Como funciona a máquina de propaganda do ocidente

Como funciona a máquina de propaganda do ocidente
por Nikolai Starikov
"Assim, agora o Ocidente e a Quinta Coluna na Rússia "são residentes de Alepo" ("Je suis Aleppo!"), apesar de nenhum deles se importar com a Síria em geral e com Alepo em particular. Só que, agora, os projetores do circo de informações ocidentais estão virados para aquele lado. Portanto, toda a gente olha obedientemente naquela direção, observando apenas o que lhe mostram.

Mas não se preocupem, daqui a nada vão esquecer tudo sobre Alepo. Vão mostrar-lhes e contar-lhes um conto assustador, novinho em folha, e o infantil Zé Povinho vai acreditar nisso. Vão começar a preocupar-se com alguém ou com qualquer coisa… até que a máquina de propaganda ponha em destaque outros factos, noutro país, deixando de noticiar a tragédia de Donbass ou das diversas cidades da Síria, ou do Iêmen, ou de centenas de outros locais do planeta, cujas tragédias diárias recebem dos meios de comunicação ocidentais apenas um frio encolher de ombros. "
1. O seu princípio fundamental é a fragmentação. Isto pode parecer estranho, mas a fragmentação é o fundamento supremo da lavagem ao cérebro ocidental. 

Não é segredo que o sistema de ensino nas "democracias avançadas" está concebido de forma a criar artificialmente uma visão muito estreita do mundo. Em contrapartida, o sistema escolar soviético tenta criar uma visão abrangente do mundo, mesmo entre os alunos mais preguiçosos, enchendo-lhes a cabeça com alta matemática, física, química e astronomia, por mais improvável que seja eles virem a usar todos esses conhecimentos. A compreensão da forma como o mundo está interligado, a causa e o efeito, e a capacidade de juntar tudo e analisar diversos factos, chama-se "pensamento analítico". É o primeiro passo para a criatividade. 

Todas estas coisas desapareceram do sistema de ensino ocidental. O nosso país tentou adotar este sistema, numa "reforma do ensino", que tem um objetivo claro: a fragmentação da sociedade, não apenas em classes, mas em castas. A casta dirigente recebe um ensino clássico em escolas privilegiadas, as Cambridges e Eatons, em que se ensina uma visão abrangente do mundo e em que são forjados os futuros líderes e as elites do mundo ocidental. Todos os restantes recebem um "sistema de ensino avançado" que, na prática, aboliu os trabalhos de casa, e os estudantes acabam por quase nem saber ler. Quem quer que tenha frequentado a escola na URSS e conheça as escolas ocidentais poderá dizer como o programa na União Soviética era muito mais sólido. Os nossos estudantes do liceu resolviam problemas que os ocidentais estudavam na faculdade. 

A ênfase neste sistema de ensino no Ocidente não acontece por acaso. 

A fragmentação da consciência e a falta de uma visão abrangente do mundo são características da percepção da realidade de uma criança. Afinal, as crianças vivem no seu mundo, um mundo de jogos, de contos de fadas e de sonhos. Acabam por desenvolver uma visão adulta do mundo, com base na experiência, observando o que os rodeia segundo o que é a realidade. 

2. O objetivo do sistema de ensino ocidental é criar crianças. Crianças crescidas. Os únicos adultos no sistema são os formados nas universidades de elite que recebem um ensino a sério. Daí, a ingenuidade espantosa dos ocidentais que caem facilmente em todo o tipo de absurdos, se lhos repetirem na TV. Por exemplo, a ideia de que os EUA são um farol de liberdade e democracia para todo o mundo, que, em vez de defenderem os seus interesses, apenas procuram disseminar uma "liberdade" bastante nebulosa. 

Uma criança é fácil de convencer – o segredo é repetir-lhe uma história com convicção e energia. A máquina da informação ocidental é convincente porque regurgita o mesmo ponto de vista por toda a parte: não se apresenta outro ponto de vista. Ocorre o mesmo efeito, quando uma criança faz a mesma pergunta, primeiro à mãe, depois ao pai e, finalmente à avó. Perante a mesma resposta, convence-se que assim deve ser. 

3. As crianças adoram brincar e divertir-se e a civilização ocidental moderna amplia a brincadeira e o divertimento eternamente. Há milhares de jogos e centenas de aplicações para jogos. Há filmes, livros, redes e locais especiais para jogar. Faz-se tudo para garantir que os adultos brinquem tanto quanto queiram. Será importante para a sociedade e para a humanidade, no seu todo, que as pessoas brinquem assim tanto? Qual é o objetivo da brincadeira para a espécie humana? Não se prevê qualquer benefício. Mas é conveniente poder governar indivíduos que só querem divertir-se, como crianças. Esta tendência leva à imaturidade. As pessoas não querem ter filhos – não admira, já que as crianças não constituem família nem procriam. É-lhes desnecessário. Ter uma família e criar filhos nossos geralmente deixa pouco tempo livre para os jogos e para o "divertimento". 

Estas três características da civilização ocidental estão por trás da estratégia usada para manipular o Zé Povinho. 

Colocam-se com êxito, na cabeça dele, pensamentos coloridos e fragmentados. Este Zé Povinho, homem-criança, o ocidental médio, não tem uma compreensão real do que acontece e está plenamente disposto a acreditar numa história, se ela for bastante colorida e repetida bastantes vezes. 

Então, como distinguir uma manipulação de uma apresentação honesta dos factos?
 
1. Os manipuladores vão apelar às nossas emoções, usando os sentimentos – e uma quantidade mínima de factos – para criar uma impressão falsa. 

2. Os manipuladores vão apresentar os factos na sequência errada, violando a lógica, invertendo a causa e efeito. Vão mostrar, invariavelmente, um fragmento do que está a acontecer, mas nunca o quadro completo. 

Reparem como as campanhas dos meios de comunicação ocidentais, assim como as dos nossos liberais pró-ocidentais, que estão ligados ao Ocidente por um cordão umbilical invisível, são sempre fragmentadas e emotivas. 

Em agosto de 2008, "eram todos georgianos". Noutra altura, estavam a lutar contra a "tirania de Saddam Hussein". Uns anos depois, "reinava grande liberdade na Ucrânia", quando queimaram e apedrejaram a força policial desarmada "Berkut". Depois, de repente, estão cheios de preocupações quanto ao destino de Alepo, embora ainda ontem, não se preocupassem minimamente com o destino de Donetsk ou de Damasco e de Homs. A seguir, metem os pés pelas mãos quanto a "Putin a envenenar Litvinenko com polónio", e ninguém se preocupa em saber se isto foi verdade – um método assim certamente já teria envenenado mais de uma pessoa, possivelmente toda a cidade de Londres. 

Colocam um pequeno fragmento de informações na boca do Zé Povinho ocidental, um homem-criança, e embrulham-no numa bela imagem televisiva. A imagem mostra camiões queimados, mas uma total ausência de crateras de bombas. Todos os que veem acreditam que a imagem mostra o resultado de um ataque da força aérea russa a uma coluna humanitária. Ninguém denuncia o facto de que, se a coluna tivesse sido realmente atingida por bombas aéreas, os camiões não se tinham incendiado, teriam sido pulverizados. Mas a imagem é a cores vivas e tão convincente! 

Quem é o culpado pelo dilúvio de refugiados na Europa? Obviamente, os dirigentes europeus que abriram as comportas do continente a milhões de refugiados, principalmente do Afeganistão e de outros países do Médio Oriente. Mas o que é que diz a máquina de propaganda ocidental? A inundação de refugiados é culpa da Rússia, porque esta dificulta o derrube de Assad. Se a Rússia não tivesse interferido, a guerra já estaria acabada e ninguém teria que fugir para a Europa. A mentira não é apenas uma mentira óbvia, é uma dupla mentira: Se anseiam pela paz na Síria, não apoiem quem a violou – ou seja, a "oposição". Há seis anos, não havia refugiados sírios rumo à Europa, embora Bashar al-Assad estivesse vivo e saudável como seu dirigente. As ações da Rússia destinam-se a repor esse status quo anterior à guerra. Mas a Rússia está a ser acusada pelo derramamento de sangue e pela destruição da Síria e também pelo facto de uns 100 mil refugiados terem ido parar à Alemanha. 

Quando o Pentágono ou o Departamento de Estado, muito a sério, referenciam "provas do Facebook", não estão a gozar nem a ser desonestos. Também eles foram educados PARA ISSO. É por isso que alguns deles acreditam genuinamente que essas informações são verdadeiras. Evidentemente, os adultos, a mamã e o papá nunca mentiriam ao seu filhinho, não é? Portanto, a criança acredita genuinamente que, se se recusar a comer a sopa, aparecerá um papão assustador, zangado com a sua falta de apetite – com todas as consequências. A criança nem sequer concebe a ideia de que não existe nenhum papão e que a mãe o inventou, para atingir o seu objetivo prático (alimentar a criança relutante). Um ocidental não pode acreditar que o filme sobre "ataques russos a uma coluna humanitária" possa ter sido fabricado, ou que o MI-6 possa ter envenenado Litvinenko com sais de tálio, ou que os meios de comunicação ocidentais desçam tão baixo como a mostrar "motins em Moscovo" com palmeiras ao fundo (porque, na realidade, a cena passa-se com motins em Atenas). Têm a certeza que um "país civilizado" nunca entraria numa falsificação destas? 

Assim, agora o Ocidente e a Quinta Coluna na Rússia "são residentes de Alepo" ("Je suis Aleppo!"), apesar de nenhum deles se importar com a Síria em geral e com Alepo em particular. Só que, agora, os projetores do circo de informações ocidentais estão virados para aquele lado. Portanto, toda a gente olha obedientemente naquela direção, observando apenas o que lhe mostram. 

Mas não se preocupem, daqui a nada vão esquecer tudo sobre Alepo. Vão mostrar-lhes e contar-lhes um conto assustador, novinho em folha, e o infantil Zé Povinho vai acreditar nisso. Vão começar a preocupar-se com alguém ou com qualquer coisa… até que a máquina de propaganda ponha em destaque outros factos, noutro país, deixando de noticiar a tragédia de Donbass ou das diversas cidades da Síria, ou do Iêmen, ou de centenas de outros locais do planeta, cujas tragédias diárias recebem dos meios de comunicação ocidentais apenas um frio encolher de ombros. 



O original encontra-se no blogue de Nikolai Starikov e a versão em inglês em 


Tradução de Margarida Ferreira. 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .



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