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terça-feira, 7 de junho de 2011

Frente contra as guerras e intervenções imperialistas

Frente contra as guerras e intervenções imperialistas

... sabemos que as guerras – que são a continuação da política por meios violentos – são inevitáveis enquanto a sociedade estiver dividida em classes, enquanto existir a exploração do homem pelo homem, enquanto prevalecer o imperialismo. A substituição da guerra pela paz, a favor dos povos, não é possível sem a substituição do capitalismo pelo socialismo, porque a paz imperialista prepara novas guerras imperialistas.


 



Entrevista com Elisseos Vagenas, membro do CC e responsável pela Secção de Relações Internacionais do CC do KKE, sobre os desenvolvimentos da situação na Síria e na região em geral.


Conversámos com Elisseos Vagenas, membro do CC do KKE e responsável pela sua Secção de Relações Internacionais, sobre os velozes acontecimentos que ocorrem na Síria e na região em geral e a avaliação que o Partido faz.


- Recentemente, no dia 20 de Março, o CC do KKE publicou a sua Resolução sobre os desenvolvimentos na nossa região. Contudo, os acontecimentos desenvolvem-se com grande rapidez. O que mudou nestas semanas?


- Claro que os acontecimentos se desenvolvem rapidamente! No entanto, as conclusões básicas do CC do KKE continuam válidas. Na nossa região (Balcãs, Mediterrâneo Oriental, Médio Oriente, Norte de África, Cáucaso) estão a desenvolver-se acontecimentos graves e perigosos, que se caracterizam pela intensidade das contradições entre as potências imperialistas, numa região que tem grandes recursos energéticos e constitui um “ponto de passagem” de matérias-primas da Ásia Central, do Mar Cáspio e do Médio Oriente, tanto para o Ocidente como para as potências da Ásia (China, Índia, etc.), que emergem com rapidez.


Os mais poderosos monopólios, as uniões imperialistas e as potências imperialistas emergentes envolveram-se numa rede de luta e contradições. No quadro do sistema imperialista, as classes burguesas da região procuram “eixos” de alianças e procedem a alianças e compromissos de modo a beneficiar da luta pelos recursos naturais e pela partilha dos mercados.


Ao mesmo tempo, vemos que a ONU, a NATO, os corpos policiais e militares da UE, as bases militares e as frotas navais são usados nessa luta, sob vários pretextos.


Desde que se publicou a Resolução do CC do nosso Partido verificaram-se vários acontecimentos, dos quais os mais importantes foram a aberta intervenção imperialista na Líbia, com a decisão do Conselho de Segurança da ONU, e a direta intervenção militar imperialista das forças na ONU e da França na Costa do Marfim, assim como os acontecimentos sangrentos no Iémen e na Síria. Os acontecimentos desenvolvem-se rapidamente, assumindo aspectos diferentes em muitos países e regiões. Mas colocam continuamente, de uma forma cada vez mais persistente, a questão da relação entre o capitalismo, a crise e a guerra. O que temos registrado teoricamente e com base na experiência histórica está a ser confirmado pelos recentes acontecimentos.


As manifestações na Síria têm as suas raízes no próprio país. Nos problemas económicos, sociais e políticos que a classe operária e os outros estratos populares estão a viver. Todavia, é óbvio que estão a ser usados pelas forças burguesas e os centros imperialistas.


- Os meios de comunicação gregos e internacionais apresentaram os acontecimentos na Síria como outro “levantamento” popular, com reivindicações democráticas, afogado em sangue pelas autoridades. Que posição tem o KKE face a estas mobilizações, sobretudo tendo em conta a solidariedade que manifestou para com as manifestações no Egipto e na Tunísia?


- Seguimos com grande atenção os desenvolvimentos na região e não a partir de uma fonte apenas. O KKE está acostumado a tomar posições públicas de forma responsável e a informar cuidadosamente os trabalhadores do nosso país sobre os desenvolvimentos a nível nacional e internacional.


Examinamos as mobilizações em que participam forças populares a partir dos objectivos que são colocados pelas forças sociais e políticas que actuam no país, assim como pelas forças externas implicadas nesta mobilização. As consignas utilizadas nem sempre deixam isso claro. Cabe lembrar que no passado recente tivemos a experiência de manifestações operárias e populares que, em nome da “democracia” e da “liberdade”, assumiram uma posição reaccionária e contrarrevolucionária – por exemplo, na Polónia, no período do “Solidariedade”.


Isso é ainda mais verdade hoje, na medida em que há muitos factos que mostram a distorção de acontecimentos, em larga escala, por parte dos meios de comunicação burgueses internacionais, orquestrados pelo famoso canal Al Jazeera, com sede no Qatar e que se está a tornar o “cavalo de Tróia” electrónico da classe burguesa daquela região, que apoia a modernização burguesa, a nível político e económico, nos países do Norte de África e do Médio Oriente, assim como os planos imperialistas para o “Grande Médio Oriente”.


- Que plano é este? Que objectivos serve?


- Como a Resolução do CC assinalou, os principais objectivos dos imperialistas -e não os pretextos (como a “democracia” e a “não proliferação das armas nucleares”) –, promovidos por esses planos, são:


A modernização burguesa dos regimes na região, tanto na base económica como na superstrutura jurídico-política para garantir, na medida do possível, uma base estável para a expansão dos grupos monopolistas nos mercados da região e o reforço do seu papel a nível internacional.


A garantia do seu acesso aos recursos de energia da região e a novas jazidas no Mediterrâneo oriental.


O controle de uma grande área que é um “ponto de passagem” de comércio e transportes.

É óbvio que cada potência imperialista tem os seus objectivos individuais. Por isso, os esforços dos EUA encontram, sem dúvida, e continuarão a encontrar a oposição de potências rivais (sobretudo dos principais países da UE, da China e da Rússia).


Desde que ponham em perigo os seus planos de penetração na região, para que os seus monopólios daí saquem idênticos benefícios. É no quadro destes antagonismos que devemos compreender a partilha do Sudão, que está a avançar, assim como a intervenção estrangeira na Costa do Marfim, a intervenção militar imperialista na Líbia e o plano para a sua possível partilha.


Estes desenvolvimentos podem levar a um cenário geral de desestabilização de uma grande região, que criará problemas de fornecimento de energia à UE – rival dos Estados Unidos –, assim como de penetração de capitais e mercadorias chinesas na UE e África.


O imperialismo, como fase superior do capitalismo, torna-se mais perigoso nas condições de crise capitalista. Além disso, pode servir-se da situação criada para mitigar as consequências da crise capitalista global e canalizar capital para guerras na região.


Os desenvolvimentos na Síria estão ligados a estes planos. O que transparece das declarações e posições oficiais das potências imperialistas, dos EUA e da UE, assim como do envolvimento de potências regionais, como a Turquia e o Irão.


- Quer dizer que os acontecimentos na Síria são fabricados de fora do país? Que são um “instrumento” para o derrube do governo e do Presidente Assad?


- É claro que os acontecimentos que se desenvolvem na Síria têm as suas raízes no interior do país, nos problemas económicos, sociais e políticos que a classe operária e os outros sectores populares sofrem. Estes problemas têm vindo a agudizar-se nos últimos anos, devido às políticas de privatizações, de corte de direitos e rendimentos dos operários e das camadas populares, políticas promovidas a favor da burguesia nacional. O KKE apoia as mobilizações populares que lutam pela resolução dos problemas do povo e o direito dos povos a lutar, como a longa história do nosso partido demonstra. Neste sentido, o nosso Partido procura estudar a fundo os desenvolvimentos complexos como são os de hoje.


Portanto, é preciso assinalar que hoje em dia muitos elementos indiciam que se está a pretender fazer uma intervenção imperialista nos assuntos internos da Síria a partir do estrangeiro, assim como a manipulação dos trabalhadores dos outros países, com informação falsa sobre os acontecimentos na Síria. Por exemplo, muitos dos assim chamados “vídeos/documentários” que nos mostram são filmados noutros países ou noutras situações. Esta linha de manipulação da opinião pública levou, recentemente, a demissões de jornalistas da Al Jazeera.


Todos os dias surgem dados que revelam intervenções de países vizinhos (Arábia Saudita, Turquia); dados que mostram o esforço de agudização e exploração de conflitos religiosos e que falam de grupos que se armam e se treinam no estrangeiro.
Há que ter tudo isto em conta.


Claro que os EUA, a UE e Israel estão interessados na desestabilização e no enfraquecimento de um regime burguês que faz alusões anti-imperialistas e é aliado de forças anti-imperialistas na Palestina, no Líbano, etc. É preciso não esquecer que hoje em dia territórios da Síria estão sob ocupação estrangeira (israelita). O enfraquecimento deste regime, ou mesmo o seu derrube, pode abrir o apetite dos planos imperialistas de ataque ao Irão, utilizando como pretexto o seu programa nuclear. Pode mesmo levar a uma nova desintegração de estados na região e a um efeito dominó de desestabilização e matanças, algo que trará novas guerras e intervenções imperialistas.


- No passado, a União Soviética manteve relações estreitas com a Síria e o partido governamental Baaz. Como avalia esta posição e como tal facto influencia a actual posição do KKE face à Síria?


- Depois da II Guerra Mundial, graças à influência da URSS, devido à sua contribuição na vitória Antifascista, à superioridade do socialismo na reconstrução do país, à formação de democracias populares na Europa de Leste e ao colapso do colonialismo, houve desenvolvimentos positivos que contribuíram para mudança da correlação de forças, a nível mundial. Naturalmente, o sistema imperialista internacional continuou poderoso, apesar do fortalecimento indubitável das forças do socialismo. Justamente depois do fim da guerra, o imperialismo, sob a hegemonia dos EUA, começou a Guerra-Fria e elaborou uma estratégia para minar o sistema socialista e o reagrupamento das suas forças. Desenvolveu-se uma rivalidade entre os dois sistemas, a nível mundial.


Naquele período, numa série de países, como a Síria, a questão da independência nacional e a união em torno deste objetivo eram as questões cruciais. Sem dúvida que a aquisição da independência nacional por parte das colónias constituiu uma primeira e básica condição para a superação do atraso no desenvolvimento, que predominava em todos os setores da vida social. A URSS e os restantes estados socialistas elaboraram uma política de cooperação, económica e de outras formas, e de apoio a novos regimes – de entre outros, ao da Síria –, para que não fossem assimilados pelo mercado capitalista internacional e pelas uniões imperialistas, e também para fortalecer, nas frentes governamentais, as forças que estavam a favor de uma orientação socialista.


Este esforço da União Soviética para desenvolver relações económicas e até alianças com alguns estados capitalistas, contra as mais poderosas potências imperialistas, foi desejável e compreensível, já que debilitava a frente unida dos imperialistas, dispersava-lhes forças – ainda que temporariamente – e utilizava as contradições no campo imperialista. O problema é que esta política conjuntural (estatal) da URSS, que em certos países se expressava a um nível económico, diplomático, ou outro, foi elevada a princípio e transformou-se numa teoria que se apresentava e da qual se falava como a “via não capitalista de desenvolvimento”, o que criou confusão no movimento revolucionário internacional. Não existe, como a prática provou, uma “terceira via para o socialismo”.


É claro que o nosso Partido procura tirar conclusões da história do movimento comunista internacional. Assim, a posição actual do KKE – por exemplo, contra a guerra imperialista na Líbia –, não significa, seja em que caso for, aprovação do regime de Khadafi, com o qual, de resto, nunca teve quaisquer relações. Tampouco a nossa oposição à possível intervenção imperialista na Síria, ou ao possível ataque imperialista contra o Irão, significa que renunciemos à posição crítica que o nosso Partido mantém para com os regimes burgueses destes países.


Com esta orientação, os comunistas, centram a sua atenção no principal, que é, neste momento, a guerra imperialista e intervenções similares na região, com a participação do nosso país.


- Em que medida a participação dos partidos comunistas sírios na “Frente Patriótica” do partido governamental Baaz influencia a posição do KKE?


- O KKE tem em linha de conta as posições e as apreciações dos partidos comunistas nos outros países. Apreciamos a posição anti-imperialista firme dos comunistas na Síria, assim como a sua contribuição no esforço de reconstrução do movimento comunista internacional. Recentemente, pouco antes de rebentarem estes específicos acontecimentos, Amar Bagdash, Secretário-geral do CC do PC sírio, tinha visitado o nosso país, a convite do KKE. Então, tivemos oportunidade de trocar pontos de vista sobre os desenvolvimentos na nossa região. Conhecemos e apreciamos a acção dos comunistas na Síria contra a deterioração das relações de trabalho, a “liberalização” dos despedimentos, pelo estabelecimento do direito à greve, contra os planos de privatização da terra e contra a lei para a privatização das instituições de utilidade pública e, em geral, contra a integração da Síria nas organizações imperialistas.

Temos, naturalmente, em consideração as suas posições. Contudo, o KKE procura sempre efectuar a sua avaliação sobre os acontecimentos, tendo também em conta a sua própria experiência e apreciações.


Por exemplo, a experiência histórica do nosso partido e do movimento comunista internacional levou-nos a considerar que é um erro dividir a burguesia em “especuladora” e “patriótica” e procurar alianças com a segunda. Além disso, esclarecemos que o poder ou está nas mãos da classe burguesa ou nas mãos da classe operária. Não pode haver um poder intermédio!


Assim, procedemos à abordagem do regime burguês do Baaz (Partido Socialista Árabe), na Síria – que, pelas suas próprias razões teve um duro e longo conflito armado com o estado imperialista de Israel e, portanto, com os EUA –, assim como de outros projectos imperialistas na região, com base na análise de classe e sem idealizações.


Apoiamos a exigência da retirada imediata de Israel dos territórios sírios e de todos os territórios árabes ocupados pelo exército israelita, com o apoio dos EUA e de outras forças imperialistas. Além disso, apoiamos plenamente o direito de cada povo, e desde logo do povo sírio, a determinar o seu próprio futuro sem intervenções imperialistas estrangeiras, sejam de carácter militar, económico, ou de manipulação ideológica e política.


- Qual é a proposta do KKE para o povo grego e povos da região?


- O KKE dirige-se à classe operária e aos povos da região e sublinha que os seus interesses se identificam com a luta conjunta anti-imperialista e antimonopolista, pela desvinculação das organizações imperialistas, a abolição das bases militares e das armas nucleares estrangeiras, o regresso de forças militares das missões imperialistas e a integração desta luta na luta pelo poder.


Com base nisto, os povos podem viver em paz, criativamente e utilizar os recursos naturais, que virão a pertencer ao povo, para seu próprio benefício, para satisfação das suas próprias necessidades.


Condenamos as guerras imperialistas, injustas, e lutamos para que o nosso país se desvincule delas! Contudo, sabemos que as guerras – que são a continuação da política por meios violentos – são inevitáveis enquanto a sociedade estiver dividida em classes, enquanto existir a exploração do homem pelo homem, enquanto prevalecer o imperialismo.


A substituição da guerra pela paz, a favor dos povos, não é possível sem a substituição do capitalismo pelo socialismo, porque a paz imperialista prepara novas guerras imperialistas.



Pelo Socialismo !


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