EUA: Cidadãos na mira do sistema de espionagem coordenado pelo FBI



Milhares de cidadãos e residentes nos EUA sob a mira do sistema de espionagem coordenado pelo FBI


David Brooks
Periódico La Jornada




Nova Iorque, 21 de dezembro. Estados Unidos constróem um vasto aparato de inteligência doméstica que será o maior sistema de vigilância e tecnologicamente mais avançado da história, que recolherá informação sobre milhares de cidadãos e residentes – muitos dos quais não foram acusados de delitos – mediante autoridades locais e federais sobre a justificação da luta anti-terrorista, reporta o Washington Post.

Todo este sistema sem precedentes se constrói ante advertências do governo estadunidense da ameaça crescente de terrorismo doméstico, ou seja, de cidadãos e residentes deste país.

A extensa reportagem de investigação de Dana Priest e William Arkin afirma que o objetivo do sistema é que toda agência de segurança pública estatal e local dos Estados Unidos nutra Washington com informação para ajudar no esforço anti-terrorista nacional coordenado pelo Burô Federal de Investigações (FBI).

A investigação jornalística descreve uma rede de 4.058 agências federais, estatais e locais – com 935 destas criadas depois dos atentados de 2001 – dedicados a monitorar os cidadãos deste país. Além disso revela como se empregam tecnologias desenhadas para campos de batalha no Iraque e no Afeganistão neste sistema doméstico, e que o FBI compila um massivo banco de dados com nomes e informação pessoal de milhares de cidadãos e residentes neste país que foram sinalizados como “suspeitos” por algum oficial ou cidadão.

Este sistema de inteligência forma parte de um ainda mais massivo aparato governamental secreto com alcance mundial que desenvolveu os EUA depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, segundo a investigação jornalística de dois anos realizada pelo Post, e que se publicou como parte desta série anteriormente.

O “governo secreto” está conformado por 1.271 organizações governamentais, 1.931 empresas privadas dedicadas à indústria da segurança pública e inteligência e nas quais trabalham, calculam-se, uns 854 mil indivíduos com autorização “top secret”. Suas sedes estão em mais de 10 mil lugares em todo o território dos Estados Unidos. Junto com seu componente de vigilância do “terrorismo doméstico”.

Priest y Arkin escreveram que “o mundo top secret que o governo criou em resposta aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 se tornou tão grande e tão secreto que ninguém sabe quanto dinheiro custa ao país, que quantidade de pessoas emprega, quantos programas existem no interior dele ou quantas agências fazem o mesmo trabalho”.

Argumentaram que para isso, não somente tudo foi ocultado do público, senão que carece de plena supervisão.

Além disso, o resultado do crescimento deste aparato secreto sem precedentes é que “o sistema estabelecido para manter seguro os Estados Unidos é tão massivo que é impossível determinar sua efetividade”.

No entanto, altos funcionários da administração do presidente Barack Obama reiteram que todo o anterior é necessário ante a crescente ameaça dos estadunidenses que participam ou estão vinculados com organizações terroristas estrangeiras. Esta semana, o procurador geral dos Estados Unidos, Eric Holder, afirmou num programa da ABC News que “a ameaça mudou de simplesmente preocupar-se sobre estrangeiros que chegam aqui a preocupar-se de gente dentro dos Estados Unidos – cidadãos estadunidenses criados e nascidos aqui, e que por qualquer razão decidiram radicalizar-se e tomar as armas contra a nação em que nasceram”. Informou que nos últimos 24 meses se apresentaram acusações criminais relacionadas com o terrorismo contra 126 indivíduos neste país, 50 dos quais são cidadãos estadunidenses.

O mais alto cargo vinculado com este esforço de monitoramento interno dos cidadãos estadunidenses é ocupado pela secretária de Segurança Interna, Janet Napolitano, que, quando era governadora do estado do Arizona, ordenou construir um dos sistemas de inteligência mais ambiciosos em seus esforços de deter o fluxo de drogas e imigrantes.

Ela apresentou o esforço nacional de inteligência doméstica com algo comparável com os da guerra fria para renovar os conceitos de “defesa civil”, agora não contra a ameaça comunista interna, senão contra o terrorismo dentro das fronteiras estadunidenses. Neste sistema que continua se ampliando, múltiplos tipos de informação – desde registros de digitais, fotografias, vídeos e informação biométrica e informes sobre atividades “suspeitosas” – se armazenam em um banco de dados do FBI em West Viginia. Outro depósito localiza-se no edifício matriz dessa agência em Washington, o qual conta com arquivos sobre dezenas de milhares de pessoas dos Estados Unidos que não foram acusadas de delito algum, mas foram de alguma maneira acusadas de “atuar de maneira suspeita” por algum policial, incluindo de trânsito, e até por um vizinho.
Até esta data, reporta o Post, há 161.948 arquivos de atividade suspeita no banco de dados conhecido como Guardião.

O jornal sinaliza que existem diversos críticos da criação desta burocracia secreta, tanto pela preocupação de um possível abuso contra os direitos civis pelo governo como por ex-funcionários da inteligência que questionam se algo tão pouco controlado e com uma massa de informações tão extensa é a forma mais eficiente para proteger os Estados Unidos de possíveis atos terroristas.

Enquanto isso outros meios de comunicação, como a revista The Nation, temem que um governo cada vez mais secreto se transforme em ameaça aos fundamentos básicos da democracia.

Mas a realidade é que o Big Brother é cada dia maior.


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