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domingo, 18 de novembro de 2012

Coisas espantosas...

A Gerente Alemã e os serventuários\lacaios do grande capital
Coisas espantosas...
por António Iria Revez

«Falando do que vai por este beco do universo, onde as comadres se acotovelam para levantar as saias no escuro dos portais.»
(Jorge de Sena)

Circula na Internet um vídeo que durante dez minutos faz um repositório de 41 intervenções de Passos Coelho em entrevistas ou declarações públicas que passaram na TV, antes de ser primeiro-ministro. Nessas imagens, garante dezenas de vezes que se for para o governo não vai aumentar os impostos, não vai cortar nos salários dos funcionários públicos, não haverá cortes nos subsídios de férias e do Natal, porque isso seria um disparate, que seria uma política criminosa vender, nos próximos anos, activos ao desbarato para arranjar dinheiro, que os sacrifícios não estavam a ser distribuídos equitativamente e teria que haver mais justiça nessa distribuição, que não iria dizer hoje uma coisa e amanhã outra, que era preciso valorizar a palavra para que quando ela fosse precisa, as pessoa acreditassem nela, e por fim que quando fosse primeiro-ministro não iria dizer ao País, ingenuamente, que não conhecia a situação em que este país se encontrava, etc., etc., etc..
 
Como muito bem sabemos, porque sentimo-lo na pele, o senhor Coelho não fez nada do que prometeu. Mais e pior, na sua qualidade de fiel serventuário do grande capital, fez tudo deliberadamente ao contrário.
 
O léxico nacional comporta adjectivos de sobejo para configurar este tipo de comportamentos, e durante as inúmeras manifestações contra esta política de rapina, o povo, na sua inesgotável criatividade, já os usou quase todos, alguns dos quais eu nem os conhecia. Se houvesse uma réstia de vergonha e honestidade, julgo que estes políticos que representam os partidos que se autodenominam do «arco do poder», durante as campanhas eleitorais deveriam fazer um aviso prévio aos incautos potenciais eleitores, relativamente aos seus aliciantes programas. Qualquer coisa do género: «Este programa só é válido enquanto permanecermos na oposição. Será obviamente “adulterado” caso venhamos a ganhar as eleições». Aqui para nós, para acreditar seriamente naquelas promessas foi necessária uma dose avantajada de ingenuidade ou então de tolice. Outros, cientes daquele ditado que diz ser o vinagre pouco aconselhado para a captura de moscas, teriam votado com a confortável certeza de que aquilo era mesmo só para enganar os tolos.

Depois do 25 de Abril, quando as massas populares se aliaram ao MFA e o processo começou a ganhar dinâmica revolucionária, despertando muitas consciências até então adormecidas, a direita caceteira assustou-se a sério e muitos debandaram para o Brasil e para outros países «amigos».
 
Todavia, houve muitos que ficaram, e dentro da velha tradição desembrulharam o arsenal terrorista que estava guardado nos sótãos dos avós desde o advento do Estado Novo, uma vez que a PIDE e as ditas forças da ordem desempenhavam a contento essas funções.
 
Arsenal esse que tem curiosas variantes etnográficas, culturais e até classistas. Vai desde a simpática, mas de cariz regional, moca de Rio Maior e da matraca até à não menos aprazível bomba, esta de natureza mais cosmopolita mas que implica alguns conhecimentos básicos na área dos explosivos e da pirotecnia. Não obstante, foi esta a mais comumente utilizada. Passaram alegremente a delegar no poder persuasivo do trotil a nobre incumbência de acabar de vez com tudo o que cheirasse a revolução. Para pôr o processo em marcha agitaram o desengonçado espantalho do anticomunismo, já um tanto gasto pelo uso intensivo durante o período fascista, mas não obstante sempre muito do agrado dos apreciadores.
 
Vimos então alguns daqueles que se tinham oposto ao regime salazarista engrossarem a santa aliança reaccionária, repetindo os mesmos «slogans» parvos e ridículos com cheiro a ranço, o que em situação normal os faria corar de vergonha. Mário Soares, a estrela maior deste circo macabro, deu o pontapé de saída para «salvar o país da ditadura comunista», aproveitando para, à socapa, meter o socialismo na gaveta. Isto foi o que se disse, porque na realidade parece que confundiu a tampa da conduta do lixo com uma gaveta. Presume-se que o homem não estaria acostumado com as modernices introduzidas na construção civil na década de 70. Mário Soares no seu afã de combater a «ditadura comunista» não olhou a meios. Numa entrevista radiofónica conduzida pelo jornalista Carlos Magno (eu ouvi) aos operacionais bombistas da extrema-direita ligados ao MDLP-ELP, Manuel Macedo e Ramiro Moreira (autor confesso do atentado bombista na Embaixada de Cuba e mais cerca de 60 outros atentados do género contra bens e entidades de esquerda, condenado a 21 anos de prisão; fugido para Espanha, aí foi nomeado inspector da Petrogal pelo governo de Cavaco Silva e mais tarde indultado por Mário Soares), estes descreveram ao pormenor as reuniões, que tiveram lugar na casa de um irmão de Spínola em Massamá onde, além do general, estiveram presentes Mário Soares e Manuel Alegre (na qualidade de secretário geral do PS para a Segurança e Propaganda).
 
As ligações de Mário Soares àquelas sinistras figuras e organizações, a Carlucci, à CIA e aos serviços secretos britânicos são por demais conhecidos. Curiosamente, o mesmo Soares que em 1974 em entrevista ao «Expresso» garantia que «o progresso do PC não me impressionou extraordinariamente na medida em que acho natural que um partido democrático com uma longa tradição como o PC possa desenvolver-se na sociedade portuguesa. Por outro lado, entendo que propor uma política anticomunista acaba sempre por fazer o jogo da reacção». Mário Soares sabia portanto os caminhos que pisava e que consequências necessariamente daí advinham. Ciente de que esta sua actividade contra-revolucionária lhe granjeara simpatias e significativo capital político junto do eleitorado mais conservador, empurrou o seu partido para terrenos que a direita até então considerava coutada privativa.
 
Cada vez mais próximos em termos da natureza dos produtos com que pretendiam aliciar o eleitorado, PS e PSD, nas suas relações de amor/ódio, acabaram por perceber que precisavam um do outro para sobreviver. Concomitantemente tomaram consciência de que eram dois irmãos gémeos siameses, neste caso concreto cefalópagos (unidos pela cabeça), não podendo viver um sem o outro. Bem, esta cefalopagia, como já perceberam, é meramente em sentido figurado, claro, pois como sabemos têm as suas diferenças. Embora o pensamento seja o mesmo (é a tal cabecinha), possuem cada qual o seu estômago e restante carnadura totalmente independentes. É esta diferença que lhes garante a possibilidade da sobrevivência, configurando aquilo que se designa por simbiose, associação entre seres vivos diferentes, em que ambos saem beneficiados.
 
Assim, nesta confortável situação de mutualismo biológico, enquanto um está no Governo e assume o acumular do ódio popular, devido à sua política neoliberal de triste memória, o outro engorda na oposição de faz de conta. Encena pacatamente a clássica farsa da travessia do deserto (julga-se que pilotando aquelas rápidas viaturas do Paris-Dakar), pressionam a tecla do «delete» no arquivo da memória e limpam-se de todos os pecados, de forma a chegarem às eleições totalmente purificados, bacteriologicamente puros, chegando nalguns casos a vislumbrar-se um esboço de asas brancas no imaculado costado. E assim, ei-los prontos para tomar conta do leme da governação, ungidos pelos mais puros ideais democráticos, prenhes de amor por este estreito rincão que foi berço dos nossos maiores, empenhados no desenvolvimento do país, no bem-estar de todos os portugueses, e sensíveis às dificuldades experimentadas pelas camadas mais desprotegidas da população. Ah! E com grande sentido de responsabilidade. E pronto, chega-se ao fim do disco e ao virá-lo, constatamos sem surpresa que a música que se segue é precisamente a mesma.
 
Este cenário já se repetiu vezes sem conta, a frustração é sempre igual, mas até agora parece que há gente que ainda não percebeu que tal farsa, qual mito de Sísifo, não faz sentido, não leva a lado nenhum, e como tal não passa de um absurdo.

Os portugueses estão a aprender da forma mais dolorosa e penalizadora, é certo, o quanto têm sido ludibriados e o que é a política na sua realidade. Durante séculos foram-lhes inculcados preconceitos que os marcaram indelevelmente para várias gerações. E dos preconceitos não é fácil libertarmo-nos, como se sabe. Já lá dizia Einstein que é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. Mas todos temos olhos para ver, ouvidos para escutar e memória para lembrar nem que seja apenas o passado recente. Basta recordar aquilo que a direita, na sua imaginação doentia, perversa e delirante desde sempre repetiu, até à exaustão, serem as medidas horrorosas que os comunistas tomariam se um dia o povo lhes desse a preferência nas urnas, para perceber que, afinal, essas medidas que nos conduziram a este inferno em que nos meteram são, sem tirar nem pôr, todas aquelas que estão a ser implementadas por esta monstruosidade a que chamam governo.
 
Só não fizeram aquilo que lhes faltou dizer que os comunistas fariam, e não foi por falta de informação, porque eles sabem muito bem que aquilo que os comunistas fariam seria exactamente o contrário daquilo que eles estão fazer. Bem, dizer que o governo implementou todas as medidas que a tradição salazarista sempre imputou aos comunistas, talvez haja aqui um pouco de exagero, e disso me penitencio. Na realidade, não tenho nenhum indício seguro que permita afirmar andarem eles a comer criancinhas ao pequeno-almoço.


ANTÓNIO IRIA REVEZ, médico
 
 
 
 
 
 
 

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