Aborto e hipocrisia



A intolerância na ofensiva: 2- aborto e hipocrisia

Incontestavelmente, uma das frases mais abomináveis da campanha eleitoral de 2010 foi pronunciada por Mônica Serra em Nova Iguaçu , na Baixada Fluminense, onde ela acompanhava o ultra-reacionário de choque Indio da Costa (DEM), candidato a vice na chapa encabeçada por seu marido. A um eleitor evangélico que declarou voto em Dilma, a sra. Serra afirmou: "Ela é a favor de matar as criancinhas". Ficou provado em seguida que seu terrorismo anti-aborto repousava sobre escandalosa hipocrisia. Ex-alunas suas do Instituto de Artes da Unicamp confirmaram que numa aula ela contou ter feito um aborto no quarto mês de gravidez.

Sem dúvida a sra. Serra não está sozinha na exploração do aborto para fins eleitoreiros. Graças em boa medida ao marido, a moda pegou a ponto de rebaixar a disputa do voto a níveis inéditosde intolerância. Valor, um jornal cujo compromisso com o valor de troca é congênito (nasceu de um conúbio mediático entre Globo e Folha), mas que às vezes procura, como seus genitores, ser palatável para um público que não partilha de sua linha editorial, deixou claro de onde vin ha a exploração do tema numa reportagem intitulada “Serra traz aborto para o centro do debate” (7-10-2010). A direita não esquece que este método torpe deu certo nas eleições de 1989, quando os mafiosos a serviço do aventureiro neoliberal F. Collor foram atrás de uma ex-namorada de Lula, Miriam Cordeiro, “persuadindo-a” a acusá-lo de ter sugerido que ela abortasse. A despeito de não ter havido aborto, um vagalhão de hipocrisia mediaticamente orquestrado percorreu o país. Juntado a outras calhordices da intoxicação política (a descaradamente facciosa “edição” feita pelo “Jornal da Globo” do debate final da campanha de 1989) garantiu a vitória do filhote da ditadura sobre o candidato do PT.

As eleições terminaram. Entretanto, embora derrotado nas urnas, o partido dos obscurantistas alcançou duplo êxito ao confundir a opinião pública, assimilando os partidários da descriminalização do aborto aos defensores de sua banalização e ao lograr colocar na defensiva aqueles que lutam contra os abortos clandestinos, no mais das vezes efetuados com meios precários e de alto risco. A chantagem obscurantista reforça os mais retrógrados preconceitos. Já foi dito muitas vezes, mas sempre é útil repetir que o Brasil é uma república laica só no papel. É triste, mas foi preciso o “pacote de abril” de 1977 do general Ernesto Geisel para que a instituição clérico-medieval da indissolubilida de do casamento fosse abolida. Se dependesse dos agentes locais do Vaticano, até hoje não haveria divórcio no Brasil e as mulheres separadas dos maridos que persistissem em se lembrar de que têm sexo seriam consideradas “decaídas”, termo muito usado outra pela oligarquia.

Em 1997 houve um esforço por parte dos anti-obscurantistas no sentido de eliminar de nossa legislação os dispositivos clérico-medievais que satanizam a interrupção voluntária da gravidez. O Sr. Carlos César Albuquerque, então ministro da Saúde de FHC, capitaneou a contra-ofensiva dos caçadores de bruxas, proclamando que o aborto era um assassinato. Uma leitora de Santos desmascarou o pretenso protetor dos fetos e da vida. Ele mentira na TV ao afirmar que tinha mandado todas as vacinas solicitadas pela Secretaria da Saúde de São Paulo para combater um forte surto de sarampo. Só enviara a metade dos medicamentos solicitados. Uma garotinha de oito meses morreu por falta de vacina. Se fazer aborto é assassinato, como classificar fazer morrer por não fornecer vacinas, pergunta a leitora (Jornal da Tarde, seção São Paulo Pergunta, de 29-8-1997).

A hidra da intolerância tem muitas garras. As de origem eclesiástica costumam ser aveludadas, mas nem por isso menos insidiosas e hipócritas. Vejam por exemplo os patéticos apelos A TODOS AQUELLOS QUE COMPRENDEN EL VALOR DE LA VIDA HUMANA , transmitidos assim mesmo, em letras maiúsculas e em língua espanhola, por um certo señor Monteiro, instalado num nicho internético chamado papilio.com. Com mansidão fingida de inquisidor (antes de começar a torturar os presumidos hereges, os frades do Santo Ofício suplicavam-lhes que renegassem suas heresias), o señor Monteiro, partia para contra-ofensivas preventivas cada vez que ele e seus papilios tinham notícia de que podiam ser adotadas medidas civilizadas a respeito do aborto. Uma de suas incontáveis intervenções:

NECESSITASE AYUDA URGENTE.MIÉRCOLES 20 DE OCTUBRE 2004, EN BRASILIA, SERÁ JUZGADO POR LOS 11 MINISTROS DEL SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL DE BRASIL LA LIMINAR QUE PERMITE EL ABORTO EN CASOS DE ANENCEFALÍA Y SE PUEDE INICIAR EL CAMINO PARA LA

COMPLETA LEGALIZACIÓN DEL ABORTO EN BRASIL.

Notem como papilio.com combina insídia e hipocrisia. Estava em pauta no STF a legalidade do aborto para fetos com graves anomalias cerebrais. Só os que aceitam fanaticamente dogmas religiosos sustentam que Deus tendo criado a vida, inclusive a dos sem-cérebro, só ele (e a Inquisição) podem tirá-la. Papilio.com não é mentalmente tapado a ponto de não perceber que talvez católicos não fanáticos achem preferível um aborto a lançar no mundo um anencéfalo. Por isso, passam insidiosamente da anencefalia (que era a única questão em pauta no STF) para o profetismo apocalíptico: “pode ser o início do caminho para a completa legalização do aborto no Brasil”.

Por ora, os protetores da anencefalia podem cantar vitória: o aborto continua sendo considerado caso de polícia.

João Quartim de Moraes

Escritor e Professor Universitário


Texto enviado por mail à ESK em 10/01/2011


Artigo anterior do Prof. Quartim relacionado a esse texto:

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