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sexta-feira, 29 de março de 2013

A globalização da fome e da pobreza

A globalização da fome e da pobreza
por Jorge Messias


«O latifúndio no Brasil renovou-se e, hoje, administra um moderno sistema chamado agronegócio que controla terras e produção. Dados recolhidos no censo agropecuário de 2006 indicavam que o produto de 3,35% dessas unidades (todas acima dos 2500 hectares de extensão) corresponde a 61,57% do total obtido. No outro extremo, as herdades com menos de 100 hectares ocupavam 55,53% das terras aráveis» (Inácio Werner, quadro técnico católico, coordenador de projectos do Centro Burnier Justiça e Fé).

«A experiência do agronegócio brasileiro testemunha um novo colonialismo transnacional. Há grupos dominantes brasileiros em todos os países latino-americanos... Por exemplo, na Argentina, desde 2001 que um sem número de operações financeiras, fusões e aquisições, desloca 'activos' da burguesia nacional para a burguesia brasileira. Pode citar-se muitos exemplos: a aquisição da Pecom Energia pela Petrobrás; a compra da Quimes Alimentos e Bebidas pela Ambev; a absorção da Loma Negra (cimenteira produtora de metade do cimento argentino) pela Camargo Correia, etc., etc. Alguns exemplos de negócios, de entre centenas de outros deste tipo...» (Frederico Dala Firmino, «O novo colonialismo transnacional, 2010»).

«O Brasil bate todos os recordes na produção e exportação de alimentos. Mas o Brasil é hoje uma colónia americana e uma plataforma de exportação das transnacionais. A lição histórica mais importante que devemos retirar, do ponto de vista económico, político, social e cultural, é que se torna urgente romper, de vez, com o sistema capitalista e imperialista!» (Illaese/Goggle).


Digamos claramente: acabou-se a comédia do papa velho que dá lugar a um novo papa… Um folclore já visto. Falemos em... coisas sérias!

São conhecidas as dificuldades em que o capitalismo mundial se enredou. Um dos grandes problemas que se coloca aos banqueiros (se não o principal) consiste em constatarem que no sistema capitalista o dinheiro abunda mas a máquina da economia não produz. A continuar-se nesta situação, a derrocada final verificar-se-á dentro de muito pouco tempo. Por isso, um pouco por toda a parte, os novos e velhos ricos tentam imaginar formas para contornarem as dificuldades.

É o caso dos países da América do Sul, nomeadamente do Brasil, o seu Estado com maior superfície, o mais povoado, o mais rico em diversidade de matérias-primas; onde o fosso entre pobres e ricos é mais profundo, o sentimento religioso mais acentuado e a noção de unidade nacional e de pátria continuam bem vivas. Por outro lado, nunca sucessivas tiranias, a corrupção generalizada ou a vizinhança avassaladora do gigante norte-americano foram capazes de asfixiar o sonho popular de um futuro socialista. O Brasil é um espelho de contradições mas reflecte também as realidades da América Latina.

É num quadro tão mal esboçado aqui, mas real, que a internacional capitalista procura fazer avançar a sua tão desacreditada globalização. A fórmula Europa está esgotada. É preciso agora, para evitar o pior, reeditar o colonialismo com uma encadernação atraente. Afinal, a crescente riqueza do Estado brasileiro apenas se sustenta de uma parte mínima das potencialidades do país. O que se impõe, de imediato, é aumentar a exploração dos trabalhadores, acelerar o processo de concentração de capitais, vender ao estrangeiro, ao desbarato, «cortar» nas funções sociais do Estado e ter mão-de-ferro, revestida de veludo, no partido comunista e nos sindicatos.

Num panorama tão rígido é, sem dúvida, necessário recorrer às formações mais qualificadas da Igreja católica. Onde há luta de classes impõe-se que o capital se apoie na religião, o grande ópio do povo. Até no discurso que serve para enganar as massas e nas falsas promessas demagógicas, encontramos o maquiavelismo populista do Vaticano e da sua Companhia de Jesus. Defendem, como se sabe, que a pobreza é um mal necessário querido por Deus e que bem-aventurados são os pobres. Anunciam depois que num Mundo novo há uma Nova Igreja, sem se deterem a explicar que mistério é esse da Igreja dos pobres se colocar ao serviço dos ricos no poder.

Pelo que pudemos entender pelas informações que entretanto chegam, o agronegócio latino-americano é uma espécie de manual da globalização aplicado à economia neoliberal. Indirectamente, recomenda normas quanto à fome, ao desemprego, à pobreza, à nova escravidão, etc.

Um convite a uma nova leitura.

 
 
Fonte: Avante em www.avante.pt
 
 

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