a mudança de regime, a fragmentação e, em última análise, a controle estrangeiro. Estes objectivos não podem ser alcançados pacificamente. Na verdade, se o combate acabasse amanhã as sanções seriam levantadas pouco após e a economia russa começaria a recuperar. Como é que isso beneficiaria Washington? 

Não beneficiaria. Minaria o plano mais vasto de Washington de integrar a China e a Rússia no sistema econômico prevalecente, o sistema dólar. Pessoas influentes nos EUA percebem que o actual sistema deve ou expandir-se ou entrar em colapso. Ou a China e a Rússia são submetidas e persuadidas a aceitar um papel subordinado na ordem global liderada pelos EUA ou a permanência de Washington como poder hegemônico global chegará a um fim. 

Esta é a razão porque as hostilidades no Leste da Ucrânia escalaram e continuarão a escalar. Esta é a razão porque o Congresso dos EUA aprovou uma lei para aplicar sanções mais duras ao sector energético da Rússia e ajuda letal aos militares da Ucrânia. Esta é a razão porque Washington enviou instrutores militares para a Ucrânia e prepara-se para providenciar US$3 milhares de milhões em "mísseis anti-blindagem, drones de reconhecimento, Humvees armados e radares que possam determinar a localização de rockets e fogo de artilharia inimigo". Todas as acções de Washington são concebidas com um único propósito em mente: intensificar o combate e escalar o conflito. As pesadas perdas do inexperiente exército da Ucrânia e o terrível sofrimento dos civis em Lugansk e Donetsk não têm interesse para os planeadores de guerra dos EUA. A sua tarefa é assegurar que a paz seja evitada a todo custo porque a paz descarrilaria os planos estado-unidenses para voltar-se para a Ásia e permanecer a única superpotência mundial. Aqui está um excerto de um artigo no WSWS:
"O objectivo final dos EUA e seus aliados é reduzir a Rússia a um status empobrecido e semi-colonial. Uma tal estratégia, historicamente associada a Zbigniew Brzezinski, antigo conselheiro de segurança nacional da administração Carter, está outra vez a ser promovida abertamente.  
Num discurso no ano passado no Wilson Center, Brzezinski conclamou Washington a abastecer Kiev com "armas destinadas particularmente a permitir aos ucranianos empenharem-se em eficaz guerra urbana de resistência". Em linha com as políticas agora recomendadas no relatório da Brookings Institution e outros think tanks que clamam por armas americanas para o regime de Kiev, Brzezinski pediu que providenciassem "armas anti-tanque... armas capazes para utilização em combate urbano a curta distância". 
Se bem que a estratégia esboçada por Brzezinski seja politicamente criminosa – aprisionando a Rússia numa guerra urbana na Ucrânia que ameaçaria provocar a morte de milhões, se não mesmo milhares de milhões de pessoas – ela está plenamente alinhada às políticas que durante décadas ele tem promovido contra a Rússia". ( "The US arming of Ukraine and the danger of World War III" , World Socialist Web Site)

A ajuda militar não letal inevitavelmente levará à ajuda militar letal, armamento refinado, zonas de interdição de voo, assistência encoberta, mercenários estrangeiros, operações especiais e botas sobre o terreno. Já vimos tudo isso antes. Não há oposição popular à guerra nos EUA, nenhum movimento anti-guerra influente que possa paralisar cidades, ordenar uma greve geral ou desestabilizar o status quo. Assim, não há meio de travar o persistente impulso para a guerra. Os media e os políticos deram carta branca a Obama, autoridades para prosseguir o conflito como ele quiser. Isso aumenta a probabilidade de uma guerra mais vasta neste próximo Verão a seguir ao degelo da Primavera. 

Ainda que a possibilidade de uma conflagração nuclear não possa ser excluída, isso não afectará os planos dos EUA para o futuro próximo. Ninguém pensa que Putin lançará uma guerra nuclear para proteger o Donbass, de modo que o valor dissuasor das armas é perdido. 

E Washington tão pouco está preocupada acerca de custos. Apesar das incompetentes (botched) intervenções militares no Afeganistão, Iraque, Líbia e uma meia dúzia de outros países por todo o mundo, as acções dos EUA ainda estão a subir, o investimento estrangeiro em Títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries) está em níveis recorde, a economia dos EUA cresce a um ritmo mais rápido do que a de qualquer dos seus competidores globais e o dólar subiu uns espantosos 13 por cento desde Junho último em relação a um cabaz de divisas estrangeiras. A América nada tem pago por dizimar vastas partes do planeta e matar mais de um milhão de pessoas. Por que eles iriam parar agora? 

Eles não pararão, razão pela qual o combate na Ucrânia está em vias de escalar. Verifique isto do WSWS:
"Na segunda-feira, o New York Times anunciou que a administração Obama está a inclinar-se para armar directamente o exército ucraniano e as milícias fascistas que apoiam o regime de Kiev suportado pela NATO, após as suas recentes derrotas na ofensiva contra as forças separatistas pró-russas no Leste da Ucrânia.  
O artigo cita um relatório conjunto emitido segunda-feira pela Brookings Institution, pelo Atlantic Council e pelo Chicago Council on Global Affairs e entregue ao Presidente Obama, aconselhado a Casa Branca e a NATO sobre o melhor caminho para escalar a guerra na Ucrânia...  
De acordo com o Times, oficiais dos EUA estão rapidamente a apoiar as propostas do relatório. O comandante militar da NATO na Europa, general Philip M. Breedlove, o secretário da Defesa Chuck Hagel, o secretário de Estado dos EUA John Kerry e o chefe do estado-maior das forças armadas general Martin Dempsey todos apoiaram as discussões sobre armar Kiev. A conselheira de segurança nacional Susan Rice está a reconsiderar a sua oposição a armar Kiev, abrindo o caminho para a aprovação de Obama" ( "Washington moves toward arming Ukrainian regime", World Socialist Web Site)
Vêem o que está a acontecer? A morte já está no molde. Haverá uma guerra com a Rússia porque é o que o establishment político quer. É muito simples. E apesar de provocações anteriores não terem conseguido atrair Putin para dentro do caldeirão ucraniano, este novo surto de violência – uma ofensiva na Primavera – está obrigado a fazer o truque. Putin não vai sentar sobre as suas mãos enquanto procuradores (proxies) armados com armas americanas e logística americana bombardearem o Donbass até chegar a uma ruína tipo Faluja . Ele fará o que qualquer líder responsável faria. Ele protegerá o seu povo. Isso significa guerra. (Ver aqui o vasto dano que a guerra proxy de Obama já fez no Leste da Ucrânia: "An overview of the socio – humanitarian situation on the territory of Donetsk People's Republic as a consequence of military action from 17 to 23 January 2015"

Guerra assimétrica: queda dos preços do petróleo 

Manter em mente que a economia russa já foi abalada pelas sanções econômicas, pela manipulação do preço do petróleo e por um ataque vicioso ao rublo. Até esta semana, os media de referência afastavam a ideia de que os sauditas estivessem deliberadamente a deitar abaixo os preços do petróleo a fim de ferir a Rússia. Eles diziam que os sauditas estavam simplesmente a tentar reter "fatia de mercado" mantendo os níveis de produção actuais e deixando os preços caírem naturalmente. Mas isto eram tudo asneiradas como o New York Times admitiu finalmente na quinta-feira num artigo intitulado: "Saudi Oil Is Seen as Lever to Pry Russian Support From Syria's Assad". Aqui está um recorte do artigo:
"A Arábia Saudita tem estado a tentar pressionar o Presidente Vladimir V. Putin da Rússia a abandonar seu apoio ao Presidente Bashar al-Assad da Síria, utilizando a sua dominância dos mercados globais de petróleo num momento em que o governo russo está a cambalear devido aos efeitos da queda livre nos preços...  
Responsáveis sauditas disseram – e contaram aos Estados Unidos – que pensam terem alguma influência sobre o sr. Putin devido à sua capacidade para reduzir a oferta de petróleo e possivelmente aumentos de preços... Qualquer enfraquecimento do apoio russo ao sr. Assad podia ser um dos primeiros sinais de que o recente tumulto no mercado petrolífero está a ter um impacto sobre a política global...  
A influência da Arábia Saudita depende de quão seriamente Moscovo encara o seu declínio de receitas petrolíferas. "Se eles estiverem sofrendo tanto de modo a precisarem que o acordo petrolífero no imediato, os sauditas estão em boa posição para fazê-los pagar um preço geopolítico", disse F. Gregory Gause III, especialista em Médio Oriente da Texas A&M's Bush School of Government and Public Service ( "Saudi Oil Is Seen as Lever to Pry Russian Support From Syria's Assad" , New York Times )
Os sauditas "pensam que têm alguma influência sobre o sr. Putin devido à sua capacidade para manipular preços? 

Isto diz tudo, não é? 

O interessante neste artigo é o modo como entra em conflito com peças anteriores no Times. Exemplo: apenas duas semanas atrás, num artigo intitulado "Quem dominará o mercado petrolífero?" o autor deixou de ver qualquer motivo político por trás da actuação saudita. Segundo a narrativa, os sauditas estavam apenas temerosos de que "perderiam uma fatia de mercado permanentemente" se cortassem a produção e mantivessem preços elevados. Agora o Times fez uma guinada de 180º e aderiu aos chamados malucos da conspiração que diziam que os preços eram manipulados por razões políticas. De facto, o afundamento súbito do preço nada tem a ver com pressões deflacionárias, dinâmicas de oferta-procura ou qualquer outra superstição de forças de mercado. Foi 100 por cento político. 

O ataque ao rublo também foi politicamente motivado, embora os pormenores sejam muito mais incompletos. Há uma entrevista interessante com Alistair Crooke que vale a pena ler para aqueles que estão curiosos acerca de como a "dominância de pleno espectro" ("full spectrum dominance") do Pentágono se aplica à guerra financeira. Segundo Crooke:

"... com a Ucrânia, entramos numa nova era. Temos um substancial conflito geoestratégico a verificar-se, mas ele é efectivamente uma guerra geo-financeira entre os EUA e a Rússia. Temos o colapso nos preços do petróleo; temos as guerras de divisas; temos o "shorting" forçado – selling short – do rublo. Temos uma guerra geo-financeira e o que estamos a assistir como consequência desta guerra geo-financeira é que em primeiro lugar ela provocou uma estreita aliança entre a Rússia e a China. 

A China entende que a Rússia constitui o primeiro dominó; se a Rússia cair, a China será o seguinte. Estes dois estados estão a mover-se em conjunto para criar um sistema financeiro paralelo, desembaraçado do sistema financeiro ocidental. ... 

Durante algum tempo a ordem internacional estava estruturada em torno das Nações Unidas e do corpo do direito internacional, mas cada vez mais o Ocidente tem tendido a ultrapassar a ONU como instituição destinada a manter a ordem internacional e, ao invés, a confiar em sanções econômicas para pressionar alguns países. Temos um sistema financeiro baseado no dólar e, embora instrumentalizando a posição da América como controladora de todas as transacções em dólar, os EUA foram capazes de ultrapassar as velhas ferramentas da diplomacia e da ONU – a fim de promover seus objectivos. 

Mas, cada vez mais, este monopólio sobre a divisa de reserva tornou-se a ferramenta unilateral dos Estados Unidos – afastando a acção multilateral na ONU. Os EUA afirmam sua jurisdição sobre qualquer transacção denominada em dólar que se verifique em qualquer parte do mundo. E a maior parte das transacções de negócios e comerciais no mundo são denominadas em dólares. Isto essencialmente constitui a financiarização da ordem global. A Ordem Internacional depende mais do controle do Tesouro e do Federal Reserve dos EUA do que da ONU como antes". ( "Turkey might become hostage to ISIL just like Pakistan did" , Today's Zaman)

Guerra financeira, guerra assimétrica, guerra de Quarta Geração, guerra no espaço, guerra da informação, guerra nuclear, guerra de laser, química e biológica. Os EUA expandiram seu arsenal bem além do conjunto tradicional de armamento convencional. O objectivo, naturalmente, é preservar a ordem mundial pós 1991 (A dissolução da União Soviética) e manter a dominância de pleno espectro. A emergência de uma ordem mundial multipolar encabeçada por Moscovo coloca a maior ameaça única aos planos de Washington pela dominação contínua. O primeiro choque significativo entre estas duas visões de mundo competidoras provavelmente terá lugar em algum momento neste Verão no Leste da Ucrânia. Deus nos ajude. 

Nota: As Forças Armadas da Novorússia (FAN) actualmente mantém cercados 8.000 soldados regulares em Debaltsevo, no Leste da Ucrânia. Isto é algo muito grande embora os media tenham estado (como era de prever) a afastar a notícia das manchetes. 

Foram abertos corredores de evacuação para permitir a civis deixarem a área. O combate pode estalar a qualquer momento. Actualmente, aparentemente um boa parte do exército nazi de Kiev poderia ser destruído numa só tacada. Eis porque Merkel e Hollande fizeram um voo de emergência para Moscovo a fim de conversar com Putin. Eles não estão interessados na paz. Eles simplesmente querem salvar o seu exército proxy da aniquilação. 

Espero que Putin possa intervir em prol dos soldados ucranianos, mas penso que o comandante Zakharchenko resistirá. Se ele deixar estas tropas irem embora agora, que garantia tem ele de que elas não voltarão daqui a um mês ou pouco mais ou menos com armamento de alto poder fornecido pelo nosso Congresso belicista e pela Casa Branca? 

Contem-me: que opções Zakharchenko realmente tem? Se os seus camaradas forem mortos em futuro combate porque ele deixou o exército de Kiev escapar, quem pode ele culpar senão a si próprio? 

Não há boas opções. 









Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .



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