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segunda-feira, 4 de março de 2013

Algumas questões relativas ao movimento comunista a partir da experiência do KKE


Algumas questões relativas ao movimento comunista a partir da experiência do KKE
por Giorgos Marinos


"A política de alianças é de uma importância estratégica. É determinada pela linha estratégica básica do partido, e este é um elemento muito importante que exige coerência revolucionária. Todo o desvio desta tarefa em nome de manobras e ganhos eleitorais temporários atrasa o partido, arruína o que quer que o PC tenha alcançado anteriormente, coloca em risco a própria existência revolucionária do partido."
 
É um facto que, quando nos referimos aos problemas complexos do movimento comunista e operário, especialmente quando nos referimos a problemas relacionados com a estratégia dos partidos comunistas, a política de alianças, é necessário reforçar o debate político-ideológico sobre questões em relação às quais existem diferentes abordagens e discordâncias. Assim, os argumentos são apresentados e as várias posições são testadas com base nas experiências reais, nos princípios marxistas-leninistas e na experiência do movimento comunista e operário.

Desta forma, os aforismos serão evitados e a discussão ou debate contribuirão para tirar conclusões, destacar os aspetos positivos na estratégia e tática dos partidos comunistas, rejeitar as posições erróneas e corrigi-las.

Todas estas coisas têm um objetivo. O movimento comunista deve estabelecer sólidas bases revolucionárias e superar a sua crise para se tornar mais capaz na luta, para organizar a classe trabalhadora, para construir a aliança sociopolítica necessária, para adquirir um nível mais alto no esforço de concentração de forças com o objetivo de elevar o conflito contra as forças do capital, para o derrube da barbárie capitalista, pelo socialismo.

Inquestionavelmente, os partidos liberais e social-democratas, assim como os partidos que abandonaram os princípios da visão do mundo marxista-leninista, deslizaram para o caminho da conciliação de classes e o oportunismo, tomaram uma posição clara. Escolheram o caminho de defender e gerir o capitalismo, independentemente das desculpas e pretextos que utilizam.

A questão é que os partidos comunistas que acreditam nos princípios da luta de classes, na necessidade histórica da luta pelo derrube do regime de exploração do homem pelo homem, na construção da nova sociedade, o socialismo-comunismo, adaptem a sua estratégia e tática a esses objetivos, que são a essência e a razão de ser de um partido comunista, a maior contribuição possível para os interesses da classe operária e das camadas populares. 

O KKE assumiu a sua parcela de responsabilidade. Avança de uma maneira estudada e ponderada por um caminho muito difícil, retira a experiência da sua história, luta contra as suas fraquezas e ajusta a sua estratégia e tática (que resulta da estratégia) às necessidades da concentração, educação e organização das forças operárias e populares nos locais de trabalho e nos bairros com base num objetivo não negociável: a rotura com o grande capital e as alianças imperialistas para o derrube do poder dos monopólios, o derrube das relações de exploração na produção e a sua substituição pelo poder socialista da classe operária e do povo e por relações socialistas de produção.

Há muitos anos, o KKE, em 1996 no seu 15 º Congresso, ajustou a sua estratégia e tática às novas necessidades criadas pelo desenvolvimento do capitalismo, o domínio e o fortalecimento do capital monopolista, a assimilação da Grécia pelas alianças imperialistas da União Europeia e da NATO.

Através do estudo da situação objetiva, da avaliação de que as relações de produção capitalistas se têm (ainda) desenvolvido na Grécia e que o capitalismo está na sua fase mais elevada (monopolista), o imperialismo, chegou-se à conclusão de que as pré-condições materiais para o socialismo amadureceram ainda mais. O congresso afirmou que na nossa era, a era da passagem do capitalismo ao socialismo, a luta de classes é dirigida para a resolução da contradição fundamental entre o capital e o trabalho. A mudança revolucionária na Grécia será socialista. A força motriz da revolução socialista será a classe operária, como a força dirigente, os semiproletários, os agricultores pobres e os setores populares mais oprimidos da pequena burguesia urbana.

Nesta base, a linha antimonopolista e anti-imperialista foi determinada como um instrumento, como um meio para concentrar forças, uma base para a política de alianças do partido e a sua atividade no movimento operário e popular com o objetivo de resolver o problema central do poder, a conquista do poder popular, que vai transformar a base económica cuja característica básica é a socialização dos meios de produção concentrados e o planeamento central.

Os ajustes necessários nos três congressos seguintes foram feitos nessa direção, enriquecendo a estratégia e a tática do partido. E esta característica é particularmente evidente no 18º Congresso, em 2009, em que a estratégia do KKE foi enriquecida com a utilização de uma decisão especial sobre as causas e os fatores que levaram ao derrube do socialismo, principalmente com base na experiência da União Soviética.

É óbvio que o KKE, ajustando a sua estratégia para as novas necessidades da luta de classes, escapou da lógica de "etapas", que era uma característica da estratégia do movimento comunista nas últimas décadas e permanece nos programas de muitos partidos comunistas.

A decisão do KKE é apoiada na realidade objetiva que mostra que não pode haver nenhum sistema socioeconómico intermédio (entre o capitalismo e o socialismo-comunismo) e, consequentemente, não pode haver nenhuma forma intermédia de poder. A lógica da etapa intermédia remete para uma situação de transição que, independentemente da correlação de forças que possa expressar-se através do fortalecimento da posição de um partido comunista em eleições parlamentares, não pode resolver os dois problemas decisivos: o do poder e o da propriedade dos meios de produção. 


Inquestionavelmente, se não houver um derrube revolucionário, o poder, os meios de produção e a riqueza produzida pelos trabalhadores permanecerão nas mãos da burguesia; não existirão (objetivamente) as condições para a satisfação das necessidades do povo; a exploração capitalista será perpetuada; e, consequentemente, esta situação será de curta duração, irá acumular problemas para o povo e expor o partido comunista, colocando-o no ciclo vicioso da assimilação pelo sistema.
 

A nova estratégia do KKE, apesar das dificuldades criadas pelo período da contrarrevolução e da restauração do capitalismo na União Soviética e nos outros estados socialistas, apesar das consequências da crise interna do partido e da divisão de 1990-1991, proporcionou um impulso significativo na sua luta.

 
Adquiriu novas posições nos sindicatos e noutras organizações do movimento popular de massas. Desenvolveu as suas ligações com a classe operária, com os agricultores, com as camadas urbanas intermédias. Deu passos importantes na construção do partido, no desenvolvimento da atividade entre os jovens, a Juventude Comunista da Grécia foi reforçada. O partido adquiriu uma presença parlamentar substancial e deu uma importante contribuição para o esforço de reagrupamento do movimento comunista internacional e para enfrentar a sua crise político-ideológica e organizativa.

 
Estamos muito conscientes do debate e conhecemos muito bem os argumentos que são utilizados contra a linha estratégica do KKE, mas pomos na mesa os nossos argumentos para discussão e para reflexão, numa tentativa de destacar os elementos objetivos que levam a essa escolha.
 
O capitalismo é um sistema historicamente ultrapassado a que nenhuma forma de gestão pode dar um rosto humano. Falamos sobre a gestão tradicional liberal e social-democrata, bem como as formas de gestão que se apresentam como "de esquerda", "nova esquerda", "progressista", etc., e têm provocado discussões dentro do movimento comunista. Não podemos analisar intenções, ainda mais em casos onde, no bloco de forças que assumiram responsabilidades governamentais nos respetivos países, estão incluídos partidos comunistas com os quais o KKE, em regra, mantém boas relações bilaterais.
  
Focamos a nossa atenção nas próprias leis do sistema. Na lei fundamental da obtenção de mais-valia, o trabalho não remunerado e o lucro dos monopólios, que é o núcleo da natureza exploradora do capitalismo e não é alterado por qualquer forma de gestão, tenha o nome que tiver. O funcionamento desta lei, independentemente das fórmulas políticas implementadas, determina o caráter explorador da economia.

Focamos a nossa atenção na agudização da contradição fundamental entre o caráter social da produção e do trabalho (por um lado), que coloca milhões de trabalhadores em movimento, os trabalhadores que produzem a riqueza e (por outro lado) a apropriação privada capitalista dos resultados deste processo que opera na nossa época a níveis mais elevados do que antes e é baseado no poder do capital e na propriedade privada dos meios de produção.

É justamente essa contradição que leva a crises capitalistas, que faz o sistema constantemente mais agressivo e mais reacionário. E isso tem sido demonstrado pela recente experiência da crise capitalista que afetou a Grécia, Espanha, Itália, Portugal, Irlanda e outros estados membros da UE, bem como os EUA, Japão e outros países capitalistas, de acordo com a fase do ciclo em que cada país se encontra.

Esta contradição não pode ser superada por qualquer fórmula para a gestão do sistema e da desvalorização da contradição básica em nome de "particularidades nacionais" que enredam os partidos comunistas em posições erradas.

Focamos a nossa atenção na agressividade imperialista e na agudização das contradições inter-imperialistas para o controlo das matérias-primas, a divisão dos mercados e esferas de influência, que são a base para a eclosão de guerras imperialistas. E isso não diz respeito apenas a experiências históricas de épocas anteriores, não se restringe às duas guerras mundiais. Também diz respeito a dezenas de outras guerras locais e regionais, às guerras que estamos a viver na nossa época, como na Jugoslávia, Afeganistão, Iraque e Líbia. Diz respeito à intervenção nos assuntos internos da Síria, às ameaças contra o Irão, ao perigo de uma guerra imperialista generalizada no Mediterrâneo Oriental, no Golfo Pérsico, e em toda a sua região.

Estas contradições não podem ser superadas por qualquer gestão burguesa. Muito menos pela distorção, o não tratamento de um ponto de vista de classe das relações internacionais, que leva ao aprisionamento nos becos sem saída dos conceitos da "democratização" das alianças e organizações imperialistas, da NATO e da UE, à ilusão do chamado "mundo multipolar" e mesmo à degeneração de participar em governos que travaram guerras imperialistas (como a guerra contra a Jugoslávia), ou, mais recentemente, a justificação e o apoio à guerra imperialista na Líbia (por exemplo, a postura de eurodeputados do GUE/NGL).

A posição de que o capitalismo é um sistema historicamente ultrapassado não se refere apenas à Grécia ou a outros estados capitalistas com uma posição intermédia no sistema imperialista, que foram profundamente afetados pela crise. Trata-se do sistema como um todo, incluindo os mais fortes estados capitalistas desenvolvidos, onde o nível elevado de exploração da classe operária e a alta rentabilidade dos monopólios são uma característica (devido ao aumento da produtividade do trabalho). E nesses estados (por exemplo, EUA, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Japão, etc.) é inegável que as necessidades do povo não podem ser satisfeitas, o nível de desemprego permanece elevado, os direitos laborais e de segurança social estão a ser abolidos, os serviços sociais estão a ser mercantilizados.

Qual é a resposta para esta situação do ponto de vista dos interesses da classe operária, das camadas populares, do ponto de vista do progresso social?

A resposta é o desenvolvimento da luta de classes. O desenvolvimento da luta ideológica, política e de massas para o derrube da barbárie capitalista, para acabar com as crises, as guerras, o desemprego, que é o flagelo de milhões de trabalhadores, com a pobreza.

O desenvolvimento da luta de classes, em primeiro lugar a nível nacional, onde a contradição entre o capital e o trabalho é direta e claramente manifestada. E também com uma verdadeira coordenação a nível internacional, entre os partidos comunistas, revolucionários, como protagonistas, e as forças sociais que têm interesse na luta contra os monopólios, o capitalismo e as alianças imperialistas.

A resposta é a luta pelo socialismo. E isso não é uma questão académica. Esta não é simplesmente outra questão. É a questão fundamental e dominante que determina todas as outras. A referência ao termo socialismo no programa ou nos documentos de um partido comunista, ou a aceitação da necessidade e oportunidade do socialismo não são suficientes. Este é geralmente o caso, mas é de pouco valor quando as outras opções programáticas isolam a luta pelo socialismo e a tática escolhida é parcial e deriva de uma meta intermédia para a gestão do sistema.

A questão fundamental é a luta pelo socialismo e as exigências que ela tem. Assim, essa luta vai determinar, na prática, a orientação do movimento operário, o enquadramento político no qual os comunistas vão lutar contra a exploração capitalista, as exigências, os objetivos da luta, a construção da unidade da classe operária, a política de alianças, as formulações do partido sobre os problemas do povo.

Assim, o sistema de exploração, as forças do capital e os seus representantes políticos sentar-se-ão no banco dos réus. A solução alternativa a apontar não pode ser geral ou vaga como desenvolvimento", "democracia", "progresso social", tem de ser o desenvolvimento (socialista) que tem como critérios a satisfação das necessidades do povo sem capitalistas e lucro capitalista, com a passagem da riqueza produzida pelos trabalhadores para o seu controlo.

 
Só deste modo, num ambiente muito hostil, onde os capitalistas e o estado burguês usam os métodos mais modernos de manipulação, intimidação, repressão e o oportunismo está a realizar uma tentativa organizada de corromper a consciência do povo, se pode impulsionar o desenvolvimento da consciência da classe operária e das camadas populares, preparar e fazer amadurecer o fator subjetivo, de modo a que corresponda (na medida do possível) às necessidades da luta de classes. E esta deve dar um impulso à luta dos trabalhadores, para que eles decidam participar ativamente, mesmo nas condições mais difíceis, e entrar em confronto, ao lado do partido revolucionário, com os seus inimigos de classe.
 
Ao contrário, (se esta batalha não é travada) a classe operária, as camadas populares mais pobres, cujos interesses (objetivamente) estão em contradição direta com o capitalismo, vão aceitar o sistema de exploração como a única solução e serão encurralados em cada versão da gestão burguesa e desarmados.

Alguns camaradas dizem "a correlação de forças é negativa, não podemos falar sobre o derrube do sistema, sobre o socialismo". Respondemos de uma forma determinada. Esta abordagem está errada. É claro que a revolução socialista não está na ordem do dia, não estão criadas as condições prévias para uma situação revolucionária, que é um desenvolvimento objetivo e tem a ver com uma profunda crise política que se manifestará, algo que foi apontado por Lenine em "O colapso da 2ª Internacional". Ou seja, os de cima não podem governar mais como até aí e os de baixo já não toleram ser governados por eles.

Mas isso não significa que os comunistas vão ficar de braços cruzados e procurar substitutos para a gestão do sistema com a lógica do "mal menor".

 
É dever dos comunistas desenvolver um esforço combativo contínuo para organizar a classe operária, para alterar a correlação de forças no movimento operário e popular acima de tudo e não quedar-se apenas nos processos parlamentares. Uma mudança na correlação de forças (que não é imutável), com avanços qualitativos na natureza de classe, a única solução alternativa que irá preparar a classe trabalhadora para confrontos difíceis.

Em qualquer caso, a necessidade do socialismo não é determinada pela relação de forças. Isso não mudou na nossa época, que é a época da passagem do capitalismo para o socialismo, apesar das dolorosas mudanças contrarrevolucionárias. O que determina e determinou a natureza obsoleta dos sistemas socioeconómicos pré-capitalistas foi a maturação das pré-condições materiais para a construção de um novo e mais desenvolvido sistema socioeconómico ou a agudização das contradições que estão presentes no sistema antigo. É a agudização da contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção obsoletas que destrói ou impede o desenvolvimento daquelas.

Hoje, o fator determinante é a falta de correspondência entre o caráter social da produção e do trabalho e a propriedade privada dos meios de produção. E esta é a base que dá origem à necessidade de lutar pelo socialismo.

O KKE não subestima as dificuldades da luta de classes e os desenvolvimentos complexos que os PC têm de enfrentar a nível internacional. Seguimos com muito cuidado a evolução, por exemplo, na América Latina em particular, e de forma consistente manifestamos a nossa solidariedade com a luta dos Partidos Comunistas.

Estudamos os processos em desenvolvimento em vários países, o curso dos governos que foram eleitos com palavras de ordem sobre a solução dos problemas do povo e retiramos conclusões a partir desta experiência baseada na linha política que está a ser implementada, no seu caráter de classe e, claro, na posição em relação aos dois problemas básicos.

 A natureza do poder e a propriedade dos meios de produção.
 
A este respeito, constatamos a adulteração e a subestimação dessas duas questões fundamentais e a substituição do socialismo científico pela lógica do chamado "socialismo do século XXI", que é promovido pelas forças social-democratas e visa semear ilusão de um "capitalismo humanizado", desarmando com isso a luta da classe trabalhadora.

Os clássicos da nossa visão do mundo colocaram a necessidade de derrubar o capitalismo desde o "Manifesto Comunista".

Apresentaram-na mais tarde de forma ainda mais urgente, utilizando a experiência da primeira revolução proletária, na "Comuna de Paris".

O seguinte extrato de Engels do prefácio de 1888 para o texto de Marx "Sobre a questão do comércio livre" é elucidativo:

"…a miséria da grande massa do povo, como consequência da superprodução que engendra tanto superabundância periódica e repulsões acompanhadas de pânico, como uma estagnação crónica do comércio; a divisão da sociedade numa pequena classe de grandes capitalistas e numa grande classe praticamente de escravos assalariados hereditários, proletários, que, ao mesmo tempo que o seu número aumenta, são constantemente substituídos por novas máquinas que poupam trabalho humano, levam a sociedade a um beco sem saída, do qual não há como escapar a não ser por uma transformação completa de toda a estrutura económica que forma a sua base".

A grande Revolução Socialista de Outubro com o seu caráter socialista, no início do século XX, num país capitalista atrasado, com um campesinato muito numeroso com elementos pequeno-burgueses, respondeu, de uma forma prática, à questão dos revolucionários nesse período e refutou os apoiantes do oportunismo.

A derrota da revolução de 1905, a ofensiva czarista e a repressão foram decisivamente combatidas. O partido bolchevique, sob a orientação de Lenine, reagrupou-se, adquiriu a estratégia e tática necessárias, continuou a sua preparação, em condições desfavoráveis, para o derrube revolucionário não só da autocracia feudal, mas também do poder burguês.

Lenine e os bolcheviques não escolheram o mal menor, não se perderam na busca de soluções de gestão, não encararam como absoluta a correlação de forças negativa que, poucos meses antes da Revolução de Outubro, era negativa para os bolcheviques e favorável aos oportunistas nos sovietes e nas eleições para a Assembleia Constituinte.
 
Puseram a questão de forma absolutamente clara: "Nenhum apoio ao Governo Provisório" como apontou Lenine nas Teses de Abril de 1917. "A passagem do poder do Estado de uma classe para outra é o primeiro, o principal, o sinal básico de uma revolução, tanto no sentido estritamente científico como no sentido político e prático do termo."

Colocamos estas questões tendo em conta a discussão que está a ser realizada no movimento comunista sobre este período, reiterando que o elemento crucial é a mudança da classe que está no poder e isso só pode acontecer através da via revolucionária. É isso que tem sido demonstrado em todos os casos por muitos anos de experiência, que podem proteger-nos de ilusões parlamentaristas, tendo em conta que em nenhum país, em qualquer época da história, um regime de exploração foi derrubado através da via parlamentar.

As obras clássicas apontavam o derrube do capitalismo e a necessidade do socialismo no final do século XIX e no início do século XX. Hoje, tendo amadurecido as condições objetivas num grau sem precedentes, não temos o direito de recuar desta posição.

Alguns camaradas dizem: "as condições de cada país são diferentes". É claro que a lei do desenvolvimento desigual leva a diferenças no nível de desenvolvimento capitalista, pode haver diferenças na estrutura social de cada sociedade capitalista, diferentes níveis de maturidade da consciência da classe operária, diferenças na correlação de forças. Os partidos comunistas têm e devem ter em consideração estes factos quando elaboram a sua estratégia e tática e a sua política de alianças. No entanto, há vários princípios gerais, princípios fundamentais que, uma vez violados, levaram a desvios, incluindo o chamado "eurocomunismo" que, em nome das particularidades nacionais, violou e aboliu todos os princípios revolucionários. O desenvolvimento do capitalismo, a emergência global de monopólios é a questão principal que determina o facto de que o sistema está na sua última e derradeira fase, o imperialismo, e torna claro que amadureceram as condições materiais para a construção do novo sistema, o socialismo-comunismo.
 
As obras clássicas da nossa visão de mundo, da nossa ideologia, analisaram há muitos anos a essência do problema das particularidades nacionais. Portanto, a referência clássica de Engels no prefácio da edição americana de "A situação da classe operária na Inglaterra", em 1887, é muito útil. Engels salienta que "as causas que levaram à existência do abismo entre a classe operária e a classe capitalista são as mesmas, tanto nos Estados Unidos como na Europa, os meios de superar esse abismo são exatamente os mesmos em todos eles. Consequentemente, a plataforma do proletariado americano vai coincidir por um longo período, em relação aos fins últimos a atingir, com aquela que, após 60 anos de dissenções e discussões, se tornou a plataforma adotada pela grande massa do proletariado militante Europeu. Proclamará, como fim último, a conquista do poder político da classe operária, para alcançar a apropriação direta de todos os meios de produção – terra, caminhos-de-ferro, minas, máquinas, etc. – pela sociedade em geral, para serem usados em comum, por conta e em benefício de todos".  

O KKE estuda e retira lições da experiência internacional do movimento comunista e operário, mas também do seu próprio curso histórico. Os erros mais cruciais por que se paga um alto preço estão relacionados com o abandono da independência político-ideológica e organizativa do partido revolucionário em favor das formações de cooperação ou coligações. Há muitos exemplos no movimento comunista que levaram a um longo recuo para a assimilação ou mesmo para a dissolução dos Partidos Comunistas.

A política de alianças é de uma importância estratégica. É determinada pela linha estratégica básica do partido, e este é um elemento muito importante que exige coerência revolucionária. Todo o desvio desta tarefa em nome de manobras e ganhos eleitorais temporários atrasa o partido, arruína o que quer que o PC tenha alcançado anteriormente, coloca em risco a própria existência revolucionária do partido.

Destacamos este facto tendo em conta a discussão, o confronto sobre a posição do KKE nas recentes eleições legislativas na Grécia, em maio e junho de 2012.

Não nos vamos preocupar com as calúnias sobre o sectarismo. O KKE respondeu a isso com sua atividade diária, com as posições significativas que ganhou no movimento operário e popular, com o seu papel de liderança nos numerosos confrontos de classe, nas dezenas de greves, ocupações e manifestações. A resposta também pode ser encontrada no impacto das suas posições, nas suas atitudes e no seu papel na vida política do país, que ultrapassa largamente a sua influência nas eleições.

Mas devemos informar os nossos leitores de que as calúnias sobre o sectarismo são lançadas sobretudo pelos políticos inimigos de classe, incluindo os veículos do oportunismo, que não são capazes de colocar o KKE sob seu controlo e de confiná-lo ao caminho do "realismo", da submissão e da colaboração de classes. Essas forças teriam elogiado o KKE se este tivesse traído a classe operária, se tivesse traído o nosso povo e adotado uma linha de negação da luta pelo socialismo, se tivesse deixado de condenar a UE e abandonado a sua posição para a retirada da aliança predadora da UE e da NATO, se tivesse decidido participar num governo para gerir o sistema.

Por essa razão, temos chamado a atenção das forças que representam partidos comunistas e têm aberto uma frente contra o KKE num nível ideológico tão superficial – realmente muito superficial – que pensem duas vezes, porque vão ser expostas.

Não estamos a falar da crítica fundamentada, nem sobre o confronto político-ideológico com argumentos. Isso é admissível e necessário. Estamos a falar de ataques furtivos, de ataques que caluniam e distorcem as posições do KKE e usam as alegações dos nossos inimigos para estigmatizar a luta pelo derrube do capitalismo, pelo socialismo (porque é disso que se trata realmente) com a calúnia sobre o sectarismo.

Todos os partidos, todos os quadros devem assumir as suas responsabilidades.

 O nosso partido apelou às forças que apoiaram o SYRIZA nas eleições, seja abertamente com visitas à Grécia ou de forma encoberta, a contarem aos membros dos partidos comunistas e aos trabalhadores toda a verdade. Por exemplo:

Eles deveriam dizer-lhes que o denominador comum da linha política da ND, PASOK, SYRIZA e dos outros partidos, excetuando o KKE, é o seu apoio à UE, essa aliança imperialista de vários estados, que, como se provou, implementa uma estratégia antipopular e foi formada e desenvolvida de acordo com os interesses dos grupos monopolistas e das multinacionais.

Eles deveriam dizer-lhes
que uma parte da classe burguesa, fortes grupos financeiros que controlam jornais, canais de rádio e televisão apoiaram o SYRIZA de forma decisiva (isso também aconteceu com a rádio e canais de televisão estatais), enquanto o presidente dos industriais gregos propôs um governo de unidade nacional com a participação deste partido.

Eles deveriam dizer-lhes
que, durante o curso das eleições, e especialmente após as eleições de 6 de maio, o SYRIZA abandonou até mesmo a sua fraseologia propagandística sobre o cancelamento do memorando e do contrato de empréstimo, a nacionalização de empresas, etc., e ajustou o seu programa completamente às necessidades da gestão burguesa.

Eles deveriam dizer-lhes
que uma grande parte dos mais corruptos funcionários do PASOK nas autoridades regionais, municípios, sindicatos e aparelho do Estado desempenharam um papel decisivo na manipulação de forças populares e eleitores do PASOK a favor do SYRIZA.

Eles deveriam dizer-lhes
que há um plano em andamento para reagrupar a social-democracia, que tem provado ser muito útil para a classe burguesa, para corroer a consciência radical do povo em favor da "UE de sentido único", atacar e controlar o movimento operário.

Eles deveriam dizer-lhes
que, na véspera das eleições, durante a reunião com os embaixadores do G20, o SYRIZA deu garantias aos EUA e à NATO.

Vale a pena informar os membros, os amigos dos Partidos Comunistas sobre o desenvolvimento que teve lugar após as eleições.

O KKE apresentou no Parlamento um projeto de lei para a abolição dos acordos de empréstimo, os memorandos, as leis da aplicação e as medidas antipopulares como um todo. Esta proposta tem sido discutida no movimento operário e popular e tem um amplo apoio. O SYRIZA encontrou-se numa situação desconfortável uma vez que, na verdade, se juntou ao bloco das forças da "renegociação" com a UE em nome do "realismo" da submissão.

O ataque contra o KKE levado a cabo pelas forças oportunistas da direita e da esquerda não nos tomou de surpresa. É uma componente da luta político-ideológica. O KKE também não foi apanhado de surpresa com a posição do Partido da Esquerda Europeia (PEE). O PEE foi fundado no quadro da UE, do "Tratado de Maastricht" e da estratégia do capital. Aceitou os termos e condições ditados pela UE. Defende o centro imperialista europeu, favorece a colaboração de classes e o consenso social, foge da luta de classes como da peste.

Os comunistas e o povo trabalhador devem examinar as posições de cada partido e tirar as suas próprias conclusões.

O CC do KKE analisou com um elevado sentido de responsabilidade o resultado das eleições, que foi negativo para o nosso povo e o nosso partido. Organizou discussões de fundo tanto dentro do partido, como com os amigos e apoiantes. Discutimos a tática das eleições, as deficiências, os atrasos, as falhas. Reunimos observações muito úteis e elaborámos um plano de atividade para o próximo período.

O CC, os órgãos dirigentes das organizações, os membros e os amigos do KKE confirmaram que a posição do partido ao rejeitar a participação num governo de gestão burguesa com o SYRIZA ou outras forças foi correta e necessária.

As forças do partido e os amigos do partido apoiam a posição que sublinha que um partido revolucionário não pode ter duas caras, uma para a atividade diária e outra para as eleições; que não pode lutar diariamente para a concentração de forças e a conquista do poder e nas eleições estragar este trabalho e falar de um governo de gestão para satisfazer as expectativas das massas em relação a uma solução "fácil" mas sem saída.

As forças do partido e os amigos do partido apoiam a linha política seguida pelo KKE nas eleições. Esta linha política inclui a condenação da política antipopular dos contratos de empréstimo e dos memorandos, a retirada da UE e o cancelamento unilateral da dívida com o poder do povo. Esta posição constitui o núcleo da atividade do nosso Partido neste período, pois é a resposta para os desenvolvimentos atuais, é a resposta para as necessidades da luta de classes do ponto de vista dos interesses da classe operária e das camadas populares.

A principal questão que emergiu e constitui uma experiência significativa para o movimento comunista internacional é se um partido comunista participa ou não num governo de gestão burguesa, não importa se com o nome de "esquerda", "progressista", etc.
A escolha do KKE, a opção de rejeitar a participação num governo para gerir o capitalismo teve em conta que isso implicaria uma perda de votos. Isso acontece porque, em condições de um ataque muito bem organizado contra o KKE, em condições de uma profunda crise capitalista, de elevado desemprego, pobreza e insegurança, surge a lógica do "mal menor" em que as camadas populares procuram uma solução imediata que contribua para o alívio dos seus agudos problemas.
 

No entanto, o KKE manteve uma posição de princípio e gostaria de observar o seguinte.
 

 Primeiro que tudo, há necessidade de lutar contra a lógica do "mal menor". É um problema muito sério. O nosso partido também pagou um preço alto por isso em vários períodos até ao início da década de 1990, devido ao erro político em ter cooperado com os poderes burgueses de "centro", a fim de lidar com a política antipopular dos partidos liberais e da direita. A lógica do "mal menor" leva os partidos comunistas a perigosas políticas de apoio à social-democracia em nome da diminuição da força eleitoral da direita, aceitando responsabilidades na gestão da política antipopular dos partidos social-democratas. Isso leva os partidos comunistas a políticas perigosas que os fazem arrastar-se na cauda dos partidos burgueses em nome do combate contra as formações fascistas de extrema-direita. Esta experiência é muito negativa.
 
Na verdade, isto é a perpetuação de um ciclo vicioso que priva ou restringe a independência político-ideológica dos partidos comunistas, os desvia da elaboração e implementação de uma firme linha revolucionária que utiliza as eleições como uma forma de luta que não deve ser separada da luta de classes em geral, a luta para a concentração de forças, para a conquista do poder.

Este não é um problema novo, portanto, mas é de grande importância a observação leninista que nos protege de erros:

Temos de escolher entre o mal existente e a sua retificação mais pequena, porque a maioria das pessoas que está em geral insatisfeita com o mal existente é a favor desta "pequena" retificação. Depois de ter conseguido as pequenas coisas fica mais facilitada a nossa luta pelas coisas grandes. Repetimos: este é o argumento básico típico de todos os oportunistas de todo o mundo. A que conclusão leva inevitavelmente este argumento? À conclusão de que não precisamos de nenhum programa revolucionário, de nenhum partido revolucionário, nem de tática revolucionária. (Lenine, "De novo acerca de um gabinete saído da Duma".

Em segundo lugar
, o critério para julgar um partido não é se ele se chama a si mesmo de "esquerda", "direita" ou "centro", mas o seu programa, a sua posição política em relação ao sistema de exploração, o grande capital, as alianças imperialistas, a luta de classes e a sua perspetiva.

O KKE não pode manter uma cooperação política, programática ou eleitoral com partidos como o SYRIZA e a "Esquerda Democrática", com os quais não tem nada em comum em termos de programa.

Estes partidos apoiam o capitalismo, a UE, a organização imperialista interestadual, cujas estratégias, políticas e medidas estão de acordo com os interesses do grande capital e das multinacionais. Provou-se que eles se voltam contra o povo. Esta aliança predatória não pode mudar, não importa o que os vários grupos oportunistas na Grécia dizem ou mesmo o que diz o Partido da Esquerda Europeia que promove ilusões entre os trabalhadores e os encerra na lógica da "UE de sentido único". O SYRIZA e a "Esquerda Democrática" apoiam a coexistência pacífica do trabalho com  o capital e alimentam a ilusão de que pode haver um caminho de desenvolvimento que satisfaça o capital e o trabalho, que têm interesses contraditórios como se provou.

Estes partidos são hostis ao socialismo científico; injuriam o socialismo que foi construído na União Soviética e noutros países socialistas.

Muito rapidamente o partido "Esquerda Democrática", que surgiu de uma divisão do SYRIZA, provou aos amigos do estrangeiro que estavam errados ao classificaram-no como um potencial aliado do KKE. Depois de sacar os votos do povo, este partido cooperou após as eleições com a ND e o PASOK no governo de coligação dos três e participa na execução de graves políticas antipopulares.

A referência de Lenine no prefácio da tradução russa do panfleto de W. Liebknecht intitulado "Nenhum compromisso, nenhum acordo eleitoral", em 1906, é muito clara a respeito do papel destas entidades. Lenine refere, entre outras coisas:

"As atrocidades estúpidas e cruéis perpetradas pelo polícias políticos, as perseguições que a lei prevê contra os socialistas, a lei draconiana, a lei contra os partidos que defendem a revolução podem provocar sentimentos de desprezo e pena, mas é o inimigo que nos estende a mão para um acordo eleitoral e entra nas nossas fileiras como um amigo e irmão, este amigo é o único que devemos temer", pois, como Lenine acrescentou, "A consciência de classe é corrompida pelos falsos amigos dos operários…".

Na prática, a experiência acumulada com a política dos partidos e dos governos que participam na gestão burguesa, não importa se usam o título de "esquerda", ou "progressista", prova o seguinte:

Nenhum governo que gere o capitalismo, o poder dos monopólios e da propriedade privada dos meios de produção, nenhum governo que implemente um programa que se baseia nos lucros dos capitalistas, na competitividade, na produtividade e na rentabilidade dos grandes grupos empresariais pode seguir uma linha política a favor da classe operária e das camadas populares.

Não existe nenhum governo que possa controlar as leis do sistema e as suas contradições, ou adiar a eclosão da crise capitalista. Mais cedo ou mais tarde, as promessas sobre o "alívio" do povo mostrarão a sua falsidade, revelar-se-ão apenas como frases vazias, enquanto à atitude "de esperar para ver" e às expetativas de algo melhor se seguirá a desilusão do povo e o recuo do movimento operário.

Por isso, é de grande importância que o KKE tenha mantido uma posição de princípio ao rejeitar a lógica de participar num governo de gestão burguesa, ao mesmo tempo que prossegue a luta de classes contra as dificuldades, a intensificação da luta contra todos os problemas do povo, criando condições para a libertação das amarras da exploração.
  
Assim, avançamos colocando mais ênfase no reagrupamento do movimento operário, no fortalecimento do movimento de classe, da PAME, na melhoria da sua atividade e na orientação de classe dos sindicatos. Colocamos mais ênfase na política de alianças que elaborámos no 15º Congresso e nos seguintes para a construção da aliança sociopolítica, a construção da frente anti-imperialista e antimonopolista da luta, baseada na aliança da classe operária com os pequenos e médios agricultores, as camadas urbanas pequeno-burguesas, com a participação de mulheres e jovens. Continuamos o esforço para a formação das condições sociopolíticas que conduzam ao avanço da luta pelo poder do povo, à retirada da União Europeia e da NATO, ao cancelamento unilateral da dívida, à socialização dos meios de produção concentrados, ao desenvolvimento em favor do povo.

Está cientificamente comprovado, tanto pela teoria como pela prática, que somente a solução de dois problemas cruciais, o do poder e o da propriedade dos meios de produção, somente se a economia se desenvolver na base na planificação central, se pode abrir o caminho para a utilização das capacidades produtivas do país, o desenvolvimento da indústria, da produção agrícola e dos demais setores da economia para a satisfação das necessidades do povo.

Só nesse caso é possível resolver o problema do desemprego, garantir a gratuitidade de serviços sociais de melhor qualidade, garantir uma alimentação saudável ao povo, a proteção do ambiente, a abolição da base das crises capitalistas e das rivalidades interimperialistas. Esta é a posição do KKE e é esta a posição que lhe dá força para a luta de todos os dias.
 
Fonte: Pelo Socialismo em www.pelosocialismo.net
 
 
 
 
 

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