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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Arraia Miúda

Arraia Miúda
Por Filipe Diniz

Jornal Avante- Portugal




Lisboa, 1383: «levantaram[-se] os povos [em Lisboa e] em outros lugares, sendo grande o cisma e a divisão entre os grandes e os pequenos. Ao qual ajuntamento dos pequenos povos, que assim então se juntava, chamavam naquele tempo arraia-miúda.»

[…] «E os pequenos aos grandes, depois que cobraram coração e se juntavam todos num, chamavam-lhes traidores cismáticos, que estavam da parte dos castelhanos para darem o reino a de quem ele não era.

[…] Era maravilha de ver que tanto esforço Deus punha neles, e tanta cobardice nos outros, que os castelos que os antigos reis, permanecendo sobre eles por longos tempos, não podiam à força de armas tomar, os povos miúdos, mal armados e sem capitães, com os ventres ao sol, antes do meio-dia os filhavam por força.(1


 
Entre os antecedentes do levantamento da «arraia-miúda», encontrava-se a circular de 3 de Janeiro de 1349 (Afonso IV) cujas primeiras medidas eram o arrolamento […] dos indivíduos obrigados a trabalhar por conta alheia; a fixação do preço da força de trabalho (taxas); sanções penais para quem desrespeitasse as taxas (ou seja, quem pagasse acima delas); a obrigatoriedade de o criado trabalhar todo o ano para o senhor, se este necessitasse dos seus serviços para além do contrato(2).


Hoje como antes a classe dominante contrapõe os seus privilégios aos direitos dos trabalhadores e do povo, alia-se ao estrangeiro contra o interesse nacional. Costuma esta gente repetir que «Portugal não é a Grécia». Mas as políticas contra os respectivos povos são as mesmas, e os seus resultados serão inevitavelmente os mesmos. E há já dados na situação portuguesa que mesmo nessa comparação ressaltam negativamente. O número de indivíduos em famílias afectadas no seu conjunto pelo desemprego aumentou na Grécia 1,5% entre 2005 e 2010. Em Portugal aumentou 44%(3).


O povo levanta-se novamente em massa perante este rumo de desastre. Encheu o Terreiro do Povo. Prosseguirá a luta até vencer.



(1) Fernão Lopes, “Crónica de D. João I”, em

(2) Álvaro Cunhal, “As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média”, Ed. Estampa, 1975, p.38
(3)







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