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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O imperialismo e a Coreia

A propósito do filme A Entrevista
O imperialismo e a Coreia
por Jorge Cadima

"O ano 2015 começa sob os piores auspícios. Um sistema capitalista incapaz de sair da profunda crise que ele próprio cavou, acentua o seu pendor de destruição e morte. Os velhos imperialismos euro-americanos não têm mais nada para oferecer aos seus povos senão a miséria, a exploração e a guerra. E para lidar com a inevitável resistência dos povos e com as potências em ascensão, recorrem de forma crescente à violência e à repressão. O imperialismo apenas conhece a linguagem da guerra, da mentira e da provocação para assegurar a sua dominação e a exploração dos trabalhadores e dos povos do mundo"
"A monumental patranha sobre os alegados «ataques informáticos norte-coreanos contra a Sony» é mais uma operação de propaganda de guerra"

"Passámos boa parte da primeira metade de 1994 a preparar a guerra na península coreana. [...] Nós os dois, então no Pentágono, preparámos os planos para atacar as instalações nucleares da Coreia do Norte e mobilizar centenas de milhares de soldados americanos para a guerra que provavelmente se teria seguido». Estas palavras foram escritas no Washington Post em 2002 (20.10.02), pelos dois principais responsáveis do Pentágono no primeiro governo do presidente Clinton. O então vice-ministro da Defesa e co-autor destas palavras, Ashton Carter, foi recentemente indicado por Obama para ser o novo ministro da Defesa dos EUA."

Entre as razões pelas quais o bombardeamento da central de energia nuclear norte-coreana de Yongbyon pelos EUA não se concretizou, está a firme oposição do então presidente sul-coreano. A agência France Presse (24.5.00) deu conta da recusa de Kim Young-Sam em ser conivente com a destruição do seu país e a «morte de 10 ou 20 milhões de pessoas». «Naquela altura [1994] a situação era realmente perigosa. O governo Clinton preparava uma guerra», afirmava em 2000 o ex-presidente, que alega ter discutido com o presidente dos EUA ao telefone durante 32 minutos. «Disse-lhe que não haveria qualquer guerra inter-coreana enquanto eu fosse presidente. Clinton procurou persuadir-me a mudar de opinião, mas eu critiquei os Estados Unidos por planearem desencadear uma guerra com o Norte na nossa terra». 

Outro ex-presidente da Coreia do Sul, Roh Moo-hyuan, confirmou a uma televisão sul-coreana que um ataque militar dos EUA contra a Coreia do Norte esteve muito próximo de acontecer sob a presidência de George W. Bush: «Na realidade, quando fui eleito [em 2003] os defensores da linha dura e mesmo pessoas em posições de responsabilidade no governo dos EUA falavam na possibilidade de atacar a Coreia do Norte. Senti-me desesperado e decidi que isto tinha de ser travado por todos os meios» (CNN, 19.1.03). Nicholas D. Kristof, em artigo noNew York Times (28.2.03) com o título «Planos Secretos e Assustadores» escreveu: «Algum do trabalho mais secreto e assustador em curso no Pentágono por estes dias é a elaboração de planos para uma possível incursão militar contra instalações nucleares na Coreia do Norte [...]. Até se fala da hipótese de usar armas nucleares tácticas».

Estas palavras deveriam fazer reflectir todos quantos participam de forma inconsciente, ou se deixam seduzir, pelas recorrentes campanhas anti-norte-coreanas. A monumental patranha sobre os alegados «ataques informáticos norte-coreanos contra a Sony» é mais uma operação de propaganda de guerra, produzida nas mesmas centrais de desinformação (é caso para dizer “nos mesmos estúdios”) que nos trouxeram outras campanhas tão mentirosas quanto mortíferas, tais como “as armas de destruição em massa de Saddam Hussein”, “os bombardeamentos de Khadafi contra o seu povo” ou “os ataques com armas químicas de Bashar Al-Assad”. 

Na realidade, tais campanhas foram sempre a ante-câmara de grandes operações militares dos EUA/UE/NATO contra países e povos (não contra homens) que se recusam a obedecer às ordens imperiais. Conhecemos as consequências catastróficas para os povos do Iraque, da Líbia e da Síria, das guerras recentes de agressão imperialista. Conhecemos também as consequências catastróficas da guerra de agressão que os EUA conduziram entre 1950 (faz agora 65 anos) e 1953 contra o povo coreano. Como relata o norte-americano Gregory Elich (em Targeting North Korea, www.globalresearch.ca, 31.12.02) «no primeiro ano de guerra, em 5 de Novembro de 1950, o General Douglas MacArthur ordenou a destruição de “todos os meios de comunicação, todas as instalações, fábricas, cidades ou aldeias” numa zona compreendida entre o Rio Yalu [que faz a fronteira entre a Coreia e a China] e a frente de combate. [...] Em vários momentos da guerra, os EUA consideraram o uso de armas nucleares tácticas. [...] De acordo com o General Curtis LeMay, “arrasamos praticamente todas as cidades da Coreia, quer do Norte, quer do Sul” e “matamos mais de um milhão de civis coreanos e desalojamos vários milhões mais”». O também norte-americano autor Bruce Cummings, num elucidativo livro sobre a guerra da Coreia e os seus antecedentes (The Korean War – A History, The Modern Library, New York, 2010), estima as baixas coreanas em quatro milhões de pessoas, «das quais pelo menos dois milhões eram civis». As consequências duma nova guerra seriam ainda mais catastróficas, mesmo que esta se confinasse à península coreana. E é bem provável que o imperialismo aproveitasse um conflito para visar o adversário chinês.

A Coreia do Sul não é hoje governada por presidentes interessados em estabelecer o diálogo e relações pacíficas com a República Democrática e Popular da Coreia, mas pelos falcões da “linha dura” de que falava o ex-presidente Roh Moo-hyuan. A actual presidente Park Geun-hye é filha do ex-ditador Park Chung-hee, que presidiu à Coreia do Sul entre 1961 e 1978, e que era um representante clássico dos serventuários da ocupação militar norte-americana. 

Por entre o silêncio das grandes cadeias de televisão, mais ocupadas em transmitir a propaganda de guerra dos EUA, o Supremo Tribunal da Coreia do Sul decretou há poucos dias, a pedido do governo, a dissolução do terceiro maior partido do país, o Partido Progressista Unificado, nascido do movimento sindical e que nas últimas eleições (Abril de 2012) recolheu 10,3 por cento (mais de dois milhões) de votos, alegando que esse partido era uma «ameaça à ordem democrática». Um deputado do PPU, Lee Seok-ki, foi condenado a uma pena de prisão de nove anos por, nas palavras do advogado norte-americano Inder Comar, «proferir um discurso anti-EUA, alegando que os EUA eram o verdadeiro problema na política sul-coreana» (globalresearch.ca, 31.12.14). O Centro Carter do ex-presidente dos EUA Jimmy Carter tomou posição contra esta condenação «feita ao abrigo das disposições da restritiva Lei de Segurança Nacional, decretada durante a era da dominação autoritária militar, anterior a 1987» (CarterCenter, 31.12.14). A viragem autoritária na Coreia do Sul não é bom sinal relativamente ao que o imperialismo prepara para a península coreana. 

O filme e a operação 

A operação que rodeia o filme A Entrevista merece reflexão. O filme é uma história inteiramente provocatória sobre o assassinato do dirigente norte-coreano Kim Jung-Un por agentes dos EUA. Mas a operação mediático-política-publicitária que acompanhou o lançamento do filme (e garantiu a sua divulgação) aponta para que este seja o prenúncio dum objectivo a concretizar na vida real. Obama e o FBI alegaram de imediato que os ataques informáticos de que a produtora do filme, a Sony, foi alvo e que levaram à divulgação de materiais confidenciais na Internet foram obra do governo norte-coreano e ameaçam “retaliações”. Mas, em 31 de Dezembro, o site www.washingtonsblog.com publicou uma lista de 18 empresas e especialistas em ciber-segurança que questionam a versão oficial. As dúvidas tiveram eco mesmo na imprensa mais convencional, como a Bloomberg e o New York Post (ambos em 30.12.14), avançando a hipótese alternativa de os ataques serem obra de extorsionistas ou ex-empregados da Sony que, no passado mês de Maio, despediu milhares de trabalhadores. 

Parte importante da história está no conteúdo de alguns dos e-mails divulgados após o ataque à Sony e que, segundo Gregory Elich (Global Research, 31.12.14) incluiam uma mensagem de Bruce Bennett da Rand Corporation (um think tank do complexo militar-industrial dos EUA): «Bennett foi consultor do filme e opôs-se a suavizar o final do filme. “Tenho sido claro em afirmar que o assassinato de Kim Jong-Un é a via mais provável para o colapso do governo da Coreia do Norte”, escreveu [...]. Noutra mensagem, o CEO da Sony Michael Lynton respondeu: “Bruce – falei com alguém muito cimeiro nos Estrangeiros (de forma confidencial). Concordou com tudo o que tens dito. Tudo”. Lynton também estava em contacto com Robert King, enviado especial dos EUA para as Questões dos Direitos Humanos na Coreia do Norte, no que concerne ao filme». Outro autor norte-americano, Larry Chin (Global Research, 27.12.14) acrescenta: «[O filme] A Entrevista foi feito com o envolvimento directo e aberto da CIA e de operacionais da Rand Corporation, com o objectivo expresso de desestabilizar a Coreia do Norte. O actor e co-director Seth Rogen admitiu que trabalhou “directamente com gente que trabalha para o governo [dos EUA] como consultores e que estou convencido serem da CIA”. Concebido inicialmente como uma história a ter lugar num “país não especificado”, o co-director da Sony Pictures Michael Lynton, que também tem assento na direcção da Rand Corporation, encorajou os realizadores a fazerem o filme explicitamente sobre o assassinato de Kim Jong-Un».

Em simultâneo com toda esta operação mediática, os EUA e os seus aliados habituais promoveram na ONU resoluções condenando a RDPC por desrespeito pelos direitos humanos e pedindo que os dirigentes desse país sejam enviados para o Tribunal Penal Internacional (TPI). Parece não haver limites para a hipocrisia e a falta de escrúpulos. Os mesmos países que (segundo o próprio Senado dos EUA) são cúmplices duma rede global de centros de tortura e morte gerida pelos EUA; do uso regular de drones para assassinatos extra-judiciais; de manterem o planeta inteiro sob escuta e vigilância e perseguirem quem os denuncia por tal facto; de promoverem fascistas, na sua guerra contra o povo da Ucrânia; de transformarem várias regiões do globo numa enorme catástrofe humana, com as suas invasões e guerras ilegais e com o seu patrocínio dos mais bárbaros bandos terroristas – esses mesmos querem agora convencer-nos que são defensores dos direitos humanos na Coreia. 

Os tambores de guerra e a luta pela Paz 

O ano 2015 começa sob os piores auspícios. Um sistema capitalista incapaz de sair da profunda crise que ele próprio cavou, acentua o seu pendor de destruição e morte. Os velhos imperialismos euro-americanos não têm mais nada para oferecer aos seus povos senão a miséria, a exploração e a guerra. E para lidar com a inevitável resistência dos povos e com as potências em ascensão, recorrem de forma crescente à violência e à repressão. O imperialismo apenas conhece a linguagem da guerra, da mentira e da provocação para assegurar a sua dominação e a exploração dos trabalhadores e dos povos do mundo. Na Coreia como noutras partes do globo, este é o cerne da questão. E quem resiste merece a nossa solidariedade. O povo coreano, do Norte e do Sul da península, terá uma palavra fundamental a dizer sobre o seu futuro. Tal como todos os povos do mundo. Por muito que os senhores do capital e da guerra nos queiram fazer acreditar na sua invencibilidade, a História ensina que os povos em luta podem alterar o curso dos acontecimentos, transformando as maiores violências do sistema capitalista em momentos de viragem revolucionária na História da Humanidade.


Fonte: Avante



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