Oligarquia, austeridade e repressão


Como ficamos após as medidas de austeridade impostas pela troika



Oligarquia, austeridade e repressão
Escrito por Camila Carduz
 
14 de octubre de 2012, 11:35 La Vèrdiere, França (Prensa Latina) Sobre a situação na zona euro (ZE) há muito o que dizer, mas é melhor ler a excelente análise intitulada "Crônica de uma morte anunciada" de Bernardo Kilksberg, grande professor da Universidade de Buenos Aires. Além de ser doutor em economia, conheceu e viveu a realidade das políticas de austeridade em sua Argentina natal: "Na economia há muitas incertezas, mas uma das coisas que hoje se sabem depois de experiências como as da Argentina e do México nos anos 90 e da Europa atual é quais são os efeitos dos ajustes ortodoxos. São, parafraseando García Márquez, a Crônica de uma morte anunciada".

E como diz Kilksberg, a "proposta ortodoxa é, antes de tudo, má economia, produz efeitos letais. No entanto, beneficia setores, particularmente financeiros, do um por cento que hoje é dono de nada menos que 43 por cento do Produto Bruto Mundial e que precisa de um relato da economia que o legitime e proteja seus interesses".

E em matéria de proteção dos seus interesses, agregaria este jornalista, os oligarcas têm a seu serviço os Estados, que quanto mais endividados estão maior uso fazem de seu "monopólio da violência legitima". Alguém já viu o FMI ter alguma vez reclamado cortes na despesa militar e da segurança pública dos países latino-americanos que faz duas ou três décadas tiveram que executar os severos planos de austeridade que exigia o Consenso de Washington? Não, isso nunca aconteceu. Bem pelo contrário, a experiência mostra que com os planos de austeridade aumentou a resistência popular e disparou tanto a repressão como a despesa na "segurança pública".

As cifras do Instituto de Investigações sobre a Paz Internacional de Estocolmo (Sipri, em inglês) mostram que em 2011 os 27 países membros da UE gastaram 281 bilhões de dólares estadunidenses no setor de "Defesa", somente oito bilhões a menos que em 2008, o que coincide com as cifras do organismo da UE que se ocupa das estatísticas, Eurostat, que situa em 1.6 por cento do PIB a despesa destinada à Defesa por parte dos países membros entre 2002 e 2010.

Mas no capitulo da "segurança pública", isto é nas forças policiais, prisões e organismos judiciais para "manter a ordem", a despesa dos países da UE passou de 1.8 por cento em 2002 a 1.9 por cento no 2010, e provavelmente aumentou em 2011 se levarmos em conta que os cortes na despesa estatal em muitos países da UE, para reduzir os déficits públicos, não afetam a despesa militar tampouco a "segurança pública".

Tudo isto para lembrar que as políticas de austeridade que têm sido aplicadas pelos governos da UE sob o ditado da oligarquia financeira, causadores do empobrecimento em massa, do desemprego e da miséria de milhões de europeus, têm necessariamente que vir acompanhadas de políticas repressivas, e às vezes de golpes de Estado e ditaduras quando se tratam ou se tratavam de países latino-americanos.

Quando a oligarquia tem o poder, a democracia cessa de ter vigência.

Esse um por cento, a oligarquia que domina o mundo, tem temores. "O maior é que os povos decidam despojá-la de sua riqueza obscena", como escreve o Blogger "masaccio" ao assinalar que segundo o colunista Kenneth Rapoza, da revista Forbes - lida pelos oligarcas para saberem em que lugar se encontram entre os 500 mais ricos do mundo -, o que os ricos mais temem é que "congressistas fraldeiros" de repente comecem a plasmar as demandas do eleitorado. Ou que "tenha violência nas ruas", como escreve Robert Frank na seção Relatório sobre a Riqueza do jornal Wall Street.

Em 2010, segundo o economista Emmanuel Saez da Universidade da Califórnia em Berkeley, os estadunidenses ricos, um por cento da população, apropriaram-se de 93 por cento do aumento do rendimento, e segundo uma análise de Peter Robinson da agência Bloomberg (2 de outubro 2012) em 2011 a brecha entre ricos e pobres nos Estados Unidos superou, em desigualdade nos rendimentos, às de Uganda e Cazaquistão.

E como os povos têm em dado um momento a tendência de protestar e exigir mudanças de política, como política de princípio a oligarquia exige que o Estado utilize seu "monopólio da violência legítima", ou seja, que reprima qualquer manifestação de protesto ou crítica ao sistema.

À vista está as muitas vezes brutal repressão policial contra os manifestantes de Occupy Wall Street nos Estados Unidos, ou contra os manifestantes na Grécia e Espanha, por exemplo. E os que vivemos a realidade latino-americana sabemos que não somente a repressão aumentará à medida que se incremente o protesto social, como também irá adquirindo todas as características de violência e arbitrariedade que correspondem a uma ditadura, à ditadura do capital financeiro.

As forças democráticas europeias, aquelas que realmente se opõem a esta oligarquia, devem estudar o que sucedeu quando o FMI - com o apoio da oligarquia local e dos militares - obrigou certos países latino-americanos a levar a cabo políticas de austeridade similares, ou talvez um pouco mais severas que as aplicadas atualmente na Grécia ou Espanha.

Oligarquia, austeridade e repressão vão unidas contra os povos. A democracia e o protesto não cabem nessa equação, essa é a realidade até o momento em que os povos em massa dizem
"Basta! Que se vão todos!".


 *Colaborador da Prensa Latina.

 arb/ar/cc
 
 
 
 

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