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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um atalho eclesiástico para o poder mundial


Um atalho eclesiástico para o poder mundial
por Jorge Messias


«É hora de buscar uma saída alternativa ao sistema capitalista – perverso a ponto de destruir triliões de seres vivos para salvar o mercado financeiro e virar as costas aos biliões de homens e mulheres que diariamente vacilam entre a pobreza e a miséria...» (Frei Bettto, «Conversa entre a Fé e a Ciência).

«Economia solidária é um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver. Sem explorar os outros, sem querer levar vantagem, sem destruir o ambiente. Cooperando, fortalecendo o grupo, cada um pensando no bem de todos e no próprio bem! A Economia Social aponta para uma nova lógica de desenvolvimento sustentável, com a criação de trabalho e melhor distribuição do rendimento...» (Ministério do Trabalho e Emprego, «O que é Economia Solidária», Mata do Portal, 13.9.2012).

«Nem o esquematismo, nem a uniformização vinda do alto, têm algo em comum com o centralismo democrático e socialista. A unidade, quanto aos pontos essenciais, não é violada; pelo contrário, é garantida pela diversidade quanto aos detalhes, às particularidades locais, às maneiras de abordar as questões ou aos modos de aplicação do controlo... As massas são milhões. Ora a política começa, não no ponto em que as pessoas se contam por milhares mas naquele em que passam a constituir milhões… Só aí começa uma política a sério!» (V.I. Lénine, «Obras Completas»).

Os monopólios colocam a Igreja num alto lugar e esta não os desilude. Sem desmentidos sérios, ela própria é apontada como «primeiro monopólio mundial». Uma experiência milenar permite ao Vaticano controlar, a um só tempo, gigantescas redes de interesses focalizadas, quer nas «máfias» isentas de qualquer moral; quer nas doutrinas que sugerem utópicas economias solidárias e atitudes filantrópicas, por parte dos capitalistas multimilionários. Ou, então, conservar uma soberana indiferença perante as lutas de classes. «Os cães ladram e a caravana passa», raciocina cinicamente o seu disciplinado clero.


Na Europa, a situação é em geral cada vez mais difícil e complicada. Os estados vão-se apagando perante os poderes imperiais dos grandes grupos económicos. A classe dominante procura destruir fulminantemente os grupos sociais que constituem os elos mais fracos. Impõem a obediência incondicional à sua vontade. Actuam «sem rei nem roque». Nada os pode impedir de avançar, assim acreditam. Nem direitos do homem, nem constituições, nem limitações éticas. Mais ou menos acentuadamente, por toda a Europa, a lei é substituída pela obediência incondicional aos mais fortes e aos mais ricos.

Todavia, se os banqueiros e os especuladores perdem a cabeça, os bispos conservam o sangue frio. Sabem, intimamente, que a luta de classes é a espinha dorsal da História e que é ela, mais do que nunca, que espelha a aguda crise que o mundo atravessa. Ninguém já acredita em milagres. O momento actual impõe às hierarquias aparentar que a ortodoxia sempre defendeu os trabalhadores. O clero católico, com palavras sábias, deve mudar o seu discurso mas manter intactos os nichos dos seus dogmas fundamentalistas.

Salta, entretanto, aos olhos do cidadão comum, que a exploração e a miséria crescem imparavelmente por toda a parte onde o capitalismo impera. O «estado neoliberal» ou «social-democrata» corta às cegas e sai à estrada mal lhes cheire a dinheiro.

Tal como a Igreja sempre desejou, os famintos refugiam-se sob as suas asas.

Porém, em vão. Mesmo que formadas em pirâmides ou ligadas em redes sociais, as organizações caritativas jamais substituirão o Estado social. No Capitalismo, a caridade depressa deixa de funcionar.

Leia-se uma recente nota da Conferência Episcopal acerca das experiências catastróficas que atingem o povo português. Os bispos enumeram as dificuldades que atingem o nosso povo, prova de que as conhecem. Depois, declaram que existem, não um mas vários caminhos para superar a situação. Mas logo remetem as responsabilidades para terceiros: «Compete aos políticos escolher entre esses caminhos, estudá-los e apresentá-los com sabedoria... A superação da crise supõe uma renovação cultural. A Igreja quer contribuir para essa renovação. Contamos para isso com a força de Deus e a protecção de Nossa Senhora!».

É o faro dos negócios. Cerejeira não faria melhor...



Fonte: Avante


O Mafarrico Vermelho

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