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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Comunistas mexicanos: regressar ao futuro

Comunistas mexicanos: regressar ao futuro*
por Aníbal Santiago

"reportagem de uma revista mexicana sobre o PCM. O seu interesse é duplo. Por um lado, dá uma ideia da vida e da corajosa acção de um partido que, actuando numa sociedade profundamente desigual em que o poder da classe dominante reprime com a mais bárbara violência – e que tem sofrido o assassínio de dirigentes e militantes – defende com firmeza princípios e objectivos. Por outro, ajuda a compreender como a força de um partido resulta, mais do que do número de militantes que tenha, da coerência, da convicção e da determinação com que assuma a defesa dos trabalhadores e do povo e lhes aponte um caminho de esperança e de luta."
Fiéis, disciplinados, reúnem-se com regularidade para discutir sobre os avanços do seu trabalho político e a realidade mexicana. Estes comunistas, contra o que se poderia imaginar, não são uns velhotes nostálgicos, presos na história, mas sim homens e mulheres jovens e alguns adultos que procuram um país sem pobreza, livre, com menos desigualdades.

Estudantes, trabalhadores, acadêmicos de todo o país chegam ao distrito federal para dar impulso a um futuro que têm a certeza deverá assentar nas teorias de Lenine e Marx, não numa democracia que «é apenas ilusão».

Não renegam a violência revolucionária, mas também não andam na rua com molotovs na mão. Se acontecer, dizem eles, será porque é necessário.

Militar no Partido Comunista do México, afirmam os seus dirigentes, é uma viagem ao futuro não isenta de riscos: cinco dos seus militantes foram assassinados nos últimos 20 meses. São os comunistas do Século XXI no México.

De melena branca, bigode denso a envolver a boca como uma garra e barba que surge num labirinto de pelos crespos, o filósofo alemão Karl Marx, desenhado a lápis num papel à porta, dirige os seus olhos sérios para os 120 comunistas que vão enchendo um auditório do Centro Histórico da Cidade do México. Com o seu olhar vigilante, mesmo de uma folha arrancada a um caderno, garante-lhes que só assim, com militância de ferro, o México deixará de ser o país dos 63 milhões de pobres, dos 139 mil mortos na guerra contra o narcotráfico, dos 43 normalistas de Ayotinapa e dos outros 23 mil desaparecidos.

Nos quarteirões que rodeiam este edifício as multidões vão às compras na Lagunilla, as famílias e os noivos passeiam pelo Zocalo sob a luz do sol que cai do céu azul neste meio-dia de sábado. A realidade é outra, dois andares acima, onde se realiza a II Conferência Política Nacional do Partido Comunista do México (PCM para não confundir com o Partido Comunista Mexicano que teve as mesmas siglas): mulheres e homens, quase todos jovens, escutam-se uns aos outros respeitosamente, cedem a palavra com um «camarada Angel, por favor», «camarada Kimberley, tem a palavra», «votemos na sugestão do camarada Rodrigo».

No tecto manchado de umidade três ventiladores giram lentamente como se os seus velhos motores talvez de quando o socialismo ainda sonhava conquistar o mundo — deram o seu último suspiro sobre as cabeças dos «camaradas» que discutem, fazem planos, criticam.

Dizem os comunistas que todos esses pequenos gestos que dão vida a esses encontros num velho imóvel da CNTE são um passo para a Segunda Revolução Mexicana, com que desta vez sim, o México implantará a justiça, uma justiça que eles também não encontraram: cinco companheiros seus, membros do PCM, foram assassinados nos últimos 20 meses.

Mas o caminho será longo e há que discutir assuntos complicados. Por exemplo, neste instante os assistentes discutem um fenómeno que nem O Manifesto do Partido Comunista nem O Capital previram: o narcotráfico. Levantam a mão e debatem para entender o narcotráfico nas teorias marxistas-leninistas. Difícil. As vozes elevam-se e surgem hipóteses, dúvidas, conjecturas. Atrás de uma mesa comprida de que se erguem três bandeiras vermelhas com o martelo e a foice amarelos sob as letras PCM, Pavel Blanco Cabrera, líder máximo desde 2010 dos comunistas mexicanos agrupados nessa organização, levanta-se para ordenar as ideias mesmo quando três pessoas comentam algo entre si num tom superior ao tolerado.

O auditório condena a desobediência: «Chiu». O silêncio volta. Agora sim, Pavel dirige os seus olhos verdes para as pessoas: «Camaradas — exclama o homem baixo de 41 anos — o narcotráfico é um processo de acumulação de capital. Este dinheiro sujo, negro, no México branqueia-se aceleradamente. Os narcotraficantes não querem viver a salto mas querem que os filhos estudem em Harvard e querem ser eles e os filhos congressistas, presidentes. O estado é uma junta que administra os juros do capital, entre eles o narcotráfico, que se quer branquear. Já estão na indústria imobiliária e na transformação de minérios, nos portos. Conclusão: o narcotráfico defende um Estado que salvaguarde os seus interesses, o narcotráfico é abertamente contra-revolucionário.» Pavel senta-se. Os comunistas mexicanos assistem-se em silêncio.

Voltar ao Futuro

A voz de Pavel, dirigente do PCM, é tersa e aguda, inimaginável para um homem que procura com o seu discurso uma quimera em pleno 2015, com o socialismo real praticamente morto desde há um quarto de século: persuadir os mexicanos de que só a luta comunista é a salvação. Entre a sala de jantar da CNTE — onde funciona o partido — saúda de modo cordial a cozinheira e pede um café escuro. «Põe-me nervoso», fala para o gravador e solta umas risadas alegres que o seguem sempre.

— Ver os comunistas nas manifestações a ondear as bandeiras vermelhas com a foice e o martelo — exclama — é como uma viagem no tempo.

— Antes uma viagem ao futuro. O comunismo é voltar ao futuro — riem-se.

— Porquê?

— Se a humanidade passou pela comunidade primitiva, o esclavagismo e o feudalismo, o capitalismo não será eterno. Substitui-lo-á um modo de produção superior. A apropriação privada do trabalho socialmente produzido não pode continuar! Estamos no limite da barbárie do capital. Em 1991, se apoiasses o comunismo condenavam-te com o que dizia Carlos Salinas de Gortari: «Com o capitalismo desenfreado o país está a entrar na modernidade.

Construíam-se super auto-estradas, privatizações, Primeiro Mundo! Nada era verdade, há mais pobreza. O capitalismo não resolve os problemas da humanidade. Em troca, o comunismo fará dela uma sociedade justa, livre e democrática com planificação econômica e geração de riqueza que sirvam a todos. O comunismo deste homem foi prematuro. Iniciou-se numa sala de partos de Oaxaca nos inícios dos anos setenta, chamaram-lhe Pavel, como o líder socialista da novela A Mãe de Máximo Gorki. Mas um comunista é formado pelas letras. O pai, o engenheiro civil António Blanco, tinha em casa um livro raro chamado Lenine e as crianças que o secretário particular do dirigente russo Vladimir Bonch-Bruevich escreveu quando se consumou a Revolução Bolchevique como agradecimento ao chefe.

Pavel leu-o e aos 14 anos inscreveu-se, para sempre, no PCM. Não se dispôs a filiar-se no Partido Socialista Unificado do México, mais popular, e nem em 1989 no Partido da Revolução Democrática (PRD) que recebeu uma diáspora de militantes comunistas. O comunismo de Pavel era ortodoxo e inegociável. Quando entrou em Filosofia na Universidade Autónoma do Estado de Morelos, ser um comunista era quase um curso de resistência. «Os comunistas estavam sós. Com a contra-revolução (a queda do Bloco de Leste) os companheiros saíram em debandada. Vivi as minhas convicções na solidão e no estudo. Precisava de respostas.»

Decidiu seguir o caminho que defende até hoje: «Precisamos de uma revolução neste e em todos os países. Quem derrubará o capitalismo? A classe operária organizada, embora isso pareça ultrapassado! (ri-se). Organizar a classe operária em 2015? Sim, nenhum país pode viver sequer um dia sem o trabalho operário.»

— Imaginam uma revolução sangrenta?

— O México precisa de uma revolução com tudo o que isso implica. É incorrecto derramar sangue inocente, mas não há revoluções pacíficas. A violência revolucionária é necessária. Preconizamos que a classe operária e o Povo arrebatem o monopólio da violência ao Estado burguês que ataca, viola, assassina e reprime impunemente com a (Polícia) Federal mestres e camponeses.

— Andrés Manuel López Obrador não é opção?

— A sua única diferença do (presidente) Peña é a honestidade com que se promove. Apoiou o (ex-governador de Guerrero) Angel Aguirre e não fez autocrítica. O seu projecto de nação propõe uma versão populista do capitalismo mas aceita a exploração do trabalho. E como compreendes que reciclou Manuel Bartlett, que deu a vitória a Salinas com a queda do sistema em 1988?

Ayotzinapa acelera a mobilização. O PCM, com células em 17 estados, apressa o recrutamento nas fábricas. Baixando a voz, para que o gravador registre médios, Pavel revela três dados: infiltraram-se na fábrica Nissan, no Instituto Mexicano de Petróleo e nas companhias dos 11 sindicatos da Federação de Trabalhadores Independentes. «Se te disser mais o risco é a repressão do tolete ou algo mais cruel, deixar os camaradas sem emprego. O trabalho dos comunistas é discreto.»

A minha vida é o partido

Boa altura, flexibilidade, braços e pernas fortes. Maggie Contreras de Vera Cruz pode ser a figura que o nosso voleibol necessita, mas um dia o pai levou-a para outro campo. Marco, comunista de cepa dura, explicou à pequena a razão da luta.

«Disse-me: «O capitalismo é mau, divide o mundo entre pobres e ricos» recorda a jovem de 18 anos. E para acabar de inocular nela a indignação social, aos dez anos ofereceu-lhe O Manifesto do Partido Comunista. «Li-o e não entendi muito — ri-se — mas ajudou-me a associar: ricos e pobres, burgueses e proletários.

A adolescente sentiu que se queria mudar o país onde poucos têm muito e muitos têm pouco, uma verdade evidente em Córdoba, a sua cidade — um de cada quatro habitantes é pobre —, devia esquecer o desporto, tentação quase «contra-revolucionária». «Continuar no voleibol era cair na apatia e eu queria fazer alguma coisa.»

Ingressou na Federação de Jovens Comunistas. Aí, o seu esforço é o de uma formiga (vermelha. Claro). Com os seus companheiros toma o megafone e numa camioneta visita zonas fabris para que os operários ouçam as suas palavras, entrega-lhes O Comunista — jornal oficial do partido — fala-lhes da disciplina ideológica e tenta levá-los ao PCM: «Fazemos agitação em centros de trabalho, escolas, colônias de grande desemprego.

É semear a semente de: «Tu tens opção para lutar contra o Estado». Quando estou com o megafone e alguém me diz «interessa-me» eu explico-lhe, significa que, ainda que seja mínimo, estamos a conseguir algo.

— Que factos do México te marcaram?

— A matança de Tlatelolco. Ia às manifestações de 2 de Outubro com amigos e pensava como puderam fazer isto a estudantes como eu? Mas com Atenco (em 2006 foram agredidas sexualmente 26 mulheres e presas sem razão 146 pessoas) percebi que os jovens como nós formam a vanguarda.

— Para chegar ao socialismo será preciso pegar em armas?

— Sim. Não estamos aqui para passar o tempo ou para ouvir música, pensamos organizar a classe trabalhadora para levar o México para o socialismo. Podemos chegar lá.

— Falta muito para a revolução?

— Primeiro que tudo: organizar a classe operária e a juventude para se aperceberem do que se passa. Já organizados, virá a revolução operária e armada.

Na Escola Secundária de Artes e Ofícios de Córdoba, onde estudou, o PCM formou uma célula que se organiza para ir ao comício. Se pedimos mais, a coisa complica-se: «Muitos jovens vão a manifestações e gritam slogans, mas dá-lhes um livro e é: Nãaao! Eu apoio-te, mas é nas manifestações. É possível uma revolução sem leitura? Há que ler muito: sem teoria revolucionária não há prática revolucionária. Os jovens comunistas de Veracruz criam círculos de leitura nas escolas. De brackets adolescentes e livros na mão, Maggie contagia os estudantes com o marxismo-leninismo para que o caos mundial comece a ter sentido para eles

— Já entraste no Capital?

— Ainda não — ri-se e faz cara de susto.

A jovem não voltará ao voleibol, espera passar no exame da Universidade Autónoma Metropolitana e abandonar Córdoba, onde as suas amigas passam a juventude sem política. Maggie não. — Elas dizem-me — Tens vida própria. Sai e eu respondo-lhes — a minha vida é o partido.

Fazemos uma comuna?

Da ampla janela do auditório onde os comunistas se reúnem, a paisagem silenciosa debuxada em tons cinza, antenas vermelhas de Dish, a varanda de um hotel barato e, ao fundo, a Torre Banobras de Tlatelolco.

Dentro, o clima aquece, os comunistas concordam em que não é preciso votar nas eleições de Junho, e nesse ímpeto pulula o termo «narco-estado». Diego Torres, segundo secretário do PCM e braço direito de Pavel, aborrece-se com isso. «Camaradas, não caracterizemos o Estado como «narco-estado» — pede-lhes — mesmo sem infiltração do narco existe exploração, opressão, ataques bárbaros à classe trabalhadora. Não depende do narco o carácter do estado mexicano. Aliás, o narco tende a ser uma monopolização que afecta a burguesia: a cobrança de espaço e os entraves para o comércio. Os burgueses, se o narco funciona para eles, deixam-no; se não, pedem ao Estado que preserve o capitalismo. E há uma coisa clara: o narco combateria um levantamento popular porque afectaria os seus interesses.»

As suas palavras solenes perdem contundência porque duas crianças que vieram com as mães correm, riem, gritam. As pessoas acham-nos algo incômodos, desejando sossego, mas ninguém diz nada, os pequenos dão cor ao ar solene: várias lâmpadas do auditório estão fundidas e os 15 vasos pendurados nas paredes têm plantas mal tratadas. Atrás da grande mesa onde se sentam Pavel, o segundo secretário e Marco Vinício Dávila, secretário de Política Operária, pende um lenço colorido com Marx e Engels. Mulheres e homens de barbas, boinas, cachecóis artesanais, cabelos compridos, gorros com a estrela vermelha de Fidel, ouvem o jovem «camarada Marvillo» que escreveu algo no seu caderno e lê: os monopólios da droga, como os monopólios de outras indústrias, cobrem o Estado com os seus aparelhos paramilitares privados — guardas particulares, sicários — e na sua luta pelo mercado atingem os estratos populares» Pavel levanta-se e chama à votação: as mãos levantadas aprovam por unanimidade a frase do camarada Marvillo que ficará escrita numa página web.

O debate prolonga-se. Numa pequena mesa há café Ouro, açúcar branco, bolachas Maria e copos de refresco, os alimentos austeros que se misturam com exemplares do diário O Comunista, a revista El Machete e o folhetim El Martillo, manuseados, manchados de café, enrugados de tanto passar de mão em mão nestas horas de discussão. O apelido Aristegui começa a dar voltas e uma camarada opina: «Muitos têm como fonte informativa Cármen Aristegui. Atrás dela está o monopólio da comunicação CNN que desestabiliza Cuba e a Venezuela. Aristegui aparece como rosto democrático, mas é inaceitável que as suas investigações sejam uma referência: ela serve os interesses dos monopólios.»

Faz-se um silêncio incomodo que o segundo secretário interrompe: «Aprofundemos essas contradições mas não vamos tornar-nos autistas (ri-se): esta conferência não é para dizer: «Os sindicatos estão nas mãos da burguesia. Os media estão nas mãos da burguesia. Então quê: ficamos aqui e fazemos uma comuna? (todos riem) Com a intervenção na Ucrânia a nossa posição não ia passar nem na CNN nem em nenhum media ligado aos Estados Unidos. Recorremos ao Russia Today, sabíamos que era a CNN russa mas era importante posicionar o partido. Camaradas, aproveitemos os meios do inimigo. O tempo passa e apercebemo-nos do cansaço. De repente, aparecem três personagens. São mestres da Coordenadora Estatal de Trabalhadores da Educação de Guerrero (CETEG) que vêm trazer a sua mensagem. Como soldados todos os comunistas se levantam para os receber, levantam o punho esquerdo e gritam com força: Mestre camponês/mestre proletário/ensina-me o caminho/do revolucionário. Em cinco minutos os mestres acabam a sua mensagem e os comunistas levantam-se outra vez erguem o punho e na despedida gritam: o futuro não é capitalista/é o novo mundo/trabalhador e socialista.

As pessoas aplaudem, cai a tarde e pede a palavra o velho camarada Epitacio. A sua voz é um sussurro ininteligível, de que se distinguem «capitalista», «ditadura», «burguesia», «proletariado» palavras desconexas que todos ouvem respeitosamente, como perante um sábio no seu ocaso. Mas na hora de votar no que Epitacio pede ninguém levanta a mão.Não importa, o homem de barba branca daí a pouco voltará a pedir a palavra.

Dois mundos

O maçon Benjamim Cuapio, grão-mestre da Respeitável Grande Loja Valle de México e notário público de Tlaxcala, podia imaginar que o seu pequeno filho Epitacio seria advogado, contador, arquitecto. Mas nunca imaginou que seria, antes do mais, um comunista. O culpado foi o próprio don Benjamim; na sua biblioteca havia textos de Sófocles, Heródoto, Séneca, que Epitacio leu. Um dia nos anos sessenta o adolescente viu um livro com um título misterioso: O Manifesto do Partido Comunista. Leu até à última palavra da obra de Marx e Engels: «Embora as máquinas dos sistemas capitalista e socialista sejam as mesmas, a diferença é a associação do produto. No capitalismo o produto pertence a um particular, no socialismo, ao povo. Pelo livro entendi que havia dois mundos, declarou o moreno de 65 anos que olha através das lentes grossas.

Ao tornar-se maior de idade entrou para o Partido Comunista do México. Como estudante de Economia na Benemérita Universidade Autónoma de Puebla (BUAP) pensou que a sua formação teórica pouco valia se não entrasse na acção. Devia mudar o mundo a começar pelo país que Gustavo Diaz Mordaz dominava pela força.

«Com os comunistas da região lutamos para que essa universidade fosse democrática, crítica e popular, para que os filhos das classes exploradas também estudassem. Em 1992, e por defender o materialismo dialéctico a BUAP expulsou-o. «Vejam» e apoia um livro numa estante sobre a história da Trindade Tepehitec, povoado de Tlaxcala onde vive com a esposa e filho: «Fui eu que o escrevi» acrescenta este senhor, há alguns anos era chefe de produção da companhia de refrescos Maxi Sabores. «Por causa do trabalho tinha de estar sempre a tomar refresco, um químico atacou-me e tirou-me esta parte da dentadura. Levanta o lábio de cima para ver a metade do maxilar superior «a bebida do capitalismo» não lhe deixou um único dente. Mas sorri.

Epitacio Geisel Cuapio Portilla pertenceu ao Partido Socialista Unificado do México (PSUM, cuja base foi outro PCM, o Partido Comunista Mexicano, que em 1981 cedeu o seu registo legal à nova organização a que se juntaram movimentos e pequenos partidos de esquerda.

Depois, Epitacio passou para o Partido Mexicano Socialista (PMS) e para O PRD, até que AMLO partiu. Entrei em Morena, mas pensava: Estes não têm nada de comunistas e eu sou comunista. Numa marcha para o Zocalo viu uma bandeira com a sigla PCM. Pediu ao filho Ernesto que procurasse no Google. Viu que os comunistas tinham partido e Epitacio filiou-se. Todos os meses viaja 150 quilómetros até ao distrito federal para participar nas acções do PCM, que não tem um comunista mais firme. Regressa ao seu povoado sozinho de autocarro. Desde que abandonou a empresa não encontra trabalho formal. «Com a minha idade e as minhas ideias marxistas-leninistas menos ainda.»

— Sonha ver um México socialista?

— Os modos de produção são longos períodos. A escravatura caiu depois de mais de três mil anos e os cristãos esconderam-se durante séculos dos romanos. O meu papel é manter o pensamento do materialismo dialéctico para que um dia tomemos o socialismo — afirmou. A sua resposta parece ser: não vou vê-lo.

Entretanto, vive do pastoreio das suas 10 cabras e do arranjo dos jardins de famílias tlaxcaltecas mais ou menos prósperas — Não se importa de trabalhar para a burguesia? — pergunto.

— Não, com o meu trabalho tiro o dinheiro aos burgueses. E como tiro – ri-se.

Deram-lhes o tiro de misericórdia

Raimundo Velazquez, presidente do PCM em Guerrero, até há dois anos organizava habitantes desse estado para que os governos federal e estatal não dessem a concessão de 65 mil hectares às minas canadianas Camsim Mines e inglesa Hochschild Mining, pois afectariam as comunidades agrárias da Sierra Madre do Sul. Faltavam só duas semanas para discutir esse e outros temas no Primeiro Congresso Regional do PCM que preparava junto de grupos comunistas de mestre e camponeses das regiões de La Montaña e Costa Grande. Como parte desse esforço teve uma reunião em Cuernavaca. Ao terminar, entrou no seu Tsuru para voltar por estrada para a terra, Cyuca de Benitez. Naquela madrugada de domingo 4 de Agosto de 2013 viajavam com ele os seus companheiros de partido Samuel Vargas e Miguel Solan. Às duas da manhã na escuridão da estrada de Guerrero, foram sequestrados. Soube-se depois no amanhecer de segunda-feira. Os comunistas foram achados na margem do rio Coyuca com balas e marcas de tortura.

«Toda a informação que até agora nos deu a Polícia Geral do Estado de Guerrero é: «Lamentamos, foram vítimas do crime organizado. Explica Pavel, dirigente nacional do PCM. Nem o governo de Angel Aguirre nem o do seu sucessor Rogellio Ortega forneceram mais dados sobre o triplo homicídio.

Após os assassinatos dos seis militantes, o partido acusou o então governador Aguirre de promover o paramilitarismo em defesa dos interesses da mineração estrangeira.

«A Raimundo esmagaram-lhe a cabeça — conta Pavel — deram a todos o tiro de misericórdia, lançaram-lhes gasolina e atiraram-nos ao rio.

«A minha resposta aos meus filhos é o partido»

No momento em que Lídice Guerra se assume comunista e decide agir como tal, viaja entre dois planetas. Um é a sua profissão, engenheira electrónica onde mergulha dentro do universo do ínfimo: controladores, circuitos, chips, microprocessadores, peças milimétricas que requerem movimentos exactos em ambientes silenciosos e puros. E, dois, o planeta que a mulher de 42 anos pisa, quando tira a bata, o seu cérebro pensa a vermelho e passa a um universo imaterial: «estado burguês», «luta de classes», «exploração», conceitos que explica a trabalhadores, donas de casa ou estudantes nos círculos de estudo que organiza em escolas, parques, casas.

De ar severo, esteve na luta de classes desde criança. Os pais chamaram-lhe Lídice, como o povo da antiga Checoslováquia que Hitler apagou do mapa depois do assassinato de Reinhard Heydrich, líder nazi, e co-fundador dos campos de concentração. A vingança alemã deixou 340 mortos, todos inocentes.

O pai, Miguel, professor da primária e membro do Partido Popular Socialista, levava a menina a reuniões. O partido morreu e há cinco anos ela entrou para o PCM. Para Lídice esse sistema não tem claro-escuro.

É escuro: «A democracia é uma falácia. Os partidos registrados alimentam a ilusão de uma mudança via eleições, impossível: mentem-nos eleição após eleição. A democracia burguesa mantém essa fachada e legitima a exploração. As classes que controlam os grandes monopólios não cederão o seu poder e será necessária a violência revolucionária.

— Violência revolucionária? — pergunto à secretária política do PCM em Puebla.

— Não somos aventureiros. Não é a atirar cocktails molotov mas sim a criar condições objectivas, que acontecem segundo a teoria marxista-leninista. O partido deve conseguir que os explorados tomem consciência disso e dêem a volta à estrutura, mesmo com violência, e não se trata de …uma linda menina de dois anos, Tâmara, interrompe-a a correr — «olha mamã» e mostra-lhe um cavalo vermelho de plástico. Suaviza-se o rosto de Lídice – «lindo, meu amor», afirma e acaricia-a:

— Tens uma filha, achas que será comunista?

— E tenho mais dois, um com dez e outro com 20. Não vou doutriná-la, mas quero que entenda o mundo, que seja livre e insubmissa — enquanto a filha brinca com outra criança aos gritos — e acho que já é (ri-se) hoje brinca às bonecas no seu mundo cor-de-rosa mas as mulheres do México enfrentam sequestros, violações ou a ilusão de casarem com um homem poderoso. Espero que ela venha a por tudo isso em causa.

— Tem pena dos seus filhos terem de crescer no México?

— É terrível: a nossa pátria decompõe-se de forma acelerada. As opções para os nossos filhos são: torno-me falcão, narcotraficante, limpa-pára-brisas ou deixo-me explorar 12 horas por dia numa fábrica? É dramático. A minha resposta aos meus filhos é o partido, eles são a razão de eu estar aqui — afirma Lídicee volta os olhos profundos para a porta onde o PCM reúne esta tarde.

Pouco depois de Raimundo Velásquez e seus companheiros terem sido assassinados em Guerrero, Luís Olivares, membro do PCM nesse estado e líder da União de Produtores da Costa Grande, avisou o partido: «Estão a ameaçar-me a mim e à minha mulher com cartolinas. Pavel organizou uma reunião com os dois militantes para divulgar esse facto «e pedimos-lhes que ficassem no distrito federal». Não quiseram e voltaram para Coyuca, conta. 90 dias depois do triplo homicídio, o terror surgiu de novo. 

Na madrugada de domingo 10 de Novembro os vizinhos da colónia Forte Emiliano Zapata ligaram à polícia a dizer que ouviram vários tiros dentro de uma casa. Quando os agentes chegaram, encontraram o cadáver de Luís Olivares, com seis tiros de 9 mm e da esposa Ana Lilia Gatica, morta com dois tiros. Zeferina Romero, ex-mulher de Olivares, declarou a La Jornada: «Acho que foi o próprio governo, porque o governo mata sempre os líderes, o governo sempre matou os líderes.»

Pavel diz que continua a intimidação ao PCM: «Gustavo Adolfo Lopez, membro do Bureau político do partido e dirigente de Oaxaca foi ameaçado. Tememos pela vida dele.

O PCM está a incomodar.

O que o patrão embolsa

Hector Maravillo fala como erudito, com um rigor surpreendente. Se não o visse e só ouvisse a voz deste jovem de 22 anos diria que está a ler. Além disso sabe emocionar, intercala frases tanto de Immanuel Wallerstein como de Georg Lukács, faz referências históricas, detecta contradições nos discursos dos seus companheiros.

O PCM já encarregou este diamante — de óculos e grandes olhos negros e atentos — de fazer o recrutamento em bairros populares.

Hector ainda não tinha idade para votar, mas em 2006 Lopez Obrador iludia-o com a ideia de que o México podia tornar-se algo melhor, e que se isso acontecesse a vida dele junto dos pais e do irmão podia deixar de sentir o látego da miséria. O homem de Tabasco, derrotado nas eleições segundo a informação do Instituto Federal Eleitoral ordenou à sua gente para permanecer no Passeio de Reforma. Nesse Outono, Lilian Gomez, mãe de Hector, trabalhava como secretaria da delegação de Tiahuac «Para manter o trabalho — afirmou — a minha mãe teve que ficar em Reforma.

Aí percebi que o PRD tinha a mesma conduta que o PRI e que com os partidos burgueses não havia saída. E depois, ao ler o programa político da AMLO, vi que coincidia com o modelo keynesiano (do economista John Maynard Keynes) que o PRI defendia: uma estabilidade progressista pró burguesia. O modelo não muda sem luta: quer questionar o capitalismo, evitar a luta de classes e manter o domínio burguês.

Por esses dias, caiu nas mãos de Hector O Estado e a Revolução, um livro escrito por Lenine em 1917 em plena revolução russa, quando estava refugiado na Finlândia, devido à perseguição do Czar. «Este texto explicou-me que o Estado serve como chefe administrativo dos interesses da burguesia.»

Como Lenine, Hector queria ser comunista. Pela Internet conheceu o PCM e com 17 anos filiou-se na organização. Dentro da Universidade Autónoma Metropolitana (UAM) onde estudava sociologia, organizava conferencias, projectava filmes, dirigia greves solidárias. 

«Era preciso politizar a juventude», argumentava.

Desde então, em casa o seu activismo inquieta. Preocupa-os: o Estado tem uma política de prisões forçadas, assassinatos, levantamentos e desaparecimentos. A minha mãe diz-me sempre: «Cuidado vê lá o que se passa.»

Que tem a dizer um comunista defensor do dogma sobre os abusos do socialismo? Menciono-lhe a falta de liberdade de Cuba, a repressão desapiedada do ditador romeno Nicolae Ceausescu e o genocídio de Josef Stalin, mas Hector decide refutar. Os historiadores Grover Furr e Ludo Martens analisaram a construção do socialismo com provas, análises das bibliotecas após a queda do bloco (a contra-revolução) e dizem — Hector cita esses dois autores — A acusação de que de 1930 a 1932 Stáline assassinou 20 milhões de ucranianos é falsa. Não há provas de campos de concentração ou valas comuns. São versões falsas irrisórias, mitos.

— Enrique Peña Neto é a versão mais acabada do capitalismo mexicano?

— Desde o fim da Revolução Mexicana os regimes do PRI serviram para articular o capitalismo. Com a ideologia da Revolução, o PRI assegurou o desenvolvimento da burguesia. Peña representa o poder dos monopólios. Há que desaparecer com os instrumentos repressivos do Estado, o exército, a polícia, a burocracia.

Hoje, Hector conforma-se com pequenos grandes sinais. Há meses conseguiu emprego numa fábrica de plásticos em Tiahuac. Viu mães a trabalhar em jornadas extenuantes e sem segurança social. Sorri ao narrar a cena que um dia protagonizaram as suas companheiras e que assume como um triunfo. Elas diziam: se produzimos tantas caixas de colheres a um valor de tanto, e o meu salário é tão pouco, quer dizer que tudo o mais é o que o patrão mete ao bolso.

Tinham entendido a mais-valia.

Os ponteiros

O PCM assegura que tem células em 17 estados e 8 mil membros com cartão (sem contar os simpatizantes não oficiais) que dão entre 20 e 100 pesos por mês, o dinheiro que mantém a organização.

A média de idade é 20 anos.

— Não pensam entrar no sistema de partidos com registo?

— Muitos dizem-nos «votaria no PCM» e poderíamos obter o estatuto de agrupamento político porque superamos os 5 mil filiados — responde Pavel — Mas isso não daria autoridade à nossa proposta de destruir o sistema? Compactuar com a imundície do Instituto Eleitoral Nacional seria legitimar o sistema, enfraquecer. Mas se amanhã for necessário é o que faremos.

Sem demasiado sigilo o partido vincula-se às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Os membros do bureau reúnem-se com os guerrilheiros em acampamentos desse país, no México e até em Cuba, onde em 2014 mantiveram dialogo com o comandante Ivan Márquez, como revela o portal www.comunistas-mexicanos.org «Temos uma relação muito estreita com as FARC — admite Pavel — são um partido comunista em armas.

Os laços internacionais do PCM com outros partidos comunistas crescem. Todos os anos, um representante participa no Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários. 

O último (a versão anual 16) realizou-se em Quito, Equador, há cinco meses e participaram 63 partidos comunistas.

— Qual é o grande líder comunista mundial que lêem, ouvem, seguem?

Pavel faz um longo silêncio antes de responder.

— Talvez Dimitris Kotsoumpas, secretário-geral do Partido Comunista da Grécia, o mais forte e combativo partido comunista do mundo. Mas é bom que não haja uma grande figura mundial, já não há lugar para caudilhos, deuses ou reis, mas sim para a irrupção colectiva da classe trabalhadora.

— Países capitalistas têm níveis mínimos de pobreza: Canadá, Finlândia, Alemanha.

— Ai, sim? Na Alemanha não são pobres os imigrantes turcos? E que se passa com os países periféricos dessas economias que menciona? Veja a Holanda — exclama Pavel — apoiada no que foram as suas colónias. Todo o capital está manchado de sangue.

— E que dizer das experiências socialistas atrozes? Stalin?

— Em 1956 realizou-se o XX Congresso do Partido Comunista na União Soviética. (O primeiro secretário) Nikita Krushchov informou o mundo dos erros de Stalin e responsabilizou-o por centenas de milhares de mortos soviéticos.

Milhares de comunistas abandonaram os seus partidos e o movimento comunista internacional sofreu uma cisão. Os números (de mortos) não correspondiam à realidade e surgiu a teoria negativa da (filosofa alemã) Hannah Arendt, que igualou o comunismo ao fascismo. Os números de vítimas dos Gulag (campos de trabalho forçado) são impensáveis, como o demonstrou (o filósofo italiano) Domenico Losurdo. Houve a ditadura do proletariado e a repressão contra os inimigos do povo, mas toda a revolução é sangrenta. Não justificamos qualquer genocídio, mas Stalin foi um revolucionário. Não nos envergonhamos da nossa história.

— Há que combater o narcotráfico?

— Uma sociedade comunista não admite alienar a juventude. O comunista é um exemplo para a classe operária e para o povo. Há que combater os narcotraficantes.

— Querem ver um México socialista ou são apenas uma engrenagem de uma mudança radical que terá lugar num futuro longínquo, talvez daqui a duzentos anos?

— A crise, a miséria, a fome, o desemprego e o enfartamento estão aí. O povo quer mudar mas ignora para onde e para quê. Isso é a responsabilidade do PCM, devemos preparar-nos para sincronizar os nossos ponteiros com o relógio do nosso povo.

Os ponteiros do relógio de Pavel avisam-no que é hora de se encontrar com uns «camaradas». Põe-se de pé, paga o café, e segue para a rua entre palavras de ordem pintadas nas paredes do edifício da rua Belisario Dominguez onde o PCM tem o escritório, em que se exige o aparecimento com vida dos 43 normalistas de Ayotzinapa, a defesa do petróleo, a renuncia de Peña.

Justiça, greve, luta, imposição, cadeia humana clamam os posters.

Estamos às portas de um terramoto que sacudirá a sociedade mexicana e vamos intervir. 

Alguém duvida de que em breve vai haver mudanças no México? — pergunta Pavel, sorri e responde, um instante antes de nos despedirmos – Nós, não. 



*Reportagem publicada na revista mexicana EMEEQUIS, 4 de Maio de 2015

Tradução: Manuela Antunes

Fonte: O Diário


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