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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Stáline, a época de Stáline e o stalinismo

Stáline, a época de Stáline e o stalinismo
por Aleksandr Zinóviev

"O grande papel histórico de Lénine consistiu em ter elaborado a ideologia da revolução socialista, ter criado uma organização de revolucionários profissionais, orientada para a conquista do poder, ter dirigido as forças para a tomada e conservação do poder quando surgiu a oportunidade, ter avaliado a situação e assumido o risco da tomada do poder, ter utilizado o poder para destruir o sistema social existente e organizado as massas para a defesa das conquistas da revolução, contra os contra-revolucionários e os intervencionistas. Em suma, consistiu em ter criado as condições necessárias para a construção do regime social comunista na Rússia.

No entanto, esse regime em si formou-se já depois da sua morte, no período de Stáline, formou-se sob direcção de Stáline. O papel destas figuras é de tal modo enorme que se pode afirmar peremptoriamente que sem Lénine a revolução socialista não teria vencido, e que sem Stáline não teria surgido a primeira sociedade comunista da história de grande dimensão. Um dia, quando a humanidade, em nome da sua auto preservação, voltar a ver o comunismo como a única via de evitar o colapso, o século XX será chamado o século de Lénine e de Stáline. "
"Em última análise, Stáline e os seus companheiros agiram em conformidade com a necessidade vital e as tendências objectivas da vida real, e não em função de quaisquer dogmas ideológicos, como lhes imputam os falsificadores da história soviética. "

Passaram 50 anos ( 1 ) desde a morte de Stáline. No entanto, Stáline e tudo o que está ligado à sua acção não são algo que pertence ao passado longínquo e indiferente às pessoas. Ainda estão vivos bastantes representantes de gerações para os quais a época de Stáline continua a ser a sua época, independentemente da forma como a encaram. Mas o principal é que Stáline pertence ao grupo daquelas personalidades históricas que permanecem eternamente como importantes acontecimentos da nossa época para todas as futuras gerações. Assim, a data redonda de meio século é apenas um pretexto para abordar temas que são eternamente actuais. Neste ensaio pretendo analisar, não factos e acontecimentos concretos da época e da vida de Stáline, mas apenas a sua essência social. 

A época de Stáline. Para fazer uma caracterização objectiva da época de Stáline é necessário primeiramente determinar o seu lugar na história do comunismo russo (soviético). Hoje pode considerar-se como um facto a existência de quatro períodos na história do comunismo russo: 

1) o nascimento; 
2) a juventude (ou amadurecimento); 
3) a maturidade; 
4) a crise e o perecimento. 

O primeiro período abrange os anos entre a Revolução de Outubro de 1917 e a eleição de Stáline para secretário-geral do CC do partido em 1922 ou até à morte de Lénine em 1924. Este período pode-se designar de leninista, pelo papel que nele desempenhou Lénine. 

O segundo período abarca os anos seguintes até à morte de Stáline, em 1953, ou até ao XX Congresso do partido em 1956. Este é o período de Stáline. 

Inicia-se então o terceiro período que termina com chegada ao poder de Gorbatchov em 1985. Este é o período de Khruchov-Bréjnev. E o quarto período, iniciado com a conquista do poder por Gorbatchov, termina com o golpe anticomunista em Agosto de 1991, encabeçado por Éltsine, e a destruição do comunismo russo (soviético).

Depois do XX Congresso do PCUS (1956) estabeleceu-se firmemente a ideia de que o período de Stáline foi um período hediondo, e o próprio Stáline – o mais hediondo de todos facínoras na história da humanidade. 

Hoje, só se aceita como verdade a denúncia das chagas do stalinismo e dos defeitos de Stáline. As tentativas de abordar objectivamente este período e a personalidade de Stáline são consideradas como apologismo do stalinismo. Mesmo assim arrisco desviar-me da linha denunciatória e manifestar-me em defesa, não de Stáline e do stalinismo, mas da sua compreensão objectiva. 

Penso que tenho esse direito moral, porquanto na minha verde juventude fui um anti-stalinista convicto. Em 1939 era membro de um grupo terrorista que tencionava realizar um atentado contra Stáline. Fui preso por intervir publicamente contra o culto de Stáline e até à sua morte fiz propaganda anti-stalinista clandestinamente. 

Depois da morte de Stáline suspendi essa actividade, guiando-me pelo princípio de que num leão morto até um burro pode dar coices. O falecido Stáline não podia ser o meu inimigo. Os ataques contra Stáline deixaram de ser punidos, tornaram-se habituais e eram mesmo estimulados. Além disso, nessa altura já tinha enveredado pela abordagem científica da sociedade soviética, incluindo a época de Stáline. De seguida exponho as principais conclusões a que cheguei, na sequência de muitos anos de investigações científicas. 

Lenine e Stáline. Nos anos de Stáline, a ideologia e propaganda soviéticas apresentavam Stáline como «o Lénine de hoje». Hoje penso que isso é justo. Naturalmente que há diferenças entre Lénine e Stáline, mas o principal, no entanto, é que o stalinismo foi a continuação e o desenvolvimento do leninismo, tanto na teoria como na prática da construção do comunismo real. 

Stáline fez a melhor exposição do leninismo como ideologia. Foi um fiel discípulo e continuador de Lénine. Quaisquer que tenham sido as suas relações pessoais concretas, do ponto de vista sociológico formam uma personalidade histórica una. Caso único na história. Não conheço outro caso em que uma figura política de grande dimensão tenha elevado literalmente à posição divina o seu antecessor no poder, como fez Stáline a Lénine. 

Depois do XX Congresso do PCUS começou-se a opor Stáline a Lénine, e a considerar o stalinismo como um desvio ao leninismo. Stáline efectivamente «desviou-se» do leninismo, não no sentido de o ter atraiçoado, mas sim no sentido em que lhe introduziu um contributo tão importante que podemos legitimamente falar do stalinismo como um fenômeno particular. 

A revolução política e social. O grande papel histórico de Lénine consistiu em ter elaborado a ideologia da revolução socialista, ter criado uma organização de revolucionários profissionais, orientada para a conquista do poder, ter dirigido as forças para a tomada e conservação do poder quando surgiu a oportunidade, ter avaliado a situação e assumido o risco da tomada do poder, ter utilizado o poder para destruir o sistema social existente e organizado as massas para a defesa das conquistas da revolução, contra os contra-revolucionários e os intervencionistas. Em suma, consistiu em ter criado as condições necessárias para a construção do regime social comunista na Rússia.

No entanto, esse regime em si formou-se já depois da sua morte, no período de Stáline, formou-se sob direcção de Stáline. O papel destas figuras é de tal modo enorme que se pode afirmar peremptoriamente que sem Lénine a revolução socialista não teria vencido, e que sem Stáline não teria surgido a primeira sociedade comunista da história de grande dimensão. Um dia, quando a humanidade, em nome da sua auto preservação, voltar a ver o comunismo como a única via de evitar o colapso, o século XX será chamado o século de Lénine e de Stáline. 

Distingo a revolução política da revolução social. Na revolução russa ambas se fundiram. Mas no período de Lénine prevaleceu a primeira, enquanto no período de Stáline foi a segunda que passou para primeiro plano. 

A revolução social não consistiu na liquidação das classes dos capitalistas e latifundiários, na liquidação da propriedade privada da terra, das fábricas e empresas, dos meios de produção. Esse foi apenas o lado negativo, destruidor, da revolução política. A revolução social, enquanto tal, pelo seu conteúdo positivo, edificador, significou a criação de uma nova organização social das massas de muitos milhões da população do país. 

Este foi um grandioso processo sem precedentes de integração de milhões de pessoas em colectivos comunistas, numa nova estrutura social com novas relações entre as pessoas, um processo de formação de muitas centenas de milhares de células laborais, de um tipo nunca antes visto, e da sua unificação num todo único igualmente nunca antes visto. Este foi um processo grandioso de criação de um novo modo de vida para milhões de pessoas, com uma nova psicologia e ideologia. 

Quero chamar particular atenção para a seguinte situação. Tanto os críticos como os apologistas do stalinismo concebem este processo como se Stáline e os seus companheiros se tivessem limitado a concretizar os projectos marxistas-leninistas. Isto é um profundo erro. Não havia de todo qualquer projecto desses. Havia ideias gerais e consignas que podiam ser interpretadas, e que foram na realidade interpretadas, como se costuma dizer, a torto e a direito. Nem Stáline nem os seus correligionários dispunham de tais projectos. O que aconteceu foi criação histórica, no sentido pleno da palavra. Os construtores da nova sociedade tinham ante si tarefas concretas no estabelecimento da ordem social, no combate à criminalidade, aos desamparados, na garantia de alimentos e alojamento às pessoas, na construção de escolas e hospitais, na criação de meios de transporte, construção de empresas industriais para a produção dos bens de consumo necessários, etc. 

Agiram em função das necessidades vitais, em função dos meios e condições existentes, em função das leis sociais objectivas, de que não tinham a mínima noção, mas com as quais tiveram de se confrontar na prática, agindo segundo o princípio da experimentação e erro. Não pensaram que, desse modo, estavam a criar as células do novo organismo social com a sua estrutura natural e relações sociais objectivas, independentes da sua vontade. A sua acção teve êxito na medida em que, de uma ou de outra forma, levaram em conta as condições objectivas e as leis da organização social. Em última análise, Stáline e os seus companheiros agiram em conformidade com a necessidade vital e as tendências objectivas da vida real, e não em função de quaisquer dogmas ideológicos, como lhes imputam os falsificadores da história soviética. 

Noto a propósito que as riquezas materiais e culturais criadas nos anos de Stáline foram tão imensas que, em comparação, as riquezas herdadas da Rússia pré-revolucionária parecem uma gota de água no oceano.

Tudo o que foi nacionalizado e socializado depois da revolução teve na realidade muito menos significado do que se costuma dizer. A base material e cultural da nova sociedade teve de ser criada de raiz depois da revolução, utilizando o novo sistema de poder.

Com o tempo, as tarefas concretas que obrigaram os construtores da nova sociedade a realizar a colectivização, a industrialização e outras iniciativas de grande escala, passaram para segundo plano ou foram concluídas. Em contrapartida o aspecto social, não consciencializado e não planificado, revelou-se como uma das principais realizações deste período da história do comunismo russo.

Talvez o mais importante resultado da revolução social, que atraiu para o lado do novo regime a esmagadora maioria da população, tenha sido a formação de colectivos laborais, graças aos quais as pessoas acediam à vida pública e sentiam que a sociedade e as autoridades zelavam por elas. A propensão das pessoas para a vida colectiva, sem patrões e com a participação activa de todos, era algo nunca antes visto em parte alguma. 

As manifestações e as assembleias eram voluntárias. As pessoas encaravam-nas como festas. Apesar de todas as dificuldades, a ilusão de que o poder no país pertencia ao povo impunha-se a todos naqueles anos. O fenômeno do colectivismo era entendido precisamente como um indicador do poder popular. Poder popular, não na acepção da democracia ocidental, mas na acepção literal.

Os representantes das camadas inferiores da população (que eram a maioria) ocupavam os patamares inferiores do palco social e participavam no espetáculo social não só como espectadores, mas na qualidade de actores. Os actores que estavam nos patamares mais elevados do palco e nos papéis mais importantes, na sua grande massa, eram também na altura oriundos do povo. A história nunca tinha conhecido uma dinâmica vertical da população como a verificada naqueles anos.

A colectivização e a industrialização. Existe a ideia firme de que os kolkhozes foram uma invenção hedionda de Stáline com base em puras considerações ideológicas. Isto é um absurdo espantoso. A ideia dos kolkhozes não é uma ideia de Marx e nada tem a ver com o marxismo clássico. Não foi introduzida na vida a partir da teoria. Nasceu na própria vida real e não no comunismo imaginário. A ideologia apenas foi utilizada como meio de legitimação desta criação histórica.

A colectivização não resultou de uma intenção malévola, mas foi uma inevitabilidade trágica. De qualquer modo, o processo de êxodo das pessoas para as cidades não podia ser travado. A colectivização acelerou-o. Sem ela, este processo arrastar-se-ia, provavelmente de forma ainda mais dolorosa, durante várias gerações. Mas a situação estava longe de proporcionar à direcção soviética a possibilidade de escolha. Nas condições historicamente criadas, a escolha para a Rússia era viver ou morrer. E no que respeita às vias de sobrevivência não havia qualquer escolha. Stáline não foi o artífice da tragédia russa, mas apenas o seu intérprete. Os kolkhozes foram um mal, mas não de longe um mal absoluto. Sem eles, nas condições existentes, teria sido impossível a industrialização, e sem a última o nosso país teria sido destruído logo nos anos 30, se não antes.

Mas, em si, os kolkhozes não tinham apenas defeitos. Uma das seduções do comunismo real, e uma das suas realizações, consistiu em libertar as pessoas da ansiedade e responsabilidade ligadas à propriedade. Apesar de os kolkhozes terem desempenhado este papel de forma negativa para dezenas de milhões de pessoas, os jovens puderam tornar-se tractoristas, mecânicos, contabilistas, chefes de brigada, etc.. À volta dos kolkhozes surgiram cargos «intelectuais» nos clubes, postos médicos, escolas, estações de máquinas e tractores.

O trabalho conjunto de muitas pessoas transformou-se em vida social, e o facto em si de interagirem proporcionava diversão. As reuniões, conferências, conversas, as sessões de propaganda e outros eventos da nova vida ligados aos kolkhozes tornaram a vida das pessoas mais interessante do que era antes. No nível cultural em que estava a grande massa da população, tudo isto teve uma enorme importância, não obstante a pobreza e o formalismo dessas iniciativas.

Tal como a colectivização, também a industrialização da sociedade soviética foi mal compreendida. O seu aspecto mais importante, precisamente o aspecto sociológico, escapou ao campo de visão tanto dos apologistas como dos críticos do stalinismo. Os críticos analisaram a industrialização, em primeiro lugar, a partir de critérios da economia ocidental, como economicamente não rentável (uma absurdidade, segundo os seus conceitos) e, em segundo lugar, como um voluntarismo ditado por considerações ideológicas. Quanto aos apologistas passou-lhes despercebido o facto de que aqui nasceu o fenômeno qualitativamente novo da super-economia, graças à qual a União Soviética, num prazo surpreendentemente curto, se tornou uma grande potência industrial. O mais espantoso é que também não se aperceberam do papel que a industrialização desempenhou na organização social das massas da população.

A organização do poder. Nestes anos, por um lado, decorreu a integração dos diferentes povos dispersos por um território imenso num organismo social único, por outro lado, decorreu a diferenciação interna e a complexificação estrutural deste organismo. Este processo gerou necessariamente a expansão e densificação do sistema de poder e de administração da sociedade. Nas novas condições deu também origem a novas funções de poder e de administração. Foi precisamente na época de Stáline que se formou o sistema estatal e partidário de poder e administração. Mas este sistema não surgiu logo a seguir à revolução. A sua criação demorou muitos anos, apesar de o país precisar de ser governado desde os primeiros dias da existência da nova sociedade. Como era então governado? Naturalmente que antes da revolução existia o aparelho de Estado da Rússia. Mas este foi destruído pela revolução. Os seus fragmentos e a experiência de trabalho foram utilizados para a criação da nova máquina do Estado. Mas isso não bastava, era preciso algo mais. Este outro meio de administração do país, nas condições da destruição que se seguiram à revolução e de criação de um sistema normal de poder, foi o poder popular nascido com a revolução.

Ao utilizar a expressão «poder popular» ou «poder do povo» não lhe atribuo qualquer sentido valorativo. Não partilho a ilusão de que, alegadamente, o poder popular é uma coisa boa. Refiro-me apenas a uma determinada estrutura de poder em determinadas circunstâncias históricas e nada mais.

Eis os traços principais do poder popular. A maioria esmagadora dos cargos de direcção, dos níveis inferiores à própria cúpula, era ocupada por pessoas oriundas das camadas inferiores da população. Falamos de milhões de pessoas. O dirigente oriundo do povo, na sua actividade, dirige-se directamente ao próprio povo, ignorando o aparelho oficial. Para as massas populares o aparelho oficial apresenta-se como algo que lhes era hostil e como um empecilho para o seu líder dirigente. Daqui resultaram métodos de direcção voluntaristas. Isto porque o dirigente superior tem livre arbítrio para manipular os funcionários do aparelho inferior do poder oficial, transferi-los, prendê-los.

O dirigente aparecia com um líder do povo. O poder sobre as pessoas era sentido directamente, sem quaisquer escalões intermédios e camuflagens. O poder popular é a organização das massas da população. O povo deve estar organizado de uma determinada maneira, para que os seus líderes possam dirigi-lo segundo a sua vontade. A vontade de líder não tem peso sem a correspondente preparação e organização da população. Para isso havia certos meios, antes de mais, todo o tipo de activistas, pioneiros, operários de choque, heróis. A grande massa das pessoas é em princípio passiva. Para mobilizá-la e orientá-la na direcção necessária é preciso seleccionar uma parte activa relativamente pequena. Esta parte precisa de ser estimulada, ter algumas vantagens e ser investida de poder real sobre a restante parte da população. E em todas as instituições surgiram grupos informais de activistas, que na prática tinham sob vigilância e controlo toda a vida do colectivo e dos seus membros. Dirigir as instituições sem o seu apoio era praticamente impossível. Os activistas eram habitualmente pessoas com uma posição social relativamente baixa, e por vezes a mais baixa. Com frequência eram entusiastas desinteressados. Mas, gradualmente, este quadro de activistas de base transformou-se numa máfia, que aterrorizava todos os trabalhadores da instituição e dava indicações sobre tudo. Mas tinha o apoio do colectivo e dos dirigentes de cima. Nisto residia a sua força.

No sistema de Stáline, o poder superior não era o aparelho estatal, mas o supra estatal, desvinculado de quaisquer normas legislativas. Era composto por cliques de pessoas, cuja posição na clique e a parte do poder que detinham dependiam pessoalmente do chefe (líder). Estas cliques formaram-se em todos os níveis da hierarquia, começando na cúpula, encabeçada pelo próprio Stáline, até ao nível das regiões e empresas.

As principais alavancas do poder eram o aparelho do partido e o partido no seu conjunto, os sindicatos, o Komsomol, os órgãos de segurança do Estado, as forças da ordem internas, o comando militar, o corpo diplomático, os chefes das instituições e das empresas que executavam tarefas estatais de especial relevância, a elite científica e cultural, etc. O poder estatal (os sovietes) subordinavam-se ao poder supra-estatal.

Um componente importante do poder de Stáline era o que se começou a designar por «nomenclatura». O papel da «nomenclatura» foi muito exagerado e deturpado pela propaganda anti-soviética. O que era realmente a nomenclatura? Nos anos de Stáline integravam a nomenclatura funcionários do partido especialmente seleccionados e fiáveis do ponto de vista do poder central, que asseguravam a direcção de grandes massas de pessoas nas diferentes regiões do país e nas diversas esferas da vida da sociedade.

A situação da direcção era relativamente simples. As orientações gerais eram claras e estáveis, os métodos de direcção primitivos e padronizados, o nível cultural e profissional das massas dirigidas era baixo, as tarefas da actividade das massas e as regras da sua organização eram relativamente simples e mais ou menos uniformes. Deste modo, praticamente qualquer dirigente partidário integrado na nomenclatura podia com idêntico êxito dirigir a literatura, o território de toda uma região, a indústria pesada, a música, o desporto. A principal tarefa de uma direcção deste tipo consistia em promover e manter a unidade e a centralização da direcção do país, familiarizar a população com as novas formas de inter-relacionamento com o poder, e resolver a qualquer preço alguns problemas com importância de Estado.

As repressões. A questão das repressões tem uma importância primordial para a compreensão tanto da história da formação do comunismo russo, como da sua essência enquanto regime social. Aqui coincidiram factores de natureza diversa, ligados não só à essência do regime social comunista, mas também às condições históricas concretas, bem como com às condições naturais da Rússia, às suas tradições históricas e ao carácter do material humano existente.

Tinha havido a Guerra Mundial [I]. O império russo ruiu (nisto os comunistas foram os menos culpados). Deu-se a revolução. No país reina a desorganização, a destruição, a fome e miséria, floresce a criminalidade. Dá-se uma nova revolução, desta vez socialista. Segue-se a guerra civil, a intervenção, as insurreições. Nenhum poder poderia estabelecer a mais elementar ordem social sem repressões em massa. A própria formação do novo regime social foi acompanhada literalmente por uma orgia de criminalidade em todas as esferas da sociedade, em todas as regiões do país, em todos os níveis da hierarquia em formação, incluindo nos próprios órgãos de poder, administrativos e punitivos. O comunismo entrou na vida como uma libertação das massas, não só das grilhetas do antigo regime, mas também dos mais elementares factores de contenção.

O desmazelo, o fingimento, o roubo, a corrupção, o alcoolismo, a prevaricação em cargos públicos, etc., que floresceram na época anterior à revolução, tornaram-se literalmente normas gerais do modo de vida dos russos (agora soviéticos). As organizações do partido, o Komsomol, os colectivos, a propaganda, os órgãos de educação, etc., envidaram esforços titânicos para alterar esta situação. E efectivamente muito foi conseguido. Mas seriam impotentes sem os órgãos punitivos.

O sistema de Stáline de repressões em massa surgiu como uma medida de autodefesa da nova sociedade, em relação à epidemia de criminalidade gerada por um conjunto de circunstâncias. Este sistema tornou-se um factor activo permanente da nova sociedade, um elemento necessário à sua autoconservação.

A revolução econômica. Sobre a economia da época de Stáline é muito pouco dizer que se procedeu à colectivização e à industrialização. Neste período foi criada uma forma especificamente comunista de economia, que chamaria mesmo de super-economia. Eis as suas características principais. Nos anos de Stáline foi criado um número enorme de colectivos laborais de base (células), que no seu conjunto deram origem a uma super-economia especificamente comunista. As células não eram constituídas espontaneamente, por vontade individual, mas sim por decisão das autoridades. Estas decidiam as tarefas das células, o número e quais os trabalhadores que deviam contratar, a remuneração e todos os restantes aspectos da sua actividade. Isto não resultava do arbítrio total das autoridades. Estas levavam em conta a situação existente e as possibilidades reais. As células econômicas integravam-se no sistema de outras células, ou seja, faziam parte de grandes uniões econômicas (tanto por ramos como territoriais), e em última instância de toda a economia no seu conjunto. Naturalmente que tinham alguma autonomia na sua actividade. Mas no essencial estavam limitadas às tarefas e condições das mencionadas uniões.

Acima das células econômicas criou-se uma estrutura hierárquica em forma de rede, constituída por instituições de poder e administrativas, que assegurava a coordenação da sua actividade. Esta estrutura foi organizada segundo o princípio do comando e subordinação, bem como da centralização. No Ocidente chamaram-lhe economia de comando e consideravam-na como algo pernicioso, contrapondo-lhe a sua economia de mercado, glorificada como o bem por excelência.

A super-economia comunista organizada e administrada a partir de cima tinha um objectivo determinado. Este consistia no seguinte: primeiro, garantir ao país os meios materiais que lhe permitissem sobreviver no mundo circundante, manter a sua independência e acompanhar o progresso; segundo, garantir aos cidadãos do país os meios necessários à existência; terceiro, garantir trabalho a todas as pessoas aptas, como fonte principal, e para a maioria a única, de existência; quarto, incorporar toda a população apta ao trabalho na actividade laboral em colectivos de base.

Este objectivo estava organicamente ligado à necessidade de planificar a actividade da economia, desde as células de base até à economia no seu conjunto. Daqui os célebres quinquénios de Stáline.

A planificação da economia soviética suscitou uma irritação particularmente forte no Ocidente e foi alvo de todo o tipo de troça. Mas sem qualquer fundamento. A economia soviética tinha as suas insuficiências. No entanto, estas não resultavam da planificação em si. Pelo contrário, a planificação permitiu controlar estas deficiências e alcançar êxitos, os quais, nesses anos, eram reconhecidos em todo o mundo como não tendo precedentes.

É corrente pensar-se que a economia ocidental é supostamente mais eficiente do que a soviética. Do ponto de vista científico esta opinião é simplesmente absurda. É preciso distinguir critérios econômicos e sociais na avaliação da eficiência da economia. A eficiência social da economia caracteriza-se pela capacidade de existir sem desemprego e sem a falência de empresas não rentáveis, por condições de trabalho mais leves, pela capacidade de concentrar mais meios e esforços na resolução de tarefas de grande escala, entre outros aspectos. Deste ponto de vista, a economia de Stáline revelou precisamente a máxima eficiência, o que constituiu um dos factores de uma vitória de escala epocal e global.

A revolução cultural. O período de Stáline foi marcado por uma revolução cultural sem precedentes na história da humanidade, que envolveu as massas de milhões da população do país. Esta revolução foi uma condição absolutamente necessária para a sobrevivência da nova sociedade. O material humano, herdado do passado, não correspondia às exigências da nova sociedade em todos os aspectos da sua actividade vital, em particular, na produção, no sistema de administração, na ciência e no exército. Precisava-se de milhões de pessoas instruídas e profissionalmente preparadas. Na resolução deste problema a nova sociedade demonstrou as suas vantagens perante todos os outros tipos de sistemas sociais!

O bem mais acessível nesta sociedade revelou-se ser aquele que era o menos acessível no passado histórico – a educação e a cultura. Revelou-se que era mais fácil dar às pessoas uma boa educação, acesso aos pináculos da cultura, do que dar-lhes um alojamento adequado, vestuário e alimentos. O acesso à educação e à cultura era a maior compensação pela mediocridade das condições do dia-a-dia. As pessoas estavam dispostas a suportar as dificuldades do quotidiano desde que recebessem educação e fruíssem a cultura. Esta atracção de milhões de pessoas era tão poderosa que nenhuma força no mundo a poderia deter. Qualquer tentativa de fazer retroceder o país à situação pré-revolução era vista como a ameaça mais terrível contra esta conquista da revolução. Neste contexto, as condições do quotidiano tinham um papel secundário. Seria preciso viver nesse tempo para se avaliar tal estado de espírito.

Mais tarde, quando a educação e a cultura se tornaram um dado adquirido, habitual e corriqueiro, esse estado de espírito desapareceu e foi esquecido. Mas existiu e desempenhou o seu papel histórico. Não surgiu por si próprio, mas constituiu uma das realizações da estratégia social de Stáline. Foi criado intencionalmente, de forma sistemática e planificada. Considerava-se que um elevado nível educacional e cultural das pessoas era uma condição necessária do comunismo, de acordo com os fundamentos essenciais da ideologia marxista. Neste ponto, como em muitos outros, as necessidades concretas da vida coincidiam como os postulados da ideologia. Nos anos de Stáline, o marxismo enquanto ideologia correspondia ainda às exigências do curso real da história.

A revolução ideológica. Todos os autores que escrevem sobre a época de Stáline dedicam muita atenção à colectivização, à industrialização e às repressões em massa. Mas nesta época tiveram lugar outros acontecimentos de enorme dimensão, sobre os quais pouco se escreve ou são completamente omissos. Entre eles está em primeiro lugar a revolução ideológica. Do ponto de vista da formação do comunismo real, considero-a não menos importante do que os outros acontecimentos da época. Aqui tratava-se da formação do terceiro pilar de qualquer sociedade contemporânea, a par do sistema de poder e da economia – uma ideologia estatal única (secular e não religiosa) e um mecanismo ideológico centralizado, sem o qual o êxito da construção do comunismo seria inconcebível. Nos anos de Stáline definiu-se o conteúdo da ideologia, as suas funções na sociedade, os métodos de influenciar as massas, a estrutura das instituições ideológica e as normas do seu funcionamento.

O ponto culminante da revolução ideológica foi a edição da obra de Stáline, Sobre o Materialismo Dialéctico e o Materialismo Histórico. Existe a ideia de que alegadamente esta obra não foi escrita pelo próprio Stáline. Mas mesmo que Stáline se tivesse apropriado de um trabalho de outrem, a decisão de o publicar teve um papel incomensuravelmente mais importante do que a redacção deste texto bastante primitivo do ponto de vista intelectual. Ao fazê-lo, compreendeu a necessidade de um texto ideológico desta natureza, assinou-o e conferiu-lhe um enorme papel histórico. Este artigo, relativamente curto, constitui uma genuína obra-prima ideológica (não científica mas justamente ideológica) no sentido pleno da palavra.

Depois da revolução e da guerra civil, colocou-se ao partido que conquistou o poder a tarefa de impor a sua ideologia a toda a sociedade. De outro modo, não conservaria o poder. Na prática isto significava trabalhar ideologicamente as amplas massas da população, criar para este fim um exército inteiro de especialistas – formar quadros ideológicos, um aparelho ideológico permanentemente activo, introduzir a ideologia em todas as esferas da vida. E qual era o ponto de partida? Uma população analfabeta 90 por cento religiosa. Um caos ideológico e a confusão nos meios intelectuais. Quadros do partido mal formados, escolásticos e dogmáticos, que se enredavam em todo o tipo de correntes ideológicas. Conheciam mal o próprio marxismo. Agora, quando se impunha a tarefa vital de orientar o trabalho ideológico para as massas com uma baixo nível de instrução e contaminadas com a ideologia da autocracia religiosa, os teóricos do partido revelavam-se completamente impotentes.

Precisava-se de textos ideológicos que permitissem falar às massas de forma convicta e sistemática. O principal problema não era o desenvolvimento do marxismo enquanto fenômeno abstracto da cultura filosófica, mas a procura da forma mais simples e viva de redigir frases, discursos, palavras de ordem, artigos e livros marxistas. Era preciso rebaixar o nível legado historicamente pelo marxismo, de modo a que pudesse tornar-se a ideologia da maioria da população, intelectualmente primitiva e pouco instruída. Embora rebaixassem e vulgarizassem o marxismo, os stalinistas extraíram dele o seu núcleo racional, aquilo que era mais essencial para além de tudo o resto.

Atente-se ao caos ideológico que reina na Rússia actual, repare-se nas buscas estéreis de uma certa «ideia nacional», nas queixas infindáveis sobre a falta de uma ideologia efectiva! No entanto, o nível de instrução da população é incomensuravelmente mais elevado do que era no início da época de Stáline, as investigações ideológicas envolvem enormes forças intelectuais e existe uma experiência nesta área de muitas décadas de progresso mundial! Contudo, o resultado é nulo.

Para avaliar os méritos do stalinismo neste plano, basta comparar a sua época com a nossa de hoje. É certo que com o tempo o marxismo tornou-se objecto de troça. Mas isto só aconteceu passadas várias décadas e apenas em círculos intelectuais relativamente estreitos, num momento em que a revolução ideológica de Stáline já tinha cumprido a sua missão histórica. Aliás, a ideologia soviética, nascida nos anos de Stáline, não morreu de morte natural, mas foi simplesmente rejeitada em resultado do golpe anticomunista. O estado ideológico que a substituiu constituiu uma colossal degradação espiritual da Rússia.  

A política das nacionalidades de Stáline. Uma das inúmeras injustiças na avaliação de Stáline e do stalinismo é o facto de se lançar sobre eles a culpa pelos problemas nacionais que surgiram em resultado da destruição da União Soviética e do regime social (comunista) soviético nos países desta região. Todavia, foi precisamente nos anos de Stáline que foram tomadas as melhores decisões sobre as questões nacionais, entre tudo o que era conhecido da história da humanidade. Foi precisamente nos anos de Stáline que se iniciou a formação de uma nova comunidade humana, nacional e efectivamente fraterna (na orientação e tendência principal).

Hoje, quando a época de Stáline se tornou patrimônio da história, o mais importante não é procurar as suas insuficiências, mas salientar os êxitos do internacionalismo realmente alcançados. Não posso deter-me neste tema. Assinalo apenas uma coisa: para a minha geração, criada no pós-guerra, os problemas nacionais eram considerados resolvidos. Eles começaram a ser empolados e provocados artificialmente já depois da morte de Stáline como um dos meios da «guerra-fria» do Ocidente contra o nosso país.

Stáline e o comunismo internacional. O tema do papel internacional de Stáline e do stalinismo excede os limites deste artigo. Por isso faço apenas pequenas observações. Stáline iniciou a sua grandiosa missão de construção da sociedade comunista real refutando o dogma corrente do marxismo clássico de que, alegadamente, o comunismo só poder ser construído em simultâneo nos países avançados ocidentais, e proclamando a consigna da construção do comunismo num só país. Realizou este desígnio. Além disso, começou a utilizar deliberadamente as realizações do comunismo num só país para a sua difusão por todo o planeta. No final da governação de Stáline, o comunismo estava efectivamente a conquistar impetuosamente o planeta. A consigna do comunismo como o futuro luminoso da humanidade parecia como nunca antes real. Independentemente da atitude que se tenha para com o comunismo e Stáline, é indiscutível que nenhum outro dirigente político teve um tal êxito. O ódio que até hoje perdura contra ele deve-se não tanto ao mal que provocou (muitos o superaram neste aspecto), mas a este seu êxito pessoal sem precedentes.

O triunfo do stalinismo. A guerra de 1941-1945 contra a Alemanha hitleriana foi o maior teste ao stalinismo e a Stáline pessoalmente. Temos que reconhecer como um facto indiscutível que o stalinismo e Stáline resistiram a este teste. A maior guerra da história da humanidade contra o mais forte e temido inimigo, quer no plano militar quer nos restantes aspectos, terminou com uma vitória triunfal do nosso país. Sendo que o principal factor da vitória foi, primeiro, o regime social comunista, instaurado no nosso país na sequência da Revolução de Outubro de 1917, segundo, o stalinismo como construtor deste regime e Stáline pessoalmente, como dirigente desta construção e como organizador da vida do país nos anos da guerra e comandante supremo das forças armadas do país.

Todas as batalhas de Napoleão em conjunto parecem insignificantes comparadas com esta guerra de Stáline. Napoleão foi derrotado no final, enquanto Stáline teve uma vitória triunfal, contrariando todos os prognósticos da altura que davam uma rápida vitória a Hitler. Diz-se que os vencedores não se julgam. Mas em relação a Stáline tudo é feito ao contrário. Uma multidão de pigmeus de todos os tipos envida esforços titânicos para falsificar a história e roubar este grande feito histórico a Stáline e aos stalinistas. 

Para vergonha minha tenho de reconhecer que partilhei essa atitude para com Stáline, enquanto dirigente do país nos anos de preparação para a guerra e no seu decurso, quando era um anti-stalinista e testemunha dos acontecimentos desses anos.

Passaram muitos anos de estudo, investigação e reflexão antes de, à pergunta «como terias agido se estivesses no lugar de Stáline?», responder a mim próprio: «Não poderia ter agido melhor do que Stáline».

Do que não incriminam Stáline a propósito da guerra? Ao ouvirmos tais «estrategas» (sobre eles um poeta do século XIX escreveu: «Qualquer um se julga estratega, quando vê a batalha de fora»), não conseguimos imaginar uma pessoa mais estúpida, cobarde, etc., na chefia de um Estado, do que Stáline nesses anos. Alegadamente, Stáline não preparou o país para a guerra. Na realidade Stáline desde os seus primeiros dias no poder sabia que a agressão por parte do Ocidente era inevitável. Com a chegada de Hitler ao poder na Alemanha concluiu que seria preciso combater contra os alemães. Até para nós, então alunos da escola, isso era como um axioma. Stáline não só previu como preparou o país para a guerra. Mas uma coisa é organizar e mobilizar os recursos existentes para preparar o país para a guerra. Outra é criar estes recursos. Para os criar, nas condições da época, era preciso industrializar o país, mas para a industrialização era preciso realizar a colectivização da agricultura, era preciso efectuar a revolução cultural e ideológica, era preciso dar instrução à população e muitas outras coisas. Para tudo isto foram necessários esforços titânicos durante muitos anos. Duvido de que outra direcção do país, diferente da de Stáline, conseguisse levar a cabo esta tarefa. A direcção de Stáline conseguiu-o.

Tornou-se literalmente um lugar-comum acusar Stáline de ter negligenciado o início da guerra, de não ter alegadamente acreditado nos avisos da contraespionagem, de ter supostamente acreditado em Hitler, etc. Não sei se tais afirmações resultam de algum idiotismo intelectual ou de uma deliberada ignomínia. Stáline preparou o país para a guerra. Mas nem tudo dependia dele. Simplesmente não foi possível prepararmo-nos convenientemente. Aliás, os estrategas que manipulavam Hitler, tal como o próprio Hitler, não eram tolos. Estavam decididos a derrotar a União Soviética antes que esta estivesse mais bem preparada para rechaçar a agressão. Tudo isto é banal.

Será possível que um dos mais eminentes estrategas políticos na história da humanidade não tenha compreendido estas banalidades? Compreendeu. Mas apostava ao mesmo tempo no «jogo» da estratégia mundial e procurava a todo o custo adiar o início da guerra. Admitamos que neste passo da história foi derrotado. Em contrapartida compensou sobejamente este fracasso com outros passos. A história não acabou aqui.

Stáline é considerado culpado pela derrota do exército soviético no início da guerra, e por muito mais coisas. Não vou entrar na análise deste tipo de acontecimentos. Enuncio apenas uma conclusão geral. Estou convencido de que, no que respeita à compreensão da situação no seu conjunto em todo o planeta nos anos da II Guerra Mundial, incluindo a parte da guerra da União Soviética contra a Alemanha, Stáline estava acima de todos os grandes políticos, teóricos e chefes militares, que de uma maneira ou de outra participaram na guerra. Seria exagerado dizer que Stáline previu tudo e planeou todo o decurso da guerra. Naturalmente que foram feitas previsões e elaborados planos. Mas houve muitas coisas imprevistas, não planeadas e indesejáveis. Isso é evidente. Mas aqui o importante é o seguinte: Stáline avaliou correctamente situação e conseguiu utilizar em prol da vitória até as nossas pesadas derrotas. Pensava e agia, pode dizer-se, como Kutúzov. 2 Era a estratégia militar mais adequada às condições concretas e reais, e não idealizadas, daquele período.

Mesmo admitindo que Stáline se deixou enganar por Hitler no início da guerra (coisa em que não posso acreditar), a verdade é que utilizou admiravelmente o facto da agressão hitleriana para atrair para o seu lado a opinião pública mundial, o que teve o seu papel na cisão do Ocidente e na criação da coligação anti-hitleriana. Algo semelhante aconteceu com outras situações difíceis para o nosso país.

Os méritos de Stáline na Guerra Patriótica de 1941-1945 são de tal modo significativos e indiscutíveis, que seria um gesto de elementar justiça histórica devolver o seu nome à cidade do Volga, onde teve lugar a mais importante batalha da guerra. O cinquentenário da morte de Stáline seria uma ocasião apropriada para isso.

Stáline e Hitler. Um dos meios de falsificação e descrédito de Stáline e do stalinismo é identifica-los com Hitler e, por conseguinte, com o nazismo alemão. O facto de entre estes dois fenômenos existirem semelhanças não é fundamento para a sua equiparação. Nessa base pode-se acusar de stalinismo Bréjnev, Gorbatchov, Éltsine, Pútine, Bush, e muitos outros. É certo que houve uma influência. Mas a influência de Stáline em Hitler foi maior que a do segundo no primeiro. Além disso, aqui actuou a lei social da assimilação recíproca de adversários sociais. Tal assimilação foi assinalada no seu tempo por sociólogos ocidentais nas relações entre os sistemas soviético e ocidental – refiro-me à teoria da convergência (aproximação) destes sistemas.

Mas o principal não reside na semelhança entre o stalinismo e o nazismo (e o fascismo), mas nas suas diferenças qualitativas. O nazismo (e o fascismo) é um fenômeno que surge no quadro do sistema ocidental (capitalista) e nas suas esferas política e ideológica. Enquanto o stalinismo é uma revolução social nos próprios alicerces do sistema social e a fase inicial da evolução do sistema social comunista, e não apenas um fenômeno político e ideológico. O ódio que os nazis (fascistas) tinham ao comunismo não é pois uma casualidade. Os donos do mundo ocidental incentivaram o nazismo (fascismo) por ser um anticomunismo, um meio de combate ao comunismo.

Não se deve esquecer que Hitler sofreu uma vergonhosa derrota e que Stáline obteve uma vitória sem precedentes na história. Também não faria mal aos actuais anti-stalinistas pensarem sobre as condições concretas em que isto aconteceu e a enorme influência que esta vitória teve na humanidade e no curso da história mundial.

Se se quiser fazer analogias entre figuras históricas, então o continuador de Stáline foi o gigante histórico Mao Tsé-Tung, e o continuador de Hitler, o pigmeu histórico Bush filho. No entanto, esta profunda analogia, que nos podia levar longe, é silenciada pelos anti-stalinistas.

 A desestalinização. A luta efectiva contra os extremismos do stalinismo iniciou-se ainda durante a vida de Stáline, muito antes do excessivamente exagerado relatório de Khruchov no XX Congresso do PCUS. Essa luta travava-se nas entranhas da sociedade soviética. O próprio Stáline notou a necessidade de mudanças, e havia evidências suficientes para isso. O relatório de Khruchov não foi o início das desestalinização, mas o resultado de uma luta iniciada nas massas da população. Khruchov utilizou a desestalinização do país, na realidade já iniciada, em proveito do seu poder pessoal. Ao chegar ao poder, em parte promoveu o processo de desestalinização, e em parte envidou esforços para o manter dentro de determinados limites. Apesar de tudo, era uma das figuras da cúpula dirigente stalinista. Os crimes que tinha na consciência não eram menores do que os de outros companheiros de armas de Stáline. Era um stalinista até à medula. Mesmo a desestalinização, realizou-a com métodos voluntaristas stalinistas.


A desestalinização foi um processo complexo e contraditório. É um absurdo atribuí-lo aos esforços e à vontade de uma pessoa, que tinha o intelecto de um quadro médio do partido e maneiras de palhaço. 

O que significava a desestalinização na sua essência, do ponto de vista sociológico? O stalinismo, como um conjunto determinado de princípios de organização da vida do país, das massas da população, da administração, da manutenção da ordem, do trabalho ideológico, da educação e instrução da população, etc., desempenhou um grande papel histórico, construindo em condições dificílimas as bases da organização social comunista e defendendo-a da agressão externa. Mas esgotou-se, tornando-se um obstáculo à vida normal do país e à sua futura evolução. 

No país, em parte graças ao stalinismo, e em parte apesar dele, tinham amadurecido forças e condições para a sua superação. Superação justamente no sentido da transição para um novo degrau superior da evolução do comunismo. 

Nos anos de Bréjnev este degrau foi apelidado de socialismo desenvolvido. Independentemente do nome, na realidade verificou-se uma subida de nível. Nos anos da guerra e do pós-guerra as empresas e as instituições do país em grande parte já não funcionavam à maneira de Stáline. Basta dizer que, em meados do período de Bréjnev, o número de colectivos laborais em áreas estatais (empresas industriais, escolas, institutos, hospitais, teatros, etc.) aumentou centenas de vezes em comparação com os anos de Stáline. Assim, a classificação dos anos de Bréjnev como anos de estagnação constitui uma mentira ideológica. 

Graças à revolução cultural de Stáline, o material humano do país modificou-se qualitativamente. Na esfera do poder e da administração formou-se um aparelho de funcionários do Estado e um aparelho partidário supra-estatal mais eficiente do que o poder popular de Stáline, que se tornou supérfluo. O nível da ideologia estatal deixou de corresponder ao crescente nível de instrução da população. Em resumo, a desestalinização decorreu como um processo natural de amadurecimento do comunismo russo e de transição para um estado rotineiro amadurecido. 

A destituição de Khruchov e a sua substituição por Bréjnev decorreu como espetáculo ordinário na vida ordinária da cúpula partidária governante, como a substituição de uma clique governante por outra. O «golpe» de Khruchov, apesar dele próprio pertencer à cúpula, do ponto de vista de substituição de pessoas no poder, foi sobretudo um golpe social. 

Quanto ao «golpe» de Bréjnev, apenas atingiu as esferas mais altas do poder. Não estava orientado para alterar o estado de coisas na sociedade, criado nos anos de Khruchov, mas apenas contra a direcção absurda de Khruchov, contra Khruchov pessoalmente, contra o voluntarismo de Khruchov que se transformou em aventureirismo. 

Do ponto de vista sociológico, o período de Bréjnev foi a continuação do de Khruchov, mas sem os extremismos do período de transição. Em resultado da desestalinização, a ditadura comunista de Stáline deu lugar à democracia comunista de Khruchov e depois de Bréjnev. Ligo este período justamente a Bréjnev e não a Khruchov, porque o período de Khruchov foi apenas de transição para o de Brejnev. É precisamente este segundo período que constituiu a alternativa ao stalinismo, a alternativa mais radical no quadro do comunismo. 

O estilo de direcção stalinista era voluntarista: o poder superior procurava forçar coercivamente a população a viver e trabalhar de determinada forma. Já o estilo de direcção de Bréjnev revelou-se acomodável: o próprio poder superior se acomodava às circunstâncias objectivas criadas. Outra característica do brejnevismo foi o facto de o sistema de poder popular de Stáline ter dado lugar ao sistema administrativo burocrático. E a terceira característica foi a transformação do aparelho partidário na base, núcleo e esqueleto de todo o sistema de poder e administração. 

O stalinismo não soçobrou como afirmaram, e ainda hoje se afirmam, os antistalinistas, anticomunistas e anti-soviéticos. O stalinismo saiu da cena da história tendo cumprido um grande papel e esgotando-se ainda nos anos do pós-guerra. Saiu ridicularizado e condenado, mas mal compreendido mesmo na época soviética. 

Hoje, nas condições de um anticomunismo desenfreado e de uma imparável falsificação da história soviética, não é de esperar uma compreensão objectiva do stalinismo. Os pigmeus exultantes do pós-sovietismo, que destruíram o comunismo russo (soviético), silenciam e deturpam de todas as formas os feitos dos gigantes do passado soviético, a fim de justificar a sua traição a este passado e aparecerem eles próprios como gigantes aos olhos dos seus contemporâneos embrutecidos.

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1 Texto de uma intervenção no seminário teórico acadêmico aberto «Leituras Marxistas», realizado de 27 a 29 de Maio de 2003, no Instituto de Filosofia da Academia das Ciências da Rússia, e publicado na colectânea O Fim da Pré-História da Humanidade: O Socialismo como Alternativa ao Capitalismo, Omsk, 2004, pp. 207-215. 

Kutúzov, Mikhail Illariónovitch Goleníchev (1759-1813), discípulo de Suvórov, foi comandante supremo das forças armadas russas (1812), tendo derrotado os exércitos de Napoleão, na Guerra Pátria de 1812-13, e libertado a Polónia e a Alemanha da ocupação francesa. Faleceu na cidade alemã de Bunzlau, na baixa Silésia (actual Polónia), vítima de um resfriamento, em 28 de Abril. (N. Ed.)

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