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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Os Miseráveis, de Victor Hugo - O romantismo como forma de humanização do real

Os Miseráveis, de Victor Hugo - O romantismo como forma de humanização do real
por Domingos Lobo

«Não existe hoje um movimento que seja sequer a sombra do romantismo ao meio-dia»
Fernando Pessoa

 
 

1. O romantismo começou por se manifestar, na sua génese, contra a ideologia feudal-absolutista que a Revolução Francesa, com o seu ímpeto generoso, abalou de forma determinante.

A burguesia mercantilista e industrial do início do século XIX vem impor um tipo novo de imaginário, derivante da ascensão de uma nova classe ao poder e aos meios de produção que, contrariando as premissas do iluminismo, se adaptasse aos novos tempos, os tempos da máquina a vapor, e à visão do mundo da classe dominante. O romantismo, trazendo no seu bojo ideais fraternos e libertários, não deixou de reflectir a omnipotência do dinheiro e as derivas de um capitalismo nascente, denunciando, pelas suas vozes mais atentas e críticas, as componentes ideológicas que ainda hoje, com os refinamentos conhecidos, prevalece na essência: feroz individualismo, usura, desprezo pelo ambiente e pela natureza, envilecimento humano.

Na literatura, o romantismo encena um olhar mais introspectivo e analítico sobre as condições sociais, investe naquilo a que Óscar Lopes designa «autonegação», ou seja, pela atracção de estórias que tinham o herói negativo como centro da acção efabular (o herói insociável, o ladrão, o revolucionário sem ideologia, os proscritos – Diogo Alves, José do Telhado, no caso português; Jean Valjean e Cosette, em Os Miseráveis, de Hugo; a Rosa do Adro, e A Severa, como derivantes populares do género romanesco); na recolha de lendas e narrativas do antigo viver feudal, pagão ou religioso (entre nós, Almeida Garrett fez exactamente o mesmo) por forma a perpetuar a memória ancestral e colectiva a que os românticos davam especial apreço.


A evolução tecnológica, com o aparecimento em 1812 da rotativa Koenig (cilíndrica) movida a vapor e a introdução do cloro no tratamento da pasta de papel, vem permitir uma mais rápida, fácil e acessível manufactura do livro e, sobretudo, dos jornais. O The Times começa a ser impresso por esta rotativa em 1814. Em 1815 existiam em Londres, cidade então com 1 milhão de habitantes, oito diários vespertinos e oito matutinos. O jornal barato, com grandes tiragens, começa a ser uma realidade em quase toda a Europa a partir de 1840.

A partir de 1850, a revolução industrial transfiguraria em absoluto a estrutura social e política da Europa, com o aparecimento de duas classes que, tendo a mesma origem, se antagonizarão no decurso da evolução política e económica: a burguesia e o proletariado. Em Inglaterra, o romance, fugindo aos padrões do classicismo barroco e cortesanesco, autonomiza-se (ao contrário do que acontecia em França e Espanha), tornando-se um género muito popular e influente, atraindo um público leitor cada vez mais vasto, não já dos salões da aristocracia, mas da burguesia e das camadas mais esclarecidas do proletariado urbano.

Tanto o romantismo alemão como o inglês, imbuído de um forte cariz nacionalista, nasce e desenvolve-se contra o expansionismo napoleónico. É uma forma de manter viva e actuante, junto das elites, o espírito patriótico que o romantismo, com a sua atracção pela cultura popular, pelas raízes identitárias (sentida, sobretudo, pelos povos germânicos, que viveram séculos de ocupação), permite estabelecer. Mesmo com a queda de Napoleão em 1815, essa vertente mantém-se viva e determinante como farol da narrativa romanesca difusora dos ideais nacionalistas. Só Shelley, influenciado pelas correntes realistas, se atreve a escrever poemas de forte exaltação revolucionária. Fogo-fátuo, no entanto.

Em Portugal começa a generalizar-se o romance de cordel, os folhetins, com página certa nos periódicos, ou vendidos em edição autónoma para coleccionadores. Mesmo o público não alfabetizado começa a ter acesso aos grandes títulos da época, como o popular O Conde de Monte Cristo, ou Os 3 Mosqueteiros, de Dumas, Mistérios de Lisboa, de Camilo Castelo Branco ou, até, o D. Quixote, de Cervantes, através da leitura colectiva praticada nas colectividades de bairro ou, já no final do século XIX, nos centros republicanos.

O estilo dos primeiros românticos, muito declamativo e hiperbólico, excessivo e redundante na componente imagética, dada a necessidade de captar a atenção de um público novo, pouco culto e sedento de emoções fortes, conduz a algum facilitismo estilístico e à introdução de um contínuo fluxo de acontecimentos que dispersa a narrativa e a torna, por vezes, incapaz de contenção reflexiva sobre o real que percepciona. Os primeiros escritos de Victor Hugo, Dickens, Michelet, Balzac, Walter Scott (este último, influenciando muito o nosso Alexandre Herculano, que se dizia liberal, mas antidemocrático – insanável contradição que o levaria a um exílio voluntário para terras de Santarém), ou os nossos Garrett e Castilho, traziam ainda, no gosto pelo exotismo descritivo, o barroco atrelado.

Victor Hugo é, no entanto, o primeiro dos autores do romantismo a sentir a necessidade de criação de uma doutrina estética que fosse, igualmente, um instrumento moral e ético para a sociedade do seu tempo, afastando-se, nesse posicionamento, das fundamentações teóricas de Frederico Schleger. A visão do mundo e da sociedade divergem tanto em Victor Hugo como em Balzac ou Dickens, dado que as condições diversas em que escreveram, as tertúlias que frequentaram e a intervenção social que experimentaram, ou as condicionantes sócio-políticas em que desenvolveram os seus romances, resultaram em análises ideológicas específicas dessa realidade.

Victor Hugo, por exemplo, não deixou de interpretar de forma vigorosa e, por vezes, revolucionária, as transformações que a Revolução introduziu no corpo orgânico da sociedade francesa dos séculos XVIII e XIX e, no caso singular do romance que hoje nos ocupa, Os Miseráveis, as origens e trágico fim da Comuna de Paris. Ao longo dos anos em que escreveu, o autor de Nossa Senhora de Paris, não renegando a matriz romântica da sua produção literária, foi influenciado, ao longo de mais de seis décadas de vida literária, por outros movimentos, incluindo a escola realista que determinaria, em final de vida, uma acentuada viragem no seu método de análise social.

Como Zola, Victor Hugo considerava-se um semeador de ideias, um interventor, vertente que o prodígio da sua capacidade discursiva, nomeadamente nessa obra-prima que é Os Miseráveis, amplamente expressa. Hugo confiava, como Zola, no homem e na sua imensa capacidade de transformação – e, por consequência, no progresso social e humano.

Se o grupo social, a classe sobre a qual o romantismo se debruça, analisa e privilegia se encontra entre a burguesia nascente e uma neo-aristocracia de raiz burguesa – dado que letrada e com grande poder de compra; com incomensurável desejo de ascensão social – Victor Hugo não deixa de reflectir nos seus romances, Nossa Senhora de Paris e Os Miseráveis, sobretudo, um olhar solidário, por vezes cúmplice, para com os proletários e os perseguidos pela usura e pela repressão, de que a personagem Jean Valjean é paradigma.

Victor Hugo, como Zola (que possui a idealização épica do povo, das suas lutas e da sua capacidade de enfrentar as derivas históricas – como, de resto, Hugo não deixa de introduzir em diversos capítulos de Os Miseráveis), se têm como público alvo a burguesia, sabem, no entanto, que ela se constitui, enquanto classe, em grupos dispersos, fragmentários e, por vezes, antagónicos, carente de uma ideologia que consolidasse e legitimasse o seu poder económico, derivando entre as atribulações de Proudhon de A Filosofia da Miséria e um Marx que a esta análise contrapunha, assertivo e lúcido, o seu A Miséria da Filosofia.

Ao contrário do proletariado urbano e do povo miúdo de Paris, que possuem uma profunda consciência de classe, a burguesia vive o esplendor do seu poder, da usura e da volatilidade. Daí que o termo «burguês», utilizado pelos trabalhadores, ganhe, neste contexto, um sentido pejorativo, um arremesso aos inimigos de classe, opositores acérrimos e imorais aos interesses dos trabalhadores e do povo. Os intelectuais, mais brandos, apenas definem o «burguês» a traço grosso, invectivando a sua falta de cultura, a ignorância, a rudeza e o acentuado mau-gosto para questões laterais. O nosso Eça foi, nessa vertente, inexcedível de humor e acinte.

Para Victor Hugo o romantismo «é a liberdade na arte». A personalidade de Victor Hugo, a sua influência, o seu prestígio tornam-no na figura literária mais marcante do primeiro romantismo, tanto em França como no resto da Europa. Vejamos Óscar Lopes/António José Saraiva: «A sua lira enriquece-se de novos temas: a luta contra o absolutismo político (Châtiments, 1853); a evolução e o progresso da humanidade (Légende des Siècles – 1859/83); reivindicações humanitárias (Os Miseráveis, 1862). Este alargamento da temática poética de Hugo deve-se principalmente aos acontecimentos de 1848-50 em toda a Europa, às lutas populares e burguesas travadas em França, na Itália, nos Balcãs e na Polónia contra o império francês, contra o feudalismo do Centro e Oriente da Europa, lutas que vinham na sequência das de 1830, com o sensível aparecimento de um factor novo, a camada operária engrossada pela industrialização.»
(1)

2. Publicado a 3 de Abril de 1862, Os Miseráveis, tornar-se-ia não apenas o romance mais importante de Victor Hugo, como aquele que, em definitivo, colocaria o autor na galeria dos mais respeitados escritores de toda a história da literatura. O livro, que na versão portuguesa a que recorro para este texto se apresenta em quatro grossos volumes (2), é um fresco impressionante da sociedade francesa da primeira metade do século XIX. Da Batalha de Waterloo (1815), às barricadas da Rue Saint-Denis, em Junho de 1832, a épica história de Jean Valjean, o homem que esteve preso 17 anos por roubar um pão, que sofreu o suplício das galés e que, em grande parte da vida, foi perseguido por Javert, um inspector da polícia que tinha um estranho sentido do dever, é descrita com uma precisão de pormenor que só a pena de um escritor de vastíssimos recursos e qualidades artísticas e humanas conseguiria, com tanto rigor de pormenor, traçar.
 
A morte de Gavroche nas barricadas, o resgate de Marius pelos esgotos de Paris, são momentos ímpares em toda a história da literatura. Raramente o romance, o romance que os autores do século XIX construíram e do qual, ainda hoje, com episódicos pormenores de estilo e de circunstância, somos herdeiros, atingiu, como neste texto de Victor Hugo, tão vastos patamares de emoção, quer na forma de representação da vida colectiva da época, quer na denúncia das atrocidades do sistema em relação ao povo miúdo e deserdado da sorte e da fortuna, os problemas de um povo acossado, as suas lutas e misérias, a revolta, por fim, atingem neste fresco lapidar os momentos mais altos e sublimes de que a literatura, a que se empenha com o homem e o seu devir, foi capaz. O ideal romântico de confiança no homem e na sua capacidade de travar as injustiças, a fome e a opressão, capaz, por fim, de transformar a realidade, superando-a, está plenamente expressa neste romance exemplar. Victor Hugo encena em Os Miseráveis (apesar dos fortes componentes românticos que o estruturam, mormente no último capítulo) as experiências de amplas camadas humanas e do começo da tomada de consciência do operariado. Zola tornaria ainda mais evidente estes pressupostos, e ambos, Zola e Hugo, com o seu exemplo e o manancial humano e social, o romantismo como elemento de transformação do real que os seus textos imprimem e transportam, serviria, oito décadas depois, como esteio do nosso neo-realismo.
 
Ou seja, 150 anos depois, Os Miseráveis ainda é, face às derivas deste nosso desgraçado tempo, um romance actual e pleno de sinais e ensinamentos. Os poderes de hoje ainda prendem e perseguem um homem que tenha fome e roube pão.

A reler, obviamente.
 
 
Notas
(1) História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva/Óscar Lopes, 8.ª edição, Porto, 1975, p. 737.
(2)
Victor Hugo, Os Miseráveis, Editorial Minerva, 1962.



Fonte: O Militante Nº 318



Mafarrico Vermelho

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