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terça-feira, 16 de junho de 2015

O que trás a visita a Belgrado de Angela Merkel?

O que trás a visita a Belgrado de Angela Merkel?
por Dragomir Vučićević*


Angela Merkel irá em breve visitar a Sérvia. Seria na verdade muito difícil explicar que essa visita oficial ao país e à nação que sofreu tão terrivelmente sob a ocupação da soldadesca hitleriana, num ano de numerosas datas comemorativas, passasse sem a devida homenagem ao 70º aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo, sem tributo a milhões de vítimas, e sem pedido de desculpas público à nação sérvia.

Embora a data exacta da visita à Sérvia da chanceler alemã Angela Merkel ainda não seja conhecida, espera-se que ela se realize em breve. Existem poucas dúvidas acerca da grande importância que esta visita terá, tanto para o desenvolvimento futuro das relações bilaterais entre os dois países como para as relações entre a Sérvia e a EU, frequentemente referidas como a agenda europeia da Sérvia. 

Não menos presentes estarão também pontos relativos ao conjunto dos desenvolvimentos actuais na região. Ao mesmo tempo que a crise grega persiste, a região vê emergir uma nova crise – desta vez na Macedónia. Para além disto, o extremismo político, o crime organizado internacional e o terrorismo recrudescem. A rota do tráfico de heroína atravessa a Macedónia e partes da Sérvia para acabar nas ruas da Europa Ocidental. A mesma rota é também um importante corredor para o trânsito de dezenas de milhares de refugiados oriundos do Próximo Oriente, do Médio Oriente e do Norte de África, incluindo os pretensos exilados políticos. Encenações com símbolos e cânticos em louvor da dita Grande Albânia aumentam de frequência em diversas ocasiões no Kosovo e Metohija, Albânia e Macedónia e, em ligeiramente menor número, na Grécia e Montenegro.

Quer nos pronunciemos em voz alta quer mantenhamos o silêncio, ou minimizemos as questões anteriormente referidas ou outras da mesma ordem, é aparente que a região mergulhou num período de séria turbulência, senão de desestabilização pura e simples.

As interrogações são óbvias: em que medida são estes acontecimentos espontâneos, ou estão a ser orquestrados; em que medida são consequência de uma aguda e profunda crise socioeconómica, ou do desemprego massivo e da desorientação dos jovens, e em que medida são o resultado de manipulação por parte de potências exteriores à região; porque não foram activados os mecanismos de acção preventiva; quais são as consequências possíveis; em caso de escalada e, possivelmente, de um ainda mais grave desenvolvimento da situação, como prevenir o seu alastramento ou efeito de dominó, uma vez que a situação dificilmente poderia ser controlada ou contida apenas nos limites desta região?

Cremos que esta questão será igualmente abordada em conversações no decurso da visita a Belgrado de Angela Merkel. Mais do que isso, esperamos que os esforços conjuntos irão traduzir-se em iniciativa útil e em resultados. A referência a esforços conjuntos implica o reconhecimento da importância geoestratégica da Sérvia e da sua capacidade para parcerias em áreas e projectos de interesse comum. Supomos que, nesta matéria, a Sérvia merece uma muito maior compreensão e apoio.

Acompanhando os desenvolvimentos políticos e públicos, acreditamos não estar em erro ao assumir que uma larga margem da opinião pública na Sérvia considera – e isto é historicamente importante – que seria muito vantajoso para a reconciliação, para uma maior compreensão e para uma mais ampla cooperação, se a chanceler Merkel considerasse apropriado formular, no decurso da sua visita, um pedido de desculpas público à nação sérvia pelos crimes e pela enorme devastação infligida pelas forças de ocupação alemãs no decurso de ambas as guerras mundiais e da agressão da NATO em 1999, na qual a Bundeswehr desempenhou um papel destacado.

Passaram não apenas décadas mas um século desde então; mas a nação sérvia ainda recorda tudo isto profunda e dolorosamente, e sente pelo esquecimento das suas vítimas – que são na ordem dos milhões – uma vez que nunca um responsável alemão manifestou por elas nem remorso nem qualquer desculpa. O entendimento que temos acerca do que pensa a opinião pública sérvia é de que, na sua maioria, espera um pedido de desculpas por parte da Alemanha pelos crimes cometidos no território da Sérvia pelos ocupantes alemães. A Sérvia surge em terceiro lugar, depois da Rússia e da Polónia, no número de pessoas vitimadas no decurso da Segunda Guerra Mundial e deu, como a história regista, uma ampla contribuição para a vitória aliada contra os nazis e os fascistas.

A próxima visita de Angela Merkel é também encarada com uma oportunidade apropriada para um pedido de desculpas público porque se verifica no período marcado por uma série de iniciativas comemorando o 70º aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo, e evocando o 16º aniversário da agressão da NATO.

O povo sérvio sabe que os mais altos responsáveis alemães pediram já publicamente desculpas pelas vítimas do nazi-fascismo: à Polónia (Chanceler Willy Brandt, em Varsóvia), à França (em Oradour), à Grécia (Presidente Johannes Rau, em Kalavriti, 2000, Presidente Joachim Gauck, em Ligkiades, 2014), à República Checa (Presidente Gauck, em Lidice, 2014), à Itália (Presidente Gauck, em Sant’Anna di Stazzema). Seria na verdade muito difícil explicar que a vista oficial da chanceler Merkel ao país e à nação que sofreu tão terrivelmente sob a ocupação da soldadesca hitleriana, num ano de numerosas datas comemorativas, passasse sem a devida homenagem ao 70º aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo, sem tributo a milhões de vítimas, e sem pedido de desculpas público à nação sérvia. Fazê-lo é pagar uma dívida moral e civilizacional à história, e também um ainda maior contributo para a reconciliação e o futuro, nomeadamente o futuro das relações sérvio-alemãs e o futuro da Europa. Falamos daqui da Europa que busca a reconciliação, e a perspectiva da paz e da igualdade.


O Fórum de Belgrado por um Mundo de Iguais

*Embaixador aposentado, Presidente da Assembleia do Fórum de Belgrado


Fonte: O Diário



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