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domingo, 14 de junho de 2015

Negros e latinos: a lógica racista do imperialismo

Negros e latinos: a lógica racista do imperialismo
por Norberto Emmerich e Edgard Valenzuela/Resumen Latinoamericano/Rebelión


"O racismo sempre existente, ainda que oculto atrás de um véu de democracia, direitos humanos e eleições, reaparece com virulência em momentos em que na crise americana se forma e se vislumbra um novo crescimento. As tensões raciais crescem como se voltássemos aos anos 60, porque o acesso às migalhas da renda crescente se fará sob os parâmetros étnicos classicamente imperialistas: homens, anglo-saxões e brancos. O racismo americano, construído e assentado em vários séculos de aculturação sistemática, não é um sentimento espontâneo. É estruturado e alentado a partir das próprias elites dirigentes. Quando a base trabalhadora americana culpa os imigrantes latinos (sobretudo mexicanos) e as comunidades negras pelo descenso de seu nível de vida, eleva a uma consideração simplesmente intelectual e acadêmica a fúria contra os verdadeiros culpados do desastre financeiro-econômico: a cúpula empresarial de Wall Street e a dirigência política de Washington."

Há poucas semanas aconteceram nos Estados Unidos os maiores protestos de corte racial desde o final do movimento pelos direitos civis, há pouco mais de meio século. O detonante foi uma serie de abusos policiais cometidos contra membros da comunidade negra que ficaram impunes pela absolvição dos policiais, apesar de terem assassinado homens desarmados. Trata-se de um mero abuso de autoridade ou estamos assistindo outra demonstração do racismo próprio dos Estados Unidos? Caso seja assim, por que ocorre precisamente agora que a economia americana cresce?

O império é uma questão de estômago

Para Immanuel Wallerstein, o racismo atual é resultado de uma estratégia de cooptação da classe trabalhadora praticada pelas elites europeias em meados do século XIX. Tentando elaborar um mecanismo de contenção efetiva as cada vez mais militantes e numerosas classes trabalhadoras de seus próprios países, as burguesias imperialistas outorgaram alguns direitos políticos e algumas melhorias econômicas, ao mesmo tempo em que estas condições eram negadas ao resto do mundo. É a explicação que Lenin coloca na boca do magnata inglês Cecil Rhodes, em seu texto sobre o imperialismo: 

“A ideia que eu aprecio é a solução do problema social: para salvar os quarenta milhões de habitantes do Reino Unido de uma mortífera guerra civil, nós, políticos coloniais, devemos nos apoderar de novos territórios; a eles enviaremos o excesso de população e neles encontraremos novos mercados para os produtos de nossas fábricas e de nossas minas. O império, disse sempre, é uma questão de estômago. Caso queiram evitar a guerra civil, devem se converter em imperialistas”. O que Arrighi denomina o “pacote triplo” consistiu em outorgar o direito ao voto, oferecer melhorias sociais próprias do que constituiria depois o Estado de bem-estar social e promover uma dupla nacionalidade: a de seus próprios Estados (nacionalismo) e a do mundo branco (racismo) [1].

Assim, o racismo fica compreendido como uma criação capitalista que justifica as disparidades econômicas características do mundo industrial.

O racismo sempre existente, ainda que oculto atrás de um véu de democracia, direitos humanos e eleições, reaparece com virulência em momentos em que na crise americana se forma e se vislumbra um novo crescimento. As tensões raciais crescem como se voltássemos aos anos 60, porque o acesso às migalhas da renda crescente se fará sob os parâmetros étnicos classicamente imperialistas: homens, anglo-saxões e brancos. O racismo americano, construído e assentado em vários séculos de aculturação sistemática, não é um sentimento espontâneo. É estruturado e alentado a partir das próprias elites dirigentes. Quando a base trabalhadora americana culpa os imigrantes latinos (sobretudo mexicanos) e as comunidades negras pelo descenso de seu nível de vida, eleva a uma consideração simplesmente intelectual e acadêmica a fúria contra os verdadeiros culpados do desastre financeiro-econômico: a cúpula empresarial de Wall Street e a dirigência política de Washington.

No entanto, esta construção histórica está sofrendo profundas mudanças e apresenta sérias limitações: enquanto se alenta o racismo e a xenofobia em todos os níveis, incluindo o ambiente acadêmico com textos como o “Who we are” do extinto Samuel Huntington, o peso crescente do eleitorado hispânico obriga os candidatos presidenciais a solidificar vínculos estratégicos com dita comunidade. Jeff Bush, irmão do ex-presidente, buscou a complacência do voto latino publicizando a origem mexicana de sua esposa Columba e apresentando-se como membro da comunidade latina. Inclusive as voltas do eleitorado variam desde o tradicional voto “gusano” e o lobby cubano na Flórida para o peso do voto latino-americano nos Estados da Califórnia, Colorado, Novo México, Nevada, Nova Jersey, Texas, Flórida e Illinois.

Assim, racismo na economia e peso eleitoral na política refletem as contraditórias ainda que irrefreáveis alterações que experimentam os Estados Unidos, cuja previsão supõe um avanço da população latina sobre os WASP (white, anglo-saxon, protestant).

O perigo estratégico de um conflito racial nos Estados Unidos

Acrescentar as tensões e contradições raciais como meio para obter vantagens estratégicas é uma velha prática de todos os impérios ao longo da história, porém tem sido uma ferramenta especialmente aperfeiçoada pelos anglo-saxões. Assim é demonstrado pelos tratados secretos de Sykes-Picot nos quais a França e Grã-Bretanha planificaram a divisão do Império Turco após sua derrota na primeira guerra mundial. Do mesmo modo, se incentivaram os conflitos étnicos no interior da ex-Iugoslávia no que se denominou a “balcanização”.

Mais recentemente estas políticas foram implantadas nas zonas sensíveis das grandes potências que rivalizam com a hegemonia dos Estados Unidos no mundo: o leste da Ucrânia, o Cáucaso russo [2] e Xinjiang, a província islâmica chinesa [3].

Utilizada como instrumento da política exterior, motorizada e monitorada pelo departamento de Estado americano, esta política de motivação étnica tem sido um jogo benéfico para os Estados Unidos. Porém, o que aconteceria se estas tensões surgissem dentro de seu próprio país, incentivadas pelas contradições e tensões do “crescimento” agonizante do imperialismo americano? A fase B negativa da onda econômica mundial de Kondratieff não foi detida. Os indicadores macroeconômicos de crescimento da economia americana estariam sendo produzidos dentro de um declínio sem fim da economia mundial.

Diferente do que acontece na Rússia, China ou Índia, a tensão interna americana não seria produto do choque entre muçulmanos e outros grupos, um projeto muito a gosto do Departamento de Estado. O racismo americano bem poderia ser a expressão das contradições mais profundas que o imperialismo americano em crise já não pode conter exitosamente com os mecanismos habituais.

A sociedade estadunidense é a mais armada do mundo, com uma média de 89 armas para cada 100 habitantes, e proliferam grupos militarizados que asseguram que defenderão a sua comunidade contra os abusos. Ao mesmo tempo, as pressões separatistas estão aumentando significativamente. No ano de 2012, converteu-se no principal movimento político nada menos que no Texas, um “nacionalismo” americano que não pode ser desconhecido nem menosprezado nas estratégias de política exterior mexicana.

A respeito destes grupos que lutam por sua independência, o presidente da organização “Vamos unidos USA”, Juan José Gutiérrez, afirma que “são pessoas que quiseram continuar vivendo com a ilusão de que os Estados Unidos deve se manter como um país majoritariamente branco anglo-saxão, sem ter que conceder nada aos grupos que não são anglos nem saxões” [4].



Notas:

[1] Arrighi, Giovanni. Caos y orden en el mundo moderno. Ed. Akal, 2001. Pág 22.

[2] Putin revela contactos entre los servicios especiales de EU y extremistas del Cáucaso. RT, 26 de abril de 2015.

[3] Jalife-Rahme, Alfredo. La agenda oculta de Xinjiang: petróleo, gas y oleoductos. La Jornada, 19 de julio de 2009.

[4] Separatismo en EU: fruto de la frustración racista. Actualidad RT, 15 de noviembre de 2012.






Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)




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