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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Os silêncios de ouro no sistema de propaganda dos EUA

Os silêncios de ouro no sistema de propaganda dos EUA
por Edward S. Herman [*]


"Não é que os media façam omissão da história em todos os casos. De facto, em conexão com a recente morte de polícia e tumultos em Baltimore um editorial do New York Times intitulava-se "O que aconteceu antes dos tumultos de Baltimore" (29/Abril/2015). Aqui a posição política liberal dos editores torna permissível centrar-se no contexto e nas causas primárias. Com Srebrenica a agenda de demonização e mudança de regime proibia o equilíbrio e o contexto inconveniente. Isto, nos media de referência, é um lugar comum na cobertura da política externa – e é dramaticamente evidente no tratamento do demonizado Putin e no conflito da Ucrânia onde um perito em assuntos russos como Stephen Cohen, que pretende falar acerca dos antecedentes Rússia-NATO e causas primárias, não pode obter tanto espaço noticioso quanto as Pussy Riot russas que querem denunciar Putin."
A propaganda modela o fluxo de informação de muitas maneiras, incluindo, obviamente, a escolha das notícias a serem impressas, sua colocação e a escolha de autoridades para darem credibilidade àqueles factos. Mas igualmente importante, e implícito nas escolhas de notícias, especialmente onde há interesses políticos em causa e diversas interpretações possíveis das notícias, é omitir factos e ignorar fontes que põem a perspectiva escolhida (frequentemente a oficial) em causa. Tais Silêncios de Ouro (Golden Silences) e o contornar de fontes inconvenientes são incompatíveis com o jornalismo honesto mas este é o procedimento operacional padrão no jornalismo de referência (mainstream), com variações sobretudo quanto à severidade e profundidade do enterramento dos factos incômodos. Estes últimos muitas vezes não são completamente escondidos mas colocados tão profundamente num artigo e com tal cautela ou linguagem qualificadora que [equivale] a serem efectivamente enterrados ou suprimidos. 

Isto é ilustrado de modo dramático quando comparamos o tratamento de vítimas "valiosas" e vítimas "não valiosas", categorias que Noam Chomsky e eu enfatizámos em A fabricação do consentimento (o capítulo 2 intitula-se "Vítimas valiosas e não valiosas"). Vítimas valiosas são vítimas do inimigo e de estados alvo, ao passo que vítimas não valiosas são aquelas mortas por nós ou um dos nossos aliados ou clientes. Demos pormenores sobre a enorme atenção dos media ao assassínio de um padre polaco na Polônia comunista em 1984, uma única vítima valiosa que, como mostramos, obteve mais atenção dos media estado-unidenses do que 100 vítimas religiosas de estados clientes dos EUA na América Latina (1965-1985) tomadas em conjunto. Estas últimas foram tratadas como não valiosas em virtude do status de clientes dos assassinos, apesar de oito destas 100 terem sido realmente cidadãos dos EUA. 

Ruanda proporcionou uma série de casos de vitimizações valiosas e não valiosas. Paul Kagame e seu Rwanda Patriotic Front (RPF) eram (e permanecem) clientes dos EUA servindo os objectivos de projecção de poder estado-unidense na região africana dos Grandes Lagos. Ele tem portanto liberdade de acção para matar, o que tem feito tão excessivamente tanto em Ruanda como na República Democrática do Congo (RDC) que sua contagem de vítimas ascende aos milhões (ver Herman e Peterson, Enduring Lies: The Rwanda Genocide in the Propaganda System, 20 Years Later, Real News Books, 2014. chaps 4 and 9). Às suas matanças deste vasto número de vítimas não valiosas foi dado o tratamento do Silêncio de Ouro e ele foi retratado nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá como um salvador que se opunha à violência do "Poder Hutu", um verdadeiro milagre de propaganda invertida que teve êxito. 

Em Setembro de 1994, depois de Kagame vencer sua guerra de conquista em Ruanda, um memorando do Departamento de Estado indicava que forças de Kagame estavam a matar civis hutu ao ritmo de uns 10 mil por mês. Este memorando não teve efeito sobre a política estado-unidense de apoio a Kagame e nunca foi mencionado pelos media de referência. Imagine o que teria acontecido se um tal memorando houvesse descrito o comportamento dos governos iraniano, norte-coreano, russo ou venezuelano! 

Outro Silêncio de Ouro sobre Ruanda verificou-se no mês passado, no 20º aniversário do massacre de Kibelho , um campo de refugiados hutus no Sul de Ruanda. Isto aconteceu principalmente entre 19 e 23 de Abril de 1995, mas continuou por algum tempo quando refugiados fugiam do campo. Foi muito tempo depois de o Rwanda Patriotic Front ter conquistado Ruanda, mas com muito deslocados hutus ainda abrigados em campos de refugiados, talvez até 100 mil em Kibelho. O governo Kagame decidiu fechar este e outros campos de refugiados e forçar os mesmos a retornarem às suas cidades de origem. Isto foi acompanhado por uma carnificina, com tiros de canhão, granadas, morteiros e artilharia, observados com horror um contingente de 32 médicos e soldados australianos ao serviço da ONU. O australiano Terry Pickard escreveu na sua memória Combat Medic :

"Só podíamos esperar que o RPA [Rwandan Patriotic Army] nos permitisse ir embora depois do que havíamos testemunhado. Eles haviam simplesmente assassinado milhares de homens, mulheres e crianças desarmados, famintos, sequiosos e inermes. Nem bebés não foram poupados. Alguns daqueles que sobreviveram à carnificina letal de metralhadoras calibre 50, rifles AK47, granadas impulsionadas por foguetes(rocket-propelled grenades, RPG) e morteiros foram implacavelmente perseguidos, capturados e ultimados a baioneta".

Os australianos tentaram salvar alguns hutus, mas foram forçados pelos números e pelas regras da ONU meramente a observar. Uma foto tomada por um deles mostra um vasto campo de cadáveres e depois disso, por instruções da ONU, alguns deles saíram com contadores de passo (pace-counters) para contar os corpos. Eles chegavam a 4.000 e sentiram que haviam coberto menos da metade do número de mortos quando sua contagem foi cancelada por pressão da RPF. Vários deles estimam que a contagem plena atingiria os 8.000 ou mais (Ver Hugh Riminton. "Rwandan massacre still a burden for Diggers", Herald Sun [Australia]. April 20, 2015). A ONU, contudo, acabou por apresentar uma estimativa de 2.000. Esta estimativa mais baixa foi a preferida pelos media de referência. O New York Times, por exemplo, repetiu a frase "até 2000" na sua escassa cobertura em notícias e editorial durante Abril e Maio de 1995. 

Este massacre, tal como memorando sobre a carnificina de Setembro de 1994, não teve efeito sobre a política dos EUA ou da ONU em relação ao governo de Ruanda e essencialmente desapareceu da história ruandesa no Ocidente, excepto na Austrália. Com o 20º aniversário do massacre de Kibelho, em 22 de Abril de 2015 (o dia da maior matança), não houve nem um artigo ou editorial sobre aquele acontecimento nos media de referência dos EUA ou Reino Unido. Isto era claramente território do Silêncios de Ouro, com Kagame ainda cliente dos EUA e celebrado no Ocidente como um salvador de Ruanda, um "Abe Lincoln" africano na visão distorcida de Philip Gourevitch. Só na Austrália, onde a equipe médica havia sofrido como observadores importantes da matança em massa, houve nos media um certo número de relatos acerca dos acontecimentos de Kibelho. Vários deles eram comoventes e dramáticos (ex.: reportagens intituladas "The killings just went on and on"; "Our time in hell on earth"; livros como os de Kevin O'Halloran, Pure Massacre e de Paul Jordan,The Easy Day Was Yesterday ); mas o drama e a autenticidade destes relatos não podiam romper o muro do Silêncio de Ouro nos Estados Unidos. 

É notável que o número estimado de 8.000 ou mais em Kibelho é o mesmo que os media de referência repetiram muitas vezes acerca do número de vítimas do massacre de Srebrenica, o qual se verificou no mesmo ano e só alguns meses após o de Kibelho (a partir de 11 de Julho de 1995). Naturalmente, uma profunda diferença entre os dois casos é que o massacre de Srebrenica foi executado por sérvios bósnios, os quais, juntamente com o governo Milosevic da Sérvia, foram declarados vilões e alvos dos Estados Unidos e da NATO. Segue-se que as vítimas de Srebrenica eram valiosas e que os EUA-NATO dominavam a ONU e o seu braço do Tribunal Criminal Internacional para a Antiga Jugoslávia (International Criminal Tribunal for the Former Yugoslavia ICTY) perseguiria os vilões responsáveis pelo massacre. E os media de referência do Ocidente apresentariam regularmente este episódio, a 11 de Julho de cada ano como momento para recordar aos públicos ocidentais os horrores do massacre de Srebrenica, com artigos acerca dele e fotos a mostrarem sepulturas e famílias enlutadas e a reiterar a lição a ser aprendida sobre a necessidade de intervenção humanitária precoce e vigorosa. 

Também há uma propensão para inflacionar os números das vítimas valiosas em Srebrenica, em contraste com o tratamento do número de vítimas não valiosas em Kibelho, as quais, como observado, foram rapidamente reduzidas pela ONU e pelos media de possivelmente 8.000 ou mais para "até 2.000". Em Srebrenica, embora a contagens de corpos nunca houvesse confirmado 8.000 execuções, esse número foi produzido de imediato e foi mantido até o presente como um acto de fé e pela sua utilidade política (as vítimas valiosas nunca são demasiadas). 

O alto número de execuções em Srebrenica também foi ajudado por outros truques da metodologia do Silêncio de Ouro. Um deles é enterrar o facto de que muitos corpos recuperados na Bósnia-Herzegovina oriental eram quase certamente de homens mortos em combate, os quais travaram-se na vizinhança de Srebrenica e para além desde 11 de Julho durante alguns dias quando vários milhares de soldados bósnios muçulmanos da 28ª divisão fugiram da cidade e tentaram alcançar território muçulmano seguro em Tuzla. Num estudo de relatórios forenses produzidos por peritos do ICTY sobre os 1.920 corpos em sepulturas em massa exumados entre 1966 e 2001, o analista forense Ljubisa Simic mostrou de modo convincente que os ferimentos em pelo menos metade dos apontam para mortes em combate. Contudo, num golpe de propaganda ocidental, estas mortes em combate foram ignoradas e todos os corpos encontrados na vizinhança são considerados como vítimas de execução. 

A tarefa de conseguir que o número de vítimas se elevasse até àquele objectivo permanente de 8.000 voltou-se mais recentemente para a identificação do ADN dos cadáveres. Um número de 6.924 é o total de Julho de 2014 avançado pela Comissão Internacional sobre Pessoas Desaparecidas (ICMP) com base nesta metodologia. Além do facto de esta Comissão não ser verdadeiramente "internacional" mas sim dominada pelos Estados Unidos e autoridades bósnias muçulmanas, os que apresentam esta nova afirmação recusaram-se a permitir que a sua metodologia fosse verificada por analistas de defesa independentes. E se bem que os dados forenses sobre corpos permitam alguns julgamentos limitados sobre a possível causa e momento da morte, o ADN nada nos diz sobre estas questões ou qualquer coisa acerca do lugar da sua ocorrência. 

Para o ICTY, a principal testemunha sobre o massacre de Srebrenica foi um alegado participante, o croata Drazen Erdemovic. Ele foi gravemente comprometido por antecedentes mercenários, pelas circunstâncias da sua participação nas mortes e por contradições no testemunho, mas estava desejoso de implicar altas autoridades bósnias sérvias e portanto foi protegido pelos promotores e juízes do ICTY e mantido quase completamente livre de acareações sérias. Um estudo irrefutável da história de Erdemovic, seu papel e a protecção que recebeu do ICTY foi escrito pelo jornalista Germinal Civikov ( Srebrenica: The Star Witness [Belgrado, 2010]). Trata-se de uma crítica devastadora do homem e do ICTY, mas apesar de terem sido disponibilizadas cópias para os media ocidentais de referência, incluindo Marlise Simons do New York Times, a este livro foi dado o tratamento completo do Silêncio de Ouro. 

Outro elemento do Silêncio de Ouro em relação a Srebrenica é o blackout dos factos antecedentes que tornaria o implacável tratamento sérvio de prisioneiros mais compreensível. Embora Srebrenica fosse designada como uma "área segura" pelo Conselho de Segurança, protegida de ataque, aquela designação também exigia que fosse desarmada. Isto não aconteceu e desde 1992 até Julho de 1995, incursões de quadros bósnios muçulmanos, dirigidas primariamente pelo comandante local Naser Oric, atacaram muitas cidades habitadas por sérvios e mataram vários milhares de civis sérvios. O tenente-coronel Thomas Karremans, que comandou o batalhão holandês em Srebrenica em 1995, declarou em 23 de Julho de 1995 que "Nós sabemos que só na área circundante do enclave de Srebrenica, 192 aldeias foram arrasadas e todos os aldeões mortos". O juiz Patrick Robinson do ICTY perguntou directamente ao comandante da ONU em Sarajevo, Philippe Morillon, se o que aconteceu em Srebrenica em Julho de 1995 "foi uma reacção directa ao que Naser Oric fizera aos sérvios dois anos antes?". Ao que Morillon respondeu, "Sim, excelência, estou convencido disso". Isto não foi mencionado nos media de referência dos EUA (para um relato mais completo, ver George Bogdanich, "Prelude to the Capture of Srebrenica", in Herman, ed., The Srebrenica Massacre: Evidence, Context, Politics [Alphabet Soup, 2011]). Em suma, o contexto dos antecedentes, interferindo com o processo de demonização e com os planos de guerra dos EUA-NATO, foi ignorado pelos media de referência. 

Não é que os media façam omissão da história em todos os casos. De facto, em conexão com a recente morte de polícia e tumultos em Baltimore um editorial do New York Times intitulava-se "O que aconteceu antes dos tumultos de Baltimore" (29/Abril/2015). Aqui a posição política liberal dos editores torna permissível centrar-se no contexto e nas causas primárias. Com Srebrenica a agenda de demonização e mudança de regime proibia o equilíbrio e o contexto inconveniente. Isto, nos media de referência, é um lugar comum na cobertura da política externa – e é dramaticamente evidente no tratamento do demonizado Putin e no conflito da Ucrânia onde um perito em assuntos russos como Stephen Cohen, que pretende falar acerca dos antecedentes Rússia-NATO e causas primárias, não pode obter tanto espaço noticioso quanto as Pussy Riot russas que querem denunciar Putin. 



[*] Economista, estado-unidense, autor de numerosos artigos e livros sobre os media e a política externa. 



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .



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