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sábado, 6 de junho de 2015

Capitalismo, deslocalização da população, glifosato e malformações congênitas

Capitalismo, deslocalização da população, glifosato 1 e malformações congênitas
Cecilia Zamudio

"O terrorismo de Estado na Colômbia causou dezenas de milhares de desaparecimentos forçados , mais de 9.500 presos políticos, e 60% dos sindicalistas assassinados no mundo são assassinados na Colômbia por agentes estatais ou pelas organizações paramilitares. O Estado colombiano eliminou fisicamente um partido político: a União Patriótica, com mais de 5.000 militantes assassinados . A maior vala comum da América Latina foi encontrada atrás do Batalhão Militar, na Macarena, com 2000 cadáveres de desaparecidos pela Força Ómega do Plano Colômbia, Força que tem assessoria norte-americana .."

No sistema capitalista, o terrorismo de Estado é um facto recorrente, que é usado para paralisar as reivindicações sociais e provocar deslocalizações populacionais maciças, em benefício do grande capital.

Na Colômbia, 0 terrorismo de Estado está estreitamente ligado à acumulação capitalista: 40% do território está concessionado a multinacionais mineiras. A estratégia de deslocalização forçada de populações tenta quebrar a resistência popular contra a pilhagem dos recursos naturais, e esvazia sua população das áreas cobiçadas pelas multinacionais. Esta estratégia exerce-se também sob as diretrizes norte-americanas para despovoar o campo, numa tentativa de acabar com a base social da guerrilha. Aquilo a que, no Vietname, os fuzileiros navais chamaram “tirar a água ao peixe”, para implementar as suas macabras ações de aldeias arrasadas.

A organização paramilitar é cofinanciada pelas multinacionais e pelos latifundiários e coordenada a partir do Estado para aterrorizar a população, através de massacres e torturas. Este instrumento paramilitar consolidou-se através de instruções norte- americanas: a missão Yarbourough, de 1962, preconizou a criação de grupos paramilitares, promovidos pelo Estado, cujo objetivo era o de assassinar os comunistas e todos aqueles que reivindiquem justiça social. A doutrina contra-insurgente e o conceito de “inimigo interno” que determinam as ações do exército colombiano inspiram-se nos manuais franceses e norte-americanos, que preconizam a tortura, de forma sistemática, assim como o uso de deslocalização maciça de populações. Os manuais da CIA, como o KUBARK, dão instruções sobre torturas físicas e psicológicas 2.

O terrorismo de Estado na Colômbia causou dezenas de milhares de desaparecimentos forçados 3, mais de 9.500 presos políticos, e 60% dos sindicalistas assassinados no mundo são assassinados na Colômbia por agentes estatais ou pelas organizações paramilitares. O Estado colombiano eliminou fisicamente um partido político: a União Patriótica, com mais de 5.000 militantes assassinados 4. A maior vala comum da América Latina foi encontrada atrás do Batalhão Militar, na Macarena, com 2000 cadáveres de desaparecidos pela Força Ómega do Plano Colômbia, Força que tem assessoria norte-americana 5.

• Deslocalização populacional: um crime planificado ao serviço da acumulação capitalista

A Colômbia é o segundo país do mundo em termos de deslocalização forçada de populações, depois da Síria 6. Mais de 6,3 milhões de pessoas foram deslocalizadas na Colômbia, por uma planificação do terror ao serviço da acumulação capitalista: tiveram de deixar as suas terras depois de sobreviverem a massacres intencionalmente dirigidos contra a população, executados pelo exército e os paramilitares. Há responsáveis por esta planificação do terror, e esses responsáveis são aqueles que exploram a terra para capitalização, através da agro-indústria e da mega exploração mineira. As pessoas forçadas a deslocar-se não o fazem por causa da “bala perdida”, esse álibi usado pelos média do capital para impedirem a compreensão da realidade.

Os bombardeamentos do exército sobre as comunidades camponesas e a pulverização também são instrumentos para a deslocalização das populações. As pulverizações fazem-se sob o pretexto da “luta contra o narcotráfico”; mas são pulverizadas culturas alimentares com Gilfosato, envenenando a vida e a água.

• Várias gerações de crianças nascidas com malformações congénitas; mas o Estado colombiano não “vê” o perigo

A OMS declarou recentemente ser verdade o que os cientistas e as comunidades denunciam há décadas: O Glifosato é um perigo mortal. A OMS classifica-o agora como um agente cancerígeno de categoria 2A. Durante muito tempo, esta classificação fez falta à OMS: Será verdade que as pressões dos fabricantes desse veneno impõem o ritmo do seu calendário e as suas classificações? O Estado colombiano impôs ao povo colombiano mais de 25 anos de pulverizações, sob a orientação estadunidense, comprando o veneno à Monsanto. Nunca as denúncias das comunidades camponesas colombianas, nem os documentos científicos, ou as crianças nascidas com malformações, sem braços, sem pernas, ou cegos, significarão para o governo colombiano uma “evidência” da natureza genocida das pulverizações. Só quando a OMS se pronuncia é que o governo equaciona cessar as pulverizações com Glifosato. Para o governo de Santos tudo reside na aparência: trata-se de preservar a máscara no jogo diplomático internacional. A Colômbia é o único país do mundo que permitiu, ao longo de décadas, a pulverização aérea com Glifosato: desde 1994, a Resolução 001 do Conselho Nacional de Estupefacientes preconizou-a, mas
foi muito antes que as pulverizações com esses venenos começaram 7.

Agora, vamos ver se a decisão tomada em maio 2015 de suspender as pulverizações aéreas com Glifosato se traduz em factos, e, sobretudo, vamos ver se o Glifosato não vai ser substituído por outro veneno, não incluído nas classificações da OMS. Também vamos ver se todas as pessoas doentes vão receber tratamento, se é que existe. E vamos ainda ver a forma como vão tratar os sofrimentos de milhares de crianças nascidas com malformações, ao menos em cuidados paliativos, antes da sua morte. Conhecendo o caráter capitalista do sistema de saúde colombiano, e sabendo como deixa morrer as pessoas às portas dos hospitais, há pouca esperança de que tome em mãos a responsabilidade destes sofrimentos. A questão das terras e das águas envenenadas também está em suspenso, assim como a questão dos milhões de pessoas deslocalizadas para fugir dessas pulverizações genocidas. O que o Estado colombiano praticou durante anos contra o povo colombiano e contra os ecossistemas da região é um crime de lesa humanidade; agora, teremos de ver se vai utilizar outro veneno. A questão da lentidão da OMS nas suas classificações também continua latente; assim como a questão das políticas nocivas da suposta “luta contra o narcotráfico” e o que realmente se esconde por trás desse rótulo.

As pulverizações aéreas encharcaram o país com venenos como o Glifosato e outros ainda mais potentes, como o Round Up Ultra, o Imazapyr, o Tebuthiuron, e até com o Fusarium Oxysporum: esta política foi muito útil na estratégia estatal de deslocalização de populações, e muito pouco eficaz contra as “culturas ilícitas”.

As tentativas das comunidades camponesas de substituição manual de culturas ilícitas por culturas de subsistência foram perseguidas pelo Estado. Quanto às propostas da guerrilha, nascidas da participação camponesa nas Audiências de Cagúan, e que também promovem a substituição manual de culturas em benefício da soberania alimentar e do campesinato, foram também totalmente ignoradas pelo Estado colombiano e pelos meios de comunicação de massas. Meios de comunicação que mais não fazem do que martelar a mentira lançada pelo então embaixador dos EUA na Colômbia, Lewis Tambs 8, criador do termo “narcoguerrilha”; sendo que o narcotráfico na Colômbia beneficia das estruturas do Estado colombiano – entre elas, as aduaneiras aéreas e portuárias –, e que os narcotraficantes são aliados históricos do terrorismo de Estado na Colômbia (os seus assassinos cooperaram no extermínio de comunistas e outros opositores políticos).

Até hoje, as propostas agrárias da guerrilha são ignoradas pelos média, que silenciam os documentos 9 e o conteúdo do que é o diálogo em Havana. Já nos diálogos de Cagúan, as FARC tinham apresentado um projeto piloto de substituição manual de culturas em Cartagena de Chairá 10, cujo custo econômico estimado, em grande escala, era milhares de vezes menor do que o custo do Plano Colômbia, para não mencionar o custo ambiental. Mas os diálogos foram interrompidos pelo Estado colombiano, que foi rápido em assinar o Plano Colômbia, um plano de guerra elaborado nos EstadosUnidos.

O pretexto da “luta contra o narcotráfico” é desmentido na prática: o narcotráfico está incorporado com o próprio Estado colombiano, e até com a própria DEA 11. Sem falar das multinacionais químicas, que fabricam não só os precursores necessários à cocaína, mas também todo o tipo de drogas legais.


Notas:

1 Herbicida desenvolvido para matar ervas e que mata qualquer tipo de planta. – [NT]

2 Ingerência dos EUA, contrainsurgência e terrorismo de estado, Renán Vega Cantor,

3 A 23 de maio de 2011, o representante do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, 
Christian Salazar, informou que a ONU estima que mais de 57.200 pessoas desapareceram na 
Colômbia. http://www.argenpress.info/2011/05/escalofriante-cifra-de-desaparecidos-

4 5.000 militantes da UP assassinados, o genocídio político perante a CIDH [Comissão Interamericana 
de Direitos Humanos - NE]

5 A maior vala comum do continente, atrás do Batalhão Militar: 

6 Colômbia, juntamente com a Síria, o país com mais pessoas deslocalizadas à força. CODHES: 6,3
milhões de pessoas deslocalizadas na Colômbia -

7 Glifosato: www.prensarural.org/spip/spip.php?article16748

8 A fábula da “narcoguerrilha” foi lançada pelo então embaixador dos EUA na Colômbia, Lewis Tambs.
“A Colômbia: história de uma traição” Laura Restrepo, páginas 80, 81, 82, Iepala, Madrid, 1986.

9 Os documentos das propostas agrárias da insurgência podem ser consultadas na página da Delegação
para a Paz, mas não são difundidos nos grandes média, porque o ostracismo mediático é total:

10 Planificação de mecanismos para a substituição de culturas ilícitas - Município de Cartagena del
Chairá (Caquetá) http://www.abpnoticias.org/index.php/campna-especial/557-planificacion-de-
mecanismos-para-la-sustitucion-de-cultivos-ilicitos-municipio-de-cartagena-del-chaira-caqueta

11DEA: Drug Enforcement Administration – principal agência dos EUA responsável pelo
desenvolvimento, planeamento e avaliação de estratégias de controlo de drogas. – [NT]








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