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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Catarina Eufêmia: Comunista, camponesa com o rosto curtido pelo sol e cansaço

Catarina Eufêmia - Heroína do povo Português





Os anos passam e cada ano é um ano cheio de lembranças, sempre as mesmas: Fome e repressão por um lado, lutas, derrotas e vitórias por outro. Em todo este ciclo reforça-se a vontade cada vez mais firme de lutar por uma vida melhor, sem pesadelos de fome e miséria, e em que as relações entre os homens sejam de irmão para irmão e não de senhor para servo.


Da longa gesta que tem sido a luta do povo alentejano contra o fascismo, entre muitos exemplos de heroísmo, destaca-se a morte da simples e heróica camponesa. Catarina Eufêmia, assassinada quando com outras companheiras dirigia uma luta em Baleizão.



Naquele dia, 19 de maio de 1954, o ambiente na aldeia era de corajoso entusiasmo. Todos os homens e mulheres válidos tinham-se recusado a trabalhar  pela jornada de fome imposta pelos grandes latifundiários e exigiam melhores salários.

Até os mais tímidos, aqueles que vendo a fome em casa trabalhavam por qualquer preço, não se mostravam dispostos a quebrar a greve. Os agrários raivosamente não transigiam. Um dêles, o Dr. Fernando Nunes, de Beja, contratou um rancho dum lugarejo próximo (Penedo Gordo) que não conhecendo a atitude de seus camaradas de Baleizão aceitaram a jornada proposta pelo agrário. Ao saber disto, uma massa de 2.000 baleizoeiros, homens, mulheres e crianças, dirigi-se para o local onde trabalhava o rancho. Não foram precisas muitas falas para os trabalhadores se entenderem.

Estavam todos de acôrdo, não se trabalhava com salários de fome. Quando o povo já regressava a Baleizão teve conhecimento que uma fôrça da G.N.R tinha obrigado o rancho de fora a retomar o trabalho. Idignados com a atitude dos guardas, voltaram atrás dispostos a não permitir que se trabalhasse. Entretanto o agrário avisado por um criado, pedia reforços às autoridades em Beja. Estes não se fizeram esperar. Num jeep, a tôda velocidade, seguiram soldados da G.N.R com metralhadoras ligeiras, comandados pelo tenente Carrajola que levava uma pistola metralhadora.

Mais uma vez as fôrças repressivas zelosamente defendiam os interesses dos grandes agrários. Os homens do rancho foram obrigados a retomar o trabalho cercado pelo G.N.R que mantinha as armas apontadas contra os trabalhadores de Baleizão. A cólera apareceu nos rostos marcados de sol e cansaços. As armas dêstes homens e mulheres eram a sua altiva determinação e as vozes indignadas que gritavam: " Temos Fome!" " Queremos Paz! " " Queremos falar com o rancho de Penedo Gordo ", " Bandidos! ", " Assassinos!".

O Barulho crescia. A fôrça das armas não fazia calar estes gritos que saiam cada vez mais quentes dos peitos revoltados.

Com esta atitude firme conseguiram impôr que uma delegação de 15 mulheress fôsse falar com o rancho. Nessa delegação ia Catarina Eufêmia. Quando se aproximavam do rancho junto do qual se encontrava o agrário Nunes, sai detrás dum molho de favas, onde se tinha escondido, o tenente Carrajola. Com o crime nos olhos, aponta a pistola metralhadora às camponesas que levantam os braços e continuam a caminhar. O assassino Carrajola corre sôbre elas e dirigindo-se a Catarina, que com um filho de 8 meses no colo e outro no ventre, se encontrava a frente, pergunta-lhe: " O que queres, bruta?" Catarina, altiva, responde-lhe: " O que eu quero é pão para matar a fome de meus filhos. Quero paz, tenho fome! ".

A resposta brutal não se fez esperar. O fascista criminoso afasta os pés do filho que Catarina trazia ao colo, encosta a pistola metralhadora no corpo desta valente camponesa e três tiros partiram. O monstro não ficou satisfeito com o crime. Desvairado, volta-se para as companheiras de Catarina Eufêmia e pretende massacrá-las todas. Estas refugiam-se atrás do agrário que lhes serve de resguardo às balas assassinas O Carrajola então, para não matar também o seu cúmplice, limita-se  a fazer umas rajadas de metralhadora para o chão, cobrindo de pó as camponesas.

Rápidamente, para esconderem o seu crime e fugirem à cólera do povo, transportam o cadáver de Catarina de automóvel para Beja, dizendo que estava desmaiada. Naquele momento de espanto, não querendo acreditar que se possa matar por pedir aumento de salários, pão para dar de comer aos filhos, o povo não se apercebeu logo do crime monstruoso que se tinha cometido. Só a noite trouxe a confirmação. Catarina tinha sido assassinada! Todo o povo pôs sinais de luto. A sua cólera transbordou! só se ouviam gritos entrecortados por lágrimas: " Bandidos!" " Criminosos!", " Queremos pão!"

Também a noite trouxe o tropel dos cavalos e o bater dos tacões dos soldados da Guarda Nacional Republicana que ocuparam a aldeia. E mais uma vez o povo do Alentejo sentiu na sua carne que o regime fascista considerava crime pedir trabalho e paz.

De Baleizão a Beja, onde se encontrava o corpo de Catarina Eufêmia, um cortejo de 2.000 pessoas acusava o crime praticado. Olhos resolutos em faces queimadas, continham um ódio profundo ao fascismo. Ao entrarem em Beja, uma fraterna solidariedade do povo desta cidade aumentou êsse já enorme cortejo de homens e mulheres. Mas a raiva fascista não quis que esta última homenagem fôsse prestada à heróica camponesa. A polícia cercou o hospital onde se encontrava o cadáver de Catarina e sem que o povo tivesse tempo para se aperceber, um automóvel transportou-o a toda velocidade para um destino desconhecido.

O povo gritava, a GNR e a polícia lançaram-se desordenadamente à pacada sôbre a multidão que lhes ofereceu resistência ferindo alguns guardas. Quando chegaram reforços, já o povo tinha dispersado e regressado as suas casas. Só aí souberam que Catarina tinha sido enterrada no pequeno cemitério da aldeia de Quintos.

Catarino Eufêmia tinha 29 anos e era comunista. Deixou três filhos orfãos e esperava outro que morreu com ela.

Rubras papoulas que floriam seu chapéu de ceifeira, cobrem todos os anos sua humilde sepultura.Seus companheiros não a esqueceram. Para todos, ela continua um belo exemplo de luta e vida que viveu. E nas canções dos ranchos que ceifam o pão que não comem, o nome de Catarina Eufêmia anda misturado com as palavras: PÃO, LUTA, PAZ E AMOR.


Fonte: Livro " A resistência em Portugal" - Amilcar Gomes Duarte -Editora Felman-Rêgo- 1962


O Mafarrico Vermelho

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