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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

As tentativas de saída e as contradições de uma crise capitalista que se prolonga


As tentativas de saída e as contradições de uma crise capitalista que se prolonga
por CARLOS CARVALHAS



"Há contradições que se agudizam e podem ter desenvolvimentos inesperados e perigosos. Mas é verdade também que o imperialismo americano tem mais dificuldades em impor por toda a parte o seu domínio. Com contradições, a luta dos trabalhadores e a resistência dos povos vai-se desenvolvendo, não deixando de ter em conta que o marasmo económico, a recessão e os problemas do capitalismo não provêm só das crises cíclicas, cada vez mais frequentes, mas também da tendência histórico-geral da acumulação capitalista, ampliando a crise estrutural do sistema, sem esquecer que o desenvolvimento desigual é inerente ao capitalismo em todas as fases do seu desenvolvimento, num entrelaçamento das crises económicas de sobreprodução e sobre-acumulação com as crises estruturais que se arrastam (energética, alimentar, matérias-primas, monetária, cambial e financeira, ecológica,...)."
«Todas as vantagens que um país obtém sobre o outro tendem a arruinar aquele que as concede»
Marquês de Pombal, in Comércio e Poder, de Sandro Sideri

Prossegue, e está longe de ser ultrapassada, a crise que alguns datam e denominam como a crise de 2008, ou a crise de 2008/2009, ou ainda a crise de 2007/2009, por comodidade ou procurando dar a ideia que a crise já pertence ao passado.

O elevado desemprego, a grave situação social, o aumento das desigualdades, a estagnação ou um crescimento anémico mantêm-se nos três principais pólos do imperialismo: Estados Unidos da América (EUA), União Europeia (UE), Japão.

A chamada crise da dívida pública na UE, o grave problema do endividamento externo e a ameaça de deflação que atingem tantos países não são questões distintas mas reflexos da crise que rebentou em Agosto de 2007.

A crise mantém-se praticamente há sete anos, com o sistema financeiro ainda atolado em lixo tóxico, activos sobrevalorizados e assistido pelo Banco Central Europeu (BCE) e respectivos bancos centrais. 1

Estamos perante uma das mais profundas e mais longas crises do sistema capitalista. As medidas tomadas, ditas de rigor, de austeridade, de políticas de «oferta» e assentes no tudo à exportação e à redução do défice público, têm procurado, no essencial, passar os custos da crise, da capitalização e do desendividamento da banca para os trabalhadores e os povos!

Com a redução da procura interna, cada país tenta sair da crise pelas exportações, isto é, à custa do alargamento do mercado interno dos outros. Tem sido uma política votada ao fracasso pois cada país está dependente do desenvolvimento dos seus «clientes». Como a crise é sistémica e as medidas tomadas têm visado, no geral, a diminuição ou a limitação do poder de compra das massas, a saída só pelas exportações tem sido incapaz de dinamizar as economias.

O insuspeito Martin Wolf assinalava, no Financial Times, esta questão da insuficiência da procura, afirmando que «sem um boom de crédito, a economia mundial mostra-se incapaz de gerar um crescimento da procura suficiente para absorver a oferta potencial». Reconhece a insuficiência da procura, mas a solução que avança é a velha «solução» do aumento da procura a crédito e não pelo aumento do poder de compra das populações.

Acresce que na UE há um número significativo de países que são penalizados por um euro sobrevalorizado em relação ao perfil das suas exportações. 2

A esperança residia no aumento da procura externa de países como a China e dos outros países ditos «emergentes» e das «locomotivas», Alemanha e EUA. Mas estas ilusões não passaram disso mesmo, de ilusões.

A China, cujo crescimento tem vindo também a diminuir, tem absorvido alguma produção, mas, no essencial, tem vindo a satisfazer o crescimento do seu mercado interno com produção interna. Por outro lado, o modesto crescimento dos EUA tem sido alimentado artificialmente pela criação monetária e as despesas militares.

Quanto aos países «emergentes», há um recuo substancial do seu crescimento, com a «guerra das moedas» e a especulação bolsista – retirada de capitais, e a redução significativa dos seus mercados internos.

A produção industrial, tal como o consumo interno, caiu para o nível de 2009 em dezanove dos mais importantes países «emergentes». As exportações também caíram ou estagnaram.

O Japão regressou à recessão, apesar das diversas tentativas para combater a deflação pela expansão monetária. Na UE a crise deixou de atingir somente a periferia para atingir também o centro – Alemanha, França, Itália.

O mundo não entrou globalmente em recessão, mas o que se prevê é um longo período de fraco crescimento e de estagnação, não sendo de excluir novas «explosões»!

Mesmo os «mercados financeiros» prevêem «um crescimento e uma inflação anormalmente fracos na zona euro até 2017, seguido de uma melhoria, mas numa situação ainda não completamente normalizada até 2020» (Natixis, 13-10-2014, N.º 795).

Passou o tempo da apologética da globalização triunfante, das exportações como único motor do crescimento e das políticas ditas de austeridade, que mostraram, na prática, a sua falência.

Não deixa de ser irónico que, face à falência da orientação seguida, políticas de crescimento, investimento público e grandes obras públicas apareçam agora a ser defendidas por responsáveis de várias instituições internacionais (FMI, OCDE,...) e por dirigentes da social democracia, sem deixarem de referir, sintomaticamente, a continuação da defesa das «reformas estruturais»3.

O «mix» de políticas de investimento, com «reformas estruturais», leia-se em relação a estas a liquidação das funções sociais do Estado e a liquidação de direitos laborais, é agora a palavra mágica nas intervenções de responsáveis políticos, designadamente sociais-democratas, para responder à crise... em palavras.

O «mix» de políticas e a flexibilização do défice são dois vectores que vão sendo acenados como resposta à crise na UE.

Nos EUA e na UE as taxas de juro directoras andam há muito perto do zero. Os mercados financeiros estão inundados de liquidez e as tendências para a deflação e redução das taxas de crescimento mantêm-se. Jürgen Stark, ex-membro do conselho executivo do BCE, afirmava ao Le Monde de 4-10-2014 que «a decisão do BCE de intensificar o estímulo monetário deve ser considerada como um acto de desespero».

Apesar das palavras de Stark, um neoliberal, considera-se que foi decisiva, para manter a flutuar os bancos europeus, a abertura a partir de Setembro de 2011 de uma linha de crédito ilimitada pelo BCE, em concertação com a FED, o Banco de Inglaterra e o Banco da Suíça.

Trata-se, no entanto, da transferência de milhões dos contribuintes para a Banca.

Os chamados Long-Term Refinancing Operation (LTRO) concederam aos bancos empréstimos a três anos em termos altamente lucrativos para estes. Entre Dezembro de 2011 e Fevereiro de 2012 o BCE emprestou a cerca de 800 bancos mais de mil milhares de milhão de euros à taxa de 1%, numa altura em que a inflação rondava os 2%.

Esta «ajuda» dada aos bancos não fica por aqui, pois não só a taxa é extremamente baixa como os juros sobre o montante dos empréstimos só são pagos no momento do reembolso. E, como se sabe, as taxas directoras têm vindo ainda a diminuir, atingindo os 0,05% em Setembro de 2014. A partir desta data teve início um novo programa LTRO, com uma primeira tranche de 82,6 milhares de milhão de euros.

Uma segunda tranche terá lugar em Dezembro de 2014, que coincide com o primeiro reembolso dos juros do LTRO de Dezembro de 2011!

Outras facilidades do BCE à Banca privada estão em curso, como a aceitação de «produtos estruturantes», e outras garantias de fraca fiabilidade, dados como garantia pelos bancos aos novos empréstimos do BCE, transformando este, segundo alguns analistas, num Bad Bank – banco mau!

A liquidez dada à Banca não se tem traduzido num estímulo à actividade produtiva, mas na sua aplicação em actividades especulativas mais rendáveis, que têm alimentado novas «bolhas»4.

Uma nova explosão financeira, do tipo da verificada em Agosto de 2007, está em curso. Há quem considere que a economia mundial está confrontada com uma nova combinação tóxica – mistura da dívida elevada, fraco crescimento, aumento das desigualdades e tendências deflacionistas em muitos países.

Como não há aumento da procura interna capaz de dar saída à capacidade produtiva instalada, o BCE vai avançando com centenas de milhar de milhão de euros para comprar títulos financeiros, procurando, assim, relançar a máquina do crédito! Um expediente para ganhar tempo. A política monetária, por mais imaginativa que seja, não pode só por si relançar o crescimento, e muito menos quando diminui o poder de compra dos trabalhadores com a intensificação da exploração e a concentração da riqueza.

A falência da política, que afirmava ser possível o crescimento com as políticas de austeridade e de desendividamento, é uma evidência.

O BCE tem tentado tudo, numa interpretação lata dos seus estatutos, para relançar a economia – os LTRO, reactivação da criação de títulos (titrisation), compras de covered bonds (obrigações garantidas) – sem sucesso, pois o que poderia dar um impulso conjuntural, mesmo no quadro do sistema, a compra massiva de títulos públicos, neutralizando a dívida e libertando recursos para o investimento público, continua a não se efectivar, apesar das recentes afirmações de Mario Draghi, devido, designadamente, à oposição da Alemanha.

O endividamento público e privado na UE é um garrote insustentável para várias economias.

O desendividamento privado tem vindo a realizar-se nos EUA e no Reino Unido, mas ao mesmo tempo que aumenta a dívida pública. O endividamento é maior em países mais desenvolvidos, mas há também quem considere (International Center for Monetary and Banking, ICMB) que o epicentro da «nova crise» se verifique, desta vez, nos «países emergentes» devido a processos em curso de desendividamentos rápidos, à retirada de capitais e à queda do preço do petróleo.

O Sistema Monetário Internacional, o dólar, o ouro, o petróleo e os conflitos internacionais


Com a continuação da crise tem também prosseguido a chamada guerra de câmbios e a especulação com o ouro 5.

Os privilégios do dólar são uma questão vital para os EUA, que tudo farão para os manter. O dólar, «moeda mundial», de longe a principal moeda de reserva e a sua estreita ligação com o petróleo são questões cruciais para a dominação dos EUA e a sustentabilidade da sua economia.

A análise da política externa dos EUA não pode deixar de ter em conta que a defesa do estatuto do dólar é um dos eixos principais daquela política e não qualquer defesa dos «direitos do homem», ou da democracia.

A desestabilização de tal ou tal país, a diabolização de tal ou tal dirigente, as invasões, bombardeamentos, estão estreitamente ligados ao domínio do mercado do petróleo, aos interesses do complexo militar-industrial norte-americano e, em última análise, à manutenção do estatuto do dólar.

Se olharmos, por exemplo, para as mais recentes acções de desestabilização ou para intervenções directas dos EUA (Iraque, Irão, Líbia, Síria, Venezuela, Ucrânia, Rússia, China), verificamos que objectivamente elas têm-se centrado em países que, de uma maneira ou de outra, ameaçaram (ou põem em causa) o controlo do mercado dos produtos petrolíferos e, portanto, os privilégios do dólar.

Veja-se, por exemplo, o caso do BNP Paribas, que em Junho esteve na mira da justiça americana, com uma pesada multa a pretexto de ter contornado o embargo econômico ao Irão, a Cuba e ao Sudão. Para vários analistas, a verdadeira razão para a multa está no facto de que ajudar o Irão a contornar o embargo é ajudar o Irão na desdolarização das relações internacionais, intolerável para os EUA 6.

Não se pode deixar de ter em conta que a pesada multa do BNP Paribas, objectivamente, coincide com a entrevista do ministro francês da economia, Michel Sapin, ao Financial Times, declarando ser favorável a uma evolução do sistema monetário internacional. «Penso que um reequilíbrio é possível e indispensável, não somente a favor do euro, mas também das grandes divisas emergentes que contam cada vez mais no sistema comercial mundial».

Esta posição foi também secundada por Christophe de Margerie, presidente da Total, que declarou não ver utilidade do dólar nas transacções relativas ao petróleo!

Há contradições sérias inter-imperialistas, há contradições e disputas entre o dólar, o euro, o iene, o franco suíço e outras moedas.

Mas estas contradições têm cedido quando está em jogo o domínio do mercado do petróleo pelas grandes companhias petrolíferas ocidentais, designadamente americanas, quando está em jogo o domínio mundial do capital financeiro da Tríade – EUA, Europa Ocidental, Japão –, ou quando está em jogo um interesse vital para os EUA (dólar...) que, com o seu poderio militar, financeiro, tecnológico, mediático, diplomático e linguístico, congrega e arrasta para as suas causas, mesmo os seus concorrentes, em nome da defesa dos «valores ocidentais», dos «direitos do homem», da «luta contra o terrorismo».

Aliás, no caso da França, o alinhamento de Hollande com os EUA na política internacional é total. Dizia-se que Sarkozy era o caniche de Bush! Creio que a mesma imagem se pode colar a Hollande, o caniche de Obama!

No entanto, a «fabricação de dólares» com a rotativa a funcionar a toda a velocidade, multiplicando o montante de dólares em circulação, sem verdadeira correspondência com a produção de bens e serviços, para os EUA financiarem a sua dívida e as suas acções militares, tem vindo a gerar em muitos países, sobretudo em grandes detentores da dívida pública americana, muitas dúvidas e receios sobre a sustentabilidade do dólar, cada vez mais comparado a um sistema de pirâmide tipo Ponzi/D. Branca...

Vários economistas, acadêmicos e publicistas têm previsto, a curto prazo, o fim do reino do dólar e o colapso do sistema monetário. Essas análises são sobretudo técnicas, subestimando muitas vezes a força militar e a relação de forças a nível internacional e regional. No entanto, as contradições têm vindo a agudizar-se à volta do dólar e do «sistema monetário internacional».

As tentativas de superação da crise do capitalismo pelas emissões monetárias, injecções brutais de liquidez, conjugadas com a continuação de políticas ditas de austeridade, políticas de centralização e concentração de capitais, com a pseudo regulação da Banca e o desenvolvimento da «Banca Sombra», a continuação das deslocalizações e o aumento da robotização nos processos produtivos, estão a criar novas e graves contradições.

A FED decidiu encerrar o seu programa de compra de títulos em 29 de Outubro de 2014 com o argumento que a economia americana estava com força suficiente. Era uma decisão aguardada, quase como certa, face à crescente desconfiança em relação à sustentabilidade futura do dólar.

Christine Lagarde, na Universidade de Georgetown em Washington, em Outubro de 2014, mostrou-se convicta que o mundo iria passar por um longo período de «crescimento medíocre», encontrando como explicação não as contradições do sistema mas razões geopolíticas, apelando à vigilância em relação a outro perigo: os efeitos desestabilizadores do refluxo de capitais dos países emergentes.

Mas o que Lagarde não disse é que este refluxo de capitais, que saiu dos países emergentes, atribuído à diminuição da injecção de dinheiro pela FED – Quantitative Easing – tal como a baixa do preço do petróleo e a valorização recente do dólar para o credibilizar, bem como as acções desestabilizadoras em muitos destes países, se verificaram, objectivamente, após decisões tomadas por estes de se libertarem das imposições e do domínio do dólar.

Vários analistas e relatórios, como o relatório do International Center for Monetary and Banking (ICMB), mostram que as dívidas pública e privada acumuladas continuam a crescer.

A «saída da crise» não está para amanhã e é neste contexto de dificuldades e contradições agudas que o dólar, os petrodólares, o petróleo e o complexo militar dos EUA determinam, no essencial, a política externa dos EUA.

Putin, no seu discurso no «Clube Internacional de Debate Valdai», afirmou: «hoje vemos um forte aumento da probabilidade de se desencadearem conflitos violentos, com a participação directa ou indirecta das maiores potências mundiais...», «A próxima ameaça evidente é a escalada de conflitos étnicos, religiosos e sociais...». «Exploraram os conflitos regionais e conceberam as "revoluções coloridas" em função dos seus interesses, mas o gênio escapou da lâmpada. Parece que os pais da "teoria do caos controlado" não sabem o que fazer».

«(...) Basta olhar para os títulos da imprensa ocidental do último ano. As mesmas pessoas, chamadas combatentes pela democracia, são depois islamitas, primeiro falam de revoluções, depois de distúrbios e levantamentos. O resultado é evidente: a propagação do caos mundial.»

Referindo-se às sanções determinadas pelos EUA, e citando o caso do Chipre, Putin afirmou que as «sanções por motivos políticos não fazem mais do que reforçar, nos países visados, a tendência da defesa da soberania econômica e financeira e a vontade dos países, ou dos seus grupos regionais, procurarem os meios de se protegerem contra os riscos das pressões exteriores.

Vemos que cada vez mais países procuram os meios de ficarem menos dependentes do dólar e implementam sistemas financeiros de pagamento e de moedas de reserva alternativos». E acrescentou, «eu penso que os nossos amigos americanos estão pura e simplesmente a serrar o ramo em que estão sentados».

Os factos são elucidativos. A Rússia e a China têm dado passos decisivos para se libertarem da dependência do dólar, mas não só. Vejamos alguns exemplos: em Abril de 2013, na Austrália, o primeiro-ministro anunciava a conversão directa do dólar australiano e do yuan sem ter de utilizar o dólar americano como intermediário.

O Banco de Inglaterra fez um acordo de três anos com o Banco Popular da China para proceder a swaps de divisas (contratos nas duas moedas diferentes). O mesmo se verificou com a Turquia, Coreia do Sul, Islândia... No total são mais de vinte países que realizaram acordos semelhantes.

Em Julho de 2014 o Banco de França assinou um «Memorandum de entendimento» com o Banco Central Chinês, estabelecendo a primeira etapa de um processo visando constituir a curto prazo um sistema de pagamentos em yuan em Paris. O Luxemburgo e a Alemanha fizeram o mesmo.

Segundo vários analistas, a intenção dos chineses é de fazerem do yuan uma moeda aceite nas transacções internacionais e, no futuro, aceite como moeda de reserva, reduzindo a exposição ao dólar americano e aos custos cambiais. Reduzir os riscos, contornar o dólar. É nesse sentido, e também para dar resposta às «sanções» ditadas pelos EUA, e subscritas subservientemente pela UE, que a Federação Russa vai vender aos chineses gás em yuan.

De recordar que em fins de 2010 o yuan foi trocado pela primeira vez em rublos na praça bolsista de Moscovo.

Em Setembro de 2012 a China e a Rússia puseram em causa o reino do petrodólar assinando um acordo permitindo aos Chineses comprar o petróleo russo sem limites em yuan. Este acordo fez desencadear as campainhas de alarme na FED e em Wall Street, e com elas as acções de desestabilização políticas, financeiras e militares em relação a estes países e a todos os que ameaçam a supremacia e os privilégios do dólar. Mesmo o apoio dos serviços secretos americanos ao candidato de direita no Brasil não está desligado do facto de este país ter assinado um acordo, em Março de 2013, permitindo-lhe fazer a importação de bens da China em «reais», e a China as importações do Brasil directamente em yuan, nem do facto de o Brasil ser um dos subscritores da criação do Banco do Sul, banco para os países da América Latina financiarem projectos sociais e de infra-estruturas, de iniciativa de Hugo Chavez. O Brasil foi também subscritor da iniciativa apresentada pelos BRICS 7 no G20 de São Petersburgo para a criação de um fundo de cem milhares de milhão de dólares destinado a estabilizar os mercados cambiais.

A incerteza sobre a evolução da economia mundial, os receios de conflitos militares e de uma implosão do sistema monetário, ou de uma acentuada e abrupta depreciação do dólar, têm de novo impulsionado a procura e a especulação com o ouro.

Por alguma razão bancos centrais, designadamente da China e da Rússia, têm vindo, nos últimos tempos, a comprar ouro, por alguma razão parlamentares alemães exigiram que as reservas de ouro físicas do país regressassem à Alemanha e, por alguma razão, também na Suíça se realizou um referendo no mesmo sentido. Por alguma razão ainda os chineses – os maiores detentores da dívida pública americana ‒ têm vindo, desde 2010, a efectuar importantes e crescentes importações de ouro. Em 2010,120 toneladas, em 2011,420 toneladas, em 2012,834 toneladas e em 2013, 1176 toneladas!

Há quem considere que, para além das acções diversas de desestabilização de que os serviços secretos americanos são peritos, a arma do dólar e do petróleo está também a actuar tendo por alvo os países que põem em causa a supremacia do dólar 8.

Há quem considere que a baixa do preço do petróleo só em parte é explicada pela crise e pelo facto de o Iraque e a Líbia estarem a produzir petróleo, agora controlado pelas grandes companhias petrolíferas, ou pela produção de combustíveis a partir de xisto nos EUA.

A razão principal é que esta queda programada e desencadeada pelo aumento da produção da Arábia Saudita, objectivamente, não é mais do que «uma guerra por outros meios», com alvos precisos. O Irão, a Venezuela e a Rússia são, entre outros, os países mais afectados, precisamente aqueles que ousaram transaccionar o petróleo sem a intermediação do dólar.

É certo que a queda do preço do petróleo também atinge pequenos produtores e empresas produtoras de gás de xisto nos EUA. Mas está ainda longe de atingir as grandes empresas petrolíferas.

Por outro lado, a baixa do preço do petróleo serve os objectivos estratégicos dos EUA, de defesa do dólar e de combate aos regimes progressistas da América Latina e dos países «emergentes».

Rui Namorado Rosa, no seu artigo «Geopolítica do petróleo e gás natural» 9 chama a atenção de algumas fontes que indiciam o projecto de levar «a Rússia à falência...». «Designadamente a Forbes desvenda o propósito de "estabilizar" o dólar por forma a trazer o preço do ouro para US$550/onça e do petróleo para US$40/b; e adiciona que tanto não seria preciso para terminar com o "aventureirismo" russo. US$80/b já seria bastante.»

«A tarefa seria cometida à Reserva Federal na forma de "estabilização" do preço do ouro na COMEX (bolsa de commodities) seguindo um script já previsto numa proposta legislativa (monetary reform bill, H. R. 1576) e que merece na Forbes o título "É tempo de levar a Rússia à falência – outra vez" (assinado Louis Woodhill, 3 de Março, 2014)».

Thomas Friedman, editorialista do New York Times diz que a baixa dos preços dos EUA serve os interesses estratégicos dos EUA e da Arábia Saudita 10.

Por sua vez, o Pravda antecipava esta baixa em plena crise ucraniana, na Primavera de 2014: «Obama quer que a Arábia Saudita destrua a economia russa»11. A Arábia Saudita tem reservas petrolíferas e monetárias para manter preços baixos por um longo período. Resta saber se esta estratégia atingirá os seus objectivos ou se, a médio prazo, não terá efeitos precisamente contrários».

Em 3 de Novembro, a Reuters, baseada na análise de David Spegel, responsável pelo acompanhamento das dívidas soberanas e de empresas no PNP Paribas, afirmava que os países exportadores de petróleo iriam, pela primeira vez, em 2014 – após 25 anos – retirar «petrodólares» dos mercados financeiros. Uma grande parte do produto das exportações do petróleo encontra-se nos mercados financeiros internacionais através da reciclagem dos petrodólares, contribuindo para sustentar o valor dos activos e manter baixos os custos de financiamento. Segundo os cálculos do BNP Paribas os países produtores de petróleo serão, em 2014, importadores líquidos de capitais na ordem dos 7,6 milhares de milhão de dólares, quando em 2013, por exemplo, tinham sido exportadores líquidos de 60 milhares de milhão. Se o preço do petróleo continuar a descer vai criar grandes problemas aos países exportadores, que terão necessidade de ir aos mercados para financiar as suas economias e as suas dívidas, mas também diminuirá substancialmente a reciclagem dos petrodólares, ou seja, aumentam as dificuldades de financiamento da dívida dos EUA.

Entre os países atingidos, a Rússia, possuidora de imensas reservas, tem-se voltado cada vez mais para o mercado asiático, e estabeleceu com a China, como já referimos, um acordo intergovernamental que vai traduzir-se no fornecimento de gás, por gasoduto, num mega contrato estimado em 400 milhares de milhão de dólares, por 30 anos. A ofensiva dos EUA e seus satélites contra a Rússia continua. Para além da baixa do preço do petróleo e das sanções, a pretexto da Ucrânia, tem havido a retirada significativa de capitais estrangeiros e uma forte especulação contra o rublo.

Discursando na Austrália, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, comparou a Rússia à Alemanha nazi e vangloriou-se do impacto das sanções: «Nós podemos ver o que aconteceu ao rublo, o que aconteceu à bolsa...» (The Telegraph, 14 de Novembro de 2014).

Mas, como lembra J. Sapir no seu artigo «Le trouble du rouble», uma forte depreciação do rublo age também como uma medida proteccionista do mercado interno, favorecendo as exportações e a reindustrialização da Rússia, e favorecendo também o Orçamento do Estado, que é feito em rublos.

A Rússia e a China são dois grandes alvos dos EUA na defesa dos privilégios e estatuto do dólar.

No Fórum Económico para a Ásia e o Pacífico, APEC (Asia, Pacific Economic Cooperation), realizado na China no princípio de Novembro de 2014, a China conseguiu uma importante vitória diplomática ao garantir uma posição de princípio de todos os países presentes em relação a um acordo de comércio livre para a região. Este acordo é de grande significado, tanto mais que os EUA tentaram impedi-lo, e tinham um outro acordo de que não desistiram – que exclui a Rússia e a China, reduzindo a influência destes na região.

Logo a seguir ao Fórum da APEC, a China assinou ainda dois acordos com o Canadá e o Qatar, «Currency Swap Deal», considerados mais um passo no sentido da global desdolarização do comércio mundial, e muito especialmente no sistema de petrodólares, que é o principal instrumento da dominação americana. Canadá e China passam a utilizar o dólar canadiano e o yuan sem passarem pelo dólar, no comércio bilateral. O mesmo se passou com o acordo entre o Qatar e a China por três anos. (China, Qatar Ink Currency Swap Deal – China Daily.com.cn. 14 de Novembro).

De sublinhar também que, a 24 de Novembro de 2014, a «Telasur», com o título «Beijing, o crepúsculo asiático pós Bretton Woods», noticiava que um grupo de 22 países asiáticos reuniu-se em Beijing para assinar um acordo aprovando a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (AIIB, em inglês), um ano após o presidente da China ter feito esta proposta no Fórum Ásia-Pacífico, na Indonésia. Este banco terá sede em Beijing. A China será o primeiro accionista, com 50% dos fundos, e a Índia o segundo. Os princípios directores deste banco (justiça, equidade, abertura) são uma clara alusão à dominação esmagadora de Washington no governo da arquitectura financeira internacional.

A este propósito, Wei Jianguo, ex-ministro do Comércio chinês, afirmou: «Pode-se comparar isto a um desafio de "basquete" onde os EUA estabeleceram a duração do desafio, o tamanho do campo, a altura do cesto, tudo adaptado segundo os seus interesses.»

Recorde-se que o Banco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), criado na cimeira destes países em 15 de Julho de 2014, em Fortaleza, tem também a simbologia de se verificar 70 anos após os acordos de Bretton Woods, onde foram criados o FMI e o Banco Mundial.

Há contradições que se agudizam e podem ter desenvolvimentos inesperados e perigosos. Mas é verdade também que o imperialismo americano tem mais dificuldades em impor por toda a parte o seu domínio. Com contradições, a luta dos trabalhadores e a resistência dos povos vai-se desenvolvendo, não deixando de ter em conta que o marasmo económico, a recessão e os problemas do capitalismo não provêm só das crises cíclicas, cada vez mais frequentes, mas também da tendência histórico-geral da acumulação capitalista, ampliando a crise estrutural do sistema, sem esquecer que o desenvolvimento desigual é inerente ao capitalismo em todas as fases do seu desenvolvimento, num entrelaçamento das crises económicas de sobreprodução e sobre-acumulação com as crises estruturais que se arrastam (energética, alimentar, matérias-primas, monetária, cambial e financeira, ecológica,...).

E quanto às saídas keynesianas, creio ser de recordar a economista pós-keynesiana Joan Violet Robinson (in Economic Heresies) que, analisando a crise da teoria económica do seu tempo, conclui que esta se dera porque nem «a revolução keynesiana nem a síntese neoclássica renunciaram ao princípio fundamental da apologética burguesa que considera compatível a maximização do lucro com a a conquista do bem-estar social», muito semelhante às actuais teses do «mix» de políticas de investimento, com reformas estruturais»12.


Notas:

(1) Não são os desacreditados stress tests (veja-se o que se passou com o BES, que sempre passou nesses testes) que alteram esta realidade, ou que recuperam a confiança da opinião pública e dos depositantes no sistema bancário. Aliás, a desconfiança vem da própria banca! Os bancos continuam a não conceder empréstimos entre si – o mercado interbancário continua muito reduzido.

(2) A chamada crise do euro está longe de estar ultrapassada. Os desequilíbrios acentuam-se. A Alemanha continua a registar elevados excedentes da sua balança de transacções, ao contrário da maioria dos países da UE. A desconfiança sobre o futuro do euro também se mantém. O Banco de Inglaterra, por exemplo, continua a sugerir às instituições financeiras, desde 2011, para integrarem sistematicamente uma cláusula nos seus contratos sobre a saída da zona euro para reduzir a incerteza no caso dos seus devedores mudarem de moeda.

(3) No comunicado do G20 de Brisbane, Austrália, promete-se um crescimento mundial de 2,1% de agora até 2018. Atente-se no 0,1%! A economia mundial vai crescer, não 2%, mas 2,1%. Que rigor de cálculo!... para tentarem credibilizar a afirmação: «crescimento de 2,1% com investimentos de 2 mil milhares de milhão de dólares americanos!».

(4) Nos EUA até com a venda de automóveis, num processo estilo subprime para a habitação, se desenvolve uma nova «bolha», com a criação de títulos ditos de grande rentabilidade, de proporções alarmantes.

(5) A apreciação do dólar visa, segundo alguns analistas, credibilizar esta moeda, quando muitos se interrogam sobre o volume de dólares em circulação e a saúde do sistema monetário. A desvalorização do euro é o resultado das medidas da FED e da intervenção do BCE contra a deflação e dos sinais negativos das economias na UE. Os EUA têm custos com a valorização do dólar, mas, segundo alguns analistas, esta apreciação não constitui ainda um handicap para a competitividade da sua economia, e há quem preveja uma progressão do dólar com ganhos de 4% a 8% nos próximos 12 meses. A depreciação do euro é benéfica para os países da periferia, como Portugal. Neste quadro, o Japão, a China, a Suíça,... não escondem o seu objectivo de enfraquecer as suas moedas. A guerra dos câmbios é também uma manifestação da crise e das tentativas de cada país procurar a saída pela via das exportações.

(6) E não se invoque a «Teoria da Conspiração» para descredibilizar o que se disse. Lembrar que a «Teoria da Conspiração» foi criada ideologicamente para desvalorizar, pôr em dúvida ou ridicularizar efetivas «conspirações», planos maquiavélicos, chantagens, pressões, e a utilização da força para impor vantagens unilaterais.

(7) BRICS – acrônimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

(8) O advogado, economista e banqueiro (banco de investimentos) James Rickards, no seu best-seller Currency Wars, diz-nos que o Pentágono testou de forma rigorosa um «jogo de guerra financeiro» utilizando apenas instrumentos financeiros, acções, obrigações, derivados, divisas. Paul Craig Roberts, economista, Assistant Secretary of Treasury na administração Reagan e ex-director e colunista do Wall Street Journal, Business Week, tem denunciado também diversas acções dos serviços secretos americanos na desestabilização económica e financeira em diversos países.

(9) Rui Namorado Rosa, «Geopolítica do petróleo e gás natural», in O Militante, N.º 332, Setembro-Outubro/2014, p. 51.

(10) Catherine Bouisset, La chute du prix du pétrole, "la guerre par d'autres moyens"?. L'express. Há, no entanto, Pedro Escobar, jornalista brasileiro e correspondente do Asia Times, que considera que «a Arábia Saudita» sitiada acredita que pode forçar Moscovo a abandonar o seu apoio a Damasco e forçar Washington a não realizar um acordo com Teerão. Tudo isto através da venda de petróleo abaixo do preço spot médio.

(11) Les manœuvres maléfiques des rentiers du Golfe. Chems Eddine Chitour.

(12) Economic Heresies, Some Old Fashioned Questions in Economic Theory (1971), Basic Books, New York.



Carlos Carvalhas









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